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História

O portuguesinho do navio

História de: Cesário dos Santos Rodrigues
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/07/2010

Sinopse

Em sua entrevista, Cesário nos conta a respeito de sua vasta família portuguesa, a sua infância em Sendim e sobre a figura de seu pai. A seguir, ouvimos a história de sua imigração para São Paulo, numa viagem inesquecível que durou 10 dias; chegando na capital paulistana Cesário se acomoda no Cambuci e começa a trabalhar em vendas numa loja de departamento no centro de São Paulo. É o início de uma série de descobertas e prazeres da vida de Cesário: os gibis, os desenhos, o trabalho. A partir daqui, narra sua vasta carreira no ramo de vendas, passando a gerenciar a área dentro de empresas como a Stock, Sigram, Campari, entre outras. Depois, Cesário fala sobre sua aposentadoria e o desafio representado na abertura do Magic Chicken – sua rede de restaurantes. Chegando ao final, sabemos um pouco sobre seus dois casamentos e o acidente mortal de seu filho – a maior tristeza de sua vida. Cesário também nos fala sobre seus sonhos e perspectivas de vida para o futuro.

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História completa

Aos sete anos o meu pai veio para o Brasil, eu entrei na escola, fiz lá todo o primário, saía da escola e tinha que ir pra terra, pra ajudar os mais velhos. E isso foi acontecendo até os dez anos, quando o meu irmão mais velho mais próximo a mim, o Antonio, veio para o Brasil, ele tinha 16 e eu tinha dez, e aí, com dez anos eu me senti o homem da casa. E eu tinha que fazer serviço pesado, não é como hoje que se fala aqui de trabalho escravo. Não, fazia aquilo porque eu queria fazer, tinha vontade de fazer, queria ser o homem da casa. Era uma coisa minha, uma inspiração natural, eu sentia que tinha que ajudar a minha família. E a gente fez isso durante dois anos, trabalhando muito duro, muito difícil, carregando pinheiro no ombro pra cortar lenha, aquela coisa toda, até que com 12 anos o meu pai finalmente, já com ajuda dos irmãos, mandaram passagem pra que todos nós pudéssemos estar juntos novamente. E aí, foi aquela passagem no navio, dez dias, saímos de Lisboa, passando por Ilha de Madeira, chegando em Salvador, passando pelo Rio, depois vindo até chegar em Santos. Foram dez dias muito interessantes, eu tocava gaita no navio porque desde pequenininho, o único brinquedo que eu ganhei foi uma gaita de boca, lá chama-se realejo. E os adultos lá, às vezes, me pegavam, me sentavam em um lugar alto e eu ficava lá tocando, como diz em Portugal, o fado, e eles dançando. Chegava a machucar o lábio de tanto tocar. Foi muito interessante, pela primeira vez conheci italianos falando uma língua diferente. Tinha um garoto italiano no navio, nós fomos jogar pebolim, eu nunca tinha visto uma mesa de pebolim na minha frente, o único brinquedo que eu ganhei foi um apito e essa gaitinha que eu ganhei depois. Não tinha brinquedo, tinha que fazer meus próprios brinquedos, pegava casca de melancia, cortava com canivete, fazia um carrinho. Porque não tinha, lá a vida era diferente. Imagina uma mesa de pebolim, né? E eu e o italianinho fomos jogar, eu não entendia italiano e ele não entendia português, imagina a situação. Conclusão, começamos a brigar, brigar mesmo Ele começava a me xingar, eu xingava ele e partimos pra briga. E isso causou uma coisa fantástica no navio: os adultos começaram a divertir-se com a nossa situação, então, eles já se preparavam para o encontro do portuguesinho com o italianinho, toda vez que os dois se encontravam era guerra (risos). E eles fizeram uma vez uma brincadeira que amarravam as mãos das pessoas e você tinha que comer macarrão como se fosse um cachorro, comendo macarrão em um recipiente com as mãos amarradas, que ganhava o prêmio. E quem eles colocavam perto um do outro? Italianinho e portuguesinho (risos), ambos da mesma idade. E eu me lembro até hoje que nós estávamos lá disputando quem comia mais macarrão, um olhava pro outro, eu lembro bem daquela situação do animal, do cachorro como eles ficam (risos). E nós acabamos deixando o macarrão de lado e a briga começou na base da cabeça porque as mãos estavam amarradas, era uma coisa incrível. Em determinado ponto da viagem tinha um cardume, aquilo não era mais cardume, era uma nuvem sob o mar, era uma quantidade de atum tão grande, mas tão grande, que parecia uma coisa assim, que você via mais atum do que água, de um dos lados do navio, uma coisa fantástica. Subiam e desciam, era uma coisa. Todo o navio... Eu falei, “poxa, se não fosse um navio grande virava, né?E chegando em São Paulo, a visão dessa cidade imensa, essa cidade tão grande, tão maravilhosa, apesar de ter tantos problemas. Pra mim é tudo uma novidade, imagina um mês e meio após chegar ir trabalhar no centro da cidade com aqueles prédios imensos, que eu nunca tinha visto, aquela floresta de prédios, aquela coisa realmente tudo novidade pra mim, tudo, tudo, fantástico. É uma coisa indescritível, uma coisa difícil de você falar a emoção que você sente, é muito emocionante. A separação da família, o novo, tudo essa novidade, toda essa coisa imensa. Eu realmente acredito que deva ser mais ou menos como a situação de hoje, de um de nós, que nunca viu o outro lado, ser jogado dentro do Amazonas e ele lá vai ficar assustado, talvez, com tudo aquilo que vai ver. Deve ser mais ou menos essa sensação, pra você ter mais ou menos a noção do que deve ter sido na época pra mim. Eu digo que deve ter sido porque eu não vou conseguir exatamente definir com exatidão aquilo que aconteceu na época, mas sei que foi muito grande essa emoção. Foi muito grande, foi muito interessante conhecer minha nova casinha, diferente de lá, porque lá era uma casa de pedra, bem antiga, totalmente diferente. E aqui, a casa de tijolo, você não via o tijolo, pelo menos na minha eu não via. É um outro formato, tudo é diferente, tudo é diferente. Lógico, que se eu tivesse vindo da capital de Portugal não seria tão diferente, mas eu vim do que chamamos lá de aldeia, né? Pra mim era realmente tudo muito diferente, pra mim, para os meus irmãos e pra todos.

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