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História

O primeiro giro da máquina

História de: Samuel Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/11/2005

Sinopse

Samuel Silva nasceu em 1955 na cidade de Salto Grande, Minas Gerais. É engenheiro eletricista e mudou-se para Foz do Iguaçu 1980 e começou seu trabalho da Itaipu Binacional em 1981. Nos conta sobre sua trajetória profissional na empresa, a vida como barrageiro e os momentos marcantes dentro da empresa

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História completa

P – Bom, eu gostaria que você começasse dizendo o seu nome completo, o local e data de nascimento.
R – O meu nome é Samuel Silva, eu nasci em Salto Grande, a usina hidrelétrica que tem lá em Minas Gerais no dia primeiro de janeiro de 1955.
P – E o nome dos seus pais?
R - Meu pai José Orlando da Silva. Minha mãe Teresinha Rosa da Silva. 
P – E a sua atividade hoje, Samuel?
R – Hoje eu sou engenheiro eletricista, trabalho na manutenção de equipamentos auxiliares elétricos da Itaipu. 
P – E você chegou quando em Foz do Iguaçu Samuel?
R – Eu cheguei na cidade dezembro de 1980. E já comecei a trabalhar logo no início, parece que fevereiro de 1981 na Itamonte.
P – Você veio pra trabalhar na usina ou não? Como é que foi esta vinda pra Foz?
R – Não. Eu já tinha planos em tentar pelo menos. Eu tinha, era recém formado em Engenharia Elétrica, mas eu tinha trabalhado em várias barragens já. Já tinha trabalhado em Porto Colômbia, Usina de Porto Colômbia de Furnas, Usina de ___________ de Furnas também. E depois no ultimo ano de formatura fui chamado em Sobradinho pra fazer um trabalho em outra usina. Então minha vida sempre foi barragem, sempre morei em barragens, né. Nasci, me criei.
P – Certo. E você lembra a primeira sensação que você teve a primeira vez que você entrou na Usina de Itaipu?
R – Eu lembro. Eu lembro porque a Usina de Itaipu, na verdade eu acho que a Usina de Itaipu ela se confunde um pouco com as vilas que é onde a gente mora. Que é a estrutura social que a empresa montou   pra moradia dos funcionários onde tem hospitais e tal. Então eu lembro o primeiro dia que eu cheguei inclusive aqui, que eu fui na Vila C, uma vila bem próxima aqui onde moravam os operários da usina. Como eu não conhecia assim, só conhecia o pessoal mesmo que a gente veio descendo as barragens. Descer a barragem seria fazer uma, terminar, fazer a outra. Naquele tempo a gente ia fazendo as barragens. Os pais da gente iam fazendo e a gente ia crescendo dentro destas barragens. E a história de Itaipu ela se mistura muito com a história deste pessoal que está descendo junto a barragem. Então eu tinha muitos conhecidos. E é assim tipo padrão do barrageiro sempre a gente chama de rebocar. Rebocar o outro. Quando o cara ta desempregado aí você chega na casa dum e ...
P – Então uma certa, né. O pessoal tem esta coisa, um vai chamando o outro porque o seu pai também trabalhava em usina não é isso? Então você seguiu isso, você foi trabalhando junto. 
R – (risos)
P – Pode continuar Samuel, não há problema nenhum. Até essa história eu queria que você contasse, quer dizer, rebocar é chamar o outro colega, né?
R – É. P – Pra trabalhar juntos. Então você chegou aqui
R – Daí a gente chega e que é que faz? Ta desempregado. Hoje não tem mais jeito isso. Hoje tem muita gente desempregada. Naquele tempo não, naquele tempo os desempregados eles teriam mais ou menos a mesma certeza de fichar. Só que meu caso era difícil, né. Porque poxa, eu trabalhei como servente, eletricista, ajudante. E aí chega aqui e o cara falou: “mas po, você fichou de que?” Fichei de engenheiro. Mas o cara não acreditava. Dava um tapa na minha cabeça, no capacete. Eu tive que depois rebocar este cara também. Dar uma ajuda pra ele. Então o fichamento era de fora da usina. Ficava assim uma fila de 300, 400 pessoas.
P – Fichamento da?
R – Fichamento para fichar as pessoas. Você fazia uma fila de 300 pessoas. Aí um sempre ajudava o outro. E eu fiquei no final da fila. Mesmo como engenheiro, mas pra mim aquilo ali não queria dizer muito, né, porque...
P - Quando você chegou aqui em Itaipu você já era Engenheiro?
R – Já era formado, mas não tinha trabalhado como Engenheiro ainda. E a minha esperança era que eu entrasse como Engenheiro. E na verdade eu entrei e tô aí até hoje. Morei aqui dentro da usina como Engenheiro mesmo. Já no começo a gente morava aqui dentro. Isto aqui era uma cidade, né? Hoje ainda resta aí as ruínas, pode-se dizer assim porque não são ruínas, são construções novas. Mas aquilo que ficou, o cinema que tinha, aquele pessoal que morava tudo junto, jogava futebol, lanchonete, tudo então era...
P – Então como Engenheiro o que que você fazia logo de cara?
R – Logo de cara a gente foi montar as pontes rolantes. Que veja bem. Usina que a gente trabalhou aí pra fora tinha uma ponte rolante. Aqui não. Aqui tinha quatro, seis, chegou a ter mais de 12 pontes rolantes. O que tinha aqui é o seguinte. A capacidade das pontes rolantes aqui é 1000 toneladas. Então pra você levar o (rotor?) pro berço dele lá você tem que levar 2000 toneladas. Você acopla duas pontes de 1000 toneladas uma com a outra pra poder transportar esta peça. E estes primeiros trabalhos, a montagem das pontes, as manutenções, foi aí que eu comecei. Então a gente fazia testes nestas pontes. Teste real com peso, carga real.
P – E como é que era o cotidiano seu no caso? Que horas que você entrava?
R – No início, veja bem, a gente trabalhava até meia noite quase todo dia. E no outro dia as sete horas tava em pé aqui de novo. Tinha dia da gente, tinha vezes de a gente dobrar a noite. Então tem coisas interessantes que aconteceram que você não imagina. No começo antes de rodar a primeira máquina eu era o responsável pela manutenção eletrônica, mecânica e elétrica. Olha só.  Uma ponte dava defeito, mas não podia parar. Aí você tinha que tipo trabalhar com uma de cima consertando a de baixo, ou a de baixo consertando a de cima de uma vez.  Na coluna da casa de força nós estávamos subindo uma, um adutor de velocidade de uma das pontes tava parado. A gente a acoplou na outra, liberou o freio e tava subindo o adutor para montar. E ele agarrou. Agarrou na viga. Ficou só a ponta do eixo. Não é que um rapaz que trabalha comigo pegou um laço, altura assim de diferença de 30 metros. Sobrou só a pontinha do eixo. Daí eu falei: “Você não vai querer laçar aquilo lá embaixo.” Você acredita que na primeira ele jogou, o laço veio, fisgou, e aí a gente puxou pra desviar da coluna, da viga da casa de força e aí continuou subindo e a ponte trabalhando. Então era um inferno. Não tinha elevador. Hoje nós temos 23 elevadores na casa de força. Não tinha nenhum. A gente saia da cota 108 pra 144 e até pra 225. Você vê, são mais de 100 metros na escada. Não tinha banheiros. O pessoal fazia as necessidades na escada. Você passando e caindo urina em você, mas você tinha que passar por tudo isto e a gente passava. Até que a montagem foi terminando. A obra civil foi misturando com a obra de montagem no seu final e no fim nós que já entramos na operação fomos também, é, a gente chama de que? Simultaneidade de trabalhos, ne? Foi coincidindo os trabalhos de operação. Já uma máquina ia sendo entregue, mas as outras não estavam sendo montadas. Aí o pessoal ___ foi se misturando, os trabalhos foram se misturando e cada um foi tomando o seu espaço. Veja bem na montagem civil o dono da obra era a construção civil. Na montagem mecânica e a dona da obra era a montagem. Tinha resto de construção civil fazendo. A casa de força não tinha cobertura e nós montando as máquinas da usina. Perigo de peças caindo. Só que é o que eu te disse. Como juntou gente de muitas barragens, veio muita gente experiente. Eu por exemplo cheguei aqui, eu já tinha oito anos de carteira para entrar como recém formado em Engenharia eu tinha oito anos. Eu já tinha trabalhado em quatro barragens já. Então não era assim novo demais, né? A gente não era assim recém iniciando na atividade. A gente já tinha também uma história para contar. E o pessoal já tinha muita experiência. Então a gente tinha muitos cuidados com a segurança. Uma vez nós estávamos trabalhando debaixo da ponte e tinha um monte de vergalhões lá em cima na cobertura das vigas que iam ser a cobertura da casa de força. E eu falei para o pessoal: “olha, aqueles ferros vão cair cá embaixo. Vocês tomam cuidado.” Eles estavam transitando lá embaixo. Mas não foi cinco minutos. Os ferros choveram lá de cima. Mas nós já estávamos à espera. Eles vieram resvalando nas paredes da usina e nós saímos todos correndo, rasguei a roupa toda pra sair. Mas saímos. Graças a Deus não houve nada.
P – Quer dizer, vocês neste ritmo de trabalho nem tinham um momento de lazer, ou tinham? O que que vocês faziam?
R – Ah, tínhamos. Aqui na Itaipu era interessante. Como tinha muita gente trabalhando, logo aqui na esquina em frente ao local onde a gente fichava tinha uma zona de meretrício, baixo meretrício. E o pessoal aqui dentro não morava mulheres, só homens. E o nome era pé inchado, porque a turma saia a pé daqui e ia até lá, voltava com os pés inchados, pra afogar ou desafogar as mágoas, né? (risos). Isto daí é, teve uma importância também se você analisar. O que eu tava te falando lá fora. Quem pensou esta usina, quem fez teve a sua parte, quem montou teve a sua parte. A construção civil quem projetou com todos os detalhes técnicos, mas quem pensou também no social, no que as pessoas iam viver, como esse pessoal ia viver aqui foi muito interessante. Porque teve toda a estrutura. Depois as pessoas que trabalhavam aqui trocavam turnos. As famílias tinham toda a assistência nas vilas, com hospitais, escolas.
P – Isso depois, né?
R - Desde o começo. Desde o começo foi assim. Então eu que conheço todas estas barragens eu sei como é que era viver nestas barragens. Também não era ruim, mas era um pouco restrito, pouca gente. Aqui no auge teve 30 mil pessoas trabalhando. Então imagina que estrutura social você vai fazer. E como é que seria o mercado lá fora, na cidade, com este capital girando na cidade, né. Não tinha assalto. Você podia dormir com a porta aberta. Hoje em dia o que que acontece? Acontece isso. Você vê a violência uma atrás da outra. 
P – E o que que você acha que da construção, Samuca, foi mais importante? Que etapa foi mais importante na construção?
R – Olha, veja bem, todas as áreas têm o seu marco, né? Para nós o seu marco, inclusive a ação civil quando terminava uma laje eles plantavam um pinheirinho lá e deixavam, tipo uma comemoração, né? Muitos caras faziam uma brincadeira em cima, fizemos, a pessoa tinha que se divertir um pouco.
P – A cada conclusão.
R – A cada conclusão, cada etapa. Nós tínhamos os nossos marcos contratuais de montagem e nós tínhamos também nossa área de lazer. A gente saia e fora tinha os barzinhos, churrasco. Eu cheguei aqui com 55 quilos, tô com 80. Ganhei seis saquinhos de cinco quilos de arroz cheinhos. Então é isso daí. Se a gente for falar, vai falar o ano inteiro. 
P – Então, uma etapa assim que você acha que marcou. Pode ser da sua área. 
R – Olha, pra mim eu acho que pro mundo inteiro, foi o giro da primeira máquina. Foi em 84. Isto daí além de todos os marcos contratuais de montagem, mecânica e construção civil, este, a entrega da primeira máquina, o giro dela foi onde a Itaipu começou a reverter o processo de gastar. Isso é a minha lógica, né? Não sou economista, não sou nada. A minha ótica é a ótica como leigo no assunto aí, de quem tá assistindo a coisa. Ela começou então a ganhar um pouco do dinheiro que ela gastou, né. Porque foi um investimento violento isto daqui. 
P – Você é casado, Samuel?
R – É... tá gravando? 
P – Tá... (risos)
R – Sou, sou casado. (risos)
P – E você mora aqui em Foz mesmo?
R – Eu moro. Minha esposa é dentista e meu filho tá no Canadá agora. O de 14 anos que eu já tinha te falado lá. Minha filha faz faculdade de Design e Moda em Curitiba. Tá no segundo ano, né. Ela tem 18 anos e o moleque tem14. 
P – Sei. E o que você faz hoje como lazer?
R – Olha, pode parecer que não por causa do volume aqui, mas quase todo dia eu saio a pé da usina e vou pra casa a tarde. 
P – Dá quantos quilômetros?
R – Lá do prédio até em casa dá quase uns 15 quilômetros. E ultimamente agora que eu perdi um pouco do pique no inverno, eu tô indo até a barreira. Dá sete, seis e pouquinho, sete quilometro. Mas é todo dia, então isto mantém os níveis de colesterol, níveis razoáveis de aceitamento. 
P – E pra gente encerrar Samuel, o que que você achou de ter dado esta entrevista para o Memorial do Trabalhador e que faz parte agora do novo circuito do ________ Museu?
R - Olha, eu não sei se foi só eu que me emocionei, ne. Eu até quero que vocês cortem isso daí, pelo amor de Deus. Mas eu acho que todo mundo, eu acho que algumas pessoas não tão vendo a importância. Eu tô vendo porque em termos de usina eu sei a importância que tem uma usina pro Brasil e pro mundo inteiro. Então fazer parte deste trabalho que eu não conhecia, que não conheço. Mas só de estar contribuindo com algum tipo de informação, nem que seja o que eu falei do pé inchado que é uma coisa que teve uma importância violenta nesta usina aqui. Poucas pessoas falam. Não pra mim. Graças a Deus naquela época eu era o segundo cara mais bonito de Foz do Iguaçu. O primeiro tinha morrido. Então menina tinha de monte pra caramba, né? Mas tinha muitos caras mal acabado mesmo que tinha que ir ali, aquelas meninas com dois dentes só, um pra abrir garrafa e outro pra sentir dor, e isto achava que era a coisa mais linda do mundo. Então é isto daí. 
P – Neste caso esta entrevista então foi importante. 
R – Foi importante e eu sei que alguma coisa vai ficar aí neste CD-ROM e eu queria realmente deixar alguma coisa. 
P – Tá certo então. Obrigada. 
R – Tá legal. 
P – Você quer acrescentar mais alguma coisa?
R - Ah, não, eu acho só o seguinte, que estas 25 pessoas, ou 35 que vão estar sendo entrevistadas deveriam perder o receio. É o que eu te falei lá fora, tem gente com receio. Eu acho que o pessoal deve fazer um trabalho bom, reeditar estas fitas aí, deixar só aquilo legal mesmo e o que é aproveitável, né?  Acredito que vai ser assim.  
P – Tá certo. 
R - E vamos passar pra história Itaipu junto com Itaipu. Inclusive, eu queria _________as fotos eu quero te mostrar eu componho algumas músicas sobre a barragem, sobre a vila. Eu queria te mostrar só três depois pra você ouvir.
P – Com certeza. 
R – Já pensou você falar, poxa, quero aproveitar esta aqui. Porque são músicas bonitas. Porque não sou eu que toco nem que canto. Eu só escrevo. Então tem uns artistas aqui dentro que você não imagina. Temos pintores, temos escritores, compositores, músicos, temos de tudo aí. E pessoas boas mesmo. Eu escrevi alguma coisinha e eles acharam legal e cantaram. Eu quero te mostrar, né.
P – Eu quero ouvir sim. 
R – Você fala eu quero botar isto daqui. É bom. E é sobre o barrageiro mesmo. Aposentado. Sabe aquele que sai. Ele não tem muita preparação antes pra aposentar, e ele vai para o boteco para tomar cachaça e acaba morrendo. Já morreram um monte. 
P – Então ta bom. Obrigada Samuel. 

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