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O primeiro transhomem operado no Brasil

História de: João W Nery
Autor: João W Nery
Publicado em: 21/09/2014

Sinopse

João W. Nery, psicólogo, sexólogo, escritor, transhomem e ativista dos direitos humanos publicou sua autobiografia “Erro de Pessoa: João ou Joana?” em 1984, pela Ed. Record, graças ao empenho pessoal de Ruth e Antonio Houaiss, que fez a orelha, finalizando com as seguintes palavras: “Leiam e humanizem-se.” Em 2011, publicou o segundo livro, “Viagem Solitária, Memórias de um Transexual Trinta Anos Depois”, uma releitura do livro anterior e a sua continuação, com a grande revelação: João torna-se pai, ainda que não biológico. O autor nasceu em 1950 no Rio de Janeiro, com um corpo feminino, embora tenha sempre se identificado com o gênero masculino. Ao perder o diploma de psicólogo, por causa da mudança de identidade, teve várias atividades para sobreviver. A recente conquista do espaço pelas transidentidades permite uma reflexão sobre o drama vivido por indivíduos que não se enquadram nos papéis de gênero impostos pela sociedade e suas convenções.

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A mídia me considera o primeiro transhomem (homem trans ou FTM/Female to Male – fêmea para macho) operado no Brasil: minha cirurgia de redesignação sexual foi realizada em 1977, durante a ditadura militar e 20 anos antes destas cirurgias serem aprovadas pelo SUS. Nasci em 1950, quando a palavra transexual não existia ainda. Identifico-me com o gênero masculino desde os quatro anos de idade. Sofri transfobia durante toda a vida, começando na pracinha onde brincava e onde me chamavam de "maria homem".

 

Aos 14 anos veio o golpe militar e meu pai se exilou no Uruguai. Lá, conheci Darcy Ribeiro, que se tornou meu mestre intelectual, me ensinando a perder o medo das palavras. Vivi até os 27 anos com um corpo de anatomia feminina. Criado numa família de classe média, com três irmãs, no Rio de Janeiro, tive oportunidade de estudar e me formar em Psicologia. Especializei-me em Gênero e Sexualidade pelo IEDE – Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia Luiz Capriglione (RJ). Ainda com uma identidade feminina dava aulas em três universidades, clinicava e fazia mestrado, quando soube que uma equipe pioneira começava a estudar "transexualismo".

 

Quem me operou foi o cirurgião Roberto Farina, que tinha sido condenado em 1971 por ter feito uma cirurgia de redesignação sexual em uma transmulher. Fiz a mamoplastia masculinizadora (mastectomia – retirada das mamas) e a pan-histerectomia (retirada dos órgãos reprodutores internos). Tirei uma nova identidade masculina para poder me articular socialmente, sem entrar na Justiça, pois na época nenhum juiz me daria a mudança de prenome e gênero. Tornei-me um analfabeto e fora da lei (pela dupla identidade). Tive várias atividades para sobreviver: fui pedreiro, pintor de paredes, vendedor, motorista de taxi, cortador de confecção de roupas, massagista de shiatsu.

 

Enquanto me recuperava das cirurgias, escrevi o livro autobiográfico “Erro de Pessoa”, publicado em 1984 pela Editora Record. Conheci outro transhomem quando tinha 30 anos de idade. Aos 37 anos, assumi a paternidade quando ocorreu uma gravidez da minha terceira mulher (não prevista, de uma ligação eventual com outro cara). Contei para meu filho a minha história aos 13 anos de idade. Hoje ele está com 27 anos, é engenheiro, casado. Somos grandes amigos e ele foi um presente na vida para mim. Estou casado pela quarta vez, há 18 anos. Tenho sorte, hoje minha família me aceita como sou.

 

Publiquei o segundo livro, a autobiografia "Viagem Solitária - Memórias de um Transexual 30 anos depois" (Editora Leya, 2011), que atualiza conceitos, dá continuação à minha história. Após sua publicação, fui convidado a dar depoimentos para vários programas de televisão: De frente com Gabi (SBT), Superpop (Redetv), Programa do Jô e Altas Horas (Globo), A Liga (Band), Balanço Final( Record), Canal Fiocruz, Tabu (Nat Geo), Provocações (TV Cultura), jornais, revistas e mídias digitais, alcançando um público nacional e internacional e, com isto, para a causa da diversidade de gênero. Tenho participado como palestrante em congressos, seminários e mesas redondas no meio acadêmico, ONGs e representações de classe como a OAB, divulgando minha história e contribuindo para a reflexão sobre a diversidade sexual, discriminação e direitos humanos.

 

Em 2013, os deputados federais Jean Wyllys e Erika Kokay criaram um projeto de lei PL5002/13 – Lei de Identidade de Gênero e me homenagearam com o nome de “Lei João W Nery”. Este projeto garante o direito do reconhecimento à identidade de gênero de todas as pessoas transgêneras no Brasil, sem necessidade de autorização judicial, laudos médicos ou psicológicos, cirurgias, hormonioterapias. Preserva todo o histórico, assegura o acesso à saúde no processo de transexualização, despatologiza as transidentidades para a assistência à saúde e preserva o direito à família frente às mudanças registrais. Propõe, assim, que a psicoterapia só seja feita caso o interessado assim o desejar. O projeto foi feito com base na experiência da Lei de Identidade de Gênero argentina, tendo o incentivo, trabalho e engajamento de vários ativistas desta causa. No momento, ele deverá passar por uma comissão especial do Congresso Nacional, devendo ir a plenário em 2015. Participei, em 2012, da fundação da primeira ONG de transhomens, a ABHT – Associação Brasileira de Homens Trans. Hoje coordenado a regional sudeste do IBRAT – Instituo Brasileiro de Estudos de Transmasculinidades.

 

Tornei-me uma espécie de “psicólogo virtual” devido a solicitações de ajuda que recebo através das redes sociais. Colaboro com a coletividade elaborando listas de profissionais especializados, que possam atender psicologicamente, juridicamente e medicamente, em grupos de apoio, e outras modalidades às demandas de gênero e faço a primeira tentativa de levantamento do número de transhomens no Brasil, classificados por Estado. O fato de vários estudantes universitários e acadêmicos passarem a escolher a transexualidade masculina como tema para seus trabalhos e teses, me solicitando para dar depoimentos e indicações bibliográficas, fez-me retomar meus estudos sobre gênero e sexualidade. Constatando a existência de poucos artigos e livros sobre o assunto, foi mais uma demanda voltar a escrever, inclusive em parceria com acadêmicos sobre o tema transmasculinidades. Faço etnografias digitais, compartilhando as transexperiências (experiências políticas) no ciberespaço. As cartografias sobre tais vivências foram realizadas a partir de trabalho de inspiração etnográfica digital – marcado pela observação de participações em fóruns, troca de mensagens e grupos de rede social. Com esses textos, pretendo contribuir para abrir novos diálogos e tornar visíveis estas transvivências masculinas. Como escritor e ativista, sigo vivendo esta minha vida, na perspectiva de que esta experiência e testemunho possam colaborar para a trans-formação de novos sujeitos nesta nova sociedade, em busca de futuro com mais justiça social.

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