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História

O que é do homem o bicho não come

História de: Guilherme Rodolfo Laager
Autor:
Publicado em: 16/10/2015

Sinopse

Guilherme Rodolfo Laager é carioca nascido em 13 de janeiro de 1957. Sua mãe é brasileira, mas o seu pai é suíço. Por isso, morou em Zurique quando pequeno. Isso lhe conferiu uma cultura e aprendizado de língua estrangeiros, que mais tarde foram úteis em seus futuros empregos. Por exemplo, começou a trabalhar muito cedo, aos 14 anos, ministrando aulas particulares de reforço de língua alemã. Na adolescência, quando havia voltado da Europa, teve uma vida ativa no grupo de jovens da igreja do seu bairro, onde conviveu com muitos amigos e pôde aproveitar passeios e realizar trabalhos na comunidade. Mais tarde, formou-se em Engenharia pela UFRJ e trabalhou, primeiro como técnico, depois como consultor, em grandes empresas do ramo. Integrou a Brahma, na área de exportação e chegou a ser diretor do setor. Em 2001, foi convidado a ingressar na área de logística da Cia Vale do Rio Doce e aos poucos está conseguindo implantar a lógica desse campo aos produtos que a Vale produz e exporta. Casou-se com a Sra. Flávia e teve dois filhos, aos quais oferece uma educação multicultural também.

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História completa

P/1 – Guilherme, vou começar pedindo pra você falar seu nome completo, local e data de nascimento. 

R – É meu? Não quer meu... documento não?

P/1 – Agora não, mais tarde...

R – Minha certidão de... (Risos) Meu nome é Guilherme Rodolfo Laager, nasci no Rio de Janeiro em 13 de janeiro de 1957.

P/1 – Seus pais são aqui do Rio de Janeiro também?

R – Meu pai era Suíço e minha mãe carioca, mas de origem pernambucana. 

P/1 – É mesmo? E como é que eles se conheceram, como é que seu pai veio parar no Brasil?

R – Interessante, minha mãe morava numa casa no Leblon e os fundos dessa casa, onde era o quarto dela, janela davam pra uma casa onde tinham uns europeus e meu pai veio num projeto muito novo de urbanização de cidades, então ele veio... foi pra Buenos Aires, lá fez o trabalho e na volta visitou os amigos, e aí encontrou minha mãe, que a janela dele dava pra janela da casa da minha mãe. 

P/1 – É mesmo? E seu pai, o que ele faz, ele era engenheiro... ele é engenheiro?

R – Não, ele era administrador de empresas e na época, ele se formou em 1954, 1953, já existiam faculdades na Europa que... com curso de administração e uma vocação, aquela preocupação de formação de cidades, de montagem, elaboração de urbanização de cidades, tudo. E ele veio pra Argentina pra ajudar em alguns projetos, que era um convênio, acho que era do grupo francês com a Argentina e ele veio pra esse projeto, na volta resolveu conhecer o Brasil, ficou apaixonado pelo Brasil, chegou a comprar terras, tinha fazendas na região de Goiás e aí ficou na ponte aérea de Suíça e Brasil.

P/1 – E sua mãe pernambucana, veio pro Rio, como é que foi?

R – Veio pro Rio com a família e...

P/1 – Por que que eles vieram pro Rio?

R – Porque meus avós vieram pro Rio, a família toda veio pro Rio, ela veio junto. 

P/1 – Mas veio por conta de trabalho?

R – Trabalho.

P/1 – E ela tinha alguma atividade assim ou era...

R – Quem, minha mãe?

P/1 – É.

R – Não, era nova, minha mãe tinha 17 anos quando conheceu ela, era estudante. 

P/1 – Aí eles se conheceram, casaram? 

R – Casaram aí foram morar na Suíça uma época e aí ficaram dividindo tempo. Eu cheguei a morar quando... eu nasci no Rio depois fui morar na Suíça, fiquei quatro anos na Suíça, aí voltei, tive um período também no Rio de Janeiro, tinha a coincidência de ter uma escola Suíça no Rio, existem algumas escolas Suíças no Exterior e uma delas é no Rio de Janeiro, pra apoiar exatamente os estrangeiros de língua germânica e aí deu pra conciliar morar uma época na Suíça e uma época no Brasil.

P/1 – E você lembra assim como é que era, como foi esse período de infância? Você tem mais irmãos?

R – Tenho mais um irmão. Um ano e meio de diferença, então convivíamos muito juntos, então não posso reclamar da minha infância, da minha juventude, ou seja, tive o privilégio de conviver com a Europa que, ou seja, é sinônimo de cultura e também conviver com o Brasil, um pais assim...

P/1 – Aqui no Rio onde era a sua casa?

R – Leblon. 

P/1 – E como é que era? Você se lembra dela?

R – Então era na praia, eu vivia jogando bola na praia, jogava futebol na rua, não tinha... hoje é cheio de sinal, asfaltado, na época era paralelepípedo, não tinha sinal e quando passava um carro, ele esperava concluir a jogada do futebol, que a gente fazia golzinho pequeno e jogava muita bola, adorava jogar bola na rua. E não tinha esse problema de segurança, então o Rio de Janeiro sempre foi um lugar muito bom pra se viver. Ainda é mas... eu me lembro que morava no Leblon e estudava em Santa Tereza, então quantas vezes eu descia de bonde até a Carioca, pegava ônibus e as festas que tinha em Santa Tereza dos europeus que moravam lá, as vezes à noite, terminava a festa meia-noite, uma hora da manhã, a gente descia a Cândido Mendes, se você conhece essa região, a pé pra pegar o Glória Leblon e ir de ônibus à uma da manhã pra casa, sem perigo nenhum, nunca fui assaltado no Rio de Janeiro. Então era uma época muito boa e essa convivência, essa mescla Brasil, Europa é muito bom, soma os prós de cada pais, de cada continente.  

P/2 – Você sempre estudou na escola Suíça? 

R – Sempre.

P/1 – Concluiu os estudos lá?

R – Sempre.

P/1 – E quando vocês iam pra Suíça vocês tinham casa lá, ficavam em parentes?

R – Tinha, meu pai tinha um apartamento lá e ele era próximo ao apartamento...

P/1 – E como é que era o apartamento, onde é que era?

R – Era em Zurique. E família suíça todo mora muito junto. A Suíça já é pequena, aí quando você considera que cheia de montanha, sobra pouco espaço, então a gente convivia muito próximo dos avós, dos primos, era uma época boa. E no período que eu morei aqui também, nas férias eu ia pra lá, então passei sempre as férias na Europa.  

P/1 – E quem exercia mais autoridade na sua casa, o seu pai ou sua mãe? 

R – Mesclado, igual, acho que um relacionamento igual, uniforme... Até os 15 anos, porque aí depois eles se separaram e optei em ficar no Brasil com a minha mãe, nós voltamos mas continuava convivendo, ele continuava vindo pra cá e nas férias eu estava lá sempre direto. 

P/2 – Ele voltou a morar lá? 

R – Voltou a morar lá. Aí foi pra Alemanha já semi aposentado, trabalhava um pouquinho, porque o europeu ele tem essa coisa, ele sabe o limite dele, sabe quando parar e quando curtir a vida, viajam muito. Então a gente ia sempre esquiar, passear, acampar...

P/1 – E esse período da adolescência então você acabou passando mais aqui no Rio de Janeiro? 

R – Sim, no Rio de Janeiro.

P/1 – E como é que foi essa adolescência aqui no Rio de Janeiro?

R – Foi muito boa, muito, muito... olha, eu só posso realmente falar de coisas boas, porque além de ter essa convivência, até como te falei, com um grupo de europeus, aprendendo línguas e tudo, convivendo com essa cultura também... O Rio de Janeiro tem um charme, então eu praticava esportes e ainda somava isso que eu entrei para o grupo jovem de uma igreja lá do bairro e um grupo muito bem estruturado, muito bem montado. Então esse grupo jovem, além da gente fazer todo o trabalho na paróquia, a gente fazia viagens, excursões, fazia peças teatrais, então era como se... Depois que eu saí do grupo, eu fiquei uns sete anos, seis anos no grupo, é que eu vi que eu estava numa microempresazinha, porque tinha área de jornal, a gente fazia jornal da missa e colocava anúncios, então se saia pra vender anúncios nas lojas do bairro, você preparava todo o texto, tudo que ia ser discutido. Aos sábados, tinha um encontro que a gente falava muito sobre religião, sobre fé, sobre vida, então em cada vez, um era escolhido pra preparar essa matéria. A gente organizava shows, viagens, então foi muito saudável esse período... que mesclou família, boas amizades, esse lado de valores, então foi muito bom.

P/2 – Você teve assim algum tipo de vivência, ou formação política?

R – Não, nunca tive não. Eu me lembro... tive sim uma decepção, porque na época do Collor eu tinha amigos em comum, até da ex-esposa dele, a Lilibeth, que foi feita uma campanha aqui, ele mobilizou muito jovem pra eleição dele e nós tínhamos encontros onde cada um colocava suas propostas, tudo, então depois eu vi que nada daquilo que a gente tinha proposto, da (BaseRio?), aconteceu, então se tem uma coisa que eu me lembre foi essa decepção, não sou político.

P/2 – O que você fazia na adolescência _____________ a diversão da época?

R – Eu tinha algumas cachaças, que era meu vôlei de praia. Como a escola era muito pequena, acabava que você era do time oficial do vôlei, do basquete, da natação, então a gente jogava pela escola em vários esportes. Às vezes a gente ia pra uma competição numa escola maior, e acabava que você tirava... jogava futebol e terminava e ia competir no vôlei, ia competir no basquete. Então porque nós éramos muitos poucos alunos, minha turma, nós éramos na minha sala quatro alunos, então você já tinha que juntar até os funcionários da escola pra formar um time. Muito bom.

P/2 – E festas assim a noite? 

R – Eu sempre gostava de dançar, de sair. Esse grupo jovem era muito unido, então a gente proporcionava... e num grupo desse onde você tem tipo 50 amigos, pelo menos tem uma festa por fim de semana. Então a gente estava sempre muito ocupado e... eu sempre fui mais do dia, eu sou uma pessoa que não importa a hora que vá dormir, esse fim de semana mesmo eu fui dormir as três e meia da manhã, fui numa festa, oito horas estava de pé pra curtir minha praia, meu sol. Se baixar algum tipo de cansaço depois, coisa que dificilmente acontece, ai eu prefiro tirar uma soneca a tarde, mas gosto de acordar e curtir a minha manhã.  

P/2 – E nesse período assim, você já tinha algum desejo? A sua família queria que você seguisse alguma carreira?

R – Olha, na minha família eu tinha alguns tios que... engenheiros, e um deles, meu tio-avô, ele foi pioneiro em construção de ferrovias e tudo, então elogiavam muito ele, tinha foto dele desbravando lá. A Brasil-Bolívia, ele morando em Corumbá, então achava aquilo... olhava a foto dele e via nele um herói. E naquela época a engenharia ainda era uma faculdade de ponta, não tinha curso de administração, essas coisas. Então eu me guiei... a minha madrinha também era engenheira muito querida no setor, muito respeitada e tudo, então eu vi nela um futuro, eu quero ser também engenheiro e ter o sucesso que ela teve... profissional.

P/2 – Você fez a universidade na faculdade_______ 

R – Fiz na federal do Rio de Janeiro. 

P/1 – Quer dizer, então ela acabou sendo um exemplo forte.

R – Sendo e ainda é, hoje ainda está com 80 anos, então ainda é.

P/2 – E o teu período da faculdade, o que você lembra assim que marcou?

R – Olha, o que eu me lembro da faculdade era que... como eu já trabalhava e eu tinha que ser muito disciplinado pra conviver com a escola, a universidade e o trabalho. Então toda primeira, segunda semana de cada período, que era semestre, quando eu saia, já mapeava mais ou menos quem é que saía, de que bloco da faculdade pra que no primeiro mês já soubesse com quem pegar carona, então mapeava a minha carona. Porque estudava na federal, trabalhava no Leblon e em Ipanema em Obras, então era a lei da sobrevivência, mapeava e meu indicador de desempenho era o seguinte: quando tinha que pegar o ônibus, ficava literalmente puto, eu falei: “Não.” Essa eu me sentia um derrotado quando entrava no ônibus, porque tinha colocado como meta sempre ir de carro, pra poder ganhar tempo. Então quando não conseguia...olha. Aí eu me lembro que tinha vez que você ainda estava atrasado e o pessoal só pra te sacanear, ligava o limpador de para brisa pra dizer não pra você, aí... esse então eu ficava revoltado. (Risos) Essa é uma coisa que eu me lembro muito da faculdade, era... começou...   

P/1 – Mas você trabalhava já?

 

R – Já, então o pessoal ficava impressionado como eu conseguia saber quem saía de que bloco. Porque aí eu chegava lá... eu gravava a sua fisionomia em uma semana, a pessoa não sabia que isso estava acontecendo, então na segunda semana eu fingia: “Oi, você aí, você me dá carona?” e na terceira já estava engatilhado, engrenado e... economizei um bom dinheiro com isso. 

P/1 – Mas você já trabalhava?

R – Já, comecei a trabalhar com 14 anos dando aula particular, eu trabalhava com Marchand, porque já falava várias línguas na época pela... e aí eu trabalhava como Marchand, em vernissage e tudo, eu estava no cadastro dessas Marchand e ligava e diziam: “Você quer, vai ter um evento, vai ter uma exposição.” Lá ia eu de uniforme e ganhava, sei lá, 100 reais, e já descontava o ISS na hora. E o interessante é que o uniforme era horroroso porque era... era uma... aquelas golas rolê, sabe aquele negócio branco? ... E com um blazer azul e uma calça listrada azul e branca. Torcia pra nenhum pai de amigo meu ir nesse encontro, ninguém me encontrar lá, me sentia assim um palhaço de circo de uniforme. Mas no entanto, foi muito gratificante esse trabalho porque me lembro uma vez, não sei se vocês conhecem aquele pintor, o Heitor dos Prazeres, ele... ele... as pinturas deles são sempre pessoas olhando pro... pra cima e figuras assim de favela ou soltando pipa, uma coisa muito mais assim mostrando o lado pobre, mas mostrando o lado otimista e veio um americano e falou assim: “Me explica esse quadro.” Eu não sabia por onde explicar, eu falei, comecei a falar: “Olha, as pessoas quando estão tristes são cabisbaixas, esse aqui mostra o quê? Otimismo, confiança...” Aí eu não sei porque a velhinha se apaixonou por mim, me deu 10 dólares de gorjeta, então 10 dólares pra mim naquela época era muito dinheiro, entendeu? Então eu falei assim: “Caramba, agora vou começar a estudar.” Então não ia só ia pras vernissage, eu pegava informações do... porque você podia ter só... tipo assim... é chamado, vai lá, cumpre o seu papel meio de recepcionista, meio de tratar bem, está bom... eu falei: “Vou agregar alguma coisa à minha atividade.” Então eu já pegava o prospecto antes, então entre verdades e mentiras, ganhava alguns trocados. Impressionante como o europeu ou o americano quando vinham, ele via que alguém estava ajudando, ele... gorjeta pra eles não é problema quando eles estão sendo bem tratados, bem atendidos. Isso eu descobri.

P/1 – Mas você trabalhava porque você precisou ajudar a sua mãe com a separação ou você queria...?

R – Não, foi mais porque... O meu pai, formação européia, passou duas guerras e tudo, então eu me lembro que uma vez nós fomos pra... foi boa a sua pergunta porque quando eu estava com 14 anos eu fui esquiar com o meu pai e a gente passou uma semana antes de ir pra estação em Paris, ele tinha um negócio pra fazer e não nos comentou. Então foi eu, o meu irmão, ele, curtimos o fim de semana lá em Paris. Na segunda feira de manhã eu acordo, estou no hotel, está ele de terno e gravata, ele tinha se arrumado, eu falei: “O que você vai fazer?” “Não, eu tenho um trabalho.” E me deu um mapa do metrô pra mim e pro meu irmão e falou: “Virem-se.” Então foi a primeira vez que eu...sempre meio paparicado por tudo e tudo, me vi tipo assim... caramba... Então peguei o mapa do metrô e comecei a andar eu e o meu irmão, e a primeira preocupação era como voltar. O problema não era a língua, mas era sempre o novo, porque quando você vai de turista, você não se preocupa, você não grava placa, não grava nada. Mas foi muito gratificante, porque por exemplo hoje eu sei andar em Paris sozinho por causa disso, porque eu ralei... 

P/2 – Foi uma escola.

R – E foi uma escola. E quando terminou esse... essa semana que ele estava lá a trabalho, ele chegou e falou: “Olha, a partir de agora, quando der, sei lá em março, vou te dar um tempo, mas eu vou cortar a sua mesada que você já está grandinho o bastante pra trabalhar.” E aquilo no primeiro momento foi um choque, porque eu pensei: “Minha praia, meu vôlei, meu futebol!” E hoje eu agradeço porque deu pra eu jogar a minha bola, menos, mas passei a jogar melhor talvez, valorizava mais, deu pra ganhar meu dinheiro, deu pra estudar, trabalhar e tudo isso que eu já contei pra vocês eu já conseguia fazer. E aí eu queria uma disciplina que era muito interessante, eu já verificava se o fim de semana ia chover ou não, porque se fosse chover, eu já metia horário de aula particular, que eu tinha uma demanda muito grande, isso era uma coisa. Então, sábado, vai chover. Então eu já metia um cara as nove, das nove as dez, já ganhava um dinheirinho. E as vezes aquela... sabe aquele horário da lombeira de sábado e domingo que você não sabe o que você vai fazer e fica uma hora e meia pegando uma revista, olhando pro teto, implicando com alguém em casa, eu pegava e já mapeava esses horários e eu dava aula. Então eu tinha horário lá das três as cinco da tarde, quando... sei lá, ninguém sabia o que fazer direito, porque era entre a praia que você tinha ido e a noite que você ia curtir, eu já ia metendo algumas aulas particulares e...  

P/2 – Já ganhava o dinheirinho da noite. 

P/1 – Você quer que a gente faça uma pausa pra você atender?

R – ________________________

P/? – Gravando.

P/2 – Aí você entrou na faculdade, assim que você entrou na faculdade você já começou a trabalhar______? 

R – ________

P/1 – ________

R – Isso, aí na João Forte. O meu horário era o seguinte: A faculdade era das sete à uma, então eu acordava sempre às cinco e meia pra pegar dois ônibus pra ir do Leblon pra Federal. Aí tinha aula das sete às onze e aula de onze à uma eu nunca assistia, então eu via quem era o CDF e tirava xerox do caderno dele, porque meio dia eu estava na obra e ficava trocando as construções aí de meio-dia às seis. E seis e meia até às nove eu ainda ia dar aula, às vezes. Então eu fiquei um bom tempo dando aula, eu gostava de dar aula, eu gosto. 

P/2 – Mas sempre aula particular?

R – Sempre particular.

P/1 – Era pra alunos da escola suíça mesmo? 

R – Acho que a maioria sim. Porque acabou que tinham alguns brasileiros e que aí as crianças não acompanhavam bem o alemão, e aí então eu fazia todo o reforço de alemão, ou mesmo como... as matérias eram dadas na época em alemão, física, matemática e o cara tinha mais dificuldade ainda, então...

P/1 – O Guilherme, nesse período você tinha assim um desejo, tipo: “Estou me formando e vou ser o presidente...” Assim, tinha alguma projeção que você já fazia pra sua carreira nesse período da faculdade?

R – Como eu disse já, porque eu tinha visto alguns parentes meus bem sucedidos na engenharia e eu queria ter o mesmo sucesso, como eu falei antes.

P/1 – Mas que tipo de sucesso você pensava? Você pensava em canalizar a sua carreira já pra isso?

R – Não estava atrelado à hierarquia essas coisas, entende, estava atrelado a realização, fazer a coisa que você gostava eu acho que dei sorte, claro. Porque a vida é esforço, competência como oportunidade. As vezes tem todo um lado mas a oportunidade não surge. Mas eu diria que eu tive muito boas oportunidades porque trabalhei em construtoras que dão uma boa visão de como é que funciona toda uma estruturação de uma obra, você tem que ser sistemático, tem que ser bem estruturado. Aí depois fui trabalhar em grandes empresas como a própria ______, uma multinacional, então... que o escritório ficava só no... tinha um escritório no Rio e outro em São Paulo, mas eram uns 30 profissionais no Rio, hoje são mais de 1000 entre Rio e São Paulo, então nós dávamos cobertura pro Brasil todo. Essa foi outra vantagem. Eu tive oportunidade de conhecer os vários Brasis que tem no Brasil né, ou seja, eu trabalhei em Recife, Joinville, Belo Horizonte, São Paulo, Cuiabá, então só com essas cidades, você... tive a oportunidade de entender as diversas culturas que têm no Brasil, saber lidar com elas, saber negociar com elas, conviver com elas, coisa muito bacana. Porque o Brasil é muito rico de cultura, de história. 

P/1 – Vamos voltar um pouquinho pra esse período da faculdade. Como era assim a faculdade, quais as matérias que você gostava mais? 

R – Olha, pra ser sincero, a faculdade não me deixou muitas memórias assim. A escola me deixou muita coisa, aquele período todo que te falei da minha juventude, foi muito forte. E eu sai de uma escola que eu era um nome, que todos me conheciam, todos os empregados,  jogava bola com os empregados, com a cozinheira, a gente brincava, era uma família, e passei a ser um número na faculdade. Então isso você sente a diferença. Então eu procurei pegar de melhor das diversas cadeira e fui aprender com a vida, eu fui aprender com... a consultoria ajudou muito, é colocando a mão na massa.

P/2 – Porque na (Andersen?), que você trabalhou logo depois quando você formou, você foi pra lá quando formou ou...? 

R – Não, logo que eu me formei eu fui pra lá. 

P/2 – Lá era uma empresa mais de consultoria?

R – Era. 

P/2 – Na área de engenharia?

R – Não, de negócios.

P/1 – ______nessa empresa antes de você estar na Internacional Engenharia _________?

R – Isso, eu passei por João Forte e Internacional Engenharia durante o meu período de faculdade, eu era técnico em engenharia. 

P/1 – Como é que foi esse contato? Você foi lá fazer uma ficha pra trabalhar na... 

R – A onde?

P/1 – Internacional Engenharia?

R – Não, foi interessante. 

P/1 – Como é que você entrou lá?

R – Era um engenheiro que era do Grupo Jovem, só que quando eu entrei no grupo jovem com 15 anos, 16 anos, ele já tinha 20, vinte e poucos, então quando ele estava com seus 24, eu estava com meus 17, 18, ele que me ajudou a colocar lá. 

P/1 – Entendi.

R – Então até isso o Grupo Jovem ajudou, o networking, o relacionamento.

P/1 – Aí depois disso é que você vai pra (Andersen?)? E como é que foi esse convite pra ir pra lá?

R – Foi também um colega meu da faculdade, que eu conheci desde o primeiro ano da faculdade, ele... eu acabei sendo padrinho dele de casamento e vice-versa. Ele foi o cara que me deu o primeiro volante do meu carro, porque naquela época era moda ter um volantinho pequeno, ele que me deu, o Zé Luiz. E aí ele entrou na consultoria em janeiro e aí em julho ele falou: “Guilherme, porque você não vem pra cá poxa?” Aí eu fui, fui seis meses depois dele.  

P/2 – E você mudou de ramo, né? Você sai da engenharia prática, da engenharia civil e vai pra área de __________ 

R – É, de técnico de engenharia eu fui pra negócios. Mas o que acontecia é que a consultoria sempre pegava as cabeças, e pegava, eu me lembro na época, de cada 10 consultores eu acho que 11 eram engenheiros, porque eles pegavam realmente pessoal com formação em engenharia. 

P/1 – Até hoje é um pouco assim né? Tem um pouco esse...

R – Ainda é, se você pegar a estatística.

P/1 – E como é que foi a sua experiência lá, quais foram os seus principais trabalhos na Andersen?

R – Olha, uma coisa interessante na Andersen, olha que interessante, eu vim de uma formação européia e fui trabalhar numa empresa americana, então outro choque, foi muito gratificante, então só posso dizer que foi legal, porque cultura européia, cultura americana e ainda poder rodar o Brasil todo através dessa empresa, então cultura de um continente, porque o Brasil é um continente sul americano. E ainda fazia trabalhos em Buenos Aires e tudo, então só faltava a Ásia. Parecia aquele jogo do War, você tinha conquistado aí três continentes. Aí relativamente jovem você já tinha traquejo, jogo de cintura pra poder lidar com três continentes. Aí língua ajuda muito né, falava línguas, então eles sempre me mandavam, quando tinha projetos de empresas européias sempre eu era chamado. E quando eu fui pra (Abrão?) foi assim também. Ou seja, era um grupo que era uns alemães que cuidavam na época, era uma empresa, tinham três famílias, todos alemães. E aí eu tenho certeza que quando me escolheram, me alocaram no projeto. Um dos fatores é porque eu falava alemão, tinha um...

P/2 – Origem...

P/1 – Tinha já essa cultura. Mas fala um pouco dessa experiência na Andersen, assim mais pro lado da administração.  

R – A experiência que nós entravamos em projetos as vezes com pouco conhecimento, mas a capacidade de estudar é muito grande, ou seja, eles usavam muito a nossa capacidade de estudar. Ou seja, que essas consultorias, o forte delas é que eles tem todo uma bagagem de informação, um sistema de informações que...você tem indigestão, entende? Então você recebe um volume de informação muito grande e a estruturação da equipe projeto é muito bem feita porque eles colocam junto com um cara mansinho com um gerente, com um diretor, então você é protegido, você começa a fazer coisas mais fáceis no projeto e em paralelo vai assimilando como conduzir o projeto e nisso você vai migrando. Então é uma arte tocar um negócio desse, acho muito legal. Então... foi isso em termos de consultoria. E você convivia, ou seja, acabou que eu passei por várias grandes empresas através da consultoria. Ou seja, eu tinha vindo de empresas grandes de engenharia, aí eu passei pela Rede Globo, que todo mundo conhece, passei pela Fiat, passei por uma Paranapanema, passei por uma Votorantim, então eram empresas grandes que já tinham uma demanda grande também por esses serviços, então...

P/1 – Quanto tempo você ficou na Andersen?

R – Oito anos. 

P/1 – Isso nós estamos falando mais ou menos... que ano você entrou lá?

R – Foi de 1981 a 1989. 

P/1 – E qual foi, assim, o maior desafio que você teve lá ou trabalho na empresa que você fez que mais te...?

R – Um deles foi implantar o sistema financeiro da Fiat a nível mundial. Ou seja, a Fiat estava redesenhando toda a área de informação financeira, toda a parte de procedimentos, controles, usando umas ferramentas de sistemas antigos lá da época. E no dia 31 de dezembro tinha que estar todos os países, cidades, que tinham filiais no mundo da Fiat, tinham que ter convertido o seu sistema. Então foi um período que trabalhou-se muito e conviveu-se com o Networking dessa empresa a nível mundial muito forte, onde eu trabalhei natal e ano novo. Então vou mostrar que quando tem que ser, tem que ser. Então fui comemorar meu ano novo com o carnaval. 

P/2E porque você saiu de lá? 

R – Eu saí de lá... é interessante porque o consultor, sempre vejo como um copiloto, ou seja, o consultor ele não decide, ele propõe, sugere, estuda, analisa, e eu queria ser o piloto, queria por a minha mão na massa em alguma coisa, em uma operação, conviver com grupos maiores, entrar numa fábrica, ver o outro lado. Então eu entrei em várias fábricas mas como consultor, terno e gravata e ficando mais no ar-condicionado. Então eu queria ver o lado do quentão, então foi muito legal. 

P/2 – Lado de quentão... (Risos) 

R – É, foi muito legal, porque aí eu fui pra Abrão, várias fábricas no Brasil todo e uma capilaridade muito grande, porque era a matriz, as fábricas, os distribuidores e os pontos de vendas. E aí eu comecei tocando na área internacional, que na época era muito demandante, porque a dependência pela importação de equipamentos, insumos era muito grande, na minha época você importava toda a parte de embalagem, você importava insumos, você importava equipamentos. Então já era uma conta de 700 milhões de dólares na época. Então eu comecei tocando essa área e aí convivia de novo com o mundo inteiro porque todos os fornecedores, você estava falando de Austrália, Turquia, Alemanha, Irlanda, o que você imaginar tinha alguma origem aí estrangeira pra algum tipo de demanda que a gente tinha, né. Foi muito gratificante também continuar convivendo com esse lado, foi... E aí passado os dois anos cuidando de importação, eu falei: “Quero ir pra uma fábrica.“

P/1 – Mais _______ você que decidiu sair?

R – _____ É.

P/1 – E porque você foi pra Brahma, assim, como é que foi o convite?

R – Porque eu estava tocando um projeto na Brahma pela Andersen.

P/1 – A pela Andersen, aí já foi meio casado. 

R –Meio casado, eles falaram: “Vem...”

P/1 – Tem espaço aqui pra você. 

P/2 – Aí você falou que foi pra uma fábrica?

R – Aí depois eu fiquei dois anos cuidando na área de importação da companhia. Aí fui pra Minas e cuidei de duas fábricas lá. Eram duas fábricas, e lá também foi outra experiência, antes que você me pergunte o que marcou muito, que eu...Uma das duas fábricas tive a incumbência de fechar. Então você ter que realmente fechar uma fábrica, onde na época tinha cerca de 500 pessoas, você ter que ir tomar uma decisão e em cima de uma produto de consumo. Porque se fosse tipo assim uma fábrica de móveis, você podia avisar: “Olha, daqui a 30 dias né...” Mas quando você fala em produto de consumo, se você quer dar uma de... acho que tem que avisar, você corre risco de alguém não entender, faz uma sabotagem, põe alguma coisa nociva no produto, tinha conseqüências de risco que eu tive que aprender, ou seja, ferir um pouco meus valores cristãos de: “Pô, vou ter que mandar aquelas pessoas embora sem dar uma satisfação, sem dizer que pelo menos eles fizeram um bom trabalho, mas era hora de enfrentar e, numa bela sexta-feira aí, a gente mandou os telegramas para as famílias e no sábado de manhã já estavam todos numa casa que a gente alugou longe da fábrica pra fazer o destrato deles. Então foi uma situação dura.   

P/1 – Era qual fábrica?

R – A de Nova Lima, a escola Nova Lima, em Belo Horizonte. 

P/1 – E lá você ficou bastante tempo, né?

R – Eu fiquei dois anos lá. Aí depois fiquei dois anos numa outra fábrica, que na época era a maior fábrica do Brasil, aí depois fiquei seis anos como diretor. E como diretor, a cada dois anos me deram uma coisa diferente. Sempre tive _______ de dois em dois anos estar... Então eu fui, comecei com ____ de suprimentos só, depois acumulei a de logística, depois acumulei a de informática.  

P/2 – E aí de lá você veio pra Vale? 

R – E estou há dois anos aqui. 

P/2 – Já na área de logística, né? 

R – Logística é. 

P/2 – E como foi essa passagem? 

R – Olha, muito boa também porque foi de empresa grande pra empresa gigante. Ou seja, quando eu achava que a Ambev era grande, ainda tinha coisa maior no Brasil, que a Vale realmente tem outra proporção. 

P/2 – Foi convidado pra...? 

R – É, o Rogi(?) me convidou. 

P/1 – Que ano que ele te convidou?

R – Em 2001. 

P/1 – Aí ele te convidou exatamente pra qual missão?

R – Foi interessante, o Rogi já havia me chamado um ano e meio antes, antes mesmo do descruzamento com o (CSN?) tudo, a gente se conheceu... a gente se conheceu brigando, porque ele era do conselho de uma empresa que era fornecedora nossa, e eu resolvi dar uma chacoalhada nessa empresa e aí, de repente me liga um cara, que eu não sabia quem era, conselheiro de uma empresa que eu sabia qual era e falava: “Pô Guilherme, eu quero te conhecer, pá, pá, você está me dando muito trabalho.” ...Aí marcamos um jantar. Aí além dele ele levou mais três conselheiros, aí eu falei: “Caramba, eu estou em desvantagem aqui.” E começamos a conversar, tal: “Porque está acontecendo isso e aquilo.” Aí eu dei algumas sugestões que eu achava que tinham que ser feitas pra retomar o nosso bom relacionamento. Acabou que foram cumpridas todas, as nossas também, era uma via de duas mãos. Aí ficamos amigos, brigando. E aí uma vez ele me... dentre as várias investidas, uma delas foi: “Pô, você tem que vir, tal.” Eu falei: “O Rogi, eu só vou se um dia você for presidente, porque você no conselho...” porque ele era conselheiro, “... ou você vai estar muito distante ou vai ser a rainha da Inglaterra, e eu não quero isso. Pra trabalhar, eu quero trabalhar mais perto.” E aí, em maio de 2001 _________ ele ligou pra mim: “Olha Guilherme, você é um dos primeiros a saber, amanhã eu estou assumindo a presidência, como... agora não tem mais desculpa.   

P/2 – _______ 

R – Aí eu vim. O que é do homem o bicho não come. 

P/1 – E qual foi a grande missão, assim, qual era o desafio que você tinha? 

R – Olha, vários. Um apoiar a companhia nessa mudança da governança corporativa, ou seja, trazer um outro espírito de trabalho, de velocidade, de dinamismo, de atitude, de vontade, de obsessão pelas coisas, entende? De vibração, ou seja, buscar, realmente ter uma equipe. Brilho nos olhos e pronta para o crescimento que estava latente previsto e foi se confirmando, então essa é uma. A outra, montar a área específica de negócios que me foi atribuído que era de logística. E dentro dessa área também um outro desafio, que era fazer com que o cliente principal aqui da companhia, que é o Minério, fosse muito bem atendido, com produtividade, com eficiência e é o que esta acontecendo, um relacionamento muito legal.    

P/1 – Já dá pra sentir nesse período que você está aqui essas mudanças?

R – Ah dá! Dá pra sentir e o mercado sente. Tanto é que na época que nós entramos a ação valia vinte e poucos dólares e hoje está em mais de 40. 

P/1 – Devia ter comprado.

R – É sempre assim, mas pode continuar comprando que vai...

P/2 – Vai aumentar. 

R – Vai crescer mais, sempre. O preço de ser grande é que você tem que continuar crescendo. 

P/1 – Você sentiu resistência aqui por parte da empresa com esse novo direcionamento? 

R – Não. Resistência sempre vai haver, em qualquer lugar. Na tua família deve ter, nossa família tem, todo... o ser humano é um bicho complicado por natureza, você vê todo um sistema animal todo em harmonia, uma vez ou outra que você vê uma baleia encalhando, um pingüim perdido, mas de resto, você vê que os animais convivem bem melhor que nós homens. Então você volta e meia tem um problema de adaptação e tudo, mas dentro do razoável. 

P/1 – Qual que você acha que é o grande desafio da Vale hoje?

R – Hoje eu acho que o grande desafio da Vale é realmente partir para assumir uma postura de Marco Polo, ou seja, ir buscar conquistas lá fora. Nós temos realmente mostrar que nossa competência ela pode ser utilizada em outros países, em outras fronteiras aí. Em algum momento aqui também se chega num limite, então você tem que buscar...

P/2 – Tem que globalizar. 

P/1 – Quando você chegou aqui, qual foi seu impacto, assim vendo essas proporções da Vale, assim, como você...?  

R – Meu primeiro impacto foi que me deram uma sala que era 10 vezes maior que isso aqui, aí eu falei: “Não, não dá. Ou eu vou cometer suicídio ou eu vou fazer uma surubada, uma festa, uma noitada, uma farra, porque não dá, um salão desse com tanto sofá, tanto conforto, não dá. E nós fomos trabalhar todos numa sala juntos, seja que eu já estava acostumado de trabalhar assim, o Roge também, então onde geralmente um diretor ocupava espaço, hoje cabem oito.  

P/2 – É mesmo.

R – Então a gente fica mais unido, dá mais velocidade. Você já teve lá na sala, já viu?

P/2 – Não, agora não.  

R – Então você tem que ir lá ver. 

P/2 – Estou na época do latifúndio ainda.  

R – Pra você saber o que é que eu estou falando. ...Faltou assunto?

P/2 – Não, jamais.

P/1 – E essas mudanças, quer dizer, você acredita... qual que é a grande meta... quer dizer, na sua área... quer dizer negócio e logística... quer dizer qual que é a grande meta que você tem? 

 

R –Eu diria que a logística é uma atividade que...você já desde os caçadores era uma coisa vital, que é realmente você saber movimentar o teu produto, a tua estratégia de aquisição de alguma coisa, movimentação, maneira eficiente. Porque eu falei os caçadores? Porque quando eles iam pra caça, dependendo da presa que eles iam buscar, eles já montava a maneira de acondicionar, ou era em forma de rede ou era em engradado, etc e tal. Em função do tamanho também do bicho que eles pegassem, eles tinham que ter uma hora pra voltar, porque o tempo de retorno... se eles chegassem antes do escurecer, eles é que iam virar presa, então já havia essa preocupação da logística. Então se você for ver, os egípcios, romanos, os gregos... ou seja, a logística sempre teve na pauta do ser humano. E hoje, cada vez mais, é uma parcela que pode ser uma vantagem competitiva pra empresa se ela trabalhar bem. E o Brasil está vivendo um momento que ela tem que... o Brasil tem que ser competitivo cada vez mais, e está acordando pra que na logística, ou seja, na movimentação dos seus produtos, na administração dos seus estoques ele tenha oportunidades, então é um momento que a Vale tem essa condição de oferecer esse serviço por ter grandes ativos, por estar com os seus ativos onde a economia está estabelecida no Brasil e havendo uma demanda aí crescente por esse serviço. 

P/1 – Ela segue sobretudo a quem? Quem são os principais...?

R – Olha, meu principal cliente vai ser sempre a Vale, hoje 50% desse faturamento é Vale, mas você já tem os outros 50% que não é Vale. Aí você tem o setor agrícola, a (Bungue?), a Cargil, a (ADM?), você tem a siderurgia toda, tem já o setor de alimentos trabalhando conosco. Pra você ter uma idéia nós transportávamos o ano passado 600 contêineres/mês de produtos alimentícios, de higiene, essas coisas. Agora, mês passado já superamos 5 mil contêineres/mês, então uma coisa que vai de seis mil pra cinco mil. Queremos chegar a 15 mil na virada do ano que vem. Então, é uma coisa crescente.   

P/2 – Aproveitando a estrutura que a Vale tem, que precisa ter pra ser o próprio funcionarismo... 

R – Você está maximizando o seu portfólio de ativos

P/1 – E qual que é o grande desafio da área de logística assim pro futuro? Qual que é a meta?

R –É ter um equipe muito bem preparada pra vender serviço, porque vender serviço é bem diferente de vender produto, é um outro______ , ter esses ativos em condições muito competitivas e produtivas, ou seja, dar o máximo que a gente tem, gastando pouco por eles, ou seja, ter uma rentabilidade forte na utilização dos seus ativos e ter um bom sistema de informação, porque aí, você tendo gente, ativos e um bom sistema de informação, você está hoje pronto pra oferecer um serviço de qualidade pra um cliente que vai ser cada vez mais exigente.  

P/1 – E esse serviço... quer dizer, a área de logística na Vale, porque a Vale tem esse ranking de primeira, de líder do mercado de mineração. Qual o papel da logística nesse ranking?

R – Hoje ela é a maior do Brasil também. 

P/1 – Também?

R – É.

P/1 – E no mundo ela tem esse reconhecimento?

R – Não, no mundo. Porque ainda nós estamos trabalhando...

P/1 – __________é um mercado nacional.

R – É, e a logística ainda tem um comportamento muito mais regional do que mundial, menos as companhias aéreas aí...

P/1 – Aí é outra história.

R – Navegação de longo curso, mas do contrário, não.

P/1 – Mas no Brasil ela é líder?

R – É, e a própria marca Docenave, que é uma companhia marítima nossa, ela é conhecida lá fora. A Vale chegou a ter vários navios e operou durante muito tempo esses navios lá fora, é uma marca conhecida e respeitada. 

P/1 – E como é o seu cotidiano de trabalho aqui? Você fica aqui no prédio, você viaja muito? 

R – Olha, como eu tenho essa origem de operação, eu gosto, de preferência estar mais na operação. As vezes o Rogi briga comigo: “Guilherme, estou com saudade de você, estou carente.” Ele liga, eu estou na operação. Agora a gente tem que dividir bem o tempo, ou seja, hoje a Vale demanda, realmente está sempre atenta aos movimentos lá de fora, ou seja, é uma coisa dinâmica. Enquanto tem um pensando bem, tem dez pensando no mau, você tem que estar muito esperto em cima das coisas, alerta. Então esse alerta cabe a nós aqui da diretoria executiva, junto com o Rogi, cuidar disso. Tem todo esse relacionamento externo com o governo, com a agências, com municípios, até em função dessa nossa capilaridade. Só nossas ferrovias passam por mais de 500 municípios. Então multiplica 500 por X vereadores, Y prefeitos e imagina... 

P/1 – Esse relacionamento com a comunidade, com o governo... quer dizer, ele se dá via alguma instância interna da Vale ou a logística tem a sua representatividade junto a...?

R – É uma mistura. Nós temos uma equipe que cuida disso, da formalização de alguns eventos, alguns encontros. Agora é claro que onde nós temos as nossas filiais, nossas sedes, nossas estações, nós queremos que os nossos responsáveis por essas bases, saibam se relacionar bem com os órgãos públicos e sociais e outros, e isso funciona muito bem. A Vale é uma empresa querida nesses lugares onde ela opera. Até porque ela emprega nos lugares, ela dá satisfação aos funcionários de...

P/1 – Como é que fica a responsabilidade social associado à área de logística?

R – Olha, eu diria que preservando o meio ambiente, ou seja, porque você permeia aí vários... O primeiro passo é motivando e garantindo os funcionários. O primeiro social é dentro de casa, isso nós temos uma preocupação muito grande. Não adianta você querer ficar cuidando do seu vizinho e não cuidar bem de casa. Então eu diria que não só é um problema de remuneração, é muito mais um problema de satisfação, de motivação e isso a Vale tem. Eu acho que todos tem orgulho da atividade que fazem, o treinamento é uma preocupação constante, a segurança dos nossos funcionários é uma preocupação constante, as oportunidades de encarreiramento começaram em Carajás e hoje estão no Japão, na Bélgica. E dentro dessa proposta que nós temos de crescimento, nós vamos precisar de gente cada vez mais. Então, acho que isso é nossa responsabilidade também interna, de garantir que essa realização, que acaba permeando nas famílias, porque é a esposa, os filhos, toda a família tem orgulho de falar: “Poxa, meu parente trabalha na Vale do Rio Doce. E o lado externo, nós temos vários programas que a Carla deve ter comentado com você na conversas que ela teve, então são programas muito bem sustentados, muito bem embasados, que não custam pouco, que as pessoas não valorizam muito. Dentro daquele negócio que nós citamos que o ser humano é meio complicado, se eu te der hoje uma BMW, amanhã você já está insatisfeito e quer uma Mercedes, ou seja, já zera seu contador. 

P/1 – (Risos)

R – Você está rindo de mim ou pra mim?

P/1 – (Risos)

R – Mas é verdade, não? Então a gente tem que reconhecer que a Vale tem investido muito nessas coisas, muito. 

P/2 – O próprio novo conceito de responsabilidade social tem mais uma.... 

R –Total.

P/2 – Troca com as comunidades...

R – Total.

P/2 – E aí tem umas contrapartidas ___________

R – Nós estamos usando o Trem da Cidadania, que é um trem que vai e, vocês devem ter ouvido falar, estão usando os nossos trilhos, temos usado as estações para eventos, não é pouca coisa. Estamos agora lá apoiando São Paulo num projeto Guri, já que você é paulista, um projeto lindo lá que o estado de São Paulo _____ de formar músicos, então já tem 110 grupos em todo o estado de São Paulo. 110 grupos multiplicado por 20, 40 alunos você tem aí 4 mil, 5 mil crianças entrando na música e deixando de fazer outras atividades menos produtivas. Acho que essa preocupação é perceptível lá fora por todos.  

P/1 – E fora o trabalho, assim... agora um pouco de fofoca, revista Caras, como que é assim o seu cotidiano? Você tem alguma atividade de lazer?

R – Posso falar tudo ou....(Risos)

P/1 – Pode. Com quantos anos você casou?

R – Eu estou casado há 15 anos.

P/1 – Sua esposa é carioca?

R – É, meus filhos... Apesar de quando eu estava morando fora é que eles estavam pra nascer, mas fiz com que eles nascessem aqui, então vieram a nascer aqui no Rio. Então curto demais eles, valorizo isso.  

P/2 – Que idade tem seus filhos? 

R – Onze e oito. 

P/2 – E eles... você dá a mesma formação, assim como você recebeu essa... uma escola suíça? 

R – Dou, dou. 

P/2 – Eles estudam em escola Suíça?

R – Escola Alemã. Talvez com menos rigor que o meu pai, entendeu? Acho que eles estão muito frouxos pro meu gosto.  

P/2 – A carga cultural brasileira é mais forte.  

R – Ah, muito mais forte. Eu tenho aquela: “Ih pai, você é careta.”

P/1 – E você pratica esportes?

R – Pratico, pratico. Eu ainda estou fugindo dos esportes assim de mesa tipo gamão, baralho. Eu jogo meu vôlei, corro, um squash quando dá. O vôlei é sagrado, é minha cachaça hoje ainda. 

P/1 – Guilherme, você tem assim um grande sonho, assim no trabalho, aqui dentro da Vale?

R – O grande sonho é de ver realmente essa atividade, esse serviço ligado a logística implantado no Brasil, é uma coisa que eu acho que falta hoje, grandes empresas com essa vocação, esse preparo. Então esse é o meu sonho, é ver isso consolidado. Porque isso leva tempo, tem só um ano que nós estamos montando isso aí, então isso leva tempo. 

P/1 – Se você tivesse ou pudesse mudar alguma coisa em sua trajetória de vida você mudaria?

R – Não, não.

P/1 – O que que você acha da Vale do Rio Doce fazer um projeto Memória com seus empregados?

R – Acho muito importante porque a vida defino ela tipo como uma corrida de bastão, sabe aquela passada de bastão? Então, como eu comecei a trabalhar cedo, sempre fui buscando experiências de outros, que no fundo o que é? Se transforma no quê? Recebia o bastão de outros. E hoje já estou numa... num tempo de vida, de bagagem, tudo, que já posso passar o bastão de muitas coisas que acredito e que aprendi ralando e que hoje formaram as minhas convicções, meus valores. Não sei se estou ficando ranzinza ou não, mas estou ficando muito enraizado neles, então...

P/1 – Que ótimo. E tem alguma coisa assim... deve ter várias perguntas que certamente a gente não fez, mas você gostaria de deixar registrado?

R – Não, acho que vocês foram muito felizes nas perguntas. 

P/1 – Tem algumas coisa Miriam pra perguntar assim?

P/2 – O que você achou de ter dado esse depoimento pro projeto Vale Memória?

R – Como eu falei, gratificante porque acho que ele pode ser um... certamente será um veículo onde vai passar um pouco das minhas crenças e pode ser que alguém tenha afinidades com elas e _______ um clique, tipo assim: “To afinado com isso.” Então, copia as coisas boas. 

P/1 – Que ótimo, obrigada.

R –Obrigado você.



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