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História

''O que eu gosto muito é de ajudar crianças com dificuldades.''

História de: Soraia Popolili
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/01/2021

Sinopse

Soraia começa falando de sua origem, descrevendo a função dos pais, onde nasceram e falando um pouco dos avós. Ela conta que foi filha única até os 12 anos de idade que quando os irmãos nasceram acabou por virar uma ''irmã-mãe''. Ela teve uma infância um pouco solitária mas tranquila, preenchia sua solidão com gatos que ela resgatava da rua. Ela conta das brincadeiras dentro de casa e das datas comemorativas como páscoa e natal. Soraia relata um fato triste que a marcou na infância, quando um colega foi atropelado por um ônibus no desfile do 7 de Setembro, na época ela tinha 7 anos. Descreve com foi sua entrada na escola e o quanto isso ela empolgou, ela se lembra da sua matéria favorita que era artes e diz que é uma artista plástica frustrada. Ela viveu momentos muito felizes durante a época da escola e e relata isso com foco nas apresentações de teatro e festas que ocorriam nela. Soraia tem amigos que conheceu na época da escola e que mantem até hoje, uma delas inclusive é sua vizinha. Ela conta das aulas de inglês e que na época tinha pouca importância saber um novo idioma. Soraia descreve seu interesse pela área da educação, ele nasceu na época do colégio e a levou a trabalhar na área. Ela descreve o momento em que sua mãe adotou seu irmão, o processo de adoção foi muito demorado então ele chegou quando ela ja tinha 12 anos, 2 anos depois chegou a sua irmã. Ela saia pouco na infância e na adolescência já que o pai era controlador em relação a isso. Já crescida fez faculdade de Pedagogia na Faculdade Pinheirense, trancou e em seguida fez Artes Plásticas no Mackenzie. Ela relata de quando começou a trabalhar em escolas e que mudou de função aos longo dos anos. Soraia montou uma ONG para ajudar crianças carentes e que mesmo com dificuldades contou com ajuda de amigos e doações para mante-la. Após isso ela entrou para a PlayPen, realizando um sonho que tinha a anos, sendo que seu primeiro dia na escola foi um desafio por ela não conhecer as crianças e as famílias de lá. Ela trabalhou inicialmente na área de recepcionista e conta que os pais das crianças ligavam inúmeras vezes preocupados. Após isso ela passou para a secretaria, fato esse que aumentou o vinculo com os pais dos alunos. Sua maior dificuldade na escola foi a de se dedicar ao inglês. Ela conta do período do H1N1, que modificou todo o calendário da escola. Ela relata dos congressos bilíngues que participou graças a escola.Conta das perspectivas de futuro, espera poder trabalhar na PlayPen e poder ajudar crianças carentes ao mesmo tempo. Fala também da necessidade da educação ser um direito de todos. Ela relata o quando a escola permitiu seu crescimento profissional, agradece e encerra a entrevista.

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História completa

 

 

P/1 - Primeiro eu gostaria que você falasse o seu nome pra gente, onde nasceu e a data do nascimento.

 

R – Meu nome é Soraia Popolili, eu nasci em São Paulo em junho, 23 de junho de 1968, São Paulo capital mesmo. Numa maternidade na Avenida Brigadeiro Luis Antônio.

 

P/1 – E o nome dos seus pais?

 

R – É João e Valquíria.

 

P/1 – E qual é a atividade profissional deles, o que é que eles fazem?

 

R – Meu pai é aposentado atualmente, mas ele foi mecânico durante toda carreira e minha mãe trabalhou quando solteira como secretária e depois só em casa.

 

P/1 – E de onde eles são, Soraya?

 

R – São Paulo.

 

P/1 – De que região de São Paulo?

 

R – Capital mesmo.

 

P/1 – Algum bairro específico?

 

R – Brás e Indianópolis.

 

P/1 – Os dois nasceram no Brás?

 

R – Isso.

 

P/1 – Você sabe se eles moraram em outra região de São Paulo?

 

R – Não, nasceram na região do Brás; a minha depois de um tempo foi pra região de Indianópolis e meu pai depois já foi pra região aqui do Butantã.

 

P/1 – E os seus avós?

 

R – Meus avós são nascidos... a minha avó por parte de mãe é nascida no Brasil com descendência espanhola e meu avô é nascido, por parte de mãe, meu avô paterno, nascido na Argentina, em Rosário de Santa Fé. E meus avôs por parte de pai nasceram no interior de São Paulo, Piracicaba, e têm descendência de italianos, os meus bisavós nasceram na Itália.

 

P/2 – Quais os nomes deles?

 

R – Os meus avôs paternos, Maria Teresa e Carmo; os maternos, Odete e Carmelo.

 

P/1 – E o seu avó que veio da Argentina, você sabe a história dele? Por que é que ele veio?

 

R – Foi uma opção da família vir pro Brasil. Se instalaram na região de... aqui em São Paulo. A mudança, exatamente o motivo, eu acho que não teve um fato marcante, acho que foi uma decisão de vir mesmo pra um outro país, a ideia de conhecer um novo país e começar a partir daí. Eles já se instalaram no Brás e têm familiares que ainda moram no Brás.

 

P/2 – O que é que o seu avô fazia?

 

R – O meu avô trabalhava com frigorífico.

 

P/2 – Quando ele veio pra cá continuou trabalhando?

 

R – Continuou trabalhando.

 

P/2 – Nessa área?

 

R – Isso.

 

P/1 – E da sua família, moravam todos pelo Brás? Você passou a sua infância lá?

 

R – Não, não. A infância dos meus pais. Eu já nasci na região, eu nasci na... morei sempre na região Vila Sônia, em Ferreira, aqui em Butantã, já pertencia ao Butantã. Sempre ali, onde estou até hoje. Só acaba assim, muda de duas, três ruas, ou uma extensão do bairro mas sempre a mesma região, sempre Butantã.

 

P/1 – Conta um pouquinho da sua infância pra gente.

 

R – Ah, foi bem tranquila, eu assim, até os meus 12 anos eu fui filha única...

 

P/2 – Até os 12?

 

R – Até os 12 (risos). Eu sou assim meio irmã-mãe, porque a chegada deles foi bem depois. Mas a minha infância foi tranquila, um pouco solitária porque criança... naquela época você não tinha brincadeiras de rua, era mais em casa, com os vizinhos, depois escola, os amigos de escola. Uma infância bem gostosa, sempre rodeada de animais que é a minha paixão (risos), eu tenho uma, tinha, né? Uma gata que eu ganhei aos quatro anos e ficou comigo até os 18 e sempre, sempre... Meia dúzia de gatos era pouco pra mim e faço isso até hoje. Podo um pouco porque moro em apartamento, se for pegar todos os bichinhos pela rua... Mas mesmo assim estou com três gatos (risos).

 

P/2 – Onde você morou quando era criança?

 

R – Vila Sônia. Eu nasci na Vila Sônia, No Bairro da Vila Sônia, bem próximo onde vai ser agora a linha quatro do metrô no terminal, onde é o terminal da linha quatro é onde fica a rua que eu morei durante um bom tempo da minha vida. E depois me mudei pro Bairro Ferreira.

 

P/1 – E você tem lembranças dessa sua primeira casa? Como é que era a casa?

 

R – Ah, era gostosa. Tinha um quintal maravilhosos, bem espaçoso que dava pra andar de bicicleta, um jardim muito gostoso, acho que por isso eu gosto tanto de bichinhos e de jardim, plantas, adoro! Era uma casinha bem confortável e assim, se a gente for ver, bem ao modo antigo. Todos os... Sala grande, cozinha grande, tudo grande. Não muito em número (?) de três, dois... não. Eram dois quatros mas você via que era divisão de casa bem antiga.

 

P/1 – Por quê? Como é que era a divisão?

 

R – Se você for ver casas mais novas, mais recentes, é tudo bem dividido, menor, assim, pequeno, não pequenininho, mas a maior parte das casas, tirando as casas muito luxuosas (risos). A gent e vê pelos apartamentos, os apartamentos antigos eram bem espaçosos, a mesma coisa a casa. A sala é grande, daí se tem a cozinha imensa que se fosse ver dava pra dividir, porque se fosse uma casa construída hoje seriam mais dois quatros, vai? Assim mais ou menos. E o espaço de quintal que hoje em dia ocupa todo o espaço e deixa um pouquinho de quintal. Você tinha uma casa mais ampla, mais gostosa.

 

P/1 – E você se lembra do bairro, Soraia? Uma vendinha, como é que era a estrutura do bairro?

 

R – Ah, tinha. Tinha mercadinho de bairro pequeno que todo mundo se conhecia, você chegava no supermercado era o tempo todo “Oi!” e contava, cumprimentava, era sempre familiar, tudo muito familiar.  A venda da esquina, o vizinho que era o dono, tinha vendinha, tinha... que hoje em dia a chama de sacolão, mas na época era quitanda, tinha quitanda, era muito... tudo assim... porque hoje você vai ao supermercado grande onde você encontra tudo. Naquela época não, você descia a rua, já tinha o mercado, depois na outra esquina já a quitanda, a padaria, tudo com pessoas bem conhecidas. O dono da padaria, os filhos estudavam comigo. Eles eram meus colegas você ia pra padaria e já era todo mundo amigo, é interessante.

 

P/1 – Soraia, você falou que não tinha muito essa coisa de brincar na rua, você brincava mias dentro de casa. Quais eram as brincadeiras? Do que é que vocês brincavam?

 

R – Ah, de boneca, de fazer comidinha e professora. Desde pequena aquela fissura, era o dia inteiro na lousinha. Punha as bonecas ... de aluna, quando ia o vizinho ou a vizinha, ou os amigos de escola ajudavam na brincadeira, mas se não eram horas a fio na lousinha escrevendo e ensinando as bonecas, todas sentadinha, era mais assim, professora e acaba estendendo pras bonecas que eram o público alvo (risos).

 

P/2 – Você se lembra o que ensinava, o que escrevia na lousinha?

 

R – Ah, na época ficava: “Ba, be, bi, bo, bu”, porque a alfabetização era assim. Era letra, desenho, sempre gostei muito de desenhar, então desenho, letrinha tipo história em quadrinhos, começava a desenhar e contar, dar exemplos e isso era um problema. Contava como é que era dois mais dois e assim ia. Tanto marcou bastante essa maneira de brincar, que até pra estudar eu sempre fia, eu sempre gostei de fazer resumo, eu tinha sempre aquela necessidade de escrever em algum lugar, grande, todas as fórmulas, tudo e ficar explicando em voz alta pra mim mesma pra gravar. Sempre foi minha maneira de estudar. Isso até a faculdade sempre foi assim. Tive que escrever, pegava a folha de A3 grande, falava e já decorava tudo rapidinho (risos).

 

P/1 – E as festas? Quais são as festas mais significativas, que você mais lembra? Fala um pouquinho delas pra gente.

 

R – Olha, assim, dos três, quatro, cinco anos esperava Natal e Páscoa. Acreditei em Papai Noel até meus oito anos, eu sozinha, não tinha ninguém pra ir contar que não. Quando eu era filha única e a minha mãe, do lado da minha mãe eu era a única neta, o Papai Noel foi longo, eu tinha aquela expectativa de chegar o dia de Natal, toda família, geralmente as festas aconteciam na minha casa, a festa de Natal, Páscoa, aniversários...

 

P/2 – Como era a festa de Natal?

 

R – Aquela preparação. Tinha muita comida, a montagem da árvore, nós sempre montamos a árvore dia oito de dezembro, tem a tradição de montar no dia oito. A preparação já começava aí. Presépio, árvore e depois o que ia fazer pra ceia de Natal, depois pro almoço, eu ficava naquela expectativa. Lista de presentes, cartinha pro Papai Noel, era bem gostoso. Tanto é que eu fiz isso pro meu sobrinho também, a gente fazia pegadinha de coelhinho, cartinha, levar cartinha pro correio, sempre é uma tradição.

 

P/1 – E se você pudesse contar pra gente um fato muito marcante da sua infância, ou alguns, não tem problema se for mais de um.

 

R – O fato marcante na minha infância, que assim, eu posso dizer uma coisa que quando eu falo de infância eu me lembro foi logo depois que entrei na escola, eu devia ter uns seis, sete anos e a escola, o dia 7 de Setembro era comemorado com desfiles na rua. Tinha ensaios, um mês inteiro ensaiando como é que ia ser o desfile e tudo. E nesse ano nós fizemos todos os ensaios, os preparativos e começamos o desfile ao redor da escola, pelas ruas. Do bairro. E um dos colegas, era um fato assim, marcante porque ele é bem triste. A escola fica de um lado da avenida, da avenida você vê a escola e ele desceu do ônibus com a mãe e se desesperou de ver o desfile acontecer, então ele atravessou. Ele morreu atropelado, o desfile parou na hora. Assim, foi fato que quando você fala assim, o que te marcou foi aquela festa que você vê na hora parar e você sem entender o que aconteceu. Pequena...

 

P/1 – Quantos anos você tinha?

 

R – Sete anos.

 

P/1 – E você se lembra da cena?

 

R – Lembro. Muito triste. Foi assim, muito... porque ficava próximo da avenida, na hora que aconteceu logo todo mundo... e aquela história que na época todo mundo conhecia todo mundo. Aconteceu na avenida, o comércio da avenida já comunicou a escola, foi um fato que marcou muito. E a família era uma família bem simples, a mãe ficou... os irmãos dele continuaram na escola, é uma coisa que você leva ao longo porque você olha pro irmão e lembra do outro que não está ali. E a importância que a gente tinha na época, de todas as comemorações e você vê angústia de comparecer, de participar, então foi assim que...

 

P/2 – Ele desceu correndo do ônibus porque...

 

R – Porque ele do ônibus, quando ele tava no ônibus que já tinha começado o desfile, então ele desceu, a mãe desceu, ele passou na frente do ônibus e o caminhão que vinha... esse é um fato assim... é o que mais me marcou. Quando você lembra de início de escola, de infância, esse é o que mais me marcou. Depois tem aquelas coisas de criança. Como eu gosto muito de bichinho eu tinha um coelho, esse eu falo assim (risos), eu brinco com a minha que u moro em apartamento hoje, não moro em casa. E falo pra ela assim ó, “Qualquer dia eu vou comprar um coelho de novo” e ela fala “pelo amor de Deus! Se você aparecer com outro coelho aqui...”. Mas eu tinha um coelho branco, uma graça. E eu cismava que o coelho tinha que dormir dentro de casa. Então era aquela briga, coelho não pode dormir dentro de casa. Eu ia, pegava a gaiolinha do coelho levava pro meu quatro e deixava-o escondido no meu quarto. Um dia eles descobriram que eu levava o coelho, “Não, vai ficar lá fora”. Puseram o coelho lá fora e por azar um gato entrou e pegou o coelho. Daí eu sempre falo assim ó “Se o coelho tivesse no meu quarto, não teria (risos), o gato não teria comido o coelho”, né? Tem coisas que marcam que são super engraçadas mas que há todo momento você se lembra. Eu acho um fato marcante porque assim, sempre que eu vejo um coelho eu falo “Eu vou comprar outro coelho”. Esse é um fato assim, engraçado mas que me marcou. Eu nunca perdoei o meu coelhinho branco (risos). É divertido.

 

P/1 – Soraya, a gente tava falando desse episódio da escola e agora a gente falando um pouquinho de escola, você se lembra como foi a primeira escola, como foi o primeiro dia de aula?

 

R – Ah, eu me lembro. Lembro. O primeiro dia de aula foi assim, um acontecimento. Na minha época, não se entrava na escola tão cedo, tinham crianças que entravam, naquela época entrava com quatro, cinco. Não entrava assim com três, dois, é muito difícil. Era mais comum entrar com cinco anos. Eu entrei pra começar no pré e eu chupava chupeta, e o combinado era falar assim “Agora você vai entrar na escola e você não pode chupar chupeta”, eu fui pra escola toda arrumadinha. Achava o máximo! Arrumei o uniforme e fui toda... daí fiquei, não levei a chupeta, não comentei, ninguém sonhava que eu chupava chupeta e quando chegava em casa eu ia chupar chupeta. Daí minha mãe falou assim “Olha, se você continuar chupando chupeta os seus amigos vão perceber. Seu dente vai ficar pra frente” e eu falei “Não, tudo bem. Não chupo mais chupeta”. Eu comecei num dia, dois, três dias depois eu larguei. E entrei numa boa, porque geralmente criança, filho único faz aquele... quando tem aquele... tira o vínculo com a mãe, vai ficar na escola por quatro horas. Eu entrei e nem olhei pra trás. foi assim, muito... e sempre gostei muito. Eu falo assim que a escola pra mim sempre foi minha segunda casa desde pequenininha, sempre gostei muito, lá era bem tranquilo. Um monte de amigos, nossa, uma delícia!

 

P/1 – Como era o nome da escola?

 

R – Lá era Escola João XXIII.

 

P/1 – E era na Vila Sônia também?

 

R – É, um pouquinho mais pra frente, em Ferreira.

 

P/1 – E como era essa escola? O prédio, as salas. Tinha pátio...

 

R – Tinha. A escola... Quando eu entrei, é um colégio de freiras, era a casa delas e tinha uma parte dessa casa que era pros alunos e tinha as salas de aula, tinha um pátio grande, uma área com uma quadra de areia bem grande, tinha palco pra apresentação de teatro, uma cantina pequenininha que era mais pra doce, na época não era, não vendia lanches e sanduíche, na época era bala, pirulito, só esse tipo de lanche já que você levava a lancheira. Mas era bem grande e depois eu sempre, a minha vida escolar toda aconteceu na mesma escola, desde o pré até oitava série. Elas construíram, a escola pega um quarteirão todo. Quando eu entrei tinha só metade do terreno que era a casa delas e mais a salas de aula com pátio, quadra e a outra metade do quarteirão era só plantação, de frutas, e depois de um tempo foram aumentando o número de alunos e elas construíram um prédio. Então eu estudei nesse prédio antigo até a terceira série e no prédio novo eu entrei pra começar a quarta série até a oitava. Um prédio muito grande e já daí com dois andares, duas quadras e mais o pátio. Cantina grande, uma capelinha, é bem gostoso.

 

P/1 – E as aulas, e as atividades. Você se lembra?

 

R – Lembro, lembro assim. Sempre gostei muito da aula de artes, não sou artista plástica frustrada (risos), mas tinha aula de artes, música. Desde pequenininha sempre aprendi tocar bandinha, depois era flauta. A minha professora de música era muito divertida, já era uma senhora de idade, ela era muito engraçada, exigente, você tinha que tocar flauta perfeitamente, era gostoso. Educação Física que também eram aulas bem gostosas e Português, Matemática, Inglês, assim bem tranquilos, nada de muito diferente. E as aulas de Ensino Religioso por ser escola católica de freiras, você tem como uma das disciplinas o ensino religioso que também é bem puxado, bem exigente por parte delas.

 

P/1 – Você falou que tinha um pouquinho de teatro. Tinha alguma apresentação, o que é que vocês faziam nesse palco?

 

R – Nesse palco tinha apresentação, lá eu fiz várias apresentações, apesar de toda essa timidez até que eu conseguia apresentar várias peças. Durante o ano você trabalhava livros ou contos. E podia escolher assim, mais no mês de outubro geralmente acontecia como comemoração da semana de dia das crianças e você podia apresentar uma peça. Nós apresentávamos, nós apresentamos Cinderela, Chapeuzinho Vermelho, depois apresentamos Romeu e Julieta, mas na versão do Maurício de Sousa, os personagens eram do Maurício de Sousa, turma da Mônica. Eu era a Mônica, né? Gorduchinha, tinha que ser a Mônica (risos).

 

P/1 – A escola era pública ou...

 

R – Particular. Escola particular.

 

P/1 – E os professores da escola, como é que eles eram? Algum te marcou?

 

R – Olha, todos. É uma história assim, bem interessante porque lá, os professores ficavam muito tempo sendo os mesmos professores, não tinha uma rotatividade, então quando eu entrei lá, eu tive a professora minha de primeiro ano, a Eliana, ela é professora lá até hoje. Hoje ela é coordenadora da Educação Infantil até a quarta série. Tem esse vínculo familiar, eu passei por ela e ao longo do antigo primário, você conhecia os professores do ginásio, você criava aquela expectativa de ter aula com alguns professores. E eu tive o privilégio de ter aula com vários profissionais muito bons e trabalhar depois com eles porque foi uma escola que eu fiz do pré até a oitava série, depois o Ensino Médio eu fiz em outra escola e voltei pra trabalhar lá e lá eu trabalhei 19 anos (risos). Tem uma ligação afetiva bem grande e tem profissionais que me viram crescer. Tem a professora que não foi exatamente minha, eram várias salas de pré, não era a minha professora do, pré mas da sala ao lado que ainda era funcionária lá. Ela me viu com cinco anos e trabalhamos lado a lado durante 19 anos. Isso é uma coisa que marca muito e que acaba sendo uma história de vida que quando você vai relatar é difícil não falar sobre uma pessoa de lá. A gente se policia um pouco porque tem que... mudou a rotina, mudou os ares, daí ficam as recordações.

 

P/1 – Soraia, eu vi as suas fotos da festa junina. Conta um pouquinho das festas da escola.

 

R – Ah, eu adorava participar. Adorava participar de todas as festas. Festa junina é uma que eu gosto até hoje muito, tanto de preparar, acho assim, preparar a comida típica. Quando eu entrei na escola tinha a Associação de Pais, era muito comum ter a Associação de Pais mesmo nas escolas particulares. Eles que montavam barracas, tinha sorteio de qual o pai que ia ficar com a barraca do cachorro-quente, barraca da pipoca, tinha toda essa preparação. Eu cresci vendo essa... preparar prenda, ir atrás de prenda, vender votos pra miss caipirinha e assim, como eu era baixinha, toda gorduchinha, sempre era a escolhida. “Ah, você vai ser” porque você viu até a foto da noivinha. Um ano eu era a noivinha, no outro eu era a madrinha do casamento e adoro... quando vai chegando o mês de junho eu falo “A miss canjica” (risos). Canjica, pipoca, milho e eu gosto da decoração, eu acho que é um momento de troca de costumes de várias regiões que se tem a oportunidade de ter. Essa é a que mais me marcou, que mais me identifico. E tem dia das crianças que também criava aquelas expectativas porque tinha as apresentações, tinha as apresentações musicais, de teatro, tinha recital. Cada momento, cada ano inovava com apresentações diferentes, eu também gostava bastante de participar dessas festas. E de final de ano que eram os encerramentos, assim, o ano infantil que você tem a formatura da Educação Infantil, depois a oitava série que daí também tem a viagem, a festa de formatura e coincide com festa de 15 anos. Essas são as que mais me identifico.

 

P/2 – Como que eram os professores, como eram as aulas nessa época de escola?

 

R – Olha, eles eram bem sérios, assim, as primeiras eram aulas que elas usavam uniformes, tinham, não se podia fazer muita bagunça, a professora era como se... tinha aquela certa barreira. O professor não era tão ligado ao aluno, ele conversava, tudo, mas não tinha aquela brincadeira que hoje a gente vê comum de fazer uma brincadeira, o professor entrar nessa brincadeira. Tinha uma certa, um certo muro que separava. O professor tava num patamar mais alto. Mas eram muito gostosas, muito gostosas. E depois já mais pro final, as aulas já eram mais liberais.

 

P/2 – Mais pro final?

 

R – Da minha vida escolar. Sexto, sétimo ano. Daí já era mais livre, já dava pra brincar com o professor, tinha uma certa liberdade maior, diferente do inicio que não tinha você chegar pro professor e fazer uma piadinha, por mais assim, que fosse uma piadinha nada mais.

 

P/1 – O professor usava uniforme?

 

R – Usava.

 

P/1 – Como era o uniforme?

 

R – O uniforme das professoras era a calça, na época usava muito tergal, era calça de tergal, camisa e o aventalzinho, aqueles de amarrar do lado. Todas usavam uniforme, não podia usar outro tipo de roupa que já é a diferença que depois ao longo dando abertura e elas usando roupas normais, assim, dia a dia, lógico que você usa o bom senso quando você está em sala, mas todo mundo ia do jeito que era a sua preferência. Mas quando eu entrei na escola, ela era uma escola bem rígida então elas só podiam estar com uniforme, sem uniforme não entrava pra dar aula.

 

P/2 – E o seu uniforme que você falou que adorava.

 

R – Ai, o meu, é bonitinho, não é? (risos). Quando eu entrei ele era saiazinha tipo jardineirinha vinho, camisa branca, sapatinho e meiazinha. Depois ele mudaram pra saia, ao invés de ser a jardineirinha era saia que continua com a camisa e só camiseta e calça, e bermuda nas aulas de Educação Física que você tinha que levar a bermuda, aquela saiazinha branca de pregazinha e a camiseta. Depois que terminava a aula de Educação Física você trocava a roupa, você não ficava o dia inteiro de shortinho (risos). Sem chance!

 

P/2 – Soraia, e os amigos na escola dessa primeira fase.

 

R – São amigos até hoje. São amigos que eu fiz ao longo e que eu tenho hoje, ainda tenho até uma das minhas amigas que estudaram comigo até hoje é vizinha de frente no apartamento. A gente mora uma em frente à outra e outros moram na região, bem próximos. São amigos que eu conheci aos seis anos e que nós continuamos, até a nova equipe que entrou pra direção da escola brinca, fala, “Essa turma da patotinha”, porque ficou. Os alunos mais antigos são aqueles alunos que estudaram o ciclo todo e que permaneceram amigos de ter contato, alguns nem tanto porque não eram tão próximos. Porque você conhece, você encontra na rua ou em alguns momentos também convidado pra alguma ocasião, então você encontra. E outros que são mais próximos mesmo do dia a dia de ter família, você ver formar família com os filhos, ver os filhos indo pra escola, assim... de fazer festa, fazíamos na época muitos bailinhos e naquela época fazia bailinho em casa, dos 11, 12 anos era muito comum você marcar festinha em casa. Cada mês era na casa de um e tinha o bailinho, música, comidinha, lanchinho, refrigerante e varava a hora. Até tarde da noite. O divertimento era esse. Depois, mais pra frente, cinema, passeios, mas o que marcava mesmo aos 12, 13, 14 anos eram os bailes, as festas em casa.

 

P/1 – Como que foi essa passagem até o quarto ano e depois pro ginásio? Você ficou na mesma escola no final mas sentia alguma diferença?

 

R – Ah, eu senti porque você deixa de ter uma professora que te apoia em tudo pra entrar num mundo desconhecido. Uns dez professores diferentes, cada um tem o seu jeito de trabalhar, você dá conta de tudo isso, na quinta série que hoje é sexto ano, nossa! Você não consegue, é aquele medo de não dar conta da lição, um pede uma coisa, outro pede outra, até você se organizar é um tempo assim, você leva pelo menos até o primeiro bimestre pra se organizar, amadurecer e a ideia de conciliar esse trabalho com professores diferentes.

 

P/2 – Como que eram as aulas de religião?

 

R – Olha, as aulas de religião, a maior parte delas eram dadas pelas próprias irmãs, né? Tinha (risos)... na minha terceira série tinha uma freira que era muito engraçadinha. Baixinha, brava, brava, só faltava pegar a varinha, sabe? (risos). Depois já foram as freiras assim, que já não usavam hábito, usavam saia e camisa, você já se sentia mais tranquila e hoje mais pro final da minha vida escolar lá, era professor. Professores que tem a formação de Ensino Religioso ou Filosofia que ministram aulas. Geralmente mais são os professores de Filosofia que acabam dando essa abertura pro Ensino Religioso que é o que acontece até hoje lá, deixou de ser as próprias irmãs. Elas se dedicaram mais às aulas de Catequese pra formação dos alunos pra primeira comunhão.

 

P/1 – Soraya, como é que foi a sua formação religiosa? A primeira comunhão, crisma?

 

R – Olha, minha formação religiosa... lá é um colégio de freiras e freiras franciscanas, é um modo de ser um pouco diferente dos outros conventos, das outras comunidades delas. Elas já têm uma abertura maior e ensinavam, essa que eu falei que é bem no ano que eu fiz primeira comunhão que era super-rígida e só faltava pegar a varinha. E nós tínhamos as aulas de religião preparada para fazer a primeira eucaristia, então conta um pouquinho da vida, de como foi nascimento, trajetória da Igreja Católica, conta... é tudo voltado desde a criação do mundo e daí vai todas as passagens bíblicas, Arca de Noé, e assim todas as passagens. E o diferencial é que é assim, mais pra frente quando eu passei da primeira comunhão, no momento que eu fiz a crisma, a gente já tinha um ensino religioso mais franciscano, que já trabalha se preocupando com o outro, nós fazíamos visitas em asilos, em creches. Nós preparávamos o Natal de crianças órfãs, já tinha uma outra visão, já tinha um outro olhar que deixava de só ser aquele vinculado à Igreja pra olhar o próximo. Que esse é mais a visão do Católico Franciscano. A gente fala que tem essa divisão na Igreja que se for ver não é muito correta mas que dá essa diferencial, você não fica preso só à leitura dos escritos bíblicos, mas você se preocupa mais com esse dinamismo de trabalhar com o próximo.

 

P/1 – Eu fiquei curiosa pra saber também e as aulas de Inglês, como é que eram?

 

R – Olha, as aulas de Inglês eram bem simplesinhas. Eu vejo a falta que faz porque era muito o básico do básico, eu tive professores muito bons mas o currículo em si que a gente vê até hoje, se for ver em algumas escolas é desse mesma maneira, não tem... Hoje ainda dão livros pro aluno ler e ter esse contato com a leitura e desenvolver um pouco mais o inglês. No nosso caso não, era passar as frases pra forma negativa, interrogativa... Você não sabia nem o porquê mas estava fazendo. Era a forma básica mesmo, não era muito dinâmica porque não eram professores que falavam fluentemente, eram professores muito bons, mas que têm a formação de Letras que vai ser muito mais um professor de Português que dar abertura pro Inglês porque estudou, tem um todo um preparo pra trabalhar o Inglês, mas que não fluência nenhuma. Fala corretamente mas se você for ver o que deixa a muito a desejar já que não te treina o falar. É mais o exercício, as palavras soltas, você não formava frases, textos. Hoje a gente vê que a aula de Inglês em escola que não é o caso escola bilíngue, numa escola tradicional que dá um pouquinho mais de abertura nesse sentido, de oferecer pro aluno uma possibilidade de fazer uma leitura, uma troca. Eles já se preocupam em pedir pra formar um texto. Na minha época de escola não, era realmente o básico mesmo, então você sabe o que cada palavra significa mas o formar uma frase sozinha é um sacrifício.

 

P/2 – Mas você tinha essa preocupação? As pessoas tinham essa preocupação?

 

R – Não, tanto é que eu sinto falta hoje por trabalhar numa escola bilíngue, hoje me faz falta. Durante a vida escolar não ia mal, ia super bem em inglês, gostava, achava super diferente “Nossa, um dia vou pros Estados Unidos”, Aquela coisa de criança que tinha sempre na cabecinha “Eu vou pros Estados Unidos”, mas que depois você vai tomando outro rumo, dando outras prioridades e aquilo ficou esquecido. Nunca foi cobrado porque a minha vida ficou nessa... vinculada ao mesmo lugar. Acabou que eu fiz história sem precisar do inglês. Hoje eu percebo o quanto ele me faz falta. E que é o meu grande desafio (risos).

 

P/1 – Com quantos anos você teve aula de Inglês? Era da primeira até a oitava?

 

R – Não. Na época que eu estudei entrava na quinta série. Hoje em dia não, hoje em dia é desde... mesmo em escola convencional é desde o primeiro, algumas desde o pré. Mas na minha época eu fui ter a primeira aula de inglês na quinta série.

 

P/1 – E depois do Lar Escola pra qual escola você foi, Soraya?

 

R – Eu fiz Ensino Médio no colégio João Paulo I, uma escola particular também. Eu fiz o colegial, um ano de Técnico em Informática, Processamento de dados, o colegial comum e mais esse um ano de Processamento de dados.

 

P/1 – E como e que foi mudar de um colégio que você ficou tanto tempo...

 

R – Nossa! Um peixe fora d’água! Chegar numa escola nova foi assim, depois de muito tempo não conhecia ninguém porque quando eu fui pra lá cada um foi pra uma escola diferente e eu já passei um outro momento da minha vida... até a minha oitava série eu tinha uma situação financeira mais tranquila, quando eu fui por Ensino Médio já passava por uma situação financeira mais apertada, não dava pra irmos pras mesmas escolas, por exemplo, a maior parte das minhas amigas deram continuidade numa outra escola de freiras, outros foram pra outras escolas mais caras e eu fiquei nessa que era uma diferença de um bairro pra outro, era particular, mas mais em conta. Lá eu fiz dois nãos. No terceiro ano do Ensino Médio eu já tava trabalhando, fui eu mesma que custeei o final do Ensino Médio e depois a...

 

P/2 – Nesse mesmo lugar?

 

R – Nesse mesmo lugar. E a faculdade.

 

P/1 – Em que bairro que era, Soraia?

 

R – A escola? Vila Sônia. Eu sai do Ferreira e fui pra Vila Sônia, só que na época eu continuava morando na Vila Sônia.

 

P/1 – E os professores?

 

R – Ah, eles eram muito legais, eu achava diferente porque o que acontece? O diferente foi: o primeiro ano eu fiz de dia, durante o dia; o segundo e terceiro eu já fiz durante a noite, é uma outra visão. Você tinha contato, geralmente, eram pessoas da mesma idade do que eu ou mais velhos e que todo mundo tinha, todo mundo trabalhava, chegava em cima da hora, o professor tinha uma outra maneira de ensinar. Eu tinha uma professora maravilhosa de Literatura que ela se preocupava muito em dar conta do conteúdo. E do currículo de Literatura e sabia que todo mundo que tava ali trabalhava fora o dia inteiro. Como pedir pra ler todos os livros? Ela contava, ela fazia um resumo, lógico que a gente assistia muitas peças sobre os livros, e ela contava o livro assim, de maneira que durante muito tempo eu voltei a trabalhar e, por ser uma escola que já tinha Ensino Médio, ia com os alunos no teatro, acompanhava os alunos e eu me lembrava dela contando as histórias da peça e do livro. Quando eu fui fazer vestibular, eu lembrava autor, qual era a situação da história, o que contava o enredo, tudo graças a ela. Nunca nos disseram que precisava ler os livros, não. Bastava ter ela ali que era muito assim, contava de uma maneira muito gostosa e que você gravava, sabia o livro sem ler. Esse é um outro fato muito marcante.

 

P/2 – Era o colegial. Tinha diferente humana, científico normal ou não?

 

R – Não. Era bem parecido com o que é o colegial hoje. Um colegial tradicional de três anos...

 

P/2 – Você não optava por uma área?

 

R – Não optava por uma área. Podia assim, eu fiz esse um ano de Processamento de Dados que poderia, tinham pessoas que fizeram os três anos do colegial com Processamento de Dados, tinha essa grade estendida com as aulas de... Mas o meu basicamente foi o colegial comum que é o que hoje a gente não aconselha, já que é importante estar fazendo sempre com uma complementação pra terminar o colegial e ter uma noção do quer fazer mais pra frente ou se ter uma profissão se não for logo pra faculdade. O meu foi simples. Podia optar na época pelo Processamento de Dados, alguns optavam pelo Magistério, Secretariado, mas o meu foi o simples, tradicional com esse um ano de Processamento de Dados, que era bem no início, os computadores eram uns dinossauros (risos).

 

P/1 – Você já sabia o que queria fazer nessa época, Soraya? Já tinha alguma ideia passando na sua cabeça?

 

R – Eu sempre quis fazer, não fiz Magistério no Ensino Médio porque não deu pra fazer pelos motivos financeiros, não dava pra ficar quatro anos, na época o Magistério era quatro anos e tinha que ser de manhã. Eu já não pude fazer, foi uma coisa que eu não pude fazer na época, mas eu já sabia que eu queria trabalhar com escola. Tanto é que com 16 anos eu já trabalhava em escolas de Educação Infantil pequenas, como assistente de sala. E quando eu terminei o Ensino Médio, antigo colegial, eu já sabia que eu queria fazer alguma coisa relacionada à educação, isso eu já sabia, eu sempre tive essa clareza, eu queria uma faculdade com ênfase em educação. Eu saí do Ensino Médio, demorei um pouco pra fazer a faculdade, eu fiz Pedagogia um ano, daí eu mudei pra Artes Plásticas na Mackenzie, mas eu não dava conta de sair do serviço e ir pra o Mackenzie fazer Artes Plásticas que ia ser uma delícia. Maravilhoso! Você chega lá e cada dia tem uma aula diferente, só que eu não dava conta de sair o horário que eu tinha que sair do serviço e chegar pra assistir a primeira aula do Mackenzie, foi uma coisa que não deu certo. Uma grande frustração por gostar de artes. Eu voltei a fazer Pedagogia na Faculdade Pinheirense que é aqui no Colégio Estela Mares. E terminei porque conciliava direitinho aquelas coisas. Eu sempre fui muito, não sei se defeito ou qualidade, mas eu sempre fui muito preocupada com o meu serviço, com o meu trabalho em si. Eu sempre fiz coisas que não atrapalhassem a minha rotina no trabalho, nunca pensei assim, “Ah não, eu vou pedir pra sair mais cedo pra terminar a faculdade”, não. Sempre tive uma dedicação muito ardorosa, gostava, sempre gostei muito do que eu faço. O horário que dava certinho. Daí eu achei uma faculdade que eu entrava sete e meia, saía da escola e ia pra faculdade com espaço de tempo tranquilo. Fiz, terminei, fiz Administração Escolar, a Licenciatura em Administração Escolar e sou assim... Se você disser “Você fez o que gosta?”, “Eu fiz”. Justamente o que eu queria mesmo.

 

P/1 – Eu queria perguntar se você tem uma dimensão de quando é que surgiu dentro de você essa certeza que você queria trabalha em escola. Como é que foi?

 

R – Eu sempre... depois que eu saí da escola na oitava série e fui pro Ensino Médio eu sempre tive essa vontade de voltar pra sala de aula como... pra ajudar, e achava o máximo, eu tinha colegas na época que já estavam na oitava série e tinham, eram assistentes de sala na mesma escola. Eu achava o máximo poder ser assistente de sala e depois professora. Eu acho que eu vivi muito isso de ver colegas mais velhas que já começavam na própria escola, que eles davam essa oportunidade pra quem queria já começar, na época já podia com 15, 16 anos começar a trabalhar. Elas começavam a trabalhar como assistente no horário inverso da aula e eu achava o máximo. É aquela história lá atrás, como eu sempre gostei de ensinar, eu fui me identificando. E eu percebi, eu tinha os meus irmãos que quando eu tava terminando a oitava série eles estavam começando na escola, eu tinha que ensinar algumas coisas pra eles. Eu os ajudava, levava-os pra escola, na escola de Educação Infantil da minha irmã eu cheguei a trabalhar como assistente. Sempre tive muita afinidade com criança, tenho até hoje apesar de o serviço que eu tenho, que eu desenvolvo não ter um contato direto com criança, mas se vocês tiverem oportunidade vão ver, sempre tem uma criança na minha sala. Eu tenho aquela afinidade. No jeito de falar, sempre tem um que passa, chega da natação, vai lá. Tem um que é muito engraçado, ele chega da natação e vai me contar a aula de natação, daí esses dias ele tá meio assim, eu falei assim, “Ele tá com algum problema...” (risos), “Ele tá até com problema disciplinar porque tá brigando no pátio, não tá me visitando...” (risos). Eu sempre tive essa afinidade com criança, eu sempre gostei muito de criança e foi aí que eu vi que era isso mesmo que eu queria, tanto é que quando eu comecei a trabalhar, foi como assistente tanto nessa escolinha, uma escola menor de Educação Infantil, mesmo quando eu voltei pra escola onde eu estudei, que eu entrei pra trabalhar como assistente de sala. Eu entrei e fiquei um ano como assistente de sala. Depois, no ano seguinte, eu trabalhava meio período lá como assistente de sala e já estendia o horário como administrativa.

 

P/1 – Soraya, como é que foi o nascimento dos seus irmãos no meio da sua vida escolar?

 

R – (risos). Primeiro veio o meu irmão, os meus irmãos são irmãos de criação. Minha mãe tinha uma certa dificuldade de engravidar, antes do meu nascimento ela teve gestações que ela não conseguia que fosse pra frente e quando eu nasci foi aquele acontecimento. E depois que eu nasci ela não conseguiu mais engravidar. Tinha aquela “Ah, não quero que ela fique sozinha, não quero que ela fique sozinha” e foram tentar a adoção. Só que quando conseguiu a adoção eu já tinha 12 anos, foi quando o meu irmão chegou em casa. Eu brinco e falo assim “Nossa gente...” eu falo pra ele hoje que hoje tem 30 anos, eu falo pra ele assim, “Nossa, trouxeram um filhotinho de sagui”. Ele chegou uma criança super pequena. Que você imagina, uma criança que estava pra adoção é uma criança que, geralmente, não é desejada. Todos os maltratos de gestação que podia ele sofreu e é o que mais sofreu, minha irmã nem tanto. Mas meu irmão chegou com um quilo e oitocentos, super pequenininho; a mãe na época não deixou nem roupa na maternidade pra ele, ele saiu da maternidade, como a minha já estava na fila da adoção, já saiu da maternidade e foi pra minha casa. A primeira noite eu nem dormi, passei a noite olhando pra ele assim, que é aquela nossa, expectativa de ter um irmão. De ter uma criança, foi muito gostoso. Foi muito gostoso! Mas foi um momento que eu digo assim, foi gostoso porque quando ele chegou lá, todo mundo tava assim “Nossa!”, esperando por muito tempo a chegada de um bebê e por outro lado foi aí que eu deixei de viver um pouquinho toda essa fase de ter uma adolescência mais tranquila, porque eu passei realmente a ser uma irmã-mãe e ajudei a tomar conta; quando eles começaram a ir pra escola, eu já estava entrando no colegial, você acompanhava toda essa rotina de escola, ele teve vários problemas de saúde e você acaba sofrendo junto, não é seu filho mas você acaba sofrendo. E eu sempre fui muito mãezona, esse é meu grande defeito. E depois ele já tinha dois anos quando veio a minha irmã. Ela já veio fortinha, já tinha uma outra, já foi uma outra realidade de gestação. A mãe não quis, mas tratou direitinho, fez um pré-natal direitinho, só não quis ficar com a criança. Ela já foi uma criança mais forte, ela chegou na minha casa com 19 dias, bem bebezinha. E acompanhei, procurei assim, meu irmão mora comigo, a minha imã não, ela é danadinha (risos). Procurei orientar, ajudar na parte educacional deles, formação toda e a minha irmã apesar de todas as orientações, e eu procurei fazer com eles o que não aconteceu comigo, meu pai é descendente de italiano, é aquela criação super fechada, que não pode isso, não pode aquilo, aquele outro nem pensar (risos). Eu procurei proporcionar pra eles passeios pra poderem ir em festa sozinhos e o meu irmão controlou bem isso, a minha irmã nem tanto, tanto é que o meu sobrinho nasceu quando ela tinha 16 anos. Que é o menininho da foto e que na realidade assim, esse passou a ser meu filho mesmo, porque não tem vínculo com ela nenhum. Ele mora comigo desde que nasceu, ela até os quatro anos morou conosco, até quando ele tinha uns quatro, cinco anos. Aí depois ela quis morar sozinha, mora sozinha até hoje e ele cresceu comigo, tanto é que a grade dor de cotovelo dela, ela fala que ele é a minha miniatura, mas ele é todo certinho, todo responsável e tudo o que ele precisa ele liga pra mim (risos), “Tia...”, quando não me chama de mãe. Quando ele me chama de mãe pode ter certeza que ele quer alguma coisa a mais (risos). Daí já é mãe, deixa de ser tia. Mas é o que eu brinco bastante, é o meu filhote.

 

P/1 – Com os seus irmãos pequenininhos bem, no período da sua adolescência, juventude, você conseguia sair? O que você fazia nas horas vagas?

 

R – É, isso é o que eu falo. Foram muito desejados, mas acabou deixando a minha vida mais fechada do que já era. Eu tinha dificuldade de sair porque meu pai não deixava. Tanto é que viagens com a escola eram bem poucas e tinha que implorar pra deixar. Festas fora também ele controlava. Se ia num mês, no mês seguinte não podia ir, ele fazia aquele controle. E na minha adolescência foi meio que assim também. Tinha os meus dois irmãos pequenos; meu pai é uma pessoa que não gosta de grandes passeios e festas, ele é uma pessoa mais fechada, ele podava bastante. Eu fui mesmo sair bastante com os meus 20, 21, que daí eu já trabalhava e me mantinha, vamos dizer assim. Se eu queria ir ao cinema, eu mesma que pagava, já não pedia. Nesse ponto eu sempre fui muito independente. Assim que eu comecei a trabalhar, eu comecei nessa escola com 18 pra 19 anos, um ano depois eu já me mantinha, praticamente tudo o que eu precisava sozinha, eu já ia, passeava, viajava. Foi quando eu consegui realmente ir, mas na adolescência mesmo eu fiquei bem isolada. Não consegui curtir o suficiente.

 

P/1 – E só me explica um pouquinho. Você terminou o colegial e aí você já começou a fazer Pedagogia e Artes?

 

R – Não. Eu terminei o colegial com 18, daí eu demorei uns dois anos pra ir fazer faculdade, eu comecei com 20, fiz um ano de Pedagogia, daí eu parei, fiz um ano de Artes Plásticas no Mackenzie, não deu, os horários não eram, eu parei um tempo, eu fiquei uns quatro, cinco anos parada, depois é que eu retornei.

 

P/2 – Pedagogia foi onde?

 

R – Na Faculdade Pinheirense.

 

P/2 – Você começou e...

 

R – É, eu fiz um ano, tranquei; fui por Mackenzie, fia um ano, tranquei porque não dava, com conciliava os horários e quando eu voltei e terminei Pedagogia de onde eu parei. Mas eu levei um tempo pra terminar, porque entre o início da faculdade e o final, eu parei uns cinco anos mais ou menos sem estudar.

 

P/1 – E como é que foi o primeiro ano de faculdade?

 

R – Ah, uma maravilha! Tudo novo, um monte de atividade: leitura, trabalho, eu achava assim, adorava! E tinha um professor de Antropologia que assim, é a minha paixão. Ele falava de uma maneira assim, contava, ele radicalizava, eu achava, todo mundo detestava, mas eu o achava o máximo! Eu fala assim “Não, só ele”. Ele fala umas coisas que marcam e que você fala assim “Não, não é bem por aí” mas ele era muito bom também, ele dava umas aulas muito boas. 

 

P/2 – O que é que ele radicalizava?

 

R – Não, ele radicalizava assim, religião, pra mim que saí de uma escola católica e trabalhava numa escola católica, ele “Se Deus existe, e daí é muito ruim porque fulano fica doente e tem um monte de desgraça acontecendo...”. Ele fazia umas colocações. Muito divertidas, mas que você aprendia muito, acho que enriquecia, você deixava de ser aquela menininha que acreditava em tudo e tinha uma outra visão sem deixar, lógico, sem ser influenciada por ele mas a maneira de ele fazer as colocações e ele diz assim “Pedagoga e Psicóloga nunca mais, já basta minha ex-mulher!” (risos). Ele era muito engraçado! Pra mim que nunca tinha tido esse tipo de aula ele era um professor muito engraçado, de ser bem radical, chegar e falar, a exposição de aula dele era muito interessante, mas uma pessoa muito competente.

 

P/1 – E você continuou trabalhando enquanto ...

 

R – Sim.

 

P/1 – Sempre trabalhando.

 

R – Sempre. Eu comecei aos... assim, tive outros empregos em escolas menores antes, mas eu comecei com 18 e não parei mais. De uma escola eu já saía pra outra.

 

P/1 – E como foi o seu primeiro dia dentro da sala e aula como assistente?

 

R – Ah, uma delícia! Um monte de serviço porque na época, quando eu entrei pra ser assistente de sala eram 38 alunos em sala. E material, tinha dia da entrega do material. Gente! Era papel que não acabava mais e daí você tinha que enrolar individualmente, por exemplo, papel espelho, cada aluno trazia dez folhas coloridas, você fazia rolinho por rolinho, arrumava nos armários em caixas separadas, papel espelho, papel camurça, papel laminado, porque aí quando a professora ia dar aula ela já sabia onde tava cada papel. Você recebia o aluno num dia e levava um mês pra arrumar o armário, mas eu adorava, adorava! E tinha que tomar conta de 38 no parque (risos), não era fácil não, mas nossa! Eu me divertia! O que eu fazia pra dar conta dos 38 no parque? Eu dava brincadeira dirigida. Era corre cotia, era brincadeira de queimada porque eu falava “Soltar os 38 no parque não vai dar certo. Enquanto um está na balança, o outro está no escorregador, não!”. Enquanto a professora tomava lanche eu dava a brincadeira dirigida, depois quando ela chegava, daí já dava pra dividir em duas, eles ficavam livres no parque mas era muito gostoso. E correção de caderno e preparar lembrancinha de todas as datas comemorativas possíveis. Em escola tradicional você faz muito mais coisas, você já entrega o trabalho pela metade pro aluno. Convite você cortava todas as cartolinas, todas as florzinhas e eles iam lá terminar.

 

P/1 – Soraya, você mudou de função dentro da escola no decorrer de todos esses anos?

 

R – Mudei. O primeiro ano que eu entrei lá, eu fui contratada pra trabalhar meio período, eu trabalhava de manhã lá, das oito ao meio-dia, daí eu saía e ia pra uma outra escola de Educação Infantil. Uma escola pequena de Educação Infantil onde eu trabalhava com crianças de três anos, eu já trabalhava como professora. Em escola pequena, mesmo você não tendo finalizado o Magistério, tendo o colegial você já podia, não tinha aquela exigência tão grande de formação. Eu tinha um grupo de 15 alunos de três anos. De manhã eu trabalhava nessa escola e à tarde na outra. Só que daí o que aconteceu? Eu não almoçava, porque eram bairros diferentes, para você sair de uma ao meio-dia e estar na outra à uma hora, sem chance. Foi isso um ano. No final do ano, a minha diretora, da escola onde eu fiquei um bom tempo, ela chamava pra saber como é que foi o seu ano, qual eram as suas expectativas pro próximo ano, o que tinha dado certo, o que... Ela chamava pra uma entrevista. E eu, uma das coisas que eu falei foi que eu gostaria, se fosse possível, estender o horário na mesma escola. Ela falou assim “Não, no primeiro momento não tinha vaga pra dobrar o horário” mas eu falei que “De qualquer maneira eu vou trabalhar só meio período aqui e na outra escola eu vou encerrar a atividade em dezembro”. Quando começou as aulas em fevereiro, eu continuei como assistente e daí surgiu uma vaga no setor administrativo e ela lembrou, ela me convidou pra fazer o período da tarde na parte administrativa. Foi quando eu já comecei a sair da sala de aula (risos), foi o primeiro passo pra sair da sala de aula. Eu ficava de manhã como assistente de sala e à tarde eu ia pro administrativo. E no administrativo eu fiz de tudo, desde ficar maluca com o antigo mimeógrafo a álcool (risos). Tinha dia que eu tinha vontade de chorar, porque as salas eram de 38, 40 alunos cada sala, uma escola de mil alunos e você com um mimeografozinho (risos). A atividade tradicional, você imagina, 300 cópias por dia a professora dava a folha, folha, folha, aí eu fui. Dessa parte de cuidar da conta de todas as provas, exercícios, desenhos. De cada turma, foi a primeira coisa que eu fiz na parte administrativa e cuidar da saída dos alunos. O primeiro dia que eu cuidei da saída dos alunos, eu falei “Não volto mais!” (risos).

 

P/1 – Por quê?

 

R – Porque era assim, abria o portão e soltava, eu brinco assim, e soltava a boiada, porque era salve-se quem puder. E você tem que controlar rapidinho se era a mãe mesmo que tava pegando o aluno, aí eu falei “Não gente, não pode continuar assim” e fui dando uma mudadinha, até que aperfeiçoou de tal maneira a saída que fazia na paz, um de cada vez, sabe? Fui mudando, mas nossa!

 

P/1 – Alguma técnica específica?

 

R – Eu falei “Não, nós vamos fechar um dos portões” e como tinha um corredor entre um, tinha um portão antes e um que chegava na rua, eu fechava esse antes e comecei a técnica do microfone. Eu comecei a conhecer as mães e chamava o aluno e acordo com a chegada da mãe. Até que eu consegui colocar a fila indiana. Quando eu coloquei a fila indiana eu fiquei no céu. Porque daí a mãe, eu chamava a primeira, a segunda, a terceira criança, soltava, tudo bonitinho mas levou um certo tempo. Dessa parte toda, eu fui pra ser assistente de secretaria, fiquei como assistente de secretaria uns cinco anos, depois eu já fiquei como secretária mas, na escola tinha uma secretária que era bem antiga, já tinha uns 20 anos de casa, ela ficou comigo ainda mais uns dez. Na escola ela trabalhou bem uns 30 anos. Eu só fiquei na secretaria como secretária geral quando ela realmente se aposentou de vez, e foi assim. Passei de setor por setor mas daí, já no ano seguinte, eu não trabalhei mais em sala de aula porque quando eu assumi como assistente de secretaria eu já tinha que ficar o dia todo, daí já ajudava em teste pra aluno, pra entrada de alunos novos, matrícula. Tive a oportunidade de conhecer um pouco de parte financeira, fechamento, balanço porque daí elas me convidaram um período e eu ficava de férias... teve um tempo que a gente ficava de férias em dezembro inteiro e uma parte de janeiro, então eu, período de dezembro, como eu era administrativa, eu ia só meio período pra escola, o outro meio período elas me convidaram pra fazer um trabalho com elas na casa geral, eu fazia o fechamento das creches porque como é um colégio de freiras, além do colégio tinha outras ramificações.

 

P/2 – Outras unidades?

 

R – Outras, é... não como escola, que escola era uma só, mas creches, asilos, orfanatos. Quando chegava no final do ano tinha que fazer fechamento e eu tive a oportunidade de conhecer como se fazia balanço, fechamento de contabilidade, eu tive essa... que eu acho assim, que é uma oportunidade que enriqueceu bastante o meu currículo porque você tem uma visão do todo da escola e parte financeira, recursos humanos que não era tão o que eu fazia na minha função mesmo de secretária escolar. Eu tive essa oportunidade de conhecer um pouquinho, que ajudou de você ter um diferencial como profissional. De conhecer um pouquinho de cada área.

 

P/1 – Soraya, foi dessa escola que você foi pro PlayPen, não é?

 

R – Foi.

 

P/1 – Como é que você ficou sabendo da PlayPen...

 

R – A PlayPen é um caso de amor bem, bem longo, que eu brinco bastante com a... quando eu fui fazer a minha entrevista eu contei pra dona Guida, eu sempre desde muito nova, a PlayPen ela fica num lugar bem estratégico e antes de ser esse prédio imenso ela era uma casa. Eu passava de ônibus e sabe quando você olha e fala assim “Nossa, que interessante! Olha!”. Eu vinha entregar, às vezes eu passava em momentos que era a entrega de alunos e sempre aquela vontade de ir trabalhar ali, isso já quando eu trabalhava em escolinhas pequenas. Aquela vontade de... passava de ônibus achava curioso, achava interessante o nome. Sabe quando você fica ligada naquela, você passa naquele lugar e está sempre procurando pra ver se mudou, se tem alguma coisa diferente, eu sempre tive esse olhar especial e quando foi pra sair da escola onde eu trabalhei, eu... A primeira coisa que eu pensei, “Vou mandar um currículo pra PlayPen”, foi a primeira coisa que eu fiz. Daí eu mandei e falei assim “Olha, se eu saí da escola e trabalhar na PlayPen...”, sabe quando você idealiza e tem hora que eu falo assim “É o poder do pensamento”. Eu fui cultivando isso durante anos por passar e ver a escola e quando eu optei por sair de onde eu estava...

 

P/1 – Por que é que você saiu, Soraya?

 

R – Eu saí porque eu sempre tive, sempre gostei muito de ajudar crianças carentes e eu montei uma ONG pra cuidar de crianças carentes em horário inverso ao escolar. Eles iam pra escola de manhã e ficavam na ONG à tarde. Eles iam pra escola à tarde e ficavam de manhã. Eu tinha criança o dia inteiro numa casa onde eu aluguei, um espaço grande, parecia um sitiozinho. E lá eu dava alimentação e reforço escolar. Eu tinha muitos bebês que as mães precisavam trabalhar, não tinham onde deixar. Um pessoal muito carente mesmo e nós montamos ali. Essa casa que eu aluguei e eu não sabia... Quando eu aluguei, ela tinha problemas na prefeitura, era uma casa que foi desmembrada mas nunca foi informada que foi feito uma casa, que o terreno era muito grande, eles dividiram o terreno e não informaram à prefeitura. Quando eu aluguei, aluguei direto com a proprietária, ela é advogada, eu achei normal, tudo. Quando eu comecei a mexer com... que começou assim, era um ideal pequenininho, de ficar com dez crianças. Fazer uma brincadeira, ensinar artes, dar reforço e um espaço grande, gostoso. Muito bem. Quando foi crescendo o número de crianças, precisava tirar todas as licenças e mesmo não sendo escola, a prefeitura queria que você montasse um plano, todo o trâmite como se fosse uma escola, por eu não residir nessa casa, se eu morasse lá, não precisaria de nada (risos). Se eu fosse, se pusesse uma plaquinha “Cuida-se de crianças”, você não precisaria de nada. Mas como não era, era um lugar montadinho e tinha divididinho tudo por sala. Tinha uma sala que eram os bercinhos, tudo, fraldário, tudo direitinho. Daí eles começaram a querer muito mais documentações. Quando foi pra finalizar essa documentação, eu soube que não podia por causa desse desmembramento e eles falaram “Não, tem que regularizar isso”. A proprietária não quis, ela pediu a casa. Eu tinha investido muito dinheiro.

 

P/2 – Você montou uma ONG com a ajuda de outras pessoas?

 

R – É, outros colegas. Não tinha ainda ajuda assim, a gente tinha... pra conseguir ajuda de outras instituições, você precisa ter toda essa documentação. Quando cresceu mesmo, fortaleceu que eu ia tirar toda documentação, foi quando deu esse problema com o imóvel. Só que eu já tinha investido muito dinheiro. Quando eu entrei na casa, era uma casa antiga, então eu me propus a arrumar telhado, enfim, fazer toda uma reforma acreditando que tudo tava tranquilo. E você entra e demora. Eu entrei assim, pensando em um número pequeno de crianças e de repente tinha quase 100 crianças porque...

 

P/1 – Nossa, de dez pra 100?

 

R – É. Daí chegava “Ai, será que você não pode ficar com o Pedrinho?” e eu morria de dó porque eram crianças que às vezes não tinham nem o que comer, eu fui deixando, fui aumentando esse número. E as exigências foram aumentando também. Comecei a reformar a cozinha do jeito que eles pediram, tudo direitinho e quando deu o problema com a casa, eu tive que... eu passei as crianças, fui passando pra outras ONG’s, né? E tive que fechar.

 

P/1 – Mas como você conseguia manter essa ONG?

 

R – Com ajudas. Eu tinha assim, um grupo de amigos que a gente fazia como uma associação. Tinha um... como se fosse um plano, o estatuto, eles faziam uma ajuda de custo e recebia doações da Igreja, a gente tinha algumas doações fixas. Se não fosse esse problema de eu ter investido na reforma da casa e não poder, porque a casa não tinha esse desmembramento, tudo bem. Mas quando deu todo esse problema, eu tive que fazer, eu tive que pedir pra fazer um acordo na escola. Eu tinha muito anos de casa, acordo dava pra sanar todas as dívidas. Eu fiz o acordo. Só que assim, a escola passava por uma reestruturação. Eu, por ser muito antiga, eu tinha um salário muito alto. Foi assim, uma coisa pela outra. Eu faço o acordo, (?) todos os seus direitos e você se desliga da empresa. Como na época eu não tinha outra saída, porque daí você tem que, eu tinha que saldar uma série de compromissos; alugar outro espaço não dava porque você tinha as crianças que já vinham de algumas comunidades, algumas favelas ali da região. Você alugar um espaço, outro espaço, ia ser mais um custo, não dava. Eu optei naquele momento em encerrar a atividade ali, eu já tinha um bom tempo com eles. Eu fiquei com as crianças, não com esse número grande. Mas eu fiquei com as crianças um dois anos, porque num primeiro momento eu dava aulas de artesanato, aulas simples, então não tinha esse vínculo. Poucas crianças, não tinha tanta... era um oficina de artesanato, estendida pra crianças e reforço particular. Quando começou a aumentar o número é que daí você precisa fazer esses trâmites legais de plano de ensino, tudo isso. Quando eu comecei a preparar tudo, foi quando surgiu, quando foi a fundo mesmo de ter que pegar a licença na prefeitura e quando foi pegar a licença na prefeitura eles viram que não podia. Foi um momento bem difícil da minha vida porque eu abri mão de um emprego de 19 anos. E assim, dos dois lados foi difícil, eu sabia que estava passando por uma reestruturação na escola, eles tavam pegando funcionários novos pra ganhar muito pouco em relação aos funcionários antigos, exceto professores, pois professor, enquanto você tem um professor antigo, o valor tem que ser aquele, você não pode ter valores diferentes. Mas funcionários você pode ir reduzindo a folha, foi o que eles foram fazendo. E o meu salário estava num ponto que eles conseguiram contratar três pessoas. Quando eu fiz o acordo, falaram assim logo, “Olha, nós vamos fazer uma coisa pela outra”, não, “Eu faço o acordo e você se desliga por quatro, seis meses”, mas não é bem assim. Se você vai pegar pra sanar uma dívida, não dá pra você ficar seis meses recebendo seguro e contando com isso. Eu fui muito firme, eu falei “Não, tudo bem”. Eu assinei a minha homologação, fui no correio e coloquei o meu currículo.

 

P/1 – Você mandou pelo correio?

 

R – Mandei, eu preparei.

 

P/1 – Você nem sabia se estavam precisando ou não?

 

R – Não. Eu mandei pelo correio. Aí uma professora amiga minha também levou alguns currículos, tanto é que assim, eu assinei a minha homologação dia quatro de agosto; dia 15 de agosto a Unip me chamou. A Unip me chamou pro setor financeiro deles, eu fui, fiz a primeira entrevista, fiz a segunda, fiz 15 dias de treinamento na Unip. Eles me contrataram e eu fiquei um mês na Unip, quando eu completei um mês na Unip a Guida me chamou. Eu sempre tive uma coisa de pavor de ficar desempregada. Se “Tem uma coisa que te assusta?”, “Ficar desempregada”, sempre! Eu mandei o currículo pra PlayPen e essa professora colega minha levou o currículo pra Unip.

 

P/1 – Só nesses dois lugares?

 

R – Eu mandei só nesses.

 

P/1 – Você ficou um mês. Como é que foi quando a Guida te ligou?

 

R – Eu estava trabalhando porque na Unip eu fazia um horário diferente, eu entrava da uma às dez da noite. Ela ligou, ligaram na minha casa. A pessoa da recepção ligou na minha casa pra marcar a entrevista. Quando eu cheguei à noite, eu falei “gente, não é possível. Vocês têm certeza? Vocês anotaram o recado certo?”, “Não, anotei”. E eles marcaram a entrevista por dia seguinte pela manhã que era o horário que eu não trabalhava, eu já fui no dia seguinte. Eu fiquei pensando “E agora? Não sei falar inglês”.

 

P/2 – Você já sabia o que a escola era?

 

R – Já. Eu falei assim “Não sei falar inglês. E agora?”, daí fui morrendo de medo e falei “O que será que eles vão pedir pra eu fazer?”. Já fui, sabe quando você nem dorme pensando. Cheguei. Só tinha eu pra fazer a entrevista. Sentei, fiquei lá esperando, daí me chamaram. Eu passei primeiro na entrevista com a Daniela Almeida, foi a primeira pessoa que me entrevistou. Ela me entrevistou e falou assim “Olha, você aguarda que nós estamos fazendo entrevistas e vamos entrar em contato”. Eu já fui trabalhar já com outra, sabe quando você já não quer mais ir pro outro lugar? (risos). Fui e fiquei naquela, super ansiosa.

 

P/1 – Você gostou de lá quando entrou?

 

R – Gostei.

 

P/1 – O que você sentiu?

 

R – Adorei! Eu me senti realizada, né? Porque entrei num lugar que eu queria há muito tempo, há muito tempo eu queria trabalhar lá. Conheci todo o espaço, tudo. A Daniela Almeida me entrevistou e a Marisa, que é uma pessoa que fica três vezes por semana lá na escola, então as duas me entrevistaram. A Marisa demonstrou que tinha gostado muito, eu saí confiante e falei “Acho que eu agradei”. Daí fui trabalhar. Saí de lá, fui trabalhar. Você imagina ficar o dia inteiro pensando “Será que eles vão me chamar? Não?”. Quando eu cheguei em casa, eles já tinham marcado a segunda entrevista, nessa segunda entrevista é que eu fui entrevistada pela Guida.

 

P/1 – Quando você chegou lá na primeira vez, como você já tinha ficado sabendo da PlayPen? Você buscou informação?

 

R – Como era uma escola que eu já queria há muito tempo. Eu só não sabia os detalhes, eu ficava imaginando como é que era a rotina da PlayPen, de ver assim. Quando eu mandei o currículo, eu olhei, entrei no site, daí eu descobri como é que era, que era bilíngue, que a Educação Infantil só era em inglês, quando eu cheguei em casa um tempo depois, que tinha o recado lá, a preocupação já era outra. Porque eu já sabia como era e falei “Agora sem inglês eu to perdida! Eu vou chegar lá e não vou agradar em nada!” e fui pra primeira entrevista, nervosa, pensando mil coisas. Passei pela entrevista, “Bom, todo mundo fala português”, foi tudo bem, tá bom. Quando me levaram pra conhecer a primeira sala da Educação Infantil, a professora cantando em inglês e eu falei “Tô perdida!”. Dancei nessa. Daí fui embora e fiquei esperando a segunda, se um me chamava pra segunda entrevista e chamaram assim, eu fui trabalhar, quando eu voltei à noite já tinha o segundo recado que era pra eu ir no dia seguinte. Eu cheguei no dia seguinte pra entrevista. Chovia e tinha mais três meninas, três ou quatro, agora não me lembro se eram três ou quatro. E eu curiosa pra perguntar se alguém falava fluentemente inglês. Mas fiquei na minha, eu sou muito... quietinha e tal. A Guida chegou e falou “Ah, vou chamar todo mundo junto”. Eu falei “Pronto!”. Daí ela fez uma entrevista com as quatro juntas, escutou um pouquinho de cada uma e ela nos levou pra sala dos professores e falou assim “Eu vou chamar agora uma de cada vez”. Eu fui pra sala dos professores, ela foi chamando e eu fiquei por último. Quando ela me deixou por último eu falei “Ah, só pra dizer tchau”. Que você vê uma ir, a outra, eu falei assim “Pronto. Sobrei”. Elas eram mais novas, daí você já fica pensando nos fantasmas da idade. Quando ela me chamou, ela falou assim, “Não, eu gostei de você, eu acho que provavelmente vai ser você”. Ela perguntou, fez pergunta sobre salário, expectativas e... quando eu fui contratada pela PlayPen eu fui pra ir pra recepção. Eu entrei lá pra ser recepcionista e eu nem pensei duas vezes. Ela falou assim “não, eu vou conversar com o financeiro e ele te liga”. Quando eu cheguei em casa, porque assim, a PlayPen não é muito longe de onde eu moro. Eu cheguei em casa pra tomar banho pra ir pro outro serviço, me ligaram... porque ela me perguntou “Você tá trabalhando?” e eu falei “Ah, comecei tem um mês. Tô na experiência porque eu não quis ficar parada”. Ela falou “E é fácil você pedir as contas? Você consegue começar de imediato porque a recepcionista vai sair” e eu falei “Não, tranquilo”. Eu cheguei em casa, tomei banho, o Edson da Financeira me ligou pra falar que tava tudo certo e que eu podia começar. Eu fiz uma entrevista na quarta, a segunda entrevista na quinta, daí ele falou assim “Você pode começar na outra quarta. Dou pra você uns dias pra pedir demissão, fazer o exame e vir pra cá”. Eu cheguei lá na sexta-feira, na Unip, pedi a demissão e eles falaram assim “Deixa pra pedir a demissão na segunda-feira no setor de RH. Você leva e entrega a carta só na segunda-feira”. Porque é fechamento e você entrega pra não dar nenhum tipo de problema. Eu fui, assinei toda a documentação na segunda-feira, na terça eu fiquei tranquila em casa e na quarta seguinte eu já tava trabalhando. E eu entrei na semana que ia acontecer a Bienal, eu já entrei com festa (risos).

 

P/1 – E como é que foi esse primeiro dia de trabalho?

 

R – Nossa, um desafio gigantesco! Que você imagina uma pessoa que trabalha 19 anos num lugar... eu era secretária geral, só que assim, não tinha um... lidava com as crianças, lidava com pais mas não era aquele atendimento direto de telefone, de você falar com pessoas que você não sabe nem... Você sai de uma conchinha e se vê lá com um monte de gente que você nunca viu, famílias que você não conhece, daí eu achava, a primeira coisa que eu achava, era o nome de todo mundo muito diferente, mas nada, era o medo. (risos). Porque depois de uma semana eu fiquei pensando “Por que eu achei que eu não conseguia nem falar aquele nome?”, mas é pura insegurança, puro medo. Foi assim um dia, eu falava “Gente, eu não vou dar conta” e a recepção é ali na frente. Você já foi lá?

 

P/2 – Eu ainda não fui.

 

R – Fica na frente assim, é a entrada e saída de alunos, eu falava “Nossa, eu não vou escutar. Atender o telefone às três horas, me dava um desespero...”, me deu um... Falei “Não vou conseguir”. No segundo dia, a recepcionista não apareceu, eu fiquei sozinha e falei “Não meu Deus, e agora?” Não sabia o que podia e o que não podia, porque assim, eu sempre procurei não levar costumes de um lugar pra outro, eu tenho esse jeito de trabalhar pronto, quem quiser que faça do meu jeito, não vou adaptar. Não, eu sempre fui uma pessoa que tive muita facilidade em me adaptar com coisas diferentes, eu não sabia, cheguei lá e falei assim “E agora? Será que pode passar a ligação direto? Quem pode atender? Quem não pode?”, foi surgindo mil dúvidas. Porque no primeiro dia, além de ser aquele impacto, a recepcionista tentou passar todas as informações, mas assim, é um mundo totalmente diferente e eu entrei em outubro, eu entrei em outubro. Até julho eu vivi uma situação de escola; em agosto foi todo aquele treinamento; fiquei em setembro na Unip que é uma outra realidade que eu ficava também fechada, que eu até atendia o aluno porque era negociação... mensalidade, tudo, se eles tinham algum problema eles iam negociar, mas era ali. Eu ia ali, atendia aquele aluno e voltava pó escritório, ficava tranquila, fechadinha na minha conchinha. Quando eu me vi lá, uma outra realidade de situação, as crianças falando em inglês, pais diferentes. Já foi aquele susto. No segundo dia, a recepcionista não foi, eu falei “Pronto!”, mas daí uma semana depois já tava na minha casa.

 

P/2 – Deixa-me perguntar uma coisa que eu fiquei curiosa. Na Unip você tava fazendo experiência pra trabalhar...

 

R – Como assistente no setor financeiro.

 

P/2 – Assistente?

 

R – Isso. Porque tem o tesoureiro principal e daí tem uma ramificação em todas as unidades, cada unidade tem em média três assistentes financeiros por período, que é assim, é pra atendimento tanto de recebimento de mensalidade, daquele aluno que não pagou no banco, que chegou fora do horário e você recebe, como negociação de débito mesmo, débito assim, de seis meses de mensalidade você faz a negociação. Também foi uma coisa que eu não tinha vivenciado ainda, que era poder negociar em três vezes, duas vezes, dez vezes, liberar matrícula, não liberar.

 

P/1 – E é isso que eu queria entender. Porque foi uma transição pra uma outra função...

 

R – Totalmente diferente.

 

P/1 – O que te fez decidir por essa mudança tão grande, além do fato de ser a história de sempre olhar a PlayPen e ter um namoro antigo?

 

R – Quando a Unip me chamou e eu passei pela primeira entrevista, eles não contam exatamente na primeira entrevista pra que é que você está sendo entrevistada.

 

P/1 – Ah, é?

 

R – É. Eles te chamam, perguntam se você está interessada em passar pelo processo seletivo deles, daí você faz uma prova, eles marcam um horário, você vai na central, faz uma prova. Geralmente nessa sala tem, pelo menos no dia em que eu fui, tinha umas 20 pessoas fazendo essa prova que é tipo um caderninho. Você prepara, faz toda essa prova, faz a redação, daí você entrega. Depois fica na sala de espera e a responsável pelo RH vai chamando um de cada vez. Daí ela faz a entrevista e você fala um pouquinho, conta um pouquinho de você e tudo. A partir daí, ela fala assim “Olha, nós temos algum...”, porque assim, eles nunca fazem pra uma função só, quando precisa, eles precisam pra vários setores. Então ela fala assim, “Olha, nós precisamos pra vários setores e eu queria saber da sua disponibilidade, tanto de salário, quanto de área” e eu falei assim “olha, eu estou disposta a trabalhar em setores diversificados. A hora que você me falar exatamente o que é, eu estou disposta a enfrentar esse novo desafio”. E salário, eu falei pra ela assim “Salário não dá pra ter uma média, eu prefiro que você faça a proposta porque eu venho de um emprego onde eu tava uma vida inteira, não dá pra você chegar e falar ‘Eu quero ganhar X, sendo que no mesmo lugar onde eu trabalhava eu sei que eles não iam mais pagar esse X’”. Eu sempre deixei em aberto pra proposta chegar e eu analisar. E foi assim. Eu fiz essa entrevista, fiz esse relato e depois de uns dois, três dias eles me ligaram novamente e falaram que eu tinha sido aprovada pela prova, pela entrevista e se eu podia participar da segunda entrevista e na segunda entrevista ela falou que eles estavam mudando todo o setor financeiro, queriam pessoas mais maduras pra alguns problemas que estavam acontecendo, porque na realidade, eu entregava malote e ia carro-forte. Quem trabalha como assistente financeira nas unidades, pega o malote diariamente, entrega esse malote, tem um certo desgaste porque você mexe com cofre. Daí você tem aquela pessoa armada na sala, você tem que estar preparada psicologicamente pra isso e pode tá preparada pra uma situação que não dê certo (risos). Como eles tiveram casos de assalto e por isso eles estavam mudando muito os assistentes. Ela me falou tudo isso e se eu estava disposta e falou o salário. Eu concordei com o salário que eu estava disposta. A partir daí, como era financeira, a central financeira deles é na unidade da Doutor Bacelar. Eu fiz 15 dias de treinamento lá pra saber se eu gostava, se não. Eu fiquei lá 15 dias e depois de 15 dias é que você vai pra unidade de origem realmente. Daí eu fui transferida pra Chácara Santo Antônio. Lá eu fiquei um mês.

 

P/1 – E aí quando surgiu a vaga na PlayPen você já sabia que era pra recepcionista?

 

R – Sim.

 

P/1 – Quer dizer, quando te entrevistaram pela primeira vez.

 

R – É, quando me entrevistaram sim.

 

P/1 – E você achou interessante? Como é que foi a sua reação?

 

R – Não, eu achei, porque assim, era uma coisa que eu esperava muito e eu sempre fui uma pessoa que nunca tive medo de começar do zero, eu sempre falo assim, “Nunca é tarde pra você recomeçar”, eu sempre sigo esse princípio, “Nunca é tarde pra você recomeçar e chegar no seu ponto, atingir o seu projeto”. E eu falei “Bom, eu vou entrar como recepcionista e quem sabe um dia eu mudo de função”. Eu não sabia exatamente como era a rotina lá, eu resolvi arriscar. Arrisquei por dois motivos: porque voltava pra escola que é o que eu gosto, eu gosto de crianças, de ter contanto com crianças, na Unip eu só tinha contato com adulto e assim, foi o que mais... eu ia pra um lugar que eu queria, que eu sempre quis estar e voltava pra escola. Que isso é que era assim, a minha praia vamos dizer. Eu gosto de tá ali, vendo choro de criança, vendo a criança. Chegar lá com dois anos e sair de lá com 14, então eu gosto de ver essa transição. Eu falei assim, “Não importa pro que é, eu venho” e fiquei...

 

P/1 – E como é que era? Conta pra gente um pouquinho dessa fase na recepção, o dia a dia, as histórias.

 

R – Olha, o primeiro desafio foi o telefone, porque eu... como eu falei, eu fazia atendimento mas assim, ligação pra mim era uma vez ou outra. De repente eu me vi com dois aparelhos que não paravam de tocar (risos), o tempo todo, vários recados. Então era uma rotina de recados que tem até hoje, e até mais pelo número de alunos, porque quando eu cheguei na PlayPen tinha uns 200 alunos ou nem isso. Foi todo um desafio. Eu direto com o público. O meu grande desafio foi vencer a timidez, o atendimento de telefone direto que normalmente eu não sou de ficar pendurada no telefone, não sou daquelas pessoas que o dia inteiro têm assunto, não! Sempre fui muito na minha, o telefone essencial. De repente me vi com dois aparelhos, tinha uma agenda no computador, na recepção (risos), que era a agenda da Célia e do Laian que tinha que fazer os ajustes de horário para marcar pais, tudo. Eu não me sentia nem recepcionista porque era tão diferente eu ser recepcionista lá, na PlayPen que eu nem me sentia recepcionista, me sentia mais assim um atendimento ao público, é diferente. Eu costumo brincar, eu passei a vida toda em escola mas a recepção de outros lugares pra da PlayPen é muito diferente, os pais têm uma necessidade de ligar muito, perguntar várias coisas durante o dia e sempre tem recado de alguém que vai alguém e eu não tinha essa vivência. Eu sempre trabalhei assim, o aluno ia com pai e mãe, transporte escolar uma vez ou outra com coleguinha mas era muito de vez em quando e de repente todo dia tinha dez recados. E o medo? Depois das três e 15, quando o telefone tocava que alguma coisa eu tinha feito de errado, “Eu esqueci de alguém”. Tocava o telefone e falava “Cadê o Sicrano?”, eu queria morrer. “Será que eu esqueci de algum recado?” mas não, sempre deu tudo certo, foi uma coisa que funcionou muito bem. E até hoje eu não to totalmente desvinculada da recepção, eu fui pra secretaria mas não me desvinculei 100% da recepção, to sempre dando um palpite lá (risos), to sempre pondo a colher de pau na cumbuca dos outros.

 

P/1 – Você falou que os pais ligavam dez vezes por dia. O que é que eles perguntavam?

 

R – Ah, assim, ou queria falar com alguém ou “Tá tudo bem?”, ou “ Hoje o Fulano vai pra casa do Sicrano”, daqui a pouco, “Ah, não vai mais, não deu certo”, “Ah é o motorista”, “Ah, não é o motorista é a babá”, “Não é a babá é a tia” e tudo isso. “Ah, posso falar com a professora?”, “Eu quero marcar um horário” e isso acontecendo e você fazendo atendimento de recepção. É um volume de informação muito grande, mas é mais isso, essa mudança do que vai acontecer no final do dia com aquele mesmo aluno, muito grande. Às vezes ele chega com um recado e durante o dia esse recado sofre transformações de (risos) umas duas vezes. E às vezes assim, “Ai, tá tudo bem? Você viu a minha filha? Ela chorou?”, “Olha, a hora que passou por aqui não, vou verificar”, essas coisas assim, insegurança. Eu acho que tem muitos que têm necessidade de conversar com alguém e de perguntar, sabe? De se sentir acolhido, porque às vezes não tinha muitos objetivos, “Vou perguntar porque...”, era essa rotina.

 

P/1 – Teve algum evento ou algum momento em que uma enxurrada de pais ligou na escola. Você se lembra de alguma coisa assim?

 

R – Olha, eu tive sorte porque eu entrei na PlayPen em outubro, em outubro teve a Bienal e na véspera da Bienal, “Que horas que vai ser? Que horas que começa? Onde é que vai tá cada coisa? Vai ter exposição?”, no dia eu não sabia todas essas informações, “Se o aluno ia apresentar, se era a classe, se era só a exposição”, era uma busca de informações que pra mim também era novidade. Daí aconteceu a Bienal no sábado, eu comecei na quarta e no sábado foi o dia da Bienal e depois teve mais um mês e meio de aula porque de outubro pra dezembro, logo terminou a aula. Essa etapa foi fácil. Em janeiro eu voltei, tinha a rotina mais simples, algumas coisas que deram pra eu ir (?) conciliando e ajudando a antiga secretária e eu fiquei na recepção até junho de 2007, eu não cheguei a ficar um ano na recepção. Num passei nenhum sufoco, tiveram eventos que acontecem uma vez por ano dos alunos fazerem um acampamento, no dia em que é a chegada do acampamento, “Já chegou? Você já tem notícia?”.

 

P/1 – É a imprensa, o jornal.

 

R – Um jornal. “Mas eu não vi no site. Vocês disseram que iam colocar as fotos!”. Na recepção foi esse acontecimento, um acampamento, a Bienal e uma festa junina, depois eu já estava... eu já fui na secretaria.

 

P/1 – Deixa eu te perguntar, Soraia, só pra gente entender um pouquinho a logística da escola: você ficava na recepção, o Edson na sala dele e quem é que ficava no seu atual espaço?

 

R – A Lourdes, que vem... acho que ela não veio ainda.

 

P/1 – Então já tinha esses três espaços?

 

R – Já. Na realidade é pouco diferente do que é hoje, na recepção eu ficava sozinha; a Lourdes ali onde é a minha sala, ela ficava ali e o Edson na sala dele. Hoje na recepção fica a recepcionista, a outra funcionária que ajuda, fica, é portaria, cuida da portaria ali, da entrega de alunos, recebimento e dá uma ajuda na recepção. E tem as meninas, a Bruna e a Paula, que ficam como uma segunda recepção lá na coordenação. Elas dão uma assessoria pra eles no agendamento de pais, passeios...

 

P/1 – Tudo central...

 

R – Isso. Comigo e com a Lourdes. Assim, agendamento de passeio, a Lourdes ajudava e eu fazia o agendamento de pais e vice-versa. Teve um momento que ela passou a fazer o agendamento de pais e eu os passeios. Era mais centralizado. E daí começou a dividir um pouquinho.

 

P/1 – E você como apreciadora e artista plástica, o que achou das Bienais...

 

R – Maravilhosas! Maravilhosas! A primeira, que foi a que eu... quando eu cheguei foi do Aguilar, nossa! Eu nunca tinha visto, as crianças fizeram trabalhos maravilhosos, as pinturas, as releituras nos quadros, nossa, achei muito... fiquei encantada! É muito bem feito, é um trabalho que é assim, construído ao longo do ano, os alunos têm um momento que vão até o artista, conhecer um pouquinho do ateliê, da história toda do artista, não é assim, por exemplo, mês que vem vai ter uma Bienal e são essas... não! Tem todo um estudo cronológico. E que eles vão conhecendo um pouquinho de onde surgiu o artista, porque é que ele trabalha dessa maneira, qual é a história, no que ele se baseou, tem toda essa fundamentação pra daí acontecer a Bienal. A Bienal é muito bem montada, os alunos conhecem todo o histórico, o porquê de cada quadro, o que levou o artista a fazer esse trabalho, é bem interessante. É mesmo uma Bienal profissional de um artista, como se fosse um artista que preparou sozinho os trabalhos, são trabalhos feitos pelos pequenos artistas (risos).

 

P/1 – Soraya, você conviveu com os pais assim, pelo telefone, pessoalmente um pouquinho mais. E com as crianças? Elas passavam muito na recepção?

 

R – Muito.

 

P/1 – Você convivia com elas?

 

R – Muito. Eles são assim, eles criam um vínculo. Por ser a entrada por ali, o fato de... você cria aquela segurança. Esquecia o trabalho e já corria ali na recepção, “Será que você pode ligar pro meu pai? Eu esqueci o trabalho, esqueci a blusa, eu esqueci o material...”. Tem esse contato e até contar, “Olha, eu viajei, foi assim, eu fui pra tal lugar, ganhei...” tudo o que você possa imaginar eles têm essa necessidade de contar pra gente fazer essa troca de informação, muito gostoso! E tem até hoje, porque também eu sempre passo pela recepção e sempre tá lotada de criança contando alguma coisa. Quando eles não se contentam em contar pra recepcionista, eles vão pra minha sala, principalmente quando se machucam, quando briga e não quer ir pra coordenação (risos), vem contar, vai lá e dá uma desviada, “Sabe que Fulaninho me xingou?” , daí você vai lá, dá uma acalmada na situação. Quando é muito feio não tem jeito, tem que ser dedo-duro, tem que entregar pra coordenação (risos). Dependendo da situação não tem jeito. Às vezes não, às vezes tem aquela criança que necessita de atenção especial, vai cada dia com uma história diferente e você percebe que não é, o coleguinha não fez nada. Qualquer agulha, qualquer cisquinho no olho é uma tempestade mas aí na realidade o que é que ela quer? Ela quer ser acolhida, tem necessidade de você falar uma palavra que vai agradar, vai acalmar, tem muita situação assim, acho que por vir cedo e por N situações da vida individual de cada um, que a gente sabe que nem todos têm aquela acolhida todo dia. É onde vai estourar, na escola, né? De manhã chegou um amiguinho e deu um bom dia que não foi bom, “Olha, ele tá me incomodando na fila”. “Mas o que ele fez?”. “Ele tá falando coisa que e não gosto.” “Mas o quê?”. “Ah, não quero falar.” E aí você vai lá e o coleguinha tá nem aí mas já tá fantasiando. Você dá atenção, vai lá, coloca na fila, conversa com o amiguinho e fica tudo certo (risos).

 

P/1 – Como é que foi passar da recepção pra secretaria?

 

R – Olha, foi uma transição difícil, porque quando fui pra sair da secretaria pra ir pra recepção, eu já tava muito acostumada com a rotina da recepção. Já tava tão familiarizada que eu nem sabia mesmo se eu queria ir pra secretaria. Sabe quando você... foi um desafio que ao longo foi ficando tão, foi ficando tão tranquilo, eu já tava tão acostumada com aquela rotina, que quando aconteceu de eu ser chamada pra secretaria, fiquei... tanto é que, e a Guida também porque ela gostou de me ver ali no trabalho de recepção. De como acontecia. Ela ficou dividida, mas como eu tinha toda uma experiência de secretária, ela resolveu dar essa oportunidade. Por isso que eu falo, que eu estou sempre com um pezinho ali na recepção, porque eu saí de lá, mas eu tenho um carinho especial que eu acho que é o cartão de visitas da escola. Eu sempre tive essa preocupação, eu acho assim, que eu sempre... Quando alguém pergunta alguma coisa pra você, você tem que ter a resposta na hora, eu tomo sempre esse cuidado de dar uma ajuda pra elas. Quando elas tão de saia justa, elas pedem um socorro e eu vou lá pra dar uma ajuda, pra dar um palpite. E tem os pais quando vão fazer visita que têm que passar por mim, eles vão conhecer a escola e eu faço o agendamento dessas famílias e no dia que tem a reunião eu que fico na recepção pra recebê-los e encaminhá-los pra sala de reunião pra apresentação da proposta da escola. Esse é um vinculo maior com a recepção. Na realidade, uma vez por semana eu fico um momento ali pra fazer esse intercâmbio até a parte da coordenação e depois eles descem novamente pra minha salinha pra saber sobre vagas, se já podem fazer matrícula, o que é que precisa pra fazer, tem as informações mais de parte administrativa mesmo. Que documento precisa, quais os valores, então você faz esse contato (risos).

 

P/1 – E as novas funções da secretaria. Quais as que você acumulou? O que veio de novo?

 

R – É, o que vem diferente está na realidade diferente de escola. Como as crianças passam o dia todo lá, é lógico que vai ter mais necessidade das famílias terem perguntas e ter, e eles procuram assim, como eu tive esse momento de quase um ano na recepção e algumas famílias são mais antigas na escola, cria aquele assim, uma pessoa chave. Eles sabem o seu nome e pode ter a recepcionista que for, dez pessoas lá na frente, mas eles vão ligar e pedir pela Fulana de tal. Isso é um diferencial, que por exemplo, eu sempre trabalhei, o tempo que eu trabalhei em secretaria, não fazia tanto atendimento que às vezes são coisas banais. Qualquer pessoa poderia responder pra eles mas que acaba...

 

P/1 – Estabelece um vínculo?

 

R – Estabelecendo um vínculo, onde acumula realmente uma série de atendimentos e a rotina da secretaria não é pouca, é onde tem aquele volume maior de informação. Porque você tem que dar conta da rotina, do dia a dia da secretaria e mais esse atendimento. E quando é pra pai direto pra ter informação da escola, quem passa a informação sou eu, fica bem dinâmico. Passa e você nem percebe (risos).

 

P/1 – E quais foram as maiores dificuldades que você enfrentou durante esse período todo de PlayPen?

 

R – A minha maior dificuldade realmente é não poder me dedicar ao inglês. E isso realmente é uma coisa assim, o que é que te deixa ainda e que não tá de acordo comigo? Eu sou uma pessoa que me cobro muito, tudo o que e faço eu quero ter direitinho, tudo certinho. Têm momentos que não falar inglês me faz falta e, além de me fazer falta, me incomoda, eu preciso correr atrás. Mas daí você procura algum espaço, que horário? O horário, o financeiro pra custear tudo isso porque não dá pra você ir pra um inglês que vai levar dez anos pra aprender, você tem que aprender um inglês mais rápido. Isso ainda não deu e essa é a minha grande dificuldade, porque, não que a gente tenha tantas famílias que ligam falando em inglês, mas que quando ligam você tem que ter alguém pra responder. Eu sempre tenho que ir atrás de alguém pra me dar uma ajuda e isso é o meu grande desafio ainda e minha dificuldade é essa. Todas as outras, todos os outros desafios que tive de forma de trabalhar diferente, a metodologia, a estrutura ser toda uma outra forma, uma rotina, isso em um mês eu já tinha tirado de letra. Eu já tinha me acostumado. Acho que eu quis tanto ir pra lá que até tem funcionário que fala assim, que chega lá pra trabalhar e fala assim: “Quanto tempo você trabalha aqui?”. Na época uma... me chamou muita atenção e eu falei: “Ah, dois anos”. “Nossa, parece que você trabalha aqui toda a tua vida...” Porque assim, a forma de falar, a forma de conduzir dá essa certa tranquilidade. Tem pai que pergunta também, pai que tá lá há seis meses e fala: “Nossa, você trabalha há muito tempo aqui?”. “Quatro anos.” “Só quatro anos?”. Por causa da... é que casou. A minha vontade e com o jeito de trabalhar é tão unificado, eu fico tão fazendo parte de mim que não tem essa, ser só quatro anos é como se fosse quarenta.

 

P/1 – O que você acha, comparando as metodologias da escola onde você trabalhou 19 anos, da metodologia que você vê na PlayPen?

 

R – O desenvolvimento das crianças. É assim, eles têm mais liberdade, principalmente a Educação Infantil. As atividades... A criança realmente conduz e produz atividades de uma maneira mais livre. Apesar de as escolas hoje não serem tão tradicionais, tão assim, algumas escolas ainda dão aquela atividade pré-pronta, que já tá bem, que espera do aluno que ele vá pintar a árvore de verde e o tronco de marrom. Eu acho que na PlayPen a criança faz atividade, é apresentada a atividade pra ela e ele a desenvolve de uma maneira dela, muito pessoal, não é uma coisa... Você vê um trabalho e ele nunca vai estar igual o do coleguinha. E a mesma coisa as atividades de presente, por exemplo, Dia dos Pais, Dia das Mães. As crianças constroem o próprio presente, eu acho que isso é um diferencial. Ao invés de você chegar e comprar, ir numa loja ou encomendar as lembrancinhas prontas, ou que a criança vá só pintar, ou que a criança vá fazer uma colagem. Eu acho que tudo isso dá um desenvolvimento e uma criatividade na criança muito maior, ele vai ser um adulto que vai ter, que vai ser muito mais despojado. Ele vai saber se colocar, sabe o que ele quer, é independente, não tem medo de arriscar, ele já tem... Eu acho que esse é um trabalho diferencial. Porque se você trabalha com uma criança onde você limita muito, é aquele profissional que lá na frente, saiu daquele mundinho e ele já... Não menosprezando ninguém, é lógico que tem muita gente que consegue ir além independente de sua vida escolar. Mas eu acho assim, criança que desde pequena trabalhada a parte criativa dela, vai chegar a ser um profissional super inovado, que vai arriscar, que vai ter uma outra conduta, de estimular a criatividade. De ensinar, alfabetizar, então assim, repeita, né? A idade, o espaço da criança, não é aquela... Não vai ter aquelas letrinhas pontilhadas que ele vai só escrever por cima e aprender, é de outra... São dadas as atividades que vão ter a mesma finalidade de alfabetizar mas que vai alfabetizar de uma maneira diferente, que dá uma abertura maior na criança.

 

P/1 – Soraia, você teve alguma formação, você fez algum curso dentro da escola que você precisou fazer?

 

R – Não, na PlayPen não. Não tive.

 

P/1 – Conta pra gente agora alguns fatos marcantes nesses seus anos na PlayPen.

 

R – (risos). Vamos pensar. Olha, é que são tantos... Um que me marcou muito na PlayPen foi a primeira festa de encerramento. Eu achei a preocupação da Guida em acolher todos os funcionários, como eu entrei bem próximo do final do ano, a preocupação de preparar a festa pros funcionários, de participar, de ter essa finalização de todo um trabalho do ano foi pra mim uma surpresa. Foi uma coisa que me marcou muito. A preocupação dela com os funcionários, porque a gente passa assim, muito tempo num lugar e conhece outras pessoas que contam um pouquinho de cada empresa, de como é, esse cuidado que ela tem de pensar em como vai ser, os detalhes, isso foi uma coisa que me chamou muita atenção, eu achei muito bom da parte dela, essa maneira de ser. Muito gratificante pra gente que tá o ano todo e aí vê essa preocupação que às vezes não é bem assim, você vê várias empresas que têm festas de final de ano, mas que um funcionário, é ele que vai preparar, “Olha, você tem X de verba e você pode fazer até isso”. Não é que a empresa dá a festa mas não tem aquela coisa pessoal, aquele carinho. Eu acho que ela, por ser a dona da escola, divide isso no final do ano e é uma coisa que me marcou bastante, essa primeira festa. Essa organização, essa preocupação dela. Isso me marcou bastante.

 

P/1 – E algum caso específico de aluno, ou pais de alunos que ficaram marcados?

 

R – Ah, tem, tem. Sempre... Pais é uma caixinha, eu falo assim: “É mais caixinha surpresa do que criança”. Logo que eu entrei lá, eu atendi uma ligação, era um pai de aluno querendo falar com uma pessoa. Lá tem um sistema de ramal, eu falei “Só um momentinho” e procurei. Quando voltou a ligação, quando eu voltei a ligação pra falar com ele que a pessoa não tava no setor ele já tinha desligado. Daí ele ligou de novo e falou um monte. Uma grosseria assim, incrível! E eu tinha o quê? Um mês lá, nem isso talvez. Quando ele chegou na escola, eu falei:  “Ah, agora ele vai me matar”. Porque do jeito que ele falou pelo telefone, me deixou assim super assustada. “Nossa!”, e eu só... ele desligou porque... coisa de minutos. Eu fiquei muito assustada com a atitude dele, foi uma coisa que também logo no início, eu tinha acho que um mês de PlayPen, quando ele deu esse destempero todo, mas foi uma coisa muito forte. Daí, já hora que ele desligou, ele ligou em seguida e falou um monte, eu já avisei todo mundo. “Olha, enquanto foi uma ligação assim, assim, assim...” mas depois foi uma pessoa que... Depois de um mês ele era super meu amigo, mas no dia eu fui embora, falei: “Meu Deus! Ele vai reclamar. Já era, né?”. Acontecem todo dia, se for ver, todo dia tem uma coisinha pequenininha. Quando se lida com criança, com pai, sempre tem um... Mas eu acho que, te dizer assim, uma coisa muito forte, não.

 

P/2 – Ou engraçada.

 

R – Olha, engraçada foi um pai que me ligava dez vezes por dia pra querer a vaga pra filha e eu dez vezes por dia ia atrás da vaga dele pra dona Guida e falava assim: ‘Olha, tem esse pai...”. “Nós já estamos com o número de alunos...” E até que surgiu uma desistência e eu consegui atender. De repente, chega o motorista dele, no dia seguinte... Ele fez matrícula, me agradeceu, tudo bem. No dia seguinte, chega o motorista com presente chiquérrimo pra mim (risos). Eu falei assim: “Não!”. Quando o motorista chegou, com a caixa de presente, cartão e tudo o mais eu falei: “Não gente!”. Porque me interfonaram e falaram assim: “Tem um motorista que quer falar com você, quer entregar um pacote”. E eu falei: “Tudo bem”. Tantos pacotes que eu entrego por dia. Chegou o motorista lá com... era uma bolsa chiquérrima que até hoje eu nem usei, porque é tão chique (risos) que não dá pra ir em qualquer lugar, eu ainda não tive oportunidade. Mas foi um fato super engraçado porque eu fiz tão naturalmente... Ele fica ansioso pela vaga e eu com dó de não conseguir a vaga. E quando surgiu a vaga eu liguei e falei “Ah, já deu certo a vaga e tudo”, tão assim... Quando o motorista chegou eu falei: “Não gente, não é comigo isso. É coisa de novela, isso foi uma coisa muito engraçada”. E acontece depois disso, já se tornou mais tranquilo, outro dia também. Esse presente foi o ano passado, nessa época do ano quando não tem mais vaga pra sala nenhuma, daí fica todo mundo com desespero de causa. Mas até então eu não sabia. Era minha primeira experiência (risos). Esse ano também. Um belo dia eu tô na secretaria, liga uma mãe: “Soraia, você lembra de mim?”. “Lembro.” Daí ela falou assim: “Então, você sai que horas?”. Eu falei: “Só saio cinco horas” e ela falou: “Eu tô aí pertinho, eu posso passar aí pra falar com você?”. E eu falei “Pode!”. Ainda não tinha a vaga da filha dela, ela tava na lista desde o ano passado, mas ela podia ainda ficar mais um ano na escola de Educação Infantil. Eu falei “Pode!”. De repente chega ela com bombons da Kopenhagen. “Ai, eu tava passando aqui e lembrei de você...” Daí e falei: “Não, gente!”(risos). Isso é muito engraçado. Daí eu falei assim: “Eu só atendo quem me trouxer bombons da Kopenhagen. Se não vier com um pacote, eu não atendo mais ninguém”. (risos). Mas são coisas que te pegam de surpresa. Pelo menos era fora do meu contexto. Sempre atendi pais e nunca teve esse tipo de situação, foi, depois que eu consegui; a outra já quis garantir antes.

 

P/2 – Agradar você.

 

R – Adoçar-me antes. Eu falei assim “São umas ideias...”, isso são fatos engraçados que acontecem e que é bem engraçado. O do chocolate foi o máximo! Quando ela foi embora, eu interfonei e falei “Olha, a partir de hoje se não trouxer chocolate, sem chances! Não faço nada e não atendo ninguém!”.

 

P/1 – Você falou no workshop na questão da influenza H1N1 quando teve a epidemia.

 

R – Foi.

 

P/1 – Como é que foi essa história. Conta pra gente.

 

R – Foi. Esse foi um fato também bem marcante, em geral, tanto na população quanto na escola. A princípio nós não tínhamos... Surgiu o foco maior. Foi em julho e ia ter o congresso e nós não tínhamos programação de não começar as aulas na data prevista para o calendário. Daí começou, cada dia a mais aumenta os casos em São Paulo. A Secretaria de Saúde começou a divulgar aquele, a estender as férias mais um período e prolongou mais um pouco, começamos uma semana depois. Aquela coisa, toda instalação de álcool em gel por toda a escola, dos dispensers todos, aquele medo geral, por mais que você não queira ter. E nós estávamos na preparação do congresso, do Congresso Bilíngue que vêm pessoas do mundo todo e tínhamos mexicanos e justamente onde tava daquele jeito. “Vai ter o congresso? Vocês vão devolver o dinheiro? Mas o que é que vocês vão fazer pra se prevenir disso? Quais são os recursos?”. Foi um período muito desgastante porque você ficava tendo que dar informações, tivemos alguns cancelamentos mais por fim o congresso aconteceu de uma maneira super tranquila, o mexicano veio e ele não tinha gripe (risos), eu fiquei perto dele e não peguei gripe (risos) e assim, praticamente foi 100%. Tivemos acho que três, quatro pessoas que realmente optaram por cancelar. Mas foi o diferencial, porque o congresso sempre foi um momento bem forte da escola porque traz pessoas de outros países e de várias escolas, várias realidades de ensino bilíngues...

 

P/1 – Foi no começo de agosto?

 

R – Depende. O ano passado foi em maio, abril, em abril. Nós tivemos todo esse processo de... Começou em agosto, com as aulas começando depois, ainda não tinha previsão de vacina, nada e o pessoal já faz inscrição, geralmente pro congresso, as inscrições começam um ano antes. Quando chega a seis meses antes, não tem mais vaga. Já tava tudo organizado quando começou a ficar cada vez pior. Começou lá no México e quando aconteceu, nós não tínhamos ainda casos em São Paulo de gripe, os casos em São Paulo aconteceram, começaram a acontecer em junho, pelo menos os divulgados. O congresso aconteceu um pouquinho antes, ele aconteceu mesmo quando o foco começou a surgir no México e nos outros, Estados Unidos e daí foi se espalhando. Foi por isso que causou esse tumulto, mas foi um congresso com 400 pessoas, 400 participantes, 450 participantes. Foi tranquilo. Depois de um tempo é que foi chegando a gripe em São Paulo e já em agosto nós tivemos que cancelar o início das aulas. E o grande problema de gripe foi depois, não foi nem nessas férias que todo mundo tava com medo, foi depois, nas férias do ano seguinte que teve mais casos do que na que todo mundo tinha medo, que eu acho que todo mundo teve medo e não fazia nada de errado, não saía, não viajava. E depois que ficou mais tranquilo foi quando nós tivemos vários casos de alunos com gripe. Mas assim, todos também tiveram a gripe de maneira tranquila, nenhum caso grave, o tratamento foi feito em casa, com a medicação não teve nenhum agravante. Nenhum caso de chegar a ter pneumonia, de ter que internar, nada. Foram casos tratados mesmo em casa. O divertido foi isso, que um dos palestrantes, um dos convidados era mexicano, elas falavam assim: “Nossa, como vocês vão trazer...” E é o dia inteiro no telefone, aquela coisa, aquela neurose (risos). No dia que ele chegou no congresso, ninguém sabia quem... Eu pelo menos, quando ele chegou ninguém sabia ali na recepção, naquele primeiro momento que era o mexicano. Daí depois era piadinha: “Nossa, falei do lado dele, fiquei falando lado a lado e ele que era...”, virou piada.

 

P/1 – Quando você começou a participar das organizações dos congressos?

 

R – Eu participei do II Congresso Bilíngue, que foi bem no... Eu entrei em 2006, o segundo aconteceu em 2007, no segundo semestre e no primeiro semestre também. Eu participei do II Congresso mas mais assim, na recepção das pessoas, não tão ligada. No terceiro eu já ajudei mais. Já fiquei mais... Porque quem recebe as inscrições do congresso é o Edson da financeira, ele faz todo esse cadastro e o Lyle é quem faz o convite, encaminha, eu ficava mais nessa parte de bastidores mesmo. E no depois, nesse último congresso do ano passado é que eu fiquei mais envolvida mesmo, de fazer tanto o atendimento, o cadastramento de todos na hora que estavam chegando como vendo se não tavam faltando funcionário aqui dando essa. Vendo e dando essa assessoria toda. Daí já foi no III Congresso.

 

P/1 – Bom, agora vamos passar um pouquinho pra falar do futuro. Você quer fazer mais alguma pergunta antes?

 

P/2 – Não.

 

R – (risos).

 

P/1 – Como é que você vê a PlayPen daqui a cinco anos?

 

R – (risos). Ah, eu e vejo conseguindo ampliar o espaço físico dela, no terreno que nós temos ali ao lado. Aumentando a área verde e próspera. Desde que estou lá eu vejo ela a cada ano melhor, com mais alunos, cada vez com profissionais melhores, então eu acho que daqui a cinco anos ela vai estar bem... Hoje ela já tá ótima, daqui a cinco anos melhor ainda. Eu acho que o que realmente, pra nós ali, o que é mais, o que faz um pouquinho de falta é realmente o espaço físico. Não vou dizer que daqui a cinco anos eu vejo o Ensino Médio porque a gente, por conhecer um pouquinho da Guida, sabe que não é o sonho dela de ter o Ensino Médio, se não eu diria pra vocês, ver daqui a cinco anos o Ensino Médio. Que eu acho que a nossa estrutura hoje daria como profissionais, nós não temos o espaço físico mas com os profissionais que lá estão, né? Há tanto docente, tanto da parte pedagógica e de direção com bastante capacidade e competência pra ter o Ensino Médio, mas não é o sonho da Guida e a gente tem que respeitar. Então eu vejo ela assim, a PlayPen daqui a cinco anos mais próspera e conseguindo o nosso espaço verde.

 

P/1 – E a educação, como é que você vê a educação daqui a cinco anos?

 

R – A educação de uma maneira geral? Olha, eu espero que realmente que todos tenham a possibilidade de ter um bom ensino, independente de tipo de escola mas que consiga atender e realmente formar, né? E não só ser um lugar onde a criança vai e passa de um ano pra outro, ou ter profissionais em sala de aula que não têm interesse em trabalhar com esse aluno e não tenha condições também de ter recursos suficientes pra atender crianças com necessidades especiais, seja tanto com algum tipo de deficiência, quanto uma defasagem, uma dificuldade de aprendizagem. Que hoje uma escola da rede pública não tem condição de dar essa atenção pra um aluno que precisa de cuidados e atenção especial pra se desenvolver, então eu espero que daqui a cinco anos, realmente tenham essa visão de capacitar melhor e pôr profissionais que realmente queiram estar ali, porque quando a gente abre um leque muito grande você perde de vista o ponto de partida, né? Então eu vejo um pouco assim a rede pública. O ponto de partida foi ter as escolas, então não adianta dizer assim, “Ah, nós vamos te mais escolas. Nós vamos construir mais escolas”, mas quem é que eles vão colocar ali pra trabalhar? Como é que eles vão cobrar? Como é que eles vão controlar? Então eu acho que é um descontrole. Tem a Secretaria da Educação, tem as Diretorias mas não tem ninguém cobrando desse profissional em sala um bom aproveitamento desse aluno. Eu vejo daqui a cinco anos que isso seja feito diferente.

 

P/1 – E a sua participação?

 

R – Na...

 

P/1 – É, como você acha que vai estar a sua participação na educação daqui a cinco anos? Pode ser na PlayPen...

 

R – Olha, eu espero poder, daqui a cinco anos, continuar na PlayPen e poder ajudar crianças... o que eu gosto muito é de ajudar crianças com dificuldades, me identifico muito. Poder, não digo dar, de uma maneira que no passado já não deu muito certo, mas poder dar uma assessoria pra crianças com necessidades especiais na aprendizagem. Dar um respaldo pra eles poderem ser um profissional lá na frente, tão bom quanto todos os outros.

 

P/1 – Soraia, você é solteira?

 

R – Sou solteira, solteiríssima (risos).

 

P/1 – Você falou que morou com o seu irmão, né?

 

R – É, na realidade é assim, ele mora comigo (risos). Meu pai e minha também e meu sobrinho. Nós moramos todos juntos.

 

P/1 – Quantos anos tem o seu sobrinho?

 

R – Meu sobrinho tem 12 anos. Meu pai tem 70, minha mãe 68, então eles são bem dependentes de mim como eu costumo brincar, “Chegou a mãe”, né? Porque daí quem dá a bronca sou eu (risos), eu fiquei com o papel da madrasta, então eles me esperam um pouquinho pra tomar as decisões. Tem dia que é difícil (risos), tem dia que eu queria ter um pouquinho mais de... “Ah, não vou me incomodar com nada”.

 

P/1 – E você ainda gosta de bichos? Você tem algum?

 

R – Ah, eu tenho três gatos: duas gatinhas já são mais velhinhas, um eu peguei porque a minha vizinha, a gata dela deu cria e ela ia levando pra jogar (risos) na rua, em algum lugar que ela achasse mais fácil desprezar o gatinho e eu recolhi. Eu tenho uma cachorrinha e adotei mais um cachorrinho esses dias (risos) que ele tava ali com uma carinha que queria ir pra uma casa e não tinha, então eu adotei mais um cachorrinho. Tenho uma York que é pequenininha, né? Super tranquila no apartamento. Gato eu costumo dizer assim que gato não ocupa muito espaço, só pra ter mais um (risos). Você não vê o gato, então cada um fica no seu cantinho. São três gatos e dois cachorrinhos. E se eu arranjar mais algum, tenho que sair eu, né? Porque não vai (risos)... mas verdade, esse cachorrinho que eu peguei por último, ele tava na doação da Casa de Animais onde eu compro ração. Um dia de frio, garoando, ele ali na gaiolinha. Eu cheguei e não aguentei. Ele olhava pra mim... a minha mãe diz que é propaganda enganosa, que eu já chego num lugar e os bichos já sabem “Chegou a bobona”, né? Eu cheguei, aquele frio, aquela garoa e ele assim, com aquela cara. Ele é... ele não chega a ser um vira-lata mas, segundo o dono da Caça de Aves, que eu não sei se ele mentiu pra mim, ele é poodle com aquele que tem as orelhas compridas...

 

P/1 – Beagle?

 

R – Não.

 

P/2 – Basset hound?

 

R – Não. Ai, gente...

 

P/1 – Qual que é?

 

R – Cocker. Exatamente. Segundo ele é essa a mistura e ele é cor de mel, então é uma graça. Realmente o cocker tem aquela cara de judiação, né? Ele olha assim pra você e você não resiste. Cheguei com ele em casa, tá lá um mês e meio. Quando eu cheguei com ele, ele cabia na minha mão. Agora ele já tá um pouquinho maior. Minha mãe falou assim, “Se ele crescer muito (risos), você vai se entender com o rapaz da Casa de Aves”, porque assim, ele tem aquela cara, daí você fica assim, olha assim pra ele e fala assim, “Será que eu vou ter uma mistura de golden?”, daí eu fico medindo a orelha dele. Se a orelha ficar maior, é cocker, porque eu ainda não consegui definir. Eu falei assim, “Não sei se ele mentiu pra mim. Mas ele não ia pôr na doação só porque é mistura de golden com alguma coisa” mas ele tá bem grande.

 

P/1 – Nunca se sabe.

 

R – (risos). Eu tô naquelas, todo dia eu chego com a fitinha métrica lá. Ele tá comigo um mês e já tá assim... eu falei “Bom, se ele chegar do tamanho do golden... a minha vizinha do andar de baixo tem um golden no apartamento mas é ela, o marido e o golden, né? Agora, eu já tenho uma pequena população de adultos em casa, mas os meus gatos, se for o golden eu tô perdida!

 

P/1 – Bom Soraia, agora a gente tá indo pra parte final. Vou só te fazer mais umas perguntinhas. O que é que você acha que mudou na educação desde a sua educação até o que você vê hoje na PlayPen?

 

R – Ah, mudou 100%. No meu tempo, além de nós termos muitas atividades já prontas, você quase não tinha contato com folha em branco, pra você usar... “Faça um desenho livre!”, o desenho livre era um acontecimento. O desenho livre na minha época de infantil até quarta série, porque depois na quinta série a gente já sabe que é uma rotina diferente, mas até a quarta série, nossa! O dia que tinha desenho livre era um acontecimento, né? Então desde essa parte até a forma de como alfabetizar. Na minha época eram as sílabas, era ba, be, bi, bo, bu, da, de, di, do, du. Quando eu comecei na educação, ainda era assim pelo menos na escola onde eu comecei a trabalhar e depois a gente já passou pra uma educação com uma visão mais socioconstrutivista, que a criança vai aprender as letras e ela era estimulada a ouvir o som vinculado à letra, de onde vem a... quem tem o nome com a mesma letra? Rótulos... então você vai alfabetizar a criança de uma maneira muito mais natural. Uma das atividades, independente de ser na PlayPen, não sei exatamente por que na PlayPen não tenho contato direto em sala, mas até quando eu tinha mais contato em atividades de sala de sala, por exemplo, eu tinha uma atividade que os alunos tinham que trazer rótulos de alimentos ou de... rótulos diversos, ou  comerciais diversos e a partir daí, fazer uma listagem. Então por exemplo, a criança levava o rótulo da Coca-Cola e já entrava na listinha da letra C. Eles iam associando Coca-Cola começava com a letra C que também começava com o nome do Carlos. A partir daí, surgir a alfabetização se dá de uma maneira muito mais natural, né? Eu acho que esse é o grande salto, realmente eu trabalhar, acontecer, e não impor. Acho que talvez seja mais isso, acontece e não é imposta hoje. Na minha época não, você tinha que alfabetizar no primeiro ano, sair lendo e escrevendo e onde a gente tem aquelas letras maravilhosas de algumas pessoas que não treinaram e vai aparecer lá na frente a dificuldade. Você vê hoje uma criança, eu vejo o meu sobrinho, por exemplo. Aos dois anos ele fez um projeto sobre dinossauros, ele tinha dois anos. Ele sabia falar o nome de todos os dinossauros, por mais difíceis que eram, o que cada um comia, qual era carnívoro, qual não. Então assim, você escuta uma criança de dois pra três anos conversar sobre um dinossauro, imagina! Na minha época nunca! Pegava a cartilha e era aquilo e só! E pra eles hoje é tudo muito mais rico, né? Eles já têm um conhecimento muito mais amplo, então você trabalha com projetos. Quando você trabalha com projetos, aquele grupo vai estudar tudo sobre esse projeto, então lia um leque e no final da vida escolar dele, ele tá intelectualmente dez anos luz do que uma pessoa que fez o primeiro ano há dez anos atrás.

 

P/1 – E qual foi o impacto da PlayPen na sua vida pessoal e profissional?

R – Ai, meio boa. A PlayPen assim, eu não me vejo, o pessoal costuma até brincar comigo e fala que eu durmo na casinha de bonecas lá da PlayPen, porque eles cheguem, eu já tô lá e quando vão embora eu continuo lá. Eu não me vejo sem a PlayPen, é uma coisa só. Profissionalmente me realizou muito porque a maneira de trabalhar, de tomar decisões, de acontecimentos, né? De várias situações que acontecem no dia a dia por mais bobas que sejam, então fez, me deu um crescimento muito grande, eu tive um crescimento muito amplo. Então eu acho que isso foi o grande... porque eu sempre... tinha experiência daquele, vamos supor, da escola tradicional. O caderno, o livro, então você sabe o que pode e o que não pode, mas essa vivência de, esse desenvolvimento de falar com várias pessoas, fazer atendimento, e as oportunidades que eu tenho lá de conversar, de tomar decisões, algumas que são responsabilidades minha são muito gratificantes. Foi um crescimento profissional muito intenso.

 

P/1 – E quais foram os maiores aprendizados?

 

R – Olha, não tenho nem como te descrever, porque é como renascer, é renascer. Na realidade não é um nem renascer, mas um nascer de novo muito diferente. É mudar da água pro vinho. Então você tinha uma tranquilidade e hoje quietinha, aquela rotina todo dia de manhã, é como no filme do Chaplin da indústria, eu esqueço sempre o nome do filme.

 

P/2 – Tempos Modernos?

 

R – Tempos Modernos. Eu apartava o parafuso, o colega punha a roda e lá não, lá eu tenho a oportunidade de apertar o parafuso, colocar a roda e entregar o carro. Acho que é mais ou menos por aí.

 

P/1 – E o que você acha da PlayPen estar comemorando os 30 anos fazendo esse projeto de memória?

 

R – Não, eu achei algo assim, ímpar. Ímpar, porque nunca tinha visto, nunca tinha participado de um projeto dessa maneira, né? De desenvolver dessa maneira. Então às vezes vêm as empresas comemorar dez, 20 anos mas dessa maneira como está feito eu acho muito enriquecedor. Dar oportunidade aos ex-alunos fazerem seu depoimento, os funcionários, então eu achei muito diferente e muito bom, muito interessante.

 

P/1 – O que você achou de ter participado dessa entrevista?

 

R – Eu fiquei achando o máximo! (risos). Chiquérrima! (risos). Modelo de manhã, tirando um monte de fotos (risos)... não, eu fiquei muito feliz por ter sido convidada, me senti muito especial por estar lá há quatro anos e ter pessoas que estão lá há muito mais tempo, então eu achei um privilégio, fiquei muito feliz por essa oportunidade.

 

P/1 – Bom Soraia, a gente te agradece em nome do Museu, em nome do Projeto da PlayPen e muito obrigada por ter vindo até aqui.

 

R – Muito obrigada vocês. Adorei! (risos).

 

(FIM DA ENTREVISTA)


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