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História

O principal incentivo foi a liberdade de criar

História de: Rômulo Soares
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Sinopse

Infância na Vila Nitro Química. Infância no Berçário da Nitro. Contínuo em 1956. Científico na Penha. Desenhista na oficina mecânica da Nitro. Engenharia Naval na Politécnica da USP. Moradia no CRUSP. Professor na rede pública. Ingresso na Nitro Química. Energia na Casa de Força. Casamento em 1970. Casa cedida pela empresa. Desenvolvimento de máquinas. Diretor do Conselho do Clube da Nitro Química. Crescimento e desenvolvimento de São Miguel Paulista. 30 anos de empresa.

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História completa

P/1 - Inicialmente eu gostaria de saber o nome do senhor, o local de nascimento e a data do seu nascimento.

 

R - Meu nome é Rômulo Soares, eu nasci em São Miguel Paulista, no dia 18 de julho de 1942.

 

P/1 - Senhor Rômulo, o senhor podia falar um pouco da sua infância para gente?

 

R - A minha infância, nós vivemos na Vila de operários da Nitro Química. Era uma Vila com cerca de umas 300 casas mais ou menos, destinadas aos funcionários. Meus pais, ambos eram funcionários da Nitro Química e nós morávamos numa dessas casas da Vila Nitro Química.

 

P/1 - O pai e a mãe do senhor faziam o quê?

 

R - Meu pai começou trabalhando numa seção, na parte de fiação, e posteriormente, passou pro departamento de oficina mecânica, onde trabalhou por cerca de 40 anos, na Nitro Química, como ajustador mecânico. E a minha mãe trabalhava numa seção em que transformavam as tortas de rayon, de viscose, em cones - então essa seção era um desenrolamento de fio, transformando um produto no outro, que era chamado normalmente de conicaleiras. 

 

P/1 - E os seus pais são da onde, senhor Rômulo?

 

R - Meus pais eram da Bahia, ambos.

 

P/1 - E eles chegaram em São Paulo...?

 

R - Em épocas diferentes, eles chegaram em São Paulo. Eles não se conheciam em local de origem, vieram se conhecer em e se casaram em São Paulo.

 

P/1 - E o senhor sabe em que anos eles entraram na Nitro Química?

 

R - Eu não sei precisar o ano, mas deve ter sido alguma coisa em 1937, 1938, tá certo?

 

P/1 - Bem no início?

 

R - Antes da Guerra de 1939, provavelmente.

 

P/1 - E como é que foi essa infância em São Miguel Paulista, numa vila operária?

 

R - Então, na época, mas visto sob a ótica de hoje, era um mundo relativamente pequeno, né? As próprias limitações da época. O cinema local era muito pequeno, próximo da cidade, mas era muito rico. Você tinha o rio perto, o Rio Tietê, onde conseguia nadar. Nas enchentes, normalmente você conseguia pescar algum peixe, as pessoas por trabalharem junto e mais ou menos numa mesma faixa de sociedade, então elas eram muito amigas, era uma vivência muito intensa. Então, entre você ter alguém que sabia fazer um balão e preparava o balão, outros que faziam pipas. Aliado a isso, tinha a praça de esportes da Nitro Química, onde tinham as piscinas. Você nadava e parte dessa minha infância, quer dizer, parte não, bastante - eu nasci em 1942, em 1943, a Nitro Química inaugurou o berçário e eu fui um dos primeiros habitantes desse berçário. A Nitro Química tinha uma Escola Senai, tinha um berçário, tinha um restaurante. Eram prédios, mais ou menos... E nesse berçário eu vivi por dez anos, quer dizer, os pais vinham trabalhar de manhã, deixavam os filhos no berçário e quando saíam, minha mãe saía um pouco mais cedo, ela pegava e levava para casa. Meu pai saía um pouco mais tarde. Houve uma época, inclusive, que eles pediam que as crianças ficassem até mais tarde porque eles queriam preservar, que as crianças tinham uma alimentação, tivesse um tratamento, então... Não sei se eu posso me estender mais, é alguma coisa que para essa época, nós estamos falando isso de 1943, visto sob a ótica de hoje, era uma assistência social. Sabe que eu não vejo muito paralelo hoje. Era um berçário com cerca de, vamos dizer, cem, cento e poucas crianças, onde entrava de manhã, era servido uma refeição de manhã, tinha o almoço, à tarde eram obrigados todos a deitarem, a fazer uma sesta. Tinha um médico pediatra que cuidava da assistência médica, da alimentação, então nós éramos obrigados a tomar vermífugo. Era todo um calendário, naquela época as vacinas não, mas me lembro bem que os vermífugos... E para vocês terem uma idéia, São Miguel hoje é longe, mas naquela época era muito mais longe. Para fazer abreugrafia nas crianças, em São Miguel não tinha o aparelho para fazer, então era obrigado a se deslocar para o centro de São Paulo, na antiga Beneficência Portuguesa; e fazer essa abreugrafia, como é que isso era feito? Era um comboio de dez, quinze crianças, acompanhados de algumas tias que a gente chamava, que eram as pajens, e levavam essas crianças até a estação de trem em São Miguel, se deslocava até o Brás. No Brás, havia uma ambulância, que levava até a Beneficência para fazer a abreugrafia, então você veja o grau de dificuldade, a abreugrafia era valorizada, a saúde das crianças. Às vezes, nas férias de meio de ano, era um frio terrível, eles levavam a gente para colônia de férias em Campos do Jordão, então existe histórias. Eu reputo essa assistência médica, esse berçário, uma coisa muito interessante para época. Então, eu fiquei nesse berçário, aí eu já estava grande com quase 10 anos de idade, onde aí eu acho que já tava perturbando um pouco o bom andamento das coisas. Isso foi por volta de 1953, mais ou menos, que eu saí. Aí eu continuei meus estudos e em 1956 foi quando entrei na Nitro Química como contínuo... Foi essa, mais ou menos, a infância. A infância se revezou entre essas atividades de berçário e as atividades na vila, que era junto com pessoas também, mas o mundo era pequeno, se restringia a isso daí. Visto sob hoje, com Internet, televisão, a comunicação, o mundo ficou pequeno, mas naquela época ouvia um rádio, outras coisas mais, era difícil. 

 

P/1 - E o senhor tem mais irmãos?

 

R - Tenho mais um irmão, só que esse meu irmão a defasagem é muito grande, ele veio oito anos depois. Então, nós não tivemos uma convivência de infância.

 

P/1 - Mas ele chegou também a ir para esse berçário da Nitro Química?

 

R - Ele chegou a ir também para o Berçário da Nitro Química, ele é de 1950, ele ficou pouco tempo, mas chegou a ficar no Berçário da Nitro Química.

 

P/1 - Eu queria explorar um pouco mais essa questão do berçário. Além da alimentação, que o senhor se lembra que vocês tinham, quais eram as atividades que vocês desenvolviam nesse berçário?

 

R - Então, tinha lá uma espécie de parque infantil onde as crianças brincavam, aquelas caixas de areia, os balanços, as tias que cuidavam do pessoal, se contavam histórias, as brincadeiras de roda, uma série de atividades, mesmo típicas, infantil.

 

P/1 - E tem alguma tia que tenha marcado o senhor? O senhor se lembra?

 

R - Olha, foram diversas, porque depois, ao longo do tempo, essas tias, algumas delas passaram a chefiar departamentos de médicos da empresa que eu vim a conhecer mais tarde, outras continuaram convivendo no mesmo bairro. Existe algumas tias que eu hoje encontro, tão velhinhas, muito velhinhas, mas foram várias.

 

P2 - Quando o senhor já estava com seis, sete anos, qual era a atividade do Berçário, já funcionava como uma escola?

 

R - Então, aí na vila Nitro Química, tinha um Grupo Escolar que era em prédio da Companhia, mas era um Grupo Escolar gerido pelo Estado, então eu acho era um Grupo muito bom, mas era... Aquele saía uma leva de pessoas, entrava outra. As coisas aconteciam numa velocidade assim, que aquele Grupo Escolar era suficiente, a gente passava às vezes, todos seis anos, era aquela mesma população saindo do Grupo Escolar, entrando na Escola Senai, iam trabalhar, iam desenvolver sua vida, então, aquele Grupo ficou insuficiente, de repente a cidade cresceu. Mas talvez te intrigue a minha formação no Grupo Escolar com o Berçário. Então, a gente saía do Berçário, ia para escola, tá certo? E uma época retornava para o Berçário, você ia para o Grupo Escolar e retornava para o Berçário e houve uma época posterior, que você ia para escola, saía da Escola e já ficava em casa, porque aí já saía na hora do almoço e ficava em casa.

 

P/1 - O senhor se lembra a sensação que o senhor teve, quando saiu definitivamente do Berçário da Nitro Química, aos 10 anos?

 

R - Sabe por quê? Um dos motivos que eu saí, é porque fui convidado também. Meus pais falaram: “Olha, esse garoto está ficando indisciplinado aqui, não sei quê...”. Porque era curiosidade natural, uma das vezes, aconteceu um acidente de um caminhão, os acidentes eram muito raros naquela época, então vocês imaginam a curiosidade que causava numa criança. Alguém falou que tombou o caminhão lá e que o camarada morreu embaixo lá e a notícia chegou no berçário; eu grandinho já com nove, dez anos, louco para ver isso daí, o que eu fiz? Eu pulei o muro e fui ver o acidente e isso foi motivo de repreensão, aí foi: “Olha, ele tá saindo do berçário e tal, então é melhor a senhora cuidar dele”. Foi quase que uma coisa natural, aquela vontade de se abrir para o mundo, e o Berçário que tava limitando, ele estava. Uma coisa interessante também é falar da vila. Vocês falaram da vila. Então, a vila também era um grupo de casas, as casas muito diferentes do que hoje é um BNH. Eram casas com dois quartos, sala, cozinha banheiro, o quintal relativamente grande, onde as pessoas criavam as suas galinhas, tinha sua horta. Inicialmente não tinha água pública. A rede pública de água não tinha. A água era do Tietê tratada na Estação de água da Nitro Química, que se prestava a Nitro Química e ela fornecia também à vila.

 

P/1 - E como era o cotidiano na casa do senhor? Assim, como que vocês viviam?

 

R - Então, houve essa época, que convivendo no Berçário, a mãe pegava, trazia para casa, então ela também chegava cansada. Então era aquilo, tomava um café, aí eu ia para rua brincar com as brincadeiras mais diversas, naquela época qualquer coisa era motivo de brincadeira, até você pesquisar, você escolher no mato uma forquilha pro estilingue já era um verdadeiro tratado, né? Você tinha que escolher aquele galho, aquela árvore, aquela forquilha que permitisse construir um estilingue, então às vezes aquilo levava uma tarde inteira; você no mato, às vezes procurando um estilingue, às vezes subindo numa árvore, uma plantação de urtiga, que você pegava. E nós éramos muito, na vila tem alguns detalhes que são interessantes, era tudo muito pobre, as pessoas. Então o tamanco era o calçado que você usava, sapato era só no domingo, era o tamanco que você usava e quando você brigava na rua você vinha correndo com os tamancos na mão, correndo descalço. E tinha um garoto, ele é filho de um senhor que devia ser polonês, tcheco, alguma coisa assim; ele era muito grande, muito forte, ele se destacava entre os outros garotos, né? Então naquela época a roupa da gente, a calça a mãe remendava, etc. E onde que havia mais desgaste, as calças eram curtas, não era no joelho, era na bunda, tá certo? Tinha aqueles remendos às vezes na bunda e tinha o rapaz, ele chamava Toninho, e a gente ia brincar de esconde-esconde, essas brincadeiras, e ele saía correndo e os remendos, ele tinha um traseiro mais ou menos avantajado, ele era forte e os remendos faziam os movimentos mais ou menos assim, e aí puseram o apelido dele de Toninho Borboleta. Então são muitos, outra família também na época... Alpargata Roda, aquele sapato feito de corda, a sola de corda, então tinha uns rapazes que os pais também comparavam aquele sapato, só que quando pisava às vezes numa poça d’água enxugava a poça. Então, teve um rapaz que até hoje ele era presidente do Lions, etc. Chamava ele de “seca poça”, ele ficava, porque se você fosse ver a origem do “seca poça” é por causa da Alpargata Roda.

 

P/1 - Senhor Rômulo, o senhor conviveu com estrangeiros na vila, como era essa relação? Havia estrangeiros na vila?

 

R - Havia. Esse senhor era um funcionário que depois ainda na minha vida profissional eu convivi com ele na Nitro Química. Ele era um estrangeiro, é... Japoneses, nós vivíamos na vila, não tinha quase... Mas acima, em outros bairros mais retirados, havia muita chácara de japonês. E no Grupo Escolar onde a gente estudava, os filhos de japoneses vinham estudar e a gente formava amizade. Justamente porque garoto, naquela época, a gente ia nas chácaras deles, alguma vezes que eles levavam, às vezes a gente ia roubar mesmo fruta deles, tá certo? E eles promoviam, os japoneses eles têm um festival que promoviam aos domingos para colônia japonesa e que às vezes a gente ia lá e era muito interessante, sabe? Até hoje eu guardo bem, eles faziam provas, essas provas que a gente vê hoje e algumas mais; corrida no saco, onde os prêmios - havia prova de matemática para você fazer, eram gincanas que eram promovidas - e os prêmios normalmente era uma pedra de sabão, um lápis, um caderno, eram coisas desse tipo. Mas voltando um pouco da vila, comecei a falar da vila, da água, que não tinha, que veio depois; essas casas eram confortáveis e existia um fiscal da vila, um senhor que era o prefeito da vila. Ele tomava conta. Então, a cada dois anos, depois isso variou de acordo com a economia, depois foi prolongado, mas a cada dois anos você tinha direito a uma pintura da casa, ela era mantida pela própria Companhia.

 

P/1 - E como eram as festas na vila, como eram os encontros? As pessoas conversavam, tinha essa conversa de portão, tinha essa vivência?

 

R - Como eu disse para você, não tinha televisão - as pessoas se recolhiam cedo porque tinham que trabalhar no dia seguinte - então à tarde, antes de escurecer, era comum as pessoas, tinha alguns programas de rádio e, às vezes, os rapazes se reuniam ali, ouviam um programa de rádio, às vezes, ficavam conversando, era uma vizinhança bastante intensa, como diz, aquilo era um mundo ali.

 

P/1 - Agora, é uma curiosidade particular minha, a que horas o senhor entrava no Berçário? Que horas sua mãe levava? 

 

R - É, às vezes entrava às seis horas, a gente acordava, às vezes, mais cedo. Às vezes quando ela saía, saía por volta de 14 horas e levava embora e, às vezes, ficavam. Teve uma época que eles ficavam até mais tarde, então saía por volta de 16 horas, 17 horas.

 

P/1 - Senhor Rômulo, o senhor já tocou nesse assunto, mas eu quero voltar um pouco: o senhor pode contar para gente como iniciou seus estudos, como o senhor foi caminhando dentro dos seus estudos, quais foram os incentivos que o senhor foi tendo?

 

R - É, essa é uma pergunta que a gente sempre faz, por que às vezes eu segui essa situação e outras pessoas que tiveram o mesmo início não seguiram. Eu tive a felicidade de ter o Grupo Escolar, professores muito bons. Eu reputo como sendo professores mesmo, onde o professor, naquela época, não se preocupava só em transmitir a matéria para você, a matemática, o português. Existia um professor que vinha de terno e gravata, Professor Hélio Goulart, ele escrevia na lousa com giz, tal. Antes, retomando um pouquinho, tinha aquela cerimônia de formar fila, cantar o Hino Nacional, entrar para sala de aula; na sala de aula o professor chegava, você tinha que ficar de pé, você trazia o seu material de casa, o seu tinteiro, a caneta à pena, não tinha Bic. Ele às vezes, então, fazia questão do pé, ele olhava se estavam limpos, se o cabelo estava cortado, se as unhas estavam cortadas, isso não era todo dia, mas periodicamente ele fazia isso. E às vezes, ele dando aula, com a mão suja de giz, tirava um lenço do bolso do paletó, limpava a mão e falava: “Esse é o lenço para limpar a mão, para limpar o nariz está aqui”. Tirava outro lenço. Subliminarmente ele estava te dando uma... E só depois que você vai ver isso, qual o motivo de querer o cabelo cortado, as unhas - é noção de higiene, para não proliferar piolho e outras coisas. Então eu tive professores muito bons e eu comecei a trabalhar muito cedo. Eu sempre fui muito curioso, e eu tinha um vizinho que tinha uma bicicleta, eu não tinha bicicleta ainda, mas ele volta e meia desmontava a bicicleta e eu tinha uma certa curiosidade, via ele desmontando e montando e quando eu ingressei na fábrica, na Nitro Química, eu logo fui para uma seção de desenho, me interessei, me esforcei, fiz o Colegial e eu tive, sabe, não foi coisa assim, de falar: “Olha, que eu batalhei, que eu procurei...”. Foram coisas que foram acontecendo na minha vida, teve um curso natural, não foi, sabe, falar: “Pô, ele entrou na...”. Os vizinhos às vezes falavam: “Pô, o filho de fulano está na escola Politécnica!” Com muito sacrifício, mas nada assim, falar: “Olha!” Sabe, aconteceu naturalmente. Assim como foi a minha vida com a Nitro Química.

 

P/1 - E o senhor fez o ginásio e o colegial tudo nesse Grupo Escolar da Vila?

 

R - Não, a vila era só esse Grupo Escolar, depois no centro de São Miguel, há uns quatro, cinco quilômetros de São Miguel, tem o centro, onde tinha o Ginásio estadual à noite, Aí eu trabalhava durante o dia e fazia o ginásio à noite. Era o ginásio com Francês, com Latim, com trabalhos manuais e depois que eu concluí, tive que me deslocar para a Penha. Em São Miguel não tinha o que eles chamavam, era dividido em Clássico e Científico. O Científico para quem queria ir para área de Exatas e o Clássico para quem queria a área de Humanas. Então, fiz o Científico na Penha.

 

P/1 - O senhor já tinha esse declínio paras áreas científicas?

 

R - Tinha, inclusive na Nitro Química eu trabalhava como desenhista mecânico. E aí também é uma longa história da Nitro Química, o que era a Nitro Química e o que era o parque industrial em 1956, 1954.

 

P/1 - Era muito grande?

 

R - A Nitro Química era uma fábrica, não sei se você ouviu de outros depoimentos, mas era uma fábrica que foi desmontada nos Estados Unidos e foi trazida para São Miguel. Uma fábrica agressiva, uma fábrica química, com problemas sérios de corrosão. Então vocês imaginam o que esses equipamentos se desgastavam. Normalmente equipamentos que vieram dos Estados Unidos - e como é que você faz uma bomba, algum equipamento que quebra, o que você faz? Pedir a importação disso aí era praticamente importar um (spertart?) novo, uma peça de reposição nova, era complicado naquela época, né? O parque industrial de São Paulo não tinha, não existia; você querer uma bomba para determinado produto não tinha, então o que a Nitro Química fazia? A Nitro Química era verticalizada. Ela tinha uma sala de desenho, que desenhavam. Eu como fui desenhista, eu sei, às vezes um rotor de uma bomba estava todo danificado, você tinha que usar um pouco da sua imaginação para imaginar ele, como ele era antes de ser estragado, desenhar. Existia um departamento de modelagem, com modeladores que eram verdadeiros artesãos, que modelavam aquilo em madeira e existia uma fundição; tinha algumas pessoas lá que sabiam fazer as ligas, fundiam lá e fazia aquela liga e depois da peça fundida ia para uma oficina mecânica, que essa peça era usinada. Então a Nitro Química era auto-suficiente, ela fazia isso com vários equipamentos. Eu vivi isso aí porque trabalhei na sala de desenhos, trabalhei na oficina mecânica, fui apontador - só que eu não sei que noções vocês têm de uma, mas imagina que aquela oficina chegou a ter 169 pessoas trabalhando, com tornos, fresas, etc., tudo isso produzindo componentes para empresa.

 

P2- O senhor trabalhava de dia e estudava à noite? 

 

R - Estudava à noite.

 

P2- Então o senhor começou a trabalhar muito novo?

 

R - Comecei a trabalhar em 1956, com 14 anos.

 

P2- E como foi a sua entrada nesse trabalho de desenhista?

 

R - Eu entrei primeiro num departamento onde eu era contínuo, levava documentos de um departamento para o outro. A curiosidade natural de ver aquelas coisas acontecendo, existiam engenheiros estrangeiros, engenheiros brasileiros eram muito poucos, existia inclusive um engenheiro que incentivava muito a gente a estudar. E a Nitro Química tinha uma carência muito grande de profissionais. Ela tinha uma Escola Senai onde formava essas pessoas que vinham do Grupo Escolar lá da vila, filho de funcionário, eles iam para Escola Senai, se formavam em Mecânica e iam trabalhar dentro da empresa. Ela preparava a mão de obra dela.

 

P/1 - O senhor não chegou a passar pela Escola Senai?

 

R - Não passei porque logo em seguida, antes de fazer a Escola Senai, fui trabalhar já. E na sala de desenho, você começa copiando o desenho, alguém desenha e depois você precisa passar a nanquim. Naquela época passava no papel vegetal. Então existia isso, você entra como copista, você vai copiar desenho e aí você passa depois a desenhista - foi quando eu terminei o Científico na Penha. E eu prestei o Vestibular, passei, foi quando voltei para Nitro Química e falei com o diretor: “Olha, eu passei no Vestibular e eu vou estudar, não vou sair. Os nossos recursos, dos meus pais, são poucos, eles não têm muito recurso, o que o senhor pode fazer para me ajudar?” Ele falou: “Olha, o que eu posso fazer é te arrumar uma bolsa que vai pagar os seus livros, pagar o material escolar”. Eu falei: “Já tá bom, pagar o material escolar, meus pais mesmo com certas limitações conseguem me manter”. Então eu comecei a estudar, saí da Nitro Química em 1964, fui estudar. O curso na cidade era dividido parte na Fernando Prestes, que era a Poli Velha, que a gente chamava; e parte na Cidade Universitária, que estava começando, os primeiros prédios estavam ficando prontos.

 

P/1 - E como era, são duas questões. Como era o vestibular nessa época, em 1964, que o senhor prestou? E como era esse deslocamento que o senhor fazia de São Miguel Paulista para a Cidade Universitária? Isso acontecia?

 

R - Eu fiz o Cursinho no Anglo Latino, e para vir para o Cursinho, às sete horas da manhã, levantava às vezes cinco e meia em São Miguel e tomava o trem, que era bem pior do que é hoje. Então, tive alguns episódios de você, sabe, você com pasta, com livros, o pessoal na estação: Zummm! Você ser atropelado, os livros caírem no chão, pisar, descia no Brás e tomava, tinha um bonde que fazia Brás – Praça Clóvis. E da Clóvis, às vezes, eu ia andando até o Anglo Latino.

 

P/1 - E onde ficava essa unidade do Anglo Latino?

 

R - Na Tamandaré. Foi o primeiro Anglo Latino na Tamandaré. Essa, e às vezes na volta, quando eu voltava de ônibus, tipo uma hora, duas horas da tarde, com aquele calor, muitas vezes dormia no ônibus e passava de São Miguel, ia parar num outro bairro e aí tinha que voltar. O deslocamento era triste. E teve uma época que esse deslocamento era muito difícil, aí eu já estava na Universidade e eu morei no Crusp, certo? Eu morei no residencial da Cidade Universitária.

 

P/1 - Eu também morei.

 

R - Você também morou. Então, eu morei no Crusp durante algum tempo.

 

P/1 - O senhor morou lá quanto tempo?

 

R - Morei lá acho que uns três anos. Inclusive, peguei toda a agitação de 1964. E eu, às vezes, dormia em casa, em São Miguel. Teve uma vez que devido à dificuldade de, é que as coisas vão se ordenar um pouco... Então quando eu fui estudar na Cidade Universitária e as dificuldades, aquela ansiedade de jovem, de você querer ter alguma coisa, não querer sobrecarregar os pais que tinham uma situação relativamente apertada de operários, ter o filho estudando e despesa, etc. Aí foi quando houve uma demanda muito grande de professores na rede pública e eu comecei a dar aula, então dava aula à noite.

 

P/1 - O senhor deu aula de quê?

 

R - Eu dei aula de matemática e física.

 

P/1 - O senhor dava aula onde?

 

R - Em São Miguel. 

 

P/1 - Em São Miguel mesmo, e isso estudando?

 

R – Então, qual era o... Eu estudava de manhã na Poli, às vezes tinha aula à tarde, voltava para São Miguel, dava aula das sete até às dez e meia, 11 horas da noite.  Às vezes, dormia na casa dos meus pais e vinha de manhã para Cidade Universitária. Às vezes, por questão de facilidade de locomoção, à noite o trânsito era mais tranqüilo, então eu vinha de São Miguel e dormia no Crusp; foi quando eu tinha essa dupla residência, às vezes eu dormia em casa, às vezes eu dormia no Crusp, vivia no Crusp. E numa dessas vezes, eu saí muito tarde da Escola, ou porque fui encontrar com a namorada, alguma coisa pós aula, e eu fiquei em São Miguel. E quando eu vim de manhã para Cidade Universitária eu soube, estava aquela bagunça, que o DOPS tinha baixado no Crusp e tinha levado nego de pijama, sujeito com diarréia e pijama e tudo, levaram todo mundo para o DOPS, foi aquele rapa que eles fizeram, inclusive colega de quarto, e eu não estava lá.

 

P/1 - E qual curso o senhor fez na POLI?

 

R - A minha verdadeira vontade de fazer era Engenharia Mecânica, mas era o curso mais concorrido, era um dos cursos, era muito difícil; então quando eu fiz o curso, logo em seguida, o que mais se aproximava, era praticamente, depois ele se tornou um curso tão qualificado ou melhor até que o curso de Engenharia Mecânica, foi o curso de Engenharia Naval, que foi um curso que foi desenvolvido na Universidade em conjunto com a Marinha. Era um convênio da Marinha Brasileira com a Universidade de São Paulo. A Marinha oferecia algumas facilidades para o desenvolvimento de trabalhos. Ela construiu o tanque de provas no IPT, e a Universidade se obrigava a receber por ano um número de oficiais da marinha, que vinham fazer o curso de Engenharia em São Paulo.

 

P/1 - Senhor Rômulo, conta um pouco para gente como foi sua juventude, como o senhor conheceu sua esposa, como as coisas foram se encaminhando até o senhor chegar definitivamente na Nitro Química? 

 

R - Então, nessa fase que eu estava estudando na Cidade Universitária, dando aula, a gente tinha sempre as namoradas, uma coisa, outra. E, em 1966, conheci minha esposa, e continuando estudar. Nessa época, eu também já estava dando aula, tinha um amigo da escola - para ganhar a vida alguns deles trabalhavam à noite no Banco do Brasil, outros trabalhavam em alguns empregos - que vendia consórcio e ele acabou me empurrando um consórcio e eu tive a sorte, lá em poucos meses, eu tirei um carro - e o carro, um Fusca 1962, que aí facilitou a minha vida tremendamente. Então, conheci a minha esposa em bailes que tinha no Clube, principalmente os bailes de carnaval, como eu digo a cidade era pequena, o mundo da gente era pequeno naquela época.

 

P/1 - O senhor conheceu sua esposa em São Miguel?

 

R - Em São Miguel. Inclusive, quando os pais dela eram funcionários, ela esteve no Berçário. Nós lembramos um do outro, mas não tínhamos nenhuma convivência, brincava com outras crianças, eu me lembro dela, mas ela também esteve no Berçário. Conheci ela em 1966, um pouco antes talvez, então era aquela vida,  ela trabalhava também, então a semana era toda ocupada com essa atividade de você levantar cedo, ir para escola, estudar, voltar, dar aula, voltar. Sobrava os fins de semana, que normalmente era o quê? Um baile, um cinema, às vezes, quando o dinheiro permitia, você ia até São Paulo para poder assistir um filme no Cine Metro, pegava um filme de sucesso, que estava aí.

 

P/1 - E o senhor se casa em que ano?

 

R - Eu me casei em 1970.

 

P/1 - O senhor já estava na Nitro Química nesse período?

 

R - Acho que isso eu conversei com alguém, eu me formei com a Nitro Química sempre subsidiando a compra de livros, manuais que eu precisava, alguma coisa, eu trazia a nota e eles me reembolsavam, etc. Aí eu me formei em 1969, a Turma de 1968, que a gente fala. Então, me senti na obrigação, respeito ético, me apresentei novamente. Eu conhecia o chefe do Departamento de Engenharia, que eu tinha trabalhado como desenhista, ele permanecia ainda, e o próprio diretor permanecia na Nitro Química, aquele que tinha me dado a bolsa. Eu falei para eles: “Olha, me formei e estou aí no mercado, se vocês precisarem”. Eles falaram: “Olha, nós estamos precisando e nós gostaríamos que você viesse trabalhar”. Então, em março de 1969, entrei na Nitro Química.

 

P/1 - E o senhor já tinha parado de dar aula nesse período?

 

R - Não, continuei dando aula à noite

 

P/1 - O senhor deu aula até quando? 

 

R - Eu dei aula até 1971, só. Eu achei, dentro das minhas convicções, que o ensino estava começando, você às vezes para querer manter um certo rigor, uma certa qualidade de ensino, era obrigado a reprovar aluno, outros professores que naquela época iam chegando, eles só queriam, dava aula de manhã, de tarde, à noite, visavam acho que o rendimento - eles não se dedicavam muito às aulas e então era um contrassenso. Então, tinha um professor que passava o ano inteiro dando crase e você apertava o aluno de cá, estava criando um certo mal estar, você era tido como carrasco, alguém que... Hoje eu encontro muitos alunos meus, que eles vêm e agradecem: “Pô, professor, hoje eu tô bem sucedido na vida, assim, assado, eu agradeço”. Então o ensino naquela época já, o que tá hoje não sei, mas começou naquela época, quando era época de disputa por aulas. Então aquela, aí eu em 1971 já estava casado, já tinha minha função definida na Nitro Química, já tinha uma vida mais ou menos estabilizada, eu deixei as aulas. 

 

P/1 - Senhor Rômulo, o senhor poderia falar como foi esse desenvolvimento da carreira dentro da Nitro Química agora? A partir do momento que o senhor volta em 1969 e até quando o senhor permanece?

 

R - Entrei em 1969, como eu disse, fui engenheiro naval, naval máquinas, naquele tempo existia duas modalidades de Engenharia Naval, o naval máquinas e naval estrutura. O que é isso? O navio ele é praticamente uma cidade flutuante, o navio tem uma usina geradora de energia elétrica, ele tem um sistema de esgoto, um sistema de distribuição de água, de energia elétrica e tem a parte que a gente chama de arquitetura do casco. O casco do navio, como ele é feito, como é construído. Então a especialidade que me formei, era mais na parte de máquinas, essa parte de caldeira, do gerador, da distribuição de água, da distribuição da parte elétrica, o controle disso, essa foi a minha formação. E quando eu ingressei na Nitro Química, ela tem uma Casa de Força, uma central térmica, que no navio chamam de praça de máquinas, que é onde são as caldeiras, os geradores. E a Nitro Química tinha o que ela chamava de uma Casa de Força, que a similaridade que guarda é praticamente a mesma, com caldeiras, com tubos geradores. Ela gerava parte da energia elétrica que consumia, gerava internamente ou por questão de necessidade, teve épocas que a falta de energia em São Paulo era terrível; ou então por questão de segurança, ela tinha um processo de fiação de rayon, que não podia sofrer interrupções de energia; uma interrupção no processo demandava dois, três dias, para você partir o processo novamente.

 

P/1 - Mas por quê?

 

R - Por característica do processo, você imagina que essa fiação de rayon - não sei se vocês já conversaram com outras pessoas da Nitro Química?

 

P/1 - Conversamos com o químico.

 

R - Então, imagina que existiam 12 mil posições fiando, produzindo fio; e à medida que falta energia, são 12 mil posições que interrompem e você tem que reiniciar aquilo ali, então a matéria prima endurece ali, ela amadurece, você precisa limpar, tirar. Você imagina a mão de obra que vai ter para desmontar isso, para limpar, para por novamente no ar.

 

P/1 - O senhor tocou num ponto interessante, que acho importante a gente dar uma voltada - essa questão da falta de energia em São Paulo. O senhor sabe por que isso era causado? Havia alguma explicação?

 

R - Eu acredito que devia ser por limitações de geração mesmo, acho que é o parque industrial em São Paulo e a demanda que tinha.

 

P/1 - E a Nitro Química usava que tipo de energia, petróleo ou energia elétrica?

 

R - Óleo combustível oriundo do petróleo. Inicialmente, muito no começo, acho que a Nitro Química em 1936 se utilizou muito da madeira de lenha. A primeira Casa de Força era movida à lenha, depois ela passou, essa outra Casa de Força, que eu entrei, que eu me referi, foi construída, deve ter sido terminada por volta de 1949, 1950.

 

P/1 - Um outro dado, o senhor está ligado nesse momento na Nitro Química, ainda existe a fábrica velha, a antiga fábrica de rayon? Que algumas pessoas já fizeram referência que ela foi desativada.

 

R -Não, foi desativada, está sendo praticamente desocupada.

 

P/1 - O senhor já está participando da nova fábrica da Nitro Química?

 

R - Não, essa desativação se deu praticamente depois da minha saída, depois de 1995.

 

P/1 - Sei.

 

R - Isso eu estou falando de 1969. Então, vamos dizer, a minha formação, a minha experiência, guardava muita relação com a Casa de Força, foi o primeiro departamento onde iniciei o meu trabalho, nessa área - que cuidava do quê? Da geração de energia elétrica, da geração de energia térmica a vapor. Os vários processos de desenvolvimento da Nitro Química demandam calor, e esse calor era transmitido na forma de vapor, trocadores de calor, evaporadores, uma série de equipamentos. Então foi onde eu desenvolvi a maior parte da minha vida na Nitro Química, nessa atividade. E isso intriga algumas pessoas porque falando da Nitro Química falam: “Puxa vida! Você trabalhou 30 e poucos anos na Nitro Química - quando fala de experiência, é a experiência de um ano repetida 30 vezes ou é uma experiência efetiva?” Eu digo: “É uma experiência efetiva, porque não houve dia igual ao outro”. Em 1969 era uma fábrica que estava mais ou menos, por questões econômicas, estagnada. E aí foram contratados uma série de técnicos, uma série de coisas, então ela foi-se, a fiação de rayon que tinha setores fechados voltou a ativar, máquinas obsoletas foram substituídas, plantas novas foram implantadas. Foi uma vivência muito intensa. Tive oportunidade através do trabalho. Viajei muito, conheci grande parte da Inglaterra, Estados Unidos, Canadá, Itália.

 

P/1 - A Nitro Química propiciava esses estágios fora?

 

R - Propiciava, uma das primeiras viagens que fiz para os Estados Unidos foi na época da crise de petróleo, quando a Nitro Química estava em busca de energias alternativas e, em convênio com o Senai - eles tinham algumas bolsas, o Senai pagava parte das despesas do técnico que fosse mandado para fora - eu fui aos Estados Unidos. Nós fomos justamente desenvolver trabalhos na área de energia alternativa, que naquela época o foco era carvão mineral.

 

P/1 - E o senhor ficou 30 anos na Nitro Química, é isso?

 

R - Isso.

 

P/1 - A Nitro Química tinha um investimento na área de pesquisa ou em algum momento criou patentes em torno de produtos? 

 

R - É, sabe o que acontece? Porque os produtos da Nitro Química, no rayon você tinha paralelos, você tinha a Rhodia, a Matarazzo, mas outros produtos, por exemplo, a nitrocelulose era o único fabricante. Então não sei em termos de patentes, mas o de desenvolvimento que houve foi muito grande, em termos de produtividade, essas coisas. E ela propiciava isso. Os técnicos eram incentivados a buscar melhorias. Houve uma época que isso foi praticado intensamente, tanto na área técnica, na área específica, como também na área administrativa, que é onde ao longo do tempo você vai se deslocando, a área comportamental.

 

P2- A concorrência, com essas outras empresas que você citou, com a Rhodia com a Matarazzo, era uma coisa muito forte?

 

R - Era muito forte.

 

P2- Era um período de crise que estava sendo atravessado e ainda havia concorrência. Isso gerava muita dificuldade? 

 

R - É, havia épocas que você inclusive, como técnico, se você era Engenheiro da Nitro Química, não adiantava tentar um emprego na Rhodia, nem no Matarazzo. Porque algumas coisas nem eram tão segredo assim, mas havia uma concorrência. Depois, o Matarazzo fechou, encerrou as atividades. Posteriormente, a Rhodia também veio a fechar, então esse é um dos motivos também do rayon ter sobrevivido muito tempo.

 

P/1 - Senhor Rômulo, a Nitro Química é uma empresa que trabalha com uma matéria prima, ou seja, vamos dizer, ela trabalha com produtos químicos, então essa questão de poluição é algo que deve ter assim, deve ser uma preocupação constante da empresa. Como é? O senhor acompanhou o desenvolvimento de programas dentro da empresa?

 

R - Isso é mais ou menos nessa linha que você tinha perguntado antes, de pesquisa, etc. Os acontecimentos naturais, o desenvolvimento, você soltar fumaça, naquele tempo você soltava e nem tava aí, não acontecia nada, então os órgãos públicos começaram a pressionar, Cetesb, por exemplo: “Olha a fumaça!” Então você precisa investir nos seus equipamentos para evitar fumaça, o seu despejo. A própria segurança dos funcionários, a Nitro Química acho que teve a primeira CIPA do Brasil, os primeiros equipamentos EPIs, os equipamentos de segurança eram fabricados dentro da Nitro Química. Existia sapateiro que fazia botina para o pessoal, fazia esses mangotes para soldador, essa raspa de couro ele fazia, fazia luvas de couro, eram confeccionadas internamente. O parque industrial em São Paulo não tinha, então dentro dessa linha de segurança, o número de acidentes que existiam, elevados, para reduzir, essa foi uma preocupação muito presente dos dirigentes da Nitro Química, da segurança. Então, o desenvolvimento de EPIs e depois até pressionado pela própria consciência da empresa, a primeira estação de tratamento de efluentes, a Nitro Química construiu.

 

P/1 - E o senhor acompanhou essa construção?

 

R - Nós construímos, porque dentro da minha participação na área de utilidades, todo o desenvolvimento desses, existiu depois um departamento específico de projetos, mas todos esses projetos que iam ser desenvolvidos guardavam relação com a gente porque precisavam de energia: “A Casa de Força está apta? Nós vamos ter mais um consumo, vocês têm essa energia elétrica? Vai demandar mais tanto de água, vai influir em tal equipamento, em tal subestação?” Então, nós participamos intensamente do desenvolvimento desses projetos, então houve muita coisa ligada ao meio ambiente, à Estação de Tratamento de Efluentes, a retificação do rio, que acabou afetando a nossa captação de água, nós tivemos que construir uma outra captação de água.

 

P/1 - E essa captação de água...

 

R - Do rio Tietê.

 

P/1 - Ela foi construída onde agora?

 

R - Então, onde era localizada as casas com as bombas que sugavam a água e mandavam para Estação de Tratamento ficou desativada, porque o leito do rio foi deslocado, então você precisava fazer uma nova captação de água. Ela já foi feita, segundo o projeto do Departamento de Águas e Esgoto, no novo leito do rio.

 

P/1 - E o leito foi mudado?

 

R - Ele foi deslocado, o Parque Ecológico ali onde tem ali na região de São Miguel de Guarulhos, o leito do rio foi deslocado.

 

P/1 - Senhor Rômulo, como o senhor vê a questão da responsabilidade social da Nitro Química, o senhor poderia falar um pouquinho para gente? O senhor falou anteriormente algumas coisas, sobre a questão do Berçário, a questão do Senai...

 

R - O Senai, as casas...

 

P/1 - Até o momento que o senhor esteve mais vinculado à Nitro Química, isso era uma política que permanecia dentro da empresa? Esses investimentos?

 

R - Olha, eu não sei bem, algumas coisas por exemplo, tomou alguns rumos, que eu entendo, às vezes, que a empresa pre lida por situações financeiras, outra coisa, ela tem que... Algumas coisas, às vezes, não funcionam como se espera. Por exemplo, a Escola Senai foi fechada. Não sei bem quais os motivos, o que aconteceu. Ela não estava cumprindo o seu papel? Ela representava um dispêndio? Eu não sei. Mas são algumas coisas que eu me questiono por que a Escola Senai foi fechada. A empresa, por exemplo, eu participei muito, existia um ribeirão, o ribeirão Itaquera, que atravessava as propriedades da Nitro Química e para permitir uma instalação de uma planta, esse ribeirão foi canalizado, e depois a cidade se desenvolveu, etc. Aquele ribeirão representava um problema porque represava água e, à medida que a montante, o solo foi impermeabilizando, e na época da chuvas, havia aquelas enchentes, aquele riacho ali, ele limitava. Naquela época, a Luiza Erundina era vereadora, então era um movimento daquele pessoal, contra a Nitro Química, que ela estava causando enchentes, contra a prefeitura; o prefeito na época era o Mário Covas e eu me lembro então que foi falado para Nitro Química: “Isso aí está...” E a direção da Nitro Química, Dr. José, Dr. Antonio falaram: “O que for preciso aqui da nossa parte nós cedemos, a servidão do terreno, pode demolir, ampliar”. Então esse aspecto, mesmo por causa das pessoas, porque às vezes falam “a empresa”. O que é a empresa? A empresa são as pessoas que fazem, e nós tínhamos essa consciência e levado isso para diretoria, foi liberado. Isso eu acho que é uma responsabilidade social. Ela liberou tranqüilamente. Foi feita a retificação do rio, aquele problema de enchente na região foi resolvido. 

 

P- Senhor Rômulo, na opinião do senhor, existe algum momento que o senhor acredita que foi pior para a Nitro Química Brasileira, nesse período que o senhor esteve lá dentro?

 

R - Teve uma época em torno de 1970, etc... Talvez até um pouco antes, que a empresa vivia em dificuldades. Teve um projeto de uma fábrica de solda, que foi mal sucedido. Aquilo representou um ônus para ela. Teve uma fiação de rayon para pneu, que também foi mal sucedida, problemas de qualidade, a própria planta de rayon tinha linhas de fiação, ela teve que parar. Foram épocas bastante complicadas para Nitro Química - número de acidentes, demandas trabalhistas, um número enorme de processos na justiça trabalhista. Mais ou menos nessa época, foi bastante complicado. Eu reputo também, que era uma época de transição. Onde ela estava se... Aqueles chefões, uma oficina mecânica, uma área de fiação, tinha um homem muito antigo na empresa, ele tinha muita experiência, mas tinha suas limitações e essas pessoas eles eram, a gente chamava às vezes de “o Chefe” e eles mandavam mesmo. E quando você colocava um engenheiro, uma pessoa para trabalhar, ele dava um jeito de ir boicotando, voluntária ou involuntariamente. Essa era época de transição, de substituir esses chefes por pessoas mais novas, um sangue novo que vinha chegando e foi feita uma opção por contratar engenheiros. A Nitro Química, acho que tinha três ou quatro engenheiros e ultimamente ela tinha 16, 17, 18, 20. Então nessa época até vinha essa transição. Eu, nesse particular, trabalhei, por exemplo, na Casa de Força, já existia um engenheiro e um outro chefe, e em outros departamentos que a gente também interagia, existiam os chefes, que eram de difícil convivência. Mas eu tive uma convivência facilitada, talvez por causa da minha origem e dos meus pais e também porque esses chefes tinham filhos, que como eu, estavam se formando, em vias de se formar, e que alguns deles vieram trabalhar na Nitro Química. Então talvez falaram: “Olha, deixa eu facilitar a vida dele porque provavelmente, porque meu filho amanhã também...” E com isso, a Nitro Química foi retomando um fôlego, foi substituindo equipamentos. Uma máquina de celulose antiga passou para uma máquina nova com maior produtividade - é uma reação em cadeia, demanda mais isso, mais aquilo, porque a Nitro Química era uma fábrica integrada. Na realidade, quando falam Nitro Química, não é uma fábrica só, ela tinha uma fábrica de rayon, uma fábrica de celulose, uma fábrica de nitrocelulose, tinha uma fábrica de ácido sulfúrico, uma fábrica de ácido nítrico e esses produtos migravam de uma planta para outra. O que uma fábrica produzia era insumo para outra.

 

P/1 - Dentro da própria Nitro Química?

 

R - Dentro do mesmo sítio, tanto é que muita gente fala: “Ah, a Nitro Química fechou?” Não, ela fechou fábricas, mas ela continua com uma planta em atividade, a planta de nitrocelulose, outras plantas que foram agregadas, planta de produtos (florados?).

 

P2- Só para entender mais um pouquinho, depois de já formado, o senhor volta a trabalhar na Nitro Química e aí o senhor passa a residir em São Miguel?

 

R - É, eu residia inicialmente na casa dos meus pais e a Nitro Química era uma planta antiga, uma planta, como eu disse, nessa época, muitos problemas. Uma das exigências que ela fazia dos técnicos é que eles residissem em São Miguel, por quê? Porque às vezes era um problema que acontecia à noite, acontecia no fim de semana e você residindo em São Miguel, estava mais à mão e para isso ela fornecia casa para os técnicos. Quando me casei, conversei com eles: “Olha, vou me casar, preciso de uma casa”. Aí eles arrumaram uma casa para mim. Interessante porque inicialmente contei para vocês que morei numa casa da vila Nitro Química, aí meus pais construíram uma casa em São Miguel para eles, nós abrimos mão daquela casa, deixamos aquela casa e viemos morar na nossa, onde morei até me casar. Quando me casei, voltei a morar numa casa, não na vila, em casas que a Nitro Química tinha no centro de São Miguel - que ela tinha aquela casa destinada aos operários e tinha um outro núcleo de casas em São Miguel, que era destinada aos membros de chefia, de direção - vim morar numa daquelas casas. Aí dentro dessa movimentação, as coisas evoluíram, né? A fábrica como um todo foi ficando mais independente, já não precisava, a comunicação, telefone - que só tinha um telefone na região. Depois com a comunicação não tinha mais necessidade das pessoas morarem em São Miguel, ela foi abrindo mão dessa exigência de que o técnico morasse em São Miguel, mas eu como tinha laços familiares, a família da minha mulher, meus filhos estavam estudando, aquela coisa, continuei morando em São Miguel. E existia uma casa, que era uma casa que pertenceu ao antigo diretor da Nitro Química, acho que o Dr. Ermírio chegou a morar nessa casa também, era uma casa muito confortável, muito grande, muito boa, eu passei a residir nessa casa. E em 1995, na minha saída, quando nós chegamos à conclusão que estava encerrando a nossa troca de... Então na negociação que eu fiz, eu vim a ficar com essa casa, que é a casa que eu moro hoje, é uma casa que era da Nitro Química e que eu negociei na minha, eu fiquei com essa casa.

 

P/1 - Sr. Rômulo, o senhor gostaria de tomar uma água?

 

R - Por mim tudo bem, pode continuar. Não sei se eu estou falando demais.

 

P/1 - Não, não, está ótimo. Eu fico preocupado se o senhor está sentindo sede e fique constrangido de falar.

 

R - Então, a gente fala a Nitro Química, algumas coisas interessantes, você falou dentro de momentos críticos, um episódio triste, por volta de 1970. Dentro desse problema que eu falei para você da falta de energia, de interromper o processo, nós tivemos um problema não de falta de energia, mas de falta de refrigeração. Refrigeração também era um negócio importantíssimo, aí foi obrigado a parar o setor de rayon, o setor de viscose. E dentro desse processo de parar o setor, tinha toda essa problemática, matéria prima que vai para o esgoto, que entope, essa matéria prima começa a se degradar no esgoto, gera gases, etc., ela entope os esgotos. Então, dentro de uma parada dessas teve um problema num esgoto lá e um funcionário desceu para tentar tirar um desvio que tinha, para permitir fluir. Esse esgoto, em determinado instante, era desviado num sentido e no outro era desviado num outro sentido, então ele foi trabalhar lá dentro e os gases, ele acabou caindo; o outro foi, acabou caindo também. Um terceiro entrou, inclusive um técnico químico que era responsável, naquela ânsia de querer ajudar, eu acho que três ou quatro pessoas morreram, esse foi um acidente que eu vi, que eu participei. E na planta também da Casa de Força, teve um acidente elétrico, um encarregado também que trabalhava comigo, numa manobra acabou, estava em obras, era uma situação mais ou menos precária, ele, por ser encarregado, por ser chefe, subestimou algum equipamento de proteção, não usou a luva e acabou esbarrando o braço no relé, sofreu uma descarga elétrica e depois de alguns dias morreu.

 

P/1 - Relê é o quê?

 

R - É um equipamento que faz o corte de energia elétrica, se...

 

P/1 - Sei. E qual seria o melhor momento dentro da Nitro Química para o
senhor?  Pode ser assim um dado pessoal.

 

R - Olha, o melhor momento que você vê, independente de qualquer coisa, você faz o seu trabalho porque gosta, você entende? É quando você vê o seu trabalho reconhecido, então eram as próprias promoções que eu tive dentro da empresa, o trabalho que você é solicitado a fazer. Tive vários momentos, sempre tive uma carreira ascendente dentro da Nitro Química. Inclusive, meus últimos anos, esse processo, fui trabalhar no rayon. O último trabalho que tive era o desenvolvimento de uma máquina de fiação contínua. Para vocês sentirem o que é isso, o processo de fabricação do rayon, entre você começar com a matéria prima e sair com o fio lá, leva três dias. Entre você produzir a matéria prima, ela ter um amadurecimento, estar suficientemente madura, ir para fiação, ser fiado, ser higienizado, lavado, aí ele vai para um processo de secagem, vai para um processo de desenrolamento, de transformação até ele ser embalado. O grande sonho das pessoas que trabalham na área de rayon é por que não fazer isso, e isso era feito, para você imaginar esse processo, envolvia cerca de 1500 pessoas, teve épocas, entre você começar lá e vir, então ele começava no departamento de preparação da viscose, departamento de fiação, departamento de lavagem, departamento de desenrolamento. Esse produto vai caminhando, põe no carrinho, transporta e o grande sonho das pessoas da Nitro Química, e também internacionalmente, é produzir isso de forma contínua. Porque a gente não pode produzir a matéria até certo ponto e daqui você já ter o produto acabado, enrolado. Esse era o nosso último trabalho, que nós estávamos trabalhando, eu, o engenheiro Nelson Furlan, que estávamos mais ligados a isso junto com os técnicos italianos, técnicos que tinham uma experiência. Eles tinham trabalhado, desenvolvido qualquer coisa na Itália, mas não chegaram a finalizar, então foi montado um protótipo na Nitro Química com algumas posições, dias e noites - e testa matéria prima, testa isso e testa aquilo, o material não dá, corrói, estraga, substitui, é melhor, vamos então ampliar o protótipo, tá certo? Desenvolve o protótipo, manda amostra para os fornecedores aqui em São Paulo, manda para Itália, testa em teares na Itália, testa aqui. Esse foi um dos últimos trabalhos que nós estávamos fazendo, um trabalho muito interessante. A Nitro Química, por motivos vários, interrompeu isso. O pessoal da Itália continuou desenvolvendo, nós trabalhamos um tempo junto com eles, eles instalaram algumas dessas máquinas na China, montaram uma fiação dessas na China.

 

P/1 - Interessante.

 

P2- Dentro desses melhores momentos o senhor poderia contar um pouco da convivência no Clube?

 

R - No Clube era sensacional. Eu, quando eu disse, garoto, você perguntou como era o dia a dia, às vezes a gente passava tardes inteiras na piscina. A Praça de Esportes da Nitro Química era uma coisa que merecia um capítulo à parte. A Praça de Esportes da Nitro Química, o campo de futebol. Eu gostava mais da natação e os bailes, os bailes de carnaval, os bailes de gala, com orquestra, com tudo, as formaturas, porque era o ponto social da coletividade de São Miguel, da sociedade de São Miguel. A formatura era feita lá, tinha uma sede social muito grande, com jogos à noite; um farmacêutico que tinha em São Miguel doou uma biblioteca, tinha uma biblioteca muito grande. Teve a época que tinha aulas de Balé, aulas de piano, aulas de judô; a Nitro Química se destacou no judô, no boxe. Eu fui diretor do Clube, fui diretor do Conselho do Clube.

 

P/1 - E esse Clube da Nitro Química ainda existe?

 

R - Infelizmente, acabou agora de ser encerrado, acho que fecharam tudo.

 

P/1 - Senhor Rômulo, particularmente eu acho que para essa pesquisa, existe a pesquisa Nitro Química, mas existe muita curiosidade por parte dos pesquisadores. O senhor nasceu em São Miguel Paulista?

 

R - Isso.

 

P/1 - Então vamos, os seus pais eles viram a Nitro Química crescer, eles foram para aquela região...

 

R - Se fixaram.

 

P/1 - Se fixaram, era uma região ainda pouco habitada. Como o senhor foi vendo esse crescimento de São Miguel Paulista? Hoje São Miguel Paulista é uma região extremamente povoada.

 

R - É, mas ainda continua sendo meio dormitório. Então essas pessoas que foram, eu conheci vários deles, que se formaram na Nitro Química, fizeram a Escola Senai, trabalharam na Nitro Química. A Nitro Química foi um celeiro de profissionais. E porque daqui a pouco começou a pipocar a Cia. Suzano de Papel, o ABC começou a se desenvolver, a nossa oficina mecânica perdia gente... Então, de repente esse pessoal começou a ir trabalhar em outros lugares, mas não se desligavam de São Miguel, continuavam tendo os filhos ali, estudando, muita gente ligada à atividade de São Miguel, então aquilo foi crescendo, como eu disse para você, de repente o Grupo Escolar não dava mais, tinha mais gente querendo e não dá: “Só tem quatro classes esse ano para o primeiro ano, saiu quatro no último ano, só tem quatro classes”. Aí monta mais um Grupo Escolar, “O Centro médico tá pequeno...”. Então, houve uma invasão de pessoas que vieram não sei da onde, veio do interior e mesmo do norte. O Dr. Fábio fez uma pesquisa uma vez, onde falava que a Nitro Química era uma fábrica de baianos e tal, mas ele chegou à conclusão que tinha muito mais mineiros, o pessoal de Minas também tinha muita gente. De repente aquilo foi crescendo, a infra-estrutura, mas um bairro dormitório, onde as pessoas às vezes não valorizavam certas coisas como um Clube, por exemplo. Por que o Clube fechou? Um dos motivos que eu acho, embora a Nitro Química depois tenha estabelecido algumas limitações, entre sócio interno, sócio externo, ela para atender a população tinha duas categorias de sócio: ela tinha o sócio, que eram seus funcionários e os familiares; às vezes tinha um irmão que não trabalhava, tinha um filho, uma filha, um neto, então ela tinha a categoria de sócios externos. Foi um crescimento assim que se desestruturo.

 

P/1 - Sei. E mudou muito da sua infância, o senhor ver São Miguel hoje e na sua infância?

 

R - Ah, mudou muito. Mudou porque foi uma infância tranquila.Os bailes de carnaval que você ia, você saía tipo quatro horas da manhã, ficava conversando na calçada, não existia nenhuma preocupação com segurança. As vilas, as portas abertas, os vizinhos, muitas das casas eram casas germinadas, elas tinham uma parede em comum e uma cerca em comum; tinham vizinhos que tinham portão intercomunicando. Então as coisas mudaram muito, o mundo de repente ficou - quando eu falei que o nosso mundo era pequeno, você saber do que acontecia em São Paulo, o que acontecia na Penha, você não sabia e de repente o mundo ficou pequeno, você sabe tudo o que acontece, as coisas.

 

P/1 - E algum filho do senhor entrou na Nitro Química, seguiu carreira?

 

R - Não.

 

P/1 - Nunca quiseram se envolver?

 

R - Eu tenho quatro filhos, são duas moças e dois rapazes. A moça mais velha seguiu mais ou menos a minha carreira, fez Escola Politécnica, Engenharia Química. E por questão de oportunidade, ela trabalha na Sabesp. A outra filha fez Administração de Empresas, trabalha na Prefeitura. Um filho se envolveu com drogas, etc., atualmente está preso, e o outro filho fez advocacia, é advogado.

 

P/1 - Senhor Rômulo, qual a importância da Nitro Química para o Brasil?

 

R - Eu diria que, eu reputo como sendo muito importante, nesse aspecto de desenvolvimento. O desenvolvimento para o Brasil, como eu disse para você, muitos funcionários, talvez aquele impulso que teve a indústria automobilística. Parte da mão de obra, porque o Matarazzo acho que fazia isso, ele tinha Escola Senai, a Rhodia  também tinha, era uma praxe das empresas formarem a sua mão de obra, devido à carência d, mas eu reputo, que isso daí ela contribuiu. São Miguel se desenvolveu muito em torno da Nitro Química. O camarada que fornecia alimento para o restaurante, toda cadeia que se desenvolve em torno de uma empresa, é difícil dizer, acho que foi muito importante, principalmente nesses produtos básicos, né? Ela teve, ao lado da Nitro Química uma planta de TNT, de explosivos, o pessoal chamava de trotil. Essa planta usava ácido da Nitro Química, matéria prima, uma planta inclusive controlada pelo exército na época da guerra. Então, acho que teve uma importância nesse aspecto.

 

P/1 - Ainda nesse sentido, o senhor permaneceu na Nitro Química até 1995, já havia essa racionalização dentro do Grupo Votorantim? O senhor chegou a acompanhar essa união das fábricas, em torno, de... Por exemplo, todas as empresas de cimento geraram a Votorantim Cimento, a Nitro Química junto com a Agroindústria formou um outro setor, o senhor acompanhou?

 

R - Não, porque tinha alguma coisa - porque a Nitro Química, quando você falava do aspecto de desenvolvimento, foi uma das primeiras empresas a ter um computador próprio, lá da IBM, lá dentro. Ela foi pioneira em muitas coisas, como eu falei, da própria Cipa, os processamentos de dados, do Grupo Votorantim, praticamente foi a primeira, da onde se formaram  técnicos de processamento de dados, junto com a IBM, depois com a FAU...

 

P/1 - E o senhor foi acompanhando todo esse desenvolvimento tecnológico?

 

R - Nossa, porque é como eu falei para você: a Nitro Química, é interessante a gente ver esse aspecto, é uma fábrica verticalizada e de repente ela é pressionada por custos. Você manter uma oficina mecânica com 169 homens. O parque industrial em São Paulo já amadureceu, já está produzindo alguma coisa - será que muitas coisas que você faz aqui, você não compara lá fora, mas racionalmente. Aí é onde vem uma outra etapa, inclusive dessas pessoas mais antigas na empresa, que ele estava: “Pô, eu faço a minha própria bomba, eu tenho um modelo aqui, olha, o modelo tá aí, vamos fundir tantas peças, depois traz para cá, vamos usinar, tá certo? Será que não existe um similar nacional, que faz o mesmo serviço, que faz a mesma coisa agora?” Esse foi um caminho de volta onde aí já existia grandes fabricantes de bomba, Worthington, fabricantes de compressores, você não dependia tanto da importação. Então aí é o caminho que você faz de volta, onde o pessoal, eu tinha às vezes engenheiros subordinados a mim, e que ele fazia um pedido: “Eu preciso mandar fundir, usinar tal peça, tal bomba assim, assado”. Eu falava: “Ó fulano, nós não vamos mais comprar esse tipo de... Quanto custa você mandar o modelo, a fundição, vir, mandar usinar, voltar? Existe um fabricante de bomba, peça para ele uma bomba com essas características, com essa situação”. Aí a Nitro Química vai chegou a ter três mil e poucos empregados, chegou a ter cinco mil, ela vai se enxugando, então a oficina mecânica não precisa mais de tanta gente. Algumas coisas, depois em últimas etapas foram terceirizadas, tinha uma oficina que produzia, exclusivamente peças para fabricação de rayon, dentro da Nitro Química, com funcionários antigos, experientes: “Porque você, fulano, nós facilitamos, você paga as máquinas e leva isso aí para um outro sítio e nós comparamos um produto acabado de você, e você assume uma terceirização sadia”.

 

P/1 - Outra curiosidade, toda a tecnologia da Nitro Química é original de que país?

 

R - Ah, tem tecnologia americana, tem fábricas de aço que tem tecnologia suíça, alemã. Mas sempre a Nitro Química, talvez até o Grupo Votorantim, não paga royalties, ele compara a tecnologia e é dono da tecnologia.

 

P/1 - Senhor Rômulo, a gente pode dizer que o Grupo Votorantim, o senhor trabalhou 30 anos na empresa, ele possui valores familiares? Ou o senhor gostaria de adentrar, se é um Grupo que tem uma cultura de valores?

 

R - Olha, essa é uma pergunta um pouco difícil, mais, na minha ótica, acredito que tenha. Veja, como eu falei para você: a Nitro Química teve dificuldades de acidentes, de demandas trabalhistas. E isso foi sendo ajustado, foi sendo feito de forma que a Nitro Química, a interação com outras fábricas era pequena. Mas ela sempre respeitou os direitos das pessoas, teve sempre seus pagamentos em dia, não atrasar, isso era um ponto de honra, num determinado instante da vida da empresa, passou a ser - então tem valores que eu acho que eles percorrem um pouco aí pela pergunta que você fez, pensando em valores familiares, são respeitos que eu acho que alguém traz isso...

 

P/1 - E qual a importância da Votorantim na vida do senhor?

 

R - Olha, a gente de alguma forma precisa viver, você precisa fazer trocas e a melhor maneira de fazer isso é fazer dentro de uma certa tranqüilidade, de uma certa lealdade. Meus pais trabalharam na Nitro Química, me educaram, educaram meu irmão, construíram seu patrimônio trabalhando honestamente. Eu trabalhei também na Nitro Química, criei meus quatro filhos, constituí meu patrimônio, trabalhando também dentro da Nitro Química, então vamos dizer, a importância que tem é que existiu, por motivos vários, um relacionamento entre eu e a Nitro Química, que acho que nós fomos atendidos, eu dei o melhor dos meus esforços. A contrapartida que eu tive foi isso daí, foram as satisfações, realizações pessoais, a minha família que eu criei.

 

P/1 - E na opinião do senhor qual foi o principal incentivo que o Grupo Votorantim deu para o senhor, nesses 30 anos de empresa?

 

R - O principal incentivo foi a liberdade de criar, de trabalhar, certo, mais ou menos naquela linha que eu falei para você, o que é a empresa? A empresa são as pessoas que trabalham nela, tá certo e nós tivemos uma época, por excelência na Nitro Química, muito rica nisso, nós tínhamos um time de pessoas, que brigavam, que discutiam, mas que trabalhavam intensamente em prol da empresa. Ali havia uma união, havia um trabalho, sabe, a gente ouve muito falar. Depois teve uma época que começou, mais no fim da vida da gente, a vir algumas pessoas, que não respeitavam muito esse aspecto, talvez pessoas descompromissadas com a empresa, que não valorizavam essas coisas, mas muitas das coisas que a gente às vezes fazia na empresa em prol do ambiente que tinha, era um ambiente muito sadio.

 

P2 - Eu queria que o senhor contasse algum momento em especial, algum momento dessa trajetória toda, ou ligado ao Clube, ou a algum colega de trabalho, alguma comemoração?

 

P/1 - Ou até mesmo dentro da história da Votorantim, algum fato que tenha sido para o senhor bastante significativo? 

 

R - Olha, na minha convivência na empresa, o momento para mim mais significativo foi quando eu obtive essa ajuda na bolsa para mim estudar, o incentivo que me foi dado naquela época, que falaram: “Olha, vai estudar mesmo, que é por aí”.

 

P/1 - Senhor Rômulo a gente está chegando ao fim desse depoimento e eu queria saber do senhor qual a importância desse projeto de 85 anos da Votorantim, dela estar chamando seus funcionários para contar a história? O que o senhor acha desse projeto, dessa idéia? 

 

R - Eu acho louvável, seria bom, não para dizer o que é melhor e o que é pior, mas para gente entender essas coisas. Então tem muitas coisas, o quê vamos dizer? Você passa ao longo da sua vida e algumas pessoas se revoltam com certas coisas, mas, por exemplo, a empresa às vezes fechou um departamento porque não se justifica mais - se justificava no passado, quando você não tinha - e agora as coisas mudaram, existe uma coisa que você pode fazer, que você dispensa aquilo ali. Então eu acho importante para que essa história tenha um corpo, um desenvolvimento em que você entenda as razões. Eu, por exemplo, tive algumas coisas que eu sempre... as casas, por exemplo, falando das casas que a companhia dava, num determinado momento houve pessoas que reivindicaram: “Olha, eu quero uma casa”. “Agora nós não damos mais casa, nós abrimos mão disso”. Por que isso daí? Porque a fábrica se modernizou, investiu, os problemas que ela tinha de noite, de madrugada deixaram de existir, então não precisa mais disso. A pessoa às vezes entende isso como sendo um desabono, não é o curso natural da história e para você entender isso, você precisa acompanhar o ciclo, como ele se originou, como foi.

 

P/1 - Senhor Rômulo, o senhor faz o quê atualmente? O senhor trabalha ainda próximo ao Grupo Votorantim?

 

R - Não, não trabalho, meus filhos tem um pequeno comércio de estacionamento e eu às vezes ajudo eles em alguma coisa.

 

P/1 - O que o senhor achou de ter participado desse resgate da história do Grupo Votorantim? 

 

R - Olha, eu espero que eu tenha contribuído com alguma coisa, porque pessoas como eu na empresa houve vários, eu não sou nenhuma exceção nem nada, pessoas que nasceram ali, filhos de operário, entraram na Nitro Química e fizeram carreira. Eu, por circunstâncias da vida, tive talvez uma trajetória mais longa, tá certo, alguns depois do Senai, trabalhou um ano na Nitro Química e foi trabalhar na Volkswagen, foram trabalhar na Ford, outros. Eu permaneci. Comecei lá no Berçário, vamos dizer, saí, estudei e voltei e encerrei praticamente a minha carreira dentro da Nitro Química. Então eu espero que tenha podido contribuir com alguma coisa nesse sentido - e dando a visão que eu tive da empresa, o porquê de muita coisa, o que era uma fábrica verticalizada, com três mil e poucos operários, depois ela reduzindo, com uma atividade social, que eu julgava muito avançada para época, de assistência médica, as nutricionistas, as festas, o Clube.

 

P/1 - Senhor Rômulo, em algum momento aconteceu da gente não fazer uma pergunta, que o senhor achou que deveria ter sido feita, o senhor gostaria de falar mais alguma coisa, que o senhor acha que é importante?

 

R - Olha, são tantas, é um borbulhão de coisas, que provavelmente muitas nós não tivemos, no momento assim... Mas eu acho que percorremos aí bastante, não sei se eu me estendi.

 

P/1 - Não, que é isso... E o senhor gostaria de deixar alguma mensagem para o Grupo Votorantim, para os amigos da Nitro Química?

 

R - Olha, a mensagem que eu gostaria de deixar, é que o Grupo confiasse nas pessoas, continuasse investindo, proporcionando oportunidades, como a mim foi proporcionado, ele continuasse investindo, expandindo para que outras pessoas tivessem a mesma oportunidade, que eu tive, de trabalhar e educar e de construir alguma coisa.

 

P/1 - E dos amigos da sua época de Nitro Química, vocês ainda se encontram?

 

R - Nos encontramos no dia 22 de abril do ano passado, fizemos um churrasco num sítio de um químico, Mario Giannetti - que o pai dele também trabalhou na Nitro Química, ele se formou químico com bolsa da Nitro Química, trabalhou na Nitro Química também um longo período. Ele tem um sítio, é uma pessoa amabilíssima, prestativa, fizemos um churrasco no sítio, onde nós reunimos pessoas de Minas Gerais, que trabalharam lá. Foi um negócio sensacional. Esse era um outro aspecto da Nitro Química, que eram as reuniões, como você diz: “São Miguel pequeno, o que o pessoal fazia?” Era muito comum aquele bando de homens, de repente o diretor facultava lá o cozinheiro do restaurante, nós comprávamos a matéria prima, usava o restaurante e ele preparava aquele jantar e o pessoal se reunia lá na praça de esportes do Clube para fazer um jantar; então era aquele, não tinha mulher, era um bando de  homens, era 40, 60 homens juntos, conversando, levando a noite ali, aquele negócio. E as mulheres então que ficavam em casa falavam: “É o Clube do Bolinha”. (risos) Mas aquela reunião desinteressada, sem nenhum sentido político - havia sim um sentido político quando alguém fazia um discurso pedindo aumento, né?

 

P/1 - Senhor Rômulo, terminamos a nossa entrevista, eu particularmente gostaria de agradecer muito pela presença do senhor, agradecer em nome do Museu da Pessoa e agradecer principalmente em nome da Votorantim; porque foi muito esclarecedora, para mim que sou jovem e estou começando, é uma grande conquista poder trocar essas idéias.

 

R - Para mim também foi muito bom falar sobre tudo isso. Obrigado.





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