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História

O primeiro apresentador do telejornal brasileiro

História de: Maurício Loureiro Gama
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/05/2019

Sinopse

Maurício Loureiro Gama nasceu em 18 de agosto de 1912 na cidade de Tatuí, Estado de São Paulo. Passou a infância e a adolescência com a mãe, os irmãos e o avô na cidade do interior. Com idade para os estudos universitários, decidiu mudar-se para São Paulo, onde iniciou a faculdade de Direito, porém, foi no jornalismo que descobriu sua paixão e vocação. Maurício conta sobre sua vida como jornalista e apresentador, sua passagem por inúmeros jornais, rádios e amissoras de televisão, sobre o contato com diversos políticos, como Getúlio Vargas e João Goulart, e sobre se tornar o primeiro apresentador do telejornal brasileiro.  

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História completa

P/1 - Sr. Maurício, eu vou pedir que o senhor comece falando o seu nome, data e o local de nascimento.

 

R - Você não vai me chamar de senhor de novo, né? Diga, Maurício Loureiro Gama.

 

P/1 - Data e local de nascimento.

 

R - Tatuí, 18 de agosto de 1912. Vale dizer que daqui há poucos dias estou fazendo oitenta e cinco anos. Não parece? Obrigado. (risos)

 

P/1 - E qual o nome dos pais do senhor, os seus avós, a origem da sua família?

 

R - Meu pai era um farmacêutico que chamava-se Teophilo Andrade Gama, minha mãe era uma professora que chamava-se Anésia Loureiro Gama, a respeito dela eu escrevi um livro muito interessante, depois eu vou dar um exemplar para você, chama-se “Risonha e Franca”, que na verdade ela era uma educadora amável, delicada. E o meu avô que me criou era um brasileiro, boiadeiro e tropeiro, eu fui boiadeiro e tropeiro até os quatorze anos, gostava muito. Mas o meu avô achou melhor: “Vai ser doutor lá em São Paulo, vai meu filho”.

 

P/1 - E como foi a criação? O seu pai, qual era a profissão dele?

 

R - Ele era farmacêutico, mas ele morreu de um acidente, um choque elétrico, morreu em 1915 e depois que moramos algum tempo longe, onde era a farmácia, um bairro em Tatuí, fomos morar num bairro distante, porque a família perdeu o seu chefe, então aquilo causou um certo abalo. Agora a grande figura da minha vida, eu já disse isso a você e repito hoje aqui, foi a minha mãe. Realmente ela era uma mulher extraordinária, educadora, ficou com quatro filhos todos pequenininhos, o menor tinha alguns meses. O menor, Murilo, tinha três meses, depois vinha eu, depois vinha a minha outra irmã mais velha do que eu, morreu até, há pouco tempo, de maneiras que a minha mãe foi uma mulher extraordinária, muito inteligente, muito simpática, muito agradável e uma lutadora, ela é a mulher que marcou a minha vida.

 

P/1 - E ela marcou inclusive na escolha profissional?

 

R - Ah, a escolha profissional foi polêmica, porque a minha mãe queria que eu fosse médico, porque o meu pai era farmacêutico e há uma relação entre a farmácia e o médico. Mas logo eu entendi que eu não tinha jeito para medicina, eu testemunhei um acidente com um colega que cortou um braço numa brincadeira de colégio e eu passei a manhã toda segurando o braço do camarada, borrifava sangue por toda a parte, e depois de ver aquele sangue todo, eu desmaiei. Eu disse: “Um médico não pode desmaiar, que negócio é esse, eu não sirvo para médico, eu vou ser mesmo advogado”. Daí vim para São Paulo para fazer advocacia.

 

P/1 - E como foi a vinda para São Paulo?

 

R - Entrei na faculdade, não gostei de Direito, fui até o terceiro ano e abandonei a faculdade, fiquei sendo jornalista apenas, só muitos anos depois é que eu resolvi reencetar o curso jurídico e me tornei um advogado.

 

P/1 - O senhor poderia contar um pouco mais da sua infância? Como é que foi a sua educação em Tatuí e quando o senhor veio para São Paulo pra estudar? O senhor poderia nos contar um pouco dessa parte da sua vida?

 

R - Ah, sim. O meu avô era um xeretão, era um curioso, um dia ele chegou em casa e disse: “Meu filho...”, ele me chamava de meu filho apesar de ser neto, “...olha, eu vi dois velhos conversando agora há pouco, hoje é 24 de outubro…”, ele me disse, “...23 de outubro, parece que houve qualquer coisa no Rio de Janeiro”. “Como assim, papai?”, “Houve qualquer coisa no Rio de Janeiro, parece que o Washington Luís foi deposto”. Vê como a comunicação naquele tempo era lerda, lenta, tardia? Demorava pra saber uma coisa muito importante, demorava dias e dias para ficar sabendo. Então ele me disse: “Deita cedo hoje” “Porque papai?” “Porque às cinco horas da manhã passa o trem que vai para o Sul” da Estrada de Ferro Sorocabana. Às cinco horas da manhã nós estávamos na estação da Sorocabana pra ver a chegada dos jornais de São Paulo. Se os jornais circularem sem censura é porque a revolução está vitoriosa. Aí nós fomos lá para a estação e eu vi quando começaram a jogar aqueles pacotes de jornal, “O Estado de São Paulo”, o “Diário Nacional”, o “Correio Paulistano”, a “Folha de São Paulo” contando: “Vitoriosa a revolução”, e assim, vinte dias depois, eu estava na estação da minha terra pra ver a passagem de Getúlio Vargas, eu vi, era um rapaz simpático o Getúlio, eu digo rapaz porque era muito moço naquele tempo, devia ter quarenta e poucos anos, Getúlio muito bem fardadinho, ele ao lado de um general, Góis Monteiro, do general Flores da Cunha e outras grandes figuras da Revolução de 30. E até aconteceu um episódio curioso, posso contar a historinha?

 

P/1 - Pode.

 

R - A historinha é muito engraçada porque uma menininha de Tatuí escreveu um discurso pra ela saudar o Dr. Getúlio Vargas, o líder da revolução. Então, deram a palavra à menina: “Agora tem a palavra a jovem menina”, não sei o que... Então ela fez um discursinho: “Senhor Presidente, a nação brasileira aguardava esse momento de libertação, Deus queira que tudo dê certo e que tenhamos um novo sistema político mais saudável no Brasil. E agora eu convido a todos que me acompanhem num Viva. Viva, o Dr. Washington Luís”, ela se enganou, coitadinha da menina, ela estava acostumada a dar viva ao Washington Luís no grupo escolar, tacou um viva Washington Luís na cara do Getúlio. Muitos anos depois, eu já era repórter do “Diário da Noite”, eu estava em São Lourenço para entrevistar o Getúlio, e estavam lá outros jornalistas também, famosos, eu era apenas um foca [jornalista recém-formado em início de carreira e ainda inexperiente], eu estava começando a vida como repórter, mas estava lá Samuel Wainer, o famoso Samuel Wainer, estava lá o famoso Chico de Assis Barbosa e eu, nós três. Getúlio veio, todos levantamos e ficamos à espera do presidente da República, cumprimentamos o presidente da República e ele disse assim: “Oh, Wainer, tudo bem com você? Como é, você continua roubando do Banco do Brasil?” ”Não, presidente, não estou roubando nada, eu tenho uma dívida lá, mas vou pagar tudo direitinho”. “Ah, ainda bem. E você, Chico de Assis Barbosa como vai? Como vai o Dr. Roberto? Sempre com aqueles cavalinhos dele, aquelas obras de arte, homem ilustre Dr. Roberto”. Ele olhou pra mim e disse: “E o senhor, quem é?” não conhecia, era um foca da província, não era um jornalista do Rio de Janeiro naquele tempo. Minha resposta foi atrevida meio sem querer, eu disse assim: “Eu sou um paulista dos bons”. E ele com uma cara brava disse assim: “Por quê? Há paulistas que não são dos bons?” no que eu engatei a marcha a ré imediatamente: “Não, eu quero dizer o seguinte, eu não sou um paulistano, é uma cidade cosmopolita enorme, eu sou um caboclo do sul de São Paulo” “De que cidade o senhor é?” “Eu sou de uma pequena cidade do sul de São Paulo, chamada Tatuí, eu não sei se o senhor já ouviu falar a respeito de Tatuí” “Sim, passei por lá há poucos dias, passei por lá, por sinal houve um episódio engraçado, uma menina encantadora na hora de dar um viva ao Dr. Getúlio disse ‘Viva, o Dr. Washington Luís’, foi o primeiro grito viva revolucionário que eu vi depois de 30”, disse o Getúlio Vargas. E o trem partiu, ele sumiu na neblina, na distância, e Tatuí mergulhou no enigma da sua existência.

 

P/1 - Muito bonita esta história! Seu Maurício, eu peço que o senhor conte um pouco da sua infância, da casa em que o senhor foi morar com seus avós antes do senhor vir pra São Paulo estudar. Como era a relação com seus irmãos, as brincadeiras?

 

R - Contando assim de chofre que eu sou um menino órfão, muita gente vai me dizer “deve ter tido uma infância triste”, não foi nada triste, graças principalmente ao temperamento da minha mãe, que era uma mulher muito alegre, e ao meu avô, que era um brincalhão, engraçado, um pitoresco, cavalariano, tal. Mas foi uma vida muito boa. Meus irmãos todos eram professores e você perguntará: “mas porque você não se tornou professor?” Eu também quase fui professor. Um dia a minha mãe teve uma dor de ouvido que durou três meses, então ela se licenciou do internato que ela dirigia e como eu estava estudando, estava no ginásio, ela me disse: “Você vai me substituir durante uns quinze dias”. Aí eu fui, fui “comme il faut”. Que profissão terrível que é ser professor! Lecionei, tudo gente mais velha do que eu, eu me lembro de uma menina muito bonita, da minha terra, no último dia de aula eu disse assim: “Bom, como hoje é o último dia de aula, vocês podem fazer a pergunta que quiserem sobre a matéria que quiserem. Eu respondo qualquer coisa”. Olha a pretensão do garoto... A pergunta dela foi a seguinte: “Professor, porque é que não há mulher careca?” Não é uma boa pergunta? Embatucou o professor, “Não sei”.

 

P/1 - Qual era a sua idade?

 

R - A minha idade era dezesseis anos, dezessete anos por aí.

 

P/1 - Depois o senhor continuou lá mais tempo, em Tatuí, antes de vir?


R - Fiquei algum tempo. As minhas irmãs foram para um colégio interno em Itapetininga, havia um colégio muito bom em Itapetininga, as duas foram pra lá pro colégio interno. E pra São Paulo viemos nós dois, o Murilo, meu irmão mais moço do que eu, foi para o Mackenzie, e eu fui pro Liceu Franco-Brasileiro, que é hoje o colégio Pasteur, na Vila Mariana. E assim a família ficou resumida aos velhinhos em Tatuí. Eles não se aguentaram e acabaram vindo pra cá, vieram por saber da gente, pra acompanhar a vida da gente aqui em São Paulo.

 

P/1 - E eles ficaram morando em São Paulo também?

 

R - Ficaram morando aqui em São Paulo também.

 

P/1 - E como foi a vida de estudante em São Paulo?

R - Bem, você imagina o boêmio que eu fui, aquela vida, aquela correria, sozinho, solto no mundo, a família lá em Tatuí, eu e meu irmão, nós dois, e se eu fosse muito religioso diria: “e Deus”.

 

P/1 - Que idade tinha nessa época quando veio para São Paulo?


R - Ela quer saber minha idade... Eu tinha o quê? Dezessete, dezoito anos, por aí. Daí eu comecei a fazer o Tiro de Guerra, fiz o Tiro e aconteceu uma coisa engraçada, quer que eu conte a história? Então conto essa historinha. Eu estava fazendo o Tiro de Guerra, fardado, de repente estourou a Revolução de 30, estourou a revolução e eu pensei cá comigo: “eu tenho que me apresentar imediatamente ao comandante do meu batalhão, porque estourou a revolução.” Tomei o bonde Vila Mariana, bonde 29, lá fui pra Santana, Santana naquele tempo só não tinha índio, mas era mato que não acabava mais. Então fui lá pro quartel, cheguei lá, me apresentei para o oficial do dia. E o oficial do dia insolente disse assim: “O que é que você quer menino?” “Não, o problema... - eu gaguejei um pouco - o problema é que estourou a revolução e como eu não sou tropa regular, eu sou do Tiro de Guerra, eu queria pedir licença ao meu comandante para eu ir pra Tatuí, eu não quero ser condenado depois como desertor ou coisa que o valha”. “Ah, e quem é o seu comandante?” “Meu comandante é o Tenente Tabajara” “Você é amigo do Tenente Tabajara?” ”Sou” “Ô, você me deu uma boa informação, o Tenente Tabajara está preso incomunicável aqui no quartel. Ele é um dos líderes da revolução aqui. Você poderia ter arranjado um amigo melhor”. “Mas era o meu comandante, dê um abraço nele”. Mas ele estava preso por uma razão muito séria, estourou uma revolução do lado de lá e ele estava do lado de cá. “Suma, menino, pegue essa “fardinha”, faça um pacotinho, embrulhe, jogue em algum lugar e desapareça”. E eu lá fui pra Tatuí, cheguei em Tatuí a polícia toda tinha sido convocada pra brigar com o Getúlio e eu fui convocado, o prefeito nos convocou, disse: “Todo sujeito que estava fazendo Tiro de Guerra é um soldado e vai prestar serviço militar aqui na cidade, guardar a cidade”.  Então me apresentei, me apresentei e prestei serviço durante toda a revolução lá em Tatuí. E aconteceram mil coisas engraçadas na revolução. Mas algumas nem posso contar aqui, fica para outra ocasião, uma outra oportunidade, quando completar cem anos da televisão eu conto, está bem?

 

P/1 - E quando é que o senhor começou a trabalhar? Qual foi o seu primeiro trabalho?


R - Boa pergunta, é o céu, comecei a trabalhar, ganhar um dinheirinho. Então em 33, 32, eu já escrevia as minhas coisas, mas para valer profissionalmente, eu comecei a trabalhar em 1933, num jornal chamado “Correio de São Paulo”, a redação era ali na Rua Líbero Badaró, pertinho do “O Diário de São Paulo”, que era na Praça do Patriarca. E ali eu entrei, ali eu trabalhei mais ou menos um ano, nunca recebi nenhum salário, o diretor do jornal era um sujeito simpaticíssimo e malandro, chegava no fim da tarde assim: “Dr. Fulano...”, posso dar o nome, eu não estou falando mal dele, estou falando a verdade: “Dr. (Rios?) Marinho, não dá pra arranjar um dinheirinho pra gente?” Ele dizia: “Não, hoje à noite todos vão receber um dinheirinho”. Então saía a redação inteira acompanhando o diretor, descíamos a Líbero Badaró, passávamos no Franciscano, tomávamos um bom chopp e ele pagava a conta, um bom chopp, um servicinho, depois ele olhava pro secretário do jornal, Cândido Motta Toledo, dizia: “Você eu tenho que dar um pouco mais, vinte mil réis para você; para você dez; você, Maurício, você é foquinha, está começando a vida agora, leva cinco cruzeiros”. Cinco cruzeiros dava pra tomar um chopp, comer um sanduíche e não morrer de fome. E foi assim o começo, que bom ter começado tão mal assim, porque afinal o jornal ali era uma escola para a gente e ali a gente aprendeu. Depois dali eu fui pro “Diário da Noite”, atravessei a rua, já era um grande jornal, já era do Chateaubriand, estavam nascendo os “Diários Associados” e ali eu comecei. Depois eu fui pro “Diário São Paulo”, foi em 34, eu entrei para o “Diário São Paulo”, que era o matutino da casa. Então eu já trabalhava em três jornais: “O Correio de São Paulo”, “Diário da Noite”, depois eu encontrei um amigo na rua Israel Dias Novaes: “Ó, Maurício, você não quer fazer uma crônica no “Correio Paulistano?” “Correio Paulistano, puxa, jornal onde trabalharam o Plínio Salgado, o Cassiano Ricardo, Paulo Setúbal, tantos grandes jornalistas do Brasil, poxa, grande honra para mim”. E lá fui pro “Correio Paulistano”, diretor nessa época era o João Scatimburgo. Depois eu fui pra “A Gazeta”, graças ao Gumercindo Fleury eu fui pra “A Gazeta”, trabalhei na “A Gazeta” muito tempo. “A Gazeta” estava agonizando quando eu entrei, ela ainda se aguentou uns tempos e depois ela começou a entrar em decadência, está em decadência até hoje, coitada da “A Gazeta”, não vai mal, não vai bem não, quem sabe ela ainda vai ressuscitar. Trabalhei em outros jornais também, na “A Hora”... A “A Hora” era uma espécie de “Notícias Populares” daquela época. O sujeito torcia, assim, pingava sangue, caía sangue que não acabava mais, crime todo dia, era uma beleza, viu! Matavam gente... Naquele tempo São Paulo era uma cidade mais tranquila do que é hoje, mas os jornais davam uma dimensão muito grande aos dados estatísticos. E foi assim que eu comecei a minha vida. E um dia, e por que é que não fui pra rádio, é verdade, um dia morreu um cronista da Rádio Tupi chamado Motta Neto e o Edmundo Monteiro me escalou pra fazer a crônica no lugar dele. E eu criei, tinha a “Ponta de Lança”, era uma crônica às dez horas da noite que era lida pelo Homero Silva, o Homero tinha uma linda voz, pronunciava bem os erres, eu não, pronunciava mal, falava mal, em vez de falar general, “geal”, engolia uma sílaba. Homero não, era locutor perfeito, ganhou concurso e tal. E durante uns dez anos eu escrevi uma crônica na Rádio Tupi, que fazia muito sucesso. Era às dez horas da noite, totalmente livre, ninguém se metia a censurar a minha crônica e eu ia falando, ia falando até que um dia eu recebi um memorando do Costa Lima: “Prepara-se para falar na televisão. A televisão está sendo instalada, daqui uns cinco, seis dias, você está falando na televisão”. Eu fiquei doente, precisei ir a um médico: “Meu Deus, eu não sei falar na televisão, de improviso eu não falo, eu escrevo, isso é outra coisa”. E assim foi, o primeiro programa foi uma luta, na hora em que eu fui ler a minha crônica, bateu um vento, o vento levou a minha crônica. Assim terminou a crônica, eu contei a história.

 

P/1 - E antes de o senhor chegar na televisão, o senhor chegou a trabalhar em outras emissoras ou foi só a Rádio Tupi?

 

R - Não, tudo começou comigo com a Televisão Tupi, a Televisão Tupi foi o começo de tudo para mim.

 

P/1 - Mas em outras rádios?

 

R - Ah, eu trabalhei depois na Record, na Bandeirantes trabalhei quatro vezes, eu sou amigo da Bandeirantes até hoje, o pessoal de lá é formidável. Me dou muito com o Salomão Ésper, o José Paulo de Andrade, são grandes amigos meus, de vez em quando eu vou visitá-los lá.

 

P/1 - Mas antes da televisão o senhor trabalhou apenas na Rádio Tupi até então?

 

R - Só na Rádio Tupi e nos jornais, olha a relação de jornais: “O Tempo”, “A Hora”, “A Gazeta”, “Correio Paulistano”, “Diário da Noite”, “Correio de São Paulo.” Quantos jornais! Um dia eu esqueci de receber o meu salário, o que é uma coisa surpreendente, eu tinha sete empregos, aqui no Brasil tem uma tradição folclórica, dizem que sete é conta de mentiroso. Por bem, eu não fui receber o meu salário do “Diário da Noite”, então o gerente mandou me chamar, chamava-se Palhares: “Me diga uma coisa: o senhor é muito rico?” “Ao contrário, sou muito pobre. Por que o senhor está me dizendo isso aí? Será que eu já perdi o meu emprego?” “Não, é que nós temos trezentos empregados, foi o único que não veio receber o seu salário.” “Que salário?” “O senhor entrou aqui dia primeiro, hoje é o fim do mês, terminou o mês, o senhor tem um mês de salário.” Ele me deu um envelope azul e tinha uma relação de trezentos mil réis, era dinheiro que não acabava mais para aquele pobre estudante que era eu. Aquilo não havia, uma barbaridade! A primeira coisa que tinha que fazer era tomar um bom porre, entrei numa chopada com o Amadeu Amaral Júnior, comprei presentes para a minha mãe, para as minhas irmãs, foi uma beleza! E assim começou a minha carreira de jornal no “Diário da Noite.” Depois eu fui para o “Diário de São Paulo” e o resto você já sabe.

 

P/1 - Sobre quais assuntos o senhor falava, os bastidores?

 

R - Eu, no começo, eu era repórter geral, eu fazia assuntos gerais, era repórter de rua, mas depois eu comecei a me fixar em política e eu fui escalado para ir para a Assembléia Legislativa. Então lá eu tive uma visão mais nítida do que era a política e uma visão menos simpática. A política é uma coisa sórdida, mas foi aí que eu comecei a fazer política na Assembléia Legislativa.

 

P/1 - Eu vou pedir então que o senhor conte como foi esse primeiro dia da televisão. O senhor falou sobre o quê nesse primeiro dia?

 

R - O primeiro dia da televisão foi o assunto do dia, eu não me lembro mais, eu vou dizer para você, qualquer coisa com o Jânio Quadros. O Jânio tinha brigado na Câmara Municipal e levou um murro na cara, levou uma bofetada na cara e saiu sangue, então o Jânio, aquele processo todo, e passava no rosto cheio de sangue dizendo assim: “É o sangue do povo!” O Jânio era anarquista, “É o sangue do povo!”. E aquilo foi um sucesso e eu estava contando essa história na minha crônica das dez horas da noite, contei a história desse incidente, grave incidente na Câmara Municipal. E foi assim a primeira crônica. Mas você está querendo saber uma história que eu contei pra você aí no corredor agora, é o negócio da mulher. Tem um caso da mulher, interessante. Eu fiz aquela crônica no segundo dia, no primeiro dia eu ia descendo a Rua Marconi e encontrei uma mulher muito simpática, uma mulher de uns cinquenta e poucos anos, simpática. Ela disse: “O senhor falou ontem no programa de televisão?” Eu disse: “Falei. Como é que a senhora sabe que sou eu?” “É porque o senhor tem cabelo grisalho.” Naquele tempo era grisalho, hoje não, hoje eu sou Papai Noel, branquinho, branquinho. “O senhor é um homem insolente!” “Insolente, como?” “O senhor não me consultou para coisa nenhuma, podia ter trocado idéias comigo no ar e ter dito: ‘A minha opinião sobre democracia é a seguinte’, e dava a minha opinião: ‘e a senhora o que pensa?’” “Mas como é que eu vou fazer esse diálogo entre mim e a senhora? Fica complicado.” Eu sei que ela me explicou tão detalhadamente que eu perguntei para ela: “Me diga uma coisa, mas a senhora entende tanto de televisão, como é que a senhora aprendeu?” “Eu morei muitos anos nos Estados Unidos e vi como se faz televisão lá, os grandes comentaristas e essa coisa toda.” E ficamos conversando uma hora e tanto, eu já tinha feito a crônica da noite, eu rasguei, voltei para o jornal e preparei tudo de novo como se fosse teatro, tudo dialogado, tudo, tudo, e decorei. Aquele tempo era rapazinho e tinha uma memória prodigiosa, decorei aquela xaropada toda. Chegou de noite, estudei o gestual conveniente e deu um show na televisão. Foi bonito, saiu muito bem. Tão bem que o Chateaubriand, ele não era de elogiar ninguém, mandou me chamar, eu pensei, ih vou perder o emprego. “Meu filho, o senhor onde estuda televisão?” “O que estuda televisão? Ninguém estudou televisão, Dr. Chateaubriand, acho que o único que entende de televisão é o senhor, mais ninguém.” “O senhor falou muito bem. Quanto que está ganhando?” “Eu ganho quinhentos mil réis por mês aqui no Tupi.” “É?” Enfiou a mão no bolso e me deu quinhentos mil réis de presente, quinhentos cruzeiros. E me disse assim: “Como era o nome da mulher?” Disse: “Eu não tomei nota.” “Mas que coisa lamentável!” Aí ficou bravo comigo, “Que coisa lamentável não tomar nota do nome da mulher, aquela mulher que ensinou o senhor a trabalhar na televisão. Pois é, foi lamentável.” É isso.

 

P/1 - E como é que estava a equipe, como que estavam os profissionais no primeiro dia da televisão? Como é que foi esse primeiro dia?

 

R - O primeiro dia, todos nós... não havia um script para cada um, tinha lá os colegas lá: tinha a Vida Alves, a Hebe Camargo, o Ribeiro Filho, Homero Silva, cada um tinha as suas coisas, o seu comentário para fazer, e foi isso. Foi um dia um pouco tumultuado mas é assim mesmo.

 

P/2 - E isso era à noite?

 

R - À noite, o “Diário de São Paulo” foi à noite, primeiro dia de televisão foi à noite, 18 de setembro de 1950.

 

P/1 - Não haviam outros horários ainda de televisão?

 

R - Não havia a Record, a Record ia surgir oito ou dez anos depois. Não havia, não tinha “Tico-Tico” nem espera, estava nascendo a televisão, um elenco pequeno ainda.

 

P/1 - Sr. Maurício, o senhor poderia contar um pouco mais das pessoas que estavam nesse primeiro dia, o que foi apresentado?

 

R - Você sabe que eu não me lembro muito bem... Pelo seguinte, porque eu trabalhava em diversos jornais, eu saía na maior disparada, fazia o meu programa e caía fora no meu automóvelzinho, saía por aí afora para cavar notícia. Eu não me lembro bem de todas as pessoas, se eu soubesse teria pedido a relação.

 

P/1 - Claro. Dessas pessoas que estão na foto o senhor lembra?

 

R - Aqui eu me lembro de dois. Aqui tem o famoso locutor Homero Silva, o maior locutor de São Paulo, que teve na época, e aqui o Walter Forster, que foi diretor da Tupi, foi artista de cinema, teve muito tempo em rádio. Mas para mim, pessoalmente, a maior figura era o Homero Silva, porque ele lia a minha crônica, e eu tinha, não tenho mais, dez mil crônicas, escrevi dez mil crônicas, aquela mala toda, aquilo eu ia fazer uma seleção, publicar um livro. Disse: “Sabe de uma coisa, eu vou rasgar tudo isso aí, isso é uma porcaria.” Aí uma pessoa, amigo meu: “Mauricio, você devia guardar isso, chega o dia dos finados você precisa fazer outra crônica sobre os mortos.” Eu não quero guardar crônicas de finados, de 15 de novembro, de 10 de novembro, uma data, Natal, não, eu faço tudo de novo, porque se eu for obrigado a fazer de novo eu recrio, senão eu fico submetido àquela rotina de ler a mesma coisa do ano passado.

 

P/1 - E nas ruas, o público, as pessoas comentavam sobre esse dia?

 

R - Estavam começando a comentar, porque era uma novidade muito grande.

 

P/1 - E já se falava em comprar aparelhos de televisão? Porque não havia, como que foi esse problema?

 

R - O Chateaubriand arranjou setecentos aparelhos de televisão para aquele primeiro dia e a festa de inauguração foi feita no Automóvel Clube, e assim começou.

 

P/1 - As pessoas na rua, havia uma expectativa desse primeiro dia, o que é que o senhor ouvia de comentários?

 

R - Isso aí que você dizia, havia muita expectativa.

 

P/2 - Na mesma época o senhor estava na rádio ainda?

 

R - Estava na “Rádio Tupi”, estava no “Correio Paulistano”, estava na “A Gazeta”, estava no “Diário de São Paulo”, estava no “Diário da Noite”.

 

P/2 - E na rádio o senhor falava da TV, como que ia ser?

 

R - Eu falava, mas o meu trabalho na Rádio Tupi era uma crônica às dez horas da noite, chamava-se “Ponta de Lança”, era um crônica áspera, dureza, o sujeito... era bordoada em todo mundo. O Homero Silva que lia.

 

P/1 - Então o senhor poderia contar como que foi indo esse programa?

 

R - Ah, como nasceu? Isso que eu vou contar como foi, eu caracterizei como jornal, agora entendi a sua pergunta. No primeiro dia de programa eu estava lá quase como estou agora, com a mão no bolso, enfiei a mão no bolso, tirei o texto e falei assim: “Caro telespectador da noite e pá, pá, pá.” Li inteirinho, não olhei nenhuma vez para ninguém, era puro rádio; terminou a crônica, guardei ela no bolso, me levantei e fui embora. Horrível, porcaria, mas foi assim que nasceu.

 

P/1 - Então, Sr. Maurício, o senhor estava nos contando de quando arrumou a máquina de escrever. Como que foi?

 

R - Ah sim, eu quis caracterizar que era um jornal, era um embrião de um jornal, aquele comentário que eu estava fazendo, no fundo era a ponta de partida para o telejornal. Então eu mandei arrumar uma máquina, tinha uma máquina de escrever na redação, então eu aparecia, eu aparecia escrevendo à máquina, já melhorou muito, já ficou com cara de jornal, aparecia escrevendo à máquina. Eu entrava no ar, quando eu via que estava no ar eu parava de escrever, tirava os óculos, tirava uma crônica, estava na máquina, eu tirava a crônica e passava a ler a crônica e eu dizia a crônica. Isso já no terceiro, quarto dia da televisão e aquilo dava uma característica de jornal. Depois criei uma coluna que se chamava “Revista Diária dos Diários e Revistas”, era um jogo de palavras com as palavras dos jornais. E eu então aproveitava porque tinha poucas matérias e não tínhamos um elenco produtor do jornal, eu produzia, eu datilografia e eu dizia, tudo era eu, eu, eu. Então era complicado pra fazer o jornal. A gente tinha que ganhar tempo, então eu criei essa coluna e eu mostrava o que diziam os jornais, “O Correio da Manhã” do Rio de Janeiro, o “Jornal do Brasil”, o “Correio Paulistano”, “O Estado de São Paulo” dizia o seguinte, em editorial. Já estava nascendo o jornal, o jornal estava crescendo e tomando vulto, ficando mais nítido e ficando parecido com jornal mesmo. Foi assim. E assim foi se caracterizando como jornal, como embrião de jornal.

 

P/1 - E era apresentado a que horas esse jornal?

 

R - Esse jornal se chamava “Diário de São Paulo na TV” e era apresentado às oito e meia da noite. Depois, muito tempo depois, é que surgiu a “Edição Extra” que foi um jornal feito ao meio dia. Porque nós fomos convidados para fazer esse jornal pelo seguinte, porque a televisão começava à noite, não havia televisão ao meio dia. Então um dia o Cassiano Gabus Mendes, grande figura da televisão, eu ia passando pelo corredor para fazer o programa da noite e ele disse: “Olha, tenho uma boa notícia para você! Eu arranjei um horário e você vai fazer um jornal meio dia, você e o Tico-Tico.” “Como é que vai ser o jornal?” “Um jornal mais brejeiro, mais leve, menos pesado que o jornal da noite, o jornal da noite é mais pesado.” Então começamos a fazer e tivemos muita sorte. Imagine você o que aconteceu no primeiro dia de programa! Apareceu um cidadão lá e disse: “Eu vim aqui fazer uma reclamação!” “Opa, o senhor procurou o veículo certo, pode reclamar, qual é a reclamação?” “Eu comprei uma rifa de um automóvel Cadillac e eu ganhei.” “Oh, mas o senhor está de sorte.” “Mas o homem não quer me entregar o automóvel.” “Não quer entregar por quê?“ “Ele acha que ele não vendeu todos os números, ele vai ter um prejuízo danado. Ele não quer entregar o carro.” “Ah não quer?” Então, microfone, e disse: “Senhor Fulano de Tal...” Ele se chamava qualquer coisa Mello Viana, era um nome famoso no Brasil, porque fôra vice-presidente da república. “Ô Sr. Mello Viana, o senhor tem vinte e quatro horas para vir à Televisão Tupi e resolver conosco amigavelmente o problema do automóvel, o senhor vai entregar esse carro ou não vai?” No dia seguinte ele apareceu lá, aí eu estava falando qualquer coisa quando alguém me disse: “Está aí o homem do automóvel, o homem que não quer entregar o automóvel.” Eu olhei para ver se era de briga, não era, estava de camisa de seda, eu disse: “É malandro, não vai brigar coisa nenhuma.” “Como é o senhor, não vai entregar o carro?” “Não vou, mas quero conversar.” “Não tem que conversar, o senhor vendeu a rifa, o homem ganhou, está aqui, está provado que ele ganhou a rifa, o senhor vai entregar ou não vai?” “Eu vou, vim disposto a entregar.” “Então vamos entregar agora.” Tivemos que movimentar os câmeras todos, saímos da Tupi e fomos para a Rua Piracicaba e o recibo do automóvel foi dado no paralamas do Cadillac. Pouco tempo depois eu encontrei o camarada na rua passeando de Cadillac, eu pedi para parar, era táxi: “Mas o senhor de Cadillac e táxi?” “Pois é, há uma grande demanda de táxi onde vai ser a capital Brasília, então eu achei que era um bom negócio então fiz o seguinte, eu fui parar em Brasília, levei um engenheiro para lá, foi uma luta para eu chegar em Brasília, foi um verdadeira aventura e eu fiquei rico, graças ao senhor e a televisão Tupi.” “Ficou rico por quê?” “Porque nessa história de levar o engenheiro, eu fiquei com preguiça de voltar de Brasília.” Brasília que não existia, era um mato. “Comecei a fazer serviço para aquele pessoal todo, levava um de um lado, caro para burro e eu com o meu Cadilac no meu mato, o Cadillac aguentou o tranco até o fim. E eu fiquei até o fim. Quando eu saí de lá, deixei de trabalhar o Cadillac, estava caindo aos pedaços, mas eu estava muito rico.” Disse o homem. Interessante essa história.

 

P/2 - A TV, ela já tinha esse sentido de prestação de serviço?

 

R - Quem, o motorista?

 

P/2 - Não, a TV.

 

R - Não, nada disso, estava nascendo.

 

P/2 - Foi tudo na hora?

 

R - Não, nem tinha departamento de publicidade ainda, foi tudo inventado. Naquele tempo não havia ainda departamento de publicidade.

 

P/1 - Como o senhor selecionava os assuntos que ia falar na televisão, que ia abordar na televisão?

 

R - Como eu trabalhava em vários jornais, “Correio Paulistano”, “Diário de São Paulo”, “Diário da Noite”, “A Hora”, “O Tempo”, como eu trabalhava em vários jornais, eu tinha vários assuntos, estava tudo na cabeça, era só botar no papel, era o que eu fazia.

 

P/1 - E depois como foi nascendo o programa de entrevistas? Como é que esse jornal foi passando...

 

R - As pessoas viram a televisão e ficaram interessadas em comparecer, perceberam que dava uma repercussão tremenda, embora nos primeiros dias não houve setecentos aparelhos. Segundo me disseram, o Chateaubriand chegou a comprar setecentos aparelhos de televisão para aquele primeiro dia, mas as pessoas ficaram interessadíssimas, eu me lembro que eu morava na Rua Francisco Leitão, em Pinheiros, e eu tinha um aparelho chamado Zenith, era um aparelho importado, americano, e enchia de gente na minha casa para ver: “O senhor nos dá licença para ver televisão?” “Faz favor, vamos entrar.” A minha casa ficava cheia de visitas para ver televisão, porque era uma festa, era um novidade.

 

P/1 - O senhor comprou logo a televisão?

 

R - Eu comprei logo uma televisão, porque eu trabalhava na televisão e sem... não ter televisão em casa não pode, comprei uma Zenith.

 

P/1 - E quais pessoas o senhor entrevistava no programa? Como foi?

 

R - Como foi...

 

P/1 - O senhor depois me contou que esse programa de telejornal foi passando para entrevistas, que o senhor levava autoridades...

 

R - Não, não foi passando, não é bem isso, “passar”, passar dá ideia que eu abandonei aquilo e passei. Não, a entrevista passou a ser uma coisa normal dentro do jornal, então nós começamos a procurar pessoas que fossem notícias. Eu vou falar de novo no Jânio Quadros, Jânio era uma delas, o Jânio era vereador nesse tempo, era um sucesso o Jânio; o Porfírio da Paz, do São Paulo Futebol Clube. Eu me lembro que um dia eu ia saindo da televisão, eram umas nove horas da noite, quando um diretor da casa me chamou: “Olha, o Dr. Chateaubriand telefonou para aí e dizendo que aquele pensador chinês Sun (____?) vem vindo para cá e que o senhor vai entrevistá-lo.” E eu pensei cá comigo: “Como é que eu vou entrevistar o homem, um chinês?” Então foi uma luta terrível para eu conversar com o homem, ele tinha um intérprete que falava espanhol, então eu fazia pergunta em português para o cidadão, que traduzia para ele em chinês e depois devolvia para mim, foi uma luta mas saiu a entrevista.

 

P/1 - E como foi durante a ditadura militar? O senhor me contou que durante a ditadura militar, na época da televisão, o senhor contou que houve uma vez... O senhor poderia contar?

 

R - A ditadura militar foi um osso duro de roer. Uma noite eu estava fazendo um programa e era uma crônica sobre a reforma de base de João Goulart e eu divergia muito do João Goulart, que eu fui encontrar no exílio. É muito triste se encontrar um brasileiro no exílio, eu encontrei João Goulart em Montevidéu, fui enviado especial dos Diários para a capital do Uruguai e lá encontrei o João Goulart. O João Goulart, o ministério todo, eles tinham um restaurante e é triste você encontrar um conterrâneo no exílio e ele sabia que eu o atacava muito e disse: “Olha, eu ouvia de vez em quando os seus comentários ou alguém lá de São Paulo mandava gravar os seus comentários e eu recebia no palácio, você me atacava muito, Maurício.” “Isso é verdade, presidente.” “O senhor tem pseudônimo?” “Não, nunca escrevi com pseudônimo, sempre escrevi com o meu próprio nome. Mas vou dizer uma coisa para o senhor, depois que o senhor deixou a presidência da república nunca mais o ataquei.” Aí foi um pouco de brincadeira minha porque, disse: “A minha terra, que fica ao sul de São Paulo, também tem a nobreza do gaúcho, não gostamos de atacar a pessoa que está no chão, o senhor tinha sido derrubado por um golpe de estado, por uma revolução, eu achei melhor não falar mais no senhor.” “Ah, muito obrigado!” Ficou meu amigo o João Goulart, gostava muito dele pessoalmente, politicamente eu divergia dele.

 

P/1 - E quando foram na televisão, o senhor me contou...

 

R - Ah, sim! Eu estava uma noite na televisão falando violentamente, fazendo um comentário áspero, e de repente eu vi um oficial, um oficial do exército no estúdio, e tinha um aviso atrás dele, escrito na última hora: “Cuidado, você vai ser preso!” Eu pensei cá comigo: “Mas ser preso como, ele tem mandado judicial para me prender? A título de quê ele vai me prender? Ele não vai me prender, ele vem querer me botar a mão, eu passo fogo nele na hora.” Eu estava armado, porque as coisas estavam pretas no Brasil. “E se eu der um tiro nele e eu acerto? Você está louco, é melhor eu fugir pelos fundos da Tupi...” E não é qualquer um que foge pelos fundos da Tupi, porque era complicado o prédio lá, mas eu conheço bem, aquilo era um labirinto, “...E fujo, mas fugir é muito chato. Eu não vou fugir coisa nenhuma.” Enquanto eu pensava essas coisas entre um intervalo, entre uma notícia e outra o oficial do exército foi embora. Foi embora, eu me levantei e disse: “Cadê o camarada que veio me prender?” “Ah, ele foi embora, a revolução mudou de dono. Eles foram lá atacar a Companhia Telefônica Brasileira e foram presos.” Aí foi assim, a vida de jornalista não era brincadeira não.

 

P/1 - Com quais jornalistas o senhor trabalhava na época, quais os outros jornalistas que trabalhavam?

 

R - Na Tupi?

 

P/1 - Sim, na Tupi.

 

R - Na Tupi tinha o Carlos Spera, o Tico-Tico, famoso Tico-Tico, José Carlos de Moraes, grande repórter, o Spera, um outro grande repórter, vivo que nem um danado. Esses dois repórteres quase foram fuzilados nos Estados Unidos, imagine você que eles estavam em Nova Iorque a convite do João Goulart e vinha vindo um automóvel do Kennedy, vinha vindo, e de repente os dois pularam no paralamas do automóvel para entrevistar o João Goulart e furaram, porque foram os únicos jornalistas que deram esse noticiário, então o João Goulart disse: “Vocês são dois doidos varridos, porque se acontecer isso hoje, depois que mataram o Kennedy, vocês seriam fuzilados na hora, na hora.” Imagine um jornalista que pule no automóvel do presidente da república dos Estados Unidos, leva um tiro na hora, mas naquele tempo tudo era válido.

 

P/2 - Uma das entrevistas que o senhor tem mais lembrança é com Luís Carlos Prestes?

 

R - Ah, esse sim. O Prestes foi uma grande figura, é, um grande momento da televisão. Nós tínhamos um programa que era um programa de perguntas e respostas e o Prestes foi convidado. Nós descobrimos que o Prestes estava em São Paulo escondido, ele estava aqui na Vila Mariana, e um dos nossos colegas que era comunista, muito simpático, muito meu amigo, ele se propôs a ir até a casa do Prestes e convidar o Prestes pra vir para o programa. E foi um trabalho de relações públicas muito grande, porque o Prestes não queria vir: “Não, não quero ir, tenho encrenca com a polícia, a polícia vai me pegar, vai me prender.” “Não, é um grande acordo que o senhor vem, nós trazemos o senhor aqui na televisão, depois devolvemos o senhor para a sua casa e daí o senhor vai cuidar da sua vida.” Então fui preparar o meu programa, preparei cinquenta perguntas para o Prestes. Não era brincadeira fazer perguntas para um homem como o Prestes, que foi o primeiro aluno da Escola Militar do Realengo, não era brincadeira, então tem que fazer com cuidado. No início do programa ele disse: “O senhor é o agente do capital estrangeiro.” Podia dizer. Então eu comprei uma enciclopédia, uma enciclopédia soviética, enorme (____?), de capa vermelha. E eu estava no corredor à espera do Prestes para recebê-lo, quando ele entrou ele me viu com aquele livro, ele viu que era a enciclopédia soviética, então ele disse: “O senhor se preparou para brigar comigo.” “Não, comandante Prestes, não foi para brigar com o senhor, é que eu vou fazer certas perguntas que o senhor vai imaginar que alguém mandou fazer a pergunta, entende? Por exemplo, uma pergunta que eu vou fazer para o senhor daqui a pouco, no ar, na Televisão Tupi, é o seguinte: como é que o senhor explica o fato de a União Soviética estar comprando trigo na Argentina, no Canadá, o que está havendo com a União Soviética, está faltando trigo na União Soviética? Que coisa triste!” “Aí é que o senhor se engana no trigo.” A resposta inteligente dele: “A União Soviética enriqueceu muito em razão da Revolução de 1917, a União Soviética está muito rica hoje, muito rica, então hoje ela pode dar comida para o povo, quando falta comida de sua própria produção ela compra lá fora porque ela tem dinheiro.” “Se non é vero é bene trovato”.

 

P/1 - Depois da TV Tupi o senhor foi trabalhar em outras emissoras de televisão?

 

R - Depois que eu deixei a Televisão Tupi eu fui trabalhar na Bandeirantes, trabalhei, fiz um jornal lá, grande jornal. Eu fui conhecer lá na Bandeirantes uma figura notável do telejornal, um dos pioneiros do telejornal no Brasil, o Alexandre Kadunk. Nós fizemos um jornal chamado “Titulares da Notícia” e eu era o “answer man”. É assim que se pronuncia? O meu inglês de Tatuí é meio atrapalhado. E eu apresentava, eu sentado em uma poltrona e os companheiros aqui, era um jornal todo ele motivado, tinha comentarista de esporte, de educação e ensino, enfim, oito, dez jornalistas.

 

P/1 - O senhor lembra o nome deles, desses jornalistas que participavam com o senhor?

 

R - Alguns eu não me lembro mais, sou um rapazinho em 1912, a memória já falha um pouco. Mas um dos grandes comentaristas dessa equipe você imagine quem é? Era um homem muito engraçado, um crítico mordaz dos governos. Adivinhe quem é? Chamava-se Vicente Leporace. Você já ouviu falar dele, né? Leporace, só ele valia um programa inteiro, era muito engraçado, mas muito, e fazia um humorismo diferente. No dia em que o Brasil ganhou o campeonato de futebol do mundo, a pergunta do dia... A pergunta do dia começava o jornal, então o José Paulo de Andrade perguntava: “Maurício, qual é a pergunta do dia?” E eu dizia: “Como é que você viu a vitória do Brasil ontem?” Então cada um deu uma opinião: “O Brasil jogou bem, tinha o time bem formado e tal.” Quando chegou no Leporace eu perguntei: “E você Leporace, como é que você viu o jogo ontem?” “Eu vi pela televisão.” Foi engraçado: “Vi pela televisão.” Todos nós ficamos de queixo caído com aquela graça dele, o Leporace era muito engraçado.

 

P/1 - Quando é que o senhor entrou na TV Bandeirantes, em que ano?

 

R - Aí isso eu já não me lembro mais.

 

P/1 - O senhor ficou bastante tempo?

 

R - Fiquei muito tempo, fiquei bastante tempo. Incrível, eu trabalhei quatro vezes na Bandeirantes, geralmente você entra numa empresa e sai, ou sai magoado com a empresa ou a empresa fica um pouco chateada com você. Eu já voltei lá três vezes, quatro vezes. A primeira vez que eu trabalhei na Bandeirantes, a Bandeirantes estava nascendo na Apolônio Badaró, era uma pequena rádio, uma bem pequena rádio. Depois saí de lá, eu era apenas um foca de rádio, daí eu fui para a Tupi. Da Tupi eu voltei para a Bandeirantes, coincidiu, eu trabalhava nas duas, fazia um salário razoável lá. Depois saí pela terceira vez quando houve a redemocratização do país, eu fui convidado para fazer um jornal. Nós gravamos a voz do presidente da Assembléia, que era o Valentim Gentil. Então ele dizia: “Está aberta a sessão solene!”, e aí a gente fazia o comentário de abertura. Fiz o jornal lá muito tempo. Por sinal, que aconteceu um incidente muito engraçado comigo na Rádio Bandeirantes, eu não era conhecido, ninguém sabia quem eu era. Eu escrevia uma crônica, havia um rapaz na rádio, um nosso amigo, pegava um dinheirinho de todos nós para levar matérias para os jornais. E eu, essa noite, mandei a crônica para a Rádio Bandeirantes, não procurei o rapaz, o rapaz não tinha ido trabalhar naquela noite, então eu resolvi ir para a Bandeirantes à pé. Eu saí da Serralheiro Jativa, que era no Parque Dom Pedro, e fui lá para a Rádio Bandeirantes, ali perto do mercado, se lembram dela? Eu cheguei lá e foi difícil entrar lá. “O senhor quer falar com quem?” “Não, eu não quero falar com ninguém, eu tenho que entregar uma crônica porque eu faço, aquela crônica das dez da noite.” “Ah sei, eu já ouvi falar qualquer coisa a seu respeito. O senhor entra ali naquela escada e vira para cá, vira para lá.” E eu fiquei meio perdido na Rádio Bandeirantes, fiquei meio perdido e de repente eu testemunhei uma briga terrível, um bruto de um sujeito, digamos um (____?), batendo num camarada pequeninho, e batendo. E eu pensei: “Vou ter que separar essa briga, porque senão esse grandão amassa aquele pequenininho.” Fui lá ver era uma novela, era uma novela: “E agora você tem que ficar até o fim do capítulo.” (risos) Foi boa essa aí.

 

P/1 - O senhor trabalhou na TV Tupi, depois na Bandeirantes, com esse jornal aí?

 

R - Olha, eu dizia, eu só não trabalhei no canal do Tamanduateí, nos outros canais todos eu trabalhei.

 

P/1 - E nos outros canais, o senhor poderia nos contar?

 

R - Na Record, eu trabalhei na Record.

 

P/1 - Que programas o senhor fazia na Record?

 

R - Era um jornal, era o jornal do meio-dia, aquela macacada toda ali, Padre Godinho, Murilo Antunes Alves, esteve aqui hoje. Murilo Antunes Alves, o Hélio Ansaldo, que foi deputado.

 

P/1 - Como que se chamava? Era “Edição Extra?” Era esse?

 

R - Não, esse não, esse era o “Jornal do Meio-Dia”, era na Record. Nessa altura a “Edição Extra” já tinha ficado para trás.

 

P/1 - O senhor chegou a trabalhar com Vida Alves?

 

R - Ah, a Vida Alves, é verdade. A Vida Alves foi uma excelente aquisição da “Edição Extra”. Eu não sei o que é que houve e determinado dia o Tico-Tico não foi trabalhar e eu fiquei fazendo o programa sozinho, então eu li o meu comentário, fiz as minhas notinhas e depois fiquei sozinho meia hora no programa, era uma brincadeira! Então eu lembrei: “Eu preciso convidar alguém para enriquecer o elenco do jornal.” Convidei a Vida Alves e foi um sucesso. Vida Alves é advogada e além do mais uma mulher vivida, de uma maneira que ela deu um colorido todo especial ao “Edição Extra”, focalizando de preferência assuntos que interessavam à mulher. Ela fez um grande sucesso como jornalista, até ela me contou: “Olha, morro de saudades do “Edição Extra”. Eu disse: “Eu também.”

 

P/1 - E quando chegou a televisão a cores? O senhor tinha me contado.

 

R - A televisão a cores... Ninguém acreditava muito na história da televisão a cores: “Televisão a cores, que nada! Isso é conversa do Chateaubriand.” E o Kadunc dizia: “Muita gente não está acreditando que a televisão em cores existe.” Então o Kadunc mandou arranjar umas araras enormes, cada bruta arara, encheu o estúdio de arara, então os câmeras se divertiam, o câmera vinha, mostra a minha cara, eu falando, ele saía de mim e ia para a arara. Ficava entre mim e a arara, mas a arara era colorida: “Olha, a arara é colorida, a televisão que está no ar é colorida mesmo.” Por sinal, você falou agora pouco no golpe de estado, em 1937 houve um golpe de estado no Brasil. Sempre houve aqui uns “golpinhos” muito ordinários que não resolviam nada, mas sempre houve golpe no Brasil, golpe de 10 de novembro de 1937. O Chateaubriand teve muita sorte, porque ele tinha comprado dos Estados Unidos um equipamento moderníssimo naquela época, que era o aparelho de telefotografia. A telefotografia foi inaugurada exatamente no dia 10 de novembro de 1937, o Getúlio falando, outorgando uma nova constituição do Brasil, e nós fomos a única televisão, o único jornal que publicou a fotografia do Getúlio outorgando a constituição. Que ninguém acreditava que aquilo existisse, então eu saí na rua para fazer a reportagem, para ver se alguém conhecia. Eu saí na Sete de Abril e tive a sorte de encontrar, imagine você quem! Um camarada baixinho, meio manquitola, um gênio, Cândido Portinari, na Paulista, aqui pertinho, na [Alameda] Ribeirão Preto. Encontrei o Cândido Portinari e disse: “Cândido Portinari, que prazer, quanta honra para mim saber que você está aqui passeando em São Paulo!” ”É, eu estou descansando um pouco, vim visitar a minha família aí.” “Oh, Portinari, você esteve em Nova Iorque agora?” “É, cheguei de lá agora.” “Você viu alguma coisa de telefotografia?” “Oh, como não! Você sabe que quando... o dia em que eu cheguei em Nova Iorque eu tinha medo de viajar de avião, eu fui por mar. Fui por mar e quando eu desembarquei em Nova Iorque, veio um colega de vocês com um aparelho de telefotografia e nos filmou. E mandou a nossa fotografia para a redação do jornal, então quando desembaracei a minha bagagem e peguei o meu táxi e fui para o hotel, eu comprei o jornal que tinha publicado aquela fotografia, meia hora depois estava o jornal na rua com a minha fotografia. Para mim foi uma coisa espantosa, uma coisa surpreendente, uma revolução tecnológica notável.” Isso aconteceu.

 

P/1 - Dos programas de televisão, que lembranças mais marcantes o senhor tem? O que o senhor fez na televisão, que o senhor gosta de lembrar? O senhor poderia comentar isso, que passagem marcante o senhor se lembra do período que o senhor trabalhou na televisão, dos programas que o senhor fez, qual deles ficou?

 

R - Ah, tem coisas curiosas, você sabe que um dia fui preso, né? Segunda região Militar, aqui em São Paulo. Então eu cheguei no Quartel General e mandei o meu cartãozinho. O oficial do dia mandou o soldado falar comigo: “É para o senhor entrar.” Eu entrei na sala do oficial de dia e o oficial de dia era muito insolente. Ele falava: “O que você quer?” Não dizia “o senhor” era “O que você quer?”. “Senhor, eu preciso fazer uma pergunta ao comandante do Segundo Exército.” “Sobre o quê?” Ah, uma pergunta assim e assado, dei a pergunta. Ele disse: “Um minutinho. Demora, é melhor o senhor sentar.” Aí vinha o comandante do Segundo Exército e vinha pela sala dele com o chicotinho na mão, estava uma pequena fera o general ali. Eu fiquei assustado, o sujeito ali vinha em cima de mim. “O senhor está detido, o senhor não pode conversar comigo coisa nenhuma, eu mandei chamar o senhor por uma questão de gentileza, mas o senhor não merecia, merecia ser preso e ir direto para a cadeia.” “Mas por quê? Qual foi o crime que eu pratiquei?” “O senhor ainda pergunta? Olha aqui.” Passou a mão num jornal, o jornal era impresso em todo verde, impresso em papel verde. “Olha aqui o jornal.” A gente, que trabalha em jornal, conhece jornal até pela letra, de longe já diz: “Esse jornal é “Jornal do Brasil”, esse aí é “O Estadão”, esse aí  é a “Folha”, esse aí é o “Notícias Populares”.” Olhei e disse: “Esse jornal é do Rio de Janeiro.” O Diário da Noite do Rio de Janeiro, papel verde, o Chateaubriand queria dar um caráter mais policial ao jornal. Eu disse: “Não, está certo, eu podia até ir para a cadeia se eu tivesse cometido algum crime, mas acontece o seguinte, seu general, o senhor está cometendo um erro lamentável, lamentável, porque esse jornal que o senhor está mostrando aí como prova de algum crime, esse jornal é do Rio de Janeiro.” “Mas tudo não é a mesma coisa?” “Não, o senhor vê no cabeçalho do jornal, o diretor desse jornal chama-se Antônio Alcântara Machado e eu trabalho no “Diário da Noite” de São Paulo, diretor Assis Chateaubriand.” Ele olhou bem: “Então está bem, você está solto.” E assim eu não fui parar na cadeia, não essa vez.

 

P/1 - O senhor apresenta ainda algum programa de televisão? Mantêm contato?

 

R - Se eu apresento ainda, agora?

 

P/1 - Se o senhor participa.

 

R - Não.

 

P/1 - Qual foi o última participação?

 

R - Agora eu brinco com os meus netos, com bisnetos, minha filha! Você ainda quer que eu trabalhe...

 

P/1 - Bom, eu vou perguntar então, para finalizar, que o senhor comente alguma coisa a respeito dessa sua passagem pela televisão.

 

R - Olha, a minha passagem pela televisão deixou muita saudade, porque para mim foi uma novidade, eu sou homem de jornal, eu gosto é de jornal, não é de televisão nem de rádio. Mas eu trabalhei na televisão, creio que trabalhei bem, deixei um nome na televisão. Há uns quatro, cinco anos, eu fui procurado no local de trabalho, no Sesc, fui procurado pelo escritor Fernando de Morais, que ia escrever um livro sobre Chateaubriand e pediu um depoimento meu sobre o Chateaubriand. Eu fiquei duas horas conversando com ele. Ele fez um livro muito interessante, não sei se você leu, um livro sobre Assis Chateaubriand, um livro genial, eu morri de rir, tem passagens na vida do Chateaubriand que são fantásticas. E um amigo que estava junto com ele: “Olha, você não vai falar mal dele?” “Não, eu não vou, eu trabalhei trinta e oito anos com o Chateaubriand, vou falar mal dele agora que ele morreu? Eu não.”  Por certo eu tive um incidente grave com ele, pouco antes de ele morrer, ele mandou me chamar, eu era o diretor do (____?) com o nome no cabeçalho, e deu ordens para eu escrever um artigo áspero contra o Nicolau Zarvos. Nicolau Zarvos era um miliardário aqui de São Paulo e tinha acabado de morrer, há uma semana. Então eu estava de pé diante da mesa do Chateaubriand, aguardando ordens de serviço, ele disse assim: “Você vai escrever um artigo contra Nicolau Zarvos.” “Dr. Assis, eu lamento informar, eu não vou escrever o artigo e peço demissão hoje do jornal.” “Mas o que é que houve?” “Eu aprendi com um grande jornalista chamado Assis Chateaubriand que não se escreve contra alguém, se escreve um artigo sobre alguém. A opinião pública vai ler esse artigo e através dos dados contidos no artigo ela vai formar o juízo de valor sobre a pessoa, agora eu não posso escrever um artigo contra uma pessoa, eu não conheço, nem sei quem é Nicolau Zarvos.” “E o que o senhor quer para escrever o artigo?” “Eu quero uma semana de férias. Eu fico uma semana e vou estudar a figura do Nicolau Zarvos.” Aí ele me deu uma semana de férias, fiquei uma semana passeando por aí, estudando o Nicolau Zarvos, descobri coisas fantásticas. O Nicolau Zarvos era um cara extraordinário, ele veio do nada, você sabe que ele era garçom da Sorocabana, ele ouvia aqueles sujeitos que plantavam algodão, café, falando em cotação de bolsa e com aquilo ele foi aprendendo. Era de uma inteligência extraordinária, ele acabou aprendendo, ele ficou rico, podre, milionário, riquíssimo. Então ele tinha um grande apreço pelo níquel, mas não ligava para os milhões, jogava na bolsa, mas era uma grande figura. E o título da minha reportagem eu achei que foi muito bom na época, eu era um rapazinho inteligente. O título da reportagem ficou assim: “Zarvos, mais rico do que a Grécia”. Não é um bom título?


R - Sr. Maurício, eu agradeço muito então o seu depoimento.

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