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História

O povo ainda nos enxerga como políticos

História de: Lealdina Bandeira Neres
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Dona Lealdina teve sua infância marcada pela fazenda. Começou a namorar seu marido aos 8 anos de idade e se casou aos 20 anos. Se mudou com o marido e a primeira filha para Xambioá, onde acompanhou a extração de cristais e posteriormente a agitação política da cidade.

História completa

P/1 – Lealdina a gente vai começar. Qual o seu nome completo?

 

R –  Lealdina Bandeira Neres.

 

P/1 – A senhora nasceu onde?

 

R – Em município de Imperatriz, foi na fazenda, mas no município de Imperatriz.

 

P/1 – No Pará?

 

R – Maranhão.

 

P/1 – Que data?

 

R – No dia 9 de fevereiro, 1938.

 

P/1 – Você disse que nasceu na fazenda? Contaram alguma coisa do dia do seu nascimento? Como foi?

 

R – Não, meu nascimento, minha mãe sempre conta que foi nada demais, eu só nasci (risos), na mesma hora que ela sentiu a dor, eu nasci.

 

P/1 – Nasceu rápido?

 

R – Nasci rápido demais. Sempre minha mãe conta que nasci mais rápido do que todos eles que ela teve (risos).

 

P/1 – Quantos irmãos você tem?

 

R – Treze.

 

P/1 – São 14 filhos?

 

R – Não, eram 13 comigo.

 

P/1 – Quantos homens e quantas mulheres?

 

R – As mulheres, seis e sete homens, né? É porque morreu uns pequenos e por causa disso, a gente vai esquecendo dos pequenos, né, mais novos.

 

P/1 – Seu pai fazia o quê? Trabalhava em quê?

 

R – Era fazendeiro. Mexia com roça, com tudo, nós tinhamos fazenda. Meu pai, quando eu nasci, ele tinha fazenda.

 

P/1 – Ele era o dono da terra?

 

R – Dono da terra.

 

P/1 – E plantava o que na terra?

 

R – Ele plantava tudo, arroz, mandioca, tudo que era planta em roça, ele tinha toda a lavoura, naquele tempo, nas lavouras, o gado era solto, não fazia pasto, fazia só as roças.

 

P/1 – E como é que o gado fazia?

 

R – O gado comia… o pasto era nativo da terra, não tinha plantação de pasto. O lugar era tão bom que tinha muito pasto, o gado comia, não precisava replantar. Plantava pasto era para animal, para cavalo de sela, plantava aquele capim especial para aqueles cavalos comerem, mas gado comia o nativo da terra.

 

P/1 – E você disse que tinha bastante plantação também.

 

R – Tinha muita plantação. Todas as coisas, meu pai tinha plantação de tudo.

 

P/1 – E vendia depois?

 

R – Fomos criados com muita fartura. Vendia muita coisa.

 

P/1 – E sua mãe? Que lembrança você tem dela quando criança?

 

R – Da minha mãe, só que ela trabalhava… era do lar, trabalhando só em casa mesmo, cuidando dos filhos…

 

P/2 – E assim, da sua infância, esse lado que a senhora viveu ao lado da sua mãe, o quê que a senhora lembra? O quê que a senhora recorda? Assim, da sua infância, quando a senhora era criança.

 

R – A gente lembra só de coisa boa.

 

P/2 – A senhora gostava de brincar?

 

R – Brincava muito.

 

P/2 – De quê?

 

R – Nós brincávamos tanto, era de boneca, era tanto… tinha as roças de meu pai, aí nós íamos pra roça e brincava lá, tinha tanta coisa pra gente brincar. Dentro dos lagos, brincando, fazendo aqueles paus de canoa e passava o dia todinho brincando dentro daqueles lagos brincando.

 

P/2 – E a senhora tinha muitos amigos?

 

R – Nós tínhamos muita amiga, sim, nós tínhamos, eu tinha.

 

P/1 – A senhora lembra de alguma situação assim, que aconteceu lá na lagoa com os amigos, assim, que marcou, que a senhora nunca mais esqueceu?

 

R – Não, essas coisas assim não teve, né, de coisa má assim, não lembro nada disso. Não teve não. Só lembro de coisas boas.

 

P/2 – E alguma coisa boa assim, que ficou na lembrança?

 

R – Nossa infância.

 

P/2 – Tem alguma assim, interessante para nos contar?

 

R – Agora, só que a gente esquece, né, das coisas mais boas que a gente passava, né, das lembranças. Era só a gente andar de cavalo, corria, o cavalo derrubava (risos), caía, gostava de correr, botava o animal pra correr, o cavalo derrubava, saía correndo e você ficava. Só isso que eu me lembro das brincadeiras que nós fazíamos, das coisas que nós fazíamos.

 

P/1 – E esse lugar que tinha essa lagoa, descreve pra gente um pouco como era esse lugar.

 

R – Como era o lugar?

 

P/1 – É.

 

R – Era assim, porque tinha a lagoa e tinha a mata, fazia aquelas roças e tinha aquele lago grande dentro e tinha um lago também no fundo da nossa casa que era tipo uma lagoa, ali era quase riacho quando inverno e quando parava a chuva, ele ficava sendo um lago, parado.

 

P/1 – E essa canoa que vocês faziam, depois vocês andavam no lago com essa canoa?

 

R – Nós andávamos nesse lago sentadas em cima daqueles paus, de uns paus fofo assim que não afundava, nós fazia de canoa e brincava o dia todo ali.

 

P/1 – Muito bom, né?

 

P/2 – E o quê que a senhora pensava em ser quando crescesse dona Lealdina?

 

R – Eu sempre tinha a ideia de ser professora (risos).

 

P/2 – E a senhora brincava de professora na sua infância? Chegou a brincar alguma vez?

 

R – Na minha infância, não brincava muito de professora. Quando eu comecei a estudar, parece mentira, mas eu tinha três anos de idade. Hoje, os meninos estudam com três anos, naquela época não estudava, né? Eu com cinco anos de idade, eu já ficava em cima de uma cadeira, me botava em cima da cadeira pra fazer aquelas poesias, eu lia e decorava aquelas poesias para falar para aquele povo, lá. Aquilo era um encanto para eles o que eu fazia.

 

P/1 – A senhora lembra de alguma poesia dessas?

 

R – (risos)

 

P/1 – Pra recitar pra nós, aqui?

 

R – Meu Deus. Tinha aquela: “Minha terra tem palmeira onde canta o sabiá…” (risos), eu gostava de recitar essa aí.

 

P/1 – E você disse que começou a estudar com três anos, mas em casa?

 

R – Em casa…

 

P/1 – Como era?

 

R – Tinha a escola, naquela época era assim, pai botava naquela escola e aí, juntava muito aluno de fora também para aquela escola e a gente estudava. Estudei até a quinta série.

 

P/1 – Mas vinha uma professora?

 

R – Vinha professora pra ensinar. Quando saía uma, vinha outra e toda vida ensinando.

 

P/2 – E qual lembrança boa que a senhora tem da escola, dona Lealdina?

 

P/1 – Dessa época que tinha essa… que vocês estudavam na fazenda?

 

R – Sei que tudo era bom, naquela época, nós trabalhávamos, levantava de madrugada para arrumar as coisas pra deixar tudo arrumado, para quando fosse sete horas da manhã, para a aula estar com tudo pronto, as comidas dos peões pra roça, que a minha mãe mandava fazer, nós juntava a trabalhar pra fazer aquilo ali. Na hora, nós estávamos arrumadas pra ir pra aula. Aquilo ali era coisa divertida, era coisa boa.

 

P/1 – A senhora não trabalhou na roça, direto na roça?

 

R – Nós trabalhávamos, porque o meu pai sempre levava nós pra roça, aí era um trabalho assim, gostoso, ajudava a apanhar arroz. Só apanhar e plantar, que na planta, ele botava nós, meninas pra… tudo era na enxada, aí nós fazia aquilo ali.

 

P/1 – Vocês é que plantavam arroz?

 

R – Nós plantávamos o arroz.

 

P/1 – Pegava na enxada, não?

 

R – Não. Nós só fazia tapar os buraco… as covas do arroz. Os homens é que fazia, né, não fazia coisas pesadas, não.

 

P/1 – E a senhora lembra com que idade a senhora ia pra roça?

 

R – Como é?

 

P/1 – Desde que idade, assim, de que tamanho que a senhora ia pra roça?

 

R – A idade, começava com sete anos de idade, meu pai começava a levar a gente pras… nas horas de folga, estava na roça.

 

P/1 – E a senhora disse que já acordava bem cedinho, fazia a comida…

 

R – Nós fazíamos as comidas pra peãozada comer, todo mundo comer pra poder desocupar pra poder…

 

P/1 – Mas levava a comida lá na roça?

 

R – Não. Não era nós que levávamos, não, os outros é que levava. Nós ficávamos na aula. Nós também levantávamos de madrugada naquele tempo, o sal para dar gado era um sal inteiro, um sal grosso, não era sal moído não. Meu pai botava nós pra levantar de madrugada para carregar água para desmanchar o sal para dar para o gado. A gente tinha que fazer cedo, que era para desocupar cedo para ir… para na hora da aula, estar desocupada.

 

P/1 – E à tarde?

 

R – À tarde… tinha aula de manhã e de tarde, naquela época…

 

P/1 – É mesmo?

 

R – É. Cinco horas que terminava e ia fazer os outros serviços. Não recordo mais o resto, já tá… 78 anos, né?

 

P/1 – Mas tá lembrando de tudo.

 

P/2 – A senhora gostava da sua professora?

 

R – Gostava. Todos os meus professores eu gostei.

 

P/2 – E que lembrança boa que a senhora tem dela, assim, o quê que marcou pra senhora dela, assim, o trabalho que ela fazia com vocês?

 

R – Não, sobre a marca das professoras, eu não tenho nada de ruim.

 

P/2 – Não, tô falando assim, de bom. O quê que ela representou para você?

 

R – Ela representava muito bem.

 

P/1 – Teve uma especial que marcou você, que você…

 

R – Não tem nenhuma assim, mais especial que outros, não. Que naquele tempo, a gente estudava, era apostando as escritas, né? Era muito diferente, o estudo de hoje é diferente, né?

 

P/1 – Como era?

 

R – A gente apostava as escritas, aquele que soubesse mais, tinha a palmatoria, tinha que dar a palmatoria no que errasse, aí quando era eu sempre, juntava a roda de alunos assim, era de grupo, juntava aquele grupo e eu dava… quando era para soletrar uma letra, uma palavra para soletrar e os outros não sabia, então uma vez eu bati em todos eles, assim, até esse aqui também (risos), palmatoria em todos eles porque nenhum soube soletrar beija-flor. Aí, o último que sabia que eu sabia responder, eu fui a última a responder, quando eu soletrei o beija-flor e levantei e fui bater na mão de cada um sem querer, mas foi o jeito. A gente apostava a escrita, a escrita era apostada assim. Eu apostava a caligrafia, às vezes, ganhava a caligrafia e perdia a ortografia, né? Eu sempre ganhava a caligrafia e perdia a ortografia, quando apostava com esse aqui, eu apostava… ele ganhava a ortografia e eu ganhava a caligrafia… não, ele ganhava a caligrafia e eu ganhava a ortografia, porque ortografia ele fazia tudo certo, né?

 

P/1 – E desde aquela época de escola, vocês já começaram a namorar?

 

R – Já namorávamos. Eu tinha oito anos de idade quando… e ele com 11, com 12. Nós já nos conhecíamos nessa época, já. Quando eu comecei a namorar, eu tinha 13 anos e ele tinha 17. Aí, nós já estudávamos juntos nessa época.

 

P/1 – Ele era lá da fazenda também?

 

R – É porque ele é… o pai dele é irmão do meu pai. Nós somos primos. E o meu pai pegou ele para estudar, quando ele ficou sem a mãe dele, com dez anos, ele perdeu a mãe, aí meu pai botou ele dentro de casa, ele com 12 anos e eu com oito. Não estava bem completo, não, mas tava completando oito anos. Aí, nós ficamos juntos. Quando foi com 13 anos, nós começamos a namorar escondido, aquele escondidinho, naquele tempo, ninguém namorava, para ninguém ver, era muito oculto. E os pais não aceitavam, mesmo, que achava que nós éramos meio irmão, porque os meus irmãos tomaram ele como irmão, mas eu nunca tive ele como irmão. Quando ele entrou pra dentro de casa, eu senti um amor por ele não ser de irmão. Aí, viemos casar eu com 20 anos e ele com 24. Demoramos.

 

P/1 – E ele também, né, desde aquela época…

 

R – Mas só que quando eu tinha 15 anos, aí nós deixamos, ai eu dizia pra ele sempre que nós era parente muito perto, que nós era primo, nossos pais irmãos. Que podia ter algum problema, que podia ter problema de filho, que até ele dizia: “Não, isso não tem nada, não, é porque você não quer” “não é isso”, que achava, a gente sentia que podia haver algum problema nos filhos. Aí, deixamos. Aí, com 15 anos, nós começamos novamente, eu tinha 15 e ele 19. Aí, meus pais descobriram, namorava escondido, mas meus pais descobriram. Não gostou não. Aí, foi o tempo que ele veio aqui pro Xambioá, ele veio e eu fiquei lá. Eu tinha 17 anos e ele veio com 21. Aí, ele passou três anos pra cá, mas nós nos correspondemos meio assim, um com o outro toda a vida. Ele passou três anos, voltou pra lá, e nós casamos e viemos.

 

P/1 – Nesses três anos, vocês nunca mais se encontraram?

 

R – Nunca mais nos encontramos, só mesmo por carta, naquele tempo era carta, não tinha outra coisa, não tinha um telefone, não tinha nada.

 

P/2 – E esse período que a senhora ficou lá enquanto ele estava pra cá, a senhora trabalhou em alguma coisa ou ficou só em casa, mesmo?

 

R – Eu fui professora uns tempo, quando ele chegou lá, eu estava sendo professora, mas aí, quando ele veio, aí ele nunca gostou de eu ser professora, aí eu acabei a ideia. Quando eu cheguei pra cá, que a primeira aula que _____00:14:41_____ era prefeito, queria que eu fosse professora lá no _____00:14:43____, a primeira professora que ia ser era eu, mas ele não aceitou, não. Aí, eu acabei a ideia.

 

P/1 – Lá, você foi professora desde que idade que você começou a dar aula?

 

R – Lá, eu fiquei junto do Montes Altos, mas era professora na fazenda.

 

P/1 – Mas desde que idade, assim, você começou a dar aula?

 

R – Que idade eu tinha? Dezenove anos.

 

P/1 – E gostava?

 

R – Adorava. E os meus alunos gostavam de mim, muito mesmo, eu era boa pra eles, se eles gostavam.

 

P/2 – Aí, ele voltou para lá e buscou a senhora?

 

R – Voltou pra lá, me buscou e nós casamos lá e viemos pra cá.

 

P/1 – E como foi a família quando ele foi lá buscar para casar mesmo?

 

R – Aí, meu pai aceitou, já. Não aceitava que nós cassássemos sem ele saber, escondido, mas ele fez o casamento.

 

P/2 – E qual foi o motivo do seu pai ter aceitado ele?

 

R – Por quê que ele aceitou?

 

P/2 – Sim.

 

R – Não era muito contra, quem era contra era minha mãe. Minha mãe era contra demais.

 

P/1 – Depois, ela também aceitou?

 

R – Ela aceitou.

 

P/1 – E o casamento, vocês fizeram algum casamento lá ou só vieram pra cá?

 

R – Não, nós casamos, no padre e civil, casamos lá.

 

P/1 – Como foi esse dia, você lembra?

 

R – Como foi o casamento? Uma festa melhor do mundo, festa mesmo.

 

P/1 – Conta pra gente aquele dia, como era, como foi, assim. Vestido…

 

R – Ah, vestido longo, de véu e grinalda, aquela coisa (risos)… naquele tempo… hoje é tiara, né? Naquele tempo era grinalda.

 

P/1 – E a emoção?

 

R – A emoção foi grande. Grande, grande. Aí depois, nós casamos… nós casamos primeiro no civil, com sete meses, nós casamos no padre, quando viemos pra cá, já tinha casado no padre e no civil.

 

P/1 – Foi a festa na fazenda?

 

R – Festa na fazenda. Festa mesmo.

 

P/2 – E vocês vieram para Xambioá logo após o casamento ou demoraram alguns dias?

 

R – Era para vir, o pai dele mandou ele ir, para nós casar e virmos logo, mas aí, ele resolveu… chegou lá, meu pai não aceitou ele voltar logo, nós ficamos lá com o meu pai ainda, ajudando o meu pai lá na fazenda, aí quando foi… um ano e oito meses que nós estávamos casados foi que nós viemos pra cá, resolvemos vir. Ele veio primeiro, aí me trouxe aqui, eu conheci, gostei, viemos de vez.

 

P/1 – Xambioá mesmo?

 

R – Xambioá mesmo.

 

P/2 – E foi uma viagem tranquila? Como é que foi a viagem naquela época?

 

R – Nossa viagem foi nove dias de viagem. Naquele tempo de pé, eu montada num cavalo e ele montado também e os outros homens de pé, as outras pessoas de pé, tocando as cargas das coisas. Aquilo precisou nove dias do Maranhão pra cá.

 

P/1 – E as paisagens, quando vocês passavam a cavalo, montados, você lembra das paisagens que você via?

 

R – Não lembro de nada, mais, não. Só que a gente passava no rio, naquele tempo não tinha ponte ainda do estreito, nós passávamos no ajoujo, na canoa, no ajoujo e atravessava lá em Tocantinópolis par vir para cá. Nem a ponte ainda não tinha.

 

P/2 – Como foi a chegada aqui?

 

R – A chegada aqui foi boa, que tinha o meu sogro, meu sogro e irmão do meu pai. Chegou, recebeu nós muito bem, já tinha comprado a casa, já tinha arrumado a casa pra nós, esperando nós chegar.

 

P/2 – Mas como era aqui? Uma vila, um povoado? Como era?

 

R – Não, era lá no Manchão do Meio.

 

P/2 – Manchão do Meio.

 

R – Manchão do Meio tinha umas casinhas só um pouquinho, nós ficamos lá. Mas aqui… distante três quilômetros daqui, todo dia, nós estava aqui, meu sogro morava aqui.

 

P/1 – E quando você chegou, assim, o quê que você achou do lugar?

 

R – Não achei muito bom, não.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Achei assim, o povo diferente, não era aquele povo que a gente tinha costume com eles, depois, o povo foi muito bom comigo, graças a Deus, todo mundo gostou de mim, tinha aquela época acostumava com o povo, mas eu não tinha muito costume, achei uma diferença grande.

 

P/2 – Vocês tiveram dificuldades quando chegaram…

 

R – Eu achava também aqui, onde nós ficamos ali, o povo era tudo… deus que me perdoe, mas era um povo muito pobre. Assim, eu estranhava aquilo. Que nós fomos criados na fazenda, mesmo, sentindo toda fartura, todo conforto e aqui eu achei diferença foi isso aí, eu sentia. Às vezes, meu sogro chegava lá em casa, eu tava chorando: “Não minha filha, mas é assim mesmo, tem que acostumar”, e acostumei, graças a Deus, o povo era bom comigo também, começaram a ser uma maravilha.

 

P/1 – E o seu dia a dia aqui, como era? Porque lá, você estava dando aula.

 

R – Era.

 

P/1 – Na fazenda?

 

R – Na fazenda.

 

P/1 – E o seu dia a dia aqui quando você veio morar aqui?

 

R – Foi só criar menino, só cuidar dos meninos e dos peões, que tinha muito… a casa cheia de peão toda a vida e eu cuidando daquele povo.

 

P/1 – Menino, você teve filho?

 

R – Quantas vezes eu fazia comida para 30 peão naquela época de garimpeiro, eu fazia, levantava de madrugada também, fritando aquelas panelonas de carne, de coisa, com os meninos pequenos e fazia isso tudo para eles.

 

P/1 – E tinha garimpo na época, ali?

 

R – Tinha garimpo. Nessa época, surgiu um garimpo nos nossos pastos, nós arrumamos muito dinheiro nessa época e tinha muito peão, tinha muito faisqueiro, garimpeiro…

 

P/1 – E o garimpo era na sua…

 

R – Na nossa área, é.

 

P/1 – Conta essa história pra gente do garimpo, como começou? Quem descobriu? Desde o inicio.

 

R – Isso aí quando eu cheguei aqui já estava descoberto. Descobriu em 1952 e eu cheguei em 1960, já tinha oito anos, né, agora quando ele veio aqui em 1955 e ficou até 1958, ele ficou muito dentro dos garimpos, arrumou muito dinheiro, arrumou muita coisa, sempre me conta que pegava cristal todo dia. Aí quando chegamos, tinha parado o garimpo, mas surgiu esse dentro dos nossos pastos.

 

P/1 – Quem descobriu?

 

R – Foi um garimpeiro.

 

P/1 – Conta um pouco, porque é importante saber como assim, que ele descobriu.

 

R – Ele descobriu porque antigamente, tinha… outros lá atrás abriram um buraco lá, aí ele passando pelo pé do buraco, viu, achou parecido que ali podia ter cristal, aí começou a cavar. Um dia, o meu esposo foi e disse assim: “Onde é que tu tá trabalhando?”, ele mostrou o lugar onde era “Pois continua lá”, ele continuou, quando foi um dia, ele chegou contando a história que já tinha descoberto a pedra de cristal, aí começou  arrancar cristal, foi muito.

 

P/1 – Na sua terra, então?

 

R – Na nossa terra. Teve muito, muito cristal.

 

P/1 – E como é que chegaram os outros garimpeiros?

 

R – Aí, os garimpeiros não vieram, só festeiros. Teve outro garimpo que foi buscar o meu cunhado, tem dois cunhados, um cunhado e um primo. Aí chegou, cavou outro buraco perto e tornou a sair cristal nesse outro buraco, mas aí parou, aí não teve mais, era dentro do nosso pasto, ninguém ia invadir, mesmo, que não podia.

 

P/2 – Quem era o faisqueiro, dona Lealdina?

 

R – O faisqueiro naquela época era o compadre Tiago, o seu Noleto, quem era mais? Compadre Correa também…

 

P/2 – E eles faziam o quê? Os faisqueiros, eles faziam o quê?

 

R – Só faziam comprar o cristal e carregava.

 

P/1 – Como chama?

 

R – Chamava faisqueiro porque comprava. O que arranca o cristal é garimpeiro, né, e o fasiqueiro é o que compra. Ele comprava e levava para lá, não sei o que faziam dele, não.

 

P/1 – Mas você disse que você cozinhava para 30 pessoas…

 

R – Trinta garimpeiros…

 

P/1 – Essas pessoas eram de onde?

 

R – Eram os garimpeiros que vinham junto com os faisqueiros que vinham olhar as pedras e querer comprar e eu fazia comida para 30 homens, fiz muitas vezes.

 

P/1 – Mas eles trabalhavam em outros lugares?

 

R – Não, trabalhavam lá dentro do nosso pasto, mesmo, nesse mesmo buraco, que o ninho era grande de gente lá, uns iam pra olhar, outros iam para… passava o dia todinho lá cheio de gente. O buraco era grande, muitos trabalhavam e outros vinham para comprar e aquela agonia.

 

P/2 – E foi no meio dessa exploração do garimpo que começou a nascer os filhos?

 

R – Os filhos já tinham nascido um bocado, porque quando eu vim do Maranhão, eu trouxe uma, a mais velha, que tinha nove meses. Aí, quando os outros nasceram, já tinha nascido o primeiro, segundo, terceiro, no quarto que começou os garimpos. Meu filho Dinho nasceu na época em que começou o garimpo.

 

P/1 – Qual o nome dos seus filhos?

 

R – A mais velha chama Leonor, a segunda Leonete, terceiro, Raimundo e o quarto, Antenor Junior e a quinta, Leonilde e a sexta, Leonice.

 

P/1 – E o seu marido, fala o nome dele todo.

 

R – Antenor Bandeira Neres.

 

P/1 – E ele trabalhava também no garimpo?

 

R – Trabalhava lá junto com os homens.

 

P/1 – Como é esse trabalho no garimpo? Conta pra gente um pouco.

 

R – É uma picareta, uma pá, só a picareta e a pá, não tem outra coisa, não. Picareta para cavar e a pá para jogar a terra fora.

 

P/1 – É tranquilo?

 

R – Tranquilo.

 

P/1 – Ou não?

 

R – É tranquilo e animado, principalmente, quando tá saindo cristal.

 

P/1 – Conta um pouco, você viu alguma vez assim, eles encontrando?

 

R – Muitas vezes. Arranca a pedra e fica outra, é com a outra que a gente fica animado (risos), quando tá arrancando aquela que a gente tá vendo a ponta dela assim, aparecer, aquilo é uma alegria. Naquele tempo, cristal tinha valor, hoje nem preço quase não tem, né?

 

P/2 – E quando achava esse cristal, como era que demonstrava a animação, dona Lealdina, como que ficavam esses homens e vocês?

 

R – Todo mundo alegre.

 

P/1 – Comemoravam?

 

R – Comemorava. Alegre mesmo.

 

P/1 – Tinha festa, não?

 

R – Não tinha festa, não. Nós nunca gostamos de festa (risos).

 

P/1 – Não?

 

R – Nós somos contra festa, toda vida.

 

P/2 – E como foi a mudança de garimpeiro para fazendeiros?

 

R – Não, nós já tínhamos fazenda. Toda vida nós tivemos. Meu pai a vida toda foi fazendeiro, pai dele também era, depois o pai dele viajou e foi comprando gado, a gente tinha a fazendinha aqui toda vida. Nós chegamos aqui, ele tinha… quando ele chegou pra cá, ele não trouxe nada, o que ele tinha ele deixou lá, mas ele chegou aqui, aí começou a arrancar cristal e a vender e comprar gado. Eu cheguei, ele já tinha um gadinho dele aí. Aí, fomos olhar o nosso gado mesmo, essas coisas.

 

P/1 – E o seu marido era daqui de Xambioá?

 

R – Não. Ele era… não tô dizendo que nossos pais são irmãos? Fomos criados juntos lá no Maranhão. Nós somos de oito anos de idade, estamos juntos até hoje, porque ele só passou esses três anos pra cá. A separação que nós tivemos…

 

P/1 – Então, não tinha nenhuma família aqui?

 

R – Ele não?

 

P/1 – Parentes de vocês aqui, não?

 

R – Nossa família, a minha é a dele e a dele é a minha, né? É uma só.

 

P/1 – E por quê que ele veio para Xambioá?

 

R – Ele veio para Xambioá porque os meus pais foram contra…

 

P/1 – Sim, mas por que esse lugar?

 

R – O nosso namoro, aí o pai dele já estava aqui, o pai dele já tinha vindo, veio na frente, o pai dele veio em 53. Aí, ele ficou para ele vir, disse que era para ele vir atrás, ele veio. Foi 1955 ele veio junto o pai dele. E aqui ficou. Quando foi em 1958, o pai dele mandou ele voltar pra nós casar. Aí, aconteceu que nós casamos e voltamos pra cá de novo.

 

P/2 – O pai dele mantinha negócios aqui também, na época do garimpo?

 

R – Mantinha negócios, mexia com cristal também, tinha um comercinho também, o pai dele.

 

P/1 – E seus filhos, na época que eles foram nascendo, continuaram vocês morando no mesmo lugar?

 

R – Morando no mesmo lugar. Só ela nasceu no maranhão, os outros foi ali no Manchão do Meio…

 

P/1 – E continuaram no mesmo lugar?

 

R – No mesmo lugar, nasceram todos, quando foi depois em 1969, a mais velha 19 anos, eu vim para cá pra botar para estudar, porque estava numa aulinha lá no Manchão do Meio, aí quando começaram a crescer, eu trouxe uma sobrinha também, filha de criação, eu trouxe para estudar no colégio melhorzinho, aí estudaram aqui até quando terminaram o segundo grau, naquele tempo, não tinha… como é que diz? Segundo grau, primeiro grau, é assim ainda. Não sei esse negócio de nome, nono ano, isso ai não dá para mim, mais. Aí, quando terminaram, aí eu botei uma em Goiânia e os outros foram pra Araguaína, depois a nega foi para Goiânia também. Lá, ela começou a estudar, estudou, mas quando ela terminou, foi fazer vestibular, passou só na primeira fase, na segunda não passou, depois tentou duas vezes, aí desanimou e veio pra cá, quando chegou pra cá, já era em 1980, aí quando ela chegou, logo em 1982, ela fez o curso no Senai e passou, no Senai não, no como é aí, menina? Na Saúde. É SUCAM, né, como é o nome? Daí que ela trabalha?

 

P/2 – Naquela época, era SUCAM.

 

R – Foi em 1982 que ela entrou. Até hoje trabalha, tá com 30 e tantos anos, de 1982 pra cá, 33…

 

P/1 – Tem 34 anos.

 

R – Trinta e quatro anos, é. Trinta e quatro anos de serviço que ela tem.

 

P/1 – E você veio pra essa região aqui que tinha escola mais próxima?

 

R – Foi, mas se bem que é só três quilômetros daqui a Manchão do Meio. Aí, naquele tempo, para vim era de cavalo, não tinha nem carro, não tinha… depois, na época que nós viemos pra cá, não tinha nada. Ou era a pé ou era de cavalo.

 

P/1 – E como foi a mudança para cá? Como é que você se sentiu?

 

R – Pra cá foi boa, já tinha comprado casa aqui, cheguei, só foi entrar para dentro de casa, ficamos indo todo final de semana para lá para roça, eu ia todo dia, os meninos ficavam, nós íamos e assim ficamos até hoje. Nós vedemos a fazenda, estamos sem fazenda, já.

 

P/1 – Venderam?

 

R – Vendemos, não demos mais conta de trabalhar, eu dei AVC, aí fiquei meio paralisada, passei uns tempos ruim, aí ele esmoreceu também, não era muito sadio, aí vendemos e ficamos aqui.

 

P/1 – Os filhos não continuaram com a fazenda? Assim, algum deles trabalhando?

 

R – Não, eles nunca ligaram pra mexer com fazenda. Nenhum dos meus filhos. Um, toda vida mexeu com açougue, quis ser açougueiro, até hoje é. O outro trabalha também há 32 anos na SUCAM, lá, na saúde junto com a outra, não quis outra coisa, não. Até hoje um emprego só.

 

P/1 – E garimpo, depois, quando eles cresceram já não tinha mais?

 

R – Até o Raimundo hoje é incutido com garimpo, mas nunca foram… não são garimpeiros não, não tinha mais, mas até hoje…

 

P/1 – Eles ainda chegaram a mexer com o garimpo?

 

R – Eles não mexeram mais não. Só botam garimpeiros, mas eles mesmos não mexem não. Não tem ideia para mexer. Bota o homem pra trabalhar.

 

P/1 – Mas tem alguma área que tenha ainda garimpo atualmente?

 

R – Ainda tem. De vez em quando aparece um, demora, mas sempre quando estão cavando, acha ainda.

 

P/1 – Sei. Na sua área ainda? Nas duas terras?

 

R – Mais aqui do… como é o nome dali? Xambioá. Sempre tem cristal lá.

 

P/2 – Dona Leoldina, nessa vinda para cá para a cidade, como foi essa participação de vocês na política?

 

R – Na política, nós logo que chegamos aqui, essa infelicidade foi política. Logo, a gente era muito amigo dos políticos, aí nós chegamos, nós viemos pra cá em 1969 de Manchão do Meio pra cá, mudamos pra botarmos meninos pra estudar, aí quando chegamos, quando foi em 1972, ele entrou na política com esse serviço com o finado Pereirão, que é o pai do compadre Hernandes. Aí, nós começamos gastar na política. Quando terminou a política, nós vendemos a fazenda, fazenda melhor que hoje, todo mundo tem pena, compadre Hernandes mesmo é apaixonado quando nós entramos lá, essa fazenda lá, nós entramos quando… nesse tempo, compadre Hernandes tinha 12 gados, ele mesmo conta que tinha 12 gadinhos e nós entramos com 150 vacas, já, entramos pra lá com gado, tudo, tinha comprado um bocado de gado, vaca. Entramos pra lá. Quando terminou a política, ele vendeu a fazenda e não deu para pagar as contas, aí foi até que falamos; “Vamos vender o carro?” “Vamos”, vendemos o carro para pagar o resto das contas. Desse carro, sobrou 15 mil, aí pagamos as contas e ficou, agora não vamos mexer com política, não, em 1988. Ficamos trabalhando normalzinho, ele lá para a fazenda, eu aqui com os meninos, aqui na rua investindo com açougue também, começou a mexer com açougue. Aí, nós… animado aí, ele entrou na politica de novo, botaram ele de candidato a Vereador, foi o mais votado na história de Xambioá, até hoje. O voto dele dava para eleger quatro vereadores.

 

P/2 – A senhora lembra quantos votos foram?

 

R – Foram 607 votos que ele teve. Mas só que naquela época, 150 era eleito, o seu Vito mesmo foi eleito com 150 e era o presidente da Câmara e foi tendo voto vinculado, que voto vinculado, eles cancelavam 50 votos de uma vez dele, porque eles queriam votar nele, mas quem votava no outro partido, não podia. Alguns mais sabidos como Jurandir, outros votaram só no Antenor, colocaram o nome só dele na cédula, mas muitos fazia dó, o tanto de cédula perdida. Ele mesmo, Doutor Ademar mesmo conta que quando fazia… cancelaram 50 votos dele para ver se derrubavam os votos dele e não derrubaram. Aí, mas também dessa vez, foi o mais votado na história de Xambioá, mas também foi o que mais gastou, aí acabou. Ele ia para o mercado, cortando gado lá, quando ele saia, chegava aqui e dizia: “Mas hoje eu dei a carne todinha, o dinheiro que apurei dei todinho”, vinha com as mãos sujas de sangue. Aí, o quê que tinha que fazer? Ia na fazenda pegar outro gado para pagar aquele gado que ele tinha comprado e assim nós entramos na política até o dia em que; só não ficamos de nada… aí, parou, foi seis anos de vereador, que naquela época era seis anos, o Siqueira Campos que foi no governo, foi dois anos, acrescentou o mandado do Everaldo Barros. Aí, quando ele entrou de vice-prefeito. Aí não, minha filha, aí foi que fomos gastar o resto. Foi iludido: “Não, você não vai gastar nada, não vai gastar nada, você vai… nós temos dinheiro para gastar”, os meninos aceitaram, disseram: “Pai, aceite, o senhor não vai gastar”. Mas para politica naquele tempo não tinha nada que dava não…

 

P/1 – No quê que gastava?

 

R – Porque o povo pedia e a gente dava. Eu aqui, eram as panelonas de comida e as vasilhonas de bolo para tomar o café de manhã e Antenor já vinha com leite, e já vinha com o carro cheio, que vinha derrubando gente na estrada, cheio de gente pra comer. O dia todinho. Graças a Deus que tiraram esse negócio de comer, de dar essas coisas, que não pode largar, foi bom demais, porque depois, nós ficamos pobres, não adiantou mais, porque pediam, né?

 

P/2 – O quê que o povo pedia muito, Dona Lealdina, a senhora lembra?

 

R – Eu dava tudo. Minha menina mesmo, um dia eu vi ela, ela desceu o guarda-roupa dela, não deixou nada, só cinco cueiros pro menino dela, tudo dava. Dava tudo que a gente tinha. Naquele tempo, mulher usava anágua e uma mulher veio me pedir uma anágua e eu não tinha para dar, olhei, não tinha nenhuma que preste, desci a que estava no corpo e dei. Dava tudo que tinha, o meu marido dava a carne do açougue todinha e vinha com a mão suja de sangue. Por isso que até hoje, o povo vive assim invocado com nós, porque nós sempre ajudamos muito os políticos, assim, nessa parte, o povo enxerga nós políticos.

 

P/1 – Ainda enxerga vocês políticos. E depois que ganhava a eleição, como era? Depois que virou vereador, como que foi?

 

R – Só para assinar os projetos dele, eles achavam ruim porque ele aprovava, tudo que era em beneficio do povo, ele aprovava, eles não gostavam que ele estava sendo… que naquele tempo, tinha que ser adversário e adversário, não aprovava o que o outro… beneficente do outro não podia aprovar e ele aprovavam todos eles. Aí, ele não gostava muito disso não.

 

P/1 – Quem que não gostava?

 

R – Os outros companheiros. Políticos, que ele fazia muito caridade muito para o povo, essas coisas, não gostavam.

 

P/1 – Ele assinava o que era bom para a cidade?

 

R – Ele assinava o que era bom para a cidade, ele queria fazer. O que não era, ele não assinava. Uma vez até, eu reclamei com ele, que a gente tem hora que a gente sente usura por alguma coisa, né? A matéria é fraca. Chamaram ele e levaram ele daqui lá para o postão, fazer um acordo com ele para ele assinar um negócio lá, pegaram um dinheirão lá no centro da cidade, aí levaram e combinaram com ele para ele escolher o que ele queria. Aí ele disse… nesse tempo, nós já tínhamos vendido um pedacinho da terra lá por uma caminhonete que… foi dessa vez que nós vendemos a caminhonete e compramos outra e isso, já deu um pedacinho da terra lá para ele mesmo que queria fazer um colégio agrícola, o colégio agrícola nem veio pra cá, foi sorteado para Araguatins, aí nesse dia, carregaram ele para ele fazer esse acordo. Aí, exigiram o que é que ele queria para assinar aquele projeto lá, aí ele disse: “Não, não faço isso não, vai dar prejuízo no município, vou pensar, daqui três dias…”, eles viram que ele não assinava, quando ele chegou aqui, eu disse: “Antenor, por que que você não assinou? Eu tinha exigido só a minha terra e a caminhonete de volta” “Não, não tenho coragem de fazer isso, não”, ainda disse isso pra ele, mas ele não aceitou, não. Foi bom não ter aceitado.

 

P/2 – Dona Lealdina, vocês permaneceram na política por muito tempo?

 

R – Uns 49 anos. Foi muitos anos, não, nós começamos em… começar mesmo foi em 1972. E paramos até agora, porque ainda hoje estamos correndo atrás da…(risos)

 

P/1 – Tinha partido nessa politica?

 

R – PMDB. Nós éramos PMDB, até a eleição do Junior que foi que eu aí do PMBD, nós saímos, não, Antenor se afiliou no PFL, naquela época era PFL, e eu não me afiliei a partido nenhum.

 

P/2 – A senhora saberia nos contar alguns detalhes daquela politica de 1996 que teve aquele movimento do quebra-quebra…?

 

R – Foi em 1996? Foi não…

 

P/2 – Foi, exatamente. Ademar e…

 

R – Ademar e Jaime, né?

 

P/2 – Exatamente.

 

R – Aquela política, não sei porquê que teve aquele quebra-quebra, não queria aceitar o Ademar de volta, né, muitos achavam que ele não ganhava e ele ganhou porque o povo queria ele, era o povo… porque todos eles são prefeitos dos pobres, do povo humilde e médico, se fosse só prefeito como médico, quem queria culpar ele, é serio, o povo vinha toda hora, até hoje. Por isso foi que acharam que eles tinham votado… como era? Que tinham botado gente para votar sem ter votado, era uma coisa assim e quebraram as urnas.

 

P/1 – Quem quebrou?

 

R – Foi o povo mesmo, começou… o cabeça da história todinha chama-se nosso amigo Richard, era advogado nessa época, novinho. Foi o cabeça. Eu sei que eles ajuntaram, começaram lá na câmara, a primeira quebra de urna foi lá na câmara, começaram a quebrar, quando eu cheguei lá estavam quebrando e iam pegando as urnas e furando de faca, naquele tempo, aquela cédula preta era muito… ninguém pegava nela, só para votar, era só as cópias que faziam pra gente assinar o… mas aquela de votar ninguém tinha o direito de pegar nela, era… como é que era que a gente dizia? Que era muito melindrosa, assim, era uma coisa que não podia pegar nela e nesse tempo, a gente vê um monte no meio da rua assim, um dia, eu abracei uma tampa de chapa assim, de cédula no meio da rua que eles passaram, já rasgaram as urnas, eu juntei assim, eu vim com elas abraçadas, até pouco tempo, eu tinha elas guardadas. Um genro nosso era candidato a vereador e tava reeleito dessa vez com Ademar e Marcos Aurélio, o Lelo, aí quando foi na segunda, em um mês, Ademar formou outra eleição, aí em um mês teve outra eleição e ali, até a polícia federal veio para guarnecer, para fazer… ficou aí, era um bem bolado, aí botaram um isolamento para ninguém entrar mais, e o Ademar ganhou de novo. Aí, o Lelo não ganhou mais, porque quando… no dia da eleição, ele andava com um adversário dentro do carro criticando, ai: “Nós não vamos mais pedir voto pra você, não”, aí nós elegemos o finado Napoleão, marido da Maria, foi quem ficou no lugar dele na segunda eleição. Na primeira, ele estava eleito que eu tenho prova de ter visto as cédulas tudinho com o nome dele.

 

P/2 – Mas a senhora chegou a ver assim, algum movimento, assim, da violência em si, de alguém brigando?

 

R – Vi, quando derrubaram o padre Hélio, nós estávamos lá, nós saímos daqui, quando nós saímos daqui… quando eu cheguei bem ali, eu escutei os tiros, aí minha menina estava trabalhando aí na Associação, aí na Associação que hoje é o Senai. Aí, eu corri de lá, lembrei, quando eu estava lá na frente da Câmara, lembrei da menina aí dentro, aí quando veio uma turma de gente vindo pra cá, parecia uns porcões do mato, aí quando chegaram aí, eu vim e escutei os tiros, estava bem nessa esquina, escutei os tiros aí pra dentro, aí escutei a quebra de cadeira de pau, quebrando cadeira de pau bem onde ela; os irmãos do prefeito, Jaime, o menino até já… o Tiquinho, o Tiquinho morreu? O irmão do Jaime? Jogando cadeira bem nos pés dela, mas não acertou nenhuma nela, não. Aí, ela correu, saiu, quando chegou aqui: “Vamos lá para a paróquia que os outros estão lá”, cada sessão tinha um filho meu trabalhando. Aí chegamos lá na paróquia, primeiro encontramos ali na ___00:43:31___ naquele tempo que era… aí, encontramos a Leonete: “Aqui não mexeram comigo não”, ficaram dois policiais na porta e não mexeram com ela. Aí, nós corremos logo para o Bonifácio e lá, estava o Genésio, o Genésio estava recuado lá e aí, na outra estava o padre bem na porta do Paulo VI: “Não, aqui ninguém vai mexer comigo” “Padre sai daí, que o povo vem zangado demais, sai dai”,  o padre ficou assim quando eles vieram, ficou até… chegou, subiu no padre, jogou no chão, ficou rolando assim, o padre ficou olhando para a calçada da igreja. Aí foram quebrar o resto das urnas, todas sessões, quebraram todas elas, não ficou nenhuma.

 

P/1 – O quê que eles faziam? Eles entravam e faziam o quê?

 

R – Entravam e avançavam nas urnas e tomava e quebrava, saíam para fora com eles e quebravam, quebrava lá dentro, quebrava fora, não ficou nenhuma, toda sessão, eu não recordo quantas urnas eram.

 

P/1 – Com quê que eles quebravam?

 

R – Porque eles não ganharam…

 

P/1 – Não. Com o quê?

 

R – Com faca, furavam com faca, assim, com pau, qualquer coisa que eles achavam, jogavam no chão assim, arrebentavam todinha, jogavam pra cima, foi uma coisa nunca vista.

 

P/1 – E as cédulas?

 

R – As cédulas ficavam lá largadas no chão, tudinho. Todas, todas, foi tudo queimada, apanhada assim, quem apanhava para ver quem que estava eleito e com um mês, nem foi um mês completo, o Ademar tonou a entrar, mas só que ele não se aprumou mais, porque uma eleição em cima de outra não é fácil, porque naquele tempo, ele gastava demais. A primeira, a gente joga tudo o que tem em cima e a segunda?

 

P/1 – Mas foi eleito de novo?

 

R – Foi eleito novamente.

 

P/1 – Quem era o prefeito?

 

R – Doutor Ademar nessa época, ele foi prefeito aqui três mandatos.

 

P/2 – E o adversário quem era?

 

R – Era o Jaime Modesto. Do Ademar nessa época, era o Jaime Modesto.

 

P/2 – Dona Lealdina, a senhora chegou a saber se alguém foi preso nesse movimento?

 

R – Não, nessa época não foi preso ninguém, o Doutor Ademar mesmo foi se esconder debaixo da cama do padre Hélio. E o Fidelis eu não sei por onde ele saiu, furaram os pneus do carro dele e ele escapou sem pegarem ele.

 

P/1 – E as pessoas que fizeram isso, elas moravam aqui em Xambioá?

 

R – Quem?

 

P/1 – As pessoas que faziam isso com as urnas moravam em Xambioá?

 

R – Uns estudavam em Belém, não moravam aqui, outros moravam em Xambioá. Muito que eu vi furando mesmo foi o Hidelbrando, ele assim jogando para cima, esse eu vi.

 

P/1 – E pra gente deixar registrado porque é parte da história, que partido cada um era?

 

R – Aqui era só o PMDB e o Democrata, era Democrata? Não, era? Que muda de partido.

 

P/1 – Arena?

 

R – Era Arena? Não era Arena mais não, era PFL já.

 

P/2 – Era PFL.

 

R – PFL e PMDB.

 

P/1 – E quem foi eleito?

 

R – Foi o PMDB que foi eleito.

 

P/1 – Do Ademar?

 

R – O Ademar.

 

P/1 – E o adversário?

 

R – Era PFL. Teve a quebra de urna aqui.

 

P/1 – E as pessoas? A população? Como que reagiu a população?

 

R – Minha irmã, ficou todo mundo quieto em casa, os que estavam vendo essa… nós mesmos ficamos quietos aqui dentro de casa, nesse dia mesmo, nós estávamos aqui quando o Gene passou, nosso afilhado, irmão do Richard, passou e o Antenor ficou bem aqui atrás da porta, nesse canto: “Se ele passar aqui, eu corto o pescoço dele”, porque nós não tinha arma nenhuma dentro de casa e eles passaram… a turma passaram bem aqui beirando para quebrar as urnas lá. Disseram que eles iam entrar aqui, mas não é possível que o nosso afilhado entraria na nossa casa, não entrou não, passou bem por fora.

 

P/1 – Mas eles entravam nas casas e faziam o quê?

 

R – Entrava, mas na nossa casa não entrou não.

 

P/1 – Mas entraram em alguma?

 

R – Não, não entraram não. Entraram? Não me lembro mais.

 

Antenor – Iam dizendo que iam entrar…

 

R – Iam falando que iam entrar, bem ai na porta mesmo… com a camisa no ombro, nu da cintura para cima, estava tudo doido, parece que enlouqueceram, parece que entrou assim, foi um inimigo, né? Pareceu coisa do inimigo, o povo fica tudo doido, o menino é até nosso afilhado e graças a Deus não entrou não.

 

P/2 – Dona Lealdina, algumas pessoas contam que eles entravam nas casas exatamente porque eles suspeitavam que alguém tivesse salvo alguma urna e estava com ela escondida.

 

R – Ah, pode ter sido. Eu não sei disso não, eu sei que falaram que iam entrar, por isso que nós ficamos escondidos aqui atrás da porta, com medo de entrarem, porque se entrassem, nós íamos reagir. Mas aqui não entraram, não. Nem quebraram nada também na minha casa.

 

P/2 – Nessa política, seu Antenor ainda fazia parte? Ele era vice do Ademar ou não, já era outro?

 

R – Não, já era Dona Madalena. Antenor tinha deixado, já, ele foi vice no primeiro mandato. Ai, no segundo, já, a quebra de urna foi no segundo mandato dele, que nós elegemos primeiro o Ademar, depois o Justu, ai o Justu acabou o mandato dele, ai o Ademar entrou de novo. E quando Ademar entrou foi que houve essa quebra de urna. Ai ele tornou ir para a reeleição.

 

P/1 – Vocês continuaram participando na campanha?

 

R – Participando todo o tempo e gastando do mesmo jeito. No dia, eu nunca esqueço da ultima eleição, que a primeira quebraram as urnas e a segunda, eu fiquei a noite todinha fazendo café e coisa pro povo tomar café noite todinha ai enquanto eles contavam os votos, que era bem na associação. E vigiando o povo para não invadir mais, mas acho que não invadiu mais não, dispersaram. Arrependidos.

 

P/2 – Dona Lealdina e passada toda essa turbulência da politica, o quê que é mais importante para a senhora hoje?

 

R – Mais importante é ter meus filhos tudo, todo mundo trabalha, todo mundo sadio, meus netos já são médicos, cada um formado numa coisa e nós estamos aqui nós dois contando a história, conversando os dois. Não tem mais nada de… só acho ruim quando adoece um, mas estando sadios e acompanhar um prefeito que sempre a gente gosta, a gente gosta disso, que eles têm aquele carinho por nós. Doutor Ademar mesmo diz assim, outro dia, ele falando que nós somos mestres da política dele, porque ensinamos ele, porque numa hora de uma briga, de uma coisa, nós estamos ali para agasalhar, para… porque político tem que ter… não precisa dessa desunião que tem, uma fofoca, uma coisa… nós leva sempre a paz, agasalhar todo mundo.

 

P/1 – Vocês continuam participando?

 

R – Continuo participando.

 

P/1 – De que jeito que vocês participam?

 

R – Participa só assim como eu digo, chega uma pessoa aqui contando uma historia, levo: “Não é desse jeito que se faz politica”, sempre nós participamos desse jeito, agasalhando o povo, um vereador tem um ciúme do outro que eu nunca vi, ai nós aconselha conforme… até aconselha para não botar cartaz de ninguém de vereador: vote no seu vereador para não servir de ciúme para o outro.

 

P/1 – Como assim? Explica melhor.

 

R – Porque…

 

P/1 – Do cartaz.

 

R – Do cartaz é porque quando um põe cartaz, o outro toma raiva e na hora que vê: “Ele vota em fulano e não em mim”, aquilo ali já começa a inimizade e ele não vendo o cartaz só do prefeito e do vice, ele não vai saber em quem você tá votando, não vai… porque se eu acredito em você é outra coisa, se eu voto em você, confia. Mas o que não confia, na hora que vê um cartaz de outro fica logo com raiva.

 

P/1 – E quando você diz que aconselha os vereadores, os candidatos, além do conselho de não ter briga, tem mais alguma coisa que você fala?

 

R – Não, não tem mais nada que eu fale, não. Só querer saber como é que tá, se o prefeito tá bom, se tá ruim, não quero notícia ruim, não, só quero que traga notícia boa para mim.

 

P/1 – E para a cidade assim, a senhora fala alguma coisa para eles? Aconselha alguma coisa? Para os políticos?

 

R – Eu digo para os políticos… assim, para… não, eu digo para os eleitores.

 

P/1 – Para os eleitores.

 

R – É, porque hoje a cidade… do jeito que nós estamos hoje, a crise que tá pesada, você ter o seu empreguinho, você ter o seu meio de viver, você deixar para aventurar uma coisa que não sabe se é bom ou se é ruim e na hora que entra outro prefeito vai modificar tudo o que aquele outro deixou, nunca faz o que o outro deixou, não dá continuidade. E o que tá, ele dá continuidade no que ele tá fazendo, porque eles tem as verbas, ele tem as emendas que ele pede e só vem no outro ano, então a gente já sabe que o outro vai trabalhar porque ele tem como e o que vai entrar não sabe como que ele vai arrumar aquilo ali, e vai desfazendo o que o outro faz, ninguém faz o que o outro… exemplo do que o Doutor Ademar deixou, fez um poço artesiano no Manchão do Meio, deixou a caixa d’água em cima, já e quando o outro entrou, não quis nem saber mais daquilo ali, passou quatro nos e não fez nada, fez muita coisa, mas outras coisas, mas o que o outro deixou, ele não fez nada. Quando outro entrou que foi fazer outro poço no lugar da água ruim, mas fez diferente porque não… para não fazer o que o outro deixou, isso ai é que atrasa a cidade, essa mudança de prefeito, muda e quando muda sempre dá mais ruim do que o que entrou, principalmente, quem tem o seu emprego, que tem onde trabalhar, o outro engana que você vai ficar no seu emprego, fica nada, você tem muita gente para botar naquele lugar, naquela vaga, você engana para você deixar votar… ser contra o seu… a pessoa que você acompanha para a reeditar na história do outro e sempre se arrepende.

 

P/1 – Mas se um outro prefeito do partido também tá concorrendo, ai cada um tem o seu preferido?

 

R – Cada um tem o seu preferido, é verdade.

 

P/1 – Sempre quer que aquele ganhe?

 

R – Quer que aquele ganhe, cada um quer que aquele ganhe.

 

P/1 – E ai, como faz?

 

R – Aqueles que querem que o seu ganhe, vota nele e você que tá com o seu aqui, você não vai deixar, sempre não deixar ele por o outro para aventurar uma coisa que não tem certeza e aquilo já tá acerto.

 

P/1 – Entendi.

 

P/2 – Então, esse é o conselho que a senhora dá para os eleitores?

 

R – O conselho que eu dou é esse. Para não deixar o que tá certo duvidoso, por uma coisa que não sabe se ele vai lhe deixar no seu emprego. Eu digo… eu tenho o exemplo do Richard, muito amigo da gente, tudo, mas ele tirou 400 e tantos funcionários concursados, não foi? Tirou concursado, que ele é advogado, ele entende de lei, eu sei que ele tirou. Ai, você sabe lá se a pessoa entra e vai fazer isso com você? Tem que primeiro fazer assim, aquele concursado não podia tirar? Jogava lá para… sei que tem uma lei assim de ficar, o concursado tem direito de ficar, aquele tempo que eu sofri muito com a Antoninha, mãe do Ney. Antoninha, Doutor Ademar jogou lá para Manchão do Meio e ela brigava e xingava ele, ele olhava ela, ensinava até uns cânticos para ela cantar e no outro mandato, ela estava junto com ele, e aquilo fazia, Leonete mesmo foi uma que foi ficar no Tobocão, jogaram ela para lá, depois, jogou ela no Riachinho. Quando Ademar ganhou de novo foi que ela veio de volta para cá, para Xambioá.

 

P/2 – Dona Lealdina, hoje assim, a senhora ainda alimenta algum sonho para a sua vida?

 

R – Não minha filha. O sonho e só aquele dia que Deus preparou para mim. A coroa da vida eterna está preparada com fé, acredito verdadeiramente. Não tenho nada mais para pensar. Não vou mentir que quando a gente é nova a gente pensa tanta coisa, quando a gente tá nessa idade, nem medo da morte a gente já não tem mais, a gente fica só se preparando, achando que não tá bem preparada, se preparar mais, medo de errar, medo de fazer uma coisa que não leve a Deus, que não esteja com treta com ele. Só isso aí.

 

P/1 – A senhora participa de alguma igreja?

 

R – Só igreja católica, sou católica apostólica romana. Quando eu morrer, quero ser ungida pelo sacerdote. Esse compromisso que eu tenho.

 

P/1 – Vocês aqui participam da igreja?

 

R – Participamos da igreja católica. No dia de domingo e terça-feira sempre tem… mais domingo, quinta-feira eu vou também, mas o dia especial é domingo e terça.

 

P/1 – E esse amor desde os nove anos de idade?

 

R – Esse amor não vai acabar com a morte. Ele adoeceu, cheguei no Dom Orione, aí o médico não queria deixar eu entrar por causa da idade. Aí, eu digo: “Mas Doutor, quando eu fui casar com ele eu fiz esse compromisso, de só a morte nos separar e por que que eu não posso ficar ao lado dele? Eu quero ficar ao lado dele até o dia que a morte nos separar” “Você não pode entrar só” “Não, fica a menina aqui comigo, me acompanha, eu não vou fazer nadinha, só ficar sentada ao lado dele”.

 

P/1 – Muito bom.

 

R – Que eles não estão deixando mais por causa da idade, meus filhos são meus filhos, mas adoece, eu deixo outro levar… mas esse aí, não separo não e nem ele, quando eu adoeci da vesícula, operei da vesícula, fiquei sete dias no hospital, ele foi sete dias sem sair nem lá fora, as meninas: “Pai”, levavam ele para ver a luz do sol lá fora. Foi ele e o Raimundo, não saia do pé da cama até sete dias. Meus filhos ficaram.

 

P/2 – Dona Lealdina, e aí? O quê que a senhora achou de contar a sua história para nós?

 

R – Minha filha, sem voz… (risos), você é obrigado a contar as histórias.

 

P/2 – Mas a senhora gostou?

 

R – É bom. Não tem nada ruim, não. Não sei se vocês gostaram, mas…

 

P/1 – Nós gostamos, sim.

 

R – Se esqueci de muitas coisas, que a gente esquece mesmo, não tem jeito.

 

P/1 – Mas a senhora contou desde quando era criança até agora.

 

R – É, até agora.

 

P/2 – A memória tá muito boa.

 

P/1 – No começo, a senhora tava preocupada e depois?

 

R – Depois não, normalizei (risos), não tem mais nada.

 

P/1 – Tem mais alguma coisa que você gostaria de deixar aqui registrado?

 

R – Parece que não, não tem nada de mais.

 

P/1 – Alguma coisa que você quer deixar aqui registrado para os seus filhos ou para os seus netos?

 

R – Sempre que eu falo para os meus filhos, que eles não sabem, que nós dois, nós somos assim, tem uma coisa que quando um adoece, o outro adoece. Ontem mesmo eu adoeci, ele estava se queixando de febre no pescoço. Quando adoece, dá uma gripe, o outro dá, sempre nós adoece junto, não tem jeito, tem uma coisa pra adoecer o outro. Aí, fico conformada que parece que nós vamos juntos, mas se não for, eu fico com medo dos meus filhos não fazerem o que ele… porque eu passei tudo que nós tinha para os filhos para não ter briga quando nós morrer, nossos filhos não brigarem, não ter desunião com o outro, registrado no cartório, nós registramos tudo. Mas foi, pagamos muito caro para fazer esse serviço, mas também para quando eles terem direito só com a morte dos dois. Aí, assim que ele assinou, que assinamos, todos foram, ele ficou meio assim triste, eu fiquei pensando, ele tinha essa ideia, tinha medo de dar as coisas pros filhos que tem muito filho que depois que se vê com tudo, não liga para os pais, né? Não, nossos filhos não vão fazer isso conosco não. Aí hoje eu sempre fico pensando, quero dizer para os meus filhos que quando eu morrer, se eu morrer primeiro, não faça nada contra ele assim, para desgostar ele sobre isso, porque eles sabem disso, que não pode mexer, mas às vezes, pensa que ele ficou e nós pode fazer, sabe que ele é calmo, ele aceita tudo. Mas no fundo, ele não aceita, ficou triste quando eu fiz isso com ele. Ele assinou tudo, mas vi que ele não ficou muito satisfeito, não demonstrou nada assim, senti só no semblante dele.

 

P/1 – É, vocês são bem unidos, né? Parabéns. Quantos anos de casados?

 

R – Cinquenta e oito.

 

P/1 – Daqui a pouco, bodas de ouro.

 

R – De ouro? É bodas de diamante.

 

P/1 – Diamante! Olha! Ouro já foi.

 

R – De ouro já se foi.

 

P/1 – Parabéns, viu, Lealdina. Muito obrigada por sua história.

 

 FINAL DA ENTREVISTA

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