Busca avançada



Criar

História

O primeiro (e único) emprego

História de: Adonias Dias de Abreu
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/10/2015

Sinopse

Adonias saiu do Maranhão, sua terra natal, para ingressar na Vale em 1974, no início do Projeto Carajás. Nesta entrevista, ele nos conta como foi chegar a um local isolado, onde não havia quase nada, e como sua trajetória pessoal e profissional o levou a ficar tantos anos na empresa. 

Tags

História completa

P/1 - Para apresentar, então, o seu nome completo, data de nascimento e local de nascimento.

 

R - Eu sou Adonias Dias de Abreu. Nasci em 1951, [no] dia primeiro de abril. Por incrível que pareça, é verdade. E sou de Pedreiras, no Maranhão. 

 

P/1 - O nome dos pais do senhor?

 

R - Pedro Dias de Abreu e Romana Dias de Abreu. Minha mãe já é falecida, só meu pai é vivo. Tem 75 anos de idade hoje, o meu pai. 

 

P/1 - A família do senhor é toda de Pedreiras? Você conhece um pouco... Os avós...?

 

R - É, são todos da mesma cidade. 

Meu pai hoje mora numa outra cidade que antes era distrito de Pedreiras, foi emancipada. Mas praticamente há uns quarenta anos a família mora no mesmo local. Aquelas famílias tradicionais, que não saem dali por nada. Ainda hoje mora lá. Nasci lá, meu pai ainda mora lá com os meus irmãos. Eu saí. Saí para trabalhar na Vale. (risos)

 

P/1 - O pai do senhor, qual é a atividade dele?

 

R - Meu pai é uma mistura de tudo, comerciante com político, com... Mas a atividade principal dele é comércio, farmácia. Ele tem uma fazendinha lá, desde o início, ele mexe com terra, gado. Continua nessa atividade até hoje. E política. 

A primeira eleição no município foi em 62. Ele já foi candidato a vereador nessa época, devia estar com quantos anos em 62? Há quase quarenta anos. E ele, até hoje... [No] dia dos pais, há uns quinze anos, eu liguei para ele, e é candidato novamente. 

Ele já foi vereador por vários pleitos. Presidente de Câmara, já foi candidato a prefeito. Infelizmente não se elegeu, ele é meio radical. Hoje as coisas estão mudadas e ele não mudou. O jovem hoje, principalmente o eleitorado jovem, não vota em pessoas muito radicais assim. E como ele não muda, vai ser difícil. (risos)

 

P/1 - Mas ele é radical como? Quais são as...?

 

R - O ponto de vista dele é o seguinte: por exemplo, se ele é candidato a vereador, se você é eleitor dele, mas não vota para o prefeito dele, ele não quer o seu voto também. Ele só quer se for para todo mundo. Se você não votar para o meu candidato, não vote em mim também. É esse tipo de pessoa, muito conservador. Está lá até hoje, está bem.

 

P/1 - A farmácia, ele ainda...?

 

R - Tem farmácia, tem [a] terrinha dele lá. Ele tem uma filosofia que diz o seguinte: terra não se vende, se compra. Ele é radicado lá há mais de quarenta anos, parece que vai morrer lá mesmo, não sai. A maioria dos meus irmãos ainda moram lá. 

Eu debandei da família por questões profissionais. A gente mantém contato sempre. É pertinho de onde eu trabalho para lá, um dia de viagem mais ou menos, mil quilômetros.

 

P/1 - E sua mãe?

 

R - Minha mãe morreu em 72, com quarenta anos de idade. Morreu de parto do 25º filho, com essa idade, acredita? 22 filhos com quarenta anos. 

 

P/1 - Você tem vinte e quantos irmãos? 

 

R - 21 irmãos.

 

P/1 - 21 irmãos?

 

R - Da minha mãe. Meu pai casou a segunda vez, tem mais quatro com a segunda esposa. Nós somos em seis. Deve ter uns dezoito vivos. (risos)

 

P/1 - Como foi a infância do senhor lá em Pedreiras, quer dizer, todos os irmãos...?

 

R - Infância do interior, trabalhando na roça, e... Eu não sei se vocês foram criados no interior, mas a vida da roça é aquela: estuda de manhã, vai para a roça à tarde. Quem estuda à tarde vai para a roça de manhã. É onde o trabalho infantil não é crime, porque quando você começa a andar começa a fazer alguma coisa, já começa a ajudar o pai numa atividade: olhar um animal, buscar um animal no pasto, ajudar a tirar leite, coisa desse tipo. 

Infância normal, brincadeira do interior mesmo, não tinha esse tipo de brinquedos que nós temos hoje, eletrônicos, essas coisas. A gente fabricava o próprio brinquedo.

 

P/1 - Como?

 

R - Carrinho, por exemplo, se fabricava de lata de sardinha, coisas parecidas. Telefone você fazia com caixa de fósforo, um fio ligado, uma linha, essas coisas assim. Não tinha muita opção.

 

P/1 - Mas vocês moravam na cidade e tinha a roça?

 

R - Hoje é cidade. Na minha infância era um distrito, ainda não era emancipada. Era um povoado bem movimentado, mas não era cidade ainda. E a roça ali próximo, [a] dois, três quilômetros, porque [teve] um interior que foi crescendo, a cidade foi tomando conta das roças. Então fica tudo ali próximo.

 

P/2 - E você, Adonias, é o irmão do meio, mais velho, caçula?

 

R - Não, eu sou o quarto da família. Eu sou o quarto irmão. Tem três mais velhos que eu.

 

P/2 - Por ser um dos mais velhos você tinha algumas tarefas especiais, alguma coisa específica?

 

R - Eu comecei a trabalhar mais cedo que os outros. E eu trabalhei menos também porque, por incrível que pareça, desses 21 irmãos, poucos tiveram tendência para estudar; eram mais ligados no serviço de campo e mexer com gado, com animal. E eu, com a idade de sete anos, já... 

No interior as coisas não eram muito formais. Naquela época, as escolas... Você estudava mais com professores particulares, os pais pagavam um professor e... Geralmente sem diploma no final do ano. Era para ensinar a ler, escrever e contar. O estudo formal mesmo eu comecei um pouco tarde, já com uns dez anos de idade - estudo assim, com diploma no final do ano. 

Quando eu completei dezessete anos eu saí. No interior não tinha... Terminou o primário, não tinha ginásio na época; eu tive que sair da cidade e daí só voltei a passeio. Saí em 68 e nunca mais morei lá. 

Voltei para casar em 72. Casei lá, com uma menina de lá, a minha primeira namorada; sou casado até hoje com ela, tenho três filhos. E continuei o estudo, infelizmente não tive condições de fazer um curso superior, porque as condições na época não eram propícias a isso. Tive que me contentar com o segundo grau mesmo. 

Depois que eu casei, o período que eu entrei na Vale do Rio Doce, em 1970... Casei em 72, entrei na Vale em 74. Foi o meu primeiro emprego, onde estou até hoje. E aí só tenho voltado lá a passeio, ver meu pai e os irmãos.

 

P/1 - Você foi o primeiro filho a sair?

 

R - Fui o primeiro a sair. Depois alguns saíram, mas com outros objetivos. Atrás de garimpos, essas coisas, mais para... Desses 21 irmãos, hoje nós temos... Até uns cinco anos atrás somente eu era empregado, os outros todos trabalhavam por conta própria lá no próprio interior. Hoje, como o meu pai sempre foi metido em política, os outros trabalham lá [na] prefeitura, alguns são professores. Tem um que [se] formou há dois anos atrás em Biologia, leciona lá também, na cidadezinha. 

 

P/1 - Essa roça da família... Plantava o quê?

 

R - Tudo. Arroz, feijão, mandioca. É agricultura de subsistência, nada de... Mecanizada. Até hoje não tem agricultura mecanizada lá, é tudo na base do manual, agricultura de sobrevivência mesmo. É para comer e sobra muito pouco para vender. A atividade que dá dinheiro para se fazer outras coisas, comprar um imóvel, vestir a família, calçar, é a farmácia [em] que ele trabalha há muitos anos, é o ramo do comércio. 

Na política ele nunca conseguiu ganhar nada, sempre acabava com o que tinha. Época de eleição: todo mundo corre para lá, remédio de graça para todo mundo, paga médico para consultar todo mundo. Só, eu acho, de uns quinze anos para cá, é que o cargo de vereador é remunerado lá; antes não ganhava nada, não tinha salário. 

Também [é] uma cidade que não tem muita renda. É agricultura familiar mesmo e não tem como crescer. Eu acho que está menor do que há trinta anos. Hoje a cidade está menor do que há trinta anos porque as pessoas que vão crescendo, vão se tornando adultas, vão saindo, procurando um emprego em outras regiões. 

 

P/2 - Quando você tinha dez, doze anos, como que era a casa que vocês moravam?

R - Nós sempre moramos bem. Em se tratando de interior, casa grande, com cozinha grande, sala grande, tudo. Não tinha essas coisas de sofá, geladeira, na época lá não tinha. Na época, eu falo assim, dá a impressão que é uns anos atrás, mas é há 25 anos. Não tinha eletrodomésticos que nós temos hoje - geladeira, fogão... Era fogão de lenha mesmo. A água de pote, não sei se vocês conhecem, mas pessoas que moram no interior conhecem. E principalmente geladeira não tinha. 

Há poucos anos, acho que uns quinze anos atrás, é que... Televisão... Eu saí de lá em... Se bem que a televisão no Brasil é bem recente, a primeira Copa do mundo em 70 que foi transmitida. Eu saí de lá em 72, não tinha televisão na cidade ainda. Nem sei quando foi introduzida lá. Só sei que a primeira televisão que eu comprei, foi em 1982. Colorida, já.

 

P/1 - Na Copa também.

 

R - Na Copa também, comprei para assistir a Copa de 82. A meu ver, a melhor Copa foi a de 82, apesar de a gente não ter ganho. 

 

P/1 - Como era a família? Quem exercia a autoridade em casa? O pai, a mãe?

R - Mãe. Mãe era matriarca forte. O pai geralmente parava pouco em casa, porque tinha a atividade na roça, tinha que cuidar dos negócios e da política, então sobrava para a mãe mesmo. 

Meu pai nunca deu uma surra em um filho até hoje. A minha mãe é que disciplinava mesmo. Ela que comandava, era a pessoa responsável pela subsistência da família, arrumar os meios para sustentar a família. A administração da casa sempre foi da minha mãe, como hoje a minha casa é administrada pela minha mulher. Eu não apito nada, quase nada.

 

P/2 - E os pais do senhor, em relação à educação, qual era a postura deles?

 

R - A mãe também sempre foi a mais entusiasta, que defendia. Já tinha uma visão mais de futuro, em se tratando desse negócio de educação. Meu pai sempre achou que aprendeu ler e escrever já era o suficiente para viver. E o que determinou a minha saída do interior foi justamente a posição da minha mãe. Meu pai, acho que... Quando eu terminei o primário, ele achou que eu já era um doutor. Já sabia fazer uma continha, vender um remédio, anotar o nome do cara que comprou fiado, anotar o preço ali. E já estava bom para o interior, ajudá-lo, estava ótimo. Minha mãe: "Não, quer estudar? Nós vamos fazer um sacrifício e vamos tirar..." E eu saí. Fiz o ginásio em outra cidade, depois segundo grau. Infelizmente tive que parar no segundo grau [por] falta até de escolas na região onde a gente morava. Até hoje não tem curso superior lá muito próximo. Só na capital mesmo e em algumas cidades maiores, como Imperatriz, Bacabal, mas cidades que na época a gente nem vislumbrava. Não tinha condições de tirar um filho e colocar numa cidade dessa por não ter um parente morando lá, por não poder pagar um hotel; vai deixar o cara lá, então tudo isso limita. 

Eu tenho essa frustração hoje, por não ter um curso superior. Hoje nós sentimos falta disso. Quem não tem um curso superior vê que as coisas estão caminhando para... Futuramente, eu acho que daqui uns cinco, no máximo cinco anos, quem não tiver um curso superior não vai ter condições nem de disputar um trabalho no mercado, um trabalho aí fora. Eu, hoje mesmo, na nossa empresa - fazendo um parêntese aí -, a Vale do Rio Doce, hoje nós temos engenheiros ganhando a metade do que eu ganho. Quer dizer, é uma ameaça constante. Menino novo saindo da faculdade e querendo ganhar qualquer coisa, fazer um trabalho... No início, talvez não se iguale ao que eu faço, mas um cara preparado na escola, com dois, três anos de experiência numa empresa como a Vale, ele passa a fazer um trabalho semelhante, com qualidade igual, talvez até melhor, e ganhando a metade do salário que eu ganho. Então é primordial hoje que se tenha um curso superior. Até para ser preso hoje é melhor com curso superior, para ficar em prisão especial.  (risos)

 

P/2 - A saída de Pedreiras foi para onde?

 

R - Eu saí de Pedreiras... Eu casei em 72. 

Acompanhei meu sogro, que já morava em Imperatriz. Quando eu casei, na época eu tinha concluído o ginásio - naquele tempo era ginásio. Você fazia o primário, fazia o ginásio, tinha um vestibularzinho antes, chamado exame de admissão. Era pior do que o vestibular hoje, para você passar do primário para o ginásio. E olhe que se não passasse no exame de admissão não fazia o ginásio, era um vestibular mesmo. Não é do tempo de vocês - talvez tenham idade pra ser meus filhos. 

Eu tenho um filho [se] formando agora, no ano que vem, em Administração de Empresas. Tem 25 anos de idade. Diante dessa frustração... Um outro parêntese: diante dessa frustração que eu tenho por não ter tido condições de fazer um curso superior é que eu estou investindo tudo em meus filhos. Eu tenho um terminando Administração de Empresas no meio do ano que vem e tenho uma que está fazendo vestibular para Medicina, a mais nova. E estou dando tudo, estou investindo tudo para... Porque eu sei que se não tiver um curso superior vai penar. Vai ter muito trabalho para conseguir sobreviver com a qualidade de vida que eles têm tido até hoje. Eu tive condições de dar até hoje. Então se eles não... Isso que eu penso, que eu vejo na própria empresa em que eu trabalho. Se eu não conseguir dar um curso superior para os meus filhos, eles vão ter dificuldade de sobreviver com a qualidade de vida que eles têm hoje. É um propósito que eu tenho, até de suprir essa frustração minha. 

Mas voltando, eu casei e vi que no interior não tinha condição. Eu não queria ficar trabalhando na roça. Eu tinha um estudozinho mais ou menos. "Eu vou procurar um emprego." E parti para um centro maior, que é a cidade de Imperatriz, que hoje é a segunda... Na época, já era a segunda maior cidade do Estado do Maranhão. Vim para onde meu sogro [morava], Imperatriz. 

Quando nós chegamos em Imperatriz eu soube que estavam contratando pessoas para trabalhar em Carajás, numa mina de ferro. Eu não tinha nem ideia de como era esse negócio. Para lá, mineração não... No Norte todo a mineração não tem tradição, né? É mais aqui pelo Sul, principalmente para o lado de Minas Gerais. Eu ouvi falar: "Estão recrutando pessoas e estão exigindo curso primário, para levar para a Serra dos Carajás." Eu estava com o diploma de ginásio fresquinho ali, todo achando que a bola estava cheia, porque naquela época era... Você vê que a Vale do Rio Doce estava exigindo certificado do primário para contratar. Era um negócio... Para a região não era muito fácil ter um diploma ginasial na época, em 74. 

 

P/1 - O senhor ouviu de onde isso?

 

R - De Imperatriz, porque Imperatriz sempre foi uma região muito ligada com essa região onde eu trabalho, pelo fato de a região ser muito rica em minerais, principalmente ouro. E esse problema de garimpos sempre ligou as duas cidades, Imperatriz e Marabá - Carajás, antes, era município de Marabá. Parauapebas também era município de Marabá e a maioria dos garimpos se concentravam ali naquela região. E os garimpeiros… Inclusive Serra Pelada é ali pertinho, surgiu um pouco depois, mas antes de Serra Pelada já existiam vários garimpos por ali. E a maioria dos garimpeiros era de Imperatriz. 

Apesar de ser uma cidade grande, com quase trezentos mil habitantes, não tem dúvida, o pessoal também procura emprego fora para ganhar alguma coisa, porque a cidade é muito fraca. [Tem] o comércio, mas o comércio é negócio de loja; o pessoalzinho que está ali quer estudar, tem pai para sustentar e dá, mas pai de família geralmente procura fora. 

Através dessas pessoas que iam e vinham em Imperatriz, em Marabá, eu fiquei sabendo que tinha essa empresa recrutando pessoas para Carajás e foi onde eu embarquei. Fui até Marabá e me apresentei no escritório da empresa. Nesse tempo era a Amazônia Mineração, que era subsidiária da Vale do Rio Doce, uma empresa criada só para cuidar de Carajás. Aí começou a minha vida profissional na Vale. 

 

P/2 - Eu queria voltar um pouquinho no tempo para saber, na infância, se tem algum momento marcante na sua vida.

 

R - Não, nada de especial. O momento marcante da minha vida, dessa época, foi quando eu saí do interior para estudar fora. Aí foi um auê, a família toda chorando e eu também. Já tinha a namoradinha lá, a que eu sou casado e até hoje a gente está junto, então marcou muito. Até hoje a gente conversa: "Lembra dessa época?" Uma paixão que não dava para separar e eu tive que sair, então... 

E minha mãe, por incrível que pareça, com 22 filhos, era muito apegada comigo, mais apegada comigo; só que eu não fiquei boiola, porque dizem que o filho que é muito paparicado fica meio afrescalhado. Eu dei sorte e não fiquei. (risos) Mas até hoje meus irmãos queixam que eu sempre fui mais protegido, que o melhor calçado era para mim, a melhor roupa era para mim. O que era verdade, porque eu já estudava, então minha mãe sempre teve o cuidado de que eu andasse bem vestido, bem calçado, que era para não fazer feio diante dos colegas de escola. Mas...

 

P/2 - Quando você conheceu a sua mulher?

 

R - Ah, isso é coisa antiga, de infância. Nós sempre moramos... As casas sempre... Bom, era exatamente... Eu tinha treze anos quando a conheci. Em 64... Em 63 eu tinha doze anos. Foi quando nós mudamos do interior da roça - a gente morava na roça mesmo, nós mudamos para o povoadozinho que hoje é cidade. Foi em 1963, um ano após a primeira eleição, eu falei no início. Quando a cidade, quando o povoado emancipou. E as famílias se conheceram nessa época. 

Desde essa época, por coincidência, a gente sempre morou na mesma rua, as casas eram em frente. E o tempo foi passando. Quando eu completei dezesseis anos começamos a namorar. Ela era afilhada da minha mãe; com isso minha mãe já puxava o saco dela e ajeitava as coisas. Aí deu em casamento mais tarde. Nós casamos em 72; namoramos de 67 a 72. 

 

P/1 - Nessa primeira saída do senhor o senhor foi para que cidade?

 

R - Dom Pedro. É uma cidade... Na época... Hoje está perto porque já tem asfalto ligando as duas cidades, mas na época eu ficava seis meses sem visitar minha família. Parece que são sessenta quilômetros a distância que separa da cidade, mas na época você tinha que ir à pé ou de cavalo, burro. No inverno, principalmente, andava à carro. E no verão o carro que ligava as duas cidades, só caminhão para pegar... Tempo de colheita, o pessoal dessa cidade que eu fui estudar comprava a safra, arroz, feijão, algodão. Pegava. Sabia que quando terminava a safra, a colheita, acabava o trânsito também. Então era mais em pé que a gente ia. Ficava um dia inteiro, dois dias de viagem. Então isso fazia com que o contato com a família diminuísse, a gente se via de seis em seis meses. Era muito difícil. 

 

P/1 - Você fez essa trajeto a pé?

R - Muitas vezes. Entrou de férias, então a gente já arrumava a sacolinha e saía. Tinha uma... A irmã mais velha da minha esposa estudava junto comigo no mesmo colégio, então a gente fazia esse trajeto junto, a pé mesmo. Dois dias de viagem, dormia em um outro povoado que tinha, intermediário; no dia seguinte continuava. Chegava morto em casa. Tinha que ser, não tinha outro meio de transporte. A pé mesmo.

 

P/2 - Tomava algum cuidado especial, preparação para a viagem?

 

R - Não. Era... “Vamos entrar de férias amanhã, então amanhã a gente viaja.” Às vezes fazia um frito para comer na estrada, não passar fome, porque era viagem longa. Mas cuidado especial não. 

 

P/1 - E lá em Dom Pedro o senhor dormia... Onde o senhor ficava ali?

 

R - Eu ficava na casa de um padrinho meu. Eu já tinha o apoio logístico. (risos) Meu padrinho morava lá, eu ficava na casa dele. As coisas se tornaram mais fáceis. 

 

P/1 - Ele tinha filhos?

 

R - Ele tinha filhos da mesma idade. Estudava no mesmo colégio, lá onde eu consegui fazer o curso ginasial, junto com essa minha cunhada, que hoje, por coincidência, mora em Parauapebas, juntinho da gente lá também. É minha comadre, eu sou padrinho de um filho dela hoje. 

A ligação da família é antiga, tinha que dar em casamento mesmo. Hoje eu brinco com a minha cunhada, eu digo: "Se eu não caso com a tua irmã, eu casaria contigo", porque... (risos) Parece que a família tem uma atração pela outra, nós sempre moramos juntos, perto. Sempre vivendo bem, nunca tivemos problemas. 

 

P/2 - Como era o dia a dia lá em Dom Pedro?

 

R - Estudo. A gente ia para escola e saía da escola para casa. Não tinha trabalho também, era só estudar mesmo, fazer trabalhos juntos. Passava o dia estudando e à noite na escola. A disciplina era muito rígida também na escola. 

Esse é um período de estudante que mais me marcou, porque... Nesse tempo, meu pai era delegado de polícia nessa cidadezinha onde ele mora até hoje. O diretor da escola dessa outra cidade era advogado. E eles já tinham brigado muito, por questões de... Teve um cidadão que contratou esse advogado para defender uma causa e meu pai, como delegado, era defensor do opositor, então eles se chocaram nessa questão e com isso ficaram amigos, meu pai, que era delegado, e o cara que era advogado e diretor da escola. Isso que fez meu pai escolher… Quando minha mãe determinou que eu tinha que sair para estudar fora, o meu pai escolheu a escola desse advogado, que ficaram se conhecendo por causa dessa disputa que eles tiveram. 

Ele era muito rígido. Ele não permitia que o aluno saísse da escola depois da aula e ficasse transitando, passeando na praça, com a farda da escola. Tinha que ir em casa tirar a farda se quisesse voltar para a rua ou se fosse assistir um filme, alguma coisa. Saiu da escola, tinha que ir lá, guardar o uniforme, porque se ele flagrasse alguém de uniforme na rua ele suspendia, tirava ponto da prova. Um cidadão muito rígido. Eu acho que é vivo até hoje, é da mesma idade do meu pai, tem setenta e poucos anos, o doutor Gasparino. [Ele foi] muito marcante na formação da minha personalidade, foi onde começou a construção dos valores de família. Eu já tinha de casa, meu pai sempre foi uma pessoa muito correta. Não era de reunir as pessoas, conversar não, mas pelas atitudes, pelos negócios, assim você vai pegando o ritmo da família. Nunca foi um cara de dever a ninguém, chegar cobrador na casa dele, nunca foi pessoa de ter contenda com vizinho, sempre viveu bem com a vizinhança, então isso vai formando a personalidade dos filhos. Você vai observando aquilo e os valores morais começam por aí. 

Quando eu entrei na escola, eu tive esse professor como um símbolo de vida, de honestidade, acho que até de rigidez. Acho que muitas vezes até sou rígido demais, muito exigente com os meus filhos. Hoje a juventude já é mais liberal e eu muitas vezes quero levar muito na linha; não dá para levar mais hoje, eu reconheço. Mas são os valores morais que você pega durante a sua formação de personalidade. Parece que foi muito marcante na minha vida a disciplina, tanto na minha casa como na escola. E posteriormente, na companhia… Eu tenho algumas pessoas na empresa que eu gostaria de frisar o nome delas, que contribuíram muito para a minha formação profissional e moral também; a formação da minha personalidade, o caráter, o meu comportamento.

 

P/2 - Do que você se lembra do período em Dom Pedro?

 

R - Quatro anos nessa escola, os quatro anos de ginásio. E quatro anos convivendo com esse professor, com essa rigidez toda. Nós acostumamos, achávamos até que... Eram dois ginásios nessa cidade: esse dele, que chamava-se Ginásio Comercial Rui Barbosa, onde estudei, e tinha o Ginásio Dom Pedro, que era de um padre que era prefeito da cidade na época, então tinha aquela disputa. Só eram eles dois, eles disputavam aluno. Quando uma escola expulsava um aluno, a outra acolhia. 

Eles eram desafetos políticos e donos das duas escolas de nível secundário, então a disputa era constante entre os dois lá. Mas nós, do ginásio Rui Barbosa, nos orgulhávamos da disciplina da nossa escola. Era muito rígida, você não via aluno fardado na rua, você não via um aluno do Ginásio Rui Barbosa brigando. É uma coisa incrível, que hoje não acontece. Por exemplo, ele achava que o aluno brigar na rua sujava o nome da escola dele. "Olha, foi um aluno do Ginásio Rui Barbosa." Então ele não permitia. Se você brigasse na rua, você seria expulso. Alguma punição teria. Não permitia... 

Foi uma formação geral, até hoje eu louvo muito, porque além de te ensinar a Matemática, o Português, as matérias triviais, ele te ensinava a vida, como se comportar na sociedade. Isso me marcou muito, [o] período de ginásio. 

 

P/2 - E tinha práticas esportivas, competições?

 

R - Por incrível que pareça, não. A única coisa que nós tínhamos lá era um clube e festinha de aniversário, essas coisas assim. Tinha um grêmio, do qual eu até fui presidente, o grêmio escolar, e a gente fazia essas coisinhas: festinha de aniversário, bingos, excursões. Mas esporte mesmo, naquela época... Era até mal visto quem... O cara quer jogar futebol, quer ser cantor, quer... Essas coisas assim não eram bem vistas pela escola, pela direção.

 

P/2 - Não havia Educação Física?

R - Tinha Educação Física, mas exercícios normais, flexões, corridas. Esporte mesmo - vôlei, basquete, futebol -, isso não tinha. 

 

P/1 - E a educação religiosa? Vocês tinham educação religiosa?

 

R - Não, na escola não. 

 

P/1 - E em casa?

 

R - Eu acho até que, hoje analisando, eu acho até que ele era ateu, esse advogado. 

Não, em casa minha mãe era evangélica. Depois meu pai, também... Meu pai é muito por conveniência. Quando as coisas estão boas ele está de um lado, quando está ruim ele está do outro. (risos) Parece... Mas é verdade. (risos) 

Ele lutou muito contra o cara que hoje é prefeito na cidade. Ele era do outro lado. Quando percebeu que estava remando contra a maré, pegou logo um filho e deu para o cara ser padrinho. Hoje eles são aliados e os filhos são quase todos empregados da prefeitura, então ele é bem safadinho. (risos) E com isso vive muito bem. Quando eu digo safado, é no bom sentido. Ele tem aquela filosofia: quando você não pode vencer o inimigo, se alia a ele. Ele faz isso. Todos fazem. 

 

P/1 - E essa ida para Imperatriz, era um lugar natural para o senhor ir?

 

R - Não, isso era o meu sogro que morava. Já tinha saído de lá do interior... Ele saiu primeiro. Nós casamos em 72, ele saiu logo. Eu fiquei ainda um tempo morando lá junto com meu pai e meu sogro veio embora para Imperatriz. Então quando eu resolvi sair de lá da cidadezinha, que hoje chama-se Joselândia - antes era São José; [quando] emancipou puseram “lândia” na frente, para dar um charme. 

Meu sogro já morava em Imperatriz, então eu não tinha muita escolha. Para sair de lá eu tinha que ter uma base, tinha que ter uma logística para... Eu ia sair para onde com a minha mulher? Eu vou para a casa do meu sogro, eu a deixo na casa do meu sogro e vou me virar. E foi isso que aconteceu. 

Saí de lá de onde meu pai... Eu morava numa casa. Meu pai me deu uma casa, não morava na casa dele. Trabalhando junto com ele na farmácia, na roça. Aquela vida de filho casado, mas como se não fosse casado, comendo a farinha do mesmo saco ali. Então eu vi: "Isso aqui não vai dar para mim, não." Reconheci que eu não tinha nascido para trabalhar na roça. E as coisas sem muita definição, trabalhando junto com meu pai… “O que eu estou ganhando aqui? O que é meu nesse pedaço aqui?” Não tinha definido isso: “isso aqui é seu, você ganha isso, você ganha x”, não tinha. Eu vi que não era legal para quem quer construir uma família ficar naquela maneira. Se eu ficasse lá dez anos, era dez anos trabalhando junto com meu pai e não tinha nada, era tudo do meu pai. "Não, eu preciso me definir. Comecei a formar uma família, eu vou ter que trabalhar para essa família. Tenho que me firmar e tomar uma direção." 

Foi [aí] que eu resolvi sair e vir para onde meu sogro [estava]. Era uma base que eu tinha de apoio para que eu pudesse deixar a mulher e rodar o Brasil aí procurando um emprego. Felizmente dei sorte, porque cheguei logo em Imperatriz [e havia] essa notícia de que Carajás estava contratando; me empreguei rapidinho, estou até hoje.

Não sei... Tenho esse privilégio... Não sei o que é desemprego até hoje, nunca saí da empresa. Foi o meu primeiro emprego e estou nele até hoje. Felizmente, eu nunca soube o que foi desemprego. 

 

P/2 - E o senhor entrou para fazer o que, especificamente?

 

R - Quando eu entrei em Carajás, tinha saído da escola, não tinha profissão definida.  O primeiro local que me puseram para trabalhar foi uma oficina de carpintaria, ajudar a fazer forro, fazer móveis para a empresa. Eu ajudava os carpinteiros. 

Fiquei três meses nessa atividade. Não sabia fazer nada, não tinha profissão, não tinha um curso técnico. O meu pensamento era trabalhar no escritório, porque era o mais lógico, né? Não era mecânico, não era carpinteiro, não era um eletricista, então trabalhar em escritório, talvez em departamento pessoal, uma coisa burocrática. Mas me puseram, talvez até para ver... Eles faziam muito isso. Punham os caras novatos, na área de topografia, para andar no mato, penar para danar antes de... Para sentir se o cidadão era cara que estava querendo trabalhar ou se estava querendo emprego mesmo. 

Então me puseram para trabalhar numa carpintaria, eu fiquei três meses nisso, fiz muitos amigos, inclusive existem vários até hoje em Carajás, em outras atividades, é claro, a Vale não mexe mais com isso. Com três meses depois, aí entra a nova fase, novos valores que eu consegui adquirir na minha formação tanto profissional quanto pessoal, que foi o meu primeiro chefe. Eu trabalhava nessa carpintaria, o gerente era um engenheiro civil. E hoje somos muito amigos ainda. E mora em Belém, doutor Téo. 

Eu já era muito ligado em política, principalmente [em] política internacional, naquelas crises da Líbia, o Khadafi, o ________ mandando sequestrar... Saddam Hussein, essas coisas, Idi Amin em Angola… Estavam no auge esses caras malucos que estavam tomando conta dos seus países naquela época. E era muito ligado, eu fazia até recorte: eu tinha uma pasta para a Líbia, uma pasta para Inglaterra, uma pasta para Alemanha; tudo que saía sobre esses países eu colecionava. União Soviética, naquela época do Brejnev, era muito falado, a Guerra Fria. Eu me interessava muito por matéria desse tipo. 

Um dia, fazendo um trabalho no laboratório de análises químicas, esse engenheiro estava lá supervisionando o trabalho, e eu estava fazendo o forro. Começou a tocar nesse negócio de política internacional e eu comecei a falar. Falando da União Soviética, falando de Uganda, falando da Líbia, falando da Síria, Israel, aquele tempo... Guerra de Seis Dias com o Egito, com Jordânia, essas coisas. E o cara: "Pô, esse cara conhece alguma coisa." Terminando o papo ali, na hora do almoço ele sentou na frente da minha cadeira, na mesma mesa, e me perguntou qual era o meu nível cultural, até que ponto eu tinha estudado. Eu falei: "Eu fiz o ginásio, e só isso. O ginásio completo." Ele disse: "E por que você está trabalhando em carpintaria?" "Eu estou trabalhando porque me puseram. (riso) É o serviço que me deram, eu estou fazendo. Estou ajudando o pessoal." Ele disse: "Amanhã eu quero te apresentar um amigo meu. Você amanhã não vem com essa roupa, não." Eu estava com a roupa suja. Eu tenho até uma fotografia aqui que eu trouxe. "Você vem com uma roupinha mais limpa, que eu quero te apresentar um amigo meu aí. Nós vamos te mudar de setor.” Pelo papo que a gente tinha tido, ele percebeu que eu tinha um nível melhor que as outras pessoas que trabalhavam ali. 

Eu fiquei desconfiado, mas como eu estava ali para fazer o que mandavam, vesti uma roupinha como se fosse passear e fui me apresentar para ele no segundo dia, depois de três meses de trabalho. Ele me levou, me apresentou para o químico, chefe do laboratório onde eu estava ajudando a fazer o forro. E pediu para ele que me desse uma chance, me testasse no laboratório, porque era a elite da empresa nessa época quem trabalhava no escritório e no laboratório. Uniforme branquinho, era chique. Pediu que ele me desse uma chance, que era um desperdício eu, com o nível de conhecimento que eu tinha, estar trabalhando em uma carpintaria - palavras dele. 

A partir desse dia eu comecei a trabalhar no laboratório, ajudando, lavando equipamento, aprendendo a pesar naquelas balancinhas de precisão, essas coisinhas assim, para pegar o fio da meada, ajudando as pessoas mais antigas, que já sabiam trabalhar. E a verdade é que desse dia para cá eu nunca saí dessa área de laboratório, sempre ligado. Tive esse primeiro chefe meu, uma das pessoas que eu gostaria de citar como um... Uma das que me deram a primeira oportunidade. Comecei a trabalhar com ele, trabalhei de 74 até 82, oito anos, com ele. Ele saiu da empresa, eu continuei no laboratório, ajudando a construir um novo laboratório, já na área da mina. Depois disso, em 85, nós inauguramos um outro laboratório, que era o laboratório hoje que atende a Vale do Rio Doce, é o atual. Sempre na mesma gerência. 

Hoje eu trabalho ligado à mesma área, não mais em laboratório, mas trabalho na área de desenvolvimento de novos produtos. Depois, se quiserem detalhes a gente pode falar sobre isso, mas sempre na mesma gerência geral. 

Tem quatro pessoas marcantes na empresa que gostaria de frisar. Primeiro foi... Aliás, cinco. Primeiro foi esse cara, esse engenheiro civil, que me apresentou para o engenheiro químico, que foi o meu primeiro chefe. E depois o Mozart - não sei se vocês conhecem o Mozart -, já mais tarde, em 1980, quando a mina entrou em fase de pré-operação; o Ricardo Antunes, que é o diretor de pelotização até pouco tempo atrás, que era estagiário na época em que chegou lá em Carajás, me ensinou muito, eu também ensinei um pouco para ele. E o Rangel, que na época que eu cheguei, em 74, era estagiário também de metalurgia e hoje é o meu gerente geral. Desde essa época a gente sempre trabalhou na mesma área, há 26 anos. O Rangel, que hoje é o meu gerente, e o Ricardo Antunes em 87, 88, por aí, 89. Saiu de Carajás, foi para a Bélgica. Da Bélgica voltou para Vitória, já como diretor de pelotização, agora me parece que está na Bélgica novamente. E o Mozart, que foi o nosso primeiro superintendente. Na época a gente não tinha uma hierarquia tão grande como nós temos hoje, as coisas eram tratadas diretamente com o superintendente. Então foram esses quatro caras. 

O primeiro químico, Joaquim Vignolti, o Rangel, que hoje é o meu gerente geral, a gente trabalha desde o tempo de estágio dele, em 75. Trabalhamos juntos desde essa época. O Ricardo Antunes, que chegou como estagiário já na pré-operação da mina em 1980, e o Mozart, que foi o primeiro superintendente nosso. Esses foram os caras que me suportaram no início, com os arroubos da juventude, meio rebelde na época. E que me ensinaram a trabalhar e ser a pessoa que eu sou hoje. Essas pessoas são muito importantes na minha vida profissional.

 

P/1 - Quando o senhor chegou em Carajás, o que tinha ali, como era?

 

R - Ali onde você conhece não tinha nada. Era mata. Ali é uma mina de bauxita, alumínio, onde é a cidade hoje. Na época que eu cheguei, em 74, não tinha nem estrada. A estrada não vinha até ali. Ali era uma área de pesquisa da empresa, e só pousava de helicóptero. As clareiras feitas no meio do mato, eles já pesquisavam ali, mas não tinha estrada, ninguém chegava ali por terra. O acampamento era dali de Carajás, do núcleo, a trinta quilômetros, o primeiro acampamento, N1. Chamava-se N1, acampamento da Amazônia Mineração. Eram vários alojamentos de madeira separados por hierarquia. Peão de um lado, técnicos no outro alojamento já melhorado, engenheiros em outro alojamento, e uma casa de hóspede, onde ficavam os grandes da empresa, que nesse tempo eram americanos - os gerentes gerais eram americanos na época. E tinha um campo de futebol, onde a gente jogava bola todo dia, não tinha outra coisa. 

Tinha um cinema, passava filme duas vezes por semana, quarta e domingo, só filme pornográfico. Só tinha homem, não tinha mulher. E... Não tinha comércio, não tinha nada, você queria... Eu, na época, fumava, e cigarro ia de Imperatriz, porque não tinha onde comprar. Em Carajás a única coisa que tinha era esse cinema, passava filme duas vezes por semana, e um campo de futebol, só. Você saía do trabalho direto para o alojamento dormir, e cama, serviço. Isso durante... E alimentação. Tudo perto. Trabalho, restaurante ficava no meio da vilazinha de alojamentos, sete ou oito alojamentos; dá até para contar, mesmo sendo de memória dá para contar quantos tinham. Uma casa de hóspede, três alojamentos para nível técnico, um alojamento grande, uma casa grande para nível superior, os engenheiros, e uma outra casa chamada Casa de Pedra, porque ela tinha o alicerce, o meio da parede todo feito de pedra; era onde ficavam as visitas importantes que vinham conhecer Carajás naquela época, de 74 até 77.

 

P/1 - Como eram os alojamentos de vocês?

 

R - Alojamento de madeira mesmo, com vários quartos. Galpões fechados, com vários quartos, seis empregados por quarto, camas de campana com mosquiteiro, caminha, três de um lado, três do outro, banheiro. Perfeitinho, mas tudo de tábua, tudo de madeira. Era um acampamento provisório, já se sabia que era provisório. O primeiro acampamento era uma base, de lá é que a gente se deslocava para as áreas, para fazer pesquisa. 

Quem trabalhava em topografia passava o dia fora; quem trabalhava na mina, pesquisando, não tinha nada de exploração. Eram sondagens, amostragem em galerias, esse tipo de coisa; amostragem em picadas de topografia, porque ninguém conhecia nada. Sabiam que era uma mina, mas não tinha nada detalhado: quanto tinha de minério, qual o teor daquele minério, se era bom, se era ruim. 

Foi uma fase de detalhamento da mina, fase de pesquisa, de 74 até 1980. Nós moramos lá, só homem, eu já casado. Isso no meu caso, mas todas as pessoas que moravam lá, as que eram casadas viviam sozinhas, sem a família. E o período de campo era três meses. Você ia em casa de três em três meses. 

 

P/1 - Saía de lá só de três em três meses?

 

R - Só de três em três meses. A cada três meses a gente tinha dez dias de folga. Ficava com a família, voltava, ficava mais três meses, e assim o tempo ia passando, envelhecendo, longe da família.

 

P/2 - E nesse período que você teve... Seu filho agora está com 25 anos.

 

R - Com 25 anos.

 

P/2 - E o nascimento dele?

R - Foi em Imperatriz. Minha esposa morava lá junto com o pai dela, com os pais. Eu sozinho lá, sozinho em Carajás. Todos os meus filhos nasceram em Imperatriz, os três.

 

P/2 - E o senhor os conheceu depois de quanto tempo, ou acompanhou o parto, como foi?

 

R - Não, eu acompanhei o parto de dois, dos dois mais novos. Da menina mais velha, que hoje é casada, eu não acompanhei; ela nasceu [quando] eu estava fora. Os outros dois eu programei. Programei não o filho, programei a folga para o período do parto. Com isso eu acompanhei o nascimento direitinho e de três em três meses eu visitava.

P/1 - O convívio no acampamento, como era? 

 

R - Muito bom. Só homem, mas muito bom. Porque também a disciplina da empresa é muito rígida. Não podia beber, era proibido. Quem bebia, bebia escondido, uma garrafinha de cachaça dentro do armário. Inclusive o meu gerente, o doutor Joaquim na época, ele mantinha no cofre, dentro do laboratório, um litro de uísque, e [na] hora do almoço ele me chamava lá. 

Engraçado, você vê como as coisas marcam a gente. Eu era o empregado mais novo no setor dele e foi o cara que ele mais se afeiçoou durante toda a vida profissional, até enquanto ele esteve na empresa. Isso causava ciúme nos outros. A gente pescava junto. Depois que minha família mudou para Carajás, quando foi permitida a ida das esposas para lá, visitava minha casa, almoçava, jantava, foi muito amigo dos meus filhos. Sei lá, é coisa marcante mesmo, amizade que nós cultivamos durante esse tempo. Eu entrei lá por intermédio de outra pessoa, um engenheiro civil que queriam que ele me desse uma chance, e ficamos amicíssimos, eu nem o considero como meu chefe. Na época, eu não considerava como meu chefe. Um amigo, um colega de trabalho. Ficamos muito amigos.

 

P/2 - Além da proibição da bebida alcóolica, quais eram as outras restrições que vocês tinham?

 

R - Praticamente nenhuma. Bebida alcóolica era a principal. E as outras restrições eram impostas pela própria situação, eu não tinha mulher. A cidade mais próxima era Marabá, duzentos quilômetros; não tinha estrada, só saía de avião. Então você ficava três meses ali privado de tudo, por força das condições da região mesmo, não tinha como você sair. 

 

P/1 - Comida?

 

R - Comida muito boa, mas em período de chuva a gente tinha problema, porque tudo era trazido de avião: combustível, alimentação. Os empregados todos eram transportados naquele avião que hoje está ali na frente do aeroporto como relíquia, está sem motor. Era aquele avião o nosso meio de transporte, então tinha dia daquele avião fazer seis viagens a Marabá. Trazia combustível, trazia alimentação, trazia empregados que estavam voltando de folga, levava empregados que estavam saindo. A vida era essa.

 

P/2 - E para ter as notícias de fora?

R - Só carta. E rádio. Muitas vezes… Em Imperatriz tinha uma basezinha da empresa, [em] Marabá outra e [em] Belém outra, então se adoecesse um filho, fosse uma coisa mais urgente, a esposa ia lá no escritoriozinho da empresa e cara passava um rádio: "Avisa fulano de tal que o filho dele está doente, que a esposa dele pede a presença dele." Imediatamente a companhia providenciava um avião, mandava, não tinha problema. 

Tinha muita mentira também. O cara não aguentava os três meses longe da família, inventava que o filho estava doente para poder sair. Eu fiz isso várias vezes. (risos) Muitas pessoas. Todo mundo fazia isso. Existem até casos interessantes, que uma vez foi flagrado um empregado que a sogra já tinha morrido três vezes. Inventava que a sogra morreu, ele tinha que ir. Era só saudade da família. Coisa terrível você ficar três meses dentro do mato, sem família, sem nada. Principalmente os casados. 

 

P/2 - E não notícias da família, mas notícias do Brasil e do mundo?

 

R - Só rádio, um radinho de pilha. A voz do Brasil, a Rádio Nacional de Brasília, pegava muito mal, mas pegava. E notícias só rádio. Não tinha televisão, não tinha telefone. Era só o radinho de pilha e o rádio de comunicação da empresa para a gente saber notícia da família. E os colegas que moravam na mesma cidade, a gente mandava dinheiro, recebia a carta de volta, escrevia para a esposa. A correspondência era essa.

 

P/2 - E isso foi um período?

 

R - Um período de... O meu período foi de 74 a 80, a 82 aliás. Até 80 no mesmo acampamento. Em 1980 nós mudamos, nós desativamos o acampamento de N1, mudamos para o acampamento onde hoje é o clube de Serra Norte - não sei se você conhece -, que foi a primeira vila residencial. Foi desativada também com a mudança do pessoal para o núcleo, que hoje é definitivo. 

Fiquei seis anos no N1, [o] primeiro acampamento, que só tinha homens; em 1980 nós mudamos para o N5, que foi a vila provisória. Fiquei mais dois anos sem a família, porque estava em construção a vila, e as primeiras famílias só chegaram em início de 82. Foi quando eu trouxe a minha também, [em] fevereiro de 1982. 

Esses oito anos, de 74 a 82, eu fiquei sozinho no Carajás, nesse esquema de noventa dias [de trabalho] e dez [de folga]. Tinha um esquema, o seguinte: quando o cara era peão, peão mesmo, ganhava o nível mais baixo da empresa, era noventa dias. Depois, quando você ia evoluindo profissionalmente na empresa, ia mudando esse período de folga. Por exemplo, eu fiquei um período com noventa dias. Depois, quando eu entrei no laboratório, consegui [me] desenvolver, com seis meses o meu salário dobrou. Aí eu já comecei a ter regalias, mudei para um alojamento melhor; o período de campo já reduziu pela metade, em vez de noventa dias eu passei a ficar só 45 dias. Eu já tinha um cargozinho melhor. Por exemplo, os engenheiros ficavam vinte dias só de campo e dez dias de folga. O nível médio, como eles me chamavam, que eu me enquadrei seis meses depois que eu comecei a trabalhar no laboratório, ficava 45 dias. E o nível básico, que era peão mesmo, era noventa dias. Tinha tudo isso. Depois de seis meses, eu fiquei com período de campo de 45 dias.

Também diminuía o período de folga. Você tinha a vantagem de passar menos tempo no mato, mas você ficava menos dias em casa. Era 45 por sete só, ao passo que o peão ficava noventa dias, mas ficava dez dias em casa.

 

P/1 - Os engenheiros ficavam vinte e dez?

 

R - Vinte e dez. Ainda hoje nós temos uma subsidiária da Vale do Rio Doce, que é a Docegeo, que mexe com pesquisa geológica, sondagens, que continua no esquema vinte/dez, porque trabalha no mato, é impossível estar todo dia em casa. Eles montam acampamento. Na área de pesquisa, ficam vinte dias no mato e dez dias em casa.

 

P/2 - E depois que você foi para o laboratório, como era o seu trabalho?

 

R - O trabalho... Eu comecei como analista. Quando eu saí da carpintaria para o laboratório, comecei como analista, ajudando as pessoas a fazer aquele trabalho; depois comecei a analisar. O laboratório é dividido em duas áreas: tem o laboratório físico, que cuidava dos testes físicos do minério. Quem conhece a área de mineração sabe do que eu estou falando. Teste de resistência, teste de granometria, preparação de amostra para a própria análise química. Então é um área vital, não adianta você fazer a análise correta se a preparação antes for mal feita. O laboratório físico vem desde a fase de amostragem, da coleta da amostra na mina, ou na usina, até a preparação para a análise, que na época era só via úmida. Via úmida que eu digo é o seguinte: é com digestão por ácido. Não tinha equipamento de análise como nós temos hoje, absorção atômica, raio x, plasma, não tinha; era tudo via úmida, análise muito demorada. 

Eu comecei como analista, depois esse meu primeiro chefe me chamou e falou: "Olha, cara, nessa área de análise química tu nunca vai passar de um analista, sempre vai ser um analista. Não quer tomar conta do laboratório físico? Lá tu pode crescer, tu pode chegar até a supervisão geral do laboratório." Aí eu fiquei de pensar na proposta dele, porque para as pessoas que trabalhavam na época era tipo um rebaixamento você sair do laboratório químico, onde você trabalhava todo branquinho, jaleco branco, tal, só analisando amostras, para ir para uma área de preparação, que você mexia com amostra bruta, poeira, lama, muita coisa. Lama, é um modo de dizer a polpa do minério. Você ia mexer com o minério, então era uma área de um trabalho mais grosseiro, mais sujo, mais agressivo o ambiente. Pensei e achei que ele tinha razão. Eu aceitei, topei, aí assumi a supervisão do laboratório físico.

 

P/1 - Já foi para assumir a supervisão?

R - Já. Fui para assumir a supervisão, porém sem o cargo, só a responsabilidade. Nesse período, o plano de cargos e salários da empresa não era muito definido. Você chegava no seu chefe, achava que estava ganhando muito pouco, pedia um aumento, ele te dava um aumento, não mudava seu cargo, não mudava nada. Era uma coisa que não estava bem estruturada ainda. 

Eu aceitei a supervisão do laboratório físico e fiquei na área de amostragem, preparação de amostras, testes físicos, até 1992. [Foi] lá onde eu galguei todos os postos possíveis para o meu nível de escolaridade. Eu fui laboratorista em vários níveis, um, dois, três, você tinha essas classificações. Fui supervisor, supervisor técnico, supervisor geral, fui gerente técnico. Galguei todas as posições. O cara tinha razão e hoje eu agradeço muitíssimo a ele por ter me dado mais essa oportunidade. Se eu não tivesse mudado de área, as pessoas que trabalhavam... Existem ainda várias pessoas que trabalharam comigo no laboratório de análise química que são analistas até hoje, então não tem muito... O cara sem o curso técnico não tem muito como crescer, como evoluir na área. É analista. Vai morrer analista. 

Ele me alertou. Eu mudei e me dei bem. Quer dizer, com muito esforço, nada de paternalismo. As posições que eu galguei na empresa, todas foram muito suadas, e em bastante tempo. Eu tenho 26 anos de empresa. 

 

P/2 - Tinha essa coisa da competitividade?

 

R - Não, no início muito pouco. A gente não notava, até porque os cargos eram poucos também. Hoje é mais acirrada, a disputa já é mais acirrada internamente. É como num time de futebol, cada um quer ser o titular, então quer mostrar serviço para segurar sua posição. Hoje é mais acirrado nesse aspecto. Mas na época não, as ambições eram menores, talvez até porque os horizontes também eram menores. A gente não vislumbrava muita coisa, não.

 

P/2 - E antigamente eram quantos analistas? E hoje são quantos? Continua igual?

 

R - Bom, antigamente eram quatro ou cinco analistas. Hoje nós temos na área... Eu hoje não trabalho mais no laboratório; trabalho na mesma gerência geral, mas na área de desenvolvimento de novos produtos. É uma gerência que trabalha com desenvolvimento só. Melhoria de produtos, pesquisa de novos produtos, depois eu posso até explicar melhor como que funciona essa nova área. Nós somos quatro técnicos e seis engenheiros. Nós não temos mão de obra básica para manuseio de, digamos assim, pessoal de operação, que são nível básico. Nós não temos, nós utilizamos a mão de obra do laboratório. Na nossa área só temos quatro técnicos, inclusive eu, e seis engenheiros. São projetos, coordenação de projetos. Mas voltando a sua pergunta: hoje no laboratório nós devemos ter umas sessenta pessoas.

 

P/2 - Que trabalham no que era feito antigamente?

 

R - Não é o mesmo trabalho. Antigamente era a fase de pesquisa, hoje estamos na fase de produção. Mas o laboratório, que antes era tocado por cinco analistas, hoje nós temos em torno de sessenta, setenta pessoas. Nós tínhamos um laboratório construído de madeira, seis por seis, 36 metros quadrados; hoje nós temos um laboratório com mil metros quadrados, que custou um milhão de dólares só o prédio, para construir. Uma coisa fantástica.

 

P/1 - De quando é esse...?

 

R - Esse laboratório, nós mudamos para ele em 85, com a entrada em operação da mina. Então o que que nós fizemos? No primeiro acampamento, em N1, quando cheguei em 74, era um laboratório de madeira. Em 1980 nós inauguramos um segundo laboratório na mina, um laboratório provisório também, que foi feito em cima da mina, por estar próximo do local de trabalho. E nessa fase de pré-operação nós trabalhamos no laboratório já construindo o laboratório definitivo, um pouco mais afastado da mina, porque não pode ter poeira, não pode ter contaminação. Trabalha com aparelhos muito sensíveis, que é raio X, absorção atômica, essas coisas muito finas. 

Em 85, quando a usina entrou em operação, nós começamos a produzir para exportar. Nós inauguramos o novo laboratório já com cinquenta pessoas contratadas, entre analistas e laboratoristas, supervisores, engenheiros, essas coisas assim, com o troço já bem estruturado. A gente já vinha estudando esse dimensionamento de pessoal desde 1980, quando o Mozart chegou em Carajás para implantar a operação da jazida. 

 

(PAUSA)

 

P/1 - Então, seu Adonias, vamos voltar um pouquinho para essa chegada. Como é que foi o senhor chegando ali, quando o senhor embarcou no avião a primeira vez?

R - Bom, cheguei em Marabá, me apresentei no escritório da empresa. E na época os exames pré-admissionais eram feitos em Belém. De Marabá, nós fomos... Uma turma, eram várias pessoas. Fomos de ônibus para Belém, ficamos uma semana fazendo exames médicos, pegando algumas informações de como era a área lá, para onde a gente ia. Porque muitas pessoas chegavam lá, voltavam no mesmo voo. "Ah, é aqui?" (risos) Não ficava, era muito inóspita a área. 

Fiquei uma semana em Belém fazendo exame médico, depois voei para Carajás, meu primeiro vôo, no dia 26 de setembro de 74. Primeira vez que eu andei de avião. Aquele avião DC3 foi comprado da Inglaterra. Esse avião foi usado na Guerra de 45 e a Amazônia Mineração comprou, tinha dois. Um ela vendeu para o projeto Jari, para o Daniel Ludwig, aquele milionário que era dono do projeto Jari, e nós ficamos com aquele, utilizando para o serviço doméstico lá da empresa. 

No dia 26 de setembro peguei aquele avião em Belém e posamos em Carajás, já numa pista de terra, a pista oficial, na frente do acampamento. O helicóptero era usado… O negócio de descer em corda era usado para os acampamentos de pesquisa, fora da área da mina de ferro, porque a área da mina de ferro não tem vegetação. Você foi lá, conhece, vegetação muito rasteira. E a chegada foi assim. Chegamos lá, pousei no meio da floresta e já tinha noção da geografia ali, que distância que eu estava da cidade mais próxima, que não tinha estrada, que só ia sair dali depois de noventa dias de campo, a distância que estava de Belém. Eu conhecia mais ou menos a topografia, a geografia da região, através de livros. Eu lia muito. Hoje eu relaxei um pouco, mas nessa época eu conhecia bem. 

O impacto foi de imediato. Aquele acampamentozinho terrível… Eu fazia uma ligação: nós estamos aqui há uns três mil quilômetros da Colômbia e daqui para lá não tem nenhuma casa, só mata e água. Continua da mesma maneira hoje. Se você for analisar onde está situado Carajás, nós estamos muito no meio do mato. (risos) Na época, nós tínhamos Marabá a duzentos quilômetros e não tinha estrada; ou era avião ou... Algumas pessoas que saíam por lá eram caçadores. Naquela época ainda existiam aqueles caçadores de pele; o cara saía caçando onça, de vez em quando sai um cara perdido por lá. Mas a primeira viagem nossa de ônibus foi feita no Natal de 77. Foi inaugurada a estrada de terra. 

 

P/1 - Foi todo mundo para Marabá?

 

R - Foi todo mundo para Marabá. Eram cinco ônibus. A chegada, em si, foi assim. Nos primeiros três meses eu chorava muito [de] saudade, casado… De novo, pô, ficar noventa dias em um local daquele, sem televisão, sem telefone, sem nada. Só tinha notícia quando vinha um colega retornando das folgas, que levava uma carta da mulher e notícias da família. 

Dinheiro também só ia quando ia alguém, não tinha banco. O pagamento era feito... Vinha um cara de Belém com o malote para fazer o pagamento lá no acampamento, em dinheiro vivo. Não tinha negócio de banco, essas coisas, não existia. 

 

P/1 - Seu Adonias, o senhor comentou que tinha gente que desistia antes de ir. E lá mesmo, tinha gente que acabava desistindo diante da situação?

 

R - Sim, muitas pessoas. Os remanescentes são poucos. As pessoas que... Eu acho que... Não tem estatística não, mas eu acho que 50% das pessoas que eram contratadas voltavam antes de completar o primeiro período de campo. Antes dos noventa dias desistiam, iam embora procurar outro tipo de trabalho, não ficavam lá, não. Muito difícil você ficar noventa dias dentro de um mato daquele, sem comunicação, sem quase notícia da família, sem um lazer, sem nada. É muito difícil. 

P/2 - E no seu caso, qual era a motivação para ficar?

 

R - Ah, eu era casado, precisava trabalhar. Foi lá onde eu encontrei emprego. Então, hoje ainda é a região central; a procura de emprego é [em] Carajás. Não tem atividade industrial na região, é Carajás, então todo mundo que quer um trabalho vai para Carajás. Se não emprega na Vale do Rio Doce, emprega numa empreiteira que trabalha para a Vale do Rio Doce, ou termina trabalhando para um empregado da Vale do Rio Doce. Desde o engenheiro ao faxineiro, vivem em função da Vale. O jardineiro trabalha para empregado da Vale do Rio Doce. 

O fluxo de pessoas da região do Pará e do Maranhão é Carajás. Todo mundo trabalha em alguma coisa. E na época era a mesma coisa. Só tinha essa empresa, só a Amazônia Mineração, empresa criada pela Vale do Rio Doce para cuidar exclusivamente desse projeto. Para onde eu ia? Sair para São Paulo? Sair para o Rio de Janeiro? Nem pensar num negócio desse! Fiquei. 

Aí o tempo foi passando, passando, você faz o seguinte plano: "Vou ficar um ano aqui, juntar um dinheirinho e vou sair." Fica um ano, fica dois anos, nesse negócio estou com 26 anos. Aí chega um período que você não pode mais sair. Por exemplo, eu estou com 49 anos de idade. Se eu sair agora, eu não arrumo mais emprego em lugar nenhum. Quer dizer, agora eu tenho que ficar por uma obrigação. Tenho que procurar motivação para continuar trabalhando da mesma maneira, porque se eu sair... 

Empregado não faz poupança. Quando o cara sai da empresa, ainda compra a casa própria com o fundo de garantia, porque não consegue juntar enquanto está trabalhando. Então no início é porque você precisa, e no final não tem mais coragem de sair, não consegue mais trabalhar, [arranjar] emprego em outro lugar. Muito difícil. Mas não é por isso que eu estou, porque não consegue emprego. Eu estou porque eu ainda gosto da empresa, acho que ainda estou produtivo, porque senão ela não estaria me pagando. Porque a empresa, principalmente agora depois que privatizou... Ninguém fica empregado porque acham ele bonito, por que ele é um cara que tem 26 anos de Vale do Rio Doce, não. Fica porque o cara está produzindo, está dando lucro para a empresa. Se não der lucro sai mesmo, não tem conversa. Mas é isso. 

P/2 - Como era naquele tempo, no começo de 74, 75, a relação com a chefia?

 

R - Muito mais próxima do que hoje. É como eu falei inicialmente, quando eu citei o Mozart, o Ricardo Antunes e o Rangel. Até 1985 o relacionamento era mais direto, a hierarquia não era tão vertical quanto é hoje. Hoje você tem presidente da empresa, tem diretor executivo, tem diretores regionais, tem gerentes gerais, gerentes de área, depois ainda tem mais alguns prepostos embaixo de gerentes de áreas - alguns engenheiros que não têm cargos, mas que a peãozada se reporta para eles para chegar ao gerente de área, depois ir para o gerente geral. Hoje é muito difícil para você falar até com o gerente geral da empresa, imagine com o presidente da empresa? É muito difícil. Na época era muito fácil você conversar com Eliezer Batista, com Roquete Reis, que foi o presidente antes dele; na época que eu entrei era o Roquete Reis. Depois foi o Eliezer Batista, depois o Mascarenhas, tenho uma fotografia com ele aí. E o relacionamento era muito bom, era muito direto, não era tão hierarquizada a empresa como é hoje. Mas eu acho que hoje, apesar da hierarquia exagerada, é mais bem organizada, é melhor para se trabalhar, porque as coisas são mais bem definidas. O que... Quem faz o quê. Hoje está bem mais definido nesse aspecto. 

 

P/1 - E o comecinho, com os americanos? Quando o senhor chegou lá, o senhor disse que eram os americanos.

 

R - É, eram os americanos remanescentes da Companhia Meridional de Mineração. Foi a companhia que comprou os direitos para explorar Carajás, e depois o Geisel, que era... Como não gosta de americano, acho que você não deve nem sair, porque... Mas o presidente Geisel tinha aversão a americano, era explícito, isso ele não fazia questão de esconder, então ele terminou indenizando os americanos naquela época, me parece que foram 58 milhões de dólares, o que os americanos tinham gasto na pesquisa lá. Eu lembro até o valor do dólar nesse tempo, era dezesseis mil cruzeiros por um dólar. Ele indenizou os americanos, saíram no final de 75, parece. 

Nós tínhamos um cara que era o diretor geral da empresa, vivia no Rio. Era o Mr. Roof. E tínhamos um que ficava em Carajás, o Mr. House, que era... comandava toda a operação lá de pesquisa. Mas eles eram muito rígidos. Não sei se é típico da disciplina americana ou se é... Sempre notei que o americano considerava o brasileiro como uma classe inferior. Eles são muito arrogantes. Desde esse tempo eu tomei raiva de americano. Uns caras muito chatos, andavam armados, revólver exposto lá no meio da gente, parecendo faroeste, esse tipo de coisa. 

Eles eram tão rígidos que... Isso aconteceu comigo. O período de campo era noventa dias, como eu citei anteriormente. Meu filho adoeceu e desta vez não foi mentira, foi verdade. Porque de vez em quando a gente inventava uma mentira para poder sair antes do período, porque a gente não aguentava. "A mulher adoeceu, o filho adoeceu." Tinha adoecido nada, só queria sair. Nesse período o menino adoeceu, esse que está se formando agora, e eu pedi folga. Apesar de ter um engenheiro químico que era o meu chefe, mas tinha que ir lá, meu chefe tinha que ir lá com o americano e pedir, porque o meu período de folga não estava completo. Eu estava com 88 dias de campo, estava faltando dois dias para completar os noventa. O que que o americano fez? "Tudo bem, ele vai. Agora ele não vai de folga, ele vai de licença, porque o período dele não está completo. Está faltando dois dias para completar. Ele vai de licença, volta, trabalha mais dois dias e sai de folga." Quer dizer, tinha que completar o período de campo para poder dar a folga. Intransigente demais da conta. E assim eu fiz. Eu fui... 

Agora ia mesmo, eles mandavam mesmo. Fui naquele avião sozinho, um avião que parece que era para vinte e tantos lugares; ele mandou me deixar em Imperatriz. Eu, sozinho, dentro daquele avião. Mandou o avião decolar comigo sozinho e me deixar em casa. Fiquei lá, resolvi o problema, quando o menino sarou voltei, trabalhei mais uma semana e saí de folga. (risos) Só para você ter uma ideia da rigidez da disciplina deles. 

Você não tinha liberdade para fazer um intervalo, por exemplo... Hoje as empresas até exigem: você trabalha uma hora, descansa dez minutos, para fazer um... Fumar um cigarrinho e tal. Eles não admitiam ver o empregado sentado, a não ser que o trabalho dele fosse sentado. Empregado conversando, batendo papo com o outro em horário de serviço, não permitiam isso, não. De jeito nenhum. Chegavam, chamavam a atenção, perguntavam o que que estava fazendo, se estava ganhando para conversar ou para trabalhar, coisa desse tipo. O nego tinha medo, trabalhava com medo do americano. Se estava conversando aqui: "Ah, vem o Mr. House!" Todo mundo tratava de se mexer. Isso do engenheiro ao peão, não era só peão. Quer dizer, os caras implantavam um clima de terror entre os empregados. Todo mundo trabalhava com medo deles. Mas tinha uma vantagem, que todo mundo falava um pouco de inglês, né? Nessa época, todo mundo falava um pouco de inglês. 

 

P/1 - O senhor aprendeu um pouquinho?

R - Eu aprendi um pouquinho também. 

 

P/1 - Eles andavam armados?

 

R - Tinha um, chamava Mr. Frank, que era o encarregado do hangar, encarregado da aviação, que andava armado, de bota e revólver, todo tipo faroeste, lá no acampamento. Eu, na época, já achava estranho, que era contra os princípios da sociedade o cara se apresentar daquela maneira. Desse tamanhinho, não podia falar nada, não podia fazer nada. 

Ainda bem que vivi muito pouco tempo. Tenho vários amigos lá que conviveram com eles mais tempo. Desde 70, eu convivi um ano e pouquinho só, de 74 até final de 75, quando o Geisel os pôs para correr de lá. Eu adorei.

 

P/1 - Só fez festa?

 

R - Só fiz festa. O astral mudou, a administração mudou, a liberdade. Totalmente diferente. Eram muito rígidos, muito arrogantes. E o que mais me fez ter asco dos americanos não era a disciplina, era o modo como eles encaram a gente, como classe inferior. Isso é que me irritava. Até hoje quando eu falo eu sinto raiva disso. Olhava por cima, encarava como se a gente não seja ninguém. 

Felizmente, nós cortamos o cordão umbilical com os americanos. Tomamos conta das pesquisas e tocamos, até hoje estamos aí.

P/1 - Seu Adonias, como é que era o trabalho do senhor no dia a dia? O que o senhor fazia exatamente, os procedimentos...?

 

R - Na época, é o que eu já falei antes: eu comecei como analista primeiro na carpintaria, ajudando. Depois teve esse engenheiro civil, que no depoimento hoje eu falei, que me apresentou para o engenheiro químico. Ficou impressionado com o papo sobre política internacional, ficou impressionado pelo fato de eu ser um peão e estar por dentro da situação mundial. "Como é que esse cara obtém essas informações?" Então ele resolveu me dar uma chance num trabalho melhor. E foi o laboratório. 

 

P/1 - Mas como era esse trabalho no laboratório?

 

R - É análise química. O que é análise química? Você pega uma amostra de minério e determina quimicamente a composição daquela amostra. Quanto ela tem de ferro, quanto tem de alumínio, quanto tem de sílica, manganês, os elementos de interesse. Outros elementos que não são comerciais, por exemplo, cobre, minério de ferro, sempre tem um pouquinho, mas não em volume comercial, então todos esses minerais, esses minérios em menores quantidades, são considerados contaminantes.

Para você determinar, caracterizar sua amostra, sua jazida, você tem que fazer a análise química do material. Por exemplo, minério de ferro, que é a nossa atividade em Carajás. O que é que você tem que caracterizar? Caracterizar uma amostra representativa de um todo, que seja de um carregamento, que seja de um navio, que seja de uma determinada área, e analisar e determinar os percentuais dos elementos componentes naquela amostra. No nosso caso, o elemento principal é o minério de ferro. Isso determina o minério de ferro e determina os contaminantes, que são sílica, o alumínio, o manganês, o fósforo. 

É mais ou menos isso uma análise química. É a determinação do percentual dos elementos componentes daquela amostra, daquela rocha. 

 

P/1 - Em cada região de mina que vai ser explorada você faz isso?

R - Cada região. Por exemplo, você tem a fase de pesquisa, é a fase onde você determina o que que predomina ali. Onde você cuba a jazida você começa... Eu não entendo muito bem de geologia, mas acompanhei muito tempo, é mais ou menos isso: você quer pesquisar uma área, você sabe que tem minério de ferro aqui ou cobre ou ouro, seja o que for. Você começa com uma determinada malha. Por exemplo, faz um furo de sonda a cada quatrocentos metros. Depois você vai fechando aquela malha a cada cem metros, a cada cinquenta metros. Depois você cubar, cada amostra dessa você analisa, de metro em metro, de dois em dois metros; dependendo do nível de precisão que você queira determinar, você determinar quanto que do material pesquisado tem naquela área. 

Por exemplo, nós fazemos uma prospecção numa área de um quilômetro quadrado, É possível se saber quanto de material tem ali, é possível se cubar. Você fura até onde acaba o material, calcula o volume de material que tem naquela área. E quimicamente você determina o teor. Nós temos nessa área aqui cinquenta milhões de toneladas com 67% de teor de minério de ferro. É mais ou menos isso que faz um laboratório. É definir o teor do minério, o teor da rocha, o teor daquilo que você está pesquisando.

 

P/2 - E a forma para determinar isso mudou muito?

 

R - Mudou muito, porque antes nós fazíamos determinação por via úmida, que é um método que você tem que fazer a digestão com ácido, colocar outros tipos de reagentes para ir... É como se faz uma análise clínica hoje, um exame de fezes, por exemplo. Você tem que pôr um indicadorzinho ali para saber se tem um determinado tipo de indicador. Se tiver ameba vai dar uma cor vermelha, se tiver um outro tipo de verme vai dar uma cor verde, é mais ou menos isso. Tomar a análise por via úmida você trabalha com isso. 

Por exemplo, o minério de ferro você trabalha com determinado tipo de reagente, em que você vai... Nós chamamos o processo de titulação. Depois dessa amostra dissolvida em ácido você vai titular, até ela ficar com uma determinada cor. De acordo com a quantidade de reagentes que se gastou para ela chegar àquela coloração, você calcula o teor daquela amostra. É um indicador. Análise por via úmida é isso, é mais ou menos o que se faz hoje no laboratório de análise clínica. Para determinar, por exemplo, a composição da sua urina, eles colocam vários tipo de reagentes, que dão coloração diferente de acordo com o potássio que tem na sua urina, com o sódio, determina através disso. Hoje nós trabalhamos com raio X, equipamento de raio X; [leva] um minuto para determinar quatorze elementos, você gastaria um dia para fazer na via úmida. Hoje nós fazemos trezentos amostras durante um dia, por exemplo, [de] todos os elementos. 

A via úmida, hoje, não atende a produção. É muito rápido. Nós produzimos hoje uma faixa de cinco mil toneladas de minério de ferro por hora. O volume é muito grande. De duas em duas horas nós temos que saber o que tem nessa amostra, porque o controle de qualidade forma lotes. Por exemplo, a cada vinte horas forma-se um lote para fazer um carregamento. Você tem que ter a qualidade detalhada daquilo porque ele vai ser embarcado no navio, vai ser vendido para o Japão, para a Coreia, para a Alemanha. E tem que sair com uma qualidade média definida pelo cliente. O cliente pede, nós temos que fazer, então a análise por via úmida hoje não atenderia à demanda. Você tem que estar tendo resultado de duas em duas horas, porque o volume é muito grande: cinco mil toneladas por hora, em duas horas você já tem dez mil. Você já imaginou? Dez mil toneladas em duas horas de produção. Você tem que ter o resultado, saber o que que está indo para ali. 

De repente saiu fora da especificação, tem que ser direcionado para um outro local, então você tem que ter resultados analíticos, controlar a qualidade desse produto. Tem que ser rápida a análise. Por via úmida você vai gastar oito horas para soltar um resultado. Não tem condição, é inviável hoje. Na época da pesquisa, você poderia soltar o resultado no final de semana, com quinze dias, com vinte dias, só para saber o que tem lá. É diferente. Detalhe, você saber o que que você tem. É diferente da produção, que você está produzindo, quer saber o que está saindo dali. 

 

P/2 - Tem algum outro, alguma outra... Dentro de todas essas análises que vocês fazem, esse pulo para a modernidade, o que era antes e o que é hoje, se você tem alguma evolução? Você falou...

 

R - Nós temos hoje ainda um equipamento que chama-se absorção atômica, que é um intermediário em termos de resposta entre a via úmida e o raio X. Na verdade, é uma via úmida que você faz a digestão com reagentes químicos, mas que a determinação é feita através de absorção atômica. É um processo já eletrônico, não é mais o homem que determina ali quanto tem, já é um equipamento que determina. Você tem uma resposta mais rápida. Mas para acompanhamento da produção é raio X mesmo, pulou da via úmida para o raio X por uma questão de necessidades. Foi em 85 que nós compramos o primeiro raio X para Carajás. É [com] o raio X que nós estamos trabalhando até hoje, muito bom. Nós estamos comprando um segundo agora porque ele já não está atendendo em termos de quantidade de amostras; o volume cresceu muito, um raio X só já não está atendendo. 

A produção é o principal, essa tem que sair, porque é minério que está sendo processado e está sendo embarcado, tem que ter a qualidade. Mas na minha área, que é uma área de desenvolvimento, por exemplo, o cliente diz assim: "Eu quero um produto que tenha 60% de ferro, mas 10% de sílica." Isso nós não temos na jazida. Nós temos que fazer esse produto. É onde minha área entra: desenvolvimento de novos produtos. Então você vai pegar um pouquinho do minério de ferro, vai pegar um pouquinho do rejeito, vai pegar um pouquinho de areia, vai fazer uma mistura daquilo até chegar onde o cliente quer e ver se é possível produzir aquilo. E sempre é possível. O cliente quer, a Vale compra. A nossa comercial faz o seguinte: "Olha, já está vendido; se virem aí para produzir." Você não pode dispensar clientes.

Nós começamos com um produto só, hoje nós estamos com uma gama de 37 produtos do minério de ferro, com especificações diferentes. O produto é um só, é minério de ferro, mas com composições totalmente diferentes. Mais sílica, menos sílica, mais alumina, menos alumina...

 

P/1 - Como se produz isso? Como é que se faz um...?

 

R - O minério? O minério é uma montanha, uma mina, que você explode com dinamite, pega, joga nos britadores, peneiras; lava, classifica esse material em peneiras, de acordo com a especificação que nós já temos definida - cada produto com uma granometria definida - [é] lavado para se tirar os contaminantes e embarcado. 

Em Carajás nós não temos praticamente processo de tratamento de minério porque nosso minério é muito bom, muito puro. Nosso minério tem 67% de ferro. Então o que a gente faz? Pega bruto na mina, transporta de caminhão até o britador. Ali tem uma sequência de britagem, peneiramentos e lavagens, até chegar no pátio, onde é embarcado no trem, já britadinho, lavadinho, [com] a granometria exigida pelo cliente.

 

P/1 - Mas quando é um caso desse, como o senhor falou, de um minério que não tem na jazida, como é que se faz isso?

 

R - Sim, aí é onde entra o processo. Por exemplo, você tem que adequar. Tem que adquirir novas pendências. Por exemplo: o cara quer uma granometria maior, com uma determinada resistência, então você tem que fazer... Você tem que adquirir novos equipamentos, você tem que fazer um peneiramento diferente, lavar mais ou lavar menos, você tem que... Se o material é pouco resistente, você tem que degradar esse material em equipamentos para que ele vá perdendo aquela massa mais mole, mais friável, e [vá] se tornando resistente. Às vezes, um minério que você pega 100% dele aqui, para chegar a uma resistência que o cliente quer, você chega com 20% daquela massa total. Porque o processo é tanto, a eliminação do que ele não quer é tão grande [que] você chega lá e chega até a conclusão de que não é viável. “Pô, vou pegar cem toneladas aqui para vender dez, porque do jeito que o cara quer só dá para aproveitar dez aqui, depois de todo um processo para se chegar à qualidade exigida.” 

A gente trabalha muito nesse desenvolvimento e muitos trabalhos que a gente faz gasta meses de trabalho para chegar no final e falar: "Não dá." 

 

P/1 - Eventualmente...

 

R - Não dá. Na maioria das vezes dá, muitas vezes não dá, não tem jeito. Porque hoje tem aquela tônica: o cliente é quem manda. Em todos os segmentos da vida comercial o cliente é quem manda. Se você é um fornecedor e não me atender eu procuro outro, então a Vale do Rio Doce não deixa o cliente fugir. O cliente quer, ela se vira e faz do jeito que o cara quer. Isso tudo é da empresa, da Vale do Rio Doce. E normalmente a gente dá um jeitinho de fazer o que o cliente quer. A companhia dá todas as condições, hoje tem equipamentos ultramodernos, é uma equipe muito competente, e o quadro de empregados da empresa [é] muito bem treinado.

 

P/1 - O senhor teve treinamento, teve tudo?

 

R - Eu tenho uma lista de treinamentos. Não sei te precisar quantos treinamentos, mas aí, sei lá, faz por ano... 

Agora, depois que privatizou, a gente... É uma filosofia da empresa privada, é dar o tipo de treinamento que seja útil para o trabalho que você está desenvolvendo. Por exemplo, se eu trabalho no restaurante. Eu vou solicitar da empresa um curso de alemão. Para que eu quero alemão para fazer comida? Não precisa. Então a empresa hoje está com a filosofia dessa maneira. Se precisa determinado tipo de treinamento para o desenvolvimento do seu trabalho, ela te dá, agora fazer treinamento só para colocar no currículo, ela não está fazendo isso mais. 

 

P/1 - Antigamente fazia?

R - Antigamente fazia isso. Hoje nós temos um mínimo de oitenta horas de treinamento por ano. Todo empregado tem treinamento. Quer dizer, foi estabelecido como norma na empresa um mínimo de oitenta horas. Isso aí você tem que ter, informática, ou dentro da própria área onde você atua, ou sei lá, sobre orçamento, coisas mais gerais. 

Nem sempre o treinamento tem que ser dentro da área que você trabalha. Você precisa de ter conhecimento da empresa. Até uma palestra do diretor da empresa serve como treinamento, às vezes você trabalha na empresa e não conhece a empresa que você trabalha. 

As outras atividades… Por exemplo, eu conheço a atividade de mineração da empresa. Não conheço, não sei como que está a atividade de transporte da empresa, porque ela tem uma frota de vinte e tantos navios, a Docenave. O empregado da Vale precisa saber como que é a empresa, quais os ramos onde ela atua, como que está a saúde financeira de cada uma dessas atividades. Isso foge especificamente da área que você trabalha, mas é necessário que você saiba isso. Agora não é necessário que eu saiba inglês se a minha área não tem contatos com áreas externas, que não é o meu caso. Minha área tem bastante contato com consultorias de empresas estrangeiras, mas é só como um exemplo que eu estou citando, hoje os treinamentos estão direcionados para a área onde você desenvolve sua atividade. 

E treinamentos eu tenho uma infinidade. Eu não sei precisar quantos, eu fiz todos os treinamentos necessários e desnecessários para o desenvolvimento da minha atividade na empresa. Disso aí eu não me queixo. Muita coisa que eu nunca utilizei, muita coisa também que eu fiz dez vezes e não aprendi, por exemplo, estatística. Eu já fiz treinamento de estatística que não sei nem a soma. Aprendi o básico, dá para tocar o serviço, mas expert em estatística eu não sou. Tem coisa que a gente não aprende. Inglês, eu entrei em uns dez cursos de inglês, saio antes de terminar, porque... Para tudo você precisa ter uma motivação. Eu saio de uma aula de inglês em um meio onde todo mundo está falando português. Em uma semana eu esqueci tudo, então eu acho que para você aproveitar um treinamento você tem que praticar, seja ele qual for. Por exemplo, o que a empresa faz com seus gerentes. Dá um curso de inglês para o cara, manda o cara ficar um mês nos Estados Unidos, dois meses na Inglaterra, ou já dá o curso para o cara lá, na própria Inglaterra. Quer dizer, o cara aprende. Mas não adianta nada eu fazer um curso de operação de um equipamento desse e sair daqui e dirigir um táxi. O que adiantou eu fazer o treinamento? Então hoje os treinamentos estão muito direcionados para o que você faz. Você sai e vai praticar. Tem muito mais chances de você ficar bom naquilo que você treinou. 

 

P/1 - Mas quando o senhor passou pelo laboratório, por exemplo, quando o senhor começou a trabalhar, o senhor trabalhou no laboratório físico. O senhor teve já um curso de imediato?

 

R - De imediato. Primeiro visita nas outras áreas da empresa, onde as coisas já estavam implantadas. Por exemplo, Vitória e Itabira, laboratórios grandes, já com cinquenta anos funcionando. Então o que que a empresa fez? Ela me mandou para Itabira para fazer já um estágio de quinze dias, [me] mandou para Vitória, conhecer o laboratório da pelotização. Vim aqui no Rio de Janeiro conhecer a estrutura da empresa aqui, a administração central da empresa, como era. Eu fiz curso em Teresópolis em hotel fazenda lá, muito... A empresa prepara o cara para exercer determinada... Exercer as suas atividades. 

Depois dessas visitas em Itabira nós fizemos um intercâmbio. Os caras mais experientes de lá iam em Carajás ensinar para a gente novos testes, novos métodos. E até hoje isso acontece, o intercâmbio de experiência. Nós vamos fazer, operar um novo tipo de equipamento, por exemplo; vamos adquirir, sei lá, um equipamento qualquer. Se em Itabira tem, em Belo Horizonte tem, então já manda o pessoal para conhecer o que tem lá, para não começar cego na operação do equipamento adquirido. 

Isso acontece muito na área de mina, por exemplo, que nós mudamos… Tinha uma mudança radical de caminhão de cinco toneladas para 240 toneladas. Mudamos de uma caçambinha de Mercedes para uma Haulpak que transporta 270 toneladas de minério de cada vez, então para operar um equipamento desse o operário tem que ser treinado. E treinado numa área em que já opera o equipamento, ninguém vai inventar a roda. Por que eu vou quebrar a cabeça aqui para aprender se tem um cara que sabe ali, já pode me ensinar com mais facilidade? Busca a tecnologia onde já tem, não vai perder tempo tentando descobrir nada se já tem pronto em outro lugar. 

A filosofia da Vale hoje - não sei se da Vale como um todo, mas pelo menos de um modo geral, é isso. O contrário do Bill Gates, que o Bill Gates gosta de inventar. Quando o negócio está pronto, ele destrói aquilo para começar do zero. Eu li numa revista, num jornalzinho de vocês hoje. Se tem um processo pronto, destrua, comece outro. Não é a nossa filosofia. Se tem pronto, por que eu vou me sacrificar para inventar, se o negócio... Alguém tem ali? Vamos buscar! O treinamento é isso. Vamos aprender com quem já sabe. E a empresa faz isso, ela treina os seus empregados para... Não estou puxando o saco, não. (risos) Verdade.

P/2 - A área de desenvolvimento de produtos é a sua área, né?

 

R - É a minha área hoje, dentro da mesma gerência, que é a do laboratório. Então nós temos o gerente de área, do desenvolvimento, que é a área que eu estou hoje, e tem um gerente de área do laboratório, e o gerente geral é o mesmo.

 

P/2 - E o desenvolvimento vai de acordo com a demanda do cliente ou parte da iniciativa da própria empresa?

 

R - As duas coisas. Nós temos um setor comercial que está antenado com o mercado. O comercial muitas vezes vende o produto sem saber nem se dá para fazer e liga para a gente: "Nós temos um cliente que está interessado num produto com essas e essas características." E a gente se vira para desenvolver aquele produto. 

Muitas vezes nós precisamos melhorar o próprio produto que já está sendo vendido. Por exemplo, umidade é um fator crítico no nosso minério porque nós produzimos numa região que chove muito; esse material é estocado ao ar livre e por cima é processado na usina com água, lavado, então a umidade é crítica. No navio a gente paga multa porque a umidade saiu fora do especificado. Tem um limite. E a gente estuda... É só um exemplo de como o processamento, o desenvolvimento, pode partir da iniciativa da própria empresa. Vamos ver o que que a gente pode fazer para diminuir a umidade desse material, para a empresa deixar de pagar multa por excesso de água no minério. Isso é uma melhoria do produto já existente. Quer dizer, nós trabalhamos nessa área. Desenvolvimento não significa que seja só inventar as coisas; é melhorar as que já estão em andamento, faz parte das nossas atividades também. Tudo voltado para a área de minério. 

 

P/1 - E o senhor está ______?

 

R - Já. (riso) ______ citar em números aí, fica difícil de falar oficialmente, porque eu não tenho nem autorização para falar isso. E nem seria preciso também, porque... 



(PAUSA)

 

P/1 - para a gente continuar, eu gostaria que o senhor comentasse um pouquinho desse momento da pré-operação. Quer dizer, todo esse período até 80, de repente começa todo um movimento da pré-operação de Carajás. Como foi isso?

R - De 1974 até 1980 foi uma fase de pesquisa, [de] saber o que a gente tinha em Carajás. Sabíamos que tínhamos uma reserva muito grande, de dezoito bilhões de toneladas de minério de ferro, suficiente para quinhentos anos de abastecimento de mercado, isso a gente já sabia. Então de 74 até 80 foi a fase de determinação desse volume monstruoso de minério. 

De 80 até 85 foi a fase de pré-operação, que foi a caracterização desse produto, para saber quais as qualidades. Nós sabíamos que tinha esse monte de minério lá, mas qual a qualidade dele? É bom, é ruim, é puro, é impuro? Então de 80 até 85 foi uma fase de caracterização. Nós montamos uma miniusina, um protótipo da usina grande [para] fazer todos os testes, toda a produção que a usina faz hoje, mas em escala menor, só para se conhecer as características do minério. E assim nós fizemos, determinamos resistência, umidade, teor, tudo que... Seria até impossível explicar para vocês que não são do ramo de mineração o que se faz com o minério para se poder vendê-lo ele com segurança, com a qualidade que o cliente deseja. Mas de um modo geral foi isso, de 70 - diria de 67, quando foi descoberta a jazida -, até 80 foi uma fase de pesquisa. Saber o que que tem, o quanto tem. E de 80 a 85 foi uma fase de pré-operação, quando nós começamos a mexer mesmo na mina, já a conhecer o material que a gente tinha, qual o teor do minério de ferro, quais os contaminantes do minério de ferro; fase de planejamento, de produção, de dimensionamento da usina definitiva, que está rodando hoje. 

Essa usina inicial, nós trabalhamos nela até 1985. Foi necessária a sua operação para dimensionar a usina grande. Quer dizer, o que nós fizemos nessa usina grande só multiplicamos por x para simular a produção da usina grande. Nenhum britador da usina grande pode ser dimensionado sem antes fazer um teste na usina pequena. É impossível você dimensionar um equipamento sem antes testar, saber o que que ele é capaz de produzir, o que ele vai aguentar, então foi feito tudo em escala menor para depois extrapolar para uma escala maior, que nós trabalhamos hoje. 

No dia 28 de fevereiro de 1985 saiu o primeiro carregamento de minério de Carajás. 

 

P/1 - Carajás já estava inaugurada...?

 

R - Foi inaugurada nesse dia com a presença do presidente Figueiredo lá. Primeiro trem, com 295 vagões, composto de minério de ferro e manganês. Dia 28 de fevereiro de 1985. 

 

P/1 - O que o senhor sentiu? 

 

R - Ah, muita emoção. Quando você vê um... No início eu não tinha nem ideia de que pudesse chegar àquele nível, uma coisa descomunal, muito grande. Tudo em Carajás é grande. Você vai olhar um caminhão, o pneu do caminhão é maior do que uma sala dessa. Você vai olhar um britador da usina, cabe um caminhão desse dentro do britador. É uma coisa muito grande, eu não imaginava que fosse naquelas proporções. 

Quando eu vou fazer uma análise do período que eu entrei, no acampamento em que eu vivi, ficando noventa dias no mato… Hoje eu estava lá com a minha família, com meus filhos, morando numa cidade com uma infraestrutura de dar inveja, você conhece. Vendo o primeiro trem sair e saber que eu tive participação em todas as fases - em todas, sem exceção -, dá um orgulho, um gás, um incentivo para continuar. 

Teve um período nessa época, em 1985, eu acho que isso foi o meu ano em Carajás; um período em que eu estava com o astral tão elevado, eu fazia várias atividades. Eu coordenava atividades no clube, eu era membro da Cipa, Comissão de Prevenção de Acidentes, eu era coordenador de Meio Ambiente, era Supervisor Geral do Laboratório, eu mexia com muitas coisas. Fui escolhido operário padrão da empresa no Rio aqui, aquela fotografia que eu mostrei para você. Ganhei uma semana no Hotel Glória com a minha esposa. Então eu tive... Foi o auge o ano de 1985. Eu estava meio constrangido, puto com a empresa porque não tinha cumprido o prazo de entrega das casas, porque quando nós mudamos para a Vila em definitivo, em 1982, nós mudamos para umas casas provisórias ainda. Ainda estavam construindo e eu estava meio chateado, porque estavam chegando alguns engenheiros, e as casas que eram para mudar as pessoas do meu nível estavam dando para os engenheiros. Eu não entendi na época, hoje eu entendo, eu até peço desculpas ao Mozart, que na época me tolerou. Eu fui muito rebelde na época, por algumas coisas que me foram prometidas não terem sido cumpridas no período. E hoje eu entendo por que. 

Precisava de todo mundo, então não tinha casa para todo mundo. Eu já estava morando numa, pequena, mas já estava morando. As pessoas que estavam vindo do Sul não tinham casa, então aquelas que foram construídas para que a gente mudasse para uma casa melhor estavam sendo cedidas para as pessoas que estavam chegando. Adiou-se, então, a mudança nossa para outras casas. E eu, muito chateado com isso, uma determinada tarde, no final do expediente, a secretaria dele chamou na sala: "Doutor Mozart quer falar contigo." Aí eu já comecei me armar. "Se é sobre a casa, eu vou soltar os cachorros nele." Aí já fui armado, já pronto para dar respostas duras. Cheguei, sentei na frente da mesa dele, ele: "Te chamei só para te comunicar que você foi escolhido o operário padrão da companhia." Puta merda, que vergonha que eu senti de mim mesmo. (risos)

 

P/2 - Você estava indo para detonar...

R - Eu estava indo para detonar, o cara me desarmou na hora. Eu fiquei calado, não falei nada. "Muito obrigado." Ele disse: "Mas antes de você sair eu tenho mais uma notícia para você. Você ganhou uma semana no Rio de Janeiro por conta da empresa, você e a sua esposa." Pô, acabou aí... Ah, não teve outro jeito. Chorei na frente do cara, emocionado. 

Esse ano foi muito bom, ano de pique total mesmo, todo mundo trabalhava... Até hoje, todo mundo trabalha no limite. A empresa colabora para isso, dá condições, te atende, tem toda a assistência que você quer, tanto no campo profissional quanto no apoio, saúde, escola, esse tipo de coisa. A gente se dedica [em] tempo integral à empresa, principalmente Carajás, é 24 horas à disposição. Não tem... Sem lamentações, é muito bom. 

 

P/2 - E quando a família se juntou a você em Carajás, qual foi a impressão deles?

R - Foi muito difícil. Foi um período difícil para mim, porque até 82 minha esposa, apesar da saudade, da gente estar longe desde 74, só de três em três meses se... Nesse período já era 45 dias. Fui pegando promoções, o período de campo foi reduzindo, mas ela nunca tinha saído de perto da família, da mãe, dos irmãos, e quando foi para Carajás éramos só nós dois e os três meninos. Em 82 a minha caçula já tinha nascido, estava com dois meses quando nós mudamos. E eu enfrentei uma barra muito pesada. Ela chorava dia e noite com saudade da mãe dela, querendo voltar, e me pedindo para largar o emprego, procurar um outro emprego na cidade, onde a gente pudesse viver perto da família dela, mas eu sempre fui muito ponderado. "Eu vou sair daqui para procurar emprego se eu já estou trabalhando, estou bem empregado? O que eu vou fazer a procurar emprego?” Não é prudente. No mínimo não é prudente uma atitude dessa. 

Resolvi o problema de outra maneira. Eu a mandava de dois em dois meses [pra] passar uma semana com a mãe dela; um período depois eu trazia a mãe dela para ficar um período lá em casa, junto com ela, e assim foi até ela acostumar. Hoje não quer sair de Carajás. (risos)

 

P/2- E os meninos?

 

R - Os meninos não tiveram impacto porque chegaram muito pequenos para lá, né? Em 82 uma chegou com seis anos, o outro chegou com quatro, e a mais nova com dois meses, então a vida deles foi Carajás. Eles não conhecem outra vida a não ser a de Carajás. Estudaram lá, só esse do meio que teve que sair há três anos porque fazer faculdade lá não tem. 

 

P/2 - Quais são os nomes deles?

R - É Andréa a mais velha, que tem 26 anos, nesse tempo que eu tenho de Carajás. O Júnior, o Adonias Júnior, tem 25 anos, e a Michele, que está fazendo vestibular para medicina, que tem dezoito anos, é a caçula.

 

P/2 - Eles estudaram lá?

R - Todos. Todo o estudo deles foi lá em Carajás, direto, desde o pré-primário. Menos a mais velha, que já veio com alfabetização de Imperatriz, mas os outros tudo do início do jardim da infância até hoje em Carajás. Até segundo grau, porque lá só tem segundo grau. 

 

P/1 - A família do senhor já estava em Carajás quando teve a tentativa de invasão lá, dos garimpeiros, em Serra Pelada?

 

R - Não, isso foi em 81. Minha família chegou em 82. Não tinha família nenhuma ainda em Carajás nessa época. Eles incendiaram pontes e... Não, estavam sim, estavam. Estavam em Carajás na primeira vila, na primeira casa, e foi em 82. A companhia montou um esquema todo especial para tirar a gente para o primeiro acampamento, que era o N1. Já estava desativado, mas os alojamentos ainda estavam de pé, então foi montado todo um esquema para tirar a população de lá, para proteger. E os garimpeiros ameaçaram o seguinte: “Nós vamos subir e pedir para as famílias desocuparem as casas, porque nós vamos tocar fogo em tudo, queimar tudo.” Era isso que eles iam fazer lá. 

Que foi a orientação que a companhia deu? “Se chegar alguém e pedir para sair, sai. Não vai brigar com ninguém, deixa eles queimarem.” Então já estava com um esquema todo montado para proteção das famílias, mas não chegaram a subir. Eles chegaram, foram até Parauapebas, queimaram as pontes; ficamos sem transporte, porque [a] ponte [foi] queimada. Incendiaram o acampamento da guarda florestal da empresa, que ficava lá embaixo, na barriga. Mas não passou disso, não chegaram a invadir. 

Ali existia uma repulsa muito grande dos garimpeiros com a Vale do Rio Doce. Hoje isso já não existe mais, acabou, naturalmente foi acabando. Eles foram entendendo que a intenção da Vale não era prejudicar ninguém. Eles achavam que a Vale ia tomar o garimpo deles, que ia expulsá-los, e não era isso que a Vale queria. Então para a gente, em Parauapebas, quando começou... A gente não podia descer uniformizado para lá. A gente era alvo de piadas, de agressão física até.

 

P/1 - Em Parauapebas?

 

R - É. Os carros não podiam ter o logotipo da empresa, se precisasse descer tinha que tirar o logotipo da empresa para não ser reconhecido, porque era agredido pelo pessoal de lá de baixo. E isso até pouco tempo atrás ainda era assim. Até em 88, quando emancipou Parauapebas, ainda era assim: "Ah, porque o pessoal de Carajás é metido, o pessoal de Carajás é isso, é aquilo..." Mantinha aquela distância. Hoje não, a integração é total, mas até 88 era assim. Serra Pelada, nem pensar de empregado da empresa pisar por lá. Um clima muito hostil à empresa. Hoje acabou, naturalmente acabou.

 

P/2 - O que e como isso aconteceu para que...?

 

R - Acabasse? Eu acho que a Vale começou... Em todas as áreas onde a Vale atua ela tem um programa de atendimento às comunidades. Por exemplo, ela faz hospital, ela asfalta estradas, ela faz escolas. Ela começou a fazer isso nas regiões, em Parauapebas, Florianópolis, em Eldorado, são as três cidades que ficam mais próximas. Começou a fazer hospital, começou a fazer escolas, começou a atender à população rural, colocando técnicos agrícolas para orientar os produtores, e a população começou a ver que a empresa não era o bicho papão que eles estavam achando que era. 

Hoje você já vê, as prefeituras vão lá, pedem ajuda: "Pô, me ajuda a fazer aquela ponte que caiu, que a prefeitura não tem condições de fazer." A Vale vai lá, dá o material, põe técnicos à disposição para ajudar. E foi acabando assim, a população foi percebendo que... Também cada vez mais a região foi dependendo da Vale do Rio Doce em matéria de emprego; quem não se emprega na Vale se emprega numa prestadora de serviço da Vale do Rio Doce. E isso foi se tornando uma família só. Não tem mais aquela repulsa da empresa. 

Hoje a Vale do Rio Doce é uma empresa bem aceita e a gente não tem mais restrições quanto a andar em qualquer lugar na região, por ser empregado da Vale do Rio Doce, como tinha antes. Foi isso que fez a população mudar de cabeça: "A Vale não é bem isso que a gente quer, que a gente pensa." 

 

P/1 - Ao mesmo tempo que o senhor, com o núcleo já formado, Carajás inaugurado, que momentos marcantes o senhor viveu ali, no meio desse período? Episódios mais marcantes?

 

R - Bom, às vezes acontece tão pouca coisa em Carajás, que a gente... (risos) Mas um momento marcante foi esse da minha escolha para operário padrão em 1985. Isso marcou muito, foi o único período que eu mais desenvolvi atividades acumuladas. E a outra foi um pouco antes, quando a minha família chegou em Carajás, em 1982. Para mim foi o período mais importante, eu estava há oito anos sozinho, e achava que eu nunca ia ficar junto da minha família, ia sempre viver daquela maneira. Então dois períodos: em 82, com a chegada da minha família [e] em 85, com essa escolha para operário padrão, essa gama de elogios que eu recebi do próprio superintendente. A inauguração da estrada de ferro, inauguração do laboratório que eu próprio ajudei a construir, ajudei a dimensionar; era gente que supervisionava a construção, tamanho das salas, onde vai ficar cada equipamento. Foram realizações que me orgulharam extremamente na empresa. De lá para cá nada de tão marcante, não. 

 

P/1 - E a privatização, por exemplo, como foi a…?

 

R - Foi outro período marcante, mas de muita tensão. Não foi muito bom para ninguém a privatização da empresa. Muita tensão, muita ameaça, muito medo. Uma prova é que eu acho que mais da metade dos empregados da empresa perderam os seus empregos, sendo demitidos, ou aposentados, ou transferidos para empreiteiras. Um período de muita tensão. Eu mesmo sofri muito com a incerteza se iria continuar ou não. Minha esposa também a mesma coisa, talvez até por temer sair - talvez não, com certeza por temer sair, já com 46 anos de idade. Sabe que no Brasil, [quando] passou de quarenta não adianta mais procurar emprego, se não for numa empresa da família, não trabalha mais. 

Deu muito medo de sair. Os próprios gerentes não tinham a segurança de chegar para você e falar se você ia sair ou se ia ficar, então era aquela indecisão, tirava o sono de todo mundo. Foi um período muito ruim para todo mundo, a privatização da empresa. E as coisas perduraram por mais um ano, foi privatizado em maio de 97. Logo em seguida houve um programa de demissão voluntária, que não é bem voluntária assim. Incentivo [para] quem quiser desligar, quem estiver próximo de aposentar: a Vale oferecia x salários por cada ano de empresa, mais tantos anos de assistência médica. Era um incentivo como faz o Banco do Brasil, a Petrobrás, e muitos aproveitaram para sair - uns por vontade própria, outros por pressão. Não adianta esconder, isso aconteceu mesmo. Mas os remanescentes, com um ano e pouco depois da privatização, as coisas foram se acomodando. 

Hoje saem pessoas, pessoas são demitidas ainda, mas normalmente como saem de toda empresa: os caras não querem mais ficar ou deu algum tipo de problema, tem que sair, mas nada mais em função de ter sido privatizada. As coisas voltaram a funcionar normal, até porque precisa, o empregado precisa de tranquilidade para poder trabalhar. Você não pode trabalhar com medo de ser mandado embora. Duas coisas que você precisa para produzir bem, que isto sirva de recado para a empresa até: é você estar bem em casa, com sua família, e estar bem no seu trabalho. Você precisa de paz para produzir. Não adianta também você estar em paz no serviço e ter problema na família. Você não vai produzir legal. E se você não está em paz na empresa, você fatalmente terá problemas em casa. Você chega de mau humor, a sua paciência não é a mesma para suportar algumas coisas que seus filhos fazem, você começa a brigar, começa a discutir. Atenção, né? Precisa ter essas duas coisas: paz no lar, paz no emprego. O resto é o resto. 

 

P/1 - E como é o cotidiano do senhor em Carajás? Como é o dia a dia, como é a vida lá?

 

R - Bom, eu acho que deu para perceber. É trabalho... Eu sou um cara muito caseiro. Um churrasquinho na casa de um colega, o clube, que fica na frente da minha casa - seria até sacanagem se eu não frequentasse - e a feirinha lá, [para] tomar um sorvete. Não bebo, não fumo, vou na feirinha só para tomar um sorvete, ver o movimento. 

A vida social de lá é isso. É um show que a empresa traz de vez em quando, de um cantor, um time de futebol das cidades vizinhas. E o ano passa e a gente ali dentro, clube, feirinha, serviço. Todo mundo se conhece. Quase ninguém vai na casa de ninguém ali, só os mais íntimos: "Ah, tem um churrasquinho lá em casa! Um aniversário!" Mas para sair assim: "Eu vou visitar fulano", em Carajás dificilmente se faz isso. O pessoal é muito em casa. Você vê um final de semana, você pode sair pelado na rua, você não vê ninguém. Todo mundo trancado vendo televisão ou em Parauapebas tomando uma cervejinha. A vida social lá é... Não tem como inventar, não dá para ser diferente disso. 

 

P/2 - E a empresa promove festa de Natal…?

 

R - Promove. [No] Dia dos Pais sempre tem atividade nos clubes. Tem um centro de desenvolvimento comunitário que promove atividade para as esposas que não trabalham, [que] ficam muito sozinhas em casa, o dia inteiro. Tem curso de culinária, de corte e costura, essas coisas para preencher o tempo.

 

P/2 - O mesmo deve ter para a garotada.

 

R - Para a garotada. A escola toma o tempo da garotada inteiro. Tem curso de música, judô, essas coisas para a criançada; natação, é bastante atividade. A empresa se vira para não deixar a coisa cair numa rotina muito desgastante. Leva cantores de fora, vários cantores; quase todo mês tem gente de fora lá, dando show. Foi o Moraes Moreira, Zé Ramalho, esse pessoal da música popular. 

 

P/2 - Você falou, Adonias, que no ano que você ganhou o operário padrão você mexeu com questões de meio ambiente.

R - Mexi.

 

P/2 - O que é?

 

R - É o controle... Antes, a preocupação... A empresa podia até ter preocupação, mas não tinha aquela diretriz, não tinha... As questões ambientais não estavam na moda como estão hoje. Quando surgiu em Carajás esse negócio de meio ambiente, que teria que proteger, foi até uma exigência do Banco Mundial. Parece que para soltar um empréstimo para a empresa, teria que cumprir determinadas regras, uma das quais é a proteção do meio ambiente. A empresa teria que trabalhar sem degradar o meio ambiente. 

Então foi formada a primeira comissão em 1982: Comissão Interna de Meio Ambiente, que eu fazia parte também; cheguei à coordenação em 85. É você fiscalizar, por exemplo, caça. Foi proibido caçar naquela época, o próprio empregado da empresa caçava lá em cima, matava animais, pássaros, para comer, sem necessidade. Lá ninguém necessita de caçar para comer, mas não existia uma proibição. Preservação das áreas verdes da empresa, se fiscalizava desmatamento, esse tipo de coisa. O problema do lixo, a educação do pessoal era muito pouca a esse respeito, o cara comia o sanduíche, jogava o papel no meio da rua. Coisa desse tipo, que hoje você não vê mais. A função da Coordenação de Meio Ambiente era ver tudo isso. 

Ajardinamento do núcleo... Eu tive o prazer de ajudar a plantar o primeiro jardim do núcleo de Carajás. Foi na Rua Jari, a primeira casa aditada. Fomos lá junto com o técnico de agronomia, tomávamos conta desse negócio de paisagismo. E mais uma equipe, inclusive minha esposa, fomos plantar o primeiro jardim de Carajás, nós fizemos lá. Isso é gratificante, isso tem até gravado. 

Nós começamos muito timidamente, sem conhecer. A própria empresa não sabia a que proporções ia chegar esse problema ambiental. Nesse ano de 85 foi o auge - no meu caso, eu cheguei à Coordenação de Meio Ambiente, junto com a esposa do Thiers [Barzotti], que hoje é... Foi diretor do Sistema Norte, foi presidente da Albrás, foi presidente da Docegeo, hoje está na Ferrovia Centro-Atlântica, é presidente lá. A esposa dele era a Coordenadora Geral do Meio Ambiente em Carajás e eu fazia parte dessa coordenação. Nós fizemos um projeto [em uma época de arborização do próprio núcleo, nas estradas de acesso à mina, então tinha uma atividade bem intensa nesse aspecto. A gente recrutava o próprio pessoal do setor de trabalho pra   plantar; arrumava as mudas e incentivava o cara: “Essa árvore é sua. Vai lá, planta!” O cara ia lá, plantava, regava até a fase adulta, então batizava aquela árvore como dele. 

O meio ambiente começou a ser cuidado em Carajás dessa maneira. Vários empregados foram demitidos porque matavam bichos: jacaré, tatu, essas coisas. A empresa teve que agir com certo rigor no início para implantar o sistema, porque senão não daria certo. 

E mais conscientização, treinamento do pessoal, das esposas. Nós tínhamos uma assistente social que fazia parte da Coordenação, que ia na casa das esposas, ensinava como que acondicionava o lixo, quais os dias que tinha que pôr o lixo na rua, por que não podia jogar a casca de banana, a casca de laranja, no meio da rua. Existia toda uma fase educacional da população, que não tinha esse costume de limpeza, de zelo pelo meio ambiente. Motoristas que… Hoje, em ônibus, o cara vai lendo o jornal aqui, acabava de ler o jornal, embolava e jogava pela janela do ônibus. A gente instalou coletores de lixo a cada dois quilômetros, ao longo da estrada que vai para a mina, providências desse tipo. Põe os motoristas de ônibus numa sala e fala: "Olha, não abre a janela, para não jogar. Carrega o cesto de lixo dentro do seu carro." Coisa desse tipo, quer dizer, orientação mesmo para a população. 

Hoje você anda em Carajás, você não vê... Quando você vê uma ponta de cigarro ou uma latinha de cerveja jogada na rua, não foi jogada por pessoal de Carajás. Um dia de festa qualquer sobe alguém de outras cidades vizinhas e faz esse tipo de coisa, mas o pessoal de Carajás mesmo não é. Hoje não faz mais isso, a consciência está... É uma cidade muito limpa, você conhece lá, né? 

 

P/1 - Que tipo de regras se tem pra conviver em Carajás? Até onde se pode fazer, na sua própria casa, por exemplo, no jardim, como é um pouco esse...?

R - Inicialmente, a administração de núcleos… Nós temos lá em cima tipo uma prefeitura da Vale do Rio Doce, que cuida da limpeza das ruas, das áreas públicas do núcleo. Por exemplo, da minha calçada à frente da minha casa, do meu quintal, cuido eu, mas tem as áreas comuns, que são as avenidas que não têm nem residentes, área de clube, essas coisas assim, então tem uma administração de núcleos, tipo uma prefeitura, que cuida das regras. 

Lá você não pode, por exemplo, pôr oficina de bicicleta na garagem da sua casa. Tem um código de normas: o manual do morador, que estabelece determinados... Que você tem que pintar a casa de tanto em tanto tempo, que você não pode vender, botar loja em casa; se você quiser pôr uma lojinha você tem que ter um setor comercial onde a empresa aluga, dependendo da disponibilidade. Se estiver vazio, aluga, faz concorrência, aluga o ponto comercial, para você pôr uma loja. Você não pode pôr uma fábrica de pastel na garagem da sua casa, fazer uma puxada, por exemplo, cobrir de lona ou de telha que não seja telha padrão da empresa. Tem todo um código de normas que tem que se seguir. E que hoje não é mais preciso a empresa estar dizendo para o empregado o que ele tem que fazer, todo mundo já se adaptou, tornou automático as coisas. E aquela beleza de cidade, limpinha, tudo cuidado, jardim, grama toda aparadinha, toda arborizada a cidade, limpeza diária, lixo orgânico, resto de construções, tudo são... É uma coleta de lixo seletiva que nós temos lá. O lixo de construção vai para um lado, o resto de material de construção vai para um lado, o lixo vegetal vai para o outro, o lixo doméstico, resto de comida, esse tipo de coisa, vai para o  outro. Um troço que deu trabalho para implantar, mas que está implantado e está funcionando como um relógio. O trabalho foi só fazer as engrenagens, agora está automaticamente funcionando, sem problemas. 

 

P/1 - Sua esposa tem alguma atividade lá?

 

R - Não, só em casa mesmo. Ela gosta muito de fazer cursos. Tudo que aparece de cursos ela faz. Culinária, natação. 

Ela é muito ativa, mas não trabalha para contribuir com a renda da família, não. É mais atividade doméstica mesmo, cuida da casa, dos meninos. Menino que eu falo é o mais novo, que tem dezoito anos.

 

P/1 - Que mora lá ainda?

R - Está em Belém. Nós estamos só os dois agora. Começamos. (risos)

 

P/2 - Por exemplo, os filhos estão... Um está em Belém?

 

R - Uma casou, está morando em Parauapebas, na cidadezinha próxima lá. E um estuda em Imperatriz, o do meio. Está fazendo faculdade, termina o ano que vem. A outra está em Belém, fazendo vestibular... Está fazendo cursinho para prestar o vestibular no final do ano, agora, para Medicina. Quer Medicina, invocou que quer Medicina. 

 

P/1 - O senhor tem netos?

 

R - Tenho uma netinha de um ano de idade. (risos)

 

P/2 - Já foi para Carajás?

 

R - A menina, a netinha? Todo final de semana está com a gente lá. São trinta quilômetros de distância. 

 

P/2 - E os seus irmãos?

 

R - Meus irmãos tudo lá junto com... Alguns fora, debandaram aí no mundo, mas a maioria está junto com o meu pai, lá no interior de origem.

 

P/1 - A família se reúne de vez em quando, tem algum evento que reúne a família? 

 

R - Não. Porque eu tenho uma irmã no Mato Grosso, tem uma em Roraima e eu em Carajás, são os três que estão fora. E tem uma em São Luís, capital do Maranhão. O resto mora lá com o meu pai. Então nós nunca [nos] reunimos, nunca fizemos um Natal ou um aniversário do velho lá. 

Todo ano eu tenho a ideia. “Esse ano nós vamos reunir, vamos fazer um churrascão lá para todo mundo.” Mas sempre quando... Eu, principalmente, quando saio de férias, tenho alguma coisa para fazer, alguma coisa para mexer. Eu tenho uma casa em Imperatriz, tenho duas em Parauapebas, inclusive a minha filha mora numa casa minha lá. Sempre você tem alguma coisa para cuidar. Um exame médico... Por exemplo, eu vou chegar em Carajás amanhã; na próxima sexta-feira vou ficar a semana em São Paulo [para] fazer a revisão médica total, ver como é que anda a máquina. Quer dizer, a folga que você tem... Nas férias, sempre a gente tem alguma coisa para fazer, termina deixando a reunião familiar para o futuro e aí nunca fizemos. 

 

P/2 - E nas férias, além dos seus compromissos, você e a sua mulher costumam viajar, vão para algum...?

R - É, normalmente a gente... Nas últimas férias, nós temos passado... por exemplo, a gente divide. Passa um pouquinho com essa que está em Parauapebas uma semana mais ou menos, aí com essa que está em Belém fica mais uma semana; o outro está em Imperatriz, vai lá, fica mais um pouco de tempo. A gente gasta as férias só nesse trajeto, visitando os filhos. 

Geralmente quem viaja mesmo são os filhos. "Ah, pai, eu quero passar as férias lá em Parnaíba." Tem lá o Delta do Rio Parnaíba, muito bonito, então geralmente eu mando. E como não sobra, não dá para todo mundo, então termina sobrando para mim mesmo. "Ah, vamos ficar quietos, deixa os meninos..." O que deveria ser o contrário. 

Minha filosofia é a seguinte... Minha mulher não concorda, mas eu defendo muito: nós temos que aproveitar, eles estão começando agora. Eles vão começar a trabalhar, vão se formar, trabalhar, vão gastar o dinheiro deles onde eles quiserem. Deixe eles em casa, vamos passear nós dois. Nós estamos chegando, dobrando o Cabo da Boa Esperança, eles estão começando agora. "Tá, manda os meninos, a gente fica." E assim tem sido a vida.

 

P/1 - E seu Adonias, seus projetos de futuro, seus sonhos?

 

R - Olha, nessa fase que a gente tem de empresa o projeto é aposentar futuramente e comprar um sítio. 

 

P/1 - Comprar um sítio?

 

R - É, porque se eu sair da empresa antes de aposentar eu não vou mais procurar emprego. Eu vou ter que cuidar de uma atividade qualquer - sei lá, talvez um comércio, uma loja sei lá de quê, não tenho nem ideia. Eu nem penso nisso. E se eu sair aposentado, eu vou cuidar de um... Talvez criar umas vaquinhas, sei lá. Mas eu não tenho nada definido, não. Acho que tem muito para trabalhar ainda. 

O Fernando Henrique está dificultando demais esse problema de aposentadoria, todo ano aumenta cinco anos para frente, então vou ver até quando a Vale vai me aguentar. Depois que a Vale... Se eu sair aposentado é uma coisa. Sair sem aposentar, eu vou fazer os planos quando já tiver definida a situação. Por enquanto não adianta, porque o cara empregado não dá para cuidar de outra atividade. Você não faz bem nenhuma das duas. Eu tenho amigos lá, que: "Ah, eu vou começar a criar gado antes de sair, porque a hora que eu sair já estou com o negócio estruturado." Termina nem fazendo bem o trabalho na empresa, nem cuidando bem do gado lá, da terra, do sítio. Então, por experiência, não dá. 

Se você morar na cidade é mais fácil. Você pode trabalhar, a mulher está cuidando de um troço, um salão de manicure ou sei lá o quê, mas em Carajás não tem jeito. Em Carajás ou você dedica à empresa ou sai da empresa para fazer outra coisa. Não tem muito...

 

P/1 - Então eu vou fazer a última pergunta para o senhor: se o senhor gostaria de falar mais alguma coisa que a gente não perguntou e o senhor queria comentar, e perguntar o que o senhor achou de participar desse projeto de memória, desse _______, e ter prestado, participado com o depoimento.

 

R - É, eu acho que... No início… Eu te falei antes da entrevista que eu estava me escondendo desse programa. Não gosto de aparecer em televisão, não gosto de fazer fotografia, porque eu tenho fotografia desde criança, nunca olhei uma que eu me agradasse. Eu acho que sou feio demais e não fico bem em nada, nem em fita, nem em foto, nem nada, então eu não gosto. 

Três coisas que eu detesto: filmagem, fotografia e telefone. Na minha casa eu não atendo e não faço ligação. O telefone fica por conta dos meninos, da mulher, eu fico o ano inteiro sem dar um telefonema para ninguém. E nem atendo também. Se eu estiver sozinho em casa, quem ligar para lá está perdendo tempo porque eu não atendo. Não é uma questão que diz que não atende, quer criar como norma, não, é porque eu não gosto, eu detesto o troço. 

Depois eu conversei com o Agostinho, ele falou que já tinha feito o programa. Eu digo: "Não, deixa para lá, um dia eu vou resolver fazer." E quando eu recebi o telefonema da Débora, eu já tinha recebido a carta do presidente da empresa confirmando. (risos) Eu não sou bobo, eu entendi aquilo como uma intimação. Eu digo: "Bom, agora não dá para dizer que não vai." Mas eu fico feliz em ter participado, até para deixar registrada uma coisa que estava no anonimato até agora. Tenho uma vida toda na empresa, ajudei a construir, participei de todas as fases, todas, sem exceção, da empresa em Carajás: a fase de pesquisa, a fase de pré-operação, fase de operação, em que nós estamos agora; o primeiro acampamento, a vila provisória, o núcleo definitivo. Os três laboratórios que a empresa já teve lá em Carajás, [de] todos três eu participei, começando da construção, da operação. 

É uma coisa que ninguém sabia, só o pessoal que me conhece em Carajás que tinha essas informações. Eu fico satisfeito de ter registrado e orgulhoso por ainda fazer parte do quadro de empregados da Vale do Rio Doce. Eu acho que ainda estou sendo útil, porque se eu não estivesse sendo útil, a empresa não estaria me pagando. Então eu fico muito feliz, e gostaria de agradecer às pessoas que contribuíram para essa trajetória minha na empresa, que foi o Rangel, que hoje é meu gerente geral, o Mozart, que foi o nosso primeiro superintendente, hoje é diretor de minério da empresa, e o Ricardo Antunes. Não é porque essas pessoas cresceram, não, [é] porque são pessoas que começaram do zero, juntos, andando a pé, andando de caminhão, comendo fora de horário, dias que não almoçávamos porque não tinha tempo de almoçar, então... Começamos a construir Carajás do zero. Por isso que... São pessoas que estavam numa posição acima da minha, que me suportaram, me ensinaram a trabalhar. Sou muito grato, e a vocês que me trataram com essa simpatia toda, muito obrigado a vocês.

 

P/1 - Foi ótimo.

 

P/2 - Obrigado. 



Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+