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História

"O professor é insubstituível"

História de: César da Silva Junior
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/12/2020

Sinopse

Amante dos esportes. Formação em Ciências Biológicas. Carreira extensa na área de Pedagogia. Professor de Ciências e Biologia. Importância do professor. Pueri Domus. Dante Alighieri.

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História completa

P/1 – Então, eu gostaria que o senhor começasse pelo seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Eu sou César da Silva Junior, nascido em São Paulo, Capital, na Vila Mariana, em dezenove de dezembro de 1934.

 

P/1 – E qual foi a sua função, atividade no Pueri Domus?

 

R – No Pueri Domus eu fui contratado pela Direção para o início da montagem do curso de segundo grau, no ensino médio. Do grupo do qual participaram, vários colegas meus, naquela altura já bem conceituados em São Paulo, mormente nas áreas de Física, Química, Biologia, Português, Matemática, eram, praticamente, professores novos na escola, todos nós. Um grupo de umas seis, sete pessoas.

 

P/1 – Legal. E o nome dos seus pais?

 

R – O meu querido pai é César Francisco da Silva e a minha mãe é Josefina Dias da Silva.

 

P/1 – Fala um pouco sobre a origem da tua família.

 

R – O meu pessoal por parte de pai é de uma região perto de Coimbra, o Espinho, e por parte de mãe, o meu avô nasceu em Milão, na Itália, e curiosamente os dois eram primos. Meus pais eram primos.

 

P/1 – Eles se conheceram aqui?

 

R – Se conheceram no Brasil, no comecinho do século passado.

 

P/1 – E qual era a atividade profissional dos seus pais?

 

R – O meu pai trabalhava, praticamente, a vida toda, em comércio, depois passou a ser bancário nos últimos anos em que ele trabalhou, ainda antes de se aposentar. A minha mãe trabalhou como “do lar”, primeiramente, cuidando dos dois filhos, eu e a minha irmã. Depois ela passou a trabalhar no comércio como telefonista de uma empresa de tecidos.

 

P/1 – E conta um pouco como era a casa onde o senhor morava na infância. Quais são as memórias que o senhor tem?

 

R – Agora vai ter que se desenterrar um monte de coisa curiosa. Família muito grande, casa sempre cheia, muitos primos, muitos tios e grandes festas em família em fim de semana. Uma casa muito movimentada, um pessoal muito alegre e uma convivência social muito ampla com vizinhos. Era um ambiente muito gostoso e muito afetivo também.

 

P/1 – O senhor morava com os pais?

 

R – Moramos praticamente toda a minha infância e juventude com os meus pais e os meus avós, especialmente a minha avó materna.

 

P/1 – E o que o senhor lembra das brincadeiras de infância? Era brincadeira de rua, como era?

 

R – É, brincadeira de infância, tanto com os colegas do mesmo bairro quanto os parentes, envolvia muita brincadeira que já não existe mais hoje, coisa de pega-pega, de mão-na-mula, outras coisa de arco e lanterninha com fogo vivo, muita bola no meio da jogada, futebol, bolinha-de-gude, peão, o famoso peão que a gente não vê mais. Tinha muita diversidade de brincadeira.

 

P/1 – Era na rua que o senhor brincava?

 

R – Sempre na rua ou em grandes quintais, que hoje a gente não vê mais.

 

P/1 – Com vizinhos?

 

R – Com vizinhos participando. E era muito, naquela época era muito comum as famílias terem um clube de esportes, a criançada usar a piscina e tudo mais, que ficava mais próximo de casa. E nessa época eu frequentei durante a infância todo o Clube Regatas Tietê juntinho à Ponta das Bandeiras, lá no caminho para Santana sobre o Rio Tietê. E essa época a gente passava o dia inteiro no clube, os parentes, os conhecidos, os garotos da própria escola eram todos do mesmo lugar. Havia muita coisa de bairrismo naquela época, tanto que, curiosamente, as crianças de um quarteirão mantinham rixas com as de outro quarteirão, mantendo o seu território mais ou menos isolado. Mas aquele grupo daquele território era muito fechado, muito amigo.

 

P/1 – Que atividades vocês faziam no Clube, em específico?

 

R – Era muito... Embora possa parecer estranho, porque hoje todo mundo faz isso, na década de 1940 todas as crianças faziam muito esporte nesses clubes, desde natação, que o aprendizado de natação era muito comum, e esportes coletivos, futebol, basquete, vôlei, era muito frequente isso aí.

 

P/1 – Dessas brincadeiras, atividades, o senhor tem uma que te agradava mais, que te empolgava?

 

R – Eu sempre fui de correr muito, tanto que depois eu fui participar da equipe de atletismo do São Paulo Futebol Clube, na década de 1950. Fazia muito corrida de rua, pedestrianismo, corrida de clube, competições na Federação Paulista. Mas era mais com ________ de bola, futebol e basquete que a garotava ficava bastante. Especialmente futebol. Toda a rua tinha a brincadeira de jogar a bola no meio da rua, na calçada, e tinha muito campo de várzea, então ia o grupo inteiro para o camping e ficava a tarde inteira jogando futebol. E de vez em quando pegando uns mergulhos no Rio Tietê, famoso Rio Tietê, que ainda era...

 

P/1 – Que ainda era limpo!

 

R – Piscoso, também. (risos) Era bem...

 

P/1 – Era limpo?

 

R – Era limpinho. Dava para nadar sem problemas. Pelo menos até 1945 eu nadei no Rio Tietê.

 

P/1 – Que coisa, né? O senhor comentou sobre as festas e tal, fala um pouco como que era essa convivência em família, festas, o fim do ano.

 

R – Festas. É aquilo que a gente vê muitas vezes até em alguns filmes italianos, né? De juntar a família toda em torno de uma mesa de banquete, cada um levava alguma coisa, cada um levava o seu prato preferido. Então, todo o mundo tinha o seu prato realmente à disposição, não precisaria ficar preocupado com isso. Levava as bebidas, a garotada toda à vontade, e ficávamos lá horas, _______ domingo ou sábado e ficávamos horas lá, conversando, brincando. E era muito comum essa vivência com os adultos também. Muita vivência com os adultos. O adulto participava muito da vida em família, não tinha essa história de deixar as crianças de um lado e “nós vamos fazer outra coisa”. Não, era todo mundo junto! Então, você assimilava muita coisa importante e a garotada tinha muito respeito pelos adultos, pelos ensinamentos que eles faziam, e havia muito esse senso de responsabilidade também, porque a gente era encarregado de missões que hoje em dia nem garotos de dezoito, vinte anos conseguem fazer. Eu tive uma época, por exemplo, nessa época da guerra, Segunda Guerra Mundial, em que eu, com onze para doze anos, era caixa de uma mercearia, eu ficava no caixa de uma mercearia do meu pai, na Rua Mario de Deus, na Mooca, e havia dificuldade de se conseguir açúcar, racionamento de um monte de produtos de primeira necessidade, mas a garotada fazia entrega, entrega de marmita, o outro participava, como eu, de caixa, outros faziam compras na cidade, na Rua da Cantareira, para os bares, etc. Então, todo mundo tinha a sua atividade e com responsabilidade, né? Ia para a feira buscar lá as verduras do dia, era sempre a garotada que fazia esse serviço.

 

P/1 – Era um outro mundo então!

 

R – É, todo mundo trabalhava um pouquinho em alguma coisa.

 

P/1 – Tem algum fato da tua infância que seja marcante e que o Senhor lembre?

 

R – As coisas mais marcantes para mim, em termos de infância, foram alguns acidentes. Um quase afogamento que eu tive numa piscina, numa viagem.

 

P/1 – O Senhor?

 

R – Isso foi em Lindóia. Um acidente num prédio em construção do lado da minha casa no Bom Retiro, onde caiu um _______ na minha cabeça, de cima. Eu acabei desmaiando. Felizmente, não chegou a afetar em nada o crânio, né? Pegou mais no ombro. Tive um acidente de automóvel gravíssimo uma vez que eu ia para Campinas com um conhecido adulto, transportando leite pela Companhia Leco, e o caminhão bateu numa avenida em Campinas. O motorista, que era amigo nosso, caiu no meio da avenida e eu fiquei sozinho no caminhão. Eu consegui dirigir o caminhão, pulei para o lado ______ _______, encostando na guia, até bater num muro de um terrenão vazio. Consegui parar o caminhão lá na loucura.

 

P/1 – O senhor tinha quantos anos mesmo?

 

R – Tinha uns treze, catorze.

 

P/1 – Que aventura!

 

R – Foram acidentes, coisas que marcaram muito.  Afogamento, coisa de queda na cabeça, automóvel, caminhão... Mas também tive os momentos bons de convivência com a garotada, os parentes todos.

 

P/1 – O senhor era uma criança tranquila ou agitada, de fazer arte?

 

R – Não, eu era muito responsável,  muito demais para o meu gosto, a vida inteira. Tanto que depois me elegeram o exemplo da família, coisa que eu detestava. Era o certinho, que só estudava, não sei o quê, pá pá pá, mas eu gostava muito de ter liberdade de ação e não ter que prestar satisfação para ninguém, fazer as coisas que dava na cabeça e tal. Felizmente eu consegui me livrar desse suplício de ser o exemplo, né? Eu acho que ninguém gosta de estar na mira de uma família inteira dizendo: “Olha, tá vendo, ele fez isso, você vai ter que fazer também porque ele está certo!” Mas eu fazia muita estripulia também com os primos todos, com alguns deles a gente convive até hoje.

 

P/1 – Conta um pouquinho como foi a sua primeira escola, as suas primeiras memórias na escola.

 

R – Não foram boas, não. Eu fui matriculado, desde pré-escola, naquela altura, num colégio de padres Salesianos, no Bom Retiro.

 

P/1 – Isso em que ano?

 

R – Existe até hoje, se chama Escola Dom Bosco, fica na praça onde é hoje o Quartel General da Polícia Militar. Nessa escola eu fiquei dois anos e saí por um problema sério que aconteceu. Nessa escola católica havia o catecismo, você era obrigado a decorar duas ou três perguntas e respostas para dar como lição memorizada no dia seguinte. Todo dia a gente decorava duas a três questões, tipo assim: “Quem é Deus?” “Deus é o senhor de todas as coisas!” “O que você tem que fazer?” “Respeitar Deus acima de todas as coisas!” Um monte de _____. Num determinado dia, eu tinha os meus seis anos, cinco para seis anos, eu esqueci de decorar as duas ou três perguntas e o padre foi tomar isso em aula. A gente mal sabia escrever, estava sendo alfabetizado e eu fiquei todo trêmulo, com um medo danado. Eu não sabia, aí ele me botou de castigo numa igreja do lado do colégio, que era praticamente parede com parede. Me colocou de castigo por volta de uma hora da tarde, quando a garotada saiu às cinco horas da tarde eu senti pouco, não me lembro bem, a minha mãe me esperava e eu não aparecia. Aí lembraram que eu estava de castigo na igreja. A igreja estava às escuras, toda trancada e eu fiquei lá, de joelho no altar por uma hora, esperando a ordem de sair do castigo. A minha mãe ficou louca da vida naquela altura, quase agrediu o padre e me tirou da escola.

 

P/1 – Com razão.

 

R – Depois eu frequentei escola pública até entrar de novo na escola dos Salesianos, já no ginásio. Eu fiz todo o primário em escola pública.

 

P/1 – Onde era essa escola?

 

R – A escola, primeiro, uma parte no Tucuruvi, uma escola, a única que havia pública na Avenida Tucuruvi, Escola Albino César, ainda existe até hoje. Depois foi na escola Duque de Caxias, que era na esquina da Rua Bandeirantes com a Avenida Tiradentes, no Bom Retiro, aí eu terminei o curso primário.

 

P/1 – Nessa para a escola do Tucuruvi, o Senhor ia a pé? Como era?

 

R – Ia a pé pela linha do trem. Tinha o trenzinho da Cantareira que passava lá e a escola ficava a um quilômetro mais ou menos da minha casa. A gente ia a pé pela linha do trem, subia o morro e estava na avenida ____________.

 

P/1 – E como que era o uniforme?

 

R – Ah, não havia um uniforme. Era uma calça curta be brim, comum, de brim cáqui, amarelado, e uma camisa branca. Só. Às vezes tinha uma camiseta quando estava frio.

 

P/1 – O senhor se lembra dos espaços dessa escola? Dos lugares... O que te marca?

 

R – Tinha quadra. Na escola, assim, não. A professora... Como sempre, a gente lembra bem das primeiras aulas lá, mas não era primeiro nem segundo ano, já estava no... Não, era primeiro e segundo ano, sim, era primeiro e segundo. Depois que eu fui para o Duque de Caxias. Mas eu lembro muito do entorno da escola. O bairro Tucuruvi estava crescendo, estava se formando, e a gente saia da escola e ficava em volta, lá no próprio parque da escola, e no fundo tinha uma espécie de mata fechada, a gente ficava subindo em árvore, roubando goiaba, fazendo estripulias em árvores, todo um grupo de cinco seis moleques, todo dia era isso aí.

 

P/1 – As salas eram mistas? As salas de aula.

 

R – As salas eram mistas.

 

P/1 – Mistas. O senhor se lembra o primeiro dia de aula? Como foi a sensação?

 

R – Isso foi nesse colégio de padres.

 

P/1 – No Salesiano?

 

R – Não me lembro nada, nada, nada. Eu lembro bem desse colégio de padre, que eu tive um acidente feio com o carrossel. Soltou aquele cavalinho do carrossel, eu caí e a pata do cavalo bateu na minha cabeça, fraturou o nariz aqui, fui parar o pronto-socorro e tal, coisa curiosa. É o que eu me lembro do primeiro ano do colégio.

 

P/1 – (risos) Fala um pouco dos materiais que o senhor usava. Livros, jogos, eu não sei que tipo de materiais que se usava.

 

R – No curso primário... Olha, não havia pedagogia praticamente nenhuma. O que havia, na época, era um curso que depois de pouco tempo deixou de existir. Chama-se trabalhos manuais, era curso obrigatório. Então, a gente usava materiais comuns de sobra, como se fosse reciclagem hoje em dia, e montava brinquedos, pegava rodinhas e fazia carrinho, pegava corda e fazia chinelo de sobra de corda, costurava. Era tudo trabalho manual dirigido pelo professor, pela professora do curso. Ficávamos praticamente, às vezes uma hora ou mais, fazendo esses trabalhos manuais, cartazes e pintava alguma coisa, mas era tudo muito difícil em termo de matéria-prima. Não havia essa riqueza absurda de materiais que a criançada tem hoje para pintar, modelar, né? Joguinhos não existiam. Joguinho, a gente fazia o nosso. Era inventar algumas coisas.

 

P/1 – Que tipo de joguinhos?

 

R – Botar um taco num canto e jogar argola para embocar. Essas coisinhas simples, né? Eventualmente brincava com bola também, na própria sala a gente brincava com bolinhas, não tinha muita coisa de recurso, não.

 

P/1 – E havia cartilha? O senhor se lembra?

 

R – Olha, havia cartilha, mas não me lembro o nome. O que eu me lembro bem, e que eu tenho até hoje, eram os primeiros livros de português e de aritmética, que eram livrinhos de tamanho de bolso. Não eram livros descartáveis, consumíveis, você praticamente usava aquilo mais como memorização de coisas. Era muito precário o material.

 

P/1 – E tinha caderno de caligrafia? Como era?

 

R – Tinha sim. Você usava muitos cadernos. Você preenchia todos os cadernos, geografia, história, linguagem de caligrafia, tinha até coisa de cantor fônico. Preenchia, fazia clave de sol, fazia dó, ré, mi, aquela coisa toda de cantar em coro.

 

P/1 – Tinha aula de música.

 

R – Tinha trabalhos manuais, música e, depois, no ensino fundamental, que era o ginásio atualmente, de quinta a oitava, nós tínhamos latim. Além de tudo isso tinha latim, tinha português, inglês e francês. Era um curso muito puxado, muito pesado.

 

P/1 – Fala um pouco sobre as matérias, as atividades que o senhor mais gostava na escola.

 

R – Sempre tive duas paixões na escola, pela vida afora em termos de cultura, né? Um no lado esportivo e outro no lado de ciências. Eu praticamente não fazia outra coisa senão mexer em plantas e em animais, a vida inteira. Colecionava besouro e ficava de olho no ovo chocando, pegava fruta para ver como é que era uma flor, como que era um fruto por dentro, tudo que era coisa, novidade, minhocas e sei lá o quê. Eu guardava essa bicharada em casa, escondido da minha mãe, né? Então eu tinha cobra, tinha lagartinhos, lagartixa, e deixava na caixa para ver botar ovo, tudo escondido nos cantos, no forro. De vez em quando, ela pegava um desses negócios escondidos e ficava desesperada porque a gente mexia inclusive em aranha, tinha cada uma. Onde eu morei tinha umas aranhas caranguejeiras que eram gigantescas, dava medo só de ver, e eu pegava na mão aquilo, com oito, dez anos.

 

P/1 – Que barato!

 

R – Então, a minha vida inteira eu gostei de mexer com natureza. Esporte, nem se fala. Pratiquei muito e vivia correndo a vida inteira pela rua. Muitos passeios a pé longe de casa, de vez em quando eu sumia duas, três horas, ia passear quilômetros de distância, ninguém sabia onde eu estava, mas era gostoso. Não havia os riscos de hoje na rua, você andava por onde você quisesse, sossegadamente, não havia problema nenhum, nenhum.

 

P/1 – E tinha uma matéria que o senhor não gostava?

 

R – Matéria especificamente, não. Números, detesto números para qualquer coisa, marcar data de aniversário, data de casamento, data de não sei o quê, contas e administração, economia. Isso aí para mim é um inferno, é uma tragédia mexer com isso. Logicamente, matemática eu não suportava.

 

P/1 – Que tipo de coisas vocês liam? Livros, como era?

 

R – Leitura quase que obrigatória. Nessa época da infância, era Monteiro Lobato. Tanto da Emília como a Narizinho, aquela coisa toda, e também alguma coisa de Urupês, que era mais adulta, né? Toda a história da luta do Monteiro Lobato com o petróleo. Então, a gente lia muito e lia também os clássicos. No ginásio, quando eu fiz o liceu Coração de Jesus de Salesianos, você era obrigado a ler Machado, Alencar e Eça de Queiroz, essa turma toda, os clássicos da língua portuguesa, você era obrigado a ler aquilo tudo. Sonetos de Camões: “Alma minha gentil, que te partiste. Tão cedo desta vida descontente, repousa lá no céu eternamente. E viva eu cá na terra sempre triste.” A gente não esquece mais.

 

P/1- E havia biblioteca?

 

R – Então... A gente lia muito. A biblioteca da escola era muito pobre, muito pobre. A gente era obrigado a comprar o livro, não tinha muito recurso, a gente comprava o livro e ficava com ele, tenho alguns até hoje aí guardados.

 

P/1 – E o senhor gostava?

 

R – Gostava muito de ler, especialmente me atraia muito o Alencar, talvez pelo romantismo nativo, falando muito de Nordeste, de Amazônia, de Cecis e Peris da vida, aquela coisa toda. Outra coisa que a gente lia demais naquela época, já no tempo do colegial, era a Revista Seleções, que está até hoje aí. Praticamente, a moçada tinha que ler aquilo para se atualizar. A gente lia alguma coisa, não era bem revista, mas os jornais da época. A gente lia bastante jornal. Acompanhava a guerra de 1940 a 1945, depois, mais tarde, era a Guerra da Coreia, em 1950, a gente lia muito noticiário de jornal, política. E era comum você ler coisa de aventura. O que eu me lembro de mais comum em aventuras era o livro do Tarzan, eu li uma coleção enorme do Tarzan, do Edgar Rice Burroughs, que depois passou a ter filmes com aquele ator que ficou com o clássico lá, esqueci o nome dele agora. Johnny Weissmuller era o primeiro Tarzan que fez filmes, né? Mas o pessoal lia muita coisa, lia-se demais. Não só, mas a gente era obrigado a guardar trecho de poesias, trechos em latim de César, de Cícero, de não sei quem, era uma loucura.

 

P/1 – E sobre as ilustrações? O senhor se lembra?

 

R – Ilustrações dos livros?

 

P/1 – É.

 

P/1 – Uma coisa horrorosa.

 

R – Como era?

 

P/1 – Na nossa área de ciências era tudo coisa do exterior, às vezes você não tinha nenhuma planta ou animal daquela espécie no Brasil, era tudo de fora. Eram mal e porcamente traduzidos com precisões, conceitos e tudo mais, e o projeto gráfico era sempre em preto e branco, com figuras pequenas, com as legendas mal feitas. Você não conseguia decifrar, não havia indicações de como é que tinha sido feito um corte para mostrar aquela figura, um esquema. Era muito complicado. E eu tinha muito recurso em desenho, eu desenhava razoavelmente bem e eu fazia as minhas ilustrações para poder estudar depois com mais tranquilidade, né? E os professores também não faziam muita ilustração em quadro-negro. Eles falavam muito, quadro-negro era para fazer questionários e respostas, aquela coisa, né? Eram aulas muito quadradinhas, muito fechadas, não tinha uma dinâmica de boa aula, era uma coisa muito cansativa. E além de que você era obrigado a manter uma postura em aula quase imexível, então qualquer coisa já era...

 

P/1 – Isso para uma criança é impossível, né?

 

R – Qualquer coisa já era uma falta grave, tudo mais.

 

P/1 – Fala um pouquinho de como era organizado o tempo na escola, você chegava e aí começava as aulas...

 

R – Era uma coisa muito formal, muito padrão. Entra e vai direto para a sala de aula, assiste às aulas até o recreio, recreio fixo. A única alegria nossa na escola, a alegria do aluno, era ir para a aula de educação física. 

 

P/1 – Como era?

 

R – Você descontraía um pouco mais, não eram professores formados em educação física, eram todas pessoas militares do Exército e da Força Pública, naquela época, agora é a PM, que davam aula. Eles trabalhavam no exército, na Força Pública, como professores do pessoal que fazia preparo físico do militar e todos eles davam um treinamento para os estudantes na escola. Nas faculdades nem existia Educação física naquela altura, só no colégio. Era uma formação quase militar para o garoto. Você tinha Ordem Unida, tinha, desfilava nas datas nacionais, sete de setembro, quinze de novembro, nas ruas, nas avenidas, todo mundo uniformizado, o batalhão, porta bandeira e tudo mais. E eram aulas, você tinha metade dessa aula padrão de você se perfilar, fazer contingência e sei lá o quê, e metade era livre para você jogar bola. Não havia outra coisa interessante dentro da escola, era um recreiozinho de vinte minutos, meia hora, e acabou, e a aula era aquela dureza de ficar lá paradão, anotando, e com as dificuldades todas. Por exemplo, você não tinha nem o recurso de ter, como a gente vê hoje, esses mapas em plástico, de ______ risco e contorno, nós fazíamos tudo na unha. Você fazia um quadriculado com proporção, desenhava em cima, tanto que se eu quiser, hoje eu sento aqui hoje e faço o mapa do Brasil com todos os estados sem olhar, você era obrigado a fazer isso sem qualquer tipo de recurso.

 

P/1 – De certa forma, aprendeu na...

 

R – Não, aprendia e você não esquecia mais, não dá para esquecer. Era um aprendizado muito sério. Quando eu fiz, por exemplo, línguas, eu não gostava de inglês, eu gostava de francês. Eu me lembro que o francês que eu tinha no ginásio me deu chance de entrar na USP [Universidade de São Paulo] quando eu fiz o vestibular. Eu tirei três notas nove de francês, nunca tinha ouvido ninguém falar em francês, a não ser o professor em aula.

 

P/1 – Que bárbaro, hein?

 

R – Deixa só eu tomar um golinho d’água? (pausa)

 

P/1 – O senhor se lembra das histórias que o senhor ouvia e lia nessa época?

 

R – Histórias verídicas ou histórias de livros, ficção, romances ou coisas assim?

 

P/1 – Ambas. (risos)

 

R – Ambas! Histórias eram coisas muito locais, hoje você tem historia da China, pega a internet, não sei o quê, pega histórias de qualquer lugar do mundo, mas eram coisas muito locais que a gente participava, escutava os parentes contarem. Ou então, às vezes, não havia televisão, uma informação pelo rádio era a coisa mais comum, coisa do dia-a-dia da cidade, basicamente. Coisas do país era muito mais difícil, tanto que acontecimentos políticos de muita repercussão, a gente praticamente sabia depois de três, quatro dias, e olhe lá. Mas histórias de livros, eu nunca gostei de ficção e livros, nunca lia nada disso, não suportava, até hoje não suporto. Coisa de ficção para mim não adianta, eu acho que é perda de tempo. Opinião pessoal, mas é. O que a gente lia de fora eram coisas de revista, que vinham de vez em quando na mão. Uma revista francesa, inglesa, espanhola, sei lá, mas lia-se muito naquela altura, na década de 1950, a revista O Cruzeiro, que a gente lembra de ter muita informação do país, né? Não tinha muita história que pudesse despertar interesse da moçada, não, eram coisas muito locais.

 

P/1 – O senhor disse que tinha muito pouco material disponível para as aulas e tal.

 

R – Pedagogicamente era difícil, é.

 

P/1 – Não tinha nada de tecnologia, nada mesmo?

 

R – Nada.

 

P/1 – Tinha mimeógrafo? Como que era?

 

R – Não, não.

 

P/1 – Nem mimeógrafo?

 

R – Não, até terminar o meu colégio não havia nenhum mimeógrafo.

 

P/1 – Tudo à mão?

 

R – Você tinha que copiar tudo à mão quando tinha um trecho de um livro, e tinha que ser com caligrafia boa, porque ninguém suportava fazer abreviações ou letras que não pudessem ser bem legíveis, né? Era muito complicado isso aí. Tudo era difícil. Para começar, o papel. Hoje a gente vê o que se gasta de papel numa escola. Vamos supor, o Pueri Domus. Não tenho ideia, mas eu tenho a impressão, porque eu saí daqui há dez anos atrás. O que se gastava, ou o que se gasta talvez, até hoje no Pueri Domus como escola, num mês, daria para, seguramente, alguns anos naquela época, em matéria de papel, em material de ensino.

 

P/1 – Fora o resto, né?

R – Fora o resto, não tem a menor dúvida. A gente escrevia muito em papel que era usado em mercearias e açougues para embrulhar carnes e fazer empacotamento. Vendiam uns blocos grandes, você desdobrava e anotava rascunhos.

 

P/1 – Que chamava de embornal, alguma coisa assim.

 

R – Ãhn?

P/1 – Embornal, não era?

 

R – Não, não. A gente usava uma malinha comum para levar tudo isso aí

 

P/1 – Me conta um pouco como era o recreio aí, a hora de, o que vocês faziam no recreio?

 

R – O recreio, na minha época, os que eu participava eram todos muito parados.

 

P/1 – Vocês não brincavam no recreio?

 

R – Não, não, brincar era conversar, sentar num canto, conversar e comer lanche.

 

P/1 – Não podia brincar? Como era isso?

R – Num lugar ou outro havia jogos. Então, eu me lembro que no primário, no colégio de padres, e no ginásio a gente jogava futebol no intervalo. Ficava todo molhado, todo sujo, mas era complicado. Em outros, não. Ficava sentado, conversando. No colegial, por exemplo, não tinha essa história de brincar, não, ou de fazer qualquer jogo.

 

P/1 – Legal. E quais foram as pessoas mais marcantes da sua vida escolar? Professores, colegas?

R – Colegas eu tive vários que participavam do nosso time de futebol. Inclusive, eu ontem encontrei um deles, eu sou amigo desse cara desde os três anos de idade. A gente nunca se separou. Éramos vizinhos, fomos para a mesma escola, terminamos o colegial juntos, sou padrinho de casamento dele e ele meu. E a gente convive, de vez em quando a gente vê um joguinho junto, trocamos ideia por telefone e tal. E muitos outros também, uns quatro cinco dessa época, a gente ia muito ao cinema. Gozado... Na década de 1950, houve um boom de cinema americano aqui no Brasil, então, tudo que é filme clássico americano dessa década... A gente ia praticamente duas, três vezes por semana ao cinema. Era a única diversão mais socializada que existia, o cinema. E eu gostei sempre muito de cinema. Amigos fora de escola eram pouquíssimos. Muita pouca gente e por tempos muito variáveis. O pessoal da USP, mais de bairro alguns também. Não eram colegas de escola e a gente vivia muito em casa de parentes. Era mais com parentes do que com amigos. Eu tive alguns amigos do exterior que vieram morar numa pensão próxima da minha casa, eram do Panamá, do Peru, da Venezuela, e isso foi bom porque eu acabei aprendendo um pouco de espanhol nessa época com eles.

 

P/1 – Isso quando?

 

R – Em 1950, 1954, 1955 até, por aí.

 

P/1 – Conta como era a relação entre professor e aluno. Você disse que era formal e tudo, né?

 

R – É, e como sempre, até hoje, existem professores dos mais variados, das mais variadas posturas em relação ao aluno, de ascendência e tudo mais. Mas, em geral, eu não tenho queixa de professor. Todos se davam bem com a gente, especialmente no Liceu Coração de Jesus, foi uma formação fabulosa que a gente teve com eles. Eram bem abertos os padres, tão abertos que iam ao Pacaembu ver jogo com a gente, com os alunos.

 

P/1 – Ah, então era uma boa relação!

 

R – É, e jogavam futebol com a gente. Amarravam a batina aqui em cima para liberar as pernas e jogavam futebol no terrão com a gente.

 

P/1 – Que legal!

 

R – Fazíamos excursões, era... Me recordo de uma época muito boa que a gente frequentava como se fosse um clube de campo dos padres, lá em Santa Terezinha, onde é hoje tem uma escola enorme, a Escola Salesiana de Santa Terezinha. Eles tinham piscina, campo de futebol oficial, gramado, cantina. Era um espetáculo. A gente ia toda a semana para lá jogar futebol com os padres e professores.

 

P/1 – Isso já na...

 

R – Isso foi de 1948 a 1953.

 

P/1 – O senhor já era maiorzinho?

 

R – Já era grandão, já estava próximo dos dezoito anos. Mas foi uma época muito boa. E teve um professor que marcou muito a minha vida, que foi o professor de biologia, não podia ser outro.

 

P/1 – Conta um pouquinho desta história.

 

R – Era um alemão que tinha vindo de Berlim na época da guerra para cá e trabalhou no Colégio Porto Seguro. Ele era alemão de origem, ele foi catedrático em botânica em Berlim, veio para o Brasil, gostou e ficou aqui. Ele nos dava aula de biologia três ou quatro vezes por semana, depois nos levava para o Porto Seguro, do liceu para lá a pé, para a gente complementar o curso com ele à noite. Professor Oswaldo Tabor. Era um cara excepcional, um conhecimento profundo de biologia. Ele passou muita coisa interessante fora de sala de aula, em termos de conhecimento biológico, abertura para a ciência. Era uma coisa muito bacana. Esse me marcou.

 

P/1 – O senhor acha que ele realmente influenciou na tua escolha?

 

R – Não, não. Não influenciou, apenas confirmou. Quer dizer, ele praticamente selou aqui. A coisa poderia ser por aí mesmo. Mas eu me lembro muito bem dele e, infelizmente, ele era tão amante de natureza que ele fazia excursões para a África, para Austrália e tal. Naquela época o transporte era difícil e tal. E ele desapareceu na África numa excursão de biologia. Ele fotografava e fazia pesquisas em campo, né? E desapareceu!

 

P/1 – Ele faleceu lá?

 

R – Ninguém achou o corpo dele. Acharam só algumas coisas de vestuário dele no meio do mato. Ninguém sabe o que aconteceu, se foi assalto, se foi bicho, o que foi. E eu fiquei sabendo disso aí quando já dava aula, depois. Na década de 1960 eu fiquei sabendo dessa história, fiquei chateado.

 

P/1 – O senhor fala um pouco da sua formação religiosa na escola, né? Foi um pouco no comecinho, no Salesiano, depois o senhor saiu.

 

R – Não, até o fim do curso colegial, antes de entrar na faculdade, a gente era obrigado a frequentar missa dominical na escola. Você tinha que ir à escola para frequentar a missa dominical como aluno da escola. Se você não assistia à missa no domingo e não comprovava com carimbo e caderneta, você não podia assistir aula no dia seguinte, na segunda-feira. E quando você falava: “Professor, a minha família vai viajar para Santos, fazer uma excursão!” Porque era uma glória ir para Santos, descer a Serra do Mar antiga, uma loucura, não havia a Anchieta da vida, nem a Imigrantes, mas a gente lembra bem que tínhamos que levar a carteira e o padre de lá assinava que você tinha assistido à missa. Quando voltava, na segunda-feira, ele perguntava qual foi o sermão, qual foi a roupa do padre, os paramentos que ele usou, para confirmar se aquilo não era uma assinatura qualquer, qual era a igreja, que horário foi a missa, uma loucura!

 

P/1 – Era rigorosíssimo!

 

R – Isso me deixou meio refratário para coisas de religião, fiquei meio, até para... Aquela história de você ser adolescente e precisar ter as contestações de coisas da bíblia, aquela linguagem figurada. Nessa altura, como eles eram muito ainda firmes com essa história de analisar evangelho literalmente, havia um grande quebra pau da gente em aulas de religião. Havia aulas de religião, de discutir evangelho, essa coisa toda. Mas foi interessante, a gente desenvolveu a capacidade de raciocinar em termos, inclusive, de filosofia. Nós tínhamos aulas de filosofia, de lógica, de psicologia aplicada. Nem se compara ao que a garotada tem hoje no segundo grau, é uma loucura. Eu tenho impressão de que hoje, esse pessoal que está no segundo ou terceiro ano de uma USP, por exemplo, não chegava nos pés da gente num final de colegial.

 

P/1 – Não chega ao mesmo nível de...

 

R – Não, o nível era outro. Cultura geral, então, era uma coisa sagrada para todas as escolas. Você tinha que saber realmente muita coisa de geografia, de história dos povos todos e história antiga, saber filosofia, discutir Platão, discutir Aristóteles, discutir o Kant. Eu não sei, uma coisa... E tinha que arranhar em francês, inglês, espanhol, português… O português tinha que ser perfeito. Não havia essa história de aceitar erros de português em prova, descontava erros de português em prova de física, sei lá, era meio complicado.

 

P/1 – Tinha outras atividades na escola? Coral, jornal?

 

R – Não, coral tinha porque era aula de canto que também tinha, jornal não tinha. Tinha painéis, a gente fazia painel e outras atividades assim fora de sala aula. Tinha campeonatos, Olimpíadas colegiais, agente participava com outros colégios de São Paulo dentro mesmo da escola e viajávamos para outras cidades onde havia escolas conhecidas da nossa para fazer competições. Era só isso, um pouco de esporte e mais nada.

 

P/1 – Vamos entrar um pouco na juventude agora, fala um pouco do teu grupo de amigos. Vocês saiam? Como era? O que vocês costumavam fazer?

 

R – Bom, na época de escola e depois, até na faculdade, a gente saia muito em fim de semana só, fim de semana à noite, passear no centro da cidade, no centro antigo, nos cinemas, frequentava lá os cines, ia ao Ponto Chic fazer uma refeiçãozinha no Paissandu e ia vez em quando jogar uma sinuquinha lá pelos lugares, porque havia só firma de sinuca aberta à noite. A gente passava sábado e às vezes o domingo a noite brincando lá com os colegas. Mas basicamente era isso aí. E muito futebol, ir ver jogos no interior, na Capital, ir ver treino de futebol, sei lá.

 

P/1 – O senhor chegou a participar de alguma atividade social na comunidade, alguma coisa assim, ou não?

 

R – Nem havia. Não havia essa...

 

P/1 – Mobilidade.

 

R – Essa visão da importância do social na vida da garotada. Era muito coisa de família ainda, as famílias dominavam a nossa vivência.

 

P/1 – Falando um pouco da sua vida profissional. A família tinha alguma expectativa que o senhor seguisse uma carreira ou não?

 

R – Eles achavam que eu seria médico e eu também gostava muito da coisa, tanto que eu mexi, abri o bichinho lá, fiz curativo e não sei o quê, cuidava de passarinho que quebrou asa, essas coisas. E eu fiz vestibular de medicina na Pinheiros, mas no ano em que prestei, que foi 1953, havia oitenta vagas e era a única faculdade pública do Estado, entã,o quem não ficasse dentro desses oitenta, tchau. E havia a Paulista de Medicina, que era paga, era particular que hoje é a... Como é a faculdade?

 

P/1 – UNIFESP, hoje?

 

R – Eu esqueci o nome da faculdade, é Paulista de Medicina, ali na Botucatu.

 

P/1 – É UNIFESP.

 

R – UNIFESP, Universidade Federal. Essa era paga e era preço caríssimo, então não dava nem para pensar em entrar em Medicina, até porque você tinha que fazer tempo integral e a família era pobre, a gente não tinha condição. Tinha que terminar o colegial e procurar trabalho, né? E a única saída que eu tive nessa altura foi começar a trabalhar dando aula, aí eu fiz a coisa, dava aula e estudava à noite.

 

P/1 – Aí você foi fazer curso...

 

R – Eu fui estudar Biologia. Quando eu fui reprovado na Medicina e não consegui a vaga, eu fui fazer a Biologia na USP, aí eu caí de paraquedas no magistério.

 

P/1 – Conta um pouco como foi esse curso.

 

R – O curso foi excepcional! Foi um curso muito bom, de nível muito alto, pesquisa, a parte. A única coisa que ficou mal na USP naquela altura, e talvez  seja até hoje, foi a formação do professor. A USP não formava professores, não forma talvez, era coisa pessoal. Ou você tinha um certo talento nato ou então podia esquecer. Mas o fundamento conceitual na ciência, como trabalhar em laboratório, isso foi fora de sério e com professores competentíssimos, né?

 

P/1 – Alguma lembrança marcante da faculdade?

 

R – Lembrança marcante de faculdade… Teve tanta coisa boa, mas uma delas, que para mim foi muito legal, é que eu fui convidado para participar lá da equipe da USP como assistente do Departamento de Botânica, ainda quando eu estava cursando na faculdade. Eu não aceitei, mas depois eu voltei para lá e consegui ficar lá no posto por uns dois anos. Mas uma coisa interessante foi que essa passagem me deixou muito orgulhoso. Eu fui monitor da minha turma lá nos cursos ligados à genética e biologia geral, e quando fui fazer um exame de fim de ano, final de curso quase, todo mundo estava nervoso na sala esperando o catedrático, o Doutor, que está vivo até hoje, o Oduvaldo Paiva, do Instituto Brasileiro Genética, me chamou do lado e falou: “Você pode ir embora para casa.” E eu falei: “Mas como ir embora?” “Você já está aprovado, pode ir embora!” Então eu fiquei, aquilo foi a glória, foi muito emocionante.

 

P/1 – Que legal! E tem algum professor que foi marcante nesse período?

 

R – De professor? Como? Da...

 

P/1 – Da universidade mesmo.

 

R – Todos foram bons. O pessoal era excelente lá na Genética, na Biologia geral. Um que foi meu padrinho, que era um cara sensacional, e apostou tudo em mim, me colocou inclusive no Dante e no São Luiz, eu era assistente dele: “Esse aqui é meu assistente...” Mentira, eu não era assistente coisa nenhuma, eu era aluno. E ele me colocou no Dante e no São Luiz ao mesmo tempo, eu era um moleque de vinte anos no meio daqueles caras veteranos de experiência. Ele era o Doutor Paulo Sawaya, que chegou a ser Reitor da USP e Diretor do Instituto de Biociências. Era um cara excepcional, pesquisador emérito. Gostei muito de ter convivido com ele. Doutor Paulo Sawaya.

 

P/1 – Fala um pouco da sua formação como professor. Como era a matéria, os cursos, como que era o formato.

 

R – Durante o curso lá na USP?

 

P/1 – Isso. O curso de formação para o professor.

 

R – Praticamente não houve isso aí. O que havia era o seguinte. A obrigatoriedade era você fazer três ou quatro matérias no final do curso de graduação, que era psicologia do adolescente, psicologia geral, didática geral, didática especial e acabou. Uma aulinha por semana de uma hora e meia, duas horas, ouve o blá blá blá...

 

P/1 – Então não tinha nenhuma formação?

 

R – Não, não havia nada. Terminou o curso: “Você dá uma aula que a gente quer ver se aprova ou não.” E ficava nisso.

 

P/1 – Nem estágio? Nada? Saía e ia direto...

 

R – Não, estágio a gente fazia aquilo. Como eu trabalhava demais em cursinho e tudo, me assinavam o estágio, porque eu já estava dando aula. Ia fazer estágio onde? Eu já dava aula! Então eles assinavam o estágio, que já era a aula normal que eu já tinha.

 

P/1 – Nesse período o senhor já estava dando aula no cursinho.

 

R – Eu terminei a USP em 1958, mas eu dava aula no cursinho desde 1955. Quer dizer, quando eu teria que ser preparado pela USP para dar aula, eu já era professor há três anos.

 

P/1 – Claro. 

 

R – Então não tive nada.

 

P/1 – Já aprendeu na prática. Fala um pouco aí do primeiro trabalho.

 

R – O primeiro trabalho foi por acaso. Eu tinha um colega mais velho de curso, o nome dele era Toninho, que dava aula de Biologia no cursinho. Ele ficou adoentado e falou: “Olha, você não quer ficar com essas aulas minhas até o final do ano?” Era coisa de agosto, setembro. Eu falei: “Mas eu nunca dei aula!” “Mas eu sei que você pode.”

 

P/1 – Como é que foi essa sensação de entrar?

 

R – Foi uma loucura. Uma loucura porque eu fui jogado de um dia para o outro. Ele falou: “Tenho que sair de São Paulo, fazer um tratamento.” Não sei o quê, acho que ele teve Malária, ele pegou Malária acho que em Cananéia, ele fazia pesquisa lá no mostruário de Cananéia, no Rio e teve que ficar afastado. Ele me falou: “Olha, eu vou ter que ir embora e você tem que pegar essas aulas ainda essa semana!” “Aulas do quê? Como é que eu vou fazer?” “Ah, não sei, se vira aí.”

 

P/1 – Qual era a escola?

 

R – Era no cursinho do Grêmio, a gente era colega na USP lá.

 

P/2 – Que ano que era?

 

R – Foi em 1955, final de 1955. O nome dele era Antônio Heredia, era um espanholzinho, Antônio Heredia. Eu fiquei no lugar dele até o fim do ano, aí não me deixaram sair mais. Eu fazia as minhas aulas em ficha, né? Aquela história didática lá. Fazia fichinha, objetivo, não sei o quê, conteúdo, pá pá pá. E o nosso pavor no começo era pegar um pessoal que já tinha feito vestibular várias vezes e que já tinha um bom conhecimento de biologia. Eu era aluno da USP ainda, não era formado. Mas o pavor era que você terminasse o assunto que você tinha preparado e aula ainda tivesse tempo!

 

P/1 – Isso aconteceu?

 

R – E como é que você ia preencher o tempo depois! Você acaba o conteúdo da ficha e aí a aula não terminou, falta meia hora, como é que eu faço, né? Era a preocupação. Mas isso era só uma semana, duas, porque depois você conduzia a aula de acordo com o que a turma solicitava, mas era um pavor esse negócio, depois de uma semana eu aboli essas fichas, joguei tudo fora!

 

P/1 – Chega, né? O que mais marcou nesse período desse trabalho?

 

P/1 – O que mais marcou foi a independência financeira! Foi uma glória porque era uma vida muito difícil para comprar livros e tudo mais, tinha que depender de pai e mãe, que trabalhavam duro. Então, quando eu recebi o primeiro salário lá no cursinho do Grêmio, eu saldei minhas contas com o livreiro, que era lá da faculdade, comprei uns sapatos novos e tal. Foi uma glória o primeiro dinheirinho que caiu, muito antes do que eu esperava. Eu não estava formado ainda, então valeu a pena. E também, o fato de começar uma coisa que era totalmente inusitada, né? Afinal, acabei gostando e ficando. Fiquei um tempão depois lá no cursinho e depois passei para... Em 1957, dois anos depois cursando, o Sawaia me indicou para o Dante Alighieri e para o São Luiz.

 

P/1 – Aí o senhor foi para o Dante Alighieri, São Luiz....

 

R – Fui ao mesmo tempo.

 

P/1 – Ao mesmo tempo...

 

R – Eu trabalhava três dias em um, três dias no outro durante a semana. Segunda quarta e sexta, terça, quinta, e sábado.

 

P/1 – E depois teve outras instituições em que o senhor trabalhou também, em outras escolas?

 

R – Eu comecei no Bandeirantes também, mais tarde, bem mais tarde, mas eu dei muitas aulas, as duas primeiras décadas, nesses dois colégios, eu praticamente vivia lá dentro.

 

P/1 – Quais eram as atividades? Era aula, coordenação, outras coisas? 

 

R – Tinha muita coisa paralela. Tinha coisa de encontro, palestras, tinha entre alunos, seminários, tinha trabalho de laboratório, confecção de material de museu de laboratório, trabalhar em taxidermia, trabalhar com lâminas e microscopia, montar experimentos, era uma coisa bem diversificada. Muito diferente de agora, né? Eu ficava no laboratório praticamente três tardes por semana em cada colégio desses, só no laboratório fazendo, montando experiência, monta lâmina, prepara aula de laboratório para dar depois no dia seguinte e deixar tudo pronto.

 

P/1 – Era boa a aula de laboratório?

 

R – Você fazia de tudo, né?

 

P/1 – Era melhor?

 

R – E a garotada... Era melhor. Mexer com a vidraria, com os animais, com planta, com observação de germinação, disso, daquilo, era muito legal.

 

P/1 – O aluno se encanta muito mais pela matéria, né?

 

R – Eles participavam bastante, naquela altura ainda era possível fazer dissecações ao vivo, né? Então a gente dissecava todo o reino animal em aula. Começava lá em minhoquinhas, ia em baratas e tal, e chegava até em cobaia, dissecar em aula um peixe, a carpa, o sapo, uma cobrinha. Tem até foto de uma cobrinha saindo dissecada.

 

P/1 – impressionante!

 

R – Aí fotografava tudo aquilo dissecado, ampliava a fotografia em sala de aula, depois mostrava, discutia e a moçada punha a mão na massa, né? Eles montavam nas reações, faziam reações, extraiam pigmento de planta, não sei o quê, mexia em tudo. Isso deu uma abertura, porque naquela altura ainda havia exame prático e oral para nas faculdades para o ingresso no vestibular, não era só escrito, não, e muito menos teste. Não havia teste, era tudo questão dissertativa e tinha a parte oral também, com algumas coisas de laboratório. Era muito complicado o vestibular.

 

P/1 – Fala um pouco sobre quais eram as disciplinas que eram dadas quando o senhor iniciou a sua profissão.

 

R – As disciplinas que havia no curso de ensino médio no colegial?

 

P/1 – É, o senhor lembra?

 

R – Bom, português e matemática são básicas, né? Física, química e biologia. Então, eram as cinco mais pesadas que tinham o maior número de aulas.

 

P/1 – As mais básicas, né?

 

R – É, português, matemática, química, física e biologia. Ainda tinha no colegial inglês obrigatório, francês ou espanhol, história e geografia, e algumas escolas davam filosofia também. Eu tive filosofia também. Eram umas dez matérias sem contar educação física, que era obrigatória em todo o colégio.

 

P/1 – Artes tinha?

 

R – Ah?

 

P/1 – Artes?

 

R – Não.

 

P/1 – Estudos sociais? Também não.

 

R – Na época da ditadura, começou lá a Revolução de 1964, eles impuseram por lei a Organização Política e Social Brasileira, OPSB, aí a coisa era obrigatória, né? Duas aulas por semana, que me parece, mas eu não peguei mais isso aí.

 

P/1 – E qual era o perfil dos seus alunos?

 

R – Como eu trabalhei em colégios de nível A, vamos chamar assim, eram colégios grandes e de nome, tradição, São Luiz, Bandeirantes, Dante e depois o Pueri Domus. Os próprios cursinhos eram só para quem podia pagar uma outra escola além do colégio. Era pessoal de elite a moçada, alguns muito paparicados pela família, muito narizinho em pé, alguns deles eram um pessoal meio autoritário, arrogante, era muito comum isso aí. Eu tive muitos entreverdes no começo com alguns desses, que eram filhos de políticos, ministros. Tive uma briga séria com um grande Ministro de Estado do Brasil que quase me acaba com a carreira porque o filho dele foi reprovado. E foi reprovado e foi para a segunda época, porque não havia recuperação. Na segunda época, eu falava: “Fulano, estuda porque você precisa tirar o mínimo. É tão fácil, quatro, cinco. Você vai conseguir, você é um cara inteligente!” E o garoto não deu satisfações. Aí, na segunda época, tomou pau e o ministro foi em casa, num apartamentinho no Bom Retiro, humilde. Ele chegou lá e me encostou na parede, né? Ele e a esposa, mas sem comentários. Foi no colégio São Luiz, prensou a direção do colégio, os padres me chamaram: “Você não pode fazer nada?” “Não, não posso fazer nada. Ou eu me desmoralizo de uma vez e vou ter que ________ todo mundo daqui para frente. Pelo menos eu estou com a minha consciência tranquila.” No fim, eu ganhei a parada. Depois de tudo passado, ele mandou uma caixa de doce de goiabada da fazenda dele no interior com um bilhete dizendo que ele tinha feito uma coisa indigna dele e não sei o quê. Então valeu a pena.

 

P/1 – Fala um pouco como era a relação entre os professores.

 

R – Colegas?

 

P/1 – É, os colegas.

 

R – Era uma coisa curiosa. Porque as conversas nesses lugares que eu frequentava, esses colégios aí, eram conversas muito interessantes no aspecto político, social, econômico, não havia futilidade nenhuma. Era uma conversa de adultos responsáveis e cultos, eram verdadeiras aulas entre adultos, um seminário entre adultos. Eu ficava desesperado para chegar a hora do intervalo e sentar com eles para conversar sobre política, economia, ciência, descoberta, não sei o quê. Era tremendo, até porque eu era muito mais moço que os outros. Sempre quando eu chegava, eu era o calouro e o pessoal era tudo da Poli, de Instituto de Física da USP, não sei de onde, então eu ficava de ouvinte, participando de vez em quando, com medo de falar besteira. Mas era um ambiente de nível muito elevado. E com os alunos eu conseguia captar a amizade, porque eu os considerava iguais. Eu jogava futebol com todas as turmas que me convidavam. Sempre que havia futebol e basquete, eu jogava com eles e tratava mais como amigo. Quando eu tinha que chamar a atenção de algum, eu chamava depois da aula.

 

P/1 – O senhor nunca foi um professor autoritário, então?

 

R – Não, não, de jeito nenhum. Chamava depois da aula, conversava numa boa e depois: “Faz o seguinte, se põe no meu lugar e eu fico no seu lugar. Como é que você interpretaria o que você fez?” Aí acabam pedindo desculpas e ficavam os melhores da turma, geralmente. Davam uma prensa fora sem nenhuma humilhação pública. Coisa que aluno não suporta é injustiça. Injustiça e grosseria. Então, você não sendo injusto com ele em nota em uma parte, em gozação quando ele faz alguma pergunta meio boba e não sendo grosseiro com o aluno, você toca cem alunos, duzentos delinquentes. Dá para trabalhar com qualquer um. Não há qualquer dificuldade. Inclusive hoje.

 

P/1 – Então, o senhor sentia que havia algum respeito com a figura do mestre?

 

R – Sem dúvida. Inclusive, eu cheguei a ter alunos muito mais velhos do que eu no colégio. Alunos que às vezes eram... No colégio, não, no cursinho, fazendo cursinho durante três, quatro anos, e que às vezes estavam lá comigo.

 

P/1 – Tá. Fala um pouquinho como você desenvolveu essa carreira profissional. O senhor comentou que foi trabalhando em vários colégios, né?

 

R – É, primeiro era só professor de Biologia e estava em tempo integral, era manhã, tarde e noite, depois eu fui aliviando um pouco a carga horária, até mais por causa de família, né? Começaram a ter os filhos, os quatro filhos. Acabaram estudando nos colégios que eu lecionava, no Dante, aqui também, e aí eu tinha que preservar pelo menos os fins de semana para a família, né? Então, diminui um pouco a carga horária, porque era uma loucura a correção de provas, pacotes enormes todas as semanas, preparação de prova e leitura de atualidades de biologia.

 

P/1 – Era muito intenso mesmo.

 

R – Era muita, havia noites que eu dormia três, quatro horas. Foi isso aí por muito tempo, até os cinquenta anos de idade foi uma loucura. Depois, eu dei uma boa diminuída quando eu voltei aqui para o Pueri Domus. Eu fiquei um tempo de licença, uns meses, e voltei aqui em 1991, fim de 1991.

 

P/1 – Como foi esse ingresso para o Pueri Domus?

 

R – Como foi? Foi por convite. Eu trabalhava no Bandeirantes e o pessoal era ligado à Bety aqui.

 

P/1 – Isso em que ano mesmo?

 

R – Eu saí... Eu comecei aqui em 1977, na Fundação do Domus, que é o segundo grau. A Bety foi buscar um pessoal...

 

P/1 – Como foi? Conta um pouco. Como foi o começo? O Domus era o segundo grau.

 

R – O Domus era uma escola totalmente diferente, né? Era tudo ao contrário do que eu tinha vivido naquela altura. Eu tinha turma de cinquenta, até de sessenta alunos no Bandeirantes, no terceiro colegial. E eram turmas frequentemente heterogêneas, haviam feito ginásio em outros lugares muitas vezes. No Pueri Domus era um grupinho da casa, pequeninhinho, tinha uns quinze alunos a primeira turma do colegial da Bety, quinze, vinte Alunos no máximo. E era como se fosse seu filho. Era uma familiazinha pequena, você levava o grupinho pra lá, pra cá, convivia com eles o dia inteiro aqui na escola, brincava muito lá no recreio com bola também, levava para o laboratório para fazer redações e tal. Era um ambiente muito gostoso. Era realmente uma escola muito diferente, experimental, né? E o grupo de professores era muito unido em função de um objetivo de formar o camarada, passar alguma coisa a mais do que conteúdos, foi excepcional. Foram muitos anos aqui, começo de formação da escola, e que cresceu de um modo absurdo, né? Os primeiros anos do Domus foi uma coisa… Aí, a Bety foi obrigada a fazer aquele prédio no fundão. O começo era aqui, nesse mesmo prédio da Direção.

 

P/1 – Foi aumentando.

 

R – Aí fizeram aquele prédio do fundo com um... Eu participei da montagem do laboratório de biologia, do projeto lá de estrutura toda, de instalações, o outro de física e o outro de química, cada um na sua. Depois o prédio foi aumentando e a escola cresceu, aquilo ficou lotado em três tempos, aquele prédio inteiro. Havia acho que quatro, cinco turmas de cada série do colegial. E foi um tempo, acho que de uns dez, doze anos iniciais, em que a gente estava com trabalho até o último fio de cabelo, com exceção do meu, que não tenho. Mas era uma parada gostosa, foi uma luta muito gratificante o crescimento da escola.

 

P/1 – Como é que foi montada a estrutura pedagógica para o Domus?

 

R – Quando você fala a palavra Pedagogia... Tem algum pedagogo aqui?

 

P/1– Não. Acho que não.

 

R – Eu fico todo... Me dá alergia falar em pedagogo. Eu sou tal coisa, é realmente uma posição meio radical, mas, na minha opinião pessoal, eu sempre ressalto isso aí, e eu posso estar completamente errado, eu acho que a pedagogia que eu vi por onde eu andei tinha muito de falatório e pouco de ação efetiva. Então, era muita rotulação de nomes pomposos para coisas que você fazia no dia a dia e que não eram rotuladas ainda, né? Tipo de prova, como abordar isso, como é que é uma dinâmica de aula, não sei se é pelo fato de eu ter caído no jogo muito cedo, eu já tinha vivenciado tudo aquilo. Aí começaram a aparecer as propostas de assessorias pedagógicas, eu não concordava com muita coisa, porque pedagogicamente os conceitos não são logicamente coisas furadas. Mas é, o problema sério é que a escola tem uma estrutura que pouco mudou em termo de grade curricular, de horário, de sino tocando para sair e para entrar e de professor que tem que parar no meio, porque acabou a aula dele, para continuar no dia seguinte sem mais motivação nenhuma. E a pedagogia que o camarada prega para você trabalhar em sala de aula, porque às vezes é incompatível com a estrutura, é como você querer falar: “Eu vou preparar um cara para ser aviador de um Boeing, mas eu ponho ele num Teco Teco no Campo de Marte. Se vira aí dentro.” Não é isso aí, então eu acho que é mais ou menos esse tipo de coisa. A pedagogia nunca me ensinou em absolutamente nada. Cursos, assessorias, reuniões e seminários. Isso nunca me ajudou, nunca vi nada novo. Tudo que eu fiz que deu certo, eu continuei fazendo e funcionou bem até hoje, graças a Deus.

 

P/1 – Seguindo as suas experiências próprias.

 

R – Experiências, sabe? Às vezes contrariando até uma postura pedagógica. Eles trabalham com a utopia de que o aluno está sempre motivado, interessado, que não está à revelia na escola porque o pai obriga e tem que ser alguma coisa depois, então é fácil você falar numa utopia que você faz assim, não sei o quê, que motiva, que não sei o quê. A outra coisa é você pegar isso aí e botar um pedagogo dentro da sala dando doze, treze aulas por dia, com turmas completamente diferentes, às vezes até com um delinquentezinho no meio para atrapalhar, às vezes falta de material na escola, falta de um tipo de trabalho paralelo para ajudar você numa orientação educacional, é muito complicado isso aí. Então, para mim, pedagogia é assunto proibido porque não quero ofender ninguém. (risos) Mas eu respeito, lógico que eu respeito, e acho que a coisa é muito bacana, mas se tivesse as condições da escola talhada para encaixar essas coisas todas.

 

P/1 – Ideais. Tá, conta um pouco como foi a sua passagem no PDEA. Que sigla é essa aqui? PDEA? Pueri Domus…

 

P/2 – Escolas Associadas.

 

P/1 – Ah, Escolas Associadas.

 

R – Escolas Associadas. Nem me lembrava dessa. Quando foi fundada a Escola Associada, a Bety pegou tudo o que era coordenador e praticamente transferiu para autores coordenarem o trabalho gráfico da coisa, né? E eu fui de embrulho, embora já tivesse livros publicados pela Editora Atual e, antes da Atual, pela Companhia Editora Nacional, que depois acabou fechando, por isso eu passei para a Atual. Então a gente tinha uma experiência de material escrito, de trabalhar com textos, com projeto gráfico e tal e a gente começou a trabalhar lá no fundão depois do colegial de uma forma muito precária, porque não havia espaço, não havia muita gente esperta no assunto, era um pessoal meio começando algumas coisas, mas foi um trabalho interessante. Foi muito difícil o começo, até cada um se conscientizar do que era para fazer, qual seria o rumo melhor para tomar com as publicações, mas funcionou bem, funcionou bem. Eu tive que deixar logo isso aí porque depois, por contrato, a Saraiva não permitiu que eu fizesse mais material escrito para ninguém, tinha exclusividade. Mas foi um começo interessante. Houve muitos contatos com o pessoal, os primeiros do interior que fizeram convênio. Com isso a gente tinha contato frequente aqui na escola, reuniões, participávamos de grupo de trabalho de Pedagogia também e tal, e funcionou bem, valeu a pena.

 

P/1 – Conta um pouco da trajetória também na Direção do _______ Divino.

 

R – Ah, aqui foi uma coisa dramática, porque eu nunca tinha sido diretor de escola até aqui.

 

P/1 – Isso foi em que ano?

 

R – Aliás, eu tinha... Eu estou falando besteira. Eu fui Diretor no Dante Alighieri antes, era outra estrutura, no Dante era Diretor por unidade, por prédio e aqui foi por cursos. Então era outra história. Aqui eu trabalhava no colegial como professor e como coordenador, tirei uma licença quando eu voltei de um problema sério de cirurgia que quase me custou a vida. A Bety falou: “Olha, eu quero que você dirija o meu ginásio!” Então eu falei: “Vamos lá, né?” Mas não querendo menosprezar ex-colegas que estavam antes, eu peguei uma época aqui com a garotada do ginásio que estava uma loucura em termos de disciplina. Então, antes de pedagogia, tinha que pensar na disciplina, porque você não pode ensinar nada a ninguém se não houver responsabilidade e respeito, né? Chegava ao ponto deles jogarem mochilas, cadeiras pela janela, pela escadaria, um em cima do outro quando estava na hora da saída. Eu tive que fazer policiamento pessoal em escadaria porque eles se machucavam, meu filho era aluno também daqui. Eles chegaram em casa e falaram: “Pai! Você está mancando?” “É, eu me machuquei porque jogaram a mala em cima.” “Onde?” “Na escada, na hora da saída!” Os professores estavam, naquela altura, - alguns que são amigos meus até hoje - desesperados, porque era muito difícil manter o pessoal na sala de aula. Muita confusão. Até pela estrutura do prédio do ginásio, que é um ex-seminário. O corredor não chega a um metro, um metro e vinte no máximo! Acho que é por aí. Ainda tinha extintores de incêndio pesadíssimos pendurados no corredor. Eu falava: “Olha, isso aí tem que tirar daí!” “Não, o bombeiro proibiu porque é obrigatório.” “Tira daí, eles vão ____, isso vai cair!” Uma vez caiu quase no pé. Se cai um daquele de quinze quilos no pé de uma criança, um negócio de ferro... E eles mexiam naquilo, jogavam o jato de coisa. Um deles que eu pedi para tirar da escola jogou cadeira da sala dele daqui, tanto que agora está gradeado, jogou no pátio, na cabeça de colegas.

 

P/1 – Chegou a se machucar? 

 

R – Não, não chegou a pegar ninguém, mas a coisa tava muito feia, não cumpriam horário, todo intervalo eles saíam da sala, ficavam no corredor rondando e o professor tinha que pegar na mão para jogar dentro da sala, quase que na pressão física, terrível. Eu fiquei quase dois anos para deixar a coisa como eu queria. Com todo mundo respeitando o sinal, respeitando o professor.

 

P/1 – O senhor conseguiu, então?

 

R – O professor é de você para baixo, né? Batia nas costas do professor quando ele passava: “Ei mestre!”, e empurrava, _______, umas loucuras. E depois que acertamos a parte, começamos a trabalhar mais por disciplinas, discutir programas e tal, objetivos. Mas foi difícil, foram cinco, quatro e meio, cinco anos bem difíceis, mas eu acho que as coisas... Eu consegui o que eu queria. Só que depois eu cansei de ter que trabalhar muito duramente em cima de uma coisa que tinha que ser toda a hora repisada, aí eu pedi para sair da direção e fiquei só nas aulas de biologia e por um tempo na coordenação, aí eu saí já aposentado.

 

P/1 – Assim, durante todo esse período no Pueri Domus, quais foram os principais desafios que o senhor enfrentou? Essa direção, provavelmente, tenha sido, né?

 

R – Isso foi uma prova, inclusive, porque eu tinha problema físico, eu estava convalescendo de uma cirurgia grave, eu tinha vindo de um erro médico, de uma cirurgia de pâncreas e de estômago. Fizeram uma barbeiragem e eu fiquei na UTI [Unidade de Tratamento Intensivo] um mês, quase morto, eu me salvei não sei como, a coisa foi meio complicada. E eu vim para cá meio convalescente ainda, não sabia se ia aguentar o tranco de ficar o dia inteiro na escola. Eu tive esse problema no fim de ano, novembro e dezembro, e comecei aqui em fevereiro, fiquei um mês em casa só. Mas eu estava, para você ter uma ideia, eu pesava 86 quilos e passei para sessenta quilos depois da cirurgia, depois desse _______. Era um desafio físico, de trabalho energético, mas também em termo de qualidade de trabalho de ensino. Mas eu peguei uma equipe muito boa de professores, um pessoal muito colaborativo, uma equipe que entendeu a mensagem e funcionou bem um tempão aí. A equipe funcionou muito bem, eu gostei do desafio e eu acho 

que a gente ganhou.

 

(troca de CD)

 

P/1 – E as dificuldades? As principais.

 

R – Aqui? Não sei se pode ser chamada de dificuldade, não vi grande coisa. Uma dificuldade foi, até certo ponto, a mágoa com a direção, quando alguns pais de alunos, muitos influentes na sociedade, tentavam impor coisas para a direção da escola. Inclusive com o filho do ginásio, meter o bedelho em coisas que ele não entendia e queria, mas eu não aceitava isso aí. Então, foi uma coisa que me deixou muito desanimado e foi uma das causas pelas quais eu falei: “Não vale a pena ficar dando murro em ponta da faca!” Porque eu me desgasto, a escola fica também numa posição difícil. Se chega aqui um deputado famoso ou um juiz de Direito e prensa a escola sob uma determinação lá do filho dele, o que a escola pode fazer? Então eu falei: ”Não vale a pena!”

 

P/1 – E as alegrias? O lado bom?

 

R – Alegrias foram muitas, fiz grandes amigos aqui inclusive, a Bety e as filhas, que foram minhas alunas, a Fernanda, a Roberta, o pessoal da Educação Física, a gente fazia muito esporte juntos, fizemos grandes reuniões fora daqui para discutir problemas educacionais, estivemos em Jaguariúna e em outros lugares fazendo seminários, tivemos trabalhos na Escola Associada, palestras por aí a fora para a Escola Associada também, no comecinho. Então foram coisas muito gratificantes, valeu a pena. E eu, para mim, o que eu realmente passei com essa escola aqui no começo, nos primeiros dez anos que eu tive aqui, foi um dos melhores lugares que eu trabalhei até hoje em termos de autonomia de trabalho, de vivência com a turma toda.

 

P/1 – Isso é muito importante para um professor.

 

R – Foi muito bom, foi muito bom, era um grupinho muito fechado, muito amigo.

 

P/1 – Você lembra de algum caso, alguma história pitoresca e divertida que tenha acontecido?

 

R – Aqui?

 

P/1 – Aqui, no Pueri Domus.

 

R – Não me lembro de uma coisa assim muito destacada, não. Teria que dar uma vasculhada mais profunda, mais pensada, eu não me lembro.

 

P/1 – Não tem nenhuma história de aluno? Uma situação estranha que tenha acontecido, diferente.

 

R – História? Eu passei por uma experiência curiosa com um aluno. Nem lembro mais o nome dele. Aliás, já morreu, morreu moço, bem moço. Eu tinha uma professora de biologia que eu indiquei para cá, ela era excelente, tanto que ela está na USP até hoje, professora Vânia, era mocinha, estava começando a trabalhar em laboratório e havia uma turma de colegial, acho que era do segundo ano. Eu tinha o terceiro, a Vânia tinha o segundo. Esse grupo tinha um líder negativo lá, que era esse rapaz, ele era o típico agitadorzinho político, mas era para ser talhado, assim, de coisa de sindicato na época da Ditadura, de ir lá para cima do caminhão e fazer o discurso dele de rebelião.

 

P/1 – Isso naquela época?

 

R – É, qualquer coisa que havia na turma ele assumia a responsabilidade de proteger o grupo e de reivindicar. Então, um dia, eu estou numa sala de aula à tarde e a professora Vânia entra chorando na minha sala, pediu licença, entrou e eu falei: “Que foi?” Saímos, ela falou que não aguentava mais aquela turma porque o Fulano, que eu não me lembro o nome desse cara, acho que era Calil, acho que era coisa de origem palestina, mas era um moleque muito eriçado, típico daqueles. Quando eu voltei, ela falou que não ia dar mais aula porque ela não conseguia, ele não deixava. Também, logicamente, é um problema do professor. Mas o ambiente era tão tranquilo, chegar a esse ponto eu não achava uma coisa plausível, aí fui para a classe e ele estava em cima da mesa do professor em pé. Todo o grupo da sala em volta dele, juntaram as cadeiras em volta dele, e ele discursando em cima, contra o professor, fez uma rebelião contra a professora. Aí eu subi junto com ele na mesa e falei: “Vocês fiquem todos quietos porque eu quero conversar com esse camarada aqui, com esse seu colega!” E foi aquele pau de argumento, ele argumentava e eu argumentava, pá pá pá. Ele perdeu a estribeira porque ele viu que não tinha mais argumento, aí eu falei para ele: “Então, depois disso tudo você tem que fazer uma coisa importante!” E ele falou: “O que é?” “Calar a boca!” Pô, o homem virou bicho: “Nem meu pai me manda calar a boca! Quem é você para me mandar calar a boca?” Eu falei: “Cala a boca e desce já!” Aí ele viu que eu estava muito enfezado, desceu, calou a boca e a turma toda foi para o lugar. Eu falei: “Olha, desculpe, mas com ele vocês viram que esgotou o argumento, chegamos a tal ponto e ele não quer aceitar. Quem tiver de acordo com aquele argumento, pode sair, vai com ele lá para fora, no pátio, e não assiste a aula da moça!” Aí ela voltou para a sala, deu a aula dela _______, mas foi uma coisa muito chata.

 

P/1 – Recuperou as rédeas do...

 

R – É, mas foi muito chato isso, muito ruim. Mas aqui havia uma coisa interessante também, que a gente esqueceu de falar, havia muita Festa Junina, era uma tradição da escola, e havia boas recordações dessas festas, juntava todo pessoal no pátio à noite, professores, família, os alunos todos, ex-alunos que sempre gostaram muito da escola. A gente matava saudade de coisas passadas, mas era uma reunião muito bacana.

 

P/1 – Eram encontros muitos...

 

R – Eram encontros, era tradição, né? Não sei se existe ainda isso aqui, Festa Junina.

 

P/1 – Provavelmente, né?

 

R – Eu não sei, eu já estou afastado um tempo, não sei.

 

P/1 – E como o senhor compararia com a escola em que o senhor estudou, aquela lá dos seus inícios?

 

R – Como é que a gente compara a Seleção brasileira de 1950 com a 2006?

 

P/1 – É mais ou menos isso, com a que o senhor trabalhou…. 

 

R – Comparações são uma loucura, né? Porque o tempo apaga um monte de coisa e reanima outras.

 

P/1 – ... com o que o senhor trabalhou aqui no Pueri Domus.

 

R – Olha, escola para mim sempre foi a mesma coisa. Quer dizer, evoluiu um monte em situações de trabalho, de materiais, de propostas, de tudo, de matérias, coisas extracurriculares e em relação com a sociedade, mais intensa agora do que antigamente. Mas a escola em si, como funciona, pelo menos o que eu conheço muito bem, talvez de uma forma até muito exagerada, a sala de aula para mim é a mesma. A sala para mim é a mesma de 1950, eu estou com cinquenta anos de magistério, para mim 1955 e 2006 é a mesma coisa. É o mesmo aluno com o mesmo ideal, com o mesmo interesse e participação, que te entende quando você é justo com ele. Quando você deixa ele falar, dar a opinião dele, não há como ter problema em sala de aula com aluno. Você tem que ser jovem como ele e discutir coisa de homem para homem, adulto para adulto.

 

P/1 – Isso mesmo em termos de educação?

 

R- Eles vêm hoje, logicamente, com muita distorção de família, precisam aprender algumas coisas que seriam da família e que precisam aprender na escola. Mas o professor também tem a parte de fazer na sala de aula, queira ou não queira, não é ficar em conteúdo, não, conteúdo é secundário. Eu sempre falei: Conteúdo você dá quando pode. Chega num ponto em que você tem que parar e vamos formar o camarada aqui em outra coisa! Discutir psicologia, educação, cultura, respeito, moral, não sei mais o quê, cidadania e política também. Isso tem que ser feito na sala de aula e não é qualquer professor que está fazendo isso hoje em dia. A família não faz, ele também não faz. Então, onde aquele aluno vai ter referência? Na esquina não pode ser, né? Aí tem as dificuldades, que vão aparecer certamente. Mas o ser humano é aquele, a gente sabe.

 

P/1 – Apesar disso, o senhor percebe alguma modificação significativa na escola?

 

R - Mudança na escola significativa?

 

P/1 –  Durante os anos?

 

R – Eu estou numa escola pequena, eu trabalhava em escolas grandes. As últimas aulas que eu dei aqui foram em 1996, 1995, 1996, depois eu dei aula no Domus Sapientiae, aqui no Itaim, fui diretor também lá, diretor pedagógico da Domus Sapientiae por dois anos. Não, um ano, ali foi só um ano. Mas a gente vê a diferença de escala, de tamanho, entre a grande e a pequena, né? Uma escola de quatro, cinco mil alunos e a outra de quinhentos ou mil alunos. Mas esse trabalho em que a escola mudou... Olha, com a toda a informática da vida, vídeos, material audiovisual, surgiu muita coisa interessante. Lógico, tem muito recurso paralelo que facilitou demais. Eu acho que o professor ainda é a coisa fundamental, insubstituível, com um bom livro debaixo do braço e a cabeça aberta para discutir os temas todos relativos à matéria dele e coisas paralelas. Os bons professores continuam realmente com esse enfoque.

 

P/1 – Bacana isso que você falou.

 

R – Eu acho que, infelizmente, como caiu muito o nível social da turma toda de magistério, de professores da escola pública, especialmente, ganhando muito mal, na escola particular também estão ganhando mal. Pelo menos pelo que eles fazem. Em geral, em muito lugares, e aí tem um problema de diferença marcante. Para muito professor hoje, uma porcentagem alta que eu não posso precisar quanto, seguramente a escola, o magistério passou a ser um mico. É marcado, a coisa que mais marcou, já que você falou de diferença na escola. Quando eu comecei a lecionar, e não é questão de ser machista ou coisa e tal, no São Luiz não havia uma única professora. Eles só admitiram professoras na década de 1960 em diante. Não, 1970 em diante, professora. No Dante sempre houve muita professora, eram 10%, 20%. Hoje são 10%, 20% de homens, a grande maioria é mulher. Qual é o grande problema da mulher? O problema, que são dois, e eu acho que não há erro nisso, não. A mulher tem uma visão muito maternalista do aluno, essa história de tia para cá, tia para lá, elas conseguem levar até o colegial. E não é tia, é Fulana de tal, é Vera, é Angela, é não sei o quê. Não é tia, tia não sei o quê. Então, a professora fica muito enfocada na vida pessoal do aluno, ela sabe com quem está namorando, com quem desmanchou o namoro, se foi numa discoteca não sei quando. Isso é comum. A professora sabe totalmente da vida do aluno e do grupo em termo de futilidade, certo? O aluno começa a levar por um lado completamente equivocado de uma familiaridade exagerada com o professor, que não é que não deva ter, mas tem que haver uma certa... A professora é um adulto, tem o seu grupo social, tem os seus hábitos, sua tradição, e o aluno está se formando, então não é a mesma coisa, não é? Há professoras hoje que vão às discotecas com os alunos, vocês devem conhecer gente assim. Eu conheço, ainda hoje, professor que vai à discoteca com aluno à noite, com tudo que é tipo de ambiente diferente que pode encontrar lá. E segundo é que as professoras frequentemente são moças, vão ter filhos, ficam muito preocupadas com as crianças em casa, telefonando a toda hora, intervalo, não sei o quê, telefona para saber como é que está a criança, se ficar doente é ela que vai levar ao médico, não o marido, ela que vai fazer a compra do mês. Ela faz tudo, a mulher vai fazer tudo. É a mãe, é a professora, é a mulher, é não sei quem. Isso, queira ou não queira, elas então pegam aulas nas escolas, fazem até da seguinte maneira, 50% delas é isso aí. A escola fornece a bolsa para o filho, que já é um ganho salarial extra, né? Eu tive colega que teve cinco filhos no Dante. São cinco anuidades simultâneas no colégio! Ela pagaria, hoje, cinco mil reais! Quem ganha cinco mil reais por mês dando aula hoje? Ela estava ganhando cinco anuidades, ela ficou de licença seis meses em cada um, praticamente. Eu era o coordenador e olha o que eu fazia: “Fulana, vamos arranjar um substituto?” “Vamos” Então ficava uma pessoa temporariamente por três, quatro, cinco meses no lugar dela, e quando voltava tinha que dar lugar para ela, as aulas todas. Outra coisa é que elas não pegavam tempo integral. Professora pega terça, quinta e sexta à tarde. Não pega segunda porque é dia de arrumar a casa, não sei o quê, é dia de cuidar do filho e tem que sair com o marido no fim de semana, porque não suporta ficar em São Paulo. Então, ela já sai na sexta-feira, não quer dar aula sexta. Então elas ficaram com a escola como um ______. Muita gente faz isso, dá vinte aulas por semana, 22 aulas por semana. Não tem uma mulher que dê quarenta a cinquenta aulas por semana, de jeito nenhum. Nem homem acho que faz isso aí hoje. Então, elas ficaram com esse tipo de trabalho muito fragmentado, muito difícil de você conseguir coordenar dentro da escola e atrapalhando a empresa, porque tem que arranjar substituto, registrar o substituto, agora ele sai e ela volta, aí ela tem uma recaída de alguma coisa e pega mais uma licença suplementar, aí ela fala: “Não quero aula segunda de manhã nem sexta-feira à tarde!” Mas quem você põe nesses dias? Só tem mulher com as mesmas coisas. O homem também está rejeitando aula agora de monte, de segunda e sexta, então. Cada vez mais estão encolhendo o período letivo de terça a quinta, igual os deputados que trabalham só dois, três dias por semana. Então, elas têm que viajar acompanhando o marido, então não podem. Para preparar a viagem, tem que ser um dia antes e dão super poucas aulas, dão quinze aulas por semana, vinte aulas, não sei como é que está por aqui, mas não deve ser muito distante disso, não. E essa diferença marcou muito a formação do aluno, porque eu acho que um rapaz do ginásio, sétima, oitava série e depois o colegial, que não tem vivência com professor homem e que chega e chama ele ali: “Você é homem, cara. Então, você tem que agir assim.” E dá uma dura. A orientação educacional da mulher é basicamente um “vamos numa conversa”, muito fraternal, muito maternal de aliviar tensões, de achar sempre que ele não tem culpa: “É porque o pai dele morreu de câncer.” Morreu, tudo bem, mas não é por isso que ele vai ser delinquente. O pai morreu de câncer, paciência, vamos dar força para o garoto, auxiliar para no que for preciso. Agora, ele pode fazer o que quer? Está revoltado e dá um soco na cara do outro em plena aula, como aconteceu aqui quantas vezes! Agressão de soco dentro da aula, então não é por aí, né? E a professora não tem, às vezes, nem aquela energia de postura de cobrar do cara, um cavalão que até às vezes amedronta, porque elas, para enfrentar um moleque de dezoito anos que está bravo não é qualquer um também, né? Até acalmar uma fera dessas às vezes _______, ainda mais se ele se julga com razão. Então, essa diferença é uma coisa marcante que aconteceu. Estou sendo exageradamente prolixo e longo, né?

 

R – Não, mas é a sua opinião, é importante.

 

P/1 – Vai cortando porque...

 

R – Então, eu gostaria de saber como você vê a relação dos pais com a escola hoje?

 

P/1 – Eu não sei, mas me parece até estar havendo, fazendo palestras da minha área de biologia, fora de São Paulo, então não é a visão que eu tenho só de São Paulo, não. Tem muita escola e muito pai enfocando a relação empresa-cliente. É empresa? É. É cliente? Lógico. Tem que faturar, tem que ter lucro, tem que, né? Tem que tocar o barco aí com os seus funcionários, todos os seus compromissos trabalhistas e tudo mais, então é uma empresa. Tem que ter organização de empresa, e muito séria. A família é cliente, não é o aluno, a família é cliente da escola. A família paga, traz o filho aqui e comprou um serviço, né? Agora, tirando esse lado, o lado educacional pedagógico tem que ser mantido num outro nível, num outro contexto, não é por aí.

 

P/1 – E a relação com a comunidade da escola?

 

R – Podia ser até maior, mas as escolas continuam ainda meio fechadas para algumas coisas. É como universidade. A universidade fica praticamente enfocada nela, isolada do grupo social, ao aspecto geográfico de onde ela vive, de onde ela está situada, é muito pouco daquilo que a universidade constata como coisa interessante que pode ser aplicada no aspecto social de aplicação científica de conhecimento, fica muito seguro, não há uma abertura para o povo, em geral. Coisas que poderiam ser feitas em todos os departamentos de qualquer faculdade, disponibilizar para tudo quanto é pessoa ligada à escola, direta ou indiretamente. Pesquisas e trabalhos que a escola faça em termos populares, publicando com mais frequência jornais, revistas e rádio-televisão, coisa que não é feita! E quando é feita, é por gente que não tem competência para fazer, que é, geralmente, o pessoal de televisão e rádio. E mesmo de jornal, onde a gente frequentemente chama o aluno e fala: “Olha, jornal aqui, isso aqui é uma loucura, uma besteira, porque o cara que traduziu ou analisou isso aqui não é técnico, não sabe do que está falando.” Então, devia ter uma coisa mais direta entre a escola, a família e sociedade, sem dúvida alguma, ainda está muito fraquinha a coisa.

 

P/1 – E, na sua opinião, do que a educação brasileira mais precisa hoje?

 

R – O que mais precisa, eu acho que continua sendo informação.

 

P/1 – O senhor não acha que seja questão de recursos financeiros que estão envolvidos?

 

R – A escola pública? A escola pública não... É, existe um pouco de má aplicação de recurso financeiro. Eles às vezes são feitos de uma forma equivocada porque acham que, ao colocar computador na escola, a escola fica de primeiro mundo. Não é isso aí. A gente soube de caso no Brasil onde tinha um monte de computador para ligar na Internet e não tinha telefone na escola, começa por aí! E outra coisa, os núcleos onde as escolas existem, as escolas públicas, eles são núcleos muito pobres, às vezes eles não têm nem segurança pessoal. A escola não tem nem segurança, a escola é sujeita a ataque de vândalos que depredam tudo, que invadem, que forçam o aluno, que fazem um absurdo com drogas e tudo, até com armas em sala de aula. A gente lê toda hora isso. Os professores vão lá trabalhar de uma forma, com um risco de vida frequentemente, não podem desempenhar um trabalho normal de jeito nenhum. Então, tinha que haver estrutura básica muito bem definida, com condições físicas e pessoais de trabalho,  e melhor aplicação de dinheiro público investindo na escola. Essa história de fundar esses CEIS, CEUS, é uma ideia boa, mas não pode ser feita em larga escala porque privilegia dez, vinte ou trinta quando são centenas que precisam disso, né? Talvez, fazendo esse tipo de projeto pouco menos pretensioso, mas abrangendo muito mais alunos, muito mais milhares de alunos... Quer dizer, não precisaria ter um teatro de primeira, uma piscina olímpica, nem precisa ter piscina, mas podia ter um teatrinho razoável, uma oficina de artes, de ciências, montar lá um laboratoriozinho, salas de aula confortáveis, uma sala de informática, uma coisa modesta, um décimo do custo do que tivesse um pessoal ganhando bem para trabalhar naquilo, e que geralmente não adianta você fazer um prédio, botar todo mundo lá dentro e não ter gente para tocar o barco. Esse é um problema também muito sério. Falta de material ____ ano, porque não há hoje quem possa dizer em sã consciência que: “Olha, eu quero ser professor, eu tenho um ideal muito bom e vou conseguir.” Não vai conseguir nada. Do jeito que as coisas estão, não vai conseguir, está muito difícil trabalhar. Mesmo em escola particular, onde o problema de empresa está limitando o trabalho do professor, está restringindo o trabalho dele, estão nivelando por baixo as coisas. Eu converso muito com um colega que estava falando justamente isso, escola particular nivelando por baixo. Sabe, até para contratar pessoal em sala de aula que não tem condição, porque estão ganhando muito mal, né?

 

P/1 – Tá, como é que o senhor avalia as iniciativas governamentais para a educação, tanto no âmbito federal como estadual?

 

R – Olha, eu até gostaria de ver _______ ________ responder isso aí. Eu não sei deixar de ser contundente quando precisa, então... Elha, teria tanta coisa para falar, inclusive pessoal minha, em relação a ministérios, secretários da Educação que, olha, prefiro ficar quieto, realmente prefiro ficar quieto.

 

P/1 – E como o senhor vê a formação dos professores hoje?

 

R – Formação de professor? É, as faculdades particulares, que são centenas, formam professor de tudo! Agora, como é que esse pessoal está se formando professor? Agora, quando há dois três anos atrás uma faculdade do Rio de Janeiro, que eu não me lembro o nome, havia um aprovado no vestibular que era analfabeto! Vocês lembram desse caso? Ele foi aprovado no vestibular e era analfabeto! Não sabia assinar o nome dele e foi aprovado no vestibular de uma faculdade, seja lá qual for, não sei agora. Se ele fez o curso, eu não sei, porque eu não acompanhei mais esse caso, não houve mais divulgação. “Eu vou me formar pedagogo!” Hoje qualquer pessoa se forma pedagogo, não é a Pedagogia em si, mas faculdade de Direito, de Pedagogia, de Ciências Sociais, de Línguas, tem tudo em que é canto, né? É o que acontece na OAB todo o ano, com os advogados. Não sabem redigir uma petição para o juiz! Problema sério. Então, o nível caiu estupidamente. Por quê? Porque ninguém vê vantagem em receber por aula no ensino público. No ensino público são oito, dez reais por aula! Pensando bem, alguém tem o compromisso de chegar numa escola na hora certa, estacionar o seu carro na rua ou num estacionamento, entrar numa sala de aula e, entre aspas, entreter cinquenta crianças das mais diferentes origens, dar conta do recado de passar um conteúdo, avaliar esse conteúdo, atualizar a criança, ensinar respeito, ensinar isso e aquilo, por dez reais. Se eu chamo um encanador em casa para trocar uma torneira, é cem! E trabalha meia hora, quinze minutos: “Quanto é a conta?” “É cem reais!” Tudo bem. Quem vai querer ser professor hoje em dia? Quem é que está sendo professor hoje em dia? Eu até falei no começo dessa entrevista que, quando eu comecei, a sala de aula eram catedráticos da USP, de física da USP, da Politécnica, da Medicina de Pinheiros, eram todos colegas nossos de colégio particular de São Paulo! Eram pessoas de estrutura, de uma cultura, autores de livros, autores de tese, doutorado, um negócio completamente diferente, é outra história. E está difícil ____ formação para professores, até porque não tem nenhum estímulo. Qualquer professor da sua escola, particular ou não, que fale assim: “Você me dá uma semana?” Isso aconteceu comigo no Dante: “Uma semana em que eu precisaria fazer uma especialização.” e

 

u falei isso em Genética na década de 60 que chegou um cara dos Estados Unidos que era Prêmio Nobel, eles não me deram dispensa de aula, eu falei: “Eu deixo um substituto aqui!” “Não, eu preciso de você aqui, você não vai sair!”, e eu falei: “E se eu for á revelia!” “Olha, eu vou descontar todo o seu salário e você fica na mira!”. Qualé o colégio hoje que deixa o professor fazer algum curso de uma ou duas semanas fora da escola mesmo deixando algum substituto? Não liberam para nada. Então ele não tem auxílio da escola, não tem recurso nenhum em termos de poder fazer aquilo que é interessante, lançar uma ideia nova e desenvolver um projeto paralelo. Fica difícil porque está tudo muito fechadinho naquele padrão de atividade.

 

P/1 – E como o senhor vê a introdução das novas tecnologias na sala de aula? Isso melhorou, não mudou?

 

R – Eu acho que é meio difícil falar disso porque o pessoal vai me chamar de dinossauro, né? Eu acho que a primeira coisa é que... É substituir o professor em sala de aula, é olho no olho, ouvindo a tua voz e você ouvindo a voz dele, é o corpo a corpo para aprender a ser gente, antes de mais nada. Agora, toda a tecnologia tem uma época de boom, você acha que aquilo ia resolver um monte de coisa, daqui a pouco você vê que não era bem assim e, quando você analisa com calma, depois de uns anos da novidade, aquilo cai quase num esquecimento. Então foi assim quando apareceu o slide. Antes eram só pranchas anatômicas, não sei o quê, né? Depois que apareceu o slide foi uma festa; depois que apareceu o vídeo foi outra festa; depois apareceu o computador, foi outra festa. Ontem eu fui bater um papo com o pessoal lá da editora e ele me falou: “Olha, você tem que vir ver aqui um Powerpoint com os trabalhinhos do livro de Ciências de vocês!” Eu falei: “Tudo bem, vou amanhã dar uma espiada nisso.” E de manhã lá no Vértice, um rapaz ficou assombrado porque eu preferi usar transparências de projeção do que um Powerpoint que ele me montaria: “Mas o senhor não que um Powerpoint?” Eu falei: “Eu não quero. Eu nunca nem ouvi falar nisso, eu não preciso de Powerpoint! Eu preciso de voz, de postura e, se eu tiver um desenho mais difícil, eu pego do livro uma transparência, deixo projetada a aula inteira ali, na luz natural, que não me dá trabalho estar ligando, se o programa é compatível, se não sei o quê, se queimou a lâmpada do Data Show, não me interessa. Está aqui, o projetor está aí, eu te explico no desenho, faço um rabisco por cima aqui da transparência se precisar”. Então, toda a tecnologia é bem vinda, lógico, ninguém é tão estúpido de achar que é formalidade ou supérfluo, mas ela tem que ser usada na devida medida do importante, que for do objetivo direto dela. Eu não vou dizer que não seja interessante o trabalho, pesquisa em Internet e fazer um programinha no Powerpoint para expor um seminário qualquer, tudo bem, ótimo, excelente, e há aqueles que fazem isso aí como ninguém, dominando a tecnologia toda. Mas o meu filho também dá aula de biologia, o mais velho, e ele falou que montaram lá na escola uma parafernália, tiraram o quadro negro e um giz, botaram um quadro que você faz com o Data Show e liga mais dois ou três aparelhos direto na Internet, mais o DVD da escola, mais não sei quem com a estação central geradora do colégio, e que ele fica todo perturbado com a turma em aula, cinquenta alunos em aula, molecada de sétima, oitava série, e ele tem que ligar lá uma tomada, desligar, tirar o programa, por o outro, agora desliga a Internet para passar para o DVD daqui. Ele fica desbaratinado no meio da sala e a molecada. Quem sabe é quem deu aula para o ginásio de sétima e oitava. Então, você deixa de chamar a atenção deles...

 

P/1 – Um segundo!

 

R – Ah, vira um inferno, uma loucura! Então, tudo é bem vindo, mas na sua devida necessidade e praticabilidade.

 

P/1 – Tá. E qual é a função hoje que a escola tem que ter? Qual é a principal função?

 

R – Fica aquela briga, entre aspas, no bom sentido de “isso sou eu quem faz, isso é você quem faz”. A sua família, a escola. Tanto a escola na orientação educacional quanto na sala de aula, que são coisas, às vezes, até meio conflitantes em alguns casos. Mas eu acho que a escola não pode largar mão da formação do cidadão, tem que dar as noções básicas para ele do que é moral, do que é justiça, do que é responsabilidade, do que é cidadania, direito de ir e vir, direito de respeitar as diferenças, aquelas coisas todas. Isso a escola tem que fazer, mesmo porque as famílias não estão mais fazendo, estão fazendo pouco, poucas famílias fazem isso, e a família teria, logicamente, que fornecer à escola o apoio para isso. Frequentemente a família não aceita uma palavra contrária da escola em relação à educação da criança, é muito frequente esse tipo de opinião divergente. E quando acontece alguma coisa muito estranha, muito diferente, a família frequentemente critica a escola. “Isso é culpa de vocês e tal.” Só que é aquele problema, a gente sempre falou? a escola fica com o aluno, com a criança, durante quatro, cinco horas por dia, o dia tem 24 horas; o que ele faz nas outras vinte horas, 21 horas? Não sei e nem posso saber. Nós tivemos alunos do Pueri Domus aqui que tiveram problemas seríssimos aí fora. E não é aqui, no Dante Alighieri teve caso também, no São Luiz, em todos, até de envolvimento com bandido. Você não sabe o que o aluno está fazendo fora da sua casa ou da escola. Então, a escola responde por uma parte e a família tem que responder pela outra parte. Tem que trabalhar, lógico, tudo em sintonia, não contrariamente uma a outra.

 

P/1 – Que indivíduo a escola tem que formar?

 

R – Que indivíduo? Basicamente é um cidadão culto. Não precisa mais nada, duas palavras: cidadão culto e acabou.

 

P/1 – O resto vai...

 

R – É, porque quando você fala culto, ele tem que ter uma noção boa do mundo que o cerca, do cotidiano, das ciências básicas de vida, da geografia, da economia do planeta, um cara culto. Você fala para ele: “Olha, quem foi Immanuel Kant? O que o Goethe fez? O que o Cervantes... Quem é o Cervantes?” O cara tem que saber um pouco de tudo, a cultura geral boa, a cultura humanística, que está faltando muito hoje em dia na escola, a humanística está sendo jogada para escanteio. Bem vista essa volta da filosofia no ensino, né? Que ensina o garoto a raciocinar mais um pouquinho, a pensar em coisas da vida aí. Tem que ser culto, não o conteudista de saber o que vai cair no vestibular, que é um negócio completamente absurdo. Se você não puder dar um conteúdo, nem deve dar o conteúdo todo da sua matéria, você tem que pinçar coisas que são prioritárias e mais importantes até na vida prática dele, da vivência dele, e tem que ser um cidadão que vai respeitar os outros todos e o país dele, o posto dele, o cargo que ele vai exercer. Não pode ser mensaleiro nem sanguessuga, coisa nenhuma, esses caras não são cidadãos, né?

 

P/1 – Com certeza, não.

 

R – E não aprenderam na escola  cidadania. Certamente não. Se aprenderam ou se escutaram, não aprenderam. Tem muito daquela história do ensinar e aprender, né? A escola às vezes pode pensar que está ensinando, mas o cara não está aprendendo, então, nós temos que verificar se ele está aprendendo, é o aprendizado que é importante, não o ensinar. Ensinar todo mundo fala que ensina. “Eu já terminei o programa esse ano, já posso dispensar a classe.”

 

P/1 – Como o senhor avalia o impacto da sua passagem no Pueri Domus, tanto na vida pessoal quanto profissional?

 

R – Para mim marcou muito o começo e a volta, depois do acidente cirúrgico, foram duas coisas muito boas que me aconteceram na vida, duas coisas excelentes. O início e o retorno depois de uma licença. Você perguntou também da...

 

P/1 – Impacto da sua vida pessoal e profissional dessa trajetória.

 

R – Foram essas duas coisas. Agora, como vida pessoal eu tive um grande impacto na minha vida, que foi ter sido reprovado em exame de medicina, que era a minha paixão naquela altura, sempre gostei e continuo gostando de medicina e soou negativo. O positivo foi ter feito um curso muito sensacional na USP, isso é natural, quando eu terminei, achei que eu tinha feito uma grande proeza.

 

P/1 – E os aprendizados de vida que o senhor teve trabalhando no Pueri Domus?

 

R – Bom, é difícil a gente pensar no que foi aquilo, o que já veio e o que foi de outros lugares também.

 

P/1 – Misturou um pouco. 

 

R – É, mas aqui, não sei, eu me sentia muito à vontade, como se fosse realmente a minha casa, né? Eu chegava aqui e sabia que era respeitado, o que eu falava era ouvido, a gente discutia as coisas abertamente, com liberdade. Achei que valeu muito esse tipo de confiança recíproca entre escola e professor. Foi muito bom, uma lembrança muito boa que eu tenho daqui. Tanto que, logicamente, eu não esqueço a escola. Se me chamar aqui todo o dia para uma entrevista de horas, eu vou ficar.

 

P/1 – Que ótimo! Mas, então, o que o senhor acha do Pueri Domus comemorar os quarenta anos por meio de um projeto de memória que envolve as comunidades?

 

R – Acho que todas as escolas deveriam ter isso não depois dos quarentas, mas até chegar aos quarenta.

 

P/1 – Gradativamente.

 

R – Para ficar uma coisa mais completa, mais fidedigna e tal, porque muito se perde. Por exemplo, agora, o que eu posso lembrar? Coisas que foram muito marcantes, mas, às vezes, uma coisa que parecia sem importância pode ter sido muito significativa se a gente lembrasse agora e reavivasse a memória um pouco. Sem dúvida.

 

P/1 – Legal. O que o senhor achou de participar da entrevista?

 

R – Foi legal, pessoal simpático, paciente demais, não deu para cansar. Daria para continuar mais um pouco se precisasse.

 

P/1 – Foi gostoso contar a história?

 

R – Interessante, é, valeu!

 

P/1 – Falei que não ia doer muito.

 

R – É, foi bom.

 

P/1 – Legal.

 

R – Nem dor física dos glúteos e nem dor mental de pressão psicológica, valeu a pena.

 

P/1 – Obrigado, professor.

 

R – Espero que eu tenha sido aprovado nesse teste de documento histórico do colégio. Obrigado por vocês.

 

P/2 – Em nome do Museu da Pessoa, a gente agradece pela entrevista.


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