Busca avançada



Criar

História

O problema não era o mundo, era eu

História de: Neivison Silva Santos
Autor: Valdir Portasio
Publicado em: 13/06/2021

Sinopse

Teve uma infância muito tranquila até os 10 anos de idade, quando começou a se revoltar após a morte de sua avó materna e enfrentar problemas na escola. Desistiu da rebeldia contra o mundo quando sentiu que tinha um débito com seus pais e que queria deixá-los felizes. Porém, apenas quando começou a participar do projeto social Com.Domínio foi que mudou a sua visão sobre a vida.

Tags

História completa

Instituto Wal-Mart - Memórias e Projetos Sociais Realização Instituto Museu da Pessoa Entrevista de Neivison Silva Santos Entrevistado por Márcia Trezza e Giselle Rocha Salvador, 20 de Setembro 2007 Código: IWM_HV011 Transcrito por (não consta) Revisado por Clara Medina Massadar Adão Moreira P1 - Neivison, pra gente começar, eu queria que você falasse nome completo, lugar e a data que você nasceu. R - Eu sou Neivison Silva Santos, eu nasci no dia 6 de março de 1990, às 9 horas da manhã, na Maternidade do Hospital de Santa Izabel, aqui em Salvador. P1 - Neivison, qual o nome do seu pai? R - Natanael Siqueira Santos. P1 - E da sua mãe? R - Jael Silva Santos. P1 - Quais as atividades deles? Em que seu pai trabalha? Você sabe? R - Bom, meu pai, podemos dizer que ele é um faz tudo. Ele é técnico de manutenção industrial, mecânico, é soldador, agora ele é “capoteiro”. E na história dele, ele já foi de várias profissões, de vários cursos técnicos, de várias empresas. Ele sai de uma ou então muda de profissão. Não gostou daquela, então ele passa pra uma outra profissão. P1 - E o que ele fala do trabalho dele pra você? Ele fala alguma coisa? R - O meu pai, eu não poderia dizer, descrever ele como profissional. É, ele usa muito o termo “vestir a camisa da empresa”, ele só entra numa coisa que ele sabe que vai fazer bem feito. Ele mudar de técnico de manutenção industrial para capoteiro, ninguém entendeu lá em casa... Tava consertando máquinas lá na indústria e depois vai forrar cadeiras, forrar sofá. Ele disse: “Dá pra fazer bem feito e eu vou fazer”. E realmente. Ele até hoje está fazendo, uns quatro anos que está trabalhando com isso. E é elogiado por isso, pelos chefes dele. P1 – Você já viu ele trabalhando? R - Já. Eu o aprovo como capoteiro. P1 - Desde quando você era pequeno, você chegou a vê-lo trabalhar alguma vez? R - Quando ele estava desempregado, eu sempre ajudava ele, assim, em algumas atividades que ele praticava. De soldador, eu não podia soldar porque ia queimar as minhas vistas. Mas eu ficava do lado, pegando a ferramenta, cortando alguma coisa, passando para ele. Mecânico não, porque era só na indústria e ele chegava em casa tarde. Foi o período que eu menos gostei até. Porque saía cedo, eu tava dormindo, chegava e eu já estava dormindo também. Não era muito bom. P1 - E vocês conversavam quando você ajudava ele? R- Muito. P1- É? E o que é que você lembra que ele falava pra você? R - Eu costumo dividir a minha vida em três fases. O modo como eu via a vida. De 0 a 10 anos era um sonho. A vida para meus pais era perfeita, o mundo era perfeito, todas as pessoas eram felizes e a vida era uma brincadeira. Com 10 anos eu descobri que não era assim. O mundo não é perfeito, a vida não é brincadeira. E a realidade não é tão linda como todas as crianças acham. E a parte pra enfrentar isso, foi mais pelos conselhos, que eu obtive pela formação que eu obtive deles. Foi a fase mais confusa que já tive, que durou dos 10 anos até o ano passado, foi quando eu conheci o Com.Domínio Digital que me fez voltar. Eu sei que a vida não é um sonho, mas ela não é tão ruim e eu sei que ainda posso melhorar. P1 - O que aconteceu quando você tinha dez anos, que fez você ver que a vida não era um sonho? R - Bom, quando eu nasci, meu pai tinha vindo de Aracaju. A gente tinha chegado aqui um mês antes. A gente tava morando na casa do meu avô, na terra. E eu fiquei até os 2 anos com a minha avó e depois a gente se mudou, foi morar em outra casa, foi morar em outros estados. Mas ela, o tempo inteiro, era a pessoa que eu mais gostava nesse mundo aqui. Com dez anos, com nove anos e dez meses, ela faleceu. P1 - Sua? R - Minha avó materna. A princípio eu não entendi muito, era primeira pessoa que tinha falecido, assim, próxima minha. Aí é que eu vim a entender o que é perder uma pessoa, uma pessoa desaparecer da sua vida de uma hora pra outra. E em seguida, meu pai cometeu alguns erros, mentia. Meu pai não mentia. Pra mim, meu pai não mentia. As pessoas não eram perfeitas e os amigos do meu pai o traíram. Ele perdeu o emprego, ficou uns dois anos desempregado. Eu com doze anos. Esses acontecimentos, acontecimentos na escola, se eu tomava uma nota boa, os alunos quando terminava a aula me batiam. P1 - Se você tirasse nota boa, quem te batia? R - Os outros alunos da sala. Isso na quinta série, com 11 anos. Eu comecei a perder a fé no mundo, a fé na vida. Até o ano passado, o mundo era ruim e eu estava vivo porque não tinha outra coisa pra fazer. P1 - E quando você começou a ficar assim, o que é que você fez? Continuou a ir pra escola assim mesmo, ou você começou a fazer outras coisas? Fala um pouquinho dessa fase. R - Quando eu desisti, vamos dizer assim, da vida, eu lembrei que eu tinha uma dívida. Meus pais até não gostam que eu use esse termo. Eu tinha uma dívida com eles. Eles tinham me criado até ali, então eles não mereciam que eu me rebelasse agora e saísse por aí punk, quebrando tudo. Na escola eu continuei com boas notas. E quando eu chegava em casa, me sentia feliz quando eu mostrava o boletim a eles e eles mostravam aos amigos. Mas não que aquilo me deixasse realmente feliz e realizado, alguma coisa, porque aquelas notas pra mim não valiam de nada. É, na igreja, na religião continuava evoluindo. Era uma das poucas coisas que eu gostava porque desde pequeno fui criado naquilo ali, é a única coisa, é o caminho de vida que eu sei fazer. P1 - Qual igreja? R - Eu sou testemunha de Jeová. É, só que nessa idade também, como eu apanhava muito, me aliei aos meninos que eram mais revoltados na sala de aula. P1 - Apanhava de quem? R - Dos alunos, aqueles que... P1 - Ah tá... R - Na quinta série tinha boas notas. Mas os cursos e os projetos que vinham para os alunos, foram pra outros. Dizia: “Ah, adiantou eu me esforçar tanto o ano inteiro? Então esse ano não vou fazer nada”. Na sexta série, na segunda unidade, eu tinha 75 faltas. Eu já tinha completado os 25%. Já ia perder por faltas na escola. Aí eles chamaram meus pais. Eu saía e ficava o dia inteiro na lan house jogando videogame. Eu ia sair pra escola às sete horas da manhã e ia às oito pra lan house. Chegava em casa três da tarde. O dinheiro do transporte, eu pegava carona, mais o dinheiro da merenda é o que dava pra sustentar a lan house. Nesse meio tempo, os meninos que eu comecei a andar, alguns não eram pessoas ruins, outros roubavam. Por duas vezes eu carreguei o roubo na minha mochila, ou distraía as câmeras, porque nos mercados aqui, a câmera segue o movimento. O que eu fazia? Eu jogava a mochila e os seguranças e as câmeras ficavam olhando pra mim, enquanto eles estavam na seção do biscoito, roubando. Pegava de tudo. Pegava pasta de sapato de engraxar pra sair pichando as paredes. Era uma coisa de revolta de criança mesmo. P1 - Que mais que vocês pegavam? R - Alguns pegavam bolachas e ficavam com medo de chegar em casa com alguma coisa roubada, os pais iam bater. Aí jogavam fora, na verdade nem aproveitavam, era só pra dizer “eu brinquei com a cara dos donos do mercado”. Quando eles chamaram meus pais na escola, eu tentei me matar. P1 - É mesmo? R - Tinha o primeiro e o segundo andar. Eu subi pro primeiro e achei que pulando dali, eu conseguia morrer, mas não aconteceu nada comigo. Só assustei a minha mãe. P1 - Você pulou mesmo? R - Pulei. Cheguei do para-peito, saí da janela e pulei. Mas não aconteceu nada. A outra vez, eu tomei os remédios de meu pai, que ele tem problemas cardíacos. Eu peguei e tomei o remédio, desacordei, mas acordei normal depois no hospital. Não tinha acontecido novamente nada comigo. Cada vez que eu acordava, eu ficava zangado: “Pôxa, não morri, ainda tô aqui”. P1 – E você tinha essa vontade, achava que era melhor morrer? Na escola você tava dessa forma. E outras atividades? A igreja, por exemplo? R - Nesse período deixei de ir. Como sempre, eles me colocaram pra fazer curso de informática, esse tipo de coisa. O curso acabava seis horas e eu tinha de estar na igreja às sete. Eu ficava um tempo, deixava passar três ou quatro ônibus pra não dar tempo. Eu ia até a igreja e ter de ir direto pra casa. Eu ia chegar atrasado, não ia, não dava mais tempo. P1 - E a sua revolta era contra quem? R – Contra... Eu não conseguia entender. O que eu achava que era, na verdade não era nada daquilo. Eu tinha a vida como um sonho, um sonho muito de criança mesmo. Meu pai e minha mãe nunca iam mentir nem um pra um, nem contra o outro, nem pra mim. Os meus amigos seriam de confiança, estariam comigo o tempo inteiro. Meu pai nunca ia morrer. Minha avó nunca ia morrer. Meu avô nunca iria morrer. Estariam todos comigo o tempo inteiro. Quando eu entendi, quando eu descobri que não era isso, eu não conseguia entender que isso não era realidade. Então desisti, pode-se dizer de tudo. P1 - E sua mãe? R - Minha mãe não sabia de nada. Porque até os dez anos, se eu ia pra escola, às sete horas e chegava lá e não tinha aula, sete e dez eu tava em casa. No mesmo ônibus que eu ia, quando voltava eu já estava pegando pra ir pra casa. Tudo que me falavam, se um menino me chamava pra usar alguma droga, pra ir jogar futebol, chegava em casa: “Oh, minha mãe, me disseram pra fazer isso, isso, isso.” Tudo, o meu dia inteiro, desde às sete horas quando eu saía de casa, até a hora que eu voltava, ela sabia cada minuto. O que a professora disse na sala, que matéria foi, ela tinha muita confiança. Nesses três meses que eu fiquei fazendo isso, nunca desconfiou pela confiança que ela já tinha em mim. E foi isso que me deixou com a consciência pesada. Ela confiava tanto em mim, e eu fazendo aquilo tudo. Quando a diretora chamou ela na escola, ela mesmo assim disse “Oh, a senhora deixa ele terminar o ano, não reprova ele, pra ele passar de ano”. Ela mesmo assim me deu um voto de confiança. E eu disse: “Vou passar de ano”. E parei. Parei de andar com esses meninos, com alguns. E eles ficaram zangados comigo. Porque eu andava com eles, eu chamava eles pra faltar às aulas e eu terminei passando de ano e eles que continuaram, perderam. Então fui eu que desencaminhei. E terminei saindo daquilo e eles continuaram. Terminaram se dando mal por minha causa, pode-se dizer assim. Mas a partir daí, meu plano era agradar os meus pais, não desagradar mais os meus pais, nem desagradar mais às pessoas que gostam de mim. Fiz isso até o ano passado, nesse período fiz alguns cursos. Meu pai dizia: “Eu quero que você seja contador”. Então vou ser contador. Não importa o que é que um contador faz, se é bom ou se é ruim, meu pai quer que eu seja contador, vou ser contador. P1 – E você ficou três meses assim nessa situação de revolta? R - É, foi um período do começo da sexta série até a segunda unidade. Deve ter sido seis meses, quatro meses, mais ou menos no meio do ano, até junho. P1 - E você passou de ano e continuou nessa escola? R - Não, mudei de escola no final de tudo isso. Porque o clima já estava ruim na escola, aí eu mudei pra uma outra. Chegando na outra, eu já fui o inverso do que eu tinha sido na primeira. Digo: “Não, vou provar pra eles que eu não sou esse ser ruim todo”. Abri o grêmio, abri a biblioteca, comecei a remodelar. Na escola de novo, mas de novo pra agradar os meus pais. Pra os meus pais ficarem felizes com aquilo que eu fizesse. P1 - E ano passado, você estava em que série? R - Ano passado eu estava no segundo ano. Eu estou no terceiro agora. Quando eu tinha quatorze anos, sétima ou oitava série, não me lembro, mandaram a gente fazer um trabalho, uma pesquisa. E fui numa biblioteca comunitária, aí começou a mudar a minha vida. Não do modo de ver a vida. Mas pelo menos o modo que eu encarava, enfrentava ela. Conheci o Sofia, centro de estudos, onde hoje acontece o Com.Domínio Digital e lá fiz um projeto de liderança juvenil. P1 - Um curso? O que que é? R - Um curso. Eles davam um curso de manutenção de microcomputador, de expressão, é, português, de matemática e cidadania. Nesse curso a gente fez alguns projetos para a comunidade, como asfaltar a rua, limpar a praia, feira de saúde pra jovens mesmo. Mas eu continuava desacreditado: Eu vou fazer isso porque o curso diz que eu tenho de fazer, então bora fazer, vamos lá. P1 – Na biblioteca comunitária que você encontrou esse curso? R – É uma ONG onde tem uma biblioteca comunitária.. P1 - Que dava os cursos? R – Isso. Então, se o curso pede, eu vou lá e faço. Meu pai me ensinou que onde você está, tem que fazer o melhor possível. Então se estou aqui, vou fazer, mesmo que eu não acredite nessa coisa de ajudar as outras pessoas. Ano passado, eu já tinha terminado os cursos, o curso acabou em 2005. Em 2006 eu passei a fazer manutenção dos computadores de lá, porque eles perderam, acabou o projeto e não tinham mais verbas, porque são apoiados por instituições. Eu me comprometi a fazer a manutenção dos computadores deles. Quando chegou em julho, eles disseram “Oh, o Instituto Aliança vai trazer o instituto Aliança e o Instituto Wal-Mart. Não sabia nem quem era Instituto Wal-Mart, vai trazer um projeto: Com.Domínio Digital. Eu disse: “Ah, está bom”. Quando ele me disse: “Rapaz, acho que você deveria fazer. E tem dinheiro, dá dinheiro. Porque o Consórcio Nacional da Juventude dá dinheiro, são duzentos reais, assim, cento e cinqüenta, duzentos reais por mês pra fazer o Consórcio”. “Porque com esse tal de Com.Domínio não vou ganhar nada.” Ele disse: “Vai por mim, confia em mim, e faz lá o Com.Domínio, que vai ser bom pra você, conheço essa instituição.” P1 - Quem era essa pessoa? R - É o coordenador da ONG(Organização Não Governamental), do Sofia, centro de estudos, que presta serviço com o Com.Domínio e o Instituto Aliança e o Instituto Wal-Mart. Bom, teve a inscrição para fazer o Com.Domínio, essa ONG estava com os computadores todos desmontados, estava sem projeto por muito tempo, aí eles desmontaram. O Instituto Aliança ia lá pra ver como era o local. De sete horas da manhã até às noves horas da noite, eu consegui montar e deixar tudo pronto no laboratório para o Instituto Aliança. P1 - Você ajuda lá, montando os computadores? R - Isso, tiveram as entrevistas pro Com.Domínio. Um questionário, uma oficina com um grupo e uma entrevista individual. Consegui passar. Mas era aquele negócio: faz um curso e quem sabe entra no meu currículo? Logo eu entrei. Só que o ambiente era uma coisa que eu nunca havia visto em lugar nenhum. É bom ter professores, professores são pessoas que ensinam e que desaparecem. Na maioria das vezes não fazem falta depois. É assim que foi com a maioria dos meus professores na escola. Eles vieram, passaram o que tinham para passar e sumiram. Não lembro do nome da maioria deles. E o Com.Domínio Digital foi diferente. Eram três, três matérias, pode-se se dizer assim: desenvolvimento social e pessoal, tecnologia da informação e rotinas administrativas. Quando chegaram os profissionais, os dois primeiros que conhecemos, do desenvolvimento social e pessoal que era a Mariana, e tecnologia da informação era o Alialdo. O Alialdo tinha 25 anos, mais novo que até uns do Com.Domínio Digital. Quando eu vi aquele jovem assim, eu disse: “É aluno?” “É não, é o professor.” E no primeiro dia, logo que a gente se conheceu, chegaram os computadores novos, e a gente foi montar. Ele começou a me passar alguns conhecimentos. Ele disse: “Quando você sair daqui, quero que você tenha ganhado muito dinheiro”. Eu não entendi, o cara nem me conhecia e já queria que eu saísse ganhando muito dinheiro. Está sendo pago pra isso, será que era por isso? Mariana, a de desenvolvimento pessoal e social, logo na primeira semana de curso, a filha dela ficou doente. Ela foi pro Com.Domínio Digital, mandou o pai ficar com a filha no colo. Porque ela disse que tinha uma filha em casa, mas tinha 80 lá no Com.Domínio Digital. Aquilo me deixou numa confusão muito grande. E outra, quem são essas pessoas? Oitenta filhos e ela não conhece a gente nem há um mês! está com essa afeição toda. Tinha dias que eles ficavam com fome, que o almoço deles não vinham. É, ela dava aula a manhã inteira, das 08:00 às 12:00h. E em seguida, ela pegava 13:30h aula e seguia, ficava sem ver a filha, e seguia nesse gás. Com aquele sorriso sempre no rosto, isso começou a mudar a temática no Com.Domínio Digital. Começamos logo com identidade, quem era que nós éramos. P1 - E ela é que fazia esse trabalho com você? R – Isso. Ela começava sempre quando nós tínhamos a discussão, ela dizia: “A vida é ruim, a vida não presta?”. Ela começou a notar aquilo e começou a conversar: “Por que você acha que a vida é ruim, por que você acha que a vida não presta? Como foi a sua vida?”. Teve um dia que nós contamos nossa história de vida. E no dia que contamos nossa história de vida, eu achava que a minha vida tinha sido uma coisa desastrosa, uma coisa triste que todo mundo ia chorar ao ver. Tinha gente que tinha pai alcoólatra, tinha gente que o pai tinha morrido, tinha gente que não tinha os pais. Tinha cada história de vida, uma mais triste que a outra, que era 80 pessoas chorando enquanto um falava. Então minha vida foi um paraíso, porque eu estou zangado, porque estou irritado com a vida? Comecei nesse período a mudar a visão que eu tinha do mundo, como ele era. Depois viemos trabalhar com a comunidade: Passar pra comunidade, convencer a comunidade que a vida não era ruim. Pra isso eu tinha de me convencer primeiro de que ela não era essas coisas, tão "ruim". Como todo projeto que é social, tem os “prós”, mas tem aqueles momentos que precisam do patrocínio de uma instituição. E pra provar pra aquela instituição que o projeto está indo bem... Eu via Mariana que era a educadora âncora, se o pneu furava, o pneu do carro que nos levava ao curso, o problema era de Mariana, ia todo mundo em cima dela. Se faltava merenda, o problema era dela. Se faltava vale, o problema era dela. Se o mundo acabasse, lá no Japão jogassem uma bomba, o problema ia ser de Mariana de qualquer jeito. Mas o modo que ela tratava isso tudo sempre sorrindo, por mais estressada que ela estivesse, ou não, mesmo que ela não estivesse agüentando mais, ela tratava com amor tão grande, que eu comecei a aprender com isso. Comecei a aprender como educador que tem 25 anos e que todo mundo erra. Ele às vezes dizia coisas pesadas, assim, aos alunos. Começaram a se queixar, mandaram a queixa dele pro Instituto Aliança. E ele parou com o Com.Domínio Digital inteiro, levou pra um anfiteatro, aí sentou e disse: “Gente, desculpa. É a primeira vez que eu trabalho como educador, eu sou técnico em informática e nunca tinha trabalhado com projeto social, foi a minha primeira vez. Eu tô colocando meu cargo de professor agora nas mãos de vocês. Se vocês acham que eu não tenho perdão, que eu prejudiquei muito vocês, podem falar. Podem passar um abaixo assinado, que eu estou colocando meu cargo à disposição de vocês”. Foram momentos mágicos. Que, meu Deus, como as pessoas, o ser humano é um ser que não dá pra explicar, você passa e vê uma filha que se joga na frente do pai pra não levar um tiro; é um pai que se ele pudesse, ele doaria seu coração, os órgãos dele morria, porque o filho dele está precisando. E vê também o outro que mata porque pisou no pé. Nesse ínterim, eles passaram um vídeo do Will Smith um filme “Em Busca da Felicidade”. Que falava da resiliência. Tudo que é ruim tem alguma coisa que se aproveita. Teve uma frase que Mariana disse que nunca vou esquecer: “O importante não é o que fizeram com você, o que que a vida fez com você, mas é o que você vai fazer com o que fizeram com você”. E todo dia eu me lembro disso. Pode ser que hoje, um amigo meu disse que o mundo dá voltas, hoje a volta está boa, amanhã ela pode está ruim, mas quando ela tiver ruim, eu vou aprender alguma coisa dela, vou aprender alguma coisa daquela volta ruim. E vou transformar ela numa volta boa. Hoje eu não fico esperando que a vida seja boa pra mim, eu faço com que ela seja. Eu entendi que todo ser humano tem o poder de melhorar. E se cada um tentar melhorar o seu mundo e o dos outros, tudo vai ser melhor. O problema é que a gente espera muito. P1 - E você e isso tudo, você acha que aprendeu em que momento, foi no curso? Isso que você acabou de falar agora, assim, essa mudança foi principalmente no curso com Mariana ou teve outras coisas que aconteceram além do curso? R - É, o problema não era o mundo, era eu. Minha mãe, ela tava dizendo essa semana, que teve um período que ela pensou em me mandar pra casa de um parente pra Itália ou pra bem longe daqui, porque ela não tava me agüentando mais. Todo dia que eu chegava era pra eu discutir com ela. O problema não era o mundo. Pra mim, era todo mundo que estava errado e eu estava certo. Mas na verdade não, tava eu errado e todo mundo querendo falar alguma coisa. Quando minha mãe ia me dar um conselho, eu explodia pra cima dela. Meu pai como homem, e tão explosivo como ele, nem se arriscava mais a dar um conselho, pra ele não perder a cabeça. Depois do Com.Domínio, eles ensinaram: “Por que você não pensa um pouco antes de falar? Você gostaria de ouvir o que você está falando?”. Quando minha mãe me dizia alguma coisa, eu pensava antes de responder, nossos diálogos já duravam mais que três minutos. Às vezes, alguma coisa que ela queria me falar, tinha me ajudado muito e eu não tinha ouvido por pura ignorância. Eu comecei a ouvir mais, a pensar antes de falar. E acho que foi isso que mudou muito, no modo como me comporto hoje, como eu encaro a vida hoje. Era só eu mudar um pouco, que tudo ia chegar prum lugar certo. Quem era a peça fora do lugar era eu nesse tempo. P1- E você tem irmãos? R - Eu tenho uma irmã. P1- E como é que é você e a sua irmã? R - Minha irmã é a pessoa mais indescritível que existe. Nada pra ela é ruim, nada. O mundo vai acabar amanhã, ela: “Então vamos aproveitar hoje. Ele vai acabar amanhã, vou me preocupar que ele vai acabar amanhã”. Nunca a vi zangada, triste, chorando. Às vezes ela chora com filme, mas só por isso. De tudo ela tira uma coisa boa. Se eu tivesse olhado isso nela antes, eu tinha aprendido, eu só vim a enxergar isso há pouco tempo. P1- Ela é mais velha que você? R - Ela tem quatorze anos. P1- Como ela chama? R - Jaíane. P1- Jaíra? R - Jaíane. P1- Jaíane. Você lembra de você e ela pequenos? O que vocês faziam? R – Quando... P1 – Brincadeiras ou outra coisa que não seja brincadeira? R – Quando pequena, Jaíane ficava na casa das amigas dela brincando de boneca. Minha mãe não me deixava empinar arraia porque dizia que iria trazer as poluições do ar pra minha mão e pro rosto e eu ia ficar doente. Jogar peão também não, porque eu ia acertar o meu pé. É, gude nunca me interessei. Essas brincadeiras, bolinha de gude, que as outras crianças faziam ou eu não podia fazer ou não me interessava. Uma vez, assim, no final de semana, brincar de pic esconde, esse tipo de coisa. Mas a minha infância, na maior parte do tempo, foi na frente da tela de um computador ou no vídeo game. Era sempre eletrônico, eletrônico, eletrônico. Estudava, meu pai sempre puxou muito que eu estudasse. Comecei a estudar muito cedo, aprendi a ler com cinco anos. P1 – Que obra você que começou a ler assim? Como era que era isso? R - A primeira coisa que li foi “O Pipi e o Pavão”. “O pavão é alto, o pavão é papão.” Só que eu não conseguia ler papão, lia papão. Meu pai brigou, brigou, brigou, até eu ler papão. O pavão é papão. Depois disso, o primeiro livro que eu li, eu acho que quase, faltou pouco pra eu perder o gosto pela leitura, foi a bíblia. P1- É mesmo? R – Meu pai: “Agora que você já sabe ler, você vai ler a bíblia toda. Vou fazer um programa e em três anos você termina de ler a bíblia.” Eu: “Tá, se é isso que o senhor quer, então tá”. Com dez anos, nove e meio, dez anos, eu já tinha acabado de ler a bíblia. P1- Com nove anos e meio, dez... R – Isso. P1 – E como você entendia? R- Não entendia. Mas eu lhe dizia o que foi que eu li: “Li gênesis capítulo um que disse isso, isso, isso. Que dizia a ele: “Ah, hoje e li Ruth, que disse isso, isso, isso”. P1 – Você memorizava? R – Tinha que memorizar alguma coisa. Quando eu terminava de falar com ele, eu esquecia. Mas consegui ler tudo. Depois eu li por interesse mesmo. P1- Mas volta um pouquinho ainda. Você leu esse pavão, era ele quem te ensinava? R- Era. P1- Não foi na escola que você aprendeu? R – Não. Ele me colocou na escola com três anos. Mas na época, essa escola, assim, jardim um, jardim dois. Os professores vão lá, eles desenham e “pá”. E você desenha uma casinha, era só isso. Mas ele queria que eu aprendesse a ler, ele queria que eu aprendesse inglês. Só que os professores tinham aquela musiquinha de sempre, um dois três indiozinhos em inglês, aquelas músicas que você vai lembrar pra sempre. Letras, nome do gato, do cachorro, mas nada que fosse... P1- Isso no curso de inglês? R - Não, na maioria das escolas daqui. Logo a partir dos três anos, eles colocam aula de inglês, que vai até a alfabetização. Eu estudei na rede particular até a quarta série. Na quinta série eu fui pra rede pública. P1 – E me diz uma coisa, você começou a ler a bíblia e você contava pra ele o que tinha lido? O que ele fazia? R - Ele ficava feliz, dizia: “Isso aí, amanhã você tem mais dois capítulos pra ler”. P1- E ele conversava sobre aquelas coisas que você tinha lido? Ouvia e pronto, como era? R – Na minha religião tem um período de formação. De zero a dez anos foi meu período de formação. Tinha esse estudo, a minha leitura, que eles chamam de “leitura pessoal”. E tinha o estudo que eles faziam comigo. Explicações. Explicavam muitas histórias que têm na bíblia, histórias infantis mesmo: Noé porque Noé que foi à arca, esse tipo de coisa. Conforme eu ia crescendo mais, ia aumentando o grau de dificuldade, por assim se dizer, de conhecimentos que eles colocavam. As profecias da bíblia, o que quer dizer tal profecia. O porquê da profecia, foi em tal ano. Qual foi o cálculo que deu tal ano. Com dez anos, com nove anos, e foi até o meu trauma, por minha vó não ter visto, eu disse “Oh, vou me batizar com dez anos”. Aí ele: “Rapaz, ninguém se batiza com dez anos nas testemunhas de Jeová. É muito novo. Não vão deixar”. “Vão, eu digo que vou falar com eles.” Fazem um questionário com 120 questões... P1 – Pra você ser batizado? R – Isso. Para saber se tem realmente os conceitos básicos da religião, pra não entrar e no outro dia dizer: “É não, quero sair”. Consegui fazer as 120 questões e fui aprovado. P1 – Acertou as 120? R - Não, não acertei as 120, mas a média que dava pra ser aprovado. No dia do batismo, tava a fila do batismo, e eu menor que todos, não deu pra eu ficar na piscina mesmo. Eu fiquei meio carregado. Me carregaram pra eu me batizar, eu não agüentava ficar de pé se não me afundava. Foi um período que eles ficaram felizes. Eu já não estava tão feliz porque minha vó tinha falecido quatro meses antes. Em abril eu me batizei. Cinco meses antes ela havia morrido, em novembro. E o que era pra eu progredir, progredir, progredir, menos de um ano depois do batismo, eu tinha regredido. Tinha parado de ir, eu não queria assistir mais nada. “Ah, porque você vai encontrar com Deus.” Mas eu não queria me encontrar com Deus, ele não tinha me dado nada até hoje. Era esse o conceito que eu tinha na mente. P1 – E você disse que era uma leitura que você lia e que depois esquecia. R – A intenção dele foi boa, tanto que depois eu li realmente. P1 – Ah é? Quando você leu de novo? R – Ah, isso tem pouco tempo. Eu terminei de ler com dezesseis ano passado. P2- Você leu o Velho Testamento? R – Velho e Novo. Eu comecei a ler de novo, devia ter uns quatorze anos. Eu comecei e li em menos de três anos. Também eu não tava fazendo muitos cursos nesse período. Tava em casa, não tinha o que ler, lia a bíblia. P1- Mas foi você que quis ler, não foi uma coisa que falaram... R – Principalmente porque eu comecei a ter dúvidas de tudo. “Ah, porque Deus criou o planeta?” “Mas pra que ele criou o planeta?” “Ah, porque Adão e Eva, por que Deus tinha que colocar aquela árvore lá naquele jardim, não podia colocar em outro lugar? Deixava ela no céu, ninguém ia pegar na árvore dele.” Começaram a ter essas perguntas. Eu tenho de ir em casa em casa, bater na porta das pessoas pra ensinar elas. Só que eu ia na casa das pessoas ensinar uma coisa que eu não acreditava. Hoje eu posso ir, porque eu li e me convenci, mas antes... P1 – E como você se convenceu? R – Eu fui muito crítico, o que não é nem permitido. Chamam de apostasia. P1 - Apostasia é quando você questiona? R – É. Na religião, questionar a religião, Deus. Mas eu questionava tudo. Eu dizia: “Por que o nome de Deus é Jeová, não pode ser Alá? Alá não pode ser Deus? Muita gente morre por causa de Alá, muita gente adora Alá e Buda, e muitos outros deuses”. Muitos podem estar certos e as pessoas não gostavam de ouvir isso. Então eu vou ir estudar sozinho. Peguei publicações, li o livro de MÓRMONS. Não li todo, mas li uma parte do livro de mórmons, busquei na internet algumas coisas sobre o Alcorão, porque eu não achei o Alcorão mesmo pra ler. E fui estudando cada religião, o que elas falavam, quais crenças que eram comuns. Toda religião tem uma seita, toda religião fala alguma coisa sobre dilúvio: Os índios falam, as religiões da Ásia falam, da Europa falam. Todo mundo fala alguma coisa, história diferente, mas o final é um barco, pessoas sendo alvo de uma enchente. Então eu digo: “Tem algumas coisas na bíblia que estão certas”. Depois eu fui me convencendo das outras com muito estudo, perguntando o que eu não sabia. Não perguntando a pessoa só da minha religião, o que eu acho que é um erro. Eu chegava lá e dizia: “Que você acha?”. Ele disse: “Saia e acredite nele. Você não está acreditando na pessoa não”. Eles não reclamavam, por que eu saía: “Vou ali na igreja universal. Vou na outra igreja, e naquela, naquela, e vou perguntar o que eles acham”. Se eles me convencerem, eu vou pra lá. P1- E você foi mesmo nas igrejas? R – Fui. P1 – É mesmo? R – Fui e perguntei. P1- Como era que era essa ida até as igrejas? R – Eu não posso entrar. Porque eu já era batizado com dez anos. Eu não posso, por exemplo, assisti a uma... Se tiver um casamento na igreja católica, eu posso assistir a um casamento. Mas se tiver uma missa na igreja católica, eu não posso entrar e assistir. Então eu ficava na porta da igreja católica esperando o padre sair. Ele saía, eu dizia: “Quero falar com o senhor. Ah, porque eu tenho uma dúvida sobre isso, isso, isso”. Aí ele ia e explicava. A mesma coisa com os outros pastores. Eles saíam alguma hora dali e ia e perguntava a algum obreiro, algum diácono ali, e eles me diziam. P1 – E você foi percebendo. Fala um pouco desse aprendizado de tudo isso que você aprendeu e hoje você bate de porta em porta. R - É. P1 – Conta como você foi nas igrejas, pesquisou. Como é que foi acontecendo? R – Por exemplo, uma coisa que a maioria dos jovens da testemunha de Jeová fica encucado e a maioria faz porque é obrigação mesmo: Não comemorar aniversário. Todo mundo gosta de aniversário. Eu ficava pensando: “Por que não comemora aniversário? Ah, porque a bíblia fala só de dois aniversários, nos dois aniversários ocorreram assassinatos, mas no meu eu não vou assassinar ninguém”. Então essa explicação não me convencia. Eu fui a outras religiões, e eles disseram: “Não, não há problema nenhum. A bíblia fala de dois aniversários que por acaso, ocorreram assassinatos e lutas”. Fui e escrevi pras testemunhas de Jeová no Brooklin onde fica o corpo governante. Mandei um e-mail pra eles e disse: “Não tão conseguindo me explicar aqui, vocês podiam...”. Eles mandaram a origem do aniversário, pesquisa do aniversário, as primeiras tribos, as primeiras cidades que comemoravam, o que era. Era, a crença mais antiga que existe é a do anjo da guarda. O que é o aniversário no início? Uma homenagem ao anjo da guarda. Aquele ente, aquele ser que nos guarda durante todos os dias. Pra isso foi criado o aniversário, pra homenagear esses entes. A princípio não era pra homenagear a pessoa, era uma homenagem da pessoa pra esses “entes” que ajudavam ela. Tudo bom. Então eu estava começando a entender. Se eu comemoro o meu aniversário, eu vou estar homenageando esse ente que eu não acredito e que eu não posso homenageá-lo. Então já está começando a me convencer. Nos aniversários ocorriam muitos assassinatos. Era comum, os reis quando comemoravam aniversário, eles pegavam uma parte daqueles que eram capturados e assassinavam a maioria deles. Esses conceitos foram... Eu digo: “Ah, eles estão certos, agora estão certos. Mas não só porque assassinaram umas pessoas lá, mas eu não vou assassinar ninguém no meu aniversário”. P1 - E você hoje vai na casa das pessoas? R – Hoje eu vou na casa das pessoas. Eu sempre ouço perguntar às pessoas. As pessoas dizem: “Ah, eu acredito na bíblia”. “Mas já leu toda?” “Não.” “Então não acredite. Pode ser que na página que a senhora não leu, tenha alguma coisa que transforma a bíblia inteira em mentirosa. Porque ela diz que ela é toda verdadeira. Se ela tem uma mentira, ela não vale mais de nada.” É isso que eu uso sempre, é o argumento que eu uso com as pessoas. “Acredite depois que ler ela toda. E pode questioná-la, pode chamá-la de mentirosa até a hora que ela provar que é verdadeira realmente.” P1- Bacana. Você faz essa conversa. E se as pessoas topam ler, querem fazer, aceitar seu desafio, o que acontece depois? R – É muito comum, o certo era eu dizer: “Venha para a testemunha de Jeová, que nós vamos te ensinar”. Eu digo o contrário: “Vá nas outras religiões, faça uma pesquisa”. Se tem uma mesa cheia de comida e você quer escolher a melhor, você come, prova de todas, aí você vai saber qual é a melhor. Se você prova a primeira e fica nela, pode ser que tenha muitas outras comidas saborosas ali e você não provou. Então eu digo a elas: “Leia a bíblia, a bíblia diz como as pessoas que servem a Deus tem de ser. Então você segue esse modelo e ver se você está se adequando a esse modelo. Aquela que estiver se adequando, é a verdadeira”. E algumas pessoas descobrem, algumas acham que são as testemunhas de Jeová, algumas acham que são outras. E eu acho que esses que estão buscando realmente encontrar, se achegar a Deus, não importa em que religião ele esteja, o que importa é o que ele está buscando se achegar a Deus. P1 – E a igreja, a sua, eu não sei como é organizado, mas as pessoas que trabalham nessa igreja, é igreja? Também são testemunhas de Jeová? R – A gente chama de Salão do Reino. P1 – Salão do Reino? Quem organiza, quem coordena o trabalho, sabe que você faz dessa forma? R – É. P1 – E tudo bem? R – Não. (risos) P1 – O que que anda acontecendo então? R - Eu acho que ainda sou um pouco rebelde nesse caso. Eles dizem “Não, mas você vai pra porta da pessoa falando pra ela ir pra outra religião, o que você está fazendo lá?”. “Não, eu digo que eu vou pra casa dela e digo a ela pra ela vir pra minha. E se depois ela achar que a minha não é a certa? Ela vai atrás de outra. Então é melhor ela ver, ela mesmo comprovar pra ela. Se ela precisar de minha ajuda pra isso, aí eu dou ajuda a ela.” Tem um amigo meu que eu faço estudo bíblico dele. Ele levou dois anos me pedindo pra estudar a bíblia, era pra eu ter feito o estudo dele na primeira oportunidade. “Oh rapaz, você quer estudar a bíblia, quer ser testemunha de Jeová?”. E ele dizia que queria ser testemunha de Jeová. “Rapaz, não é fácil. Testemunha de Jeová não é pra quem quer não, é pra quem tem fôlego, quem tem... Você vai ter de abdicar de um monte de coisa. Você vai ter de deixar de comemorar seu aniversário. Em um problema de transfusão de sangue, você não vai tomar. Pensa em tudo isso antes de você vir pra cá”. P1 – E hoje você segue mesmo esses ensinamentos, vamos dizer? R – Sigo. P1 - Segue nesse jeito que você entendeu cada coisa, mas você pratica agora. R- (concordância) As coisas que comprovei que são verdadeiras, eu sigo. Mas eu ainda não aceito que ninguém chegue pra mim e diga: “É isso. Não, não é isso”. Comprove que é isso e vou concordar com você. P1 – Tá, Neivison. E como é que você se diverte hoje? R – A maior riqueza que o ser humano pode ter são os amigos, com certeza. Se você tem uma mansão na melhor cidade do mundo, perto da praia, perto de onde você quer, mas você não tem um amigo pra ir lá na sua casa, e desfrutar aquilo com você, não vale de nada. Meu meio de diversão são meus amigos. Se tiver uma peça no teatro, aquela peça só vai fazer mais sentido pra mim se eu ligar pra eles e eles forem comigo. Se eu vou na praia, eu ligo, e eu não sou muito de marcar hora. “Oh, semana que vem a gente vai no teatro”. No dia que vou, eu ligo pra eles e digo: “Bora?” Eles já ficam esperando, em qualquer momento que eu vou ligar e a gente vai sair. P1 - Você resolve assim ... R – De uma hora pra outra. P1 - Em cima da hora. E você vai a teatro, você gosta? R – Gosto. P1- Vão sempre? R – Constantemente. Porque agora mesmo, está tendo “Cuida bem de mim” aqui em Salvador de novo, no [Espaço] Xisto Bahia. A gente está marcando, a gente está marcando não, uma menina que está marcando pra ir na sexta. Talvez na sexta feira eu ligue pra todo mundo e a gente vá. P1 – E além de teatro, de praia? R – É mais teatro, praia, festa. P2 - Cinema, shopping, essas coisas. R – Cinema eu não costumo ir muito não. Os cinemas, os filmes, eu prefiro assistir em casa. Cinema tem muita gente, não sou muito festeiro. P2 – E que estilo de música? R – O único show que eu vou é o festival de verão, todo ano. O festival de verão. P2 - Em que lugar ele acontece? R – No parque, no festival de verão todo ano eu tô lá. Isso é certo, mas outros shows eu não gosto de ir. Os momentos melhores são quando a gente para, senta numa praça e começa a conversar experiências, como é que foi o dia, tudo o que fez. Eu acho que são momentos mágicos pra mim. P1 - Vocês fazem muito isso? Você e seus amigos? R – Sempre que tem tempo. Porque agora, depois do Com.Domínio, está todo mundo trabalhando. A gente sai, chega nove horas. Mas às vezes, ainda às nove horas, a gente bate na porta do outro: “E aí, vamos pra praça?” Ficamos até meia-noite, depois vamos pra casa. P2 - Você tem muitos amigos no Com.Domínio também, no projeto? R – É. P1 - E eles também são da sua religião? R – Não. P2 - Eles fazem, por exemplo, coisas que você não faz com eles? R – O coordenador do Sofia que me indicou para o Com.Domínio, ele disse que eu enchia a instituição dele de testemunhas de Jeová, causei essa epidemia. Na verdade, não. Eu levei mais cinco comigo, era só. Tinha inscrição do curso, eu levei alguns amigos comigo. Só que eles começaram a falar com os outros lá e começaram a trazer mais. E no final, o maior número de pessoas lá, era de testemunhas de Jeová. Ele disse que eu proliferei essas testemunhas de Jeová lá. Mas eu não sou chato com meus amigos. P2 – Fica pentelhando... R – Ah, ele quer fazer, ele faz. Às vezes, é bom pra ele e não é bom pra mim. Tem coisas que eu não diria que são erradas. Mas tem coisas que a bíblia diz que são desaconselháveis. Então porque eu não faço, ele não vai fazer também. P1 - Beber, fumar... R – Eu acho que beber moderadamente não é ruim. Ainda não me convenci do conceito de fumar. Porque eu acho que os fumantes e os alcoólatras eles se prejudicam tanto um como o outro. Por que pode beber e não pode fumar? Ainda vou me convencer disso. É, jovens ficam. Eu não vou dizer pra galera que eles não vão ficar. O cara que não ficou, ele não passou pela juventude. Hoje, na maioria das vezes, é motivo de brincadeira com os amigos, então, com moderação não é ruim, é uma coisa divertida. Então eu não faço mais por motivos religiosos. Mas não é por isso que eu vou dizer a eles que não façam. Eu digo: “Eu não aconselho vocês a fazerem, porque pode ser perigoso”. Mas tem muita gente que pula de pára-quedas. O pára-quedas pode partir e ela cair. Porque você não vai ficar, correr muito menos risco de vida. P1- E as namoradas então, como é? Tem namorada, não tem? R – O certo é falar com o pai e falar com a mãe e falar com os anciãos. E ela tem de ser testemunha de Jeová. Mas somos adolescentes e estamos na idade... P1- Você se sente um adolescente? R – Me sinto. Eu pretendo ser adolescente, a maior parte do tempo, ser adolescente até alguém dizer: “Chega, você não pode mais! Pare de ser adolescente!”. P1- Por que você quer continuar a ser adolescente? R – É uma fase que você não tem, você não é mais criança pra ser inocente, e você não é adulto pra ser muito maldoso. (risos) Você pode dizer o que é que você pensa: “Ah, eu penso que deveria soltar de novo uma bomba em Hiroshima e Nagasaki”. As pessoas não levam a sério o que o adolescente diz, mesmo. De repente você mostra um conceito mais sério e as pessoas se surpreendem: “Pôxa, um adolescente falando isso”. E eu acho uma fase legal, não tem a inocência da criança e nem tanta a maldade que a experiência coloca no coração dos adultos. P1 - Dá pra ousar mais, né? R – É. P1 – Dá pra ousar mais. E você ia falar das namoradas ou não... R – Não, não tive muitas. Nenhuma séria até agora. P1 - Mas já se apaixonou? R – Já. P1 - Quer contar dessa história? R – Ainda não. (risos) Talvez numa próxima vez. (risos) P1 - E na escola, depois que você mudou de escola? P2 - É isso que eu fiquei pensando, você falou que estudou em escola particular, que você foi pra publica. A condição mudou na sua casa? R – Na quarta série. Quando você passa pra quinta série, tudo fica bem mais caro na rede particular. E meus pais não podiam pagar e me colocaram na que era a melhor escola publica de Salvador. Só que no primeiro ano eu rendi bem. E no segundo, não dava mais pra aquela instituição me agüentar. Eles me deixaram terminar o ano, com a condição de que no final do ano eu iria embora. P1 – Que você conseguiu passar de ano, mas mesmo assim você tinha que sair. R – Eu tinha de ir embora, de me transferir. P1 – Como é que é a escola pra você? Vamos falar da outra que você foi depois. Se você tivesse de contar uma história dessa fase, assim, na escola... R – Como o resto da vida, tem o lado dos bons e o lado dos ruins. Tem professores que não ganham bem, tem professores que ganham mais do que os outros... E o engraçado é que aqueles que ganham menos, o chamado “Reda” aqui, eu não sei se pelo resto do Brasil é assim, fazem Reda aqui e não são funcionários públicos. São contratados, num contrato de quatro anos. Ensinam muito bem, são pessoas que deixam a marca na gente. Eu digo que eu pego um pedaço de cada pessoa que eu encontro. Eu fico com um pedaço dela em mim, porque vai me ajudar lá na frente. E esses Redas foram uns dos que mais me ajudaram. Conhecimento que eu tiver de história e geografia, humanas e exatas, veio dos professores Redas. Os professores do ensino, que são efetivos realmente, eu não sei se eles ganham pouco, eu não sei se eles estão tristes com a profissão, eles entram na sala, colocam um assunto, se você quiser anotar, você anota. Se não, você vai passar de ano porque o governo quer que todo mundo conclua, não quer que o Brasil tenha um grande número de repetência. No final do ano, um aluno que não sabe nada, o professor vai e reprova, o diretor vai e aprova ele. Porque se não, a secretaria de educação vai reclamar com ele, porque ele teve um alto índice de reprovação na escola dele. P1 – Mas acontecia isso, você presenciou isso? R – Acontece bastante, constantemente. P1 - Mas você viveu isso na sua escola? R – Várias vezes. Agora, provavelmente, não vai mais acontecer porque houve mudança no sistema aqui na Bahia. E colocaram os outros tipos de diretores, são mais linha dura, pode-se dizer assim. Mas antes era muito comum, o diretor não queria que a escola dele ficasse queimada, então, ele passava a maioria. Só não passaram aqueles que perderam por não freqüentar, por muito mau comportamento mesmo. P1 – E você lembra de alguma situação que marcou você nessa escola? Você terminou, você está no segundo ano? R – No terceiro ano. P1 – Na mesma escola. R – Isso. Eu tô desde a sétima e agora no terceiro ano. A gente tava elaborando uma peça. Na oitava série eles pediram pra gente fazer uma peça. E eu fiz sobre “O fantástico mistério de feiurinha” de Pedro Bandeira. Fala de contos de fadas, de mistérios, mistura todos os contos de fadas, ele faz uma brincadeira bem legal com isso. Quando a peça estava toda pronta, toda preparada, o diretor disse que seria em um centro espírita a apresentação. Eu digo: “Eu não vou”. Só que ele não agiu como a maioria dos funcionários talvez agisse: “Ah, você não vai não? Então vai perder ponto”. Ele chamou o vice-diretor, chamou todas as outras testemunhas de Jeová da escola que disseram que não iam, sentou, chamou os pais, e começou a conversar. “Não iremos fazer atividades espíritas, não iremos fazer atividades religiosas. E eles estão cedendo o local de adoração deles pra nós. Imagina que desfeita vocês estão fazendo por dizer a eles que não vão, tem algum monstro lá? É, não estarão se contaminando em nada”. Os argumentos deles me convenceram. Eu digo: “Eu vou”. Outros se convenceram e alguns outros por consciência, acharam que não deveriam ir. Eu também não iria dizê-los que não. Na consciência das pessoas a gente não deve mexer. Então eles não foram. Mas foi uma apresentação linda, foi realmente uma coisa que marcou. Porque fomos nós que escrevemos, pegamos o livro e fizemos as nossas falas. Nós que montamos o figurino, que montamos o palco, com quinze anos. E na hora de apresentar, todo mundo com medo dizendo: “Não vou, não vou, não vou”. Quando a cortina abriu, todo mundo foi lá e deu o melhor que podia de si. E até hoje a gente assiste essa fita, assiste de novo. Não cansa de assistir essa fita, não cansa de assistir essa apresentação. P1 – Que bacana. E vocês não continuaram, não fizeram mais nenhuma montagem de teatro? R – A gente constantemente faz. Não como aquela. Teve uma que alguns pais ficaram com raiva de mim. Não sei se vocês lembram da turma do gueto, um seriado muito comum. P2 – Do Netinho. R – Eu fiz uma peça com aquele seriado. Só que eu coloquei novos personagens, alguns personagens dela, que tava muito comum, tava todo mundo assistindo. E eu era um dos traficantes e eu torturava e matava uma menina. Só que eu acho que fiz de uma forma muito real, muito realista, umas pessoas falaram: “Assassino”. “Não, eu não sou assassino, só foi a peça”. P1 – Olha só. R – Foi bem engraçado. P2 - Te marcou então. R – Todo ano a gente faz. Esse ano a gente vai fazer uma sobre Clara dos Anjos, programada para o final do ano, para a gente apresentar. P1 – Na escola é esse grupo? O grupo é da escola? R – (concordância) P1 - Mas e vocês fazem por conta própria ou tem algum professor? R – O professor pede pra gente fazer uma apresentação. Como eu gosto muito de tecnologia, a apresentação é tecnológica. Ou é peça. São as duas coisas que eu gosto. Quando não dá pra ser tecnológica: “Ah, não quero tecnológica. Tô cansado de tudo, vocês vêm com CD e com projetor pra fazer...” “Então tá, vamos fazer uma peça”. P1 – E você tava falando dos professores que marcaram vocês ou você. Teve algum que marcou? R – Na sétima série. É, foi o único professor que eu briguei nessa escola. Briguei assim, achava que ele era muito pedante, muito ignorante. A maioria dos outros professores baixava ao nível do aluno e discutiam: “Saíam da sala!” E “odeio você”, toda vez que você entrava na sala, eles marcavam. Ele não. Ele começou a tentar conquistar, tentar se achegar a mim, conseguiu. A maior parte da minha base matemática veio dele. Porque ele não chegava pra mim e dizia: “Oh, você vai fazer uma conta de dividir, não dá mais pra você dividir dois pra cinco, você coloca um zero vírgula e colocar um outro zero e você divide não”. “Por que você vai colocar zero e vírgula?” P1- Ah tá. R – “Ah, porque você quebrou em dez, entendeu?” “Ele quebrou em dez.” “Por que você quebrou em dez?” “Porque sua mão tem dez dedos. Por isso eles quebram em dez.” Eu digo “Oh, é por isso é”. Nunca mais eu esqueci de como fazer uma conta de dividir por causa desse sinal. Depois... Ah, ele ensinando equações. Isso ele já foi em outra série, ele não era mais meu professor, eu vi ele dizendo pra galera: “Por que passa pro outro membro, troca de número, troca de sinal?”. “Ah, professor, porque é um sinal da matemática mesmo.” “Não, porque você está multiplicando um lado e outro pelo mesmo número. Por isso é que está trocando de membro e de sinal”. E são coisas que você vê que a pessoa está interessada em que todo mundo saia aprendendo. Ou seja, use aquilo ali pra alguma coisa no futuro. São momentos que não duram muito, mas que eu gosto de me lembrar. Que vão ficar pra sempre. Acho que se eu tiver Alzheimer, esses são os momentos que não vão sair da minha mente. [risos] P1 – E hoje, você, seu pai, sua mãe. Como tem sido essa relação de vocês? Quer contar alguma coisa que aconteceu há pouco tempo, alguma coisa gostosa? R – Meu pai mudou muito. De uma pessoa que sempre vivia com a mente positiva, parece que ele, que nós trocamos de lugar. Ele pegou meu lugar há um ano atrás e eu tô no lugar dele agora. Ele agora perdeu mais aquele brilho que ele tinha. Ele ainda tem, mas são aquelas alternadas. Tem horas que ele está muito eufórico, muito confiante. E tem hora que ele, cai o pessimismo nele, totalmente. Vai ao mais alto grau de pessimismo. Minha mãe, eu acho que meu pai deu muita sorte, ele não ia achar uma daquela. E eu não vou achar, infelizmente, uma como a minha mãe, mas dá pra eu conseguir por aí. Porque ela é o que a bíblia diz “ajudadora”. É a ajudadora que meu pai precisava. Se há uma guerra lá em casa, ela fica no meio, ela toma todos os tiros que forem disparados. Se a situação está difícil entre eu e meu pai, que a gente discute de vez em quando, é ela que vem e aparta tudo. Faz a gente fazer as pazes. Tanto que lá em casa nunca ninguém ficou sem se falar. Porque ela é aquela juíza que julga e diz: “Vocês não vão ficar sem se falar, vocês vão dar um abraço, filho e pai, todo mundo junto”. P1 – Bacana. R – E minha irmã é aquela menina que nunca se irrita com nada. [risos] P1 – Agora, como é que você está nesse projeto agora? Você começou a fazer quando fez a inscrição. E depois, como é que vem se desenvolvendo o trabalho de vocês? R – Agora o Com.Domínio terminou pra mim porque eu fui inserido a partir do quinto mês de Com.Domínio Digital. O jovem é inserido no mercado de trabalho, dependendo da demanda, se ele passar na entrevista, e ele já recebe o certificado. E se der, eu vou continuar freqüentando o Com.Domínio. Se não der... No meu caso não dá, porque eu estudo de manhã, trabalho à tarde. E à noite não tem Com.Domínio Digital, não dava pra eu ir. Lá está tendo agora um curso de espanhol, as meninas estão aprendendo espanhol. E vai até outubro, todo mundo vai ter a certificação de todo mundo. P1 – Como você ver esse projeto? Porque você visita as pessoas nas suas casas. E você faz isso na sua comunidade onde você mora? R – Faço bem na área mesmo onde eu moro. Um raio de no máximo dois quilômetros de onde eu moro. P1 - Como é onde você mora? Primeiro, você sempre morou lá? R – Não, eu sou de uma família meio nômade. Como meu pai... P1 - Ah, então conta essa história primeiro. Depois a gente volta pra hoje. R – Meu pai é... Quando nasci ele tava desempregado. Ele se empregou no Paes Mendonça, que é aquela que se tornou a Unimar e depois o Bom Preço. É, depois que se desempregou ele mudou de profissão. No Paes Mendonça, ele era soldador. Ele: “Não quero mais, agora vou tomar um curso técnico de manutenção de máquinas industriais”. Aí foi trabalhar no Pólo de Salvador. Só que não conseguiu emprego fixo, aí saiu. Meu pai inventou de ir para Macaé, Rio de Janeiro. P1 – Ah tá. R – Isso eu ainda era bem novinho, eu nem lembro de Macaé. A gente foi pra lá. Depois acho que ele foi pra São Paulo, não demorou nem seis meses em Macaé. P1- E vocês? R – A família junto. P2 – A sua mãe é dona de casa? R – A minha mãe é dona de casa. A família junto. Rio Grande do Norte, lá vai a gente. Nesses lugares a gente não demorou nem um ano completo. Seis meses, três, cinco meses. Depois voltamos pra Salvador. “Ah, vamos pra Sergipe”, tem contatos em Sergipe. E depois vamos pra Salvador de novo. Aí depois parou. Em 94 pra cá, a gente está em Salvador. Só que já giramos Salvador toda também. E ele tem mania de construir casa. Ele não vende e compra, ele vende, vai morar de aluguel e constrói outra. A penúltima casa que nós moramos foi em Periperi. A gente tinha vindo de Castelo Branco, um outro bairro daqui. E nós fomos para Periperi, no subúrbio. Ele vendeu a casa de Castelo Branco e nós fomos morar na casa de meu avô de novo, enquanto ele construía a de Periperi. A casa ainda não estava completa, fomos morar nela. Quando estava perto de ser completada, faltava pouco, ele se mudou. Ele vendeu e comprou o terreno agora no Rio Sena onde eu moro atualmente. A casa ainda não está completa de novo. Mas estamos morando lá e está terminando, fazendo a parte de cima, essas coisas. P2 – E ele que constrói com a ajuda de amigos? R – Isso. A diretório, mutirão. Às vezes paga um profissional, quando os amigos não sabem fazer. Por exemplo, a escada. Não tinha ninguém que soubesse fazer uma escada, aí pagou ao pedreiro pra fazer a escada. Só que o meu medo, quando essa casa tiver quase pronta, nós vamos nos mudar de novo. É o costume. É, porque ele era caminhoneiro, então ele se acostumou com esse negócio de mudança. P1 – E sua mãe vai numa boa assim? R – Minha mãe, eu não sei se ela gosta de se mudar assim, ela gosta de apoiar meu pai. É um dos dois. Mas ela nunca reclama, porque o lugar que ela muda sempre é melhor que o anterior. P1 – Ela diz isso? R – É. P1 – E você, o que acha dessa mudança toda? R – Detesto. [risos] Eu detesto porque você demora pra fazer amigos. Quando você faz todos aqueles amigos, você se muda, você vai pra longe. Os amigos de Castelo Branco, vejo de ano em ano, de vez em quando, quando eles mandam uma mensagem no orkut. Agora os de Periperi, fica mais difícil de eu ver. Porque tem um tempo que eu me mudei de lá e não tem como eu ir constantemente. Agora estou conseguindo uma rede de amigos no Rio Sena. Quando eu estiver com a rede de amigos completa, eu me mudo de novo. Terei que refazer tudo de novo. Eu não gosto dessas mudanças, mas se é necessário, tem de ser feito. P1 – E você se manteve na mesma escola mesmo com essa mudança toda? R – É a escola dá pra pegar ônibus. Na verdade, eu faço um círculo nessa... Desde que eu estudo lá, eu morei em três casas, Eu fiz tipo um círculo em volta dela. Me mudei de um bairro, fui parar aqui, fui pro outro lado. Dá pra pegar o ônibus e ir pra mesma escola. Pelo menos não saí da escola e perdi os amigos da escola. P1 – A escola continuou... R – Pelo menos a escola eu mantive. P1 – E agora você, no Com.Domínio você fez amigos também? R – É, uma forma de amigo, é diferente. P1 - Por quê? R – Porque os outros amigos, não diria que é fácil de esquecer, mas não causa tanta dor eu chegar nove horas no trabalho e não ir na casa de uns amigos de Periperi, de Castelo Branco. Mas domingo passado, eu encontrei uma amiga do Com.Domínio que eu não tinha visto só há um mês. Tem outros amigos que eu não vejo há tempos. A gente chorou muito, porque tinha um mês que não se via. Outros, se levar uma semana sem ir na casa, chego lá eles estão zangados: “Você não veio aqui faz uma semana que você não vem aqui”. P1 - E você não conhecia eles antes, só conheceu no Com.Domínio? R – Nos conhecemos todos no Com.Domínio. Tem um que a gente já se conhece há seis anos. Mas esse daí já é Batman e Robin. [risos] A gente pode, um morando na China e o outro na América, a gente vai continuar se vendo de algum jeito. P1 – E ele participou também do Com.Domínio no mesmo período que você? R – Ficamos juntos no Com.Domínio. Só não fomos pra mesma empresa, porque ele foi pra uma outra. P1 – E como é que tem sido esse trabalho na empresa? Foi a primeira experiência mais fixa? R – Está sendo instrutiva, que eu estou como menor aprendiz. Primeiro estou vendo como é realmente a rotina de uma empresa, quem são os cordeiros, quem são os lobos. Como me defender dos lobos. Como me aliar aos cordeiros. É, táticas, porque é uma área nova que eu não conhecia de logística. O que fazer? Tô aprendendo agora e acho que vou conseguir me firmar na área. P1 - E de que empresa? R – A empresa, ela é a Espumacar. Tem uma em São Paulo e outra em aqui em Salvador. Ela fornece os estofados da Ford. A Espumacar é a acústica, ela é a parte de banco, de painéis, de acústica pra aparar o carro da Ford. É ela que fornece. P1 – Você trabalha na logística? R – É. P1 – E você pretende continuar estudando? R – Pretendo. Eu fiz ENEM(Exame Nacional do Ensino Médio) esse ano, oitenta por cento da prova, espero que essa pontuação me dê uma bolsa numa faculdade. Porque a UFBA, a faculdade federal aqui da Bahia, é muito difícil. Além disso, tem uma concorrência imensa pra se entrar na Uneb, estadual, e na UFBA. P1 – As duas são, você tem chances de conseguir uma bolsa lá? R – Não, porque elas são públicas. O ENEM só traz as particulares. ENEM é aquele Exame Nacional do Ensino Médio. Ele dá bolsas pelo ProUni (Programa Universidade para Todos). P1 – Então, você já pensou, já escolheu. Eu ouvi uma conversa de que você ainda está pensando em prestar... R - Bom, ontem Comunicação Social. Hoje, Tecnologia da Informação. Amanhã, Ciências Contábeis. Acho que depois de amanhã, Administração. No outro dia Medicina. P2 – Ciências Contábeis você está na cabeça ainda? R – É, o sonho de meu pai, vai que eu faço ainda? Também no dia que eu chegar lá, marcar na minha inscrição, eu marco lá Ciências Contábeis, depende do dia. P2 – Você não tem vontade de conhecer os cursos, de curiosidade? R – Eu já visitei alguns cursos. Eu sei o que não dá pra eu fazer. Medicina, não dá pra eu fazer medicina. Medicina eu não conseguiria. Trabalhar como médico, apesar de ganhar muito dinheiro, mas eu não conseguiria. Minha mente ia parar se alguém morresse e eu não conseguisse salvá-la, eu não ia me perdoar nunca por isso. Educação Física, eu levei muito tempo na tela do computador. E não dá pra fazer Educação Física. Direito eu não sei se iria conseguir estudar tanto, gravar tanto código e mentir. Acho que eu não ia conseguir fazer isso. Chegar lá e: “Ah, ele não matou”, sabendo que ele matou, sabendo que ele fez isso. “Mas ele não fez, acredite em mim que ele não fez.” Eu ia conseguir, mas depois eu ia ficar com a consciência pesada. Você acabou de mentir para um monte de gente lá, inocentaram um cara ruim. E o cara que é profissional de Direito que ganha mais, é aquele que defende o que tem mais dinheiro no Brasil, que é o corrupto. Então, não ia ser uma boa área para mim. FIM DO CD P1 – Então, e a gente tava falando de você, com todos esses conhecimentos, essas coisas que você foi aprendendo lá na comunidade visitando as famílias. E como é esse trabalho? O que você tem observado, como é que tem sido? Você tem alguma história disso pra gente conhecer? R – Quando eu chego na porta de uma pessoa, visitando como testemunha de Jeová, o sentimento não é bom, é de tristeza. P1 – Por quê? R – É, elas são programadas, são iguaizinhas aos computadores. Você coloca um CD e dá um enter; e ele faz aquilo que está no CD. São programadas pra educar seus filhos, são educados pra não educar. São programadas pra se alimentar mal. São programadas pra se vestir mal. É, o conceito de alienação do ensino, a programação das pessoas. Muita gente ouve pagode, ouve arrocha, talvez ela não saiba o que está ouvindo. Mas ela foi programada pra ouvir aquilo. E ela vai ter de ouvir aquilo. E dá tristeza, aquilo vai destruir com ela. E fazia com o que o único centro de pessoas mais ricas do mundo, que detém a maior parte do dinheiro como é há muito tempo, vai continuar sendo, por um bom tempo. P1 – E você vai visitando o pessoal, eu fico querendo saber mais, como é que você ver o seu trabalho? Com tudo o que você aprendeu com o Com.Domínio, com tudo isso que você observa, você faz essa ligação? R – O Com.Domínio me ensinou a ter sentimento pelas pessoas, desempedrou meu coração que estava congelado. Eu ia na casa das pessoas: “Oh, eu tenho que falar com a senhora sobre a bíblia. É porque me disseram, eu entendi que se eu falar com a senhora sobre a bíblia, a senhora vai ser salva. Se não quiser ouvir, não ouça também”. Hoje não. Ela vai ser salva, então tenho de fazer o impossível pra falar com ela. Tenho que fazer o possível pra ajudar ela. Se eu acredito que isso vai ajudar ela, o que for possível a mim e que não vá fazer ela ficar com ódio da minha cara. Claro que eu não vou ficar na porta dela insistindo, insistindo, insistindo. Às vezes, atrapalhando. Mas o que for possível eu fazer pra ajudar, eu vou tentar ajudar. E não só no hábito religioso. Um livro que eu li há pouco tempo “O Poderoso Chefão”, ele me ensinou alguma coisa. O Dom Corleone, ele ajudava muita gente. Uma vez ele disse ao filho dele que um dia ele ia precisar de ajuda. Pelo menos um de dez que ele ajudou vai voltar e ajudar ele. Então, não custa nada a gente ajudar uma pessoa. Não custa nada segurar uma sacola, ajudar a atravessar a rua, comprar uma bala da mão de alguém no ônibus. Talvez aquele dinheiro ali não vá fazer falta pra gente, mas vai ajudar muito àquela pessoa que está no ônibus. E um dia, talvez a gente precise. Aquela mesma pessoa que a gente deu dez centavos no ônibus, ela provavelmente, de cem que ajudar, vai ter uma que ela vai ajudar. P1 – E no projeto, no trabalho do Com.Domínio, vocês ficam cinco meses ou mais? Pode ficar, dá pra ficar? R – No total são oito meses. P1 – No máximo oito meses. E daí sua “inserida”? Como acontece? R – O Com.Domínio é assim, começou em novembro de 2006. A formação foi até agosto porque ocorreram alguns atrasos. Em abril, se não estou enganado, ou em maio, começou a inserção de jovens no mercado de trabalho. Alguns foram inseridos: os de menor como eu, como menores aprendizes. Mas como não é muito comum, o mercado de aprendiz está muito cheio, a maioria das pessoas menores de idade, não vai ser inserida agora. Ele tem um projeto de que até o ano que vem, junho ou novembro do ano que vem, o restante vai estar em casa e eles vão estar procurando vagas, conversando com as empresas. Qualquer vaga que conseguir, liga pra casa desses jovens que ainda não foram inseridos e marca a entrevista com ele. P1 – Sim, mesmo ele tendo saído do curso, continua até um determinado tempo. R – A meta é oitenta por cento dos jovens no Com.Domínio saírem inseridos. Hoje está trinta de oitenta, não sei como dá por cento, mas dá quase... P1 – Você já falou um tanto de coisa que você aprendeu lá. Mas e como é organizado o trabalho, o curso? Qual o conteúdo dos cursos? R – Foi dividido em temáticas. Todas as três matérias - linhas de formação do curso, a DPS (Desenvolvimento Pessoal e Social), tecnologia da informação e rotinas administrativas - passavam um período tratando daquilo. Identidade, DPS pegava bem pesado na parte de descobrir isso: quem você é, você não é, você mora no subúrbio, mas não é por isso que você é excluído da sociedade. O subúrbio não é uma terra só de ladrão. Não é só porque é o subúrbio de Salvador que só tem ladrão. Tem muita gente boa, e é uma terra linda também. No final dessa temática, nós fizemos “o memorial do subúrbio ferroviário”. Pesquisamos os aspectos geográficos, localização, população. Mostramos a praia do, a praia lá na área do subúrbio, que quando o presidente vem pra Salvador é lá que ele toma banho. Pouca gente aqui em Salvador mesmo sabia. Isso, a praia lá do subúrbio, a praia da Base Naval. A Base Naval fica lá no subúrbio. Mostramos isso tudo às pessoas e fizemos uma apresentação. As apresentações por equipe, foram seis equipes: geográfico, hidrográfico, histórico, social, ecológico, eu não lembro das outras. Depois veio a integração, nós nos integrarmos uns aos outros, foi quando teve a história de vida de cada um. No final nós fizemos um pandô, cada um bordou, pintou num pano o que veio a mente, o que estava sentindo. Colou, costurou o pano de todo mundo e fizemos a exposição desse pandô. Ética e cidadania, o que é ética, o que é cidadania, o que é ético, o que é antiético, ou será que tem de ser seguido a ética o tempo inteiro. Nesse período nós construímos um site do Com.Domínio Digital. Tivemos educação, trabalho, saúde, sexualidade. Educação e trabalho, nós fizemos cento e vinte e oito horas de serviço voluntário numa instituição no subúrbio. Eu fiz na escola, a biblioteca tinha fechado. A gente foi e nós abrimos a biblioteca. E pra nossa sorte, estava precisando de um lugar pra fazer o serviço voluntário. Chegaram os computadores esse ano, nós montamos o laboratório, montamos os computadores. Outros fizeram escolinha, cuidando de crianças em creches, lares para idosos. Saúde e Sexualidade, nós fizemos uma apresentação sobre DST, sobre AIDS, esse tipo de coisa. P1 – Fizeram apresentação lá mesmo pra comunidade? R – Nós fizemos no último dia da nossa última temática e o Com.Domínio acabou realmente no dia 3 de agosto. Foi quando nós fizemos esse último encontro. Mas, até novembro, a gente tinha de estar se encontrando, se encontrando. Nosso professor de RA fala espanhol, fala francês e italiano. Bom... P1 – O que é RA? R – Rotinas administrativas, é o nosso Roberto Justus. [risos] A gente perguntou a ele: “O senhor poderia dar aula de espanhol?” E ele disse: “Tudo bem”. “Vocês vão ir?” E eu disse: “Vamos”. E ele disse: “Bora”. Expandiu agora e vai até novembro com o curso de espanhol. P1 – Agora, a proposta que o Com.Domínio faz, tô falando do Com.Domínio. Não sei se é assim, é vocês continuarem se encontrando um tempo? É uma condição? R –Não, não é obrigatório. Mas pra não perder o contato, assim, pelo menos até novembro deste ano, onde tem a certificação. Esse tipo de coisa, tem outubro, novembro pra não perdermos o contato. Veio a calhar esse curso de espanhol que todo mundo se encontra dois dias na semana, tem aula de espanhol, conversa depois. Eu não estou podendo ir. P1 – Ah, por causa dos seus compromissos, você está estudando também. Então, o que você ver como futuro desse trabalho do Com.Domínio? R – É o que eu digo aos empresários e eles acabam achando que eu sou exagerado: “Você quer que sua empresa vá pra frente? Coloque o Com.Domínio Digital ao lado dela”. Porque, realmente, a correria que nós tínhamos lá, não era só um mar de rosas o Com.Domínio Digital. Tinha dias que a gente queria pegar uma cadeira e sair quebrando o Com.Domínio Digital inteiro. Porque, imagina. O memorial do subúrbio, eram apresentações, eram pesquisas, não tem dados sobre o subúrbio ferroviário de Salvador. Não existe na internet, não exista no IBGE, não existe em lugar nenhum. Então teve de fazer a pesquisa toda. A galera da faculdade: “Rapaz, isso é coisa de mestrado”. “Ué, eu já guardo pra quando tiver fazendo mestrado, eu já tenho a tese.” Em quinze dias, patrocínio, organização, tudo. Mas foi um teste que nós passamos. Os nossos produtos eram assim. Que teve um probleminha de comunicação, não sei, ou era pra testar o jovem do Com.Domínio. Com uma semana: “Gente na semana que vem, nós temos que apresentar um produto”, pra apresentar na temática. O povo do Com.Domínio explodia, saía correndo. Assim, eu chegava às sete horas da manhã e saía às seis. O dia inteiro sentado, produzindo vídeos e vídeos, e pesquisas, pra conseguir. Indo de casa em casa pra fazer senso, no subúrbio, pra conseguir os materiais necessários para as apresentações. Além disso, em todo lugar tendo comércio, é uma coisa bonitinha, assim, os primeiros meses, as primeiras temáticas todo mundo se amava, depois começaram a vir os atritos. “Mariana fala demais.” “Mariana não deixa ninguém conversar.” “Alialdo, Alialdo é tudo criança, será que um professor não cresce?” Ah, porque todo aluno gosta de aparecer, aparecer desinteressado. Teve um período que eu disse: “Oxe, o Com.Domínio vai acabar, não vai agüentar isso”. Mas veio aquele sentimento mágico, de repente, todo mundo chega: “Vamos conversar?” “O Alialdo, a Mariana fala demais, então a Mariana vai falar de menos, está Mariana?” “Tá” “o Alialdo, você está brincando demais”. “Alialdo vai brincar de menos”. P1 – E quem fazia essa chamada? R – De repente, assim, um aluno. Um aluno mesmo do Com.Domínio parava e chamava todo mundo pra sentar. A gente fez um curso de Auto Suficiência Profissional dada pela instrução da igreja dos mórmons. Eu tenho um grupo de amigos no Com.Domínio que eu chamo de G8. Nós sempre andávamos juntos. Nesse período a gente estava se matando, estamos. Não era boa tarde quando chegava, já chegava um esfaqueando o outro. No último dia do curso de Auto Suficiência Profissional, teve uma menina que saiu com a gente. A gente pegava o ônibus na Pituba, e ela pega na praça central. “Senta todo mundo aí.” Todo mundo parou e olhou pra ela. “Vocês acham que a gente vai pra onde assim? Então, discutindo, uma amizade linda, e todo mundo com ódio um do outro. É isso que a gente aprendeu no Com.Domínio Digital até agora?” Começamos a conversar e ficou tudo ótimo, a briga acabou ali. Na segunda feira, estávamos todos felizes, falando um com o outro, normal. Então é por isso que digo aos empresários quando eu converso com eles, quando eles vão visitar. E tiveram vários no Com.Domínio. Coloque um do lado, porque os testes que a gente passa e a energia que é passada pra nós conseguirmos enfrentar esses testes é muito forte. Acho que se todo funcionário de uma empresa tiver um curso desses, porque num curso técnico você aprende: “Vou criar programar em Java”, mas não vou suportar que o colega do lado me fale alguma coisa, causa problemas na empresa. Melhor, você criar programas em Java, e saber conversar com o seu chefe. Criar programar de tecnologia das informação, saber conversar com seu chefe, rotinas administrativas e saber trabalhar com seus colegas e desenvolvimento social e pessoal. Então ele cuida do ser humano como um todo. P1 – Gi, você quer perguntar alguma coisa que ficou? P2 – Acho que não. P1 – Acho que a gente encerrou, né? O que você achou de participar dessa entrevista? R – Deu uma lavada na alma, muito tempo que eu não dizia assim de mim. É, meu chefe me disse que ele não costuma falar dele, porque poucas pessoas sabem da vida dele, porque ele disse que quando ele fala, ele se sente vulnerável. E ele gosta que os funcionários dele olhem como “o Cleber”, aquele ser indestrutível, aquela estátua lá, que pode jogar pedra, que não vai acontecer nada. Ele tem medo de falar muito nele. Eu gostei, eu gostei de falar de mim. Parece que limpou alguma coisa, deixou a alma mais limpa. Me fez lembrar de coisas, algumas coisas que eu não me lembrava muito, e como foi bom ter lembrado delas. P1 – Você tem um sonho assim pra acontecer? R – Trabalhar com o lado social também. Isso. Desde que eu conheci o Sofia centro de estudos, agora, depois do Com.Domínio ainda mais. Eu pretendo de algum modo conseguir trabalhar o lado social porque é o que mais precisa. Ser um técnico, dá pra você ser um técnico, ser um político, ser um médico, mas cuidar da alma das pessoas que estão tão mal cuidadas hoje no mundo. É uma coisa de muito valor e uma coisa que eu quero fazer. Não sei se vou conseguir, mas pretendo. P1 – A gente também. [risos] Obrigada, viu. FIM DA ENTREVISTA
Ver Tudo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+