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História

O prazer de ser bem acolhida em Prazeres

História de: Evanilda de Mello Martins da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/09/2003

Sinopse

Evanilda de Mello Martins da Silva trabalhou por muitos anos como dona de casa e só depois de adulta foi atrás de sua formação. Recentemente formada, trabalha como coordenadora pedagógica de uma creche e além de aulas, também faz trabalhos como psicóloga, aconselhando e mostrando aos jovens a teoria e a prática dos seus conhecimentos como profissional. Ela nos conta como se sente bem recebida em Morro dos Prazeres, o prazer de trabalhar e servir à comunidade e como sua relação com eles vai além do profissional.

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História completa

P/1- Qual o seu nome completo?

 

R – Evanilda de Mello Martins da Silva. 

 

P/1 – Local e data de nascimento?

 

R – Rio de Janeiro, 26 de julho de 1960.

 

P/1- Qual seria a sua relação profissional e sua chegada aqui no Morro dos Prazeres, e o trabalho que você realiza aqui no morro?

 

R – Eu vim pro Morro dos Prazeres em 2001, como professora do programa Vida Nova, para trabalhar com jovens. E daí nós começamos um trabalho que eu já tinha começado esse mesmo trabalho em uma outra comunidade e vindo para cá, tive a grata surpresa de ter uma boa recepção. O Flavio, que é o coordenador desse programa é morador aqui, e então ele me deixou muito à vontade para trabalhar com os jovens. Eu tenho tido uma experiência, uma relação pessoal muito boa com os alunos, e então, a minha relação com o Morro dos Prazeres começou de forma profissional, mas ela ultrapassou o profissional. A gente tem uma relação de solidariedade, de mãe para filho, de amigo. Eu consegui desenvolver esse tipo de relação com os meus alunos, não só com eles, mas também com toda a comunidade, para eu fazer esse outro trabalho também comunitário, aqui na creche Doce Mel (?) e me relaciono também com adultos, que são os pais dessas crianças da creche e o que eu percebo é uma receptividade muito grande, uma abertura muito grande para a gente desenvolver um trabalho, uma credibilidade, que eu acho isso fundamental em qualquer trabalho, porque reforça a auto confiança da gente, porque nenhum profissional consegue trabalhar à vontade, ou se sentir com condições de estender o que lhe foi passado, se ele não tiver a credibilidade das pessoas, a confiabilidade e principalmente a solidariedade. Então eu conto realmente com uma solidariedade das pessoas. Aprendi a me relacionar com todo mundo daqui, conheço - posso não saber o nome de todo mundo, mas conheço todo mundo. Sei que todos me conhecem, sabem quem eu sou. Então, sempre que eu estou em algum lugar, quando eu entro aqui, me sinto em casa.  Eu estou muito em casa aqui. É uma... Tanto que hoje é sábado e eu estou aqui [risos]. Trabalho de segunda a sexta, mas quando precisa, também. Tudo o que envolve a comunidade e que eles me convidam, eu venho. 

 

P/1- Quais seriam assim, as principais atividades que você realiza no morro?

 

R – De cultura?

 

P/1- De cultura. 

 

R – Ou da minha profissão?

 

P/1- Da sua profissão, a sua experiência de atividades. Como é que você desenvolve?

 

R - A minha atividade é mais ligada, no meu trabalho, com a área pedagógica. Eu sou professora das matérias do currículo mesmo, Matemática, Ciências, Português, História e Geografia, mas dentro da sala de aula, por eu ser psicóloga, eu tenho também essa... faço esse papel também de mãe, de amiga, as meninas me contam as questões delas.  Os rapazes também. Eu tenho uma boa relação com eles. Então, a minha profissão aqui dentro, com os jovens é com essa parte da pedagogia, mas a gente tem extrapolado um pouquinho o profissional para entrar quase assim numa relação mesmo de amizade com a maioria dos alunos. E nesse outro trabalho que eu faço é que é um trabalho com crianças. Então, eu vim para cá para a creche, para fazer um atendimento terapêutico. Eu percebi que atendimento terapêutico, da forma que ele se dá profissionalmente não era o que a comunidade precisava no momento.  E eu achei que eu era mais útil na creche. E já estou há quase um ano na creche. Estou desenvolvendo, faço a parte da coordenação pedagógica, também dou orientação para as meninas que não tem formação específica, e, trabalho também, coloco em prática com elas o que elas não sabem. Então, eu faço uma teoria na prática com elas para que elas tenham essa formação. Estou tentando passar para elas alguma teoria para que elas melhorem o trabalho delas na creche. 

 

P/1- Você teria alguma história interessante aqui do Morro dos Prazeres que gostaria de contar?

 

R - Não sei se interessante. Algo que tenha me marcado?

 

P/1 - Isso.

 

R – Tudo é tão importante para mim. Tudo. Posso contar a última [risos] que eu inventei. Resolvi fazer uma festa da creche na quadra, mas eu ia fazer uma festa pequena, com barraquinha, as mães trariam um pratinho de doce ou salgado para a gente botar as crianças para dançar e virem passar umas horas com a gente. Aí a minha ideia foi tão bem aceita, e isso é que me faz continuar aqui, a credibilidade que as pessoas têm em mim, a seriedade com que o meu trabalho é feito. O Flavio correu atrás de patrocínio e a gente está com uma festa “megalonomica” pra fazer amanhã, e acho que isso é uma amostra do meu trabalho aqui. A credibilidade que as pessoas têm. Eu planto uma ideia e eu tenho mil parceiros para que isso dê certo. O Denílson, que é da parte cultural me ajudou a ensaiar a quadrilha, o Flavio correu atrás dos patrocínios. Ontem fomos nós e o patrocinador comprar as prendas. Então, eu acho isso muito bacana, acho muito legal, me incentiva muito.   Posso fazer uma parte. Eu fui mãe, dona de casa durante 13 anos, depois eu fui para a faculdade, e só há três anos eu sou profissional. Então, eu me sinto muito valorizada e com o ego muito massageado, quando eu chego a um lugar e  consigo transmitir um profissionalismo que cria, que gera essa  credibilidade, e as pessoas me dão esse campo para eu fazer o trabalho que eu tenho feito aqui. Realmente eu estou muito satisfeita. Eu me sinto realmente em casa aqui. 

 

P/1- Então nesse sentido, eu gostaria de fazer uma pergunta em relação ao Casarão dos Prazeres. Qual seria a importância que você vê no Casarão dos Prazeres para o Morro dos Prazeres e para Santa Teresa como um todo?  

 

R – Eu acho que a cultura tem que fazer parte da vida do ser humano. É um direito que o ser humano tem. Então, é um privilégio a comunidade ter o Casarão. A reconstrução dele, o resgate disso para a comunidade é de grande valia. Eu vejo que as pessoas falam daqui com muito orgulho. É um motivo de orgulho, e o que eu espero do Casarão para a comunidade e que eu não vejo muito acontecer é as pessoas sentirem que ele está de portas abertas para todo mundo. Alguns alunos meus disseram que não vieram aqui terça-feira porque só tinha gente chique. Falei: “Mas eu não sou chique e estava lá”.  Eu brinco muito com eles. Então, eu que não sou daqui me senti à vontade para vir, eu acho que as portas estavam realmente abertas para todos que quisessem olhar e apreciar. O que falta, se é que falta alguma coisa, é o morador olhar para o Casarão e se sentir digno de entrar aqui. Eu acho que o povo em geral, ele costuma se retrair quando ele vê que algo, quando ele acha que algo não é para ele. Então, mostrar para a comunidade que eu estou aqui enquanto profissional, mas nada disso fará efeito se não for, se não estiver fazendo realmente a função do Casarão, que é servir à comunidade. Acho que só falta isso. Mas eu acho que é um motivo de orgulho. Todos têm muito orgulho quando falam daquilo. 

 

P/1 – O que significa o Morro dos Prazeres para você?

 

R - É o local onde eu estou conseguindo realmente fazer o meu trabalho enquanto psicóloga, enquanto professora. Como eu falei, eu fui dona de casa, a maior parte da minha vida adulta. Então aqui eu estou achando espaço para ser profissional e isso realmente para mim é muito importante. Quando eu penso em ir a algum lugar... Normalmente eu estaria em casa, mas como era para vir para cá, para fazer algo em função da comunidade que me gratifica, então eu venho com todo prazer. Realmente é um prazer estar em Prazeres [risos]. Tem sido um prazer estar aqui.  

 

P/1- Por último, eu gostaria de perguntar a você, o que você acha de ter participado dessa entrevista, e contribuído para o projeto de memória do Morro dos Prazeres?

 

R – Acho importante, me sinto lisonjeada com o convite e acho que esse resgate da história também vai valorizar, vai fazer com que o morador se sinta valorizado, quando ele é ouvido, quando a história dele emerge, que são tantas histórias. Eu acho que nada se faz de uma hora para outra, então, o Casarão hoje existe assim, mas ela já foi de um outro jeito. Então resgatar essa história do Morro dos Prazeres é muito importante através do habitante, até dos mais antigos habitantes daqui. Acho muito legal. 

 

P/1- Muito obrigado, Evanilda.

 

R – Muito obrigada.

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