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História

O primeiro "prefeito" de Parauapebas

História de: José Francisco de Brito
Autor:
Publicado em: 16/10/2015

Sinopse

Chico Brito nasceu na famosa Rua de Sant'Ana, em Itabira, Minas Gerais. Partindo de Carlos Drummond de Andrade, nesta entrevista ele nos conta sobre a relação de Itabira com a Vale. Mas Chico circulou por várias cidades até ir para Carajás, no Pará, onde acabou por ajudar a criar o município de Parauapebas.     

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História completa

Memória Vale do Rio Doce

Depoimento de José Francisco de Brito 

Entrevistado por Cláudia Resende e Fabrício Teixeira

Carajás, 26/05/2000

Realização: Museu da Pessoa

Entrevista nº CVRD_HV038

Transcrito por Manuelina Maria Duarte Cândido

Revisado por Genivaldo Cavalcanti Filho



P/1 - Seu Chico, primeira pergunta: seu nome completo, local e a data de nascimento.


R - Meu nome completo é José Francisco de Brito. Em Itabira, que é onde eu nasci, o pessoal me conhece muito é por José Francisco. E aqui em Carajás, na região Norte, é Francisco Brito ou Chico Brito.

Eu nasci em Itabira em dez de outubro de 48 e, principalmente, mais do que ter nascido em Itabira, na Rua de Sant’Ana. A Rua de Sant’Ana, aquela rua famosa pelos poemas de Drummond, é a “rua comprida que vai dar no meu coração”, mas é um lugar gostoso de viver, porque é uma rua em que mora todo tipo de gente: moram fazendeiros, moram operários, mora preto, mora branco, mora pobre, mora rico. E tem, sempre teve, uma convivência muito boa com todo mundo, todo mundo é muito solícito. Quando o pessoal que tem hábito de fazer aquele pão caseiro, por exemplo, quando uma senhora assa um pão que cheira a rua inteira, ela parte nem que seja um pedacinho, põe na bandeja coberta com um paninho branquinho e manda entregar um pedaço em cada casa.


P/1 - Até hoje é assim?


R - Até hoje. Quando a outra faz uma quitanda, também, a mesma coisa. Tem uma convivência muito gostosa lá na rua e um espírito de molecagem muito próprio daquele pessoal dali. Então, ter nascido na Rua de Sant’Ana, pra mim, eu acho que moldou a minha vida, o meu caráter pro resto da eternidade.


P/1 - E os seus pais? Os nomes deles e atividades deles?


R - Meu pai é José de Brito. Ele trabalhou na Companhia Vale do Rio Doce desde que ela começou. Até antes de ser criada a companhia já tirava o minério de ferro no garfo, na pá, pra vender para aquelas fundições de facão, de foice, de ferramenta, porque Itabira tinha muitos foles nos quintais de casa. E aquele grupo que começou a tirar esse minério e vender para a indústria artesanal de ferramentas acabou que, quando a companhia foi criada, foi o logo o primeiro grupo aproveitado. 

Meu pai chegou a ser o encarregado geral da produção, que era o chefe-geral da mina, o homem que era responsável por produzir. Ele também foi encarregado de dirigir o primeiro caminhão Wilked, o primeiro caminhão com basculante, um fora-de-estrada de 22 toneladas, que a Vale encomendou, importou da Inglaterra - era o maior patrimônio que a Vale do Rio Doce tinha. Experimentou um, pra ver se dava certo, depois comprou mais seis. E este um, este primeiro, que veio pra teste, meu pai aprendeu a dirigir, e dirigiu. 

Este caminhão tombou porque as estradas eram feitas na enxada, na mão, estrada com minério. Ele saiu da companhia até por causa disso, porque perdeu, criou um dano ao único patrimônio que a companhia tinha. Mas logo em seguida ele voltou, porque não tinha quem dirigisse aqueles caminhões e nem ensinasse para os demais, e daí ele passou a ser o chefe do transporte, o chefe da produção. Também ele operou a primeira escavadeira, salvo engano uma Bill Cyrus que a Vale comprou. Aí já não era tirar o minério na mão pra jogar lá em cima do caminhão, mas tinha uma escavadeira, uma máquina. Pra nós, hoje, é uma besteirinha, são essas que fazem no meio da rua esgotos, mas era uma coisa do outro mundo na época. E, posteriormente, veio a PIH também, que ele foi… Aí já era uma máquina mais moderna, com um monte de coisas, muito maior. Também ele foi o primeiro a ser ensinado pelos mexicanos e pelos ingleses a operar aquilo e ficou, cada vez mais, aquele homem que tinha um espaço grande, uma respeitabilidade também muito grande dentro da companhia. 

A minha mãe se chamava Benedita Petrina de Oliveira Costa, e a procedência tanto de meu pai quanto de minha mãe é da zona rural. Os pais de minha mãe tinham fazenda, tinham tropa de burro pra levar mercadoria de Minas para o Espírito Santo, e os pais de meu pai tinham sítio perto de Itabira também. Todos os dois próximos de Itabira. A minha avó materna, se não foi a primeira, foi uma das primeiras professoras que Itabira teve também, e salvo engano o marido dela ou o pai dela, um desses dois, coincidentemente, foi também um primeiro intendente, administrador, uma coisa assim, de Itabira nas priscas eras. Eu achei esses documentos depois - aliás o Élvio Pavão, lá de Itabira, Élvio Avelar, pesquisando os Anais da Câmara de Itabira, encontrou isso e muitas outras histórias lá que me chamou pra ver, ele gosta de documento. E eu achei muito curioso, porque eu não sabia disso quando tinha sido administrador de Parauapebas, né?


P/1 - Já estava no sangue.


R - Ahã! (risos)


P/1 - E a infância na cidade de Itabira, convivência tão estreita com a Vale?


R - Bom, a infância em Itabira foi aquela coisa muito gostosa, muito poética, no meio daquela meninada toda. Como eu falei, tinha ricos e pobres, todo mundo numa convivência tranquila, muito boa, com aquelas briguinhas de menino. E a escola, fui estudar no grupo escolar que era do município, tinha uma qualidade muito boa. Dona Marina Bragança foi uma senhora que dirigiu esta escola durante muito tempo, com uma disciplina muito boa também. 

Mas eu gostava sempre de estudar. Estudar pra mim era uma delícia, uma maravilha. E eu vim muito bem na escola; naquela época tinha um exame de admissão no ginásio porque não existiam vagas pra ginásio, eram poucas pessoas que tinham acesso ao ginásio. Normalmente, as pessoas faziam o quarto ano, depois do quarto ano ficavam um ano no curso de admissão - que era um cursinho pré-vestibular, uma preparação pra fazer o exame - e depois iam para o ginásio. Eu estava terminando o quarto ano e falei: “Ah, eu não vou fazer este ano adicional, não, eu vou fazer logo os exames.” Fiz os exames, fui aprovado com nota dez em todas as matérias, aí a molecada saiu correndo atrás de mim na rua gritando assim: “Cagão, cagão.” (risos) Eu corria na frente e eles corriam atrás de mim.


P/1- Mas seu Chico, e a casa da família? Quantos filhos, quantos irmãos? Como era a sua casa?


R - A minha casa era uma casa que... Meu pai comprou a minha casa exatamente quando ele saiu da primeira vez da companhia. Ele recebeu a indenização, comprou a casa. 

Era uma casa de alvenaria. Não era uma casa de luxo, mas também não era uma casa assim ruim. Tinha um padrão normal. Nessa casa moravam a minha avó, a Maria Eugênia, que era professora, e como ela não tinha muita coisa pra fazer ela nos chamava pra contar história, ensinar uma continha, desde menino. O aspecto curioso com ela é que ela nunca saía do quarto sem primeiro estar absolutamente produzida. Cabelo, tudo certinho. A gente nunca viu a minha avó a não ser assim, perfeita, mesmo. Muito bem vestida, sabe, muito alinhada. Ela não aparecia de jeito nenhum sem isso. Aí ela vinha, ensinava pra gente muita coisa, era pra passar o tempo dela. 

Bom, a nossa casa era isso: era a primeira casa pra baixo do colégio das irmãs de caridade. As irmãs de caridade também eram um mundo diferente, porque rezavam muito, cantavam muito. A gente ouvia a cantoria das irmãs, a gente chamava as irmãs… Isso depois que eu cresci um pouco, a molecada chamava as irmãs de andorinha. 

As irmãs pegavam as moças e iam levar pra missa na igreja, tinha que descer a rua. Botava tudo em fila de duas a duas, com uniforme de gala, um uniforme branquinho com gola de marinheiro e uma saia pregueada. A minha irmã também estudava neste colégio, minha irmã mais velha. A gente ficava lá sentado na calçada para ver as meninas que passavam, as que eram bonitas, tudo isso. E tinha aquelas avacalhações, então quando passava o desfile das meninas, a gente mexia com uma… A menina era feia, a gente falava assim: “Ô, bonita!” Bom, era pior, eram uns palavrões, “Ô, gostosa”... (risos)

P/1 - (risos)


R - E a menina ficava com uma cara assim... (risos) Mas se tinha uma mais regateira, que ria muito e olhava, [a gente dizia] “ô, feiosa”, e avacalhava com todo mundo. E as irmãs… Se a irmã olhava, “Olha lá, as andorinhas!” (risos) Mas era tudo muito assim, muito solto. 

Nós somos… Meu pai se casou duas vezes. A minha mãe morreu [quando] eu tinha quatro anos; pai se casou depois, pouco tempo depois. Nós somos quatro irmãos do primeiro casamento. Tem uma irmã mais velha, dois anos mais velha do que eu, depois, de dois em dois anos, tinha… Então nós somos quatro. 

No segundo casamento, minha convivência com a família já foi menor, porque eu fui depois estudar fora, fui pra Itaúna. Passei grande parte da minha vida depois, fora. Mas do segundo casamento nós somos, não sei... Salvo engano, são mais sete irmãos - acho que são - do segundo casamento. Lógico que conheço, convivo com todos eles, mas o contato foi bem menor pelo fato de eu estar estudando fora, depois ter voltado, depois ter vindo pra cá, então o relacionamento é diferente. Meu relacionamento com meus três irmãos do primeiro casamento, que são meus irmãos de pai e mãe, é bom, é gostoso, mas é distante, é demorado. Um mora num lugar, outro no outro, outro no outro. Telefonam naquelas datas assim e pronto.


P/2 - O senhor teve educação religiosa?


R - Tive.


P/2 - Seus pais eram muito religiosos?


R - Meus pais eram católicos, todo mundo em Itabira era católico. O padre de Itabira era o padre Zé Lopão. Ele mandava na cidade, era um sujeito assim de uma voz forte, cheio de... Ele era ditadorzão, mesmo. Todo mundo gostava dele, respeitava muito, mas ele ditava a moda: a mulher não podia entrar na igreja de manga curta que ele ia lá e torcia o beliscão no braço dela e botava pra fora, sabe? Era um negócio assim. E isso virou piada. 

Quando eu comecei a estudar Direito em Divinópolis, eu comecei a estudar Direito, ele também estava de formando em Direito, e isso ele já tinha o quê? Uns sessenta anos de idade ou mais. Ele morreu tem poucos anos, o Zé Lopão. 

Esse comportamento dele virou piada na cidade. O pessoal contava as piadas escondido dele, arremedando ele, porque na Semana Santa toda a população de Itabira ia, na sexta-feira, para a cerimônia religiosa. E em um pátio da catedral, da matriz - na época era matriz - tem um pelourinho, uma pedra que é um marco de alguma coisa lá, e uma placa. O padre, como ele não gostava, homem e mulher tinham que ficar separados, então ia no microfone e gritava assim: “As mulheres do pirulito pra dentro, os homens do pirulito pra fora!” Isso queria dizer que os homens tinham que ficar lá pra trás e as mulheres cá pra frente. 

Quando a procissão ia andando na Rua do Tiradentes, que tem uma parte alta da rua e um paredão pra ninguém cair lá embaixo, nem carro, a fila era separada, não podia misturar. Então vinha a fila, entrava no paredão, e ele gritava assim: “As mulheres por baixo, os homens por cima.” (risos)


P/2 - Então o pessoal gozava?


R - É, tinha um monte de historinhas, porque ele era muito fechadão. A turma aproveitava para inventar as histórias, pra arrasar com ele.


P/2 - Qual história assim que o senhor recorda desse padre?


R - Ah, tem muitas. Todo mundo ia pra missa, meu pai ia pra missa, normalmente era a missa de dez horas do domingo. Ele fazia parte de uma congregação de Mariana, acho que é congregação de Mariana. Mariana era aquela cidade onde morava o bispo - acho que mora, ainda -, o bispo de Minas Gerais. E depois da missa de dez horas, que já terminava lá pelas onze, [em] que ele fazia um sermão danado de demorado, xingava tudo, pintava o capeta, o inferno, muito esquisito, ele terminava o discurso dele falando nos páramos celestes. Eu nunca sabia o que que eram essas palavras, páramos celestes, mas um dia eu fiquei sabendo, eu fui no dicionário, fui consultar. (risos) É uma palavra bonita, né? Os páramos celestes era um local de felicidade. 

Mas o resto, principalmente… Ele era preocupado com o comportamento sexual das… O sermão dele era muito voltado pra essa questão de… Não podia ir no Carnaval, ele esculhambava no sermão, e um monte de coisa assim. Mas o mais importante disso é que o meu pai, quando terminava a missa das dez horas, todo domingo ele ia no hospital. Era um hospital público que tinha logo perto da igreja; [ele ia] visitar os doentes, levava alguma coisa, alguma revista, uma sacola com fruta, alguma coisa assim. Num domingo era no hospital e no outro domingo era na cadeia, que também era próximo da igreja, numa rua mais em cima. Eu nunca gostei muito dessa coisa, não, mas com ele eu ia bem e ia tranquilo. Na cadeia ele levava o pacote de cigarro. Dava o cigarro pros presos, conversava um pouquinho, e eu achava aquilo muito estranho, mas vinha embora com ele, estava tudo bem. 

A primeira vez que eu vi um morto foi junto com ele - não, não foi junto com ele. Um dia que ele não foi à missa ou ele estava viajando, uma coisa assim, aí eu saí da igreja, passei no hospital. E tinha um necrotério lá, separado, mas logo junto, e me deu na telha de entrar lá pra olhar. Eu estava sozinho, entrei lá; era um domingo também, nesse horário de quase meio-dia, e tinha um homem morto lá na tábua, na mesa lá. Era um sujeito pobre, com a roupa suja; ele tinha um furo de bala na virilha, tinha um sangramento. 

Eu pensava que eu ia ter medo de ver um morto, ou que se eu visse eu ia dormir depois com preocupação, mas não. Achei um negócio tão sereno, sabe, o clima e tudo isso. Olhei muito e fui embora, mas a imagem ficou. Eu nunca esqueci essa primeira vez que eu... Porque eu tinha visto já a minha mãe antes, quando ela morreu, mas a mãe da gente é diferente. Um terceiro, eu ficava com medo que à noite eu ia ter pesadelo, ia ter medo, mas não teve nada disso, não.


P/2 - O senhor viu sua mãe morrer?


R - Não, eu vi minha mãe já morta. 


P/2 - Ah, o senhor a viu morta.

R - Quer dizer, nós morávamos na mesma casa. Ela morreu de madrugada. O meu pai chamou a gente e não lembro bem o que que ele falou. Eu tinha quatro anos. Mas já senti que tinha alguma coisa errada, ele se levantou e ela tinha morrido.


P/1 - Ela morreu de quê?


R - De um problema de fígado, de hepatite, eu não sei, alguma coisa dessas assim. Era muito comum, Itabira tinha muita malária quando a gente era criança. A minha avó, ela nunca deixava de dar pra gente alguns remédios. E um dos remédios que ela sempre dava pra gente era o quinino, o chá da casca da quina moída, que punha na água; era muito amarga, mas a gente tinha que beber. O chá de hortelã, que era contra verme e tudo isso. Mas a malária ainda grassava em Itabira quando eu era criança, ainda tinha malária lá.


P/2 - O senhor chegou a pegar malária?


R - Não, nunca. Nem aqui no Norte. E depois que eu vim a saber que a água tônica é a água com quina. Esse refrigerante que a gente tem aí. Eu não sabia, não.


P/1 - Seu Chico, e quais são as suas lembranças na infância, da Vale ali na região?


R - Ah, eu lembro...


P/1- Na região, não. Na cidade, né?


R - Na cidade. O meu pai me levava de vez em quando lá no pico do Cauê. O pico do Cauê era muito alto. Quando não tinha muro, a gente enxergava as luzes de Belo Horizonte, enxergava as luzes de Nova Era, que era um buraquinho, um arraialzinho, mas enxergava Belo Horizonte de lá. E de vez em quando ele me levava lá, saía de manhã cedinho. Fazia um frio porque era muito alto, e me botava lá dentro da cabine da escavadeira. Lá na cabine da escavadeira tem aquecedor, aí a gente ficava quentinho. 

Eu vi umas tempestades lá de fazer medo na gente, porque a gente via o raio caindo perto, aquele trovão e um raio de dentro da escavadeira, ficava com medo. Acho que umas cinco, seis vezes, pelo menos, eu fui com ele lá pra ver. Passei o dia com ele lá, desci com ele no fim do dia, almocei lá com ele - ele levava comida na marmita, né? Essa foi uma impressão interessante, forte. 

Itabira cresceu muito com a Vale, tinha uma separação do pessoal mais tradicional de Itabira com relação à Vale, um certo preconceito. Até 1960, nenhum filho de família tradicional de Itabira não trabalhava na Vale. Todo aquele pessoal que era fazendeiro não trabalhava na Vale. O filho ficava velho, ficava à toa, sem o que fazer, mas na Vale não trabalhava. O primeiro desses filhos de família tradicional que foi trabalhar na Vale, que eu me lembre, e acho que eu não estou errado, foi Francisco Martins da Costa, um advogado, que era meu vizinho da segunda casa pra baixo da minha, filho do Caio Martins. Mesmo assim, o pessoal todo torceu o nariz pra ele. 


P/1- Tal era a aversão à...


R - Do pessoal tradicional de Itabira com a Vale. Mas com toda a razão. Se você lê Drummond de Andrade, a poesia de Drummond, Boitempo, por exemplo, você vai ver que a chegada da Vale desestruturou por completo a sociedade. A revolução social tinha que acontecer mesmo, mas quem sofre com ela não entende isso. 

Eram umas cinco famílias, de grandes fazendas, que formavam Itabira. O empregado lá não era empregado, não tinha salário, era agregado: morava, vivia, respeitava os donos, que eram grandes pessoas, que mandavam os filhos estudar Farmácia em Paris, porque Farmácia era mais fácil; estudar Direito, também, porque Direito era outro curso fácil. Mas no máximo iam pra Paris pra se formar em Direito ou em Farmácia. Tinham dinheiro pra isso, tinham uma vida de conforto, as casas são casarões muito grandes... E o resto do pessoal morava lá sem… Eram uma espécie de escravos - não era com aquele lado ruim de um escravo, mas tinham aquele respeito, trabalhavam para os donos das fazendas e pronto. Não tinha salário, não tinha coisa nenhuma. 

De um modo geral, tinha uma convivência de muita consideração entre uns e outros, né, tanto com patrões como os agregados, mas quando a Vale chegou, oferecendo emprego com salário, com férias, com 13o, com tudo aquilo que Getúlio Vargas criou de lei trabalhista, todo mundo saiu da roça e foi pra cidade pra trabalhar na Vale.


P/1 - Desestruturou este sistema que já existia...


R - Por completo. Então estas famílias faliram, todas elas faliram. Elas não iam olhar a Vale com tão bons olhos. E ficou aquele ranço, aquela coisa assim. De forma que quando a gente lê Drummond, a gente percebe muito bem que Drummond traduz um sentimento daquelas famílias tradicionais contra a Vale. Eu me lembro que num poema ele fala assim: “Aí chegaram os ingleses...” e aconteceu isso e aquilo, né? É quando ele está reclamando, a chegada dos ingleses primeiro e, logo depois, a transformação da extração de minério, a entrega pra Vale do Rio Doce, foi o que desestruturou. A gente, lendo Drummond, percebe que tem uma certa hora que ele fala assim que que _______ de perceber, ou achar, que o tempo nunca ia mudar, que o tempo era uma coisa estática, absolutamente estática, devagar, tranquila. Nada iria mudar. De uma vez vieram aquelas mudanças fenomenais, então o pessoal das famílias tradicionais não ia pra Vale, não trabalhava pra Vale de jeito nenhum. Trabalhar pra Vale era uma espécie de humilhação pra eles. Em 1960, o Francisco Martins da Costa aceitou o emprego na Vale e ficou assim, o pessoal olhava ele muito assim. 

Os clubes de Itabira, o Clube Atlético Itabirano, é um clube que pouquíssimas pessoas da Vale do Rio Doce têm acesso ou frequentam. Hoje não, hoje mudou muito. Mas quando eu era menino... E os clubes Valeriodoce, o Valério pra classe A e o Valério popular, que era o Valério Campestre, o pessoal da cidade, mesmo, das famílias mais antigas, que não eram empregados, iam muito pouco lá. Até que no do Pará, ia mais porque ele estava bem mais elitizado e tinha bailes frequentemente, e o outro, o Atlético, tinha um calendário de uns cinco a seis bailes só, no ano. Mas tinha uma certa diferença que até nisso a gente percebia.


P/1 - E o senhor frequentava algum desses clubes?


R - Frequentava todos. (risos) Eu ia jogar futebol no Valério do Campestre, ia dançar no Valério do Pará, ia dançar também no Atlético. No Atlético, jogava pingue-pongue e ia pros bailes. No Pará, eu ia mais para aquelas horas dançantes do domingo que eram mais gostosas, aquela turma mais agitada e a turma de motoqueiros, que era a minha turma. No Atlético eu jogava pingue-pongue também. E no Valério do Campestre… Eu adorava ir para o Valério do Campestre, que era o povão. 

Eu tinha uma turma de umas dez a quinze pessoas. Mesmo a gente estando no Atlético ou no Valério do Pará, que era aquela coisa mais chata, de traje esporte fino, chegava uma certa hora da noite que a gente se mandava, ia lá pro Valério Campestre, que era onde iam as empregadas domésticas, os empregados, operários, mas era um negócio que fluía mais à vontade. Tinha uns médicos que iam com a gente, uns comerciantes, um pessoal assim que não estava nem aí... E também porque a gente gostava um pouco de chocar, sabe? A gente gostava de fazer as coisas que chocassem aquela opinião muito tradicionalista...


P/2 - Conservadora, né?


R - É, muito conservadora, da cidade. Meu pai me dava cinco reais por semana quando eu estava lá em Itabira, pra gastar, pra comprar cigarro, fazer o que eu bem quisesse; era a minha mesada. Se eu ia pro baile, cinco reais dava pra comprar... Não eram cinco reais, era um dinheiro da época...


P/1 - Cinco dinheiros?


R - É, corresponderia a cinco reais hoje, que daria para comprar umas três cervejas e pronto, acabava o dinheiro. E um litro de martini branco custava exatamente estes cinco. O que que eu fazia? Se eu comprasse cerveja, ia beber com mais um ou dois, três cervejas acabavam logo. Então eu chegava no clube… Eu descobri que o martini era a cinco contos o litro, aí chegava, sentava, o garçom vinha; eu pedia ao garçom um litro de martini, balde de gelo e copos. O garçom atravessava o salão com aquela bandeja, com aquele litro, todo mundo olhava, chegava, sentava: “Pô, está cheio da nota, hein?” (risos) Todo mundo sentava, podia beber, que um litro de martini dava pra beber por muito tempo; saia de lá, estava tudo bem. Mas não tinha nem um tostão no bolso mais.


P/1 - Seu Chico, o senhor acompanhou a profissionalização do futebol no Valeriodoce? O senhor era torcedor?


R - Acompanhei. Eu não fiquei sempre… Eu fiquei muito fora de Itabira. Mas eu era um torcedor que começou a ser fanático a partir da hora que o Dr. Nelson Lima, que era pai de um colega meu de colégio e tinha uma filha que também estudava junto com a minha irmã no colégio das irmãs… Então tinha um relacionamento muito estreito entre Dr. Nelson, eu, a família nossa, os meninos dele. Ele era o promotor de justiça de Itabira. E o Dr. Nelson, como toda terça e quinta tinha coletivo do Valério Doce, ele subia a rua; ele já andava segurando numa bengala, vinha a pé da Penha, subia minha rua e me chamava pra gente ir assistir o treino do Valério. Três, quatro horas da tarde, ele subia naquele solão, a Penha, e ia sentar lá, só nós dois e mais uns três gatos pingados para assistir o treino. Até o treino ele assistia todos. O Li acompanhava muito, também; Li era amigo meu da época, até veio trabalhar pra mim depois. Li hoje é Deputado Estadual pelo PDT lá por Minas Gerais. 

A minha convivência com o Valério foi muito também no futebol de salão, porque eu gostava muito de jogar futebol de salão. Eu joguei na seleção de futsal, de futebol de salão, aliás, de Divinópolis. Divinópolis tinha 250 mil habitantes na época. Em Itaúna eu joguei também no time do colégio, que era uma grande briga, o time dos internos contra o time dos externos; todo ano tinha isso. Dali saíram alguns profissionais para o Atlético Mineiro, para o Cruzeiro, para o América, alguns foram pro Rio. 

O esporte eu nunca levei por este lado de profissionalização, nem nada, não. Era uma brincadeira, uma competição, sempre muito boa de competir, mesmo; mas nunca imaginei na vida eu um dia ganhando dinheiro para jogar futebol ou pra jogar pingue-pongue. Pra mim era um negócio que nunca passava pela minha cabeça. E achava estranho que alguns colegas meus, gente já com o segundo grau terminado, falasse: “Não, eu vou jogar no Vasco, vou fazer teste pro Fluminense.” 

Argeu chegou a se formar em Medicina, ao invés.... Foi um rapaz que estudou no nosso… Não junto na minha turma, mas estudava no nosso colégio. Ele se formou em Medicina e não foi ser médico, ele foi ser jogador de futebol. Jogou no Valério, jogou no América; não sei depois, não ouvi mais falar nele. O importante pro Valério, e eu acho que era um esquema interessante, apesar de que mantém o Valério sempre fora da ponta do campeonato mineiro, é que a Vale bancava, e não sei se ainda banca hoje, sessenta por cento da despesa do Valeriodoce; fez o estádio, fez tudo, e bancava sessenta por cento da folha de despesa do clube. Mas também tinha um trato: nenhum jogador podia ganhar mais do que um técnico da Vale do Rio Doce. O maior salário de um jogador de futebol não podia ultrapassar o salário de um técnico, de um engenheiro, uma coisa assim. Por isso, de vez em quando, algum camarada assim despontava, aparecia muito no futebol do Valério; imediatamente tinham que vender, porque ele era procurado por grandes times que ofereciam um dinheirão, ele ia embora. Teve um deles que jogou na Seleção Olímpica, foi campeão olímpico de futebol pela Seleção do Brasil, ou não sei se foi campeão ou se disputou a Olimpíada, e não me lembro também em que lugar, mas foi na década de 60. Ele voltou lá pra Itabira, foi recepcionado com uma grande festa, um baile - [se] chama Rogério -, num baile no Atlético Mineiro. Recebeu um prêmio de Personalidade do Ano e tal, mas logo em seguida, é lógico, veio o Atlético, ou o Cruzeiro, não sei, pagou um dinheiro… Ganhava um salário mínimo, aí pagou pra ele, ele foi embora. 

Tinha o Afonso Bífinos, não lembro. Afonso era filho de um empregado também da Vale, esse menino jogava uma bola fenomenal. Era um lateral, que jogava... E além de jogar muito, ele tinha um físico muito superior ao de todo mundo. Não era maior, era muito mais forte, era muito mais firme que todo mundo... O Afonso, jogando numa defesa, ele segurava metade do time adversário. Mas ele era doidão, indisciplinado, ele era molecão. E dentro daquele espírito de Itabira, de moralidade, daquele espírito de Padre Zé Lopão, de Companhia Vale do Rio Doce, qualquer molecagem que o camarada fazia era punido. 

Eu sei que uma vez o Valério aplicou nele uma punição muito forte. Foi quando o Vasco da Gama estava contratando o Afonso para ir pra lá pro Rio. Ele era menor ainda, então dependia do clube liberar os papéis pra ele ser transferido. Ele ia pra lá ganhando um bom dinheiro em comparação com o que ele ganhava lá no Valério. Não deram a liberação do rapaz, ele não foi, ficou muito chateado. Depois foi jogar num time amador, mas... Esse camarada morreu depois, aborrecido da vida porque a grande chance da vida que ele achava que ele tinha, que era de virar uma estrela no futebol brasileiro, o Valério Doce pisou nela. Ele não deixou, não liberou a documentação, e ele não pôde ir. Aí ficou jogando naqueles timinhos de várzea, passou a beber muita cachaça, a fazer muitas atrapalhadas.


P/2- O senhor jogava em que posição no time?


R - Lateral esquerdo.


P/2 - Lateral esquerdo?


R - Eu escrevo com as duas mãos, chuto com os dois pés, tudo por necessidade, né? Eu aprendi a escrever uma vez que eu quebrei o braço e tinha que escrever pra minha casa. Eu estava estudando em Teresópolis, então falei: “Bom, eu vou ter que dar conta”, aí aprendi mesmo. Chegou uma época que até já estava... Não fazia diferença pegar a caneta com uma ou com a outra. E no futebol também eu fui… Quando eu cheguei em Itaúna, faltava um lateral-esquerdo pra completar o time e eu jogava na ponta de lança. Na época, nem era ponta de lança, era meia, meia-direita, né? O centroavante era o center forth, o jogador da defesa era o back, e tinha o back central, que era o que ficava no meio dos quatro ali - até a nomenclatura era diferente. Aí me pediram pra ir pra lateral esquerda, eu falei: “Eu não chuto de esquerdo, mas não tem outro, eu vou pra lá.” Então fui pra lateral, comecei a jogar no lateral-esquerdo, e como tinha gente muito boa lá na ponta-de-lança, na direita, falei: “É melhor eu ficar quieto nesse lugar aqui, que aqui tem vaga pra mim. Lá eu vou ter que brigar por um espaço.” Continuei jogando na esquerda e acabei ficando; me acostumei bem, chuto bem. Chutava, agora não jogo mais futebol mais, mas chutava bem com os dois pés. Acho que ainda chuto.


P/1- Seu Chico, o senhor lembra as histórias que o seu pai contava do trabalho, os companheiros de trabalho?


P/1- Ah, eu lembro algumas. O meu pai era bem sério. Ele não era brincalhão. Quando ele estava alegre, era alegre, mas ele não [era] de contar muitas piadas, muitas histórias, não. 

O que me lembro de mais curioso dessa história de Vale do Rio Doce foi a história do Schettino. Quando o Eliezer Batista foi… O Eliezer foi o grande homem da Vale do Rio Doce, acho que ainda é o grande homem no mundo dos negócios brasileiros, o homem que puxou o comércio do Brasil com o exterior foi ele. Tem um nome muito bom até hoje. 

Eliezer era um doidão, sabe? Eliezer era de Nova Era, Nova Era [se] chamava São João da Lagoa. Era um distrito de Itabira. Eliezer estudava em Itabira, mas não estudava; ficava à toa, pra lá e pra cá, andava na rua pra cima e pra baixo. Ele tinha um cabelão, uma trançona, coisa que pra aquela época não era mesmo aceitável. Então, quando o Eliezer vinha lá com seus dezoito, vinte anos, subindo a rua, aí o pessoal: “Olha lá, já vi o doido, já vi o doido.” O doido era ele, era Eliezer. 

Eliezer acabou se formando… Ele tentou o vestibular de Engenharia muitas vezes, não conseguiu ser aprovado, até que abriram a Universidade do Paraná. Bom, abriu escola, tem vaga, né? E lá, além de ter vaga, ainda tem aqueles cursos assim que ninguém quer mesmo - Engenharia Elétrica, Engenharia Mecânica. Então ele foi, mas não arriscou muito, não. Ele foi pra Engenharia Mecânica; foi aprovado, fez o curso e se formou. 

Quando ele acabou de se formar, foi naquele final de Guerra. Ele, conhecendo Itabira, o minério, aquelas coisas todas, deu na telha de entrar nesse circuito do Getúlio, montar a companhia para explorar o minério lá, porque o pessoal não tinha dinheiro para explorar em grande escala. Ele perdeu muito tempo, viajou muito para o Rio, procurando contato, mas conseguiu definir a coisa. Getúlio se… O governo se convenceu, abriu a Vale do Rio Doce como estatal, e aí foi uma glória. Começaram a construir a estrada de ferro de Itabira pra Vitória, também muita malária naquele Vale do Rio Doce todo, muito sacrifício, tudo na mão. Carregar dormente, trilho, na mão.

Mas essas histórias do Eliezer são isso, né? E é o grande homem que é. Teve dificuldade, sim, para se formar em Engenharia. Bom, quando terminou isso, a Vale fechou, o Eliezer, junto com os ministros do governo Getúlio, firmaram um contrato de venda de minério para a Inglaterra. Ou seria a Inglaterra, ou os Estados Unidos. E uma das exigências no contrato é que o serviço da mina tivesse o acompanhamento de um engenheiro de mina, que tinha que assinar este contrato. Não tinha ninguém que queria ir para Itabira. O Eliezer foi pra porta da faculdade, ficou procurando um e outro; nenhum engenheiro, nem os recém-formados, não queriam ir. Custou a conseguir um, que era o Francisco Schettino. 

Levou o Schettino pra lá. Schettino foi pra lá e achou que ele era engenheiro, que ele era muito diferente do resto do pessoal; o pessoal todo tinha calo na mão, o serviço era pesado. E a turma não gostou do sujeito de fora, todo almofadinha no meio deles, todos cheios de minério, de sujeira e de graxa, de tudo isso. E começaram a torcer o nariz pro Zé Prudêncio - não, pro Schettino. O Zé Prudêncio era o chefão da oficina mecânica e era o homem [que] fazia milagres com peças, fabricava peças; ele montava e desmontava qualquer máquina daquelas. Era todo poderoso, merecia um respeito geral dos funcionários da companhia. 

O Zé Prudêncio arrumou uma briga lá com o Schettino e mandou o Schettino embora. Quando Eliezer está no Rio, recebe a informação que o Schettino tinha sido demitido. Bom, o Zé Prudêncio não tinha autoridade pra demiti-lo, tinha autoridade pra demitir mecânico, mas não o engenheiro, claro. Mas pra ele não tinha diferença, mandou pra rua. Aí veio o Eliezer, tentou tudo com Zé Prudêncio: “Zé Prudêncio, esse homem precisa de ficar. Se ele não ficar, nós não vendemos minério, não vamos ter como receber, tem que pagar...” A Vale chegou a atrasar o pagamento do pessoal dela, naquela época, salvo engano, uns seis meses. Ficou sem pagar a folha de pagamento. Foi, sim.


P/1 - Mas porque estava sem dinheiro?


R - É, estava sem dinheiro, tinha produção mas não tinha venda. Não conseguia ainda mercado pra vender. Nessa época algumas pessoas andaram lá em Itabira, pedindo, moradores de lá, pra ajudar a companhia. E alguns não davam dinheiro, mas deram boi, deram bezerro. Eles davam um papel pro camarada, em troca daquele valor ou daqueles bezerros que dessem. Falavam: “Olha, guarda isso daí que isso é a parte sua na companhia.” 

Teve gente que guardou aquilo no baú e nunca soube o que era aquilo. O pai da Dôra, que é a mulher do Paulão do posto de serragem de pinheiros, foi um. Deu uns bezerros lá, pegou um papel e jogou no fundo do baú. Depois que ele morreu é que eles descobriram que tinham umas ações da Vale, que estavam dando, há uns dois, três anos atrás, quinhentos e tantos reais de dividendos todo ano - pra Dôra, porque ela ficou com as ações. 

O povo de Itabira também ajudou a Vale a atravessar essas crises, assim. O comércio, porque o comércio também vendia para aqueles empregados. Então esse período ficou sem pagamento, atrasou a folha de pagamento. 

O Eliezer, então, não conseguiu convencer o Zé Prudêncio a aceitar o Schettino de volta, aí falou: “Bom, o homem que tem influência em cima do Zé Prudêncio é Zé de Brito.” Sentava à noite, bebia uma pinguinha, comia um torresminho e tal. Aí foi o procurar o meu pai, pro meu pai botar na cabeça do Zé Prudêncio. Explicou tudo pro meu pai. 

Meu pai chamou o Zé Prudêncio, conversou com ele, foram comer umas gorduras de picanha. Eu achava aquele cheiro fortíssimo; deixavam no varal em cima do fogão, aquilo ficava até pingando aquela gordurinha assim, aí à noite cortava, punha no braseiro - cheirava aquele cheiro forte de gordura -, a pinguinha, e pronto. Conversando, o Zé Prudêncio acabou concordando, depois de ter bebido umas e outras. Falou: “Tá bom, ele pode voltar, mas com uma condição: nem passa perto, nem passa na porta da minha oficina.” (risos)

E assim foi. Assim o Schettino voltou, mas não tinha papo na área de mecânica. Nem passava lá, não passava, porque Zé Prudêncio era... Ah, e Zé Prudêncio era analfabeto de tudo...


P/2 - Analfabeto?


R - Ele não sabia nem assinar. Ele assinava muito mal, porque tinha que dar um sinal qualquer naquelas ordens de serviço, de pegar peça, de almoxarifado, mas assinava muito mal. Eu vim depois, na época que eu estava estudando em Teresópolis, Divinópolis, não sei, que nas férias eu fui ensinar o Zé Prudêncio e os dois filhos homens dele, ele tinha três filhos homens, e dois filhos homens, a escrever. Eles não gostavam de escola, o negócio era mais de samba, futebol. E já estavam grandes, já estavam com o quê? Quinze, dezesseis anos, por aí.


P/1 - Mas como o Zé Prudêncio se virava no trabalho, com os patrões, com os ingleses?


R - A Vale do Rio Doce foi sempre… Acho que o grande valor que a Vale teve - não sei agora, depois de privatizada, se permanece assim ou não, mas o grande valor da Vale é que era uma empresa enorme, mas que continuou, aquele povo que começou a empresa, com mais aquele espírito de Eliezer; e o Schettino depois entrou, percebeu esse espírito também. Todo aquele pessoal. A Vale continuou sendo como se fosse aquela empresinha de fundo de quintal. Todo mundo conhece todo mundo, é uma coisa diferente de qualquer empresa. Você não é um estranho dentro da empresa. 

Em Itabira é assim, tem aqueles jogos que reuniam todo mundo. Não sei bem o que foi o milagre da coisa, mas é uma grande empresa que funciona como se fosse uma empresa pequena, que tem um certo… Um bom relacionamento que não é artificial, não é ensinado. A coisa se ajustou ali. E você entra na Vale, em Itabira, você pensa que você está numa companhia pequena, qualquer coisinha assim. Você não sabe a dimensão daquela coisa que você está lá dentro. 

Era diferente na Acesita [Aços Especiais de Itabira], por exemplo, que é uma empresa muito menor. Você chegava na Acesita, já tinha um espírito de trabalho, de gente que mandava, que implantava, então os caras faziam o que eram as normas, eram mandados, tudo isso. A Acesita, nessa época, era dirigida pelo Sílvio Lage, que era um grande amigo meu. O Sílvio é um ex-pracinha, um ex-capitão, então ele impôs um certo jeito militar na coisa. Quem vinha abaixo dele também tocou, não teve aquele espírito natural que a Vale do Rio Doce teve.


P/2 – Integração mesmo, né?


R - É, não teve. As coisas funcionavam, mas não tinha aquela… Essa integração natural das coisas, das pessoas. A facilidade, o sujeito ir lá conversar com o chefe dele, conversar picuinha, besteira, pedir aumento, dar um filho para ele batizar. Sabe, esses negócios assim eu vi só na Vale. Em grandes empresas, eu não vi.


P/2 - E o senhor admirava o trabalho do seu pai?


R - Ah, meu Deus! (risos) Eu gostava muito! Acho que a importância do meu pai dentro daquele mundo de Itabira, de Vale do Rio Doce... Nunca foi uma pessoa, um homem exponencial, nem nada. Sempre foi uma pessoa bem avessa à propaganda, ele era um homem pra dentro, né? Mas um sujeito muito firme, muito determinado. O que era, o que não era, o que tinha que fazer, o que não tinha… [Era] muito humilde. E eu acho que eu aprendi muita coisa com ele, foi nessa convivência de ver o que é bobagem e o que é preciso. Ele sabia separar o que é importante, do quê que não é importante.


P/2 - Pelo que o senhor está falando, o senhor é muito próximo a ele, né?


R - Muito, é. Porque o tempo que ele não estava no trabalho, principalmente final de semana, a gente acompanhava ele para um lado, para outro. Tinha um sítio perto da cidade, a gente ia de vez em quando pra este sítio, pra passar um dia lá, colher fruta, nadar, e essas coisas todas.


P/2 - Seus irmãos também?


R - Meus irmãos também. 


P/1 - E os senhor saiu de Itabira com que idade? Por que o senhor saiu?


R - Eu saí de Itabira com dez anos. Dez? Não, com onze anos. Foi quando eu fui estudar num colégio de padres em Itaúna. Sei que eu cheguei em Itaúna com onze anos, é. Em Itaúna eu fiz o ginásio e depois o segundo grau. O segundo grau, um curso clássico, em que o peso maior era pra línguas, e eu sempre gostei muito mais deste lado do que da ciência exata, então estava no meu território. Acabei aprendendo durante… Eu tive seis anos de latim, dois anos de grego; eu traduzo latim, escrevo em latim, escrevo bilhetes em latim, se você quiser. Estudei uns quatro anos de francês com professores vindos da França, mesmo; inglês, também mais uns quatro anos... Então, esta parte de línguas foi... Bom, e sempre gostei muito de língua portuguesa, de escrever. 

Ganhei uns prêmios de poesia por aí, publiquei no Diário Oficial de Minas Gerais, que tinha um Suplemento Literário que reunia aquele pessoal, aquela elite da literatura, de artistas de Minas. Publiquei alguma por lá também e publiquei muita coisa rodada pelo tempo inteiro, por todo lugar onde eu passei. 

Disso tudo que eu escrevi, teve uma coisa que uma vez me fez brigar, ficar com muita raiva. Eu publiquei uma vez - foi na década de 70 - um poema que era uma fotografia, quase, de uma hora em que detonavam uma série de dinamites na mina do Cauê. E como eu assisti algumas vezes, era um negócio muito impressionante quando sobe aquela coisa toda, aquele barulhão. Resumi isso num poema e publiquei isso por acaso, junto com mais uns quatro ou cinco poemas que falam de minerais. 

Passado um tempo que eu tinha publicado isso, uns trinta dias, talvez mais, o seu Omar me chama lá no escritório da Vale; eu fui lá. Quando eu entrei no escritório da Vale, ele estava vendo um folder com o título: O Homem de Ferro. Li assim: “O Homem de Ferro, O Homem de Ferro”, mas não li o texto, não. Quando eu chego na sala do seu Omar, que era o chefe do setor de Comunicações, que eu me sento lá, leio a frase dele, o texto O Homem de Ferro, era o texto do meu poema. Lógico que mudou o título, mudou alguma coisinha, mas você punha um em cima do outro e era idêntico. Fiquei com muita raiva. Falei: “Seu Omar, isso é meu texto.” “Ah, mas é a agência de propaganda. Eu não sei, não tenho conhecimento.” Mas fiquei indignado desta vez com este negócio, este episódio.


P/2 - O senhor se lembra do poema?


R - Ah, eu trouxe uma cópia dele, aqui.


P/2 - E de uma outra poesia sua, o senhor saberia?


R - Ah, alguma coisa assim eu copiei e trouxe, mas eu não sei declamar, não.


P/1- De cabeça?


R - Posso até saber de cor, mas não tenho jeito pra declamar, não. Bom, sei fazer discurso, por exemplo, num palanque, a coisa política, né? Mas declamar, não.


P/1 - E então, seu Chico, depois de Itaúna o senhor, pelo visto, estudou em vários lugares.


R - É. De Itaúna eu fui pra o Rio de Janeiro. Fui morar em Santa Teresa. Isso foi naquela época da revolução - aliás, na época do governo, da ditadura militar. De Santa Teresa eu fui para Teresópolis...


P/1 - Mas no Rio, o que que o senhor fez?


R - No Rio, eu comecei a fazer Filosofia lá. O caldeirão estava fervendo muito na época, lá no Rio. E Santa Teresa era o lugar. Era o foco das reuniões, de tudo isso, do pessoal que estava resistindo, fazendo oposição ao governo, ao regime. Então o negócio ficou muito quente, nós fomos, mudamos para Teresópolis.


P/1 - O senhor participava dessas reuniões? Quais?


R - Eu participava de algumas. Eu estava muito envolvido, naquela época, com a Juventude Católica, com a JUC. Nada de cargo eletivo, de compor diretoria, nem nada, não. Participava mesmo assim. Eu via algumas reuniões com pessoas importantes, participei de algumas reuniões com pessoas importantes lá, dessa época de discutir as ações, o que se ia fazer, o que... Bom, aí fui para Teresópolis, em Teresópolis continuei morando lá no Quebra Frascos, ao lado da Granja Comari. É um sítio, né? 

Tem a British School of Teresópolis, depois tem o Seio de Abraão, que é onde fica esse colégio, uma casa que Dom Pedro construiu e doou para a Imperatriz da Áustria, uma coisa assim, e em seguida tem a Granja Comari, que é a concentração da Seleção Brasileira desde não sei quando. Eu conheci aquele pessoal todo da Seleção Brasileira, joguei pingue-pongue com o Pelé, com Garrincha, Amarildo, Gilmar... Até outro dia tinha autógrafo de quase todos eles. Depois joguei fora, estava tudo num papel de fotografia, estava começando a perder tinta. Rivelino, eu convivi e conheci este pessoal todo, joguei pingue-pongue, joguei sinuca com uns, com outros. 

Isto é da época de Teresópolis. De Teresópolis, eu fui terminar o curso de Filosofia em Divinópolis. Terminei o curso de Filosofia, comecei a lecionar. Aí eu tinha tido uns problemas com o serviço militar, eu era refratário ao serviço militar. Porque quem está fazendo oposição a um governo militar, aí você vai ser convocado para ir para o Exército, você fala: “Eu não vou.” Eu fui um desses que não foi e depois isso deu uma série de pepinos, de problema de documentação.


P/2 - Você foi convocado?


R - Fui, mas eu não fui, não. Eu fui refratário, a palavra é refratário. (risos)


P/1 - (risos)


R - Eu era refratário, então eu não podia mais lecionar em colégio público, não sei o quê, tinha uma série de penalidades. Gastou muito contato, muita amizade, muito prestígio dos outros para limpar minha barra lá no negócio do serviço militar, no Exército. O Sílvio Lage, este que era diretor da Acesita, que era capitão na Itália, foi pracinha na Itália, tinha uma rede de contatos muito boa na área militar; ele tinha muita amizade também com as pessoas do governo Figueiredo, com o Tião Pimbeiro, que era o ordenança do Figueiredo. 

O Tião Pimbeiro era um pretão que tinha sido ordenança do Figueiredo e morava na favela, lá em Belo Horizonte. Não sei como é que [se] chama a favela, Cabeça de Porco, um negócio assim. Quando o Figueiredo foi nomeado Presidente do Brasil, a primeira medida do Figueiredo, foi ir atrás do Tião Pimbeiro. Foi lá: Figueiredo, num desfile de carrão, pra favela afora, procurando o Tião Pimbeiro. Achou.

O Tião Pimbeiro tirou foto para todos os jornais sentado num sofá rasgado lá na favela. E o Figueiredo já queria levá-lo imediatamente para Brasília. Ele falou: “Não, não vou. Tenho que ficar aqui, tenho que ir a Itabira organizar umas coisas lá. Na outra semana eu vou.” Na outra semana realmente ele foi. “Tenho que mandar fazer uns ternos, também.” Tinha que mandar fazer, aí depois ele foi. E ele era o cara de confiança mesmo. 

O Tião deixou avisado lá em Itabira, entre os amigos dele - ele tinha morado lá -, que qualquer coisa que a gente precisasse do governo não era pra mandar para deputado, senador, esse pessoal que não manda nada, não: “Vocês mandem isso pra mim, que é pela porta da cozinha que o negócio chega na mão do homem.” Então o que precisava de mandar pra Figueiredo, a gente mandava era pra Tião Pimbeiro - eu, outros amigos, e o Tião Pimbeiro pegava, levava. Na hora do café da manhã punha lá na mesa do Figueiredo, discutia com ele. “Olhe, isso aqui é para o senhor ver.” Resolveu realmente muitas coisas assim. E bom, ele limpou minha barra no negócio de refratário lá, do Exército. 

Enquanto não resolvia isso, eu fui trabalhar com um amigo meu lá em Itabira, que é até irmão do Sílvio Lage. Fui trabalhar com ele, fui estudar Administração de Empresas e deixar a coisa correr para ver como é que eu ia me situar. Fui escrever para jornais e uma série de coisas assim. 

Depois disso, quando regularizou a minha situação, eu já estava escrevendo... É, acho que quando regularizou tudo, eu estava vivendo era só de escrever, mesmo. Pra uns jornais e outros, revistas, essas coisas. Foi quando eu fui escrever um conto, um concurso de conto do Rio Grande do Sul. E o Roberto Drummond, que é lá de Ferros, perto de Itabira, também passou lá; ele passava no sábado lá, de manhã, quando ele estava voltando de Belo Horizonte para Ferros. Falou pra mim assim: “Rapaz, você não se inscreveu pro concurso, não?” Falei: “Já, não é o do Rio Grande do Sul?” Falou: “Não, é do Paraná.” Falei: “Epa, do Paraná eu não me inscrevi, não.” Eu sei que ganhei o concurso do Rio Grande do Sul e pouco depois saiu o concurso do Paraná. Roberto Drummond ganhou o concurso do Paraná. E curiosamente, eu não tinha comentado nada com o Roberto sobre o que que eu tinha escrito ou não, o título de matéria, mas o personagem do conto que eu escrevi era JD, porque eram as iniciais de um rapaz que eu conheci, que era Jorge Damasceno. E o conto do Roberto Drummond… O meu era A Morte de JD e o conto do Roberto Drummond se chamava A Morte de DJ em Paris - não: DJ em Paris. Era uma daquelas histórias que aconteceram em Itabira - ele sempre escreveu aquilo. Colocou direitinho num papel e fez muito sucesso. Aquela minissérie que passou na TV, uma daquelas histórias...


P/1 - Hilda Furacão?


R - É, acontecidas também ali e por aí afora. Romanceia um pouco a coisa, doura a pílula e pronto. O Roberto faz muito esse trabalho.


P/2 - O senhor escrevia artigos...


R - Artigos.


P/2 - ...pra revistas?


R - É, pra revistas, jornal...


P/2 - Livros o senhor já chegou a escrever algum?


R - É, escrevi um livro que o governo mineiro publicou, um livro de poesia. (risos) Mas isso foi...


P/1 - Qual é o título?


R - É “Canção de Vento”. A ideia era de escrever uma sequência de três livros: “Canção de Vento”, depois “Canção de Sol” e não lembro mais qual era o último título, não. Mas eu parei no primeiro. Carlos Drummond de Andrade escreveu uma crônica no Jornal do Brasil, daquelas crônicas que ele escrevia lá, batendo palma para o meu livro; saiu uma meia página do Caderno de Cultura do Jornal de Minas a respeito, com fotografia, então... E vendeu muito, porque vendeu mil. (risos)


P/1 - (riso) É...


R - Vendeu mil exemplares.


P/2 - E a militância política, como é que ficou? O senhor falou que tinha um papel de...


R- Bom... Ah, mas eu queria contar uma coisa que pouca gente sabe, e eu acho, é bom contar as coisas que pouca gente sabe, as que são importantes. O Roberto Drummond, que mora em Ferros e Carlos Drummond. Se você escrever... Roberto não tem nada a ver com Carlos, o Roberto Drummond. Se você escrevesse o nome do Carlos Drummond com um M só, ele ficava uma arara, ficava uma fera, até que a gente foi saber o porquê deste negócio. A verdade é que [era] a única família daquelas famílias tradicionais ali de Minas Gerais, daquela região que batizava, registrava com o nome da família os filhos fora do casamento, os filhos espúrios, o filho do dono da casa com a empregada doméstica, com a não sei o que. Ninguém dava o sobrenome para esses filhos, só o filho do casamento recebia o nome da família. Mas a família Drummond, não. A família Drummond dava o nome, sim, só que tirava o M. Dos dois M, que era Drummond da França, do francês, Drummond com D,  tirava um M e às vezes tirava o D final também, e ficava Drumon. Mas essa era a explicação, a diferença do Drummond de dois M e do Drummond de um M só. 


P/2 - Como é que o senhor ficou sabendo dessa história?


R - Ah, a gente acaba descobrindo, pergunta daqui... Eu convivi muito com o pessoal da família do Drummond, com a Henriqueta. Henriqueta não, a Julieta Müller que é parente dele, o Carlos Drummond, o sobrinho. Então você vai conversando. A gente sentava, às vezes, [às] nove horas da manhã, ela começava a beber Cointreau e comer bolo e ia um dia inteiro, até de noite. Depois de uns tantos Cointreau, todo mundo fala o que queria e mais até do que isso, né? Então você conversa muito, você acaba redescobrindo as coisas.


P/1 - Seu Chico, vamos dar uma paradinha?


P/2 - Vamos.


R - Vamos, sim.


P/1 - Porque está quente, né?


(PAUSA)


P/2 - Ok. Então eu vou pedir pro senhor contar pra gente como foi essa época durante a ditadura e depois com a redemocratização, como o senhor entrou na política. E como surgiu esta paixão, também, toda pela política.


R - Bom, aquele período que a gente viveu no Rio de Janeiro, com todo aquele tumulto, com todas aquelas confusões, deixou a gente muito revoltado com a situação de truculência contra a pessoa que a gente assistia. E eu acho que é natural do espírito da gente de não concordar com absurdos. Principalmente, eu acho que sempre foi muito próprio de minha pessoa, de nós todos, de não aceitar e falar o que não aceitou e não gostou, e acabou, né? E tomar medida, bater o pé contra. Então a turma com quem a gente se encontrava, com a que a convivia, também era uma turma que pensava da mesma forma que a gente pensava, tinha uma afinidade muito grande. A própria Igreja também tinha algumas pessoas que eram amigas da gente que também não concordavam com aquilo, lá no Rio de Janeiro mesmo. A gente morava em Santa Teresa, e logo atrás de Santa Teresa era a Vigário Geral - tinha o bondinho, aquela coisa ainda. A gente ia sempre conversando com uns e com outros, [quando] aparecia no centro do Rio de Janeiro encontrava sempre aquelas turmas, que conversavam e estavam mal satisfeitas com o regime militar. 

Eu não tive nenhuma atuação de importância, não escrevi nada na época porque na época eu não estava escrevendo, estava mesmo era estudando. Não participei na linha de frente de nada, não ocupei cargo nenhum na Juventude, na JUC, mas tive afinidade. 

Depois de Teresópolis, eu vim pra… Aí foi quando eu comecei a ter problemas de documento, ter algumas dificuldades. Então eu fui para Divinópolis, em Divinópolis eu comecei a lecionar. Estava estudando, terminando ainda o curso de Filosofia; tinha sido aberta a escola lá e eu comecei a lecionar, mas pouco tempo depois também eu fui proibido. Apesar de que este colégio que eu lecionava, salvo engano, era um colégio… Eu acho que era particular. Eu não lembro bem, não, eu sei que eu não pude. O diretor me chamou um dia, falou: “Olha, a sua documentação não está completa. Enquanto não apresentar este certificado de dispensa do Serviço Militar você não pode trabalhar.” “Está bom.” Aí eu fui para Itabira.


P/1 - O senhor lecionava o quê em Divinópolis?


R - Lecionei francês e língua portuguesa. 

Fui para Itabira, fui terminando o curso de Filosofia. Falei: “Em Itabira eu tenho amigos, pra trabalhar ninguém vai me pedir muitos documentos, não.” E lá em Itabira eu fiquei. 

De Itabira eu fui pra uma escola de... Por acaso, um dia me chamaram para fazer um vestibular na escola de Direito. Eu fui. Aí comecei a fazer um curso de Direito em Divinópolis, que é onde estudava o Lopão, que era o padre da nossa cidade, e numa dessas viagens de Itabira para Belo Horizonte eu encontrei um dos diretores da Sincop, que estava fazendo, estava começando obra aqui. E ele é que conversou para eu vir pra Carajás. Eu falei que eu não vinha, nem conhecia o que que era Carajás, não tinha nem noção do que que era o Pará. Mas quando foi numa segunda-feira… Não, conversei com ele num sábado. Almoçamos, conversamos no sábado; quando foi na quinta-feira a secretária dele ligou e falou: “Olha, a sua passagem está comprada. O seu voo é na segunda-feira, do jeito que o senhor pediu...” porque para não vir eu tinha pedido a ele um dinheiro, um salário muito alto, né? E ele falou: “Não, mas esse é o meu salário, eu sou o diretor da empresa.” Falei: “Pois é, eu não estou querendo ir mesmo.” Então pronto, pensei que tinha morrido ali.


P/1 - Mas ele propôs o quê? O senhor vir pra fazer o quê?


R - Que eu viesse pra cá para montar um sistema de custo da obra que estava começando. E trabalhando naquelas maquininhas Facit porque não tinha energia elétrica. Energia era de motor, de grupo gerador; [se] fosse trabalhar em máquina elétrica, acabava a energia, perdia tudo. Computador, tinha computadores lá, em Belo Horizonte, no Rio, mas aqui nem pensar nisso. Então eu falei pra ele: “Olhe, eu não vou. Eu estou estudando, estou na escola de Direito, eu estou gostando do curso.” E ele insistiu, eu falei: “Tá, se me pagar tanto, eu vou.” Aquele chute assim. 

Terminou o almoço, ele não falou nada, e também pensei: “Morreu o assunto”, nem lembrei disso. Quando a secretária telefonou na quinta-feira, falou: “Olha, o senhor viaja na segunda-feira”, porque só tinha voo na segunda-feira pra cá, para Marabá, “e o senhor tem que vir antes porque tem que tomar uma série de vacinas contra febre amarela, tem que tomar uns medicamentos contra a esquistossomose” - acho, é um negócio, um desses vermes difíceis de tratar quando o indivíduo está infestado com ele. Como não foi ele que falou comigo, foi ela, eu não consegui falar com ele mais, não teve mais discussão. Falei: “Está bom, vou embora.” E vim embora.


P/1 - Em que ano isso?


R - Começo de 81. Eu falei com ele: “Só fico um ano, pode falar com ele que eu vou, mas eu só fico um ano. Eu vou trancar a matrícula por um ano e no final do ano eu volto. Eu monto o sistema de custo lá e volto.” 

Vim, comecei a trabalhar e andei muito aí pelo mato, montamos esse sistema de custo pra mandar tudo prontinho, fechadinho para Belo Horizonte. No final do mês a gente sabia até quanto tinha custado uma marmita de comida, quanto foi o custo de centavo de cada coisa. Se não fechasse o centavo, começava tudo de novo. 

Esse ano terminou; de dois em dois meses eu tinha quinze dias de folga lá. Ia pra Minas, ficava quinze dias lá e voltava. Passava mais dois meses e quinze dias lá. Aí terminou o ano; comprei passagem, deixei na mesa, pra viajar. Quando desceu o Diretor Geral de Obras da Vale aqui no Norte, que é o Nilton Bastos - era, aposentou agora. Nilton desceu com o helicóptero na porta lá, fazendo um poeirão, e falou: “Cadê Chico? Cadê Chico?” Eu estava lá bem na porta. Falou: “Entra aqui que você vai para Marabá comigo. Você vai ter que assumir a direção administrativa da coordenação de obras de Marabá porque lá a coisa não tem jeito, está impossível.” E eu falei com ele: “Eu não posso, por isso, isso e isso.” “Não, vamos lá, passe uma semana comigo.” Aí peguei minhas malas, botei no helicóptero e fomos embora. 

Cheguei lá, isso era um sábado, estava tudo parado. Eu tomei conhecimento de algumas coisinhas. Quando foi segunda-feira, eu fui para lá. Não cancelei minha passagem, não viajei, e já ia pra Itabira para ficar noivo, ainda - a minha mulher é de lá, né? Falei com ele: “Bom, eu tenho que ir embora. A minha noiva, a minha mulher está me esperando, eu vou ficar noivo agora.” “Tá.” Fui e ele falou: “Vai e volta.” Aí eu voltei. 

Cheguei lá, menina, a situação era tão complicada, do escritório da Vale, da coordenação de obras. Era uma bagunça tão louca que eu falei: “Não, eu vou ficar aqui só para consertar este negócio.” A coordenação de Marabá era responsável pela construção da ponte do Tocantins, aquela ponte de dois quilômetros e meio, pela construção da estrada de rodagem, a rodovia de Marabá até Carajás, pela construção da linha de transmissão elétrica para Serra Pelada e da linha de transmissão elétrica também de Marabá para Carajás. Tinha mil e uma confusões para se resolver, devia ter mais de cem companhias empreiteiras se relacionando com a gente, tinha um monte de exigências do governo, daquele programa Grande Carajás, que tinha que cumprir, e um mundo de coisas. Mas a baderna era infernal, sabe? Era aquele espírito de avacalhação, ninguém queria trabalhar, os funcionários, motoristas estavam indo pro trabalho, dava na telha: “Ah, não, está muito calor. Eu vou para a praia.” Viravam, iam pra praia e passavam dois, três dias na praia, largavam todo mundo lá. Era um negócio maluco. Falei: “Não. Vou ficar pra botar ordem nesse negócio.”


P/1- Só um minutinho, o senhor então estava como empregado da Vale?


R - Da Vale do Rio Doce, é. Então fiquei para organizar essa coisa lá, e falei ainda com eles: “Demitir não pode”, porque o custo da mão de obra era altíssimo. Se você trouxesse gente de lá pra cá tinha um adicional de salário, um monte de coisa assim. “Então, eu vou resolver isso aqui sem demitir. Se demitir uma meia dúzia e resolver, está bom.” Acabei demitindo dois e com esse dois que foram demitidos a coisa entrou nos eixos, passou a funcionar. Mas foi um desafio muito, muito importante para mim. 

Foi nesse período me relacionei com os políticos de Marabá, com o Bosco Jadão, que foi prefeito lá, com o Curió, Haroldo Bezerra e todo esse pessoal. Foi nessa altura também que surgiu o núcleo de Parauapebas. O núcleo de Parauapebas surgiu através de uma exigência do Banco Mundial, dos bancos que financiavam parte do projeto, que conheciam a história da Austrália. A Austrália tem muito mais minério de ferro do que o Brasil, a distância para a Europa e para a América do Norte - não, para a Europa, pelo menos, é menor, mas ninguém quer comprar minério deles porque não tem como. Eles não entregam no prazo, porque no pé da mina é uma miséria danada. Toda semana tem revolução, tem greve, tem revolta. Então aquele povo excluído - porque a palavra da moda é excluído, aquele povo pobre, vai pra lá e cria caso, cria confusão, quer aumento de salário. Ajunta tudo aquilo e não deixa o trem sair de lá com o minério. Tendo aprendido essa missão lá, eles insistiram que tem de fazer, além de barreiras, para o povo não subir, uma cidade ali para acomodar este povo, para não ficar aquela miséria, aquele favelão no pé do projeto. As verbas foram dadas a fundo perdido pelos bancos, junto com o financiamento, e foi executada a infraestrutura toda. Aí a Vale doou aquilo para Marabá. 


P/1 - Quer dizer que este projeto para construir Parauapebas, foi uma exigência...


R - Dos financiadores.


P/1 - ...do contrato de financiamento?


R - É, dos bancos que financiaram. E isso foi feito, o núcleo com toda a infraestrutura, com prédio para a administração, tratamento de água, rede de esgotos, rede de tudo. De energia elétrica, meio-fio, aí a Vale doou para a prefeitura de Marabá. 

Precisava de alguém para administrar ali. Bom, todo mundo era nomeado pelo governo militar, o governador do Pará era nomeado pelo governo militar, uma parte dos senadores também, o Curió era eleito, os deputados eram eleitos. O prefeito das áreas de segurança nacional também era nomeado, o prefeito de Marabá também era, de Belém, de todas as capitais do Brasil também era nomeado. Bosco Jadão era prefeito de Marabá, foi nomeado também por Brasília. O Curió levava o nome, e Curió era parente do Figueiredo, contraparente do Figueiredo, e nomeava. E também eu fui nomeado para administrar Parauapebas. Por quê? Porque quando o pessoal da política de Marabá apontava um nome, a Vale não confiava e não aceitava. Quando a Vale apontava um nome… Aliás, ela não apontava porque não tinha nenhum, ninguém trabalhava nessa área, mas quando ela falava assim: “Eu vou escolher um nome”, eles já diziam: “Não!” Porque também eles não queriam uma pessoa da Vale. Foi quando o Haroldo Bezerra falou: “Não, tem uma pessoa aqui, sim. É Chico Brito e acabou.”


P/1 - Quem falou isso?


R - O Haroldo, né? O Haroldo colocou meu nome e me perguntou: “Você topa ir para lá?” Falei: “Pra mim está bom”, porque eu já tinha perdido a minha matrícula na escola, já estava me adaptando aqui...


P/1 - Haroldo, quem é?


R - Haroldo Bezerra era deputado, que foi eleito pela região de Marabá. Hoje ele é o Secretário de Obras do Governo do Estado. Salvo engano até ele está aqui hoje, aqui em Parauapebas. Então, ajuntaram o Haroldo, o Curió, o Bosco Jadão e mais a Câmara de Vereadores e apresentaram meu nome para a Vale. A Vale, lógico, aprovou na mesma hora, e eu fui nomeado administrador de Parauapebas.

P/1 - Em que ano isso?


R - 83. Em 82, quando eu estava em Marabá, já tinha começado a se formar um favelão, lá onde é o Rio Verde. Foi quando a Serra Pelada parou e as mulheres do 30 estavam lá. Não tinha dinheiro nenhum circulando mais, então eles vinham de tardinha, ficavam as mulheres aí durante a noite, de manhã iam embora. Na beira da estrada onde é o Rio Verde.


P/1 - Iam para onde?


R - Voltavam para Curionópolis, para o quilômetro trinta. Daí a pouco essa coisa começou a pegar tão bem, quer dizer, o faturamento estava bom, né? Tinha quatorze mil peões aqui em cima, não tinha mulher aqui em cima, então o pessoal começou a ir se estabelecendo lá. 

O favelão lá foi crescendo, o Rio Verde foi crescendo. E o núcleo parado. Lá não tinha nada, não tinha energia elétrica, não tinha água, não tinha rua, tudo era cortado na enxada, as ruas abertas na enxada. Mas o povo não vinha morar na cidade nova porque a Vale estabeleceu uns certos critérios. E esses critérios amedrontavam todo mundo.


P/1 - Critérios para?


R - Para doar um terreno ali, o critério era o comodato. E este comodato era o seguinte: você recebia um terreno, podia construir nele. Mas para você construir, a Vale e o administrador de Parauapebas tinham que aprovar o seu projeto de construção. 

Você tinha que seguir esse projeto. Se um dia a Vale precisasse deste terreno, ela simplesmente iria comunicar a você com trinta dias por escrito, você teria que largar tudo e ir embora. A propriedade era dela. Ninguém era maluco, né? Então ficou. E o favelão crescendo. 

O pessoal do Banco de Londres, do Banco Mundial, apareceu por aqui, visitou, viu como é que estava a situação. Deram um ultimato na Vale: “Ou povoa, tira aquele pessoal de lá e põe aqui na cidade nova, ou então nós vamos suspender as próximas parcelas de financiamento.” Foi quando o Eliezer me chamou para conversar, Schettino, né? E Eliezer me falou: “Povoe Parauapebas com rapidez e eu te dou o que você me pedir.” Então falei: “Está bom, eu só quero isso: eu quero poder autorizar qualquer tipo de construção lá, possa ser de madeira ou do que for. E o resto não tem problema, não. Eu vou ter discernimento pra ver que eu não vou deixar construir um barraco de palha na beira da pista e um camarada construir, fazer uma construção boa lá escondido, né? O que é mais apresentável eu vou botar na frente da pista, para dar melhor impressão, e o resto vai ficando para as ruas mais da periferia.” 

Assim foi feito, selecionei um comércio grande para a beira da pista. Até porque na hora de você asfaltar você ia ter que ter um asfalto mais pesado, uma camada maior de asfalto lá, e para as outras ruas que não ia trafegar carreta, você podia pôr um asfalto menor, com um custo menor. E distribuir esses terrenos foi uma dificuldade grande, uma correria louca.


P/1 - Muita procura?


R - Muita, um tempo de não ter sossego de jeito nenhum, nem para dormir, nem para almoçar. Mas foi bom. 

Discutimos muito a questão dos terrenos. Eu não concordei. Quando recebi o projeto, estava pronto. No lotes em Parauapebas, a medida deles é de nove metros de frente por trinta. Bom, trinta metros de fundo, tudo bem. Mas nove metros de frente, aqui na Amazônia, com esse mundo de terra, com este calor, pra você ter que deixar um metro de um lado, mais um metro de outro, para ventilação, você vai fazer uma casa com a frente no máximo de sete metros. Todo mundo gosta de espaço; quem mora aqui no Norte gosta mais ainda do que o resto, até porque precisa de espaço. E o Luciano, o Della Monica, que fizeram o projeto, eu discuti com eles umas vezes e eles justificaram; a própria direção da Vale justificou que economizando três metros em cada lote, ao invés de você fazer mil lotes você faria mil e trezentos lotes, uma coisa assim qualquer, mas eu falei: “Isso é uma economia boba! Você faz alguns lotes a mais, economiza em rede de água, em rede de energia elétrica, mas é ruim. O resultado depois é ruim.” Então [pra] muita gente que tinha uma família maior, que apresentou a ideia de construir uma coisa mais ampla, eu acabei dando dois terrenos, então ele ficou com dezoito metros de frente, quando podia ter só doze. 

Subindo a serra, uma vez, discuti isso com o Luciano, no carro do Hilário Nardelli - o Hilário teve que parar o carro por causa da nossa discussão dentro da cabine. Ficou tão forte que ele defendia isso: ele chegou a dizer que em Londres o camarada mora bem numa casa com cinco metros de frente. Era o argumento. Então a briga esquentou, o Hilário parou o carro e falou: “Desçam vocês dois. Querem brigar, vão brigar lá fora.” Aí acalmou, voltamos pro carro. Mas tem essas coisas assim: são erros que eu acho que quem está lá no escritório lá no Rio, imaginando, pensando na economia, realmente está sujeito a cometer. Se eles tivessem vindo, por exemplo, a Marabá, e passado uns dias em Marabá, nunca fariam uma coisa dessa. Por que? Porque em Marabá, na cidade velha, as casas são emendadas umas com as outras, então não tem ventilação nenhuma. As pessoas em Marabá, na cidade velha, muitas pessoas ali, elas têm cheiro de mofo. As pessoas! A casa tem cheiro de mofo, até as pessoas. Por que? Porque faltou espaço para a circulação de ar, com esse calor, com tudo isso. A pessoa toda hora vai, toma um banho, volta para aquele calor; ela fica toda mofada mesmo. (risos) É uma coisa… São coisas assim que parecem brincadeira, mas que são seriíssimas, porque é uma vida inteira que o camarada vai viver nessas condições, né?


P/2 - E no final das contas, ficou a casa...?


R - Ficaram os terrenos com nove metros de frente.


P/2 - Nove metros de frente.


R - Mas em muitos deles eu peguei, ao invés de dar um só eu dei dois, aí o sujeito passou a ter dezoito metros. Ocupou uma área maior do que a necessária, a economia então feita no papel acabou saindo pela culatra, né? Mas hoje Parauapebas, a cidade nova é boa de se morar e agradável, está bem.


P/1 - Queria perguntar uma coisa ao senhor: quem estava ocupando esta parte da cidade que não era… O Rio Verde, por exemplo, essas pessoas já estavam se instalando ali desordenadamente e em terrenos de quem? Quer dizer, ali no município tinha área vaga?


R - Não. Aquele terreno era já uma área desapropriada pelo programa Grande Carajás para assentamento de colonos, porque desde o início o projeto previu de assentar pessoas aí para produzir comida e tudo isso, para atender ao que viesse acontecer aqui, a quem viesse habitar aqui. 


P/1 - Ter estabilidade, né?


R - É. Então o projeto ali era de lote de dez alqueires, pra serem doados para os colonos, e tudo. Mas o pessoal entrou, invadiu e acabou. Aquele terreno era do GETAT [Grupo Executivo das Terras do Araguaia e Tocantins].


P/1- Esse projeto, o projeto da Vale para a Parauapebas, a cidade nova, como o senhor está dizendo, estava previsto, então o que Eliezer tinha pedido para fazer [era] uma ordenação da área...


R - É, uma ordenação. Queria que...


P/1-  Contando com isso, que o restante ia funcionar também dessa maneira?


R- Não. O que se queria era que eu tirasse aquele pessoal que já estava morando mal acomodado, mal instalado lá, e transferisse para cá. É uma coisa que nunca acontece, a não ser que você inunde o lugar. Nesse caso de inundação de barragem, realmente você retira e muda, mas fora disso, não tem jeito. Você vai, oferece pro camarada um terreno com luz, com água, perto do hospital, com esgotos, com tudo, mas ele fala: “Está bom.” Aí ele pega e recebe o terreno e vende para outro por baixo do pano. Ou ele recebe o terreno, se muda para lá, mas não abre mão daquele. Um outro bobão que vem, ele vende para aquele bobão.


P/2 - E como vocês resolveram esta situação?


R - Não teve como resolver. Foi legalizar, partir para urbanizar o bairro do Rio Verde. Dei terrenos na cidade nova para quem quisesse, da parte de lá. Mas todo mundo ou vendeu o de cá e permaneceu lá ou então se mudou para cá, mas vendeu para outros o que era posse deles anteriormente.


P/1 - O senhor tem noção do contingente de pessoas que veio nesse...?


R - O núcleo foi projetado para cinco mil habitantes na primeira etapa e mais cinco mil numa segunda etapa prevista para quatro, cinco anos depois. Em 84, o núcleo já estava superocupado, áreas que ainda iam ser urbanizadas já tinham sido invadidas, já tinha gente com casa morando em cima. Então, eu acho que em 84, a gente já... Eu presumo que já estivesse morando no núcleo dez mil pessoas. E na parte do Rio Verde, que estava crescendo desordenadamente, que a gente já estava começando a organizar, deveríamos ter também outro tanto, então a gente já tinha umas vinte mil pessoas ali, morando. Isso em 84. Eu deixei a administração em 85; era mais ou menos isso, vinte, 25 mil pessoas moravam ali.


P/2 - Quando o senhor deixou a administração, já estava... Como é que estava a situação lá embaixo? Já estava tudo...?


R - Eu deixei a administração no final de 85. Estava tudo funcionando, tudo funcionando bem, com umas deficiências na parte de tratamento de água. Os garimpeiros fizeram uma… Tiveram, se revoltaram, tinha cem mil garimpeiros em Serra Pelada em 84, em junho, e eles estavam exigindo que a Vale deixasse que eles continuassem explorando o ouro. Até queriam que a Vale fizesse um rebaixamento de um lençol de água para eles extraírem o ouro. Quer dizer, a Vale ia gastar o dinheiro e eles iam faturar, né? Lógico que a companhia não ia embarcar num trem desses. E a autorização de lavra em Serra Pelada é da Vale do Rio Doce, porque ela comprou isso da AMZA [Amazônia Mineração S/A], que por sua vez comprou esta autorização da Meridional, que era a primeira concessionária para Serra Norte, Serra Sul e Serra Leste. Serra Pelada está dentro da Serra Leste. É um desenho, a geografia disso são três espinhas assim: uma neste sentido, outra naquele e a outra para cá. Então Serra Norte, Serra Sul e a Serra Leste para cá. E a Serra Pelada é um ponto dentro da Serra Leste. 

O garimpeiro foi trabalhar, botou máquina, e isso já não era mais… Isso deveria ser direito da empresa, mas como tinha cem mil homens lá, não tinha como conter. Até que eles chegaram num ponto que não conseguiam trabalhar mais, porque tinha que escoar aquela água dentro da cava. E eles queriam continuar trabalhando, mas queriam que a Vale pagasse os custos para rebaixar o lençol de água, mas também não queriam que a Vale fosse trabalhar lá. E teve uma briga, o governo acabou resolvendo isso, pagando sessenta milhões de dólares para a Vale autorizar por mais dois anos que o garimpeiro continuasse lá na serra. Ele não ia conseguir tirar nada lá, como nunca conseguiu realmente, depois disso. 

Essa revolta dos garimpeiros, em junho de 84, foi o que motivou a criação do município de Parauapebas. De verdade, o fato mais importante foi isso porque quem estava por trás dos garimpeiros, e isso é fato que as pessoas não sabem muito bem, quem insuflou esses garimpeiros foi Curió, que era deputado federal, e que o eleitorado dele estava era ali. Ele tinha as suas pretensões de montar uma grande empresa de compra e venda de ouro, de olho na exclusividade de Serra Pelada. Aliás, ele chegou a montar esta empresa, a constituir essa empresa, a conseguir a autorização com o cunhado dele, que era o Figueiredo. Ele tem essa empresa, então ele não queria que a Vale assumisse lá; a Vale não iria vender o ouro para ele, ia vender isso diretamente, então ele brigou muito, insuflou muito garimpeiro. 

O próprio Haroldo Bezerra, que fazia parte do mesmo grupo político do Curió, o Bosco Jadão, que era prefeito de Marabá - o outro era deputado estadual. Outros vereadores de Marabá também tinham barrancos lá, lugares de explorar o ouro lá, tinham investido dinheiro e queriam tirar de volta. Eles chegaram a dar até armas para os garimpeiros, eu vi muitos deles com revólveres 38, caixa de bala, revólveres novinhos na caixa, na véspera de virem para cá. E eles iam invadir até a Vale aqui, quebrar tudo, esse era o projeto. Mas beberam pelo caminho, quebraram os botecos, tomaram as bebidas todas, ficaram de porre; pararam por lá embaixo mesmo e quebraram muita coisa em Parauapebas. Como foram eles, o Bosco, todo mundo que insuflou essa turma, e o imposto de Carajás era recolhido para Marabá, tinha um convênio que Marabá deveria retornar dez por cento do imposto recolhido de Carajás em investimento lá em Parauapebas. Nunca investiram um centavo. Eu trabalhei esses anos todos sem arrecadação nenhuma. Eu conseguia, parece que era cinco mil. Era o que dava para comprar um fusquinha, todo mês o que eu tinha de dinheiro para resolver os problemas da localidade, equivalia a um Fusca.


P/1 - E de onde vinha esse dinheiro?


R - Vinha de um repasse da Vale do Rio Doce.


P/1 - Diretamente?


R - Não, para a prefeitura, mas já me avisavam: “Vai lá que já foi depositado.”


P/1 - A prefeitura de Marabá?


R - É, de Marabá. Então eu ia lá.


P/1 - Quer dizer, eles só não repassavam o valor todo que deveriam. 


R - É.


P/1 - Repassavam o mínimo...


R - Não, porque isso era fora do convênio, era fora dos impostos. A Vale recolhia os impostos para a prefeitura de Marabá. Ela tinha que pegar dez por cento dos impostos e repassar para cá. Como ela não repassava, a Vale fazia essa ajuda; fora do que era obrigada a pagar, ela dava esse valor, que correspondia a um fusquinha a cada mês. E eu tinha que resolver tudo com esse valor. Pagar funcionário, pagar limpeza, pagar material, produto químico para tratamento de água, coleta de carrocinha para coletar o lixo, tudo isso. 


P/1 - Uma prefeitura, né?


R - É, exatamente. Pagar as contas de luz nos prédios públicos, tudo isso era pago com essa verba. 

Eu fui cobrar deles lá: “Gente, olha, vocês têm que… Ou repassa o que tem aí.” Levei as contas. “Vocês estão me devendo tanto, estão devendo tanto para Parauapebas. Ou repassam ou mandam refazer tudo aquilo que foi quebrado lá, porque está ficando difícil de administrar Parauapebas.” E nunca cederam... 

Bom, conversaram muito, mas nunca pagaram, nunca pagaram nada, nunca mandaram nenhuma empresa para cá para construir nada. Então falei: “Bom, nós vamos então ter que fazer o seguinte: nós vamos criar um município ali e estes impostos que Carajás arrecada para cá vão passar a cair ali dentro, aí a gente vai construir a cidade com esse dinheiro.” E começamos. 

Em 86? É, em 86 eu comecei uma campanhazinha de conversar com um, com outro, para criar o município de Parauapebas. Ninguém acreditava, as pessoas achavam que era um sonho, que era uma loucura, que não podia acontecer. Alguns diziam que tinha até leis que impediam que municípios nessas áreas pudessem ser criados, mas com o tempo muita gente começou a achar que era uma ideia viável. Eu pedi a alguns advogados, consultei advogados para darem parecer a respeito da situação e a resposta foi positiva: “Não, não tem nada que impede.” Aí nós fomos correr atrás. 

Fui ajuntando um grupo maior, negociei apoio a um candidato a deputado que foi o Carlos Cavalcanti. Não podia negociar com um de Marabá, porque um deputado de Marabá, apesar do Haroldo ser amigo meu… Mas o Haroldo, lógico, não ia apoiar a emancipação de Parauapebas para tirar os impostos de Carajás para Marabá. Então negociei com o Carlos Cavalcanti e falei o quê? “Nós te apoiamos, apoiamos sua campanha de deputado. Em contrapartida, você entra, assume e apadrinha o nosso projeto de emancipação, assim que você assumir a cadeira.” Porque eu achava que ele ia ganhar a eleição, como ganhou. E Parauapebas em peso votou em Carlos Cavalcanti. Ele se elegeu e, de fato, logo que assumiu a cadeira na Assembleia ele entrou com o projeto, e veio depois toda a parte burocrática, difícil de cumprir. 

Rolou até 88. De 86 a 88 foi papelada, né? Quando foi em 88, em dez de maio, foi sancionada a lei que virou o município.


P/1 - E o senhor, ainda como funcionário da Vale?


R - Não. Nessa altura, eu estava somente lecionando e dedicado só a esta questão de emancipar o município. Mais nada.


P/1 - E em 85 o senhor deixa a administração?


R - É, a administração.


P/1 - E não retorna para os quadros da empresa?


R - Não. Aí fui somente fazer política, fui lecionar e cuidar dessa campanha de emancipação.


P/1 - E como era a relação com todo esse processo de emancipação, como a Vale participava?


R - [Como] se posicionou?


P/1 - Se participava?


R - Eu acho que a Vale torcia muito para nós. Não ajudou, não entrou com nenhum ônibus para ir para Belém, nenhuma passagem para ir para Belém, nada disso, nunca contribuiu com nada. Mas era muito simpática à causa de Parauapebas, por que? Porque todo mundo sabia que o índice, o nível de corrupção no município de Marabá era uma coisa estupenda. Era uma coisa de cadeia, uma coisa de louco. Pegar esse dinheiro e jogar lá dentro de Marabá era a mesma coisa que jogar para os porcos. Tanto que uma vez que eu estive no Rio, com o prefeito de Marabá, o presidente da Câmara de Marabá, no escritório com o Eliezer Batista e o Schettino, ficamos lá um dia inteiro, conversando. Eles pedindo apoio, ajuda, para asfaltar Marabá. Depois de longo tempo de conversa, que o Eliezer mostrou todo o potencial da região, do município de Marabá para eles, para nós, aí o Eliezer falou assim, quando eles cobraram: “E o dinheiro?” Aí Eliezer falou assim: “Enquanto tiver esta corrupção que está lá em Marabá, não conte com a gente.” Foi seco, foi duro, foi uma coisa assim, uma pancada, sabe? “Não conta com a gente para nada. Primeiro os senhores consertem a política lá no município e depois vão ter todo nosso apoio.” Foi desse jeito. 

Então, a Vale não contribuiu, mas também ela estava muito satisfeita com o andamento que a coisa foi tomando. Tanto que o advogado, o único que a gente consultou nesse período, era um funcionário da Vale. A Vale deixou que eles nos ajudassem na hora que precisasse. 


P/1 - O senhor, de uma certa forma, continuava como um elemento de ligação também da cidade com a empresa.


R - É, sempre foi isso. Sempre continuou o contato, sempre foi muito bom. Nunca cortamos essa relação, não. Eu acho que esse aspecto era importante. 

Tem outras coisas que a gente lembra. Por exemplo, por que… O fato de eu estar na política, né, por que? Primeiro, porque quando eu passei a assumir aquela coisa, a administração, eu fui vendo algumas dificuldades na relação nossa com a Vale, da Vale com a gente. Falei: “Bom, gente, eu não vou deixar acontecer aqui em Parauapebas. Parauapebas tem que ser uma Itabira melhorada. Eu não vou deixar que aconteça aqui desde o início aqueles erros que aconteceram lá, que depois que aconteceram é que a gente viu que eram erros.”


P/1 - Em Itabira?


R - Em Itabira. Então aqui eu já estou no início, não vou deixar acontecer. Mas eu cochilei um pouco, porque eu deixei a coisa do lado político desbandeirar muito. Eu acabei não saindo candidato a prefeito, logo depois de emancipado o município, até porque o prefeito de Marabá tinha altos interesses na política de Parauapebas; ele investiu muito alto num concorrente meu dentro do partido. E esse concorrente ganhou a convenção, com cinco por cento de diferença dos votos.


P/1 - Então o senhor se candidatou no partido?


R - Eu me candidatei no partido porque não podia sair mais, mas eu lancei um outro candidato a prefeito por um outro partido diferente. E na época era proibido isso, o voto era vinculado. O voto do vereador tinha que ser do mesmo partido do prefeito. O que não era você perdia. Eu fiz 11,5 por cento dos votos, contando aqueles que eu perdi, e só aproveitei os votos que foram dados para mim junto com aquele prefeito que eu combatia, que era o camarada de Marabá. Então só os votos que eram dele comigo como vereador é que foram aproveitados. O voto de inimigos, de inimigos políticos. O que eram votos do grupo que eu apoiei, não aproveitou nada.

Com isso eu fui para a Câmara de Vereadores, ajudei a criar as primeiras leis do município, a organizar tudo. Foi um período de muito trabalho, de muita dificuldade. Todo mundo, ninguém sabia nada de coisa nenhuma, muito difícil mesmo. O nível da Câmara de Vereadores também [era] muito ruim, muitos analfabetos, analfabetos de tudo, que não sabiam nem assinar. Difícil. Aí o camarada ameaçava, não gostava de uma proposição sua, ele ameaçava que ia te matar. 

Tem discursos aí na Câmara, do presidente da Câmara, avisando, num discurso dele da tribuna: “Eu vou matar Chico Brito, mesmo que ele se esconda embaixo da cama.” Eu mandei registrar nas atas da Câmara. 

Logo depois nós fomos procurar, diziam que era um cadáver que tinha aí pra dentro, que tinha sido morto, um homem que tinha sido morto porque tinha invadido uma terra. E fomos eu, como presidente da… Como secretário da Câmara em exercício da presidência, o médico diretor do hospital aqui e o delegado e seis soldados. Quando nós passamos na rua, este vereador que fez o discurso que ia me matar estava lá com um short, um calção daquele assim de amarrar, e sem camisa nem nada. Ele viu o soldado passando, ele gostava muito do soldado: “Ô...”, entrou no carro com os soldados e foi. No meio do caminho ele teve um problema de intestino; eu levei um fotógrafo também, e “ai, ai, ai...” no meio de uma mata de cacau que tinha que atravessar. Foi logo para trás dos pés de cacau, tirou o short, dependurou e estava lá fumando, com aquela cara feia. Eu chamei o fotógrafo, falei: “Tira o retrato dele para mim.”


P/2 - (risos)


R - O fotógrafo pensou que era brincadeira, sabe? Mas falei: “É para fazer.” Fez a fotografia do camarada. Isso eram umas dez horas da manhã. E fomos embora.

Eu não atravessei o rio porque fiquei com medo da canoa, os soldados foram atravessar, a canoa virou pelo rio. Mas foram lá, acharam o tal cadáver, que não era cadáver; era uma ossada antiga, que tinha vindo pelo rio. Fomos levar isso depois para o IML em Belém. E eu, logo depois… Eu tinha um jornal aqui, que era o Tribuna de Parauapebas, aí eu peguei aquela fotografia, ampliei do tamanho de um quarto de página. Ele era o presidente da Câmara e falava lá que ele fazia obras. Aí eu botei lá a fotografia do tamanho de um quarto de página, escrito lá: “Fulano de Tal, o presidente da Câmara fazendo suas obras.” E soltei o jornal na rua. Meu filho, aí o tempo esquentou, aí que eu tive que contratar dois guarda-costas para andar comigo onde eu fosse, porque ele queria apelar mesmo. (risos)


P/1 - Ele voltou a fazer as ameaças?


R - Nossa Senhora, ele queria bater até nos funcionários meus, nos meninos que vendiam o jornal na rua. Era um horror. Mas passou, acalmou. Uns trinta dias, sessenta dias depois acalmou, abaixou a poeira.


P/1 - Seu Chico, e hoje em dia, então, qual é a situação? O senhor continua lecionando?


R - Não. Eu lecionei até o ano passado, quando a Escola Método fechou. Eu fui o primeiro professor contratado pela Escola Método e o último a sair quando a escola faliu. Depois disso eu não quis mais assumir nenhum compromisso com escola, porque eu teria que… Este ano eu iria dedicar muito tempo à política, vai ter dia que eu teria que estar na escola e não estou, estou numa reunião, estou num comício, então este compromisso eu não fiz. 

Eu tenho hoje, como fonte de renda… Eu tenho um comércio, que até eu não gostava que aparecesse, eu não gostava de que ninguém soubesse, vinculasse isso a mim, não. Mas nesses últimos dois meses eu estou lá à frente dele, porque tinha que organizar tudo direito antes de tornar a sair para a campanha. Eu tenho alguns contratos de consultoria com sindicatos; faço alguns trabalhos para eles e pronto.


P/2 - Comércio de quê o senhor tem?


R - (riso) Tem aquele bar, o Amoricã, lá na esquina da praça da cidade nova, que bota aquele monte de mesa... Ah, não, quando vocês passaram estava de dia. Fica aquele monte de mesa naquela praça, aquele Amoricã é o meu bar.


P/1  Seu Chico...


R - Antes era uma loja de material esportivo, aí fechamos a uma loja de material esportivo e abrimos o bar.


P/1 - O senhor disse que queria evitar que Parauapebas tivesse os problemas que Itabira teve.


R - É, que enfrentou de início.


P/1 - E quais são estes problemas?


R - Acho que o principal problema de Itabira com relação à Vale foi que o povo passou a ser muito subserviente à empresa. Todo mundo queria correr para a empresa, todo mundo sonhava só com um emprego na Vale do Rio Doce. Prestígio tinha era que tivesse uma farda da Vale do Rio Doce. Você entrava num comércio com a farda, o uniforme da Vale, você comprava a loja inteira. E era uma coisa que canalizou demais, a cidade passou a depender em tudo da Vale do Rio Doce. O esporte passou a depender da Vale, nada se fazia, acho que ainda não se faz, em Itabira, sem pedir à Vale do Rio Doce. Coisa que não precisava de pedir. 

Vai construir uma catedral, tem que pedir dinheiro para a Vale. Vai construir uma quadra de esportes, tem que pedir. Monta um time de futebol, tem que pedir. Eu acho que tinha que separar estas coisas. E esta dependência, ela é muito prejudicial, foi muito prejudicial. Tanto que o pessoal se acostumou lá a viver somente de Vale do Rio Doce; nunca, nunca se fez mais nada lá. Não tinha indústria nenhuma, nada, nada. No dia que a Vale entrou, atravessou uma crise, aquela crise forte com aquela alta do petróleo - foi no final, foi em 70...


P/2 - É, tiveram dois choques, em 73 e 79.


R - É, em 73, exatamente.


P/2 - 73 foi o primeiro choque.


R - É, eu estava lá em Itabira, nesta época. O que eu vi, a cidade… Mas a cidade faliu de tal maneira que pessoas de patrimônio imenso, enorme, tiveram que sair correndo para ir arrumar mil reais emprestados em outra cidade. Não estavam dando conta de pagar os cheques, as duplicatas. Mas quebrou, quebrou Itabira de uma maneira ruidosa, então essa dependência é ruim. 

A gente, aqui, desde o início, tem procurado, como nós procuramos, alternativas econômicas, para que se um dia tiver uma crise, qualquer coisa, não tem problema, não afeta tanto a vida da cidade. Começamos ainda, na época em que eu administrei Parauapebas, nós chegamos a acertar a vinda uma indústria de ferro gusa para cá. De um amigo meu em Belo Horizonte, chamado Roberto, a indústria se chama Itaminas e uma Prometal, que era uma de ferro liga. Cheguei a arrumar o terreno, a doar o terreno para a instalação delas, o Hilário Nardelli me deu este terreno para isto. Cheguei a doar casas para morar o pessoal deles, facilitar ao máximo. Até que o projeto foi aprovado no Senado, tudo pronto; o Mozart, que era o gerente aqui da Vale, o superintendente, estava entusiasmado com isso. Todo mundo estava. Na hora, aprovou o projeto no Senado, o Banco Mundial brecou, o Banco Mundial falou: “Ali não. Na região de Parauapebas, nada que consuma carvão.” Então com isso... Por que? Porque senão… A ideia deles [era] de que se iria se desmatar tudo aqui. Então a Itaminas foi para Marabá, fechou um acordo com o Jader Barbalho, uma sociedade com o governo do Pará, e virou a Siderúrgica Marabá. E a Prometal, salvo engano, foi para Santa Inês, ao longo da ferrovia, foi para o Maranhão. 

De lá para cá, ninguém ainda procurou muitos caminhos de alternativa econômica, não. Se bem que isso está vindo de uma certa forma, mais ou menos naturalmente, com o assentamento deste pessoal aí nessas áreas rurais, né?


P/2 - Sim.


R - Primeiramente, foram doações tranquilas, pacíficas. A primeira doação de terras que teve aqui fazia parte do Projeto Grande Carajás, no papel, desde quando a Vale comprou isso da Meridional. Esse CD1, CD2, CD3. Assentar agricultores para produzir alguma coisa para fornecer aqui ao consumo local, consumo da Vale, de gente da Vale, e também para aproveitar a mão de obra, porque sempre vem uma mão de obra excedente. 

Mas foi um projeto muito bem feito. Acho que o melhor projeto de assentamento do Brasil foi esse daí, do CD1, CD2, CD3. O camarada recebia tudo, recebia ferramentas, recebia salário por um ano, material para fazer a casa dele, sementes. Em cada trecho de estrada… Eles foram às portas das faculdades de Agronomia, buscaram um técnico; doaram para este técnico um terreno deste para ele morar ali e orientar o restante dos vizinhos. Um negócio muito, muito bem feito, que foi executado mesmo. Escolas construídas lá dentro, hospital, tudo, tudo. 

Bom, passada esta parte, nós fomos ao Iterpa, o Instituto de Terras do Pará, que era dono de um monte de terras devolutas por aqui, enquanto os grileiros estavam entrando e invadindo, e pedimos a eles um projeto de assentamento também de pessoas comuns, de pessoas pobres, que estavam desempregadas e não tinham qualificação profissional nenhuma. O Iterpa fez o projeto da Colônia Jader Barbalho, assentou todo mundo por aí tranquilamente.


P/1 - Em que ano foi?


R - Isso foi em 85, 86. [No] final de 85 nós acertamos o projeto com o Iterpa, em 86 já começaram os assentamentos. 

Isso foi pacífico. Recentemente é que vieram as ocupações do MST, que já invadiram algumas áreas, algumas fazendas, e têm vários assentamentos, alguns até muito desenvolvidos, já. Com muita coisa: fábricas de farinha, criação de porcos, de padrão bem moderno, muita coisa.


P/1 - Na área do município de Parauapebas?


R - É, no município de Parauapebas.


P/1 - E esses posseiros, eles contribuem de alguma forma para o município?


R - Eu acho que contribuem muito. Eu acho que o rumo, um dos rumos fortes da economia do município é exatamente esta área da produção agrícola e depois, da industrialização, da semi-industrialização do que eles produzem. Se você for na feira de Parauapebas - amanhã tem feira -, você vai ver quanta coisa tem ali. De frutas, de verduras, de legumes, de hortaliças. Tudo produzido aqui. Muita coisa. Daqui a pouco vai ter que industrializar isso, né?


P/1 -  Mas em termos de impostos?


R - Bom, eu acho que a partir da hora que um indivíduo está produzindo, mesmo que o produtor não recolha impostos, na primeira passagem desse produto dele para a mão de outro, já vai começar a gerar economia. Eu até nem penso muito a questão de economia do município como arrecadação de imposto, não. Eu acho que a gente tem que voltar a repensar essa questão pelo outro lado da moeda. Economia é geração de excedente, né? Quer dizer, quanto mais você produzir e sobrar, maior vai ser a riqueza. Então não adianta a gente ficar assim: Carajás vai produzir e pagar imposto, então está muito bom. Este é aquele erro que a gente tem que evitar. Tem que ajudar o primeiro passo da linha a produzir e produzir o máximo que puder, para a partir daí então começar a se gerar um comércio que compra, um comércio que compra e industrializa, uma fábrica que vai produzir suco, que vai produzir doce, que vai produzir tudo, e farinha. E vender isso. A partir daí o imposto entra naturalmente para o município e para o estado. 

A ocupação de terra, até a Jader Barbalho, foi tranquila. Bom, tranquila aqui na área do município, mas tranquila do ponto de vista de que ninguém matou ninguém. Ninguém sabe se não matou, porque provavelmente matou-se muita gente aí, mas não tinha como você saber. Quem morreu lá pelo mato morreu e pronto, ficou por isso mesmo. 

O desmatamento das fazendas foi um negócio muito violento, muito forte. Uma exploração muito forte de mão de obra, mesmo. A revista Veja, a revista Istoé publicaram reportagens grandes a respeito dessa coisa numa certa época, quando o Divino Boca Quente... Não, o Divino não. Entrevistaram o Divino quando um garimpeiro, o Marlon, matou alguns invasores na terra dele. O Marlon era um garimpeiro dos mais ricos de toda a região, o cara que _____________, tirou muito ouro. 


P/1 - E o Divino Boca Quente?


R - O Divino Boca Quente, por acaso era um nome muito conhecido aqui como ‘gato’, que eles chamam. Um empreiteiro de mão-de-obra. As revistas entrevistaram o Divino e acho que a vaidade subiu muito para a cabeça dele, ele posou com chicote na mão para a fotografia... Depois ele me contou que eles o enganaram, na maneira de fazer ele tomar aquelas atitudes e falar aquelas coisas. Ele não conhece, é um semi-analfabeto, né? Ficou muito envaidecido, falou: “Eu bato mesmo, eu bato. Matar eu não mato, não.” “Mas é verdade que o senhor bate no peão que não quer trabalhar?” “Bato.” E mostrou o chicote, fez fotografia, saiu nas revistas. Ficou aquela coisa, mas será que é assim? 

A ocupação de terra, o desmatamento de terra aqui na região Norte toda, foi um negócio de muito capítulo, de muita violência mesmo. Quem não tivesse força, não tivesse arma, não tivesse tudo e dinheiro, principalmente, não ocupava. Quando você me pergunta: “E a polícia, como é, ela não atua?” A polícia no Pará só dá um passo se você pagar esse passo. A própria Vale do Rio Doce, naquela revolta dos garimpeiros, enquanto a Vale não pagou toda a despesa para a tropa vir para cá, não saiu do lugar. Despesa de avião, até a munição, as armas e munição, eles exigiram que a Vale doasse. E o Coronel Hernani estava disposto a doar isso, eu falei: “Não, Hernani, passa o valor, porque como é que você... Você vai comprar, você vai ter uma nota fiscal: Vale do Rio Doce, tantos fuzis, tantas balas de fuzil, uai! Como é que pode um trem desse? A Vale do Rio Doce compra bala de fuzil, granada, metralhadora? Não compra, ela não trabalha... Então dá para eles o cheque, eles compram lá e te apresentam a contrapartida.” Mas o Hernani ia dar para eles, era comprar e entregar para eles. Falei: “Olha, você deixa esse trem cair na mão de alguém aí duma Veja, de um, qualquer coisa assim, você vai criar um problema seríssimo para a Vale.” 

Isso eu falei com ele no gabinete do comandante da Polícia, o Francisco Machado, em Belém. O Francisco concordou então que ele doasse o dinheiro e não o material comprado. Mas até para isso, até para se deslocar a tropa, para fazer a segurança de uma Área de Segurança Nacional, enquanto a Vale não pagou tudo, tudo, os aviões não ligaram os motores lá em Belém. Acompanhei o Mozart falando com o Jader no telefone: “Nós não temos dinheiro, não temos dinheiro.” Então, é isso. Se você precisar que a Polícia vá fazer uma diligência qualquer para você, só se você pagar. 

Este negócio deixa a entender, em determinadas horas, que a Polícia só atende o fazendeiro, por exemplo, na questão de terra, porque ele é rico. Ou que o fazendeiro pagou a Polícia para matar fulano, sicrano e beltrano. Não é isso, não. Os fazendeiros, com certeza, é que coletaram entre eles o dinheiro para que a tropa tivesse dinheiro para pagar gasolina e se deslocar até o local, até o ponto em que eles tinham que agir. Isso é um fato. É diferente de você pagar um soldado para matar, é muito diferente. É uma parte da estrutura que funciona aqui no Pará, é assim que funciona aqui. Você tem uma emissão, uma posse qualquer; se você não pagar eles não vêm mesmo. Não é não pagar - se você não der, não arcar com a despesa do deslocamento e tudo isso, eles não saem do lugar. Até porque eles falam: “Nós não temos pneu para pôr no jipe, não temos gasolina para pôr no jipe, não temos comida para dar para o soldado. Como é que o cara vai sair daqui e vai lá resolver isso? Não vai.”


P/1 - E não tem mesmo?


R - Não tem, realmente não tem. Essa parte é preciso que fique bem entendida. 

O Divino era um desses empreiteiros de mão-de-obra para fazer desmatamento. Como é que funciona isso? Se eu não te explicar como é que funciona o início da coisa, ninguém nunca vai entender esse processo. O Maranhão é uma terra de coronéis, de latifúndios. Lá o camarada ainda é agregado, igual àqueles que eram lá em Itabira, antes da Vale do Rio Doce chegar e criar aquele desequilíbrio que a gente falou. 

Quando o camarada sabe que aqui está acontecendo alguma coisa… Ele é analfabeto de pai e mãe, ele sabe que ele não consegue emprego na Vale, nem na ferrovia, nem nada. Nem na estrada de ferro da Vale, nem nada. Então ele diz: “Opa, eu vou ganhar dinheiro lá é desmatando.” Então ele vem para cá sem ninguém chamar. Ele chega, acha aqueles hoteizinhos, aquelas casinhas de madeira, hotéis baratos ali do lado do Rio Verde, e já entra para lá. A dona do hotel, o dono do hotel, sabe que ele não tem um centavo, mas acomoda o camarada. Acomoda todos eles. Quem vai chegando para ela, quanto mais, melhor. Para o dono do hotel, quanto mais, melhor. Acomoda tudo, dá comida, às vezes dá até um dinheirinho para comprar uma pinga, não sei o quê. O cara fica lá uma semana, duas, três semanas, às vezes, até que chega o cara, o empreiteiro, que é o gato. Era o papel do Divino, como de outros aí. 

Eu tenho uma área de terra grande que eu vou desmatar. Ele sabe que eu tenho porque está aqui na cidade, ele conhece todas as informações. Tem os lugares onde as pessoas [procuram]: “Ah, não sabe de um empreiteiro para mim? Vou desmatar cem alqueires.” Então ele vem comigo, qualquer um dos gatos, dos empreiteiros, vem comigo: “Olha, você quer desmatar cem alqueires?” “Quero.” “Tá, o preço é este. Eu acerto assim com você, entrego em tal prazo.” E tem que entregar antes da chuva cair, né? Senão não queima mais e perdeu o dinheiro e o serviço. 

Isso funciona do mês de agosto - não, do mês de maio, que é agora, quando a chuva parou, até o mês de agosto. Se você não fizer este desmatamento até agosto e botar fogo, você corre o risco da chuva vir em setembro, molhar a mata, aí não pega fogo mais. Fica pior a situação ainda, porque para você desmatar a floresta é uma coisa. Para você trabalhar na tal da juquira, que é a mata fina, galharia, é muito mais caro e muito mais difícil, muito mais complicado. Só poderia ser feito no outro ano, então vai atrasar seu pasto por um ano, o seu gado você não vai... E assim por diante. 

Então o empreiteiro vem e contrata comigo pelo preço X. Ele já viu os hotéis na cidade que estão cheios de peões, então ele sabe que pode contratar os cem alqueires comigo que ele vai dar conta de desmatar e entregar. 

Contratou, ele vai nos hotéis. E esses donos de hotel, cada vez mais eles fazem esforço para o peão ir para lá, dão vale para o peão e tudo isso. Quanto mais o peão gastar, melhor para eles, mais eles faturam. Então chego eu, o empreiteiro: “Quantos peões tem aqui?” “Aqui tem vinte.” “Manda todos. Quanto que cada um deve?” “Ah, José deve cem reais, Antônio deve duzentos.” E assim vai. A mulher já dá a lista, o preço das diárias que os caras ficaram lá, mais os gastos que eles fizeram. Eu pego, somo tudo e pago para o dono o hotel. Levo e vou embora, boto...


P/1 - O gato?


R - É, o gato. E levo aquela turma embora: “Olha, nós vamos desmatar tal lugar e é assim que é.” E assim passo em outro hotel, faço a mesma coisa. 

Quando eu chego com esses homens, realmente eu tenho um prazo para entregar o serviço e esses caras têm que querer trabalhar. Porque se eles não trabalharem, primeiro: vão me dar prejuízo porque eu já paguei a despesa deles no hotel. Eu não os chamei para vir para hotel nenhum, eles estavam lá por conta deles e eu paguei porque eles resolveram trabalhar comigo. E se eles não trabalharem, se um só ou dois não trabalharem, tudo... Mas se meia dúzia ou a metade daqueles homens não trabalhar, eu não vou terminar o desmatamento em tempo, não vou receber com certeza a metade do preço porque eles ficam é para pagar no final, mesmo. O dono da terra vai pagando, é só aquilo para cumprir as despesas até terminar o serviço e entregar pronto. É uma situação, né? 

Quando esse Divino fala que bate no peão, que matar ele nunca matou, mas que ele bate se não trabalhar, é próprio do... É uma coisa do sistema em que está envolvido, inclusive a miséria do Maranhão, porque o cara sai de lá sem nada, na esperança de ganhar algum dinheiro, o dono de hotel que também explora esta situação... Mais, eu acho, o dono de hotel explora mais que o gato, até. Aí vai o gato e todo mundo quer pagar o mínimo possível, então é a situação. Não é o cara isolado no meio. É toda essa linha que tem que ser vista, revista. 

Outra coisa nessa questão de terra que também ficou mal explicada - eu não sei porque ficou mal explicada, porque era tão simples de ver isto, qualquer um que viesse trabalhar nisso teria esbarrado com isso e enxergado -, foi a questão do massacre do Eldorado do Carajás. Ali teve dois momentos. Eu estive lá no assentamento várias vezes, tinha pessoas ligadas a mim que estavam lá dentro, que vinham aqui e me contavam o que que estava acontecendo. Assisti os sem-terra parar os carros aí na pista, assaltar quem vinha de carro, quem vinha de ônibus. O governo do Estado deixou a situação piorar. Uai, o cara assaltou, tomou meu relógio, minha carteira, no carro aí na pista; não é sem-terra, não é. Ele é um marginal qualquer que tem que ser preso e pronto e acabou. É outra coisa, [diferente] do movimento. Mas o governo cruzou o braço e deixou, sabe? Deixou a coisa. Chegou no ponto que a Polícia entregou um caminhão de comida - porque eu vi, nesse dia eu estava lá com a equipe da TV de Redenção, filmando isso tudo lá. E no dia seguinte eles assaltam um caminhão ou dois caminhões, não sei, de comida, de um armazém, então o negócio deles era provocar. Era só isso. 

Acabou dando no que deu, né? Quando chegou num ponto intolerável, o governador manda a Polícia para cá, a Polícia teve que, lógico, receber aquele dinheiro do apoio logístico. Ela não vem sem ele, ela recebeu isso, claro que recebeu. Os comandantes da Polícia já tinham pessoas infiltradas lá dentro há muito tempo, paisanos que pareciam que eram sem-terra, que sabiam um por um quem era quem, quem liderava cada grupinho ali dentro - eles têm uma organização dividida em grupo. E quando aconteceu o fato, os sem-terra agrediram a Polícia. A Polícia agiu como Polícia, atirou para baixo, todo mundo só levou tiro na perna. Aí foi. Depois que acabou tudo é que eles vieram olhando: aquele é um dos líderes, aquele, aquele, aquele. E levaram esses camaradas, a maioria que estava com tiro na perna, para baixo do talude da estrada. A estrada estava cheia de gente. Desceram com os caras para baixo do talude, deitaram um ao lado do outro, e vieram de lá para cá, dando um tiro em cada um. Executando cada um. Os dois últimos camaradas da ponta... Sim, e pisavam na cabeça dos caras para os caras não olharem o que estava acontecendo. Isso ainda estava dia claro. Os dois últimos camaradas da ponta viram o que que estava acontecendo e pensaram: Bom, a nossa salvação é fugir para cima do tabuleiro da pista, que ali está cheio de gente [e]  eles não matam a gente mais. E conseguiram fugir. Subiram uns três metrozinhos, caíram em cima da pista, aí pronto, ninguém pôde matá-los. Prenderam esses caras, puseram algemados no jipe, para levar. No meio do caminho iam dar sumiço neles, eu acho, mas eles ainda fugiram do jipe da Polícia e estão por aí. Mas eles têm medo de contar essa história. Um deles chama Fogoió e tem outros aí que todo mundo... Qualquer um que viesse trabalhar isso, com um pouco mais de preocupação teria descoberto.


(PAUSA)


P/1 - Seu Chico, novamente perguntei, que o senhor me dissesse qual é essa relação da população em geral da cidade de Parauapebas com o núcleo urbano de Carajás, que nos parece uma realidade tão distinta.


R - A população de Parauapebas, primeiro, não gosta da barreira. Tem uma barreira que impede o povo de subir na hora que quer. Mas quando se pensa que o povo de lá tem uma inveja do padrão do núcleo, que gostaria de morar aqui, não. Todo mundo acha que isso aqui é muito morto, muito parado, muito cheio de regras, de exigências, e que aqui ninguém está à vontade, então todo mundo prefere morar lá embaixo. Tanto [que] o pessoal que mora aqui, se pudesse todo mundo ir morar lá, ia, porque toda folga, férias que tem, fim de semana, desce muita gente daqui para lá. Para ficar aliviado, sabe? É um outro padrão de pensamento. As pessoas não gostam de ser muito exigidas, muito cobradas, não gostam de muitas leis, não. O nosso povo é muito à vontade. E gosta de se sentir à vontade.


P/1 - Seu Chico, e como é o seu cotidiano, hoje? Qual a sua atividade principal?


R - A minha vida eu acho que não tem nenhum dia igual ao outro, porque eu presto assessoria para uma empresa e para alguns sindicatos. Estes trabalhos variam muito, um dia tem que trabalhar para um, outro dia pro outro, outro dia tem um imprevisto no outro. Isso é gostoso por causa da imprevisibilidade. 

Durante o dia eu estou, normalmente, preparando aquelas coisas para o bar que vai funcionar à noite. E também ainda paro para estudar, de vez em quando paro para ver um filme, alguma coisa assim quando eu estou muito cansado. Cochilo depois do almoço todo dia. E a partir do dia primeiro eu vou, com certeza, me dedicar 24 horas à política, então começa aquele pique que é um negócio muito desgastante mesmo. Até fisicamente é muito desgastante. 

Hoje, quando eu estou muito cansado, eu paro uma tarde inteira, às vezes um dia inteiro, me tranco. Eu tenho uma chácara ali na cidade, um lugar gostoso com uma piscina. Vou para lá, [me] tranco, fico lá um dia inteiro. Nadando, escrevendo, às vezes, bebendo uma cervejinha, qualquer coisa, às vezes nem bebendo. Mas não tem TV, não tem telefone, não tem nada lá para incomodar a gente.

P/1 - Seu Chico, quais são os seus sonhos? Seus planos para o futuro?


R - Bom, eu acho que o que falta para mim é ver se a gente consegue dar um certo rumo, de melhorar em parte essa política de Parauapebas, porque Parauapebas está hoje naquela mesma situação que esteve Marabá naquela época que a gente foi lá conversar com Eliezer. Os índices de desperdício, de falta de compromisso, de corrupção, mesmo, os números de processos que tem contra autoridades no Tribunal de Contas, na Justiça comum, são de arrepiar o cabelo. Os índices de corrupção da Câmara de Vereadores, de prefeita, deputado, é uma coisa horrorosa. Tinha que corrigir isso. Eu acho que eu vou trabalhar ainda, um pouco mais de tempo, para ver se eu consigo dar uma arrumada nessa coisa. Pelo menos diminuir isso. Montar uma ideia mais crítica para todo mundo que vai assumir um cargo de poder, um compromisso de poder. 

Do ponto de vista pessoal, eu acho que o que eu pretendo fazer é: devo escrever ainda aqueles dois livros de história. Das histórias engraçadas e o outro da história séria, realmente. E possivelmente vou comprar uma fazenda aí pelo Maranhão, daquelas já prontas, sem ter que desmatar nem nada, tudo prontinho. Daquelas de casa velha, se possível, perto da cidade, esse negócio assim.


P/1 - O senhor tem uma história engraçada dessas que o senhor está coletando para nos contar?


R - Hum... Agora, não. (riso) Porque tudo se enrola, né? O que eu tenho de engraçado que eu quero passar para a mão de vocês é aquela carta dos pernilongos, né? Mas isso não é uma história, é só... Bom, da história dessa carta dos pernilongos o engraçado é que o padre que é citado na carta veio me cobrar se eu sabia quem era a mulher, a autora da carta, e porque que falava no nome deles e não falava no nome do pastor, nem nada. Ficou um certo ciúme. Muita gente me perguntou quem era a mulher e tem gente que acredita que a mulher existe, né? São coisas assim.


P/1 - Então queria saber o que que o senhor achou de ter participado do Projeto Memória e de ter dado o seu depoimento.


R - Eu acho que a gente deve muito a isso. Eu acho que envaidece a gente participar do projeto, coloca a gente num momento de parar e pensar: “Gente, essas coisas que eu fiz têm algum valor para serem relatadas?” É que a gente nunca lembra disso, não. Aí quando você pára, que você participa do projeto, você fala: “Não, realmente deve ter mesmo, porque eu tive que ficar sentado aqui para falar isso tudo!”


P/2 - Com certeza.


P/1 - Então eu queria agradecer muito a sua participação.


R - Eu é que agradeço.




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