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História

O prazer de viver, trabalhar e aprender

História de: Maria Helena Langoni Stein de Melo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/03/2009

Sinopse

Na entrevista, Maria Helena conta sobre sua infância feliz em Monte Carmelo, sua adolescência despreocupada em Uberlândia, seu casamento, sua formação em Economia na Universidade Federal de Brasília, bem como sobre sua bem-sucedida carreira profissional na Fundação Banco do Brasil. Descreve com riqueza de detalhes as dificuldades dos primeiros projetos da Fundação nas áreas de educação e cultura e seu envolvimento na criação e trajetória do Banco e Prêmio de Tecnologia Social e Projeto Memória, que homenageia anualmente vários personagens ilustres da história do Brasil através da produção de materiais para exposições, livros e documentários que são enviados para escolas de todo o país. Fala ainda sobre as amizades que fez ao longo da vida e a importância que esses amigos tiveram em sua realização pessoal e profissional.

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História completa

P1 – Maria Helena, boa tarde. Obrigado por ter vindo participar desse projeto. Eu gostaria que você iniciasse a entrevista registrando o seu nome completo. 

 

R – Meu nome é Maria Helena Langone Stein. Nasci com esse nome, e depois de casada Maria Helena Langone Stein de Melo. 

 

P1 – Data e local de nascimento.

 

R – 17/04/1959 em Monte Carmelo, Minas Gerais. 

 

P1 – Por favor, registre o nome do seu pai e da sua mãe.

 

R – O meu pai chama-se Carlos Humberto Faleiros Stein e minha mãe Ada Langone Stein. 

 

P1 – Qual que é a atividade do seu pai?

 

R – O meu pai é fazendeiro e é comerciante. Ele é pecuarista. 

 

P1 – Sua mãe é...

 

R – É dona de casa. Mãe, supermãe. 

 

P1 – Maria Helena, a sua família tem uma origem estrangeira. Você podia contar um pouquinho pra gente?

 

R – Sim, eu posso falar o pouco que eu sei da origem da minha família. A origem do meu avô paterno é, ele é judeu alemão, eu não sei em que ano exatamente eles vieram pro Brasil. E da minha mãe, o meu bisavô materno era italiano. Esse eu sei que veio de Nápoles, e o meu avô paterno veio da Alemanha pra São Paulo.  

 

P1 – Sabe como é que eles chegam a Minas?

 

R – Sim. O meu avô paterno, como todo judeu, gosta muito de pedra. Ele era um cara que mexia com compra de diamante, ele comprava a pedra bruta e vendia bruta. Não era um joalheiro, ele era um cara que explorava diamante. E ele, através de um anúncio de jornal, ele viu que tinha uma fazenda à venda no interior de Minas, no município que hoje leva o nome de Romaria. E ele foi com um sócio alemão e compraram essa fazenda pra explorar diamantes. Explorou até bem recentemente, até o ano acho que de 1985, por aí. Hoje a mineração dele está desativada. Mas ele foi pra Minas pra isso, pra explorar uma fazenda onde tinha, nessa região tinha muito diamante, que é a região ali do Triângulo Mineiro, próximo de Estrela do Sul, Romaria, Coromandel, cidades daquela região onde se encontra muito diamante. Pelo menos naquela época tinha muito, hoje eu não sei. 

 

P1 – Interessante. 

 

R – É. A do meu avô materno, ele foi parar também nessa cidade onde eu nasci, Monte Carmelo, porque ele era gerente de banco, ele era gerente do Banco de Crédito Real. E na época não era bem gerente que chamava, o cargo dele tinha um outro nome que parece que era implantador. Ele saia pelo interior implantando as agências do banco. Então ele veio do Rio de Janeiro e saiu implantando em Cataguases, Ribeirão Preto, Uberaba, até chegar em Monte Carmelo. Chegando lá, segundo o que eu ouço da família, ele nunca mais saiu porque se envolveu na política local e com outras coisitas mais, que fez com que ele permanecesse na cidade.

 

P1 – E você teve irmãos?

 

R – Sim. 

 

P1 – Tem irmãos e irmãs?

 

R – Tenho três irmãos. O mais velho chama Carlos Antônio. Abaixo de mim, José Humberto, e meu irmão caçula, Carlos Henrique, que esse faleceu num acidente de carro. 

 

P1 – Você passa a infância em Monte Carmelo?

 

R – Passo a minha infância em Monte Carmelo, até os 15 anos de idade. 

 

P1 – Então conta pra gente como foi a sua infância, do que você gostava de brincar, como era a sua casa, esse cotidiano. Faça um panorama pra gente. 

 

R – Bem, eu tive uma infância super tranquila, acho que como a maioria das crianças que nascem no interior. Nasci numa cidade muito pequena. Esse meu avô materno, esse que era gerente de banco, ele tinha uma chácara e ele fez tipo um loteamento perto dessa chácara onde toda a família, os filhos dele que iam casando, iam morando por perto. Pegava um lote, o pai dava um lote, construía sua casa e ficava por ali. Hoje esse bairro chama Bairro Langone por conta do meu avô. E eu fui criada nesse bairro, junto então, perto de primas, de tios, e brincando o tempo todo nessa chácara que era muito bem cuidada, tinha de tudo, árvore, fruta, árvore de frutas e tudo, piscina, lago. Fui criada que nem uma índia, uma índia mesmo, andando descalço, brincando debaixo de pés de manga, brincando de casinha, de boneca, e sempre rodeada das primas, dos primos. O fato da gente ter sido criado tão junto nesse bairro, em torno dessa chácara do meu avô, fez com que eu convivesse muito com as minhas primas. Não tinha muita amizade. Eu brincava com outras crianças fora ali da família Langone. Mas eu passei a minha infância todinha brincando dentro dessa chácara do meu avô, e era uma coisa super tranquila, prazerosa. Eu só tenho boas lembranças da minha infância. 

 

P1 – Que bom. Você iniciou os seus estudos lá em Monte Carmelo mesmo, né?

 

R – Sim. 

 

P1 – Você lembra como é que era a escola?

 

R – Lembro. Eu tenho uma lembrança assim, que é um fato marcante na minha vida, que eu fui alfabetizada por uma tia, a irmã caçula da minha mãe, que eu gosto muito, Tia Nelma. Foi ela que me alfabetizou, foi minha primeira professora. E estudei em Monte Carmelo até terminar o ginásio. Hoje é o que? É, até terminar o ginásio. Estudei no Colégio Nossa Senhora do Amparo, que era um colégio só pra meninas, um colégio de freiras onde estudavam só mulheres, e estudei até terminar o ginásio. Depois eu saí pra fazer o segundo grau em Uberlândia.

 

P1 – Quando você era criança, se perguntasse pra você o quê que você queria ser, você dizia o que?

 

R – Não tinha a menor ideia, como não tenho até hoje. 

 

P1 – Como foi você com 15 anos ir embora pra Uberlândia?

 

R – Olha, foi complicado. Nessa época era praxe, era comum na minha cidade, todo mundo que tinha a intenção de estudar, de fazer uma universidade, sair, não deixar pra sair de última hora no último ano porque a concorrência lá na capital, nas cidades maiores, seria uma luta assim meio que injusta. Então todo mundo saia nesse período do primeiro, segundo ou terceiro ano, saia pra estudar fora. Nessa época meus irmãos já estavam, dois deles, estudando em Belo Horizonte. Mas como eu sou filha única, só eu de mulher, meu pai era muito apegado comigo, ainda é, ele ficou preocupado de me mandar tão novinha ir estudar em Belo Horizonte. Então escolheu Uberlândia, que era uma cidade mais próxima, a uma hora de Monte Carmelo, que eu podia estar sempre indo e voltando, e mais próxima de casa, pra estudar durante a semana lá e passar os finais de semana na minha casa em Monte Carmelo. Mas foi uma época que hoje, eu olhando assim, eu acho que foi muito boa, foi uma época super legal na minha vida. Mas enquanto eu estava vivendo aquilo também foi dolorido porque eu era muito nova, uma menina mimada. E de repente eu fui estudar em Uberlândia, eu era muito nova, o meu pai não podia alugar um apartamento pra eu morar sozinha. Então os dois primeiros anos que eu morei lá eu morei em pensionato de moças, dividindo quarto, dividindo coisas, coisa que não acontecia na minha casa, onde eu tinha tudo separado por ser a única mulher no meio de três irmãos. Então eu senti muita falta da minha casa, saudade dos pais, dos amigos. Mas eu sempre soube o que eu queria. Eu sabia que pra continuar estudando eu teria que passar por aquilo de sair de Monte Carmelo. E saí e nunca mais voltei. 

 

P2 – E você formou um grupo de amigos em Uberlândia, como é que foi esse processo?

 

R – Poucos amigos, como eu tenho até hoje. Eu tenho poucos amigos, grandes amigos mas poucos. E Uberlândia eu cheguei muito nova, como eu já disse, e não é uma cidade muito fácil de se fazer amizade, eu acho. E mesmo assim, com a minha idade, era complicado. Os amigos se restringiam à escola, ao colégio onde eu estudava. Mas eu tive muitas amizades, e hoje uma grande amiga minha, que ainda considero uma das minhas melhores amigas, que é a Miriam, eu conheci nessa época que eu cheguei pra estudar em Uberlândia. Conheci no primeiro ano que cheguei lá, somos amigas até hoje. Ela é casada com um colombiano, mora em Brasília, veio morar em Brasília, e a gente é amiga até hoje, desde os meus 15 anos de idade.

 

P2 – Como é que a Miriam e a Maria Helena se divertiam em Uberlândia?

 

R – Em Uberlândia? Ah, era muito legal. Tudo era bacana, sem grandes preocupações. Eu sempre fui muito “caxias”, então o meu momento de estudar, de levar a sério a escola, de estudar pra prova, aquilo ali estava ocupada com aquilo. E sempre eu gostei muito de cinema. Então, quando eu tinha algum tempo era cinema, era ir ao Praia Clube, ao Cajubá, os dois clubes que tinham, que acho que ainda são os dois que existem lá até hoje, tomar sol, fazer fofoca, conversar à toa. A Miriam adorava. Assim como a Miriam adorava ir pro meu apartamento... Nessa época que eu fortaleci a minha amizade com ela eu já estava morando num apartamento com umas amigas. Eu fiquei dois anos morando em pensionato e era amiga da Miriam, frequentava a casa dos pais dela, ela frequentava lá o pensionato onde eu morava. Mas a amizade se fortaleceu mais quando eu tinha uns 17 anos e que eu fui morar num apartamento. Aí o meu pai já alugou um apartamento e eu fui morar com algumas amigas de Monte Carmelo. E era legal porque a Miriam adorava ir pra minha casa, ela achava diferente. Ela morava com os pais e achava muito interessante ter uma amiga que morava só com amigas, sem os pais. Então ela tinha muita liberdade no meu apartamento. E eu, por outro lado, sentia falta daquela coisa de família, de ver uma família junto, de ter um bolinho quente na mesa, cafezinho, suquinho, essas coisas que mineiro gosta. Então eu adorava ir pra casa dela também. A mãe dela foi uma pessoa super, que eu nunca vou esquecer, super importante na minha história de vida porque foi a única pessoa de Uberlândia que abriu as portas da casa e me recebeu assim como uma filha. Ela tinha muito cuidado comigo. 

 

P1 – Como era o nome dela?

 

R – Dona Geni. 

 

P1 – E os paqueras, os namoros, como é que era?

 

R – Olha, isso sempre tem, né? Sempre tinha, mas em Uberlândia eu nunca namorei ninguém de lá não. Eu fui muito nova, e era assim muito séria. Eu só pensava em estudar, me divertir. Tinha alguma paquerinha na escola, principalmente quando eu entrei na universidade, que já estava mais adulta. Mas nunca namorei ninguém de lá porque eu comecei a namorar o meu marido muito nova. 

 

P1 – Você passa no vestibular em Uberlândia mesmo?

 

R – Passo em Uberlândia. Eu começo a estudar em Uberlândia, só que logo, não logo... Eu comecei Economia lá, mas depois eu me casei antes de formar e vim transferida pra Brasília. 

 

P1 – Você se casa lá?

 

R – Não, eu me caso em Monte Carmelo. 

 

P1 – Você conhece o seu marido lá?

 

R – Não, em Monte Carmelo. 

 

P1 – Conta tudo. 

 

R – Bem, eu conheci o Roberto em Monte Carmelo e ele também nasceu lá em Monte Carmelo e se mudou de lá bastante novo, eu não sei com que idade, eu acho que com seis, sete anos de idade. A família dele mudou pra Uberaba, mas a origem dele é de Monte Carmelo também, os avós, tios. E foi num carnaval. Ele foi passar o carnaval lá, e eu também estava lá, nós nos conhecemos durante um carnaval. Comecei a namorar com ele eu tinha 17 pra 18 anos. E é por isso também que eu não tive nem tempo em Uberlândia de namorar, porque comecei a namorar com o Roberto muito nova, eu comecei com 17 ou 18, não me lembro bem, foi de 17 pra 18, casei com 21. Então eu não tive esse tempo. Naquela época não se usava, apesar de eu ser novinha, naquele meu tempo não existia essa história de ficar. Então quem tinha um namorado tinha um namorado. 

 

P1 – Você tranca a faculdade pra poder se casar?

 

R – Não, não tranquei. Ele era funcionário público e naquela época existia essa regalia. O funcionário que ia casar, dependendo do cargo que ele exercia no governo, ele podia pleitear a transferência da esposa, e ele conseguiu. Como eu entrei numa federal, a Universidade Federal de Uberlândia, ele conseguiu uma transferência pra Universidade de Brasília, pra UNB. E chegou aqui na UNB foi toda uma longa história porque eu não tranquei, eu simplesmente transferi. Mas, por diferenças na carga horária, no currículo, nas disciplinas, eu praticamente perdi tudo que eu tinha feito em Uberlândia, eu praticamente voltei do zero, coisa que também na época me aborreceu bastante mas que foi um ganho. Foi um ganho, eu adorei porque realmente aqui era melhor, a UNB era melhor. Foi uma época que a UNB estava muito bem servida o curso de economia. Eu tive a oportunidade de ser aluna de grandes nomes, de grandes economistas, que se eu estivesse em Uberlândia eu não teria tido essa oportunidade. 

 

P1 – Como foi a escolha da sua carreira?

 

R – Também é o acaso, acho que como acontece com a maioria dos jovens. A minha família toda é apaixonada pela matemática. O meu avô Langone adorava matemática, os meus dois irmãos, à exceção de um, do José Humberto. O Carlos Henrique e Carlos Antônio são engenheiros, eu tenho um monte de primo engenheiro, e eu gostava muito de matemática, muito. E não estava disposta, achava que não queria fazer engenharia. E foi um equívoco, que eu achava que economista, o grande lance do curso seria gostar de matemática, o que não é muito verdade, não é bem assim, embora todo economista tenha que saber bastante da matemática. Mas foi mais por uma opção assim, eu sabia que queria alguma coisa que envolvesse matemática no meio. Eu tinha um pouco de influência de família, tenho alguns tios economistas. Na época meu primo era Presidente do Banco Central, o Carlos Geraldo Langone, que era um economista. Eu estava um pouco entusiasmada com essa ideia, mas hoje eu acho que eu faria outro curso. Eu não sou uma economista e nunca exerci a profissão de economista. 

 

P2 – Eu queria saber qual foi a sua primeira atividade profissional. 

 

R – Bancária também. Só que eu entrei no Banco de Brasília, hoje Banco de Brasília, o BRB, era Banco Regional de Brasília na época, em 85. Eu tinha tido o meu primeiro filho, a Paula, no dia 22 de novembro de 83. E ela era novinha e eu queria, estava sentindo falta de uma atividade, eu queria sair pra trabalhar fora. Eu não queria ficar em casa, eu estava formada, com uma filha pequenininha. Ela já estava com dois anos e meio, eu acho, e eu queria trabalhar fora. E como eu sempre dei muita prioridade pra minha família e pros meus filhos, eu queria uma atividade que não me demandasse muito tempo, muito esforço, ficar tanto tempo ausente. Eu achava que banco seria o ideal, que eu poderia trabalhar seis horas. Aí prestei o concurso. Na mesma época que eu fiz o concurso do BRB eu fiz do Banco do Brasil, só que na época o Banco do Brasil demorou muito a chamar essa turma e o BRB chamou primeiro. Eu fui primeiro pro BRB. Fiquei de 85 até 87, quando o Banco do Brasil me chama pra tomar posse. Aí eu saio do BRB e vou pro Banco do Brasil.

 

P1 – Maria Helena, como que era Brasília quando você chegou aqui? Qual foi a sua primeira impressão? Era década de 80, né? O quê que estava acontecendo?

 

R – Olha, era uma cidade totalmente diferente. Todo mundo que chega aqui, Brasília realmente é uma cidade diferente. E eu também estranhei, no começo, aquela mudança. Mas a UNB me tomou tanto o tempo que isso me ajudou também a não estranhar ou a não achar ruim. Mas foi um período difícil porque foi um período de grandes mudanças, cidade nova, estar casada, meu marido viajava muito, eu estava sozinha, ficava muito sozinha, longe da minha família, não dirigia. Então tudo isso influencia se você gosta ou não gosta da cidade. E todo mundo fala que Brasília é meio que de extremos, ou você gosta ou você odeia. Eu acho que desde o começo eu gostei. Os dois primeiros anos foram difíceis, mas eu sabia que eu ia gostar e ficar na cidade, aquela coisa do anonimato, de ninguém saber quem você é, da onde você veio, quem é sua família, aquela coisa legal de estar ali na UNB, naquela democracia toda ali, de todo mundo se misturar. Aqui eu era a Maria Helena, diferente do que eu era em Uberlândia e Monte Carmelo, que todo mundo conhecia meus pais, minha origem, minha família. Eu gostava disso, de ser uma cidade, ao mesmo tempo uma cidade grande, que oferecia oportunidades, tinha esse lado tranquilo, de ser uma cidade calma. E era totalmente diferente. A quadra que eu fui morar, a 108, não tinha comércio, você tinha um bloco, uma padaria. 

 

P1 – Qual era o bairro?

 

R – Na Asa Norte, na quadra 108 Norte. Quando eu mudei, a quadra tinha um blocozinho de comércio, uma padaria, não tinha mais nada. Hoje você passa por lá, e não só lá como até o final da Asa Norte, toda a cidade teve um crescimento assim espantoso nesses últimos 20 anos.

 

P2 – Você passou ____ dois anos ___ Banco do Brasil. Quando chegou no Banco do Brasil, qual foi o trabalho, a atribuição que você teve lá?

 

R – Bem, quando o Banco do Brasil me chamou, no BRB eu trabalhei em agência. Foi a minha única experiência como bancária de agência, foi a do BRB, porque depois que eu vou pro Banco do Brasil eu nunca mais trabalhei numa agência. O banco, quando me chamou, nessa época do meu concurso, ele não estava precisando de funcionário pra agência. Eu seria alocada ou no CESEC [Centro de Processamento de Serviços e Comunicações] ou na Direção Geral. CESEC eu nem me lembro mais o que significa direito, era o centro de processamento lá que fazia todo o processamento de compensação de cheque, folha de pagamento de funcionário, esse tipo de apoio, que hoje ele existe lá, a tecnologia, e enfim, tem outros nomes. Mas eu teria que optar ou pela Direção Geral ou pelo CESEC. E eu, por uma questão até de comodismo, o CESEC era no final da Asa Norte, perto da minha casa, tranquilo o trânsito e tudo mais, eu fiz a opção de trabalhar no CESEC. E no CESEC, quando eu tomei posse eu fui trabalhar na área de funcionalismo. E no começo eu gostei muito porque não tinha esses sistemas sofisticados que o banco tem hoje, não tinha nem o sistema RHM, era uma coisa. Eu fui trabalhar no funcionalismo fazendo tudo a mão, manualmente. Então eu fazia cálculo de férias, de licença prêmio, de aposentadoria, de pensão alimentícia. Chegava o que a gente chama de PAS [Programa de Assistência Social], aquele auxílio pra tratamento dentário. A gente analisava, atualizava a carteira de trabalho, todo o serviço relacionado a funcionalismo a gente fazia no CESEC. E eu achava legal, só que depois de alguns anos essa rotina aborrece. Aí vai cansando, chega uma hora que cansa. Mas foi, eu tenho boas lembranças também do CESEC. Foi uma época boa onde eu também não tinha cargo comissionado, eu podia fazer as minhas seis horas tão desejadas, dedicar um pouco à minha filha, ao meu outro filho que já tinha nascido, o Tiago. Então foi legal, fiz muitas amizades e foi uma época boa. Mas fiquei sete anos trabalhando com funcionalismo, eu não conhecia outras áreas do CESEC.

 

P1 – E em seguida você _____ anos?

 

R – É. No CESEC eu fiquei de quando eu tomei posse, em maio de 87, até abril de 94 quando eu vou pra Fundação Banco do Brasil. Fui convidada por um amigo que trabalhava na fundação, se eu tinha interesse em trabalhar lá. E fui fazer uma entrevista e me chamaram e eu fui. 

 

P1 – Só retomando um pouquinho, Maria Helena, assim que você entra no banco, logo em seguida já começa a tramitar o estatuto da fundação. Vocês tomaram conhecimento, os funcionários tomaram conhecimento de que estava sendo fundado o braço social do Banco do Brasil?

 

R – Olha, os funcionários eu não posso responder, eu não tomei conhecimento. Muito provavelmente aqueles mais ligados no banco, ou que tinham mais tempo de banco, mais vivência, tomaram conhecimento com certeza. Mas no CESEC eu não tomei conhecimento. Inclusive é uma coisa que até hoje a gente tem dificuldade dentro da fundação, de dar visibilidade pra fundação, pro que ela faz, pra importância dela dentro contexto, não só dentro do banco como pro país como um todo. E é uma coisa complicada porque o próprio funcionário do banco não conhece a fundação. Eu tinha sete anos de CESEC e fui chamada pra trabalhar na fundação, e até um ou dois anos antes desse convite eu não sabia nem da existência, que o banco tinha uma fundação. 

 

P1 – Você se lembra qual foi a primeira vez que você ouviu falar?

 

R – Infelizmente por um fato ruim, que foi uma época que ela viveu, que ela passou por uma intervenção. Teve um problema sério. Nessa época eu não estava na fundação, não acompanhei tudo de perto, mas eu fiquei sabendo pelos jornais, através de um escândalo, sei lá o que exatamente que estava acontecendo. Na fundação houve algumas denúncias, acho que ao Ministério Público, e o assunto da fundação veio à tona, começou a aparecer nos jornais na época do Governo Collor. Eu tomei conhecimento nessa época, eu não tinha conhecimento.

 

P2 – Eu queria só também retomar um pouquinho. Nessa fase que você chega no Banco do Brasil, você entra no Banco do Brasil. E agora? Qual a sensação de estar no Banco do Brasil, a carreira, a perspectiva? O que você imaginou quando trocou o BRB pelo Banco do Brasil?

 

R – Olha, Aurélio, eu não tinha grandes perspectivas. Naquela época, eu não sei se eu já disse aqui, a minha prioridade era a minha família, meus filhos. A minha vida profissional não tinha a importância que hoje eu dou a ela. Eu naquela época, não estava preocupada com isso, com carreira, com fazer carreira. Pelo contrário, eu tomei posse achando que ia trabalhar eternamente as minhas seis horas e o outro período cuidar da minha família. Então eu não tinha grandes pretensões não. A troca foi porque o Banco de Brasília, o próprio nome diz, é um banco de Brasília. O Banco do Brasil é do Brasil, está no Brasil todo. Eu achava assim, que eu estava mudando pra uma instituição muito maior, muito mais estável, que tinha muito mais credibilidade, mais importante e que tem em qualquer lugar. Eu pensava: “Bem, se eu não der certo em Brasília, acaso aconteça alguma coisa e eu mude de cidade com o Roberto ou sem o Roberto, ou volto pra Monte Carmelo, em qualquer lugar vai ter um Banco do Brasil pra eu trabalhar”. Então o que pesou mais foi essa praticidade de ter o banco em qualquer lugar, e também pelo próprio nome do banco, que sempre foi uma instituição assim de respeito, de mais peso, quando eu comparava não o salário, que na época era a mesma coisa, mas de estar trabalhando num banco do Governo do Distrito Federal  e estar trabalhando no Banco do Brasil. Eu fiz essa opção mais por aí e não pensando em futuro, não pensando em carreira, de como eu poderia crescer mais dentro do banco ou dentro do BRB porque eu acho que os dois dão esse tipo de oportunidade pra quem quer. Então não foi muito nessa perspectiva. Eu mudei mais, primeiro pesando as duas instituições, eu achei que seria mais prazeroso e mais compensador trabalhar para o Banco do Brasil, no Banco do Brasil. E segundo, de ter agência em todo lugar. Independente de aonde eu viesse a morar no futuro, eu teria uma opção de trabalho. 

 

P1 – Maria Helena, então vamos retomar com o seu convite pra entrar na fundação, quem fez, quando fez, e por quê.

 

R – Tá, eu vou tentar ser sucinta. Se eu sair do assunto pode me trazer. Não, é porque é interessante porque às vezes é tão corrido, foi Fulano que trouxe, a protegida do Beltrano, não, foi Fulano que convidou. E no meu caso em particular, não tem nada a ver nem com banco. Eu tenho uma grande amiga, o nome dela é Vera. A Vera é casada com o Laércio, que eu chamo de Lalá. Esse Laércio é um engenheiro que se formou na mesma turma do meu marido. Nem ele é bancário, nem tampouco a Vera, a esposa dele. Só que a Vera tem um irmão, Eduardo, que eu chamo de Dudu, que é bancário e na época trabalhava na Fundação Banco do Brasil. Toda festinha, reunião, aniversário que eu estava na Vera eu conversava com o Dudu, que é uma pessoa simpaticíssima e que trabalhava no banco, e bancário quando se junta tem sempre assunto em comum. E numa dessas festinhas na casa da Vera o Eduardo perguntou se eu não tinha vontade de trabalhar na Fundação Banco do Brasil. Eu disse: “Eduardo, eu conheço muito pouco da fundação, não sei exatamente o que ela faz. Eu teria que conhecer e pensar um pouquinho melhor”, e comecei a me interessar pelo assunto. Aí sim eu fui procurar saber o que era a fundação, o que ela fazia, onde ela ficava. Eu não sabia nem o endereço aqui dentro de Brasília, onde eram as instalações. E me interessei porque também eu já estava muito tempo no CESEC, no mesmo lugar, fazendo a mesma coisa. Então foi o Dudu, esse Eduardo, que na época, eu não sei, eu não me lembro também o cargo que ele exercia. Seria como um secretário executivo do presidente da fundação, ele trabalhava diretamente com o Maurício Teixeira. Ele agendou, eu fui fazer uma entrevista, fui entrevistada pela Regina, que também é uma funcionária que hoje já está aposentada. E foi nessa época, na gestão do Maurício Teixeira, que eu vou pra fundação. E vou, e não foi também uma chegada fácil porque eu sou uma pessoa muito afetiva, me apego muito com as pessoas, com os colegas. Quando eu deixei a CESEC, eu fiquei assim arrasada, triste, arrasada. Os primeiros dias de fundação a sensação que eu tinha era que eu queria voltar pro CESEC, e também cheguei e fiquei um pouco decepcionada porque, quando eles me entrevistaram era pra trabalhar na fundação, não falou exatamente em que área. E eu fui alocada justamente pra uma área que era de funcionalismo, que era a secretaria. Então eu continuei fazendo prestação de contas, conferindo prestação de contas de viagem a serviço de funcionário, atualizando carteira de trabalho, fazendo coisas relacionadas a secretaria, funcionalismo e administração, até que um dia eu resolvi procurá-los pra me queixar. Me senti assim prejudicada, que se fosse pra fazer o que eu já vinha fazendo no CESEC eu não teria mudado de lá, que eu gostaria de trabalhar numa área da fundação mais diretamente ligada com a missão dela, ou seja, com os projetos sociais que ela desenvolvia. Mas eles entenderam a minha colocação, e na primeira oportunidade acho que eu fiquei mais ou menos um ano. Eu não me lembro quanto tempo que eu fiquei trabalhando com o Batista na secretaria, e depois eu tive a oportunidade, depois que eu fui me queixar, conversar e pedir essa oportunidade, que eu gostaria de ir pra área operacional, eu tive oportunidade de trabalhar com o Cisne. Aí saí da secretaria e já fui trabalhar com projetos mesmo. 

 

P2 – Quais as áreas que você atua na fundação e as funções que você teve nesse período?

 

R – Poxa, Aurélio, tem que ter memória porque eu sou jurássica. 

 

P1 – ____________________

 

R – Eu entrei na fundação em abril de 94. Então, veja bem, são 12 anos.  Eu trabalhei praticamente em todas as áreas, todas. As funções é fácil porque eu cheguei como Assistente, e na época do Rabelo eu fui nomeada Assessora Plena, ou Analista Plena que chamava, e hoje eu sou Assessora Sênior. Então as minhas funções são mais fáceis de lembrar porque são três só. Agora, o local na fundação, eu tive a oportunidade de trabalhar praticamente em todas as áreas, porque eu entrei nessa área administrativa na secretaria, depois de um tempo eu trabalhei com o Romano e a Cristina numa área de planejamento da fundação, e depois eu fui pra área operacional onde eu estou até hoje. Mas a área operacional também passou por várias mudanças, por várias maneiras de atuar. Antigamente, eu não me lembro de datas, mas era o seguinte. Dividíamos os projetos da fundação por campo de atuação, Assistente Social, Saúde, Educação, CeT, [Ciência e Tecnologia] e tal. Depois resolveram que assim não estava legal, vamos dividir por regiões, Nordeste, Sul, Centro-Oeste, tal. E aí quem ficava com aquela região cuidava dos projetos de todos os campos de atuação naquela região. Ou seja, isso fez com que quem trabalhasse na área operacional atuasse com projetos de Saúde, de Assistência Social, de Educação, Ciência e Tecnologia, enfim, dos sete campos de atuação da fundação. Inclusive no FUNDEC [Fundo de Desenvolvimento Comunitário] eu trabalhei, pouco tempo mas trabalhei também, porque dependendo de como era dividido as áreas, as diretorias, a gente acabava fazendo de tudo um pouco dentro da área operacional e dentro dos campos de atuação. Eu não estou falando fazer de tudo um pouco dentro da fundação inteira, mas na área operacional, que cuidava da análise e acompanhamento dos projetos. 

 

P1 – Maria Helena, quando você entra já é o prédio novo do Edifício Number One ou vocês estavam no Camargo Corrêa ainda?

 

R – Eu tomei posse no Camargo Corrêa em 96, e acho que maio, não sei, nós mudamos pro Number One onde é a sede atual, Setor Comercial Sul.

 

P1 – Você entra, a fundação já está sofrendo ou começa a sofrer uma reestruturação grande, um pouco de diminuição no quadro de pessoal. Você viveu essa fase? Você entrou logo _______. 

 

R – Vivi. Não, eu vivi, eu entrei, o Maurício Teixeira que era o Secretário Executivo, que era o cargo máximo da fundação. Entrei na gestão dele. Depois, eu também não me recordo as datas, acho que 96, o João Pinto Rabelo toma posse. E foi quando ele entra que houve essa reestruturação. Eu estava lá relativamente há pouco tempo, comparando com a maioria dos colegas. E eu passei sim por isso, por essa reestruturação. E eu não tenho conhecimento, nem tive na época, nem tenho hoje, de quais foram os critérios pra se fazer essa reestruturação. A única coisa que eu sei foi que eu fiquei. Eu fiquei. Saíram vários colegas, foi uma coisa meio traumática porque alguns já tinham muito tempo de fundação, e foi meio que um susto. Ele chegou, o João Pinto Rabelo chegou e, por alguma razão, fizeram essa reestruturação, que não aconteceu também só na gestão dele. Só que essa foi meio que de repente, mais rápido. Ele chega e logo depois ele resolve reestruturar a fundação, e houve realmente corte no quadro de funcionários. Mas eu não tomei, nunca tomei conhecimento, nem na época, nem até hoje, quais foram os critérios, porque que algumas pessoas foram e outras ficaram. E foi justamente nesse corte aí de pessoal que eu saio da secretaria e vou trabalhar com o Cisne, porque antes do Rabelo chegar eu já tinha ido fazer a queixa que eu te disse, que eu não estava me sentindo motivada nem feliz fazendo aquele trabalho de secretaria, que eu não tinha saído do CESEC pra aquilo, que o meu sonho na fundação era estar atuando, trabalhando com os projetos da fundação. E eu me lembro que tinham acho que três diretores, o Onório, o Cisne e um outro que eu não me recordo o nome, acho que era Reinaldo. Eu não tenho certeza. Eu me lembro que o Maurício me perguntou: “E caso haja uma vaga, você gostaria de trabalhar com qual deles?” E eu falei: “Cisne”. Eu não conhecia de conversar, não conhecia profundamente nem um dos três, mas só de ver pelos corredores e de cumprimentar eu sempre tive uma simpatia muito grande pelo Cisne. O Cisne depois se tornou assim um grande amigo, o meu professor, uma pessoa importantíssima na minha vida profissional. E eu falei: “Cisne”. E eu acho que o Maurício ficou com aquilo na cabeça e ficou, deve ter comentado com o Cisne porque depois o Maurício sai, quando o Rabelo toma posse e eles fazem essa reestruturação, quem me convida pra ficar, permanecer na fundação e trabalhar com ele foi o Cisne.

 

P1 – Maria Helena, as pesquisas na época apontam não só pra diminuição do quadro de pessoal, mas também pra mudança do atendimento de projetos de balcão para os projetos estruturados. Como é que você vivenciou isso, que estava mudando de cargo nessa época?

 

R – Olha, é verdade. Sempre teve essa preocupação, desde que eu cheguei na fundação, da fundação ter, primeiro, maioria das fundações atuam em algum campo, ou na Educação ou com Saúde, e a fundação não. A fundação, no seu estatuto e no seu planejamento interno, é previsto que ela vá pra sete campos. Então, o leque da fundação já era muito aberto em termos de campo de atuação. E além disso, dela atuar em tantas áreas, tinha realmente o que a gente chamava de atendimento de balcão. A gente recebia as propostas, tinha enquadramento dentro dos normativos, tinha orçamento, aquilo era analisado e acatado. Então a fundação dispersava muito o foco dela, tanto de atuação como de interesse, como ficava sujeita a muita ingerência política. Era pedido de todo mundo e de todos, desde o prefeito, deputado, governador, cada um querendo privilegiar o seu estado. E isso não dava visibilidade pra fundação, ela perdia um pouco o foco, e ela queria ter mais cuidado nessa atuação. Foi daí que, quando o Rabelo chegou, começou a pensar em enxugar um pouco isso, em trabalhar com alguns programas estruturados. O quê que seriam esses programas estruturados? Programas de iniciativa da fundação, não ser só um mero acolhedor de propostas, um mero financiador. A gente queria atuar também escolhendo o que iria fazer, como fazer. E começou realmente na gestão dele, mas isso não quer dizer também que começando essa fase dessa ideia de começar a criar os primeiros programas estruturados que vieram a ser o Homem do Campo, SOS Seca, depois Criança e Vida. Isso não quer dizer que a fundação fecha completamente ao atendimento de pleitos avulsos não. Não é verdade, ela continua com a portinha aberta porque ficava praticamente impossível de não atender certas demandas, e também porque ela estava começando nesse novo caminho. Não dava pra sair de um modelo e partir radicalmente pra outro modelo. Isso vai acontecendo aos poucos, vai acontecendo aos poucos. E eu participei do Homem do Campo, que foi um dos primeiros programas estruturados, e foi também uma fase muito legal. 

 

P1 – Pode contar. 

 

R – Oh, meu Deus. Bem, eu acho que o Programa Homem do Campo foi um marco na fundação por diversas razões. Em primeiro lugar porque foi, pela primeira vez o funcionário da fundação estava saindo de Brasília, saindo de dentro da fundação, de sua sala, pra ir até a comunidade que seria assistida, pra ir visitar o local de desenvolvimento dos trabalhos e dos projetos, pra fazer isso junto com a comunidade, ouvir o prefeito, ouvir a comunidade, ouvir o gerente do banco que estava lá na ponta. Então a fundação sai desse papel de estar aqui dentro de Brasília, dentro de um lugarzinho, de um escritório fechado, acompanhando de longe. Então, pela primeira vez, nós funcionários da fundação começamos a ir até o local de desenvolvimento dos trabalhos já preparar junto com o pessoal as propostas. Então pra mim foi uma experiência assim muito marcante, muito marcante, porque coincide que a primeira vez que funcionários da fundação estão saindo pra ir na ponta da comunidade ajudar a formatar tal projeto, até conceber os projetos, até a sua fase de encerramento, como coincide também com a minha primeira viagem a trabalho. No CESEC eu nunca fiz uma viagem a serviço. Então marcou muito, porque pra mim também era uma experiência totalmente nova. Eu só saia pra viajar de férias, com família, com marido. Eu não tinha saído pra trabalhar. Então foi uma coisa marcante. Eu me lembro, eu fui com o Silvio. A gente sempre ia de duplas, nunca um funcionário sozinho, e foi feito tipo assim um sorteio de localidades de projetos. Não fui nem pro Norte, nem pra Nordeste. Nada contra essas cidades que o país todo é maravilhoso, mas me mandou pras cidades que tinham um pouco de infraestrutura, porque eu tenho amigos dentro da fundação que foram parar em cada lugar que foi assim muito difícil realmente de se trabalhar. Então eu fui com o Silvio pra Nova Roma do Sul e Frederico Westphalen.

 

P1 – Frederico...

 

R – Westphalen. Não sei se a pronúncia é essa, acho que sim, e que são duas cidades do interior do Rio Grande do Sul. Frederico é uma cidade maior e Nova Roma do Sul é uma cidade super pequenininha, na época tinha três mil habitantes, uma colônia de italianos. E foi muito divertido porque a gente trabalhou pra caramba. A cidade não tinha nada de infraestrutura, não tinha onde ficar direito, não tinha um hotel. Se não fosse o apoio do gerente do banco a gente não teria nem o que comer e onde ficar direito. 

 

P1 – Ficava uma média de quanto tempo deslocados assim em outra cidade?

 

R – No mínimo uma semana, porque a gente ia pra formatar o projeto, e não era um projeto, eram vários. O Programa Homem do Campo era de assistência à família, a agricultura familiar. Então tinha esse lance da agricultura familiar, educação e saúde. Era um tripé que, se não me engano, eram os três temas que a gente focava mais, saúde, educação e agricultura familiar. Então quando você ia num município a gente não ia lá pra formatar, fazer um projetinho. A gente ia lá e formatava vários. Eu não me lembro a quantidade, mas em Nova Roma acho que eu e o Silvio montamos uns oito projetos. Em Frederico Westphalen também. Porque aí era assim na área de saúde: “Vamos reformar ou construir um posto odontológico, vamos fazer tal coisa, um galpão para guardar as frutas, com câmaras frigoríficas e papapá”. A gente ia montando o projeto, e ia montando o projeto com pessoas da comunidade que iam ser assistidas, com o prefeito, com o gerente do banco, com o padre. Ou seja, as figuras importantes da cidade sentavam com a gente, a gente discutia as carências do município, o quê que era viável, o quê que não era, e montava a proposta pra eles. Já trazia para Brasília a proposta pronta, formatada junto com eles, pra depois desenvolver os projetos. Então realmente foi um projeto muito, um projeto que deu certo, um projeto bem-sucedido. Um projeto não, desculpa, um programa bem sucedido e que pra mim marcou muito por essas duas razões, por ser a primeira vez que um funcionário do banco estava se deslocando da fundação pra ir até a comunidade, vivenciar tudo aquilo e trabalhar junto nessa formatação dos projetos, e também a minha primeira experiência de viajar pra trabalhar pro banco. 

 

P1 – Qual era o maior desafio?

 

R – Olha, eram vários porque realmente não tinha estrutura direito pra fazer as coisas. O primeiro desafio era você identificar realmente as carências. Segundo, saber se a comunidade, se aquela cidade, se aquele projeto seria viável. Porque vocês devem saber, a fundação apoia os projetos na modalidade de ______ não reembolsável mas sempre exigindo não na sua totalidade, sempre exigindo uma contrapartida do parceiro. Então muitas vezes você queria desenvolver um trabalho mas a prefeitura ou a associação que estava sendo beneficiada, no caso do Homem do Campo era só com as prefeituras, mas de maneira geral às vezes a gente tinha esse desafio de estar fazendo o projeto da maneira como a gente achava que era o melhor, mas de estar também vendo as possibilidades da comunidade, do parceiro, do conveniado, de estar arcando também com a contrapartida e com a responsabilidade dele. E vários outros desafios, saber se aquilo ali ia ser autossustentável, depois do afastamento da fundação do projeto se aquilo ia acontecer realmente. Porque é muito triste, você acompanha um projeto, você analisa, dá seu parecer, depois você vai na localidade e vê que aquilo não foi pra frente. Aconteceu, eu vi isso em Frederico. Eu visitei um hospital junto com o Silvio e vi um aparelho de mamografia que a fundação tinha concedido àquele hospital em anos anteriores, que o hospital não tinha, eles pleitearam em um outro projeto que não era o Homem do Campo. E nessas visitas que eu e o Silvio fizemos na cidade com o prefeito eu vou até esse hospital, está lá o aparelho de mamografia com a plaquinha que era apoio da Fundação Banco do Brasil que tinha doado, e parado, inoperante. E a gente perguntou o porquê. “Ah, é porque a médica ou o médico que sabia operar o equipamento, fazia mamografia, não mora mais aqui, foi embora e até hoje a gente não conseguiu trazer outro médico pra cidade”. Então que tipo de contrapartida que era essa? Por exemplo, no caso de conceder um aparelho de mamografia pra um hospital. A gente tinha todo o cuidado de analisar o projeto, de ver quem estava pleiteando. Se foi a prefeitura, se a prefeitura tinha condições de manter o equipamento funcionando, atendendo as pessoas, cumprindo o objetivo para o qual ele foi doado, se o prefeito fazia o compromisso de por um médico e um técnico operando o equipamento. A gente via que às vezes nem sempre isso acontecia. Então, quando você pergunta de desafio, é esse. Nós queremos analisar, deferir, mas queremos que a coisa funcione. A gente quer ver o projeto funcionando, atendendo e beneficiando o nosso público alvo. Então tinha esse desafio. Não era chegar e ir montando os projetos, era identificar as carências do município, o quê que era viável, montar a proposta junto com eles, o quê que eles estão querendo, esperando da fundação, compatibilizar esses interesses, formatar o projeto e botar funcionando.

 

P2 – E essas viagens _____ fundação, você encontrou uma realidade bem diferente, que você estava comentando. Mas você encontrou algum personagem curioso ou local, ou alguém, o gerente do banco ou prefeito, alguém que está na sua lembrança assim? 

 

R – Sim, essa viagem do Homem do Campo foi tão marcante que o gerente que nos deu apoio em Nova Roma do Sul, que era num lugar que não tinha restaurante. Tinha um hotelzinho, uma pensãozinha recém-inaugurada, que não tinha nenhum hóspede. Esse gerente de banco, o Bittencourt que hoje está numa cidade, acho que Triunfo, no Rio Grande do Sul, eu me relaciono com ele até hoje. A gente se fala pelo telefone. Eu fui a pouco tempo em Florianópolis, encontrei com ele. Ele vem a Brasília, já se hospedou na minha casa. Criaram-se realmente laços de amizade. Sempre tem alguma coisa marcante, não só entre os colegas do banco como as pessoas que foram beneficiadas. No Homem do Campo, como eu disse, eu viajei pouco, eu fiz essas duas viagens para o Rio Grande do Sul. Tem outros projetos que eu tive o relacionamento, eu aprofundei mais o relacionamento, tanto com as pessoas que estavam envolvidas nos trabalhos como os beneficiários. Mas no Homem do Campo eu tenho sim, tenho essa lembrança do Bittencourt, que é um grande amigo até hoje.

 

P1 – Qual a importância desses gerentes dessas agências do Banco do Brasil pros projetos da fundação?

 

R – Aurélio, ele é fundamental. Se você olhar o operacional da fundação, ele não funciona sem o gerente do banco. Pra todo e qualquer projeto da fundação que você apoia, você é obrigado a abrir uma conta específica do projeto, numa agência do Banco do Brasil, de preferência aonde vai ser conduzido e realizado, desenvolvido o projeto, a não ser que não tenha agência do banco naquela localidade, procura-se um mais próxima. Mas como tem essa obrigatoriedade de abrir uma conta específica somente para o projeto, e somente quem pode operar essa conta é o gerente do banco, ele é peça fundamental no processo. Não só por isso, não porque ele vai controlar esses pagamentos e gerenciar essa conta, não é só por isso. É porque ele está ali na comunidade, é ele que conhece a comunidade, é ele que conhece as carências. Imagina os milhares de projetos que a fundação já apoiou, com quadro de funcionários reduzido, e aqui no meio do país, em Brasília. Como que a fundação teria condições de acompanhar projetos lá na divisa do Rio Grande do Sul, como a gente teve o da Spirulina. A cidade, me fugiu o nome agora, mas daqui a pouco eu lembro, lá na ponta, quase que na divisa com o Uruguai, assim como temos projeto no Acre, em Rondônia, no Pará, no Amazonas. Então a importância do gerente, do funcionário, do colega que está lá na ponta é essencial. Eles são os nossos olhos, os nossos ouvidos, o nosso coração, eles têm a sensibilidade de saber o quê que aquela comunidade quer, quais os limites, até onde ela pode ir, o que ela pode fazer, se aquilo é viável ou não. Ele vai fazer visitas in loco. Se a fundação recebe alguma denúncia de desvio de objetivos ou de verba, ele está lá olhando, fiscalizando. Então é fundamental, não só do gerente como do colega que está conduzindo realmente pra gente, fundamental, uma peça essencial no processo como um todo. 

 

P1 – Maria Helena, desde que você entrou na fundação até hoje você já passou por diferentes governos de presidentes, e que desde a década de 80 passam a ter um enfoque um pouco mais social, passa a ter uma mudança dessa mentalidade deles. Existe ou existiu, ou continua existindo, alinhamento dos programas da fundação com os programas de governo como o Comunidade Solidária, Fome Zero?

 

R – Hã, hã. Olha, eu creio que sim e acho isso bastante natural, já que o nosso instituidor, mantenedor, é o Banco do Brasil. Então com certeza o presidente que chega ali na fundação vai procurar atuar de maneira alinhada ao Governo Federal. Eu acho que isso não resta a menor dúvida. Agora, a gente que está ali trabalhando e muito envolvido no processo não percebe tão claramente. Eu acho que tem um nível de diretor pra cima que pode ver isso de maneira mais clara, mais transparente, porque o funcionário que está envolvido, o técnico, na análise, no acompanhamento, dando parecer, estudando, pra gente a coisa não fica tão clara como pros diretores de área e diretores executivos e tudo mais. Mas com certeza isso acontece e a gente percebe sim. Como eu disse anteriormente, a fundação, desde que eu entrei até hoje, ela não mudou as suas áreas de atuação, ela está sempre atuando dentro desses sete campos de atuação. E cada um que chega às vezes da um enfoque maior em determinada área e determinado campo, e eu acho que isso tem a ver também com já um alinhamento com as estratégias do Governo Federal. Então a gente percebe. Agora recentemente mesmo, quando o Jacques tomou posse, o discurso dele foi bastante claro e enfático, ele já chegou dizendo, ele tinha consciência que não podia mudar o estatuto ou abandonar, esquecer que a fundação tem sete áreas. Ele tem plena consciência disso, mas ele chegou, e no discurso dele ele falou que queria priorizar a área de educação e de geração de emprego e renda. Então é uma coisa que alguns, quando tomaram posse, deixou isso mais claro, outros não, mas no desenvolver dos trabalhos você vai percebendo que tem isso sim.

 

P2 – Você sempre esteve diretamente envolvida com o Projeto Memória, e a gente estava curioso pra ouvir um pouco sobre os motivos que levaram à criação desse projeto.

 

R – O Projeto Memória? Bem, Aurélio, a sua afirmativa aí não é bem verdadeira não, eu não tive sempre envolvida não. Eu atuei em todas as áreas da fundação, como eu já disse, e no Projeto Memória eu comecei em 2002. Quem cuidava do Projeto Memória, que a gente brinca que é o pai do Projeto Memória, era o Artur. Ele ficava na área da _____, na área de cultura, e ele foi criado em 1997. Então eu só vim assumir o Projeto Memória em 2002. Ele já estava em que edição? Em 97, 98, 99, quase seis anos, na sexta edição. Então eu não sei te falar exatamente como que ele surgiu. O fato é que, em 97, a gente já queria um programa também estruturado na área de cultura, e o Rabelo resolveu que queria homenagear o Castro Alves, eu não sei por que motivo. O projeto sempre foi concebido com esse objetivo de resgatar, preservar e difundir personalidades da história do Brasil, da área cultural sobretudo. E ele quis homenagear, o primeiro homenageado seria Castro Alves. E nós tomamos conhecimento na fundação que a Odebrecht estava já fazendo um livro sobre Castro Alves, e resolvemos aproximar deles pra conversar, pra saber o quê que seria exatamente aquele projeto. Então foi uma coisa que surgiu, uma parceria entre Fundação Banco do Brasil e Odebrecht, pra homenagear Castro Alves. E foi uma parceria excelente, muito bem sucedida até 2003, porque à partir de 2003 o nosso parceiro no projeto é a Petrobrás, eu retomo esse assunto depois, mas entre a Fundação Banco do Brasil e a Odebrecht pra homenagear Castro Alves, com essa ideia de estar resgatando alguns nomes da história do Brasil, não só história como fatos que marcaram a nossa história também, quer dizer, esse resgate, essa preservação da memória. Então o primeiro homenageado em 97 foi Castro Alves. Foi uma parceria bem-sucedida. Daí pra cá a cada ano a gente está sempre inovando, fazendo algumas mudanças. O projeto tem mais ou menos uma cara, mas que ele vai num crescente, num aprimoramento, até chegar aos dias de hoje. Vocês querem que eu fale um pouquinho mais dele?

 

P1 – Sim. 

 

R – Olha, inicialmente, o primeiro foi assim, como eu disse, foi uma, já ficamos sabendo que o nosso presidente tinha a intenção de fazer essa homenagem e que a Odebrecht estava também preparando um livro. “Ah, então não vamos fazer só livro, vamos fazer uma exposição, vamos fazer uma cartilha, um CD-ROM”, e daí surgiu e nasceu o Projeto Memória. Depois disso essa parceria continuou, foi um trabalho de sucesso, um projeto de sucesso, a Odebrecht se manteve parceira com a fundação, e aí já começou um processo de escolha que levava-se três nomes pro Conselho Curador decidir. Então na verdade quem decide homenageado, o fato ou o personagem a ser homenageado, é o Conselho Curador da Fundação Banco do Brasil. Obvio que a fundação, por uma questão de respeito e elegância, ouve o seu parceiro, o parceiro que está colaborando e investindo também recursos no projeto. Então, de comum acordo com a Odebrecht, apresentava os nomes, assim como a gente está fazendo atualmente com a Petrobrás. Mas quem da a última palavra é o Conselho Curador da Fundação Banco do Brasil.

 

P2 – Quais foram os homenageados?

 

R – Bem, pela ordem foi primeiro o Castro Alves em 97, em 98 foi o Monteiro Lobato, em 99 foi Rui Barbosa, em 2000 foi o Cabral, foi mais os 500 anos de descobrimento, foi mais o fato, e homenageando na figura de Cabral. O projeto chamava Cabral, viajante do Rei. Em 2001 não teve um homenageado, a gente fez uma retrospectiva dos anos anteriores, até pra dar uma cara, uma padronização no projeto, eu vou explicar depois o porquê. Em 2002 foi centenário de nascimento de JK, o homenageado foi JK, 2003 foi Oswaldo Cruz, 2004 Josué de Castro, 2005 Paulo Freire. E o quê que foram as mudanças, que eu considero muito importante? Primeiro o formato das peças. Esse projeto tem esse objetivo e tem um público alvo. A gente quer atingir o aluno da escola pública, o aluno do ensino fundamental da escola pública, e os professores, principalmente esses dois segmentos. E o projeto tinha exposições cenográficas enormes. Na época do Cabral, por exemplo, não, do Cabral não, do Castro Alves tinha uma réplica do navio negreiro, aquela coisa imensa. Monteiro Lobato também era imenso. Então a exposição não itinerava pelas cidades, ficava no máximo em algumas capitais, São Paulo, Rio, Brasília. Era uma coisa que não tinha uma democratização, não tinha como andar, circular com aquela exposição. E o site também, um tinha site, o outro homenageado não tinha. Um tinha uma cartilha, o outro homenageado às vezes não tinha a cartilha e tinha um CD-ROM. Aí a gente começa a ter a preocupação de dar uma cara para o projeto: “Ah, vamos pensar numa outra opção de exposição, uma exposição mais leve, mais ágil, de fácil montagem, que possa percorrer mais municípios. Vamos substituir essa cartilha, que é uma mera réplica dos painéis da exposição, vamos tentar por um conteúdo mais informativo e formativo, quem sabe um almanaque pedagógico”. E daí foi surgindo as ideias de aprimoramento. Então, se você pega as primeiras edições do projeto e comparar o número de cidades onde a exposição chegava, o número de escolas que recebiam a cartilha e hoje o número de escolas que recebem o almanaque pedagógico, o número de livros que era produzido e aonde chegava, com os atuais, você vai ver assim uma diferença enorme. Outro problema que eu considero era a logística de distribuição. A gente fazia os materiais e mandava pra superintendência no Estado distribuir: “Olha, esse material é pra escola e biblioteca pública, distribuam por favor”. E a gente não sabia se aquilo realmente chegava no destinatário. Hoje, nos moldes como a gente atua, o quê que o Projeto Memória faz? Ele tem exposição itinerante, ele tem um site na Internet, ele tem um livro foto-biográfico, ele tem um material pedagógico, que é composto tudo de um almanaque e um guia de orientação ao professor, de como usar esse almanaque em sala de aula, ele tem um concurso de redação e ele tem um vídeo documentário, um concurso de redação em parceria com a Fundação Assis Chateaubriand. Bem, o Projeto Memória tem muito assunto. Eu vou falando, falando aqui, depois se eu me perder... Enfim, hoje esse projeto que começou com exposição, indo a três, quatro capitais, hoje ele circula em 800 municípios. O nosso material pedagógico chega em 18 mil escolas públicas e o livro foto-biográfico junto com o vídeo documentário chega em aproximadamente cinco mil bibliotecas, pra ser mais exata, em 4652 bibliotecas. Então foi assim um salto enorme. Concurso de redação em parceria com a Fundação Assis Chateaubriand a gente só começou a apoiar essa iniciativa em 2002, na época do JK. Qual foi o compromisso? Na época eles souberam que o nosso homenageado era o JK e eles estavam fazendo um concurso de redação que o personagem tema do JK. Isso já é um concurso que eles têm desde 91 e a gente entrou como apoiador e parceiro a partir de 2002, e o compromisso é que o personagem tema da redação seja sempre homenageado do Projeto Memória. Então também é muito bacana. Já teve o concurso de redação de JK, Oswaldo Cruz, Josué de Cássio e esse ano de Paulo Freire. Se você ver também o número de redações recebidas, só vai aumentando. Então é uma coisa muito assim que motiva, que te dá muito prazer em trabalhar no projeto, que você vê só a coisa crescendo, e a resposta, aceitação é muito legal. 

 

P1 – Como é que se dá a mudança do parceiro Odebrecht pra Petrobrás? Quando é?

 

R – A mudança, a Odebrecht foi da criação em 97 até 2003. A partir de 2004, com o Josué de Castro, já foi com a Petrobrás. Aí essa parceria eu não tenho muito elementos pra saber das mudanças. A fundação procura sempre alavancar recursos e procurar parceiros que possam não só de instituições ligadas ao nome do homenageado, como a gente precisa estar buscando este tipo de parceria também porque estas instituições detém todo o acervo da vida, da obra do homenageado. A gente precisa deles pra trabalhar o conteúdo das peças, mas também procura instituições que possam colocar recurso financeiro junto conosco. E essa parceria com a Odebrecht foi ótima, maravilhosa, mas eles, acho que foi uma decisão deles, de não participarem mais à partir de 2004, e aí a fundação procura a Petrobrás, que se mostrou bastante aberta e interessada, e começa aí com o Josué de Castro em 2004, 2005, e provavelmente na desse ano também. Agora em 2006 vamos homenagear Nísia Floresta 

 

P2 – Falando em Nísia Floresta, quais os motivos que levaram a esta escolha?

 

(Pausa)

 

P2 – Falando em Nísia Floresta, nossa homenageada agora em 2006, por que a escolha desse personagem?

 

R – Bem, em primeiro lugar porque já era hora de homenagear uma mulher. O projeto, em 2006, esse ano é a décima edição do projeto e nunca tinha homenageado uma mulher, sempre foram homens. E eu acho que se tocaram que era hora de reconhecer o valor das mulheres brasileiras. Então já tinha essa idéia que seria uma mulher, afinal de contas a gente tem grandes nomes e nunca tinha-se homenageado uma mulher. Então isso foi uma das razões. E o nome de Nísia surgiu no meio de outros, de vários outros. É aquilo que eu disse anteriormente, a gente consultou a Petrobrás, solicitamos a opinião deles, pedimos sugestão de nomes. Contatamos a Fundação Assis Chateaubriand também nesse sentido. Enfim, os parceiros, pra que fizessem sugestões de nomes. Chegamos numa lista com outros nomes também, Bertha Lutz, Nise da Silveira, Anita Garibaldi, entre outros, e Nísia. E numa reunião de Conselho Curador me parece, eu não estava presente, que um dos conselheiros fez assim uma defesa bastante passional, entusiasmada, do nome de Nísia. Como já era um nome também que a fundação tinha grande simpatia e a Petrobrás, ficou de Nísia Floresta no meio dessas opções que eu disse. Mas uma das razões maiores foi mesmo que já tinha o desejo de homenagear uma mulher numa edição do Projeto Memória, e acho que chegou a hora. 

 

P2 – A memória _________

 

R – Mil. 

 

P2 – Você tem como fazer um balanço desse seu xodó?

 

R – Bem, em primeiro lugar eu acho que num país carente como o nosso, de tantas carências, tem principalmente na área de cultura. A gente acha que não é prioridade, e realmente, quando a gente pensa em saúde, em educação básica, em alimentação, em moradia, o brasileiro precisa de tanta coisa que num primeiro momento fica parecendo que cultura é um artigo de luxo, que não é prioridade. Mas eu não entendo assim, tá? Eu acho que é importantíssimo pra qualquer civilização, pra qualquer povo, pra qualquer pessoa. Cultura é realmente muito importante. E o Projeto Memória é um projeto que está na área de cultura mas ele tem um viés totalmente educacional, totalmente. O Almanaque Histórico é um almanaque multidisciplinar, multitemático, qualquer professor pode usar em sala de aula, ele é destinado à escola pública, o livro também, o vídeo documentário que está aí disponível nas bibliotecas. Enfim, ele tem um viés totalmente educacional. E o balanço é muito positivo. É uma pena que aqui eu não vou ter os dados todos de cabeça, mas o projeto, de 97 até agora, ele só vem crescendo, ele só vem aumentando a sua abrangência, tanto em termos de município por onde a exposição passa como escolas beneficiadas, e também bibliotecas. E esse critério que a gente adota pra selecionar os municípios não é uma coisa aleatória, existe realmente um critério. Esses municípios são municípios onde a fundação está atuando de alguma maneira com seus programas estruturados na área de educação e também na área de cultura, onde tradicionalmente o projeto já ia. Então, se você me perguntar: “Como chegou a 800 municípios?” Bem, nós pegamos, cruzamos os municípios onde tem o AABB [Associação Atlética Banco do Brasil] Comunidade, o BB Educar, que são programas estruturados na área de educação. A Petrobrás sugeriu municípios onde ela tem unidade de produção. Então, dentro desses municípios onde a fundação está presente com algum programa na área de educação e municípios indicados pela Petrobrás, chegou-se nesse universo. E é dentro desses municípios que foi realizada uma pesquisa pra saber o número, nome, endereço de escolas públicas existentes, sobretudo escolas que têm de quinta a oitava série, que é o público que a gente quer atingir. Então o projeto cresceu muito, hoje ele tem uma logística de distribuição maravilhosa. Então o município que recebe a exposição itinerante é o mesmo município onde as escolas vão estar recebendo o material pedagógico, onde a biblioteca pública vai estar recebendo livro. No caso da biblioteca, felizmente a gente pode atender todas cadastradas no país, esse universo todo. Em termos de escola seria impossível. Então hoje o livro e vídeo vai pra toda biblioteca pública cadastrada no país. O material pedagógico que é destinado às escolas infelizmente nós não temos orçamento pra atender todas as escolas do país, mas as escolas que estão situadas dentro desses municípios, desses 800 onde a exposição está itinerando, recebem esse material. E o balanço é muito positivo porque duas dessa peças, tanto a exposição como o material pedagógico, eles são avaliados. A exposição, no kit da exposição vai um volante de pesquisa de opinião e uma urna de papelão. Por onde a exposição passa, aquele visitante que está disposto a preencher o nosso volante de pesquisa de opinião, o questionário, ele preenche, dobra e coloca na urna. A agência da localidade que está responsável pela exposição retorna esses volantes pra fundação. A superintendência manda a exposição para as cidades juricionadas do seu estado, as cidades retornam com esse material, com essa pesquisa, pra superintendência, a superintendência nos envia. Esses dados são tabulados, então a gente sabe que o projeto está cumprindo o objetivo, que quem está visitando a exposição na grande maioria são os estudantes e os professores. Que eles tomaram conhecimento do projeto, de que maneira eles tomaram conhecimento? Pela escola onde eles estudam. O material pedagógico, existe uma carta resposta onde o professor também preenche e dá a opinião dele sobre o material, sobre o conteúdo daquele material e nos retorna. Esses dados são tabulados também. Então a gente faz esse tipo de acompanhamento, e a resposta é muito boa porque a gente vê que está alcançando o público que a gente quer alcançar. Eles se mostram bastante entusiasmados com o projeto, vêm assim várias formas de manifestação, tipo assim: “Poxa, o projeto é maravilhoso. Aqui na minha cidade a única exposição que chega, a única manifestação em termos de cultura que chega na minha cidade é a exposição do Projeto Memória”. E, enfim, eu acho que é um projeto que tem uma aceitação enorme, que é muito importante na fundação, tanto é que existe há dez anos, e a cada ano que passa ele só tende a melhorar e se aprimorar. Sou meio suspeita pra falar, mas é verdade. 

 

P1 – Maria Helena, como é que se trava essa paixão, como é que você chega no Projeto Memória? Ele chega até você, você chega até ele, como foi isso?

 

R – Bem, é também uma coisa marcante lá na minha vida dentro da fundação porque eu trabalhava no Banco de Tecnologia Social. Eu trabalhava numa diretoria, que ainda é a mesma, que é Tecnologia Social e Cultura. Eu trabalhava, eu era na época Assessora Plena, trabalhava com o Alfredo no Banco de Tecnologias Sociais, estava trabalhando antes de receber o Projeto Memória. E trabalhei com o Alfredo na implementação, no desenvolvimento desse programa que também era novo, que era o BTS. E depois, durante essa época, quem cuidava dos projetos da área da cultura, que basicamente era restauração do patrimônio histórico e Projeto Memória, era o Artur, que foi quem me ensinou e quem me passou toda a experiência. Aprendi muito com ele também, foi um colega que eu gosto muito, um grande amigo, e o que a gente brinca até hoje, é o pai do Projeto Memória. Ele sacava tudo, entendia tudo de Projeto Memória, o Projeto Memória era dele. E nessa época eu acho que já tinha a intenção de me nomearem Analista Sênior, não sei, isso é coisa que passa na minha cabeça. Eu acho que já queriam que eu fosse preparada pra assumir um cargo de Analista Sênior. Eu já tinha muito tempo de fundação, eu acho que acreditavam em mim, que eu seria capaz e que eu poderia estar assumindo essa função. E um dia me convidaram, chegaram em mim e me convidaram pra assumir a função de Analista Sênior. Naquela época, eu estou falando analista, eu confundo um pouco. Hoje o nome correto do cargo é Assessor Sênior, na época acho que era Analista Sênior. Quando me convidaram, falaram: “Olha, você vai ter que assumir um programa, um projeto, e a gente está pensando na cultura, na área de cultura, o Projeto Memória”. A primeira reação foi ficar muito preocupada, assustada um pouco, feliz porque o meu trabalho estava sendo reconhecido, feliz de estar sendo reconhecida e estar sendo nomeada, mas também muito cautelosa e preocupada com a reação do Artur, que era um grande amigo meu e que tinha paixão pelo Projeto Memória. A minha primeira reação foi falar: “Gente, por favor, o Artur está sabendo disso? Ele sabe que o Projeto Memória vai sair das mãos dele?” Aí o Fumil, que era o diretor da área, me explicou: “Não, olha, ele está sabendo. A gente já tem conversado a muito tempo sobre isso. A Heloisa quer tirar o projeto das mãos dele principalmente porque ele detém todo o conhecimento desse projeto, só ele que trabalha com o projeto desde...”, isso foi no ano de 2002, “desde 97, só ele sabe conduzir, fazer. Nunca ninguém trabalhou junto com ele”. E, enfim, ele detinha todo esse conhecimento, o projeto era um projeto que só ele conduzia, nunca foi dividido com ninguém, e conduzia muito bem. Mas eles tinham aquela preocupação, sabe, de poxa vida, fazer um rodízio ali, de dar uma mexida. O Artur ficaria com o Banco de Tecnologia Social e eu assumiria o Projeto Memória. Foi uma coisa, eu não diria que traumática não que é muito drama, é exagerar, mas foi uma coisa que me deixou numa situação muito delicada, ruim a princípio. Ruim por dois motivos. Eu trabalhava com o Alfredo no BTS, sempre gostei de trabalhar com o Alfredo, é um funcionário super competente, sério, que todo mundo que trabalha ao lado dele só tem a aprender com a maneira dele trabalhar. Eu estava bem trabalhando com ele e tive que sair meio que de repente, assumir uma área e um projeto que era de um grande amigo, um amicíssimo meu, e que eu sabia que ele gostava, que ele ia se sentir meio enciumado.  E aconteceu isso, rolou esse ciúme, mas nada que prejudicou nossa amizade, a gente é amigo até hoje. Mas veio parar desse jeito. Eu fui trabalhar com o Artur. Bem, voltando um pouco que eu acho que me perdi. Veio desse jeito. Isso tudo é da minha cabeça. Eu acho que já tinham a intenção de me nomear, que por isso que me fizeram essa troca, me colocaram a trabalhar com o Artur na cultura. Me tiraram, eu trabalhava com o Alfredo no BTS, me puseram a trabalhar com o Artur na cultura. Isso foi no ano de 2002 quando a gente estava trabalhando a memória de Juscelino Kubitscheck. Quando foi em agosto de 2002 me nomearam Assessora Sênior, aí eu assumi definitivamente a responsabilidade pela condução dos projetos da área de cultura e o Artur foi pro Banco de Tecnologia Social. Eu fiquei um tempo trabalhando como Assessora Plena junto com o Artur. Então tudo que eu aprendi do Projeto Memória, que tem uma complicação. Ele é um projeto que parece simples mas não é. Ele envolve muita negociação com parcerias, com a família dos homenageados, com quem detém todos os direitos autorais da obra daquelas pessoas. É uma negociação muito difícil, às vezes uma coisa muito trabalhosa. E toda essa experiência o Artur me passou nesse meio tempo que eu fiquei trabalhando junto com ele, mas que ele que era o Assessor Sênior, ele que tinha a responsabilidade de conduzir o projeto. Então em 2002, na época estava-se homenageando o JK, eles fazem... Eu falo eles que eu acho, não sei, provavelmente a Eloísa, Fernanda, que era Diretora Executiva junto com o Fumil, fazem essa mudança dentro da própria diretoria nossa, que é a mesma até hoje, faz um tipo de um rodízio ali dentro, mexe um pouquinho com as pessoas, de lugar. Eu vou trabalhar com o Artur, que cuida de cultura. Quando foi em agosto, que eu fui nomeada, eles já passam o Artur pra BTS e eu assumo a condução do Projeto Memória, e aí sim, aí foi acho que aquele teste: “Vamos ver se ela da conta do recado”. Eu me lembro que a parte final do Projeto JK eu praticamente fiz sozinha, porque aí o Artur já não podia viajar a trabalho nem falar em nome do projeto. Quando nós lançamos as peças, o livro e o vídeo em Diamantina, em 12 de setembro de 2002, que era aniversário de Juscelino, nós fomos lançar o livro e o vídeo em Diamantina, eu já fui sozinha. Sozinha que eu digo, assim, preparar o evento e todo aquele aparato pra fazer o lançamento, eu já fui pra Diamantina sem o Artur. Foi Eloísa, foi Fernanda, foi Fumil, e correu tudo bem. Nessa época, quando eu retornei de lá eu já fui, logo eu fui nomeada.

 

P1 – Vamos passar agora um pouquinho pro BTS, o Banco de Tecnologia Social?

 

R – Está gravando?

 

P1 – Está gravando. 

 

R – Não, se quiser falar um pouquinho mais do Memória...

 

P1 – Então tá, se você quiser fique à vontade, por favor. 

 

R – Não, eu estou tentando lembrar assim, eu queria registrar, deixar registrado como o Artur também foi importante nesse processo de estar me passando o trabalho e do prazer que eu tenho de trabalhar com o Projeto Memória. Porque eu me lembro que lá em Diamantina nós chegamos num dia, a gente não sabia que ia ter um comício lá em Diamantina esse dia. O Lula estava em campanha política, ele ia fazer um comício junto com o Itamar Franco e o Aécio Neves, no mesmo dia e no mesmo horário que a gente ia lançar o nosso livro lá na Casa de JK, que é um pequeno museu da casa onde ele nasceu lá em Diamantina. Eu me lembro que, poxa, eu falei: “Fumil, nós vamos dividir as atenções com Lula, com Itamar Franco e Aécio, tudo num palanque fazendo um comício? Não podemos, vamos ver se dá um jeito de lançar o Projeto Memória junto com esse pessoal lá em cima do palanque”. E entramos em contato com o cerimonial do Palácio da Liberdade em Minas pra nos dar este tipo de espaço. E o cara já conhecia o Projeto Memória, era um admirador do projeto, abriu na hora. Enfim, foi uma alegria muito grande, que era o primeiro projeto que eu estava conduzindo sozinha, e nosso livro foi lançado lá no meio daquela festa toda. O Lula, que ainda não era presidente, pega o livro do JK, levanta assim e mostra. Quando foi à noite, no Jornal Nacional sai a nossa capa do livro do Projeto Memória, o Lula mostrando. Enfim, deu assim uma notícia imensa, e foi ótimo. E dessa época em diante eu já fiquei com o projeto e estou até hoje. 

 

P2 – Em 2000 começaram as funções da fundação sobre a questão do banco de tecnologia social, mais ou menos nesse período. Como é que surgiu a ideia de trabalhar com a tecnologia social?

 

R – Bem, isso foi um conceito que na época ainda era muito recente, estava começando a se falar nisso, e eu não tenho certeza mas a Eloísa conversava muito com uma pessoa que na época prestava algum tipo de consultoria pra ela, que era o Márcio Esquiar (?), e não sei também exatamente que espécie de consultoria que ela dava à Eloísa, mas foi nessa época que começou a falar nisso, nesse tipo de projeto, e se falar em tecnologia social. Então foi através da assessoria de Márcio Esquiar e de uma ideia da Eloísa, de uma proposta da Eloísa, que surgiu a ideia de se trabalhar com tecnologia social. Mas esse começo foi tudo assim muito incipiente ainda. A própria discussão do quê que significava o termo, ainda tinha muita polêmica em torno do assunto, em torno da criação do que hoje a gente chama de Banco de Tecnologia Social, dessa base de dados on-line. A ideia era criar um banco de tecnologia social, e uma maneira de incorporar soluções e projetos, iniciativas dentro desse banco, foi instituir o Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social, que viria alimentar essa base de dados on-line que é o banco. Como surgiu, eu acho que tem pessoas que podem falar melhor ou dar um depoimento com mais propriedade que eu. Eu trabalhei depois da coisa já pronta, da ideia já concebida pela Eloísa e toda a alta gestão da Fundação Banco do Brasil, com assessoria do Márcio Esquiar. Depois da ideia concebida, o desenvolvimento e a implementação desse BTS e do prêmio de tecnologia social foi que eu entrei, que eu trabalhei junto com o Alfredo na equipe do Fumil pra desenvolver esse projeto, que também foi uma coisa assim muito interessante. No começo, como tudo que é novo, a gente tem um pouco de medo, um pouco de receio de não dar certo, não acredita muito porque a própria falta de entendimento da coisa gera toda uma dúvida, a gente começa a achar que é isso, vai funcionar, o quê que é tecnologia social, quais os critérios, como que nós vamos analisar isso aqui na fundação, quem somos nós pra acatar, receber projetos aqui, saber o que é uma tecnologia social, o que não é. Então primeiro se discutiu muito, amadureceu muito a ideia. Depois criou-se a expectativa: “A gente vai abrir, e se não chegar projeto nenhum?” Tanto é que a primeira edição do prêmio a gente achava que ia chegar, sei lá, de 50 a no máximo 100 projetos. Recebemos, se não me engano, 530 ou 630, uma coisa assim. E a coisa foi também se desenvolvendo e discutindo com outros grupos, com outras pessoas, aprimorando a ideia do que é tecnologia social, pelo menos dentro da fundação, entre os funcionários, a gente ter sempre o mesmo entendimento do que seria uma tecnologia social. E é também uma experiência de sucesso. Quem acompanhou a criação e viu todas as dificuldades e hoje vê o prêmio já na terceira edição, e é um dos programas carro-chefe da Fundação Banco do Brasil, é uma coisa muito legal ver a coisa acontecer assim. 

 

P1 – Você falou que entrou pra esse projeto, já estava estruturado, não é?

 

R – Não, não é que ele estava estruturado. Eu não participei das discussões iniciais, nem tanto da... Por exemplo, se você me perguntar: “Essa ideia nasceu dentro da fundação, foi ideia de Eloísa ou foi ideia de um consultor de fora que plantou a ideia lá dentro?”, esses detalhes é que eu não tenho conhecimento, de como que se criou a ideia, a vontade e o desejo de se trabalhar com tecnologias sociais. Era um tema que estava começando a surgir no Terceiro Setor, pessoas falando nisso, o que viria a ser uma tecnologia social. Eu lembro que o modelo mais clássico que a gente tinha era do soro caseiro. Olha, uma solução simples, que pode ser replicada em qualquer comunidade, em qualquer local, pra resolver um determinado problema. Então quem inventou que aquela misturinha ali de água com açúcar e sal poderia salvar tantas vidas? Solução simples, barata, de fácil replicação e que serve pra qualquer lugar. Pode ser uma criança do Rio Grande do Sul como do Rio Grande do Norte ou como de outro país, que no caso de desidratação é uma solução eficaz. Então o conceito, pra gente entender de uma maneira mais simples, começou com isso. E eu lembro que a gente tinha alguns projetos na fundação que a gente entendia que seriam tecnologias sociais, poderiam, que eram experiências de sucesso que estavam dando certo numa localidade, e por que não replicar aquilo ali? A ideia da Eloísa, eu acho, era assim: “Gente, não vamos reinventar a roda. A gente já identificou tanta solução legal, que está funcionando, que está implementada e que está gerando resultado, porque não replicar essas soluções em outros lugares em vez de ficar inventando, bolando uma coisa nova?”. Tinha também uma outra tecnologia daquele Doutor José Américo, que ele inventou umas incubadoras neonatais que estava salvando milhares de vidas de bebê prematuro que estava nascendo, que não tinha incubadora suficiente nos hospitais, nesse principalmente, em Salvador, onde ele fez essa experiência. Ele cria essa incubadora totalmente caseira, que se você ver a foto você não acredita, e aquilo ali salvou milhares de bebê prematuro. Então aquela incubadora dele também era um sucesso. Gente, olha, as incubadoras do Dr. José Américo, o soro caseiro, aquele fulano que inventou aquele tijolo ecológico, que é a casa popular, que ele está fazendo lá mutirão, e com aquele tijolo está custando a metade que custa uma casa popular tradicional. Então tudo isso a gente começou a discutir, e isso é uma tecnologia social. Mas no começo, aquilo que eu falei, causou polêmica demais, mas muito, porque entre nós mesmos, dentro da fundação, eu acreditava que determinado projeto ou determinada solução, iniciativa, era uma tecnologia social, o meu colega do lado: “Claro que não é, isso é um mero projeto assistencialista”, ou “Isso daí não é inovador, isso daí não é replicável, isso daí existe há muito tempo e não é assim”. Quer dizer, era tanta polêmica, era tanta coisa, que a preocupação inicial era desenvolver, criar um banco de tecnologias sociais pra estar esta base de dados disponível pra quem quisesse acessar, consultar ou usar da tecnologia, mas que a gente foi sentindo que nós da fundação primeiro teríamos que ter em mente o quê que é tecnologia social, porque é uma responsabilidade muito grande. Você institui um prêmio que vai alimentar com as propostas que você vai receber, projeto, vai alimentar essa base de dados on-line, esse banco de dados. Agora, a sua responsabilidade é enorme. Vai chegar milhares de projetos e vai ter uma equipe interna de funcionários da fundação analisando e fazendo essa triagem, o que é e o que não é tecnologia social. Então tinha essa preocupação, de ficar bem na mente das pessoas, do funcionário da fundação, o quê que era uma tecnologia social, porque que a fundação estava optando por aquele caminho, por atuar com aquilo daquela maneira, daquela forma. Então houve vários encontros, seminários, algum tipo de treinamento, reunia a fundação num espaço pra discutir isso, e hoje eu acho que o funcionário da fundação já trabalha com tecnologia social no seu dia-a-dia e já não resta dúvida pra ele mais o quê que é, o quê que não é uma tecnologia social. Se restam, é até bom que reste mesmo porque a gente tem sempre que estar questionando as nossas ações e tudo mais. Mas hoje eu acho que já existe um consenso em torno do conceito, e hoje é um programa de sucesso dentro da fundação e a fundação hoje trabalha na replicação de várias tecnologias que estão dentro do banco, em várias comunidades, trabalha com algumas cadeias produtivas, que a origem, o embrião está lá na tecnologia social que foi identificada, como a castanha de caju, como a melhoria nas mini usinas de castanha de caju que foi uma tecnologia premiada numa das edições do banco lá atrás e que hoje é uma cadeia produtiva dentro da Fundação Banco do Brasil. Enfim, hoje é quase que um norte, a gente está, a fundação, no foco de geração de emprego e renda, ela tem como inspiração as tecnologias sociais.

 

P1 – E surge com esse formato, o prêmio que alimenta o banco de dados?

 

R – Foi desde a primeira edição, porque o programa em si chama Banco de Tecnologias Sociais. O quê que é o banco? Nada mais do que uma base de dados on-line onde você está registrando soluções, projetos, soluções que deram certo. Que não pode ser uma idéia, você pensa numa coisa que pode ser legal, não. Uma das exigências é que o projeto tinha que ter pelo menos um ano de funcionamento, estar gerando algum tipo de resultado, estar em funcionamento. Mas, enfim, como que a gente ia identificar esses projetos no Brasil como um todo, pra poder colocar nessa base de dados? Uma das maneiras que a gente viu de captar e identificar esses projetos seria através de um prêmio, instituir um prêmio, Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social, que foi em parceria com a Unesco, e ainda é até hoje. E vieram bastante projetos. Então teve de tudo que você puder imaginar, desde um fulano que eu prefiro não citar o nome, lá do Congresso Nacional, um deputado ou senador, que escreveu um livro e que queria provar que o livro que ele escreveu era uma tecnologia social, até soluções maravilhosas como a das quebradeiras de coco lá do Maranhão. Então chegava de tudo. Tinha projetos que eram meramente assistencialistas. Às vezes uma creche que abriu ali, que está dando sopa pra tantas crianças. Tem mérito? Tem, bastante, mas não era uma tecnologia social, era um projeto como outro qualquer. Então, dentro desse universo de coisa que chegou, qual que foi o primeiro momento disso tudo? Era fazer a triagem, o que é, o que não é tecnologia social. Sendo tecnologia social, seria cadastrado e iria compor o Banco de Tecnologia Social. E uma vez selecionada como tecnologia social ela poderia concorrer ao prêmio. Aí sim ela teria outras comissões de julgamento, que iria pras outras fases. A primeira fase de selecionar o que é, o que não é tecnologia social, num segundo momento seria selecionar as finalistas e um terceiro momento que seria selecionar as vencedoras. Mas desde a concepção do programa como um todo, a idéia do prêmio foi a solução que a gente encontrou pra captar e identificar esses projetos.

 

P2 – Você participou do primeiro prêmio de tecnologia social. Você lembra como é que foi aquela noite?

 

R – Poxa, claro, foi maravilhosa.

 

P2 – Você pode contar um pouquinho pra gente?

 

R – Posso. Bem, por que que eu digo que foi maravilhosa? É muito legal você acompanhar uma coisa, um projeto nascendo. Aliás, nem nascendo, sendo gerado, sendo criado, e até o seu nascer e comemorar e ver aí a coisa funcionando. E a primeira edição foi isso. Como eu disse, o Fumil... Não chamava nem tecnologia social e cultura, a área era ciência, tecnologia e cultura, recentemente que mudou o nome pra tecnologia social e cultura. Então eu já trabalhava na diretoria do Fumil mas estava na área de ciência e tecnologia, não era cultura. E esse projeto veio a ser desenvolvido na área no Fumil no campo CeT e quem que ficou responsável por conduzir os trabalhos e dar toda essa cara e formatar ela era o Alfredo. Eu trabalhava com o Alfredo. Então foi muito legal por várias razões. Primeiro, um assunto totalmente novo, que a gente estava aprendendo todo mundo junto. Segundo, que as pessoas, tudo que é novo, que é novidade, tem assim um certo receio de não dar certo. A gente ouviu um monte de brincadeira e de piada sobre essa história do BTS e da tecnologia social, e piadinha tipo assim: “Não vai dar certo, isso é uma viagem na maionese, ninguém sabe nem o que é tecnologia social, então como é que vai fazer essa seleção?”. Era aquele tipo de coisa. Terceiro, sei lá, estou pontuando aqui, já me perdi, era o problema de estar assim: “Gente, e aí? A gente pode receber dez projetos aqui como pode receber mil, dez mil, cinco mil, nenhum, três”. Era a nossa primeira experiência, a gente não tinha ideia do que iria chegar. Se chegasse coisa demais ia ser um problema sério, que não tinha nem estrutura nem gente, pessoas pra estar analisando tanto projeto. Se chegasse pouquíssimos ia ser uma frustração, você não teria opção de escolha, de seleção. E foi tudo muito bacana, a gente pensava assim: “Olha, visitamos várias instituições, e visitamos acho que Universidade Solidária que tinha um projeto semelhante na época do Governo FHC, e a nossa expectativa dela de receber entre 50 a 100 projetos. E excedemos esse número, que eu não sei exatamente, mas com certeza mais de 500. Então deu pra trabalhar com folga e poder fazer uma seleção bacana do que era, que não era. Enfim, depois disso tudo passou por todas essas seleções, de escolher os finalistas e os vendedores, aí foi o dia D, da entrega do prêmio. Foi uma emoção enorme, tanto pras pessoas da fundação como pras pessoas que foram convidadas, porque é uma coisa totalmente assim de surpresa, ninguém fica sabendo os vencedores. Essa comissão que julga os finalistas e da onde vai sair os vencedores, ela pontua. Ela tem lá os critérios que hoje eu não sei mais quais são, deve ter mudado, de originalidade, ineditismo, replicabilidade, eficácia, custo. Tinha algumas coisas que iam pontuando e depois tinha uma auditoria que é a Price, esqueci, Waterhouse acho que é Price Waterhouse mesmo, e que fazia essa contagem desses pontos. Então todos os finalistas eram convidados a ir pra São Paulo pro evento. Somente lá, na hora, no dia, saía os vencedores, ficava conhecendo os vencedores. Então foi um evento maravilhoso, numa casa muito bonita em São Paulo com a Glória Maria apresentando, aquele bebezinho que o Dr. José Américo salvou na incubadora dele, que a Glória Maria tinha feito uma reportagem pro Fantástico mostrando essa incubadora, não sei, 16, 18 anos atrás, que o médico tinha inventado. Nós localizamos a mãe, o adolescente. A Glória Maria que passou a reportagem do Fantástico onde ela vai filmar esse hospital com a incubadora e o bebê lá dentro da incubadora, entrevistando o Dr. José Américo. Aí quem vai, depois de anos depois, pro palco lá no dia do prêmio? O Dr. José Américo, a Glória Maria que estava apresentando o prêmio, o garoto que foi salvo prematuro com a mãe lá, já moço, todo fortinho, grande, acho que com 14, 15 anos. E, enfim, foi um evento maravilhoso, foi o primeiro. Acho que a emoção do primeiro... Eu tive a oportunidade de ir recentemente numa terceira edição, que também foi maravilhosa, mas pra mim a emoção que eu senti no primeiro não vai ser igual nunca. 

 

P1 – O grande vencedor foi o da incubadora?

 

R – Não, não. A incubadora foi mais citada como um exemplo do quê que era uma tecnologia social. O que eu te falei, a gente falava muito de soro caseiro e da incubadora pra exemplificar o que era. Então eles foram homenageados, o Dr. José Américo foi homenageado, não que a tecnologia dele estivesse concorrendo, mesmo porque ele criou lá no passado. Eu acho que, se não me engano, ela nem entrou pra concorrer ao prêmio. Ele foi como uma categoria especial, foi homenageado pelo projeto, e na época os finalistas que estavam lá presentes, dali saíram os vencedores. Foi uma emoção enorme. Eu lembro até de alguns que foram vencedores. Foi esse do tijolo ecológico lá de Sacramento. Agora já foi, eu não me lembro os nomes dos projetos. Eu sei quais mas não me lembro agora todos não. Mas foi ótimo. 

 

P1 – Maria Helena, mais alguma coisa sobre esse projeto que você queira colocar, algum nome que você esqueceu de citar?

 

R – Não. Hoje o projeto continua na diretoria que eu trabalho, então eu acompanho. Apesar de estar atuando mais na cultura, continua na mesma diretoria onde eu trabalho. Então eu acompanho e tenho muita simpatia e gosto e torço muito pelo programa. Claro, a gente ali na fundação tanto faz, não importa onde você trabalha. Eu tenho paixão por todos os projetos da fundação, por todos os programas, BB Educar, BB Comunidade, Inclusão Digital, BTS, os programas lá, o projeto lá da área do Jorge de geração de emprego e renda, a cultura. Mas o BTS eu acompanho e tenho um carinho especial, primeiro porque trabalhei nele, segundo porque ele continua na diretoria onde eu estou inserida, onde eu trabalho, e eu acompanho de perto. Então hoje ele é conduzido por Terezinha, por Rogério, que fizeram um trabalho maravilhoso agora no ano de 2005 na terceira edição. Então é sempre bom lembrar o nome dos colegas, que eu estou falando muito do passado mas ele é um projeto, um programa que tem bastante sucesso e está sendo conduzido por colegas também maravilhosos que é a Terezinha e o Rogério, que continuam mantendo ele no mesmo nível. 

 

P2 – Mudando um pouquinho. Ainda nesse assunto, mas puxando agora para outra tecnologia. Qual foi a demanda que a fundação teve pra pensar em desenvolver uma tecnologia social da memória?

 

R – Da memória? Você está falando a demanda, por que que a fundação optou por esse programa?

 

P2 – ________, por que?

 

R – Olha, hoje a fundação é sempre inspirada na tecnologia social, de não querer ser um mero financiador, mas de estar repassando, de ser um articulador de boas soluções, soluções viáveis e vitoriosas. A fundação tem essa preocupação hoje de não estar só apoiando financeiramente, mas essa preocupação de ser uma articuladora, de difundir as tecnologias sociais antes de tudo. Então, foi nessa concepção da tecnologia social que ela pensou, que a fundação, o Jacques pensou numa tecnologia de resgate de memória. Todo mundo, a gente está cansado de ouvir que o Brasil não tem memória, todo mundo: “Ah, o Brasil não tem memória”. Não, mas tem sim. Às vezes não tem apoio pra reconstruir sua memória, às vezes não tem condições financeiras, as instituições, os grupos, os movimentos, de se fazer isso. Mas não é verdade que o brasileiro não tem memória ou não valoriza a sua história. Então isso já era um assunto, a gente tinha vontade, a gente conversava: “Poxa, a fundação existe há 20 anos e a fundação não tem um centro de memória ou memorial onde guarda a sua história, não tem isso organizado em arquivos, em documento nem oral, nem em imagens. Tem uma coisinha aqui na fundação, uma coisinha guardada na _____, um pouco da história em cada canto”. Então tinha essa preocupação de resgatar essa história da fundação, e daí surgiu a ideia. Por que não, inspirado na ideia de tecnologia social, por que que a fundação não cria uma metodologia de reconstrução de memória, de resgate de memória? A fundação não vai estar apoiando financeiramente aquele grupo, aquela instituição, aquele movimento que queira resgatar a sua memória, mas ela pode disponibilizar uma tecnologia social de memória e auxiliar aquele interessado em fazer a sua história, em preservar a sua história. Então o quê que ela fez? Ela, num primeiro momento, tentamos, fizemos uma parceria com a UNB pra criar, desenvolver essa metodologia. Começou a parceria com a UNB, depois tomamos conhecimento do Museu da Pessoa em São Paulo que trabalha com memória oral há muitos anos e é um museu virtual de memória oral, e que eles faziam um trabalho muito bacana, e a gente queria dar praticidade pra aquela metodologia desenvolvida pela UNB. Porque na verdade eles desenvolveram um documento pra gente, que daria origem a essa metodologia. Mas pegando aqui, nós falamos: “E agora? É um trabalho sério, maravilhoso o conteúdo, mas vamos fazer o que com isso? Como dar praticidade? Como replicar isso em outras instituições?” Aí chamamos o Museu da Pessoa com essa finalidade, firmamos uma parceria com eles através de um contrato de prestação de serviço onde eles dariam a praticidade naquela metodologia inicialmente desenvolvida pela UNB pra fazer aquilo funcionar. E qual que era a ideia? A ideia era o seguinte: “Olha, criou a metodologia de resgate de memória. Ela funciona? E a gente vai disponibilizar isso, colocar aonde? No BTS? Nós vamos passar isso pra quem? Vamos fazer um piloto, vamos ver se ela funciona mesmo?” Então o projeto nasceu dessa ideia, com duas vertentes. Primeiro criar uma tecnologia social de reconstrução, resgate de memória, pra grupos, movimentos sociais, instituições, seja pública ou privada, interessadas em fazer, contar a sua história e deixar registrada a sua história, saber como fazer isso. E uma segunda vertente era o seguinte, a gente não pode disponibilizar ou pregar uma coisa sem ter usado, sem ter experimentado e sem fazer, sem colocar em prática. Então seria desenvolver um piloto dentro da fundação. Então aproveitando os 20 anos de criação da fundação, que foi em 2005, a gente está colocando, está com o Museu da Pessoa num trabalho que tem essas duas vertentes, criar, desenvolver, dar praticidade pra essa metodologia de resgate de memória ao mesmo tempo que está fazendo o próprio resgate da história da memória da fundação. É o que deu origem a esse projeto a esse BB 20 anos de história. Uma vez, funcionando para a fundação, a gente pretende fazer mais dois pilotos em outras instituições ou movimentos diferentes pra validar essa metodologia. Uma vez validada ela será uma tecnologia social de memória que a gente vai estar disponibilizando pra quem tiver interesse usar e resgatar a sua história. 

 

P1 – Muito bom. Mais alguma expectativa a respeito disso? Como é que está sendo a avaliação, até agora, dentro da fundação? Já têm sido feito alguns grupos de formação, né?

 

R – Sim.

 

P1 – Como que está a receptividade dentro da fundação?

 

R – Olha, a fundação a gente está num momento, o momento atual da fundação é muito difícil você mobilizar  pessoas, não por falta de interesse mas simplesmente por falta de tempo. Estão todas assim super atarefadas, com excesso de trabalho. É muito trabalho, muitos projetos pra poucos funcionários. Então hoje existe assim na fundação, não é questão de má vontade, de não querer participar, uma dificuldade enorme pra mobilizar e juntar essas pessoas, mas as poucas que estão participando dessa equipe estão adorando, estão gostando muito. Eu tenho certeza que se as outras colegas conhecessem o trabalho mais de perto iriam se envolver também, mas eu estou sentindo uma grande receptividade por parte de todos. Primeiro que quando a gente fala em tecnologia social de memória, isso para o funcionário da fundação, ele entende o quê que é isso, ele entende perfeitamente porque já faz parte do dia-a-dia dele falar de tecnologia social, do que é uma tecnologia social. Então todo mundo sabe da importância e sabe o quê que nós estamos fazendo, não tem ninguém que não saiba o que está acontecendo. E sendo o primeiro piloto o resgate da história da fundação, muitos se mostraram extremamente interessados, porque tem pessoas que estão lá há muito tempo, tem pessoas que estão há pouco tempo, mas todas amam a fundação, amam o que a fundação faz. Então quando fala que é pra falar da fundação, até os mais tímidos, que detestam a exposição, como eu, que detesta falar, quer participar, quer deixar a sua entrevista, o seu depoimento gravado, quer sabem em que pé que está, o quê que vai ser isso, que produto que vai sair disso. Todos que a gente já conversou até agora quer saber: “Olha, vai ser o que? Vai ser um livro, vai ser uma exposição, vai ser um vídeo, vai aparecer? Olha, se eu não aparecer eu quero pelo menos uma cópia da fita que eu gravei”. Em vários momentos você vê pessoas se emocionando ao dar um depoimento, ao falar sobre a fundação. Enfim, não tem nem um colega que a equipe do Museu da Pessoa procurou ou que nós, a equipe interna, procuramos, que se negou a dar uma informação ou se negou a colaborar no sentido tanto de dar informação como de participar dessas entrevistas, dos depoimentos. A dificuldade maior é de mobilizar as pessoas mesmo pra formar a equipe, mas estão todos interessados. Eu tenho certeza de que vai ser um trabalho muito legal.

 

P2 – Sobre a sua vivência na fundação, já passando para um outro tema, qual foi o fato mais marcante que você viveu na fundação, que realmente ficou guardado __________?

 

R – Olha, foram várias, Aurélio, é difícil falar uma fase. A fundação, eu sou apaixonada pela fundação. Eu brinco que a fundação é um lugar tão bom de se trabalhar, a gente gosta tanto que é até ruim, porque você chega lá e fica, e não quer sair. Então isso, perante os olhos de outras pessoas ou do próprio banco, dá a impressão que, poxa, o funcionário é acomodado. Chegou lá está lá dez, cinco, seis, oito, 12 anos como eu, e não saem. Mas é porque a gente chega e se apaixona, se envolve muito com o que a fundação faz, é uma coisa assim muito prazerosa. Agora, nem tudo são flores, não é sempre um mar de rosas. Então quando você pensa assim fase marcante, tanto vem coisas, aspectos negativos, momentos ruins que a gente passou como vêm os bons. Eu prefiro lembrar dos bons, eu prefiro falar sempre dos momentos bons que eu passei, e foram muitos, inúmeros. Como eu já disse, a fase do Homem do Campo, a primeira experiência de estar saindo de dentro da fundação e visitando os locais onde os trabalhos iriam ser desenvolvidos, foi muito marcante essas viagens do Homem do Campo. A primeira edição do prêmio foi um fato muito marcante da minha vida, que era uma coisa assim que no começo estava totalmente, não desacreditada mas aquela coisa: “Ah, isso não vai dar certo”, sabe, “Ah, isso daí, nossa”. E depois você vê a coisa dar certo sim, e poder compartilhar com várias pessoas da fundação, com o Fumil que é uma pessoa que dedicou esse assunto desde o primeiro momento, se envolveu e trabalhou pra burro nisso. Então você acaba se envolvendo. Então também foi um fato marcante a primeira edição do prêmio. Um outro fato marcante pra mim pessoalmente foi quando eu fui nomeada Assessora Sênior e assumi o Projeto Memória, porque é um projeto que, como eu já disse também, ele requer muita experiência do funcionário na parte de negociação. Não é fácil você sentar, buscar uma parceria, sentar com as pessoas, com os historiadores, com os familiares. Foi uma coisa que eu acho que eu cresci muito profissionalmente porque eu sempre fui uma pessoa apaixonada por literatura, por cultura, mas muitas vezes eu peguei homenageado que eu não conhecia nada da vida e obra da pessoa, que eu entrava crua. Então aquilo me obrigava a ler, a estudar. “Ah, vamos homenagear o Josué de Castro”. “Mas quem foi Josué de Castro, o quê que ele fez, qual a importância dele pro Brasil pra poder ser um homenageado da fundação?” Se eu, Maria Helena, que sou responsável pelo projeto, não sei da importância do Josué pro meu país, como que eu quero dar importância e conduzir esse projeto? Então, enfim, isso me obrigava a ler, a estudar, a procurar, a pesquisar. Participei de várias reuniões, tive oportunidades que eu acho assim que eu fui privilegiada. Na época do JK eu conheci a Maristela Kubitschek filha dele, tive várias reuniões com ela, fiz amizade com ela, de trocar e-mail e telefonema sempre. Na época do Josué de Castro eu conheci a filha dele, a Ana Maria Castro. Agora com o Paulo Freire, a viúva está o ano inteiro em reuniões e participando e conversando. Então era um privilégio. Eu estava trabalhando num resgate da memória, a preservação da memória desses personagens, ao mesmo tempo eu estava ouvindo o depoimento e histórias contadas pelos familiares. Então assim é muito marcante. Tem histórias, se eu fosse ficar aqui eu ia falar três, quatro horas de histórias que não estão nos livros, não vi no documentário nem no almanaque, mas que essas pessoas me contaram e que a gente faz uma amizade muito grande. Fiquei amiga da filha do Josué de Castro, ela me liga e manda e-mail sempre, e eu falo sempre com ela. Então o Projeto Memória marca muito e eu acho que profissionalmente pra mim é vida, é tudo que eu gosto, de estar envolvida com esse pessoal da área de cultura, estar participando e tendo o privilégio de estar sempre em reunião com sociólogo, com historiador, com a família do homenageado, ouvindo e compartilhando de tanta informação e de tanto conhecimento. Então não é um momento marcante, são vários. Com cada projeto, em cada fase dentro da fundação, eu poderia ficar aqui falando milhares de momentos marcantes. 

 

P1 – E pessoas, Maria Helena, pessoas que te marcaram na sua vivência na fundação, que você gostaria agora de registrar?

 

R – Poxa, e se eu esquecer de alguém muito importante?

 

P1 – Faz parte da memória também esquecer. 

 

R – É. Olha, gente, a fundação, eu também não posso sair nomeando todo mundo que eu gosto. Eu tenho grandes amizades lá, e são amigos verdadeiros. Eu tenho o maior orgulho dos amigos da fundação. Eu brinco com o meu marido, que não é bancário, nunca esteve dentro de um banco ou dentro da fundação, e quando eu saio tenho uma vida e minhas amizades dentro da fundação é uma vida totalmente diferente fora da fundação, que a minha roda de amigos fora da fundação não tem nem um bancário. Mas sempre que eu estou na intimidade ou conversando com o meu marido, eu falo: “Roberto, eu tenho vários amigos, nós temos vários amigos, mas nada que se compare ao tipo de amizade que eu fiz dentro da fundação. Lá estão os meus verdadeiros amigos, as pessoas com quem eu me identifique, e gosto de estar junto deles”. Então é muito difícil falar em nomes, mas com certeza tiveram pessoas que foram mais marcantes. Eu citei, por exemplo, o Cisne. Quando eu cheguei na fundação eu fui trabalhar na área operacional e foi o meu primeiro chefe, que a gente chama, meu primeiro diretor. Ele teve um papel fundamental na minha vida profissional e dentro da fundação. Uma pessoa maravilhosa, uma pessoa com quem eu aprendi muito, muito. Então com certeza o Cisne foi uma pessoa muito marcante. O Romano, o Chicão que eu gosto muito, o Bráulio que é muito querido, que eu adoro o Bráulio, o Silvio que é um irmão. O Silvio, qualquer problema que eu tenho, às vezes antes de chamar o meu marido, eu bato o carro no meio da rua, eu ligo pro Silvio ir me acudir. O Gilvan, Alfredo, o Artur que foi assim amicíssimo, o Fumil, Terezinha, e minha grande amiga Germana, que é uma pessoa que eu adoro, que eu adoro, é uma das pessoas mais honestas e transparentes e boas que eu conheço. Eu tenho assim verdadeira admiração, paixão pela Germana. Adoro, é uma grande amiga. Eu acho que nem ela sabe o quanto eu gosto dela. Aproveito assim essa oportunidade pra fazer uma declaração de amor pra Germana, é uma pessoa que eu adoro. E tem outras mais recentes como a Terezinha, a Tatiana que está trabalhando comigo há pouco tempo mas que eu tive o prazer de conhecer e que é uma pessoa maravilhosa, uma menina inteligente, super esperta, de iniciativa, uma pessoa muito, que eu estou tendo assim o maior prazer de trabalhar junto com ela. Mas a tendência da gente é lembrar, o que a gente brinca lá na fundação, dos jurássicos, da turma que está lá desde que eu entrei há mais de dez anos. Eu queria também fazer um registro aqui de um grande amigo, que foi um dos melhores amigos que eu tive dentro da fundação, que foi o João Portela, pessoa maravilhosa que hoje está na câmara, não trabalha mais na fundação, mas que foi também uma pessoa muito importante pra mim e um amigo muito grande. Eu devo, provavelmente esqueci de alguém, com certeza. 

 

P2 – ______ e o Artur.

 

R – Bem, o Artur eu falei muito porque o Artur é meu amigo até hoje, a gente está sempre em contato, e foi quem me ensinou tudo que eu sei sobre o Memória. Então eu acho que eu falei do Artur. O Amílcar eu evito de falar dele um pouco porque é uma pessoa muito querida, que eu gostei muito e acho que foi o único colega com quem a gente conviveu. Aconteceu outras tragédias, outras mortes de algum colega, contratados, e outras pessoas. Mas o Amílcar, dos colegas que conviveram comigo há mais tempo, o Amílcar foi o único que faleceu. Então eu tenho uma dificuldade enorme de falar nesse assunto e de lembrar porque me deixa muito triste, muito triste mesmo. Mas era uma pessoa muito querida e foi um choque enorme pra todos da fundação porque foi uma morte súbita. Ele estava acho que bem, trabalhou de manhã e não voltou à tarde. Então foi assim um choque enorme, todo mundo ficou muito triste. É uma pessoa e um assunto que eu não gosto muito nem de falar. 

 

P1 – Maria Helena, e como é que você avalia a sua trajetória pela fundação?

 

R – Olha, a gente preenche sempre lá uma pesquisa de clima e tudo mais dentro da fundação _____ e tem uma das perguntas que é assim: “Você sente orgulho em ser funcionário do banco?”, é uma coisa mais ou menos assim. E eu sei que a fundação é banco também, que é uma fundação do Banco do Brasil, mas eu estou há tanto tempo fora do banco que quando fala banco me vem a fundação mesmo. Então quando você me pergunta de trajetória no banco ou como que eu avalio, a fundação é, a minha história profissional está ali. Eu não me lembro de nada muito importante que eu tenha feito, por exemplo, no CESEC com aquela rotina. Embora eu sou uma pessoa extremamente responsável com tudo, aquilo que eu faço eu procuro fazer da melhor maneira possível, dentro dos meus limites, da melhor maneira possível. Mas eu não via um resultado, sei lá, concreto, pra que eu me sentisse motivada dentro do que eu fazia no CESEC. A fundação é tudo. A avaliação que eu tenho é assim, a minha vida profissional, o que eu fiz de importante, o que eu considero de proveitoso, se eu fiz alguma coisa de bom nessa vida em termos profissionais eu realizei dentro da fundação. Foi lá que eu tive a oportunidade de, com o meu trabalho, achar, acreditar que eu estou contribuindo de alguma forma, por menor que seja, com o desenvolvimento, com a melhoria da qualidade de vida das pessoas do meu país, do meu país. E essa oportunidade é ímpar, é única. É como eu disse, nem tudo são flores, não é tudo que eu vi na fundação, não é tudo que eu vivenciei na fundação que me deixa orgulhosa ou que eu acho que foi maravilhoso. Não. Passou por momentos de frustração, por coisas que eu achava que não era o caminho mais adequado ou correto, mas no balanço geral todos que passam por lá, presidente, chegam cheios de boas intenções, todos tentam fazer o melhor. E trabalhar ali é uma coisa muito prazerosa, muito importante na minha vida, eu acho. Tanto é que eu não tenho vontade de voltar pro banco. Se ninguém me expulsar dali eu não saio. Assim, às vezes me passa pela cabeça a vontade de voltar pro banco, me passa. Às vezes eu estou aborrecida, chateada e estressada com alguma coisa, me passa essa vontade pela cabeça, eu falo: “Poxa, eu preciso conhecer o banco, eu preciso conhecer outras áreas do banco, afinal de contas eu só fiquei em dois lugares, eu não tenho nenhuma experiência. Se eu voltar pro banco não tem como, pra onde que eu vou, o quê que eu vou fazer?” Então é mentira dizer que não passa. Às vezes passa pela minha cabeça, mas é muito rapidinho, num instante sai. Eu fico com vontade de ficar ali porque ali eu acho que eu estou fazendo alguma coisa de bom pra alguém, alguém está sendo beneficiado com aquilo que eu faço ali dentro. 

 

P1 – O quê que você aprendeu com a fundação?

 

R – Bem, tudo. Eu comecei a trabalhar relativamente tarde, não comecei muito novinha na vida profissional. É como eu disse, tudo que eu aprendi, tudo que eu sei hoje eu aprendi dentro da fundação. Os outros lugares por onde eu passei eu trabalhei com responsabilidade, cumprindo o meu dever, mas se você perguntar: “O quê que você trouxe de aprendizado, o que você fez de bom e aprendeu?”, eu tenho muito o que contar da fundação sim. A fundação foi uma escola, foi um aprendizado, com todas as pessoas com quem eu trabalhei, sobretudo com o Cisne e com o Fumil, que foram pessoas maravilhosas e que me ensinaram muito, muito. Então eu ganhei muito com a fundação, aprendi muito. 

 

P1 – E traduzir a fundação em algumas palavras, você seria capaz?

 

R – Ai, ai, tanta coisa gente, tanta palavra. Eu acho que realização. Eu acho que lá eu consegui realizar muita coisa boa, consegui por em prática e fazer acontecer muita coisa que eu considero proveitosa pra mim, pro banco, pra fundação, pras pessoas que se beneficiaram dos projetos da fundação. Mas, olha, é muita palavra, é amor, é amizade, é família, é aprendizado, é realização. São muitas, uma palavrinha é muito pouquinho. 

 

P2 – Está caminhando pro final a nossa entrevista, e a gente queria saber de você qual a importância de um trabalho como este de registrar a memória da fundação. 

 

R – Aurélio, eu sou suspeita pra falar. Puxa, eu trabalho lá na minha área, lá na nossa diretoria, mas eu acho que é um trabalho super importante, eu tenho certeza que todos os colegas compartilham dessa minha opinião, todos, porque a fundação desenvolve um trabalho maravilhoso, ela é única no que ela se propõe nesse país. É uma fundação, eu considero, e acho que não estou sendo pretensiosa, é a fundação mais importante do país e que mais investe em projetos sociais. Então isso tem que estar registrado de alguma maneira, isso tem que estar registrado de alguma maneira pros funcionários tomarem conhecimento da dimensão do trabalho da fundação. Que às vezes você fica numa área e se envolve muito com o seu trabalho, não tem ideia do todo. Eu acho que esse projeto é importante por várias razões, pro próprio funcionário da fundação conhecer a fundação como um todo, pra isso estar registrado e guardado pras gerações futuras de funcionários que chegarão lá e que às vezes não vão ter as pessoas antigas, nós os jurássicos, lá pra contar certas histórias. Amanhã tem outras pessoas chegando, gente nova, que isto está registrado e eles vão poder conhecer a fundação. Esse trabalho vai dar visibilidade pro público interno do Banco do Brasil que é nosso instituidor, nosso mantenedor. As pessoas do banco têm que tomar conhecimento, as pessoas não, o funcionalismo do banco tem que tomar conhecimento do que a fundação faz. Ela é motivo de orgulho pro funcionalismo, e grande parte desse funcionalismo não conhece a fundação. O país é um país enorme, é muito grande. O banco tem aí quantos mil pontos de atendimento e de agências espalhado? E muitos funcionários não conhecem a fundação. Funcionários do banco que residem em Brasília, que trabalham em Brasília, às vezes não conhecem a fundação. Então aí tem uma série de fatores que são importantes. Eu poderia falar pelo aspecto cultural da empresa mesmo. Acho que toda empresa deve registrar, guardar, preservar sua memória, ter isso incorporado na cultura da empresa, porque eu acho extremamente importante. É importante pra nós saber que a gente está fazendo parte dessa história, está contando essa história. É importante pros que virão porque vão conhecer a história da fundação contada pelos funcionários também. E é importante porque a gente tem que ter uma memória, tem que guardar isso, tem que registrar de alguma maneira. Então é um misto de várias coisas, mas eu acho importantíssimo. Eu espero que continue, que não pare por aqui, que outras pessoas possam dar continuidade a esse trabalho de estar sempre atualizando essa história pra isso ficar permanentemente atual e guardadinho lá pra quem quiser saber, conhecer a fundação, ter essa oportunidade. 

 

P2 – O que você achou de ter participado da entrevista?

 

R – Olha, eu acho que eu falei demais, aloprada, e falei muito. Mas eu gostei muito de ter participado, de ter colaborado, estou achando super legal saber que faço parte, de estar podendo contar um pouquinho da história, e eu tenho o maior orgulho, eu quero saber que quando eu sair do banco, me aposentar, ou quando sair da fundação se for o caso, que eu Maria Helena contribuí, participei, deixei alguma coisinha. Estou levando milhares de coisas boas e estou deixando pelo menos um pouquinho de contribuição lá da fundação e de estar registrado o meu depoimento lá. Eu achei muito legal. 

 

P1 – Maria Helena, então, em nome do projeto como um todo, muito obrigado. 

 

R – Por nada, foi uma alegria, foi um prazer.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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