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História

O primeiro dia que custou dois dentes

História de: Fabrício Antônio Silva
Autor: Kathleen Loureiro Reis
Publicado em: 17/08/2021

Sinopse

Fabrício Antônio Silva é montes-clarense nascido em 31 de março de 1976. Trabalhou como vendedor de carros e, depois, como propagandista no Aché. Ama seu trabalho, e tem muitas histórias para contar, sendo a mais memorável em seu primeiro dia de trabalho, em que caiu da escada depois de visitar um médico, cortou o cotovelo e quando chegou ao posto para realizar a sutura, acabou desmaiando e quebrou dois dentes.

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História completa

Projeto: Aché - Cabine Mangaratiba

Realização Museu da Pessoa

Entrevista de Fabrício Antônio Silva

Entrevistado por Débora Santos

Mangaratiba, 29 de abril de 2002

Mangaratiba - 009

Transcrito por Samir Pérez Mortada

 Revisado por: Sâmmya Dias

 

P/1 - Me fale o seu nome completo, local e data de nascimento.



R - Fabrício Antônio Silva, Montes Claros, Minas Gerais, nasci em 31 de março de 1976.



P/1 - Quando você começou a trabalhar no Aché?



R - Eu comecei a trabalhar no Aché no dia primeiro de setembro de 2000, em Montes Claros mesmo.



P/1 - E como é a cidade de Montes Claros? Como é o seu trabalho no dia-a-dia?



R - Meu trabalho é um trabalho prazeroso, cada dia inovando mais, sempre buscando novas alternativas. É um trabalho que hoje eu estou muito satisfeito por trabalhar no Aché, é uma profissão nova para mim, que cada dia me entusiasma mais.



P/1 - E você é o único representante nessa região?



R - Não, lá nós somos um grupo de seis acheanos.



P/1 - Certo. E vocês têm contato com outros, de outros laboratórios, outros propagandistas?



R - Sim, somos muitos. Tem propagandistas de outros laboratórios, na sede mesmo. São vários laboratórios, se eu for começar a citar aqui eu vou passar longas horas (risos), mas tem um grupo de aproximadamente uns 40 representantes.



P/1 - E vocês se encontram? Vocês têm um ponto de encontro em algum lugar?



R - Nós temos um ponto de encontro no Aché, mas sempre nos encontramos com os outros colegas em consultórios, em farmácias... Sempre estamos nos encontrando lá.



P/1 - E vocês almoçam juntos? O pessoal do Aché, o pessoal dos outros...



R - Sempre estamos saindo, fazendo confraternizações, sempre a gente está junto. 



P/1 - E qual lugar que você vai na cidade de Montes Claros? Tem um local, um bar que vocês vão. Qual o nome do local...



R - Você fala que a gente se confraterniza?



P/1 - Isso.



R - Sempre tem uma churrascaria. Chama ‘Chimarão’. Tem o barzinho lá que é o Barril, que é muito bom, dá para descontrair bastante.



P/1 - E como você foi para o Aché? Como você resolveu ser um propagandista?



R - Bom, na realidade é uma história que nem eu sei citar direito. Eu trabalhava como vendedor de veículos, e eu não sei como surgiu, eu fui convidado a fazer uma entrevista. Nem passava pela minha cabeça um dia ser propagandista, e nessa entrevista despertou certo interesse por minha parte, por conhecer uma rápida história do Aché, e isso me entusiasmou bastante, poder um dia fazer parte desse Grupo Aché, na realidade ser um acheano. E passei por uma breve entrevista. Na realidade era um banco de dados que o Aché estava fazendo na minha cidade, e eu não sei como eles chegaram até mim. Por dedução, eu acredito que eles foram atendidos por mim lá na loja de venda de veículos. Eu trabalhava na Autonorte, é da rede Chevrolet, e deve ter sido por aí que começou tudo. Eles acreditaram no potencial e fizeram a entrevista. Depois de um ano e meio tornaram a fazer, e aí surgiu a vaga, e foi onde começou.



P/1 - E logo que você foi para lá você achou interessante pelo menos a profissão? Você achou que era muito diferente do que você fazia?



R - Totalmente diferente do que eu fazia, no ritmo cotidiano mesmo. Eu passei a viajar, eu passei a ter um contato mais externo; não tem um escritório. Isso foi uma mudança, mas nunca deixou de ser partilhado de uma origem única, que é vender, é você sempre atingir seu objetivo. E continuo assim.



P/1 - E as vantagens da empresa também eram mais interessantes?



R - Sem dúvida nenhuma. Nossa, tanto é que despertou um enorme interesse. Não financeiramente, mas sim com a estrutura que o Aché hoje oferece para o propagandista. Ou seja, o seu funcionário de modo geral.



P/1 - E você acha que tem muita diferença do seu trabalho na região que você está com o resto? Por exemplo, com a capital... 



R - Se há diferença?



P/1 - É. Com as visitas aos médicos…


R - Não, sempre nós estamos trocando ideias aqui nas reuniões, e de modo geral torna-se tudo a mesma coisa.



P/1 - E o seu contato no dia-a-dia dos médicos, chegar nos pacientes, ficar sentado, aguardando... Você pode contar alguma coisa?



R - Até certo ponto, em alguns momentos a gente passa por certo stress, porque nós temos um volume de visitação diária, e às vezes você atrasa em um médico, atrasa no segundo, no terceiro, e no quarto você já começa a se preocupar com a visitação, que está sendo comprometida. Mas de modo geral é sempre prazeroso você estar sempre contando uma ideia, sempre ouvindo uma história diferente, e a gente do Grupo Aché é muito bem-vindo em cada consultório. 



P/1 - Você faz não só a sua cidade, Montes Claros, como outras cidades. Quando você está em Montes Claros você consegue almoçar em casa?



R - Ah, sem dúvida nenhuma eu procuro fazer, eu faço questão de procurar sempre almoçar em casa com a minha família.



P/1 - Você consegue manter esse...



R - Eu procuro sempre. Por ser uma cidade de menor porte ela me dá essa condição.



P/1 - E quando você viaja, você pega a estrada. E você poderia me dizer quais são as cidades mais ou menos que você faz?



R - No meu setor? Reduziu bastante. Com essa nova filosofia do Aché, objetivando um maior receituário, então a gente procurou cortar algumas cidades. Hoje eu visito um setor do norte de Minas, a cidade de Janaúba. É uma cidade de grande porte, para o interior. Visito também Mato Verde, Monte Azul, Espinosa, faço também Januária, Brasília de Minas e Bocaiúva. E a sede, que é Montes Claros, é onde tem o maior porte.



P/1 - E as outras cidades são muito pequenas? Têm poucos médicos? Como é que...



R - Tem poucos médicos. São cidades que não oferecem o respaldo que esperamos, e o custo/benefício ainda não é tão favorável. 



P/1 - E nessas cidades que são pequenas vocês não visitam as farmácias? Só visitam médicos?



R - Só visitamos médicos. A visita à farmácia que nós fazemos é para acompanhamento de produto mesmo, saindo ou não.



P/1 - E todos os seus concorrentes nessa área fazem esse mesmo serviço que vocês fazem, ou nessas cidades pequenas é só o Aché que chega?



R - Algumas cidades só o Aché vai, outras... É porque muitas priorizam a cidade de maior porte.



P/1 - E você tem algum que é marcante, que você lembra de ter feito algum diferencial na campanha?



R - Sem dúvida nenhuma. Eu tenho uma relação muito íntima com o Biofenac, que é um produto que me acompanha desde quando eu entrei no Aché e ele está comigo até hoje, e eu tenho uma relação muito forte com o Biofenac. É um produto que quando eu faço a propaganda, eu faço com um entusiasmo muito grande. Não que eu não faça com os outros, mas é que eu tenho uma relação mais íntima com o Biofenac.



P/1 - E você criou alguma estratégia diferente, individual?



R - Não. A propaganda pessoal mesmo, do dia-a-dia, nossa, que é muito gostosa de fazer.



P/1 - E como foi o seu primeiro dia de trabalho no Aché? Você tem uma história para contar sobre isso.



R - Realmente, quando a gente entra no Aché a gente fica um pouco reprimido, e acaba ficando com vergonha de fazer uma propaganda. Na verdade, você vai ter um contato com o médico, que sabe de tudo o que você vai falar, e você fica com medo, inibido de falar alguma coisa errada e acabar ele gozando de você. Então a gente realmente tem uma certa dificuldade no início, e eu tive uma experiência logo no início do Aché, foi logo um mês depois de eu ter entrado. Eu estava no interior, em Janaúba, e fui visitar um médico lá, e posteriormente à visita... Para você chegar até o consultório - ele está no andar de cima - é um corredorzinho, uma escada bem íngreme e grande, bastante distante. E faz uma curvinha lá, muito fechadinha. E logo eu terminei a visita, saí bem descontraído com o médico. Na hora que eu saí o médico me chamou de novo a atenção para fazer uma solicitação do medicamento. No que eu voltei, no que eu retornei, eu escorreguei na escada, e realmente foi bastante engraçado. Eu caí na escada de costas e fui caindo até o último degrau. E meu gerente distrital lá embaixo; meu supervisor - na época era supervisão -, ele me esperou lá embaixo. Eu caí, tranquilo, parei... Isso era por volta de meio-dia. Só para vocês entenderem melhor. Por ser novo no Aché, eu preocupado e o supervisor me liga: “Fabrício, amanhã nós vamos para Janaúba, e você me pega no hotel qual horário?” Falei: “Às seis e meia.” Seis e meia da manhã eu iria pegá-lo no hotel. E não deu tempo de eu tomar café em casa. Mas eu cheguei no hotel às seis e meia, e ele me perguntou: “Fabrício, você já tomou café?”, respondi: “Já tomei.” Novo no Aché, preocupado em falar que eu não tomei: “na hora que deu uma folguinha lá, nove horas, lá em Janaúba, eu faço um lanchinho leve.” Coisa que não deu, né? A visitação foi comprometida, e acabou que tivemos que correr atrás. Era por volta de meio-dia e quinze que eu fui visitar esse médico. Eu só estou falando isso para ilustrar melhor. E só para você ter uma ideia de como é a cidade, o clima lá é tão gostoso, que 39 graus lá era na sombra (risos). Então imagina: você está meio-dia e meia, em jejum, depois de uma viagem de quase 200 quilômetros de carro, trabalhando até meio-dia e meia visitando médico num sol de 39 graus na sombra... Você cai de uma escada, bate o cotovelo. Cortou o cotovelo assim, que saiu sangue para caramba. Mas eu até então estava tranquilo, demonstrando: “Não, o que é isso, beleza!” O supervisor lá com a gente. Falei: “Não, Brito - ele chamava Brito -, tudo tranqüilo, não precisa se preocupar, não.” E nós fomos no pronto-socorro: “Agora nós vamos dar um pontinho aqui e tudo se resolve." E fui para o pronto-socorro com o Brito. O Brito segurou minha pasta, beleza, tranquilo... E abalado obviamente. Jejum, meio-dia e meia, sol de 39 graus, depois de uma queda dessa... E eu ainda estava em pé. Até aí tranqüilo. Cheguei no pronto-socorro, aí o Brito saiu para visitar mais dois médicos. Falou: “Fabrício, tudo tranquilo aí?” e eu respondi: “Tudo tranqüilo”, ele disse “Eu vou ali visitar os dois médicos que ficaram faltando e você aguarda aí que ele vai dar o ponto”, “Beleza, Brito, pode ir tranquilo.” E nesse intervalo eu comecei a falar com a enfermeira. Falei: “Olha, minha pressão está caindo - isso eu em pé; minha pressão está caindo, estou sentindo que eu vou cair.” Ela riu na minha cara e falou: “O que é isso, você está assustado; não se preocupa, não. Senta e fica à vontade.” Eu só lembro até aí. Posteriormente isso aí eu lembro, eu acordei... Estava no chão, acordei e só vi aquele monte de pé ao meu redor. Olhei para um canto, olhei para o outro e só pé. Falei: “Gente, o que está acontecendo?” Quando eu botei a mão na minha boca assim, aquele sangue. Cortei minha boca toda pelo lado de dentro. Passei a língua e senti falta de dois dentes. Falei: “Cadê meus dentes?” E eu comecei a ficar meio nervoso: “Cadê meu dente”, boca cortada, sangrando muito... Aí a enfermeira: “Não, meu filho, você está assustado, você não perdeu dente, não; o seu dente está aí.” Passei o dedo e não vi o dente. Eu falei: “Minha filha, eu estou passando a língua aqui e estou sentindo falta dos dentes.” Ela: “Não, você está preocupado; ele não está falando coisa com coisa...” E começou a falar isso para mim. Eu comecei a ficar mais nervoso ainda. Nessa hora o Brito chegou, e eu falei: “Brito, quebrei dois dentes aqui e não sei o quê, e está doendo demais. E o pessoal está falando que eu não quebrei o dente!” ele respondeu “Calma, Fabrício, calma, Fabrício...” Aí a outra enfermeira: “achei dois pedaços de dente. É seu?” Eu falei: “minha filha, isso aqui é meu, isso pertence a mim!” Na hora que eu lavei a boca, aquilo faltando dois dentes, deitei lá, aí começou: “Não, ele não tem nada, não.” O médico me examinou e falou: “Parece que realmente ele quebrou os dois dentes.” Aí eu fui colocar o dente no leite, tal... E por incrível que pareça, isso aconteceu era por volta de meio-dia e quinze, quando foi duas da tarde a minha cidade-sede, que é Montes Claros, todos os representantes lá da minha cidade já estavam sabendo. 



P/1 - (risos) 



R - Então você vê que notícia na boca de representante corre na velocidade da luz. Duas e meia e meu telefone tocou: “ô, Fabrício, eu fiquei sabendo que você caiu de uma escada aí e quebrou dois dentes...” A minha história inicial no Aché foi essa aí. Preocupado, tudo, muito nervoso, muito tenso, com o supervisor do lado, realmente aconteceu esse lance aí que eu jamais irei esquecer. E todo o dia que o Brito encontra comigo em reunião ele me lembra disso: “Como é que está o dente?” No dia seguinte eu fui fazer uma propaganda e ele me apresentou como “o feiticeiro”, fazendo propaganda assim para o médico: “Doutor, aqui está o grand finalle”, porque eu não podia mostrar minha boca assim para o médico. Tudo cortado e faltando dente, os dois da frente: “O que foi que você está com a boca assim?” Aí o chefe: “Não se preocupe não, que ele é igual a Feiticeira” (risos). Entrevista médica assim. Então passou isso, foi uma gozação daí para a frente. Diziam que eu ia até ser processado no local do acidente, que alguém subiu na escada lá, cortou o pé, e quando foi ver era meus dois dentes fincados lá no negócio (risos). Estou correndo risco até de ser processado lá... Mas é isso.



P/1 - Na verdade vocês são muito brincalhões, gozadores um com o outro.



R - É. Você precisa ver como essa história distorce. Cada um conta essa história de uma forma, e acabo achando graça eu mesmo.  



P/1 - E com todos os médicos vocês também têm essa descontração, ou é uma coisa mais tensa?



R - Sem dúvida nenhuma. Quando a gente já tem um relacionamento com os médicos aí a gente gosta... E ainda inclusive... Por incrível que pareça, eu cheguei em uma reunião e o gerente era o Omar, que hoje está desligado da empresa. Aí ele falou: “Eu fiquei sabendo que teve um rapazinho lá no norte de Minas que resolveu pular de umas escadas porque estava com preguiça de descer, andou deixando uns dois dentes lá...” Mas outros colegas já falaram que... O supervisor, quando vai um representante novo - eles procuram chamar até de neófitos -, tem que “lançar” no campo. O supervisor vai te lançar no campo... E nessa hora o meu supervisor recebeu um telefone do gerente, e o gerente: “Como está o Fabrício? Beleza? Lança o Fabrício direitinho aí, viu? Eu quero que ele seja bem lançado no campo.” E Brito, naquele stress do dia-a-dia, ele entendeu errado e me lançou da escada (risos). “É para lançar, é?” e vupt! Você imagina as outras estórias que os representantes distorcem por aí. 


P/1 - Imagino, imagino (risos). Você já falou o que te agrada mais no Aché... O que você achou de estar contando essa história? Porque afinal de contas ela vai ficar registrada.



R - É uma história que me marcou bastante, eu não guardo rancor de ninguém. Todo mundo conta a história e eu levo isso como brincadeira mesmo. É marcante, e eu gostaria muito de ter essa oportunidade - e estou tendo hoje - de contar essa história. E com certeza virão outras por aí, como existem outras, mas não será o caso de hoje. Com certeza a gente vai estar contando, porque foi um prazer para a gente estar contando, poder fazer parte da história do Grupo Aché, que é sonho de muitas pessoas, e eu me sinto privilegiado hoje de ser integrado a ele, fazer parte da família acheana.



P/1 - Então você vai estar contando outras histórias (risos).



R - Sem dúvida nenhuma, se eu tiver oportunidade estaremos contando, sim.



P/1 - Nós agradecemos então a sua participação. 



R - Eu que agradeço.



P/1 - Esperamos que você tenha gostado, e esperamos você para mandar outras histórias.



R - Ah, sem dúvida nenhuma. Pode ter certeza que receberá lá nossos e-mails.



P/1 - Então está bom. Muito obrigada.



R - Eu que agradeço

 

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