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História

"O porto é para todos e as mulheres tem potencial"

História de: Cintia Ariadne Alexandrino Costa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/09/2021

Sinopse

Infância e a grande relação de amor com a família. Período na escola e o curso técnico. A faculdade de Logística e o início de sua trajetória no Porto de Santos. As oportunidades de crescimento profissional e as promoções. Dificuldades, desafios e histórias marcantes sobre o trabalho no porto. Trabalho como Coordenadora Operacional do Depot. Reflexões sobre a importância do porto e seus sonhos para o futuro.

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História completa

P/1 – Vamos lá! Cintia, para começar, eu gostaria que você se apresentasse, dizendo o seu nome completo, data e local de nascimento.

 

R – Meu nome é Cintia Ariadne Alexandrino Costa. Eu sou nascida em Santos, São Paulo, nasci em Santos, no dia 17 de fevereiro de 1981.

 

P/1 – E quais os nomes dos teus pais?

 

R – Meus pais se chamam Luíza Maria Alexandrino Costa e Antônio Joaquim Gonçalves Costa.

 

P/1 – E o que eles fazem, com que eles trabalhavam?

 

R – Então, meus pais são nascidos no Ceará, né, no estado do Ceará. Meu pai não é vivo mais, infelizmente ele faleceu de AVC agora, dia primeiro de abril deste ano. Meu pai era estivador e foi daí que veio, que nasceu em mim essa vontade de trabalhar no porto. Veio dele, né? A minha mãe é do lar, ela sempre ficou em casa e trabalhou... cuidou da gente. Um trabalho, um dos trabalhos mais difíceis que tem, esse, de criar os filhos e criar bem, com educação e ensinando as regras que tem que ser. 

 

P/1 – E eles, os dois eram do Ceará e você sabe como eles vieram para São Paulo, para Santos e como eles se conheceram?

 

R – Sim, eles se conheceram lá mesmo, porque as famílias eram próximas. Lá naquela época eles tinham muito esse costume, de uma família apresentar para outra, enfim, eles se conheceram lá. Primeiro veio meu tio, morar na casa de uma tia dele, aqui em Vicente de Carvalho, que é uma cidade do lado, que faz parte da baixada santista, pertence ao Guarujá. Então, primeiro veio a tia deles e se estabeleceu aqui. Não me recordo com o que ela trabalhava, ou o esposo, não recordo. Mas primeiro veio ela, depois trouxe o meu tio. Meu tio entrou na estiva e também entrou na polícia militar. Então, ele trabalhava nos dois, meu tio. E aí, por influência do meu tio, como lá era muito ruim de emprego, era mais trabalhar na roça, lá no Ceará, meu tio convidou meu pai para que viesse, já que ele estava se casando, né e queria ter uma vida, construir uma vida com a minha mãe. Então, ele trouxe o meu pai. Então, eles casaram lá, mas primeiro meu pai veio e aí conseguiu um emprego também na estiva, nos portuários de Santos, trabalho na estiva. E não sei se vocês conhecem os estivadores, grande força trabalhadora aí do porto. Então, meu tio trouxe o meu pai e ele conseguiu trabalhar na estiva. E, ao mesmo tempo, também conseguiu um emprego numa agência de transporte, como cobrador de ônibus. Então, meu pai, quando conseguia trabalhar na estiva, que era eventual, você não tinha um trabalho fixo, então, quando ele não estava na estiva, ele estava na empresa de ônibus, que chamava-se STC, na época. Já nem tem mais essa empresa. Já é outro nome. E aí meu pai veio, trouxe minha mãe, depois de conseguir um emprego. E eles moraram na casa dessa tia deles. Moraram um tempo lá, até ele conseguir uma casa, construir uma casa, onde depois ele foi morar com a minha mãe, lá em Vicente de Carvalho mesmo.

 

P/1 – Como você descreveria seus pais?

 

R - Ai, meus pais são minha fortaleza, né? Minha base. Minha mãe, meu pai são... minha família é tudo para mim. Eu sou de uma família bem grande, somos nove, eles tiveram nove filhos, contando comigo, eu sou das mais novas. Então, foi uma família criada, assim, com muito... a cada dois anos eu tinha... minha mãe tinha um filho. Então, foi uma família bem numerosa, uma família bem numerosa. Infelizmente, o meu irmão mais novo faleceu há cinco anos. Foi uma grande perda para nós. E da mesma doença que acometeu o meu pai, que foi um AVC (Acidente Vascular Cerebral). Então, cinco anos atrás meu irmão faleceu e nesse ano meu pai faleceu, ambos de AVC. A minha irmã mais velha teria idade para ser minha mãe, vamos dizer assim. Eu tenho quarenta, ela é de 1964, ela tem 57 anos, minha irmã mais velha e ela é advogada. Vou falar um pouquinho dos meus irmãos, tá? Minha irmã mais velha chama Luiza, o mesmo nome da minha mãe, tem 57 anos e é advogada. Já há mais de trinta anos ela é advogada no Guarujá, uma das advogadas mais conhecidas aqui no Guarujá, tem 57 anos. Aí, depois dela, meu irmão Clécio, que tem 55 anos, que ele também teve a mesma profissão do meu pai, ele foi estivador e aposentou também. Então, o Clécio com 55 anos. Depois vem o Ronaldo, com 53 anos, que aposentou deve ter uns três anos da Polícia Militar, aposentou como tenente da Polícia Militar de São Paulo. 51 anos tem a minha irmã Sandra, que é professora no município, ela leciona para crianças especiais e  infantil, né? É escola do município, ela é professora do município, para os pequenos e para crianças com necessidades especiais. 51 anos, hãnnn, tem que fazer as contas. (risos) Aí tem uma de 47 anos, deu um espacinho mais entre eles, que é a Geni. Geni Mercês, que é o nome das minhas duas avós, materna e paterna, meu pai juntou tudo e fez um nome só, Geni Mercês. E ela é do lar, é do lar e tem dois filhos. Falei da Geni, aí vem a Ionara, que também é advogada e também leciona, só que ela já leciona para Filosofia, para o ensino médio. Depois da Ionara, com 45 anos, vem eu com quarenta anos, que sou Coordenadora Operacional, trabalho no Porto em torno de quinze, dezesseis anos já que estou na área portuária. Depois de mim, vem a minha irmã Eva, que também é professora, também é formada em Direito, porém ela não atua ainda, ela desistiu do Direito e preferiu, optou em lecionar. E depois da Eva viria o meu irmão que ontem, anteontem, dia 23, ele faria 26 anos. Que é o Diego, era o mais novo e ele ainda estava, quando faleceu, terminando os estudos e tal. E você quer fazer alguma pergunta, ou eu posso continuar?

 

P/1 – Eu só queria saber como era sua relação, como é e como era a sua relação com eles, pequenininha?

 

R –  Ah, pequenininha. Pelo que minha mãe me contou, eu sempre fui muito, muito arteira, muito, assim, agitada, queria fazer várias coisas ao mesmo tempo. Então, ela me conta que eu me saía fácil das situações, qualquer situação que eu estava, assim, subindo uma árvore, eu dava um jeito de sair dali. Eu tinha bastante independência, né, que ela fala. Minha relação com meus pais sempre foi boa, sempre, principalmente com a minha mãe, eu sempre tive uma relação, assim, de muita troca. Meu pai, como eles eram, assim, tem uma idade bastante longe da minha, meu pai era para ter 82 anos, eu quarenta, então metade da idade, então, é uma geração diferente. Eles não têm muito aquele negócio de ficar abraçando e beijando, é um outro tipo de criação, mas a gente sempre teve bastante proximidade, sim, bastante abertura. Talvez não tanto como os pais têm hoje, né, de falar sobre tudo, mas a gente tinha uma boa relação, sim. Sinto muita falta do meu pai.

 

P/1 – E, Cíntia, você sabe, conhece um pouquinho da história dos seus avós? Você chegou a conhecê-los?

 

R – Eu conheci minha avó bastante, sinto muita falta dela, minha avó materna, eu tive muito contato, foi, dos meus avós, quem mais tive contato, foi com a minha avó materna, a Geni. Eu sempre ia na casa dela nas férias. Ela era do Ceará também, né? Os quatro, meus quatro avós eram cearenses também. E o pai do meu pai eu não conheci, porque ele chegou a ir na minha casa, mas eu não o conheci na minha época, minhas irmãs mais velhas tiveram oportunidade, mas eu não o alcancei ainda vivo. A minha avó paterna faleceu, meu pai tinha quinze anos. Então, a irmã mais velha dele que criou, junto com meu avô, os outros irmãos, uma escadinha também, ela teve infarto e faleceu, ele devia ter quinze anos. Então, eram todos adolescentes para menos e a irmã mais velha dele que ajudou a criá-los. Da parte da minha mãe, o meu avô eu lembro, assim, lembro perfeitamente do rosto dele, mas não tive, assim, tanto contato porque, como eles moravam no Ceará, eles vinham pouco para cá. Minha avó, depois que o meu vô morreu, ficou mais com a gente aqui, porque ela veio morar em Minas e passava as férias, às vezes, inteiras, com a minha mãe, ou eu ia nas minhas férias escolares para lá. Então, com a minha avó eu tive bastante contato. O meu avô, poucas vezes, quando ele veio de lá, eu tive oportunidade. Eu lembro perfeitamente dele, mas não tive muito convívio. Lembro da memória dele, mas não lembro, assim, muita interação. Somente com a minha avó e a minha avó, infelizmente, também eu não a tenho mais. Então, hoje eu não tenho mais meus avós, né? Infelizmente. 

 

P/1 – Cíntia, você sabe a história do seu nascimento, como seus pais escolheram seu nome?

 

R – Sim, é uma história bem engraçada. Meu pai tinha vontade de que eu me chamasse de Juscelina, porque todos os nomes, geralmente, na família dele, era com ‘J’. Então, o dele é Joaquim, né? Antônio Joaquim. Aí, tem um irmão dele que é José Gonçalves; o outro é Joelino; a outra, Joselina e, por causa do presidente Juscelino Kubitschek, ele queria colocar Juscelina no meu nome. Só que, nessa época, minha irmã mais velha, que eu falei, que é a Luiza Olga, foi até o cartório atrás dele, pegou a moto, foi até o cartório atrás dele, falou: “Pai, não põe esse nome, não. Quando ela estiver na escola, vai ser motivo de chacota, né, que eles chamam, de graça, perante os outros alunos”. Então, ela conseguiu convencê-lo de mudar meu nome e, na época, ela estava estudando mitologia grega. Então, o meu nome é nome duplo, Cíntia Ariadne. Ariadne vem da origem grega, era a rainha Ariadne, não sei se era rainha, mas é a Ariadne que colocou os fios, os novelos de lã dentro do… como é que se chama, quando você entra num lugar cheio de... labirinto! No labirinto, para salvar Teseu, que era o grande amor da vida dela, enfim. Então, ela teve essa astúcia, ela é conhecida pela astúcia, né? Ela veio dentro do labirinto, colocando um fio de lã dentro dele, de forma que ele conseguisse vir ali, seguindo, para não se perder, para matar Minotauro. Então, só um pouquinho da história, mas ela conseguiu ir até lá e falou: “Não, coloca Cíntia Ariadne”. Cintia eu não sei por que, mas o Ariadne ela fez essa combinação e eu gostei, eu gosto muito do meu nome. É diferente, você não vê por aí, né? Então, esse é um pouquinho da minha história, do meu nome.

 

P/1 – E, Cintia, é uma família grande, imagino que a infância deve ter sido cheia de brincadeiras, mas vocês tinham uns principais costumes, assim, da família? Pode ser comida ou algum cheiro ou, enfim, vocês tinham alguma coisa do Ceará? Tinha algum costume?

 

R – Então, eu lembro bastante na minha infância que sempre a casa está cheia, cheia de primos, porque meus tios também são numerosos, né? Da parte da minha mãe eu tenho onze tios... dez tios, perdão, que uma é adotada, mas foi criada do mesmo jeito, não tem diferença nenhuma para nós. Então, são dez tios do lado da minha mãe e nove tios do lado do meu pai. Porém, o da minha mãe eu tive bastante mais contato, porque eles vieram, a maioria dos irmãos vieram para Minas e outros vieram para São Paulo, então, vinham com maior frequência. Já os meus tios por parte do meu pai vinham uma vez por ano, então eu tinha mais contato com eles em si, mas com os primos nem tanto, da parte do meu pai. Eu tinha uma ligação muito forte com meu tio, esse que trouxe o meu pai para Santos, né, porque ele fez muito, foi uma presença muito marcante na minha vida, na vida dos meus irmãos, porque ele funcionava como um segundo pai nosso, tanto para a parte de dar conselho, de orientar, de falar sobre concurso, de incentivar a gente a fazer faculdade, enfim. Todos esses conselhos do bem ele sempre, também, atuou com a gente. E voltando, só para não se perder no tema da parte de lembranças, então, lembro na casa da mesa muito farta, com bastante comida de lá. Eles, quando vinham, traziam queijo, rapadura, aquela manteiga da terra. Minha mãe também, a culinária da minha mãe, a comida da minha mãe é bem típica de lá, até hoje. Então, cuscuz, galinhada, o cheiro da comida da minha mãe é uma coisa muito marcante. Do meu pai, que eu lembro muito, usava muito aquele sabonete Phebo. Aquela colônia, Leite de Rosas. Então, eu sinto o cheiro, já na hora lembro do meu pai, não tem como. Entre outras coisas, né, que a gente vai guardando na memória. Essas lembranças boas de ir na praia com meus tios e a carroceria cheia de crianças atrás, de fazer churrasco na praia, essas farofas que a gente fazia na praia. Então, assim, bem legal.

 

P/1 – E como era sua casa, você se lembra?

 

R – Lembro, sim. A minha casa era uma casa muito pequenininha, era uma casa de madeira, como se fosse um chalé. Muito pequena, muito pequena mesmo. Um irmão meu mais velho dormia na rede, na cozinha, uma rede na cozinha e eram dois quartos. Dos meus pais, né, era colocada uma bacia, na época meu pai não tinha condição de comprar um berço pro meu irmão mais novo, então, minha mãe conseguiu colocar - aquelas bacias de lavar roupa, aquelas bacias de alumínio, grandona, assim - ali um cobertor e ajeitar de um de uma forma que funcionava como um berço ali, para pôr meu irmão mais novo. Era bem... a gente não passou fome, nós nunca passamos fome, mas, assim, a gente não tinha o que comer todos os dias, nunca faltou, nunca faltou o que comer, mas era uma vida bem restrita, assim, sabe? Não tinha essa coisa que hoje tem os jovens de hoje, que tem: “Ai, eu quero um computador”. Você ganha. “Ah, um celular”. Você ganha. Era um tênis do mais velho, ia passando para o outro, até chegar no mais novo e até enquanto durasse o tênis, ele estava na família. A blusa da mais velha, ia usando para mais nova e assim ia. Então, uma vez por ano acho que comprava roupa para o Natal só. Hoje a gente tem a facilidade de ir na loja comprar a roupa que a gente quer, né? Antigamente, não. Quando meu pai recebia o 13º, ele ia lá e comprava roupa para todo mundo, mas era uma vez no ano e aquela roupa perdurava ali, como eu disse. Ou a minha prima, como meu tio, esse que eu falei, que veio antes, teve duas filhas só, então, acabava que ele tinha uma condição melhor, porque eram menos filhos, então, todas as roupas que elas perdiam, ele trazia, aí a gente usava. Então, foi um ciclo bem assim, mas fome, a gente nunca passou, graças a Deus. Era uma casa muito pequenininha, um quarto era do meu pai e da minha mãe, como eu disse, que tinha essa bacia, que ficava o meu irmão mais novo e no outro era um quarto que cabia duas bicamas, dois beliches, um ao lado do outro, que mal dava para passar entre eles, assim, tinha que passar de lado, assim, muito apertado. E aí dormia um em cima, um embaixo de um lado e outro em cima e outro embaixo, do outro lado. Aí, um outro dormia no sofá e assim ia, a gente ia se virando. Eu lembro que em 1985, meu pai comprou a primeira televisão em cores. Estava passando ainda aquela novela A Gata Comeu. Nossa, a gente achou fantástico assistir! O pessoal da vizinhança também ia assistir TV lá com a gente, porque não era todo mundo que tinha TV em cores né? E aquela TV de tubo, grandona, de madeira, a caixa dela era de madeira. Não tinha telefone em casa porque, na época, só quem tinha telefone em casa era quem tinha uma condição um pouco melhor. E era assim, tinha os costumes, meu pai era muito bravo, muito rígido, era muito estressado, porque tinha dois empregos e toda essa responsabilidade. Então, meu pai veio a ficar mais tranquilo depois que ele se aposentou, no ano 2000, mas anterior a isso, quando ele trabalhava, ele era muito, assim, rígido. E também eu entendo que ele tinha que ser, porque tinha muitos filhos, né? Se você não tiver a rédea um pouco mais firme, você acaba perdendo na educação. Então, ele tinha uma série de exigências. Se ele chegasse em casa, tinha que estar a casa arrumada e nós todos tínhamos que estar com o chinelo no pé, tínhamos que estar de banho tomado, as meninas tinham que estar com cabelo preso. Então, era como se fosse um regime militar, que ele aplicava. Mas dava certo, cada um tinha suas obrigações: um tinha que varrer o quintal, outro tinha a casa limpa, outro enchia as garrafas de água para pôr na geladeira. E a gente ia se ajudando, ajudava, tinha um revezamento e dava certo.

 

P/1 – E, Cintia, nessa época, assim, você pensava no que você queria ser, quando crescesse, com o que você queria trabalhar, ou isso não passava na cabeça?

 

R – Passava, passava muita coisa. Eu pensei durante muito tempo em ser pediatra. Durante muito tempo eu tinha isso na minha cabeça, eu queria estudar para ser médica e tinha que ser pediatria. Não sei por quê. Mas aí, com o tempo, isso foi se perdendo. Depois eu fiz segundo grau técnico, de automação, voltado mais à parte de TI (Tecnologia da Informação). Só que aí, no meio do caminho, eu descobri que eu queria, eu gostava de TI, mas mais para ser usuária, não para trabalhar com isso, viver disso. Então, eu acabei... aí eu comecei a enxergar o que tinha de opção, na região, aí eu pensei, veio também da influência do meu pai, muito e eu pensei: “Poxa, se eu vivo aqui e onde tem mais campo de emprego, é maior no porto, eu preciso voltar a minha formação para o porto”. Só que eu fui diferente de todas as minhas irmãs, né? Ninguém veio para o porto, só eu que vim para esse lado do porto, todas elas migraram ou para a parte de ensino, né, pra lecionar, ou para a parte de Direito, assim, de um modo geral, né? Então, assim, só o meu irmão, que foi estivador e eu, que viemos para esse lado do porto. E foi aí que eu enxerguei, eu via também meu pai quando era… quando ele estava para ir trabalhar, sempre eu ouvia os assuntos dele com meu irmão e eu ouvia também o assunto dele com meu tio e a gente via as notícias do porto, que está crescendo, sempre notícias desse tipo: que o porto bateu recorde, que está crescendo e essas notícias ele ouvia no rádio também, no rádio AM, os trabalhos que ia ter naquele dia. Como se fosse uma… a escala de navios que ia ter, onde ia ter trabalho, então, era divulgado. Tinha uma rádio AM, não lembro agora a frequência. Mas era na Guarujá AM e passava todo o dia o que ia ter de escala: “Ó, tem trabalho no ponto tal, vai ter tantos, vai precisar de tantos trabalhadores”. Enfim, tinha essa programação e eu sempre ficava... ele estava ouvindo ali, mas eu estava no canto escutando. Então, isso aguçou um pouco o meu interesse, para ir pra essa área do porto.

 

P/1 – E qual é sua primeira lembrança da escola?

 

R – Da escola, a escola era bem pertinho da minha casa. Geralmente a gente... todos nós estudamos naquela escola, que era muito próxima. Lembro da gente acordando cedo, minha mãe acordando para fazer nosso café. Lembro de eu indo buscar o pão e leite, cada dia ia um, a gente revezava. De ligar o radinho de manhã, enquanto estava tomando banho, pra ouvir sertanejo, enquanto a gente se trocava. Tenho boas lembranças da escola, gostava de ir pra escola, eu tirava boas notas. Não era nota dez, mas eu ficava ali: oito e meio, nove e meio, às vezes dez. Eu estava ali, na briga, eu e mais uma amiga, para quem tirava nota mais alta. Mas eu gostei, sempre gostei de estudar, gosto. Sempre gostei de escola.

 

P/1 – Então, Cíntia, me conta uma coisa: teve algum professor ou professora marcante, na época da escola?

 

R – Sim, teve sim. A professora Nanci, foi minha professora da primeira série, me alfabetizou. Talvez por isso, né? Pelo fato dela ter me alfabetizado, tenha marcado tanto. E pelo jeito doce como ela conduzia as aulas, a paciência que ela tinha. E depois ela veio a ser minha professora novamente, na quinta série, só que aí lecionando língua inglesa. 

 

P/1 – E na sua rotina de ainda criança, entre escola e alguns afazeres, ajudando em casa, você tinha tempo para brincar? Como era isso? Vocês tinham tempo, que brincadeiras vocês gostavam?

 

R – Sim. Como éramos muitos irmãos e a idade muito próxima, então, eu, uma depois de mim e o Diego, que era antes, os 4 últimos, assim, próximos da minha geração, que tinha dois anos de idade, mais ou menos, de diferença, a gente brincou muito, muito, de andar de bicicleta. Eu gostava muito de bicicleta, de ficar andando de bicicleta ao redor, ali, da rua. E brincava também de ‘mana mula’ que a gente chama, né? Brincava de queimada, amarelinha, subir em árvore muito, muito, muito, subir em árvore, aprontar. Jogo de taco, todos esses jogos antigos a gente brincava, aquela mola mania, aquele vai e vem, tudo que era essas brincadeiras antigas a gente brincava muito, porque não tinha celular, né? Na época não tinha esse hábito. Eu brinquei muito, muito, muito. Eu conciliava, assim, eu ia para escola, fazia a lição de casa e depois podia brincar, mas era bem regrado, assim, as coisas, os horários, não era assim na hora que eu queria, eu ia lá saía e brincava, mas eu brincava bastante, geralmente à noite, final de tarde para a noite, aí tinha aquele tempo para brincar.

 

P/1 – E você ficou nessa escola até que idade?

 

R – Eu, nessa escola, fiquei o primário e fiquei no ensino médio, até o primeiro ano do ensino médio, porque aí, depois, eu prestei o vestibulinho para a escola em Cubatão, que era uma escola muito boa, técnica, escola técnica federal. Fica lá em Cubatão, ela ainda existe nessa escola e, pra você entrar nela tem um vestibulinho, que chama, não é só ir lá e se matricular, você tem que passar no teste, sai edital, é bem concorrido. E uma das minhas primeiras grandes vitórias que eu lembro foi ter passado nesse vestibulinho, assim, que me trouxe bastante satisfação. Porque é legal, né, quando você concorre e você consegue, é legal ver o meu nome lá no jornal. Foram quatro anos de duração, eu tive que pegar um ônibus e ficar cinquenta minutos nele todo dia, de segunda-feira a sábado, porque na semana era à noite, mas no sábado tinha que ir de manhã. Então, era bem puxada a escola, mas foi muito legal, porque abriu legal o meu raciocínio, assim, ampliou minha visão, porque era muito cálculo, era informática industrial, era uma mistura de eletrônica com automação, sabe? Então, era voltado pra essa parte da eletrônica, para robótica, como se fosse robótica. Então, foi bem puxado e daí, como eu comentei, que eu estava voltando minha carreira para TI, né, para essa parte. Aí, depois, quando eu terminei, eu descobri que não era bem o que eu queria como profissão para o resto da vida, pra eu ganhar dinheiro com isso, vamos dizer assim, vai.

 

P/1 – E como foi essa descoberta de que não era isso, como foi esse momento?

 

R – Então, foi um pouco, foi bem puxado, foi difícil entrar e eu fiquei quatro anos... e como não era pago, eu acho que se fosse pago eu teria ficado, talvez eu teria continuado. Porque eu não ia querer, assim, dar essa despesa para os meus pais. Talvez,  de repente. Como foi algo público e que eu passei com meus méritos, então, eu tive essa liberdade e também minha mãe e meu pai nunca decidiram nada por mim. Eles sempre me deixaram bem à vontade, para escolher o que eu me sentisse bem e eu também era muito jovem ainda, então, eu consegui dar essa virada a tempo, graças a Deus e consegui… quando eu saí do ensino médio, né, que eu concluí, que eu entrei na faculdade, em 2005, de Logística, aí eu percebi que era aquilo mesmo que eu queria, era o porto. Então, quando eu saí de um e entrei na faculdade, que aí acendeu mesmo. E aí, na sequência, eu arrumei um emprego já na área, num terminal de contêiner vazio e aí deu tudo certo, sabe? Engrenou e aí eu comecei a ver o que eu estudava na faculdade, na prática. Então, aí as coisas se encaixaram e deu aquele start: “É isso que eu quero”. Quando eu comecei nesta empresa, eu comecei como telefonista. A empresa era do ramo de conteiner, container vazio, porém, eu não entrei... porque quando você começa na sua vida profissional, você tem que ir galgando. Então, eu não tinha experiência e aí me apareceu como telefonista. Eu lembro que eu ganhava quinhentos reais na época e dava para pagar minha faculdade. Então, para mim estava ótimo e eu ia aprender, ia ter oportunidade de entrar no mercado. E foi o que eu fiz, eu peguei essa oportunidade. E a sala que eu trabalhava, a recepção, era do lado do controle, que é onde tudo acontece: onde liberam os contêineres, onde recebem os contêineres, faz todo o controle, fala com os armadores, enfim. Então, todo o trabalho que as meninas… um pouco mais chato, que as meninas não gostavam de fazer, elas me passavam para eu ajudar: “Cíntia, faz isso para mim?” “Faço” Aí eu ia trabalhando isso, organizando as coisas e tal. Com isso eu fui aprendendo a rotina, né, do trabalho delas, então, aconteceu de surgir uma oportunidade, uma vaga, lá. E o gerente, sabendo que eu já estava por dentro do trabalho, me fez um convite se eu queria ir para lá. Eu, lógico, ia dobrar o salário e ainda ter a oportunidade de começar realmente na minha área. Eu aceitei e daí foi. Na minha vida, graças a Deus, sempre tive pessoas assim, que reconheceram o meu trabalho e eu fui agarrando as oportunidades e vencendo as barreiras, buscando novos desafios e fui galgando aos pouquinhos, estou aí há dezesseis anos já nessa área e amando essa área. É o que eu gosto de fazer, o que eu nasci para fazer. E sou muito assim, feliz do que eu escolhi, não me arrependo em nada. É muito bom isso, nem todo mundo tem essa sorte que eu tive, assim, eu tenho essa plena convicção, sabe, de que nem todo mundo... Às vezes, a pessoa trabalha uma vida inteira e é infeliz com aquilo, mas não pode mudar e, graças a Deus, eu trabalho no que eu gosto.

 

P/1 – E na época ainda da faculdade, como você se divertia? Assim, você tinha tempo para diversão e você saía com amigos, como que era?

 

R – Tinha, faculdade a gente faz bastante amigo. E aí coincidiu de eu também estar trabalhando e também fazer amizade lá. Eu saía muito, eu saía de quinta-feira a domingo. Muito barzinho, balada, mas dava para conciliar, sim. Eu sempre consegui conciliar, trabalhar e chegar no horário, mas eu fui bastante baladeira, eu saía bastante. Gosto muito de cantar, gosto muito de videokê. Amo música, amo tudo que é ligado a música. Hoje eu não tenho saído tanto, assim, eu faço minhas coisas mais em casa, saio vez ou outra. Você se casa e você acaba mudando sua rotina. Mas eu, em casa mesmo, eu ligo o videokê e canto, junto... quando dava, juntava mais pessoas, né? Agora minha mãe, às vezes, um irmão que vai lá me visitar, a gente consegue ligar o som lá e soltar a voz.

 

P/1 – E você lembra do primeiro dia? Assim, qual foi a sua sensação de entrar no porto, não sei se foi já no trabalho, ou anteriormente, mas você lembra da sensação, da sua primeira experiência?

 

R – Então, quando eu comecei, eu comecei na recepção, então, tudo para mim era novo, mas, assim, eu gostava, na hora do meu almoço, eu ia dar uma volta no pátio. Então, geralmente, na hora do almoço eu me juntava com as meninas, umas duas meninas assim e a gente ia dar uma volta no pátio, ia ver o que o pessoal estava fazendo, as atividades que eles faziam, ia ver a operação em si. Aí eu fui pegando gosto por isso, sabe? Fui vendo como é que era a dinâmica do que acontecia lá dentro, com o que acontecia lá fora. Lembro bastante, assim, a gente andando lá no meio do pátio, dando risada. Foi uma época bem legal.

 

P/1 – E esse seu segundo trabalho, como que desenrolou?

 

R – Então, aí, como eu consegui essa vaga dentro do controle, foi aí que eu comecei a aprender a falar com o armador, controlar o estoque. Eu fiquei um ano nesta empresa. Depois o gerente dessa empresa saiu e entrou um outro e esse outro gerente que entrou ficou mais um ano e aí ele recebeu um convite para ir para outra empresa, que era na mesma rua, assim, a concorrente. E aí ele aceitou e fez o convite para eu ir também, eu e mais três pessoas lá dessa empresa e nós fomos. E nessa outra empresa não tinha nada, assim, não tinha máquina, não tinha computador, não tinha rotina. Então, assim, a gente começou do zero, do zero mesmo, no terminal. E foi muito gratificante porque, quando você pega alguma coisa do zero, você pega uma bagagem fantástica, né? Porque você tem que correr atrás de tudo. E foi legal, porque você trabalhava com ideias: “Ah, vamos fazer isso, vamos fazer aquilo”. E a gente foi vendo o crescimento e durou... eu fiquei lá quatro anos, quando eu saí de lá eu olhava para trás, assim, eu falei: “Nossa, cheguei aqui, não tinha nada, agora já está o terminal em pleno vapor, né?” Então, isso me dá um pouco de orgulho, sabe, de ter... hoje até, quando eu passo lá na frente e vejo: “Caramba, tenho uma sementinha aqui” É muito gratificante isso. E pessoas que trabalhavam comigo na época e hoje já estão, assim, estabelecidas e já estão bem, assim, na profissão. Que começaram comigo também, pessoas que lembram de mim lá atrás e hoje falam: “Lembra quando a gente começou lá e foi assim, foi assado?” É bem legal isso.

 

P/1 – O que você fazia nessa época?

 

R – Então, eu fui trabalhar com a mesma coisa, só numa empresa diferente. Eu fazia a parte do controle de equipamentos, né, controle dos contêineres. Planejava o que ia receber, o que ia entregar. A gente recebia descarga de navio, o navio operava lá no porto. Era retro portuário, não era ainda um trabalho no porto em si, era retro portuário. Então, a gente programava tudo que ia receber de descarga, de embarque, montava a equipe que ia estar naquela frente, para fazer aquilo, quantas máquinas ia precisar, quantas pessoas, fazia todo o planejamento, em si.

 

P/1 – E como era? Você era a única mulher, ou você tinha companhias de outras mulheres? Como foi esse crescimento?

 

R – Então, quando eu comecei tinha algumas mulheres, sim, nesses terminais retro portuários. Poucas, muito poucas mulheres. Dava pra contar nos dedos. E nesse outro que eu fui, tinha menos ainda. Tinha menos mulheres nesse lugar. Mas tinha algumas, muito poucas. Se tinham dez homens, eram duas mulheres. Era uma média, assim. Hoje a gente já viu uma presença da mulher crescendo cada vez mais, né? Que bom, isso é muito bom.

 

P/1 – E após esses quatro anos nessa empresa, como que seguiu?

 

R - É, então, aí fiquei quatro anos nessa empresa, depois dessa empresa eu fui para uma outra, que aí sim era um terminal portuário, então aí o negócio já mudou. Porque, até então, eu tinha trabalhado só em terminais retro portuários. Quando eu falo retro portuários, não é onde atraca navio, tá? É onde só armazena os contêineres. E o terminal portuário em si é onde atraca o navio, onde faz a descarga, é a zona primária que chama. Então, nesse… deixa eu lembrar o ano, 2010, eu fui pra Libra Terminais, é um terminal bem conhecido de Santos, foi um terminal, hoje ele não existe mais. Há pouco tempo ele decretou falência, mas era uma empresa muito boa, também. Lá foi o meu primeiro contato com o porto, onde atracam navios, vamos dizer assim. Na área portuária, em si, a zona primária. E aí, lá onde eu aprendi bastante coisa, porque eu não tinha essa bagagem, foi uma bagagem nova, foi um complemento. Então, lá, quando eu cheguei foi bem complicado, porque muda bastante coisa, é uma outra realidade, é uma outra rotina, eu tive que me adaptar novamente. E foi bem complexo, eu passei uma fase bem difícil nessa época, porque eu vinha de uma cultura das pessoas que estavam dentro serem promovidas e eu vim de fora. Abriu um processo, que eu mandei meu currículo, fui aprovada, porém, internamente eles meio que me rejeitaram, assim, por eu estar vindo de fora, por eu não ser daquele núcleo ali, eu estar vindo do mercado. Então, tive essa resistência da parte deles e, ao mesmo tempo, tendo que aprender um trabalho, então foi uma fase bem complicadinha para mim, assim, uma fase bem marcante, porque foi complicada de superar. Mas aí, aos poucos, com as pessoas me conhecendo, vendo minha índole, vendo que eu estava ali para somar, sabe, trazendo novas ideias e devagarzinho mostrando para que eu tinha vindo, então eu fui conseguindo adesões. As pessoas foram simpatizando com meu trabalho, foram aderindo, foram ajudando e isso foi ficando menos difícil. Mas é uma parte que foi bem complicada para mim, 2010, por ali, foi bem complicado.

 

P/1 – E, Cíntia, como foi, nessa época, entrando no porto e cada vez mais trabalhando nessa área? Você chegou a sofrer algum tipo de preconceito, por ser mulher?

 

R – Lá eu sofri preconceito, porque eu sou casada com uma mulher, né? Então, assim, muita gente não sabe. Na época, eu sou muito discreta, não sou muito de falar da minha vida, mas, assim, lá, uma das pessoas que era supervisor também descobriu, não sei como, porque tem que entregar documento. E aí ele alastrou para a empresa inteira. E ele mesmo propagava isso. Então, não foi pelo fato de ser mulher que eu senti esse preconceito, foi mais pela orientação sexual. Então, eu não posso dizer que foi preconceito porque eu era mulher, não, mas foi mais dessa parte. Mas isso, depois, foi superado, mas no começo foi bem difícil, sabe, bem complicado. Mas depois disso tudo foi superado. Aqui mesmo onde eu estou, nunca passei nenhum tipo de problema por ser mulher, não. Se falam, não é na minha frente. Se falam, eles comentam entre eles, né? “Ah, é mulher”. Mas, assim, comigo eu não posso falar uma coisa que não aconteceu, então, eu nunca tive problema por ser mulher.

 

P/1 – E quando você resolveu mesmo trabalhar e atuar na área portuária, como foi para sua família? Seu pai, que já vinha dessa área do seu tio, pros seus irmãos, como que foi essa novidade?

 

R – Eles gostaram. A minha família tem bastante orgulho de mim. Meus amigos, minha família, meus pais adoraram. Nunca tive nenhum tipo de... alguma coisa, assim, de: “Ah, vai pro porto”. Não, pelo contrário, eles sempre me incentivaram e sempre ficaram felizes com as minhas vitórias e eles veem o meu crescimento. E eles dão o maior valor, eles falam com o maior orgulho, sabe? E isso é muito legal. Nunca tive problema de falar, mesmo meus pais, por serem mais antigos, de repente: “Ah, você é mulher”. Nunca. E também nunca recebi nenhum tipo de cantada ou situação que eu não soubesse me sair, sabe? Que eu lido muito com bastante caminhoneiro. Muito caminhoneiro, muito homem, mas, assim, eu nunca tive problema em separar as coisas, não. Eu também não dou muito espaço para que isso aconteça, então, eu acho que é mais a postura nossa em deixar um limite. É não dar espaço, então, você não pode ter muita brincadeirinha. Tem que saber com quem você brinca, para você dar esse limite. Então, você acaba se impondo, tem que se impor. Se você não tiver essa postura, então, aí acaba, às vezes, dando margem, uma brincadeirinha a mais, enfim, eu acho que você tem que ter essa postura, para já nem dar espaço para isso acontecer.

 

P/1 – E depois da Libra?

 

R – Aí, depois da Libra, eu vim para DP World, em 2013. E foi uma fase, assim, que aí sim, a minha família ficou um pouco receosa, falou assim: “Poxa, mas você vai sair da Libra?”, porque até então a Libra era a potência e a DP World estava começando, era uma novidade em 2013. E eles falaram: “Poxa, mas você vai sair da Libra?” Porque a Libra era top do mercado na época e passava comercial na TV, tinha todo um marketing de empresa sólida, enfim, isso que eu quero dizer. E aí eles falavam: “Você é louca, você vai sair de uma empresa, vai trocar o certo pelo duvidoso”, essas coisas do tipo. E eu decidi sair, porque o que falava de segurança lá, não tinha a ver com a realidade, sabe? “Ah, você tem que trabalhar com segurança e tal”, mas a empresa não dava condições para a gente trabalhar com segurança, vamos dizer assim. Então, isso era complicado, porque eu tinha uma equipe de sessenta homens na época, sessenta motoristas eram subordinados a mim, então, todo dia eu fazia o DDS, Diálogo Diário de Segurança. E como é que eu vou falar de uma coisa que a empresa não... você acaba sendo incoerente com a sua fala, né? Então, isso, com o tempo, foi me desanimando, falei: “Eu não estou me sentindo bem aqui”. Então, foi quando estava em plena expansão, iniciando as contratações na DP World e aí eu optei em sair da Libra e vim para DP World, um desafio novo, enfim. Os primeiros seis meses eu fiquei um pouco, assim: “Caramba, será?” Insegura. “Será que eu fiz certo? De tanto as pessoas falarem, será que eu fiz certo? Será que eu dei o passo certo?” Mas aí, depois, com o tempo as coisas foram ganhando forma e a empresa foi crescendo e ficando cada vez mais sólida e esse receio passou. Agora em dezembro eu fui recém promovida, eu era supervisora e fui promovida à coordenadora, em dezembro. Eu fiquei muito feliz. E março próximo eu completo nove anos de empresa. Já faz bastante tempo, eu já estou bem ambientada com a cultura da empresa, com as normas. E tomara que eu fique aí bastante tempo ainda, aqui. 

 

P/1 – Isso que eu ia te perguntar: quais cargos você passou, aí dentro?

 

R – Isso, eu comecei aqui como supervisora. Na Libra, eu já entrei como supervisora, porque lá atrás, só voltando um pouquinho no tempo, quando eu saí do meu primeiro emprego e fui para outra empresa, porque o meu gerente saiu e foi para lá, eu já fui como encarregada. Então, eu consegui me destacar nessa parte de liderança e daí para frente já voltei toda minha base para a parte de gestão, sabe? Então, já fui de encarregada, para a Libra eu já fui contratada como supervisora também, depois para cá, também, entrei como supervisora e aí, ano passado eu fui promovida para a coordenação.

 

P/1 – E como é liderar, para você? Quais são os desafios e os aprendizados, neste cargo?

 

R – É, eu costumo dizer que a liderança você não escolhe. É uma coisa que você pode até melhorar uma coisa ou outra, mas é uma coisa que já é da sua personalidade, eu acredito. É algo que você já tem através de uma atitude, de um jeito de falar, de uma entonação, de uma postura, então, já vem, boa parte vem disso. E liderar é você conquistar, não é você impor. É você fazer com que as pessoas te sigam, pelo seu exemplo e porque elas estão convencidas de que aquilo é o certo. Não adianta você impor. Existe o chefe e existe o líder. Antigamente existia muito a figura do chefe: eu mando, você obedece e acabou. E isso já ficou para trás há muito tempo. Então, eu procuro sempre fazer uma liderança voltada em ouvir a opinião das pessoas, em ouvir a opinião de quem está ali, no dia a dia, em ouvir sugestões, em aplicar melhoria. Em dar feedback, sabe? Acompanhar o crescimento da pessoa, chamar para conversar, quando vê que ela está pisando na bola, orientar, trazer para o caminho, eu falo que é trazer para a luz. É trazer a pessoa para luz de volta, que todo mundo tem problema, é ser humano e, às vezes, a gente cai um pouquinho nossa produção, ou cai um pouquinho nossa atenção, então, acho que cabe ao líder estar ali, orientar e mostrar onde é o caminho e conduzir aquela pessoa, aquele time, né, aquela equipe, em prol do resultado.

 

P/1 – E, ao longo desses anos, você lembra de alguma história marcante, durante essa sua trajetória no porto? Ou como líder, mesmo, não sei. Alguma história que tenha te marcado, de alguma forma?

 

R – Ah, tem bastante história de, às vezes, você... não digo aqui, mas ter que desligar alguém, por algum motivo, mas sendo que aquela pessoa, de repente… vou te dar um exemplo de uma empresa anterior, que eu passei: o cara era excelente funcionário, só que, como era transportadora, não podia ter o nome negativado, por causa de seguradora, era um requisito da seguradora. E aí eu tive que desligar essa pessoa, por causa disso e isso era bem complicado. Porque você desligar alguém que está dando motivo, não é que eu gosto, que você gosta, mas, assim, é uma coisa que é justa, né? A pessoa está pisando na bola, desligá-la é um processo que faz parte da gestão. Mas, assim, você desligar alguém que é bom funcionário, mas por um outro motivo, você precisa, acaba sendo um pouco mais marcante. Mas é o seu papel, né? Você está ali para executar as normas e fazer valer aí os procedimentos. Então, mas é uma coisa que marca, sim.

 

P/1 – Você tem uma longa trajetória dentro do porto, né? Durante esses anos você consegue dizer quais foram as principais transformações que você consegue perceber, nesse setor?

 

R – Sim, no porto, antigamente, era tudo muito… o sistema era muita coisa manual, vamos dizer assim, muita coisa era manual. Cada vez mais a gente vê as automações acontecerem, de ver o investimento que as empresas têm feito no sistema de controle, em automatização, em inovação. Presença das mulheres, aumentando cada dia mais. A preocupação com o meio ambiente, segurança, preocupação com a segurança do trabalhador, tudo isso. Uso de EPI, que antigamente pouco se dava importância, não tinha muito essa preocupação. Hoje, cada vez mais as empresas estão fortalecendo seus processos, estão pensando mais na qualidade de vida do integrante, do funcionário. Então, assim, são várias transformações que vão passando, empresas novas que vão surgindo, fusões que vão acontecendo. Talvez seja um pouco devagar, mas olhando para trás você consegue notar os investimentos, as mudanças que vão acontecendo, sabe? Investimentos que estão sendo feitos, enfim. Mas é uma evolução muito grande.

 

P/1 – E, Cíntia, para você, quais são os maiores desafios, assim, de trabalhar nesse setor?

 

R – Eu acho que o maior desafio é você buscar uma constante atualização. Você tem que estar sempre atualizada no mercado, você tem que estar sempre procurando fazer uma nova... buscar ser um profissional qualificado, cada vez mais. Se você não tem inglês, tem que fazer; se você não tem espanhol, tem que fazer; se não tem MBA, procurar fazer. É uma evolução constante, que você tem que estar sempre acompanhando, sabe? Até práticas de gestão. Principalmente práticas de gestão. Senão, você acaba ficando ultrapassado. Até prática de gestão, principalmente, de técnica de abordagem, de ferramentas, o que você pode usar para fazer a leitura do comportamento das pessoas, livros que você tem que buscar e ler e acompanhar, pra você mudar também, porque a gente tem que evoluir, a gente tem que acompanhar a mudança, senão a gente vai ficando pra trás, vai ficando aquele profissional ultrapassado, aquele profissional que não enxerga mais o que pode melhorar. Então, é buscar a sabedoria contínua em você, nos processos e dentro do seu time também, instigar o seu time pra ele crescer junto com a empresa, instigar o seu time pra ele evoluir como pessoa, como ser humano. Essa eu acho que é umas coisas que sempre acaba sendo mais difícil, assim, você tem que estar sempre se atualizando. 

 

P/1 – E os aprendizados?

 

R – São muitos, cada vez que você conversa com alguém, você traz alguma maturidade. E cada dia você aprende alguma coisa. Só que, para isso, você tem que estar aberto, tem que estar disposto. Então, todo mundo tem alguma coisa para te trazer de conhecimento, de ensinamento, de lição de vida, que você olha e fala: “Caramba, eu agi errado”. Tem que ter essa humildade, para reconhecer. E isso faz parte. A partir do momento que eu acho que eu sei tudo, eu paro de aprender. Então, você tem que estar sempre com essa humildade de saber que eu posso aprender muito com os outros, porque eu não sou melhor que ninguém e também ninguém é melhor que eu. Eu tenho muito para ensinar e também tenho muito pra aprender. A partir do momento que você deixa... você trabalha dessa forma, eu acho que cada dia você aprende, cada dia você é uma pessoa diferente.

 

P/1 – E como foi se tornar coordenadora?

 

R - É uma nova rotina, né? Você sai um pouco do foco da execução. Porque, enquanto você ainda é supervisor, você ainda tem muito os olhos na execução. E quando você se torna coordenadora, é claro que não é uma chave que você vira, assim, de um dia pro outro: virei coordenadora e você vira a chave na cabeça. É um processo, que eu estou, ainda, passando por ele. Talvez vá demorar ainda para acontecer, mas está acontecendo, que é um processo de um cargo mais estratégico, né? É uma questão de você mais planejar e mais cuidar das coisas mais burocráticas e se afastar um pouco mais da execução, sabe? É um nível que você tem mais, assim: tem que ter um olhar diferente, um olhar estratégico. E um olhar, assim, mais de administrador. É diferente, é uma outra nuance. É muita reunião, é uma série de reuniões que você tem que participar, é um outro foco, que também faz parte e cada um vai vendo uma parte.

 

P/1 – Só para eu entender melhor: o que você fazia antes, como era sua função mesmo, sua rotina e como é agora?

 

R – Então, antes, quando eu comecei aqui, eu ficava cuidando da parte do pátio, que ficava numa Amarok, fazendo o translado dos RTGs e levando os integrantes que iam subir no equipamento. RTG é aquele equipamento, não sei se você sabe qual é, que o operador sobe a cinquenta metros de altura e opera lá de cima da cabine, vai pegando os contêineres, colocando no caminhão e descem. Então, eles eram do meu time, os RTGs e os caminhoneiros, que aqui a gente chama de ITV. Então, esse pessoal era do meu time, no começo aqui, então eu fazia a gestão sobre eles. Depois eu vim para o Depot, que é o terminal de contêineres vazios. Então, é um terminal dentro do outro terminal. E aqui, na supervisão, a gente trabalhava muito com a parte direta com o pessoal, sabe? De dividir o trabalho, de fazer o DDS (Diálogo Diário de Segurança) e de executar as demandas que o coordenador passava. O que precisava naquele dia, ou o que ele determinava. Hoje eu sou coordenadora, então, hoje eu que falo com os armadores, eu já não estou mais, assim, tão nessa dinâmica do dia a dia, eu participo das reuniões com os armadores, eu cuido da parte do que vai ter de trabalho ou não, de que container vai vir, que programação eu vou fazer, eu respondo para a gerência e para a diretoria as questões de segurança, melhorias na parte de segurança e outras ações, assim, mais estratégicas, na segurança, mais voltada para essa parte da empresa, na parte de... como eu posso te falar? Na parte mais estratégica. Não na parte tanto da execução.

 

P/1 – E para você, o que representa trabalhar num lugar, ocupar um cargo que, de certa forma, costumava ser ocupado por homens? Assim, óbvio que vem surgindo uma transformação, mas queria saber o que isso representa para você. 

 

R – Para mim representa um crescimento profissional ou financeiro, lógico, claro, também não vou ser hipócrita de falar, que a gente acaba mudando a nossa qualidade de vida. Você consegue coisas que você almejava, hoje você consegue adquirir com um pouco mais de tranquilidade. E o reconhecimento profissional, isso é a parte melhor, assim, que te traz aquele orgulho, das pessoas falarem: “Parabéns, você conseguiu, você merece”. Coisas do tipo, assim, sabe? Que te incentivam a ver que você… que tudo que você acordou cedo, que você abdicou, às vezes, de sair, ou que você estudou um pouco a  mais, que você investiu, que tudo isso está valendo a pena. Valeu a pena e continua valendo a pena. Então, assim, você olha lá pra trás, a menina que morava num cômodo bem apertadinho, hoje eu tenho uma casa, graças a Deus, confortável; tenho meu próprio carro; minha moto. Então, assim, isso é bem legal, sabe? Quando você vem de baixo e vai conquistando por meios próprios, sem pisar na cabeça de ninguém, sem atropelar ninguém, tudo no seu tempo, tudo conquistado com suor, isso não tem preço. É o maior prêmio que alguém pode ter, eu acho que é isso. E até para uma mãe, para um pai, né, ver que o teu filho está conseguindo. No caso da minha mãe, ver que eu estou conseguindo crescer profissionalmente e como pessoa também, dá orgulho para ela e acaba dando orgulho para mim também.

 

[Trecho retirado pela autora] 

 

P/1 – E me conta uma coisa: o que você gosta de fazer, nas suas horas de lazer?

 

R – Eu gosto de fazer churrasco. Gosto de videokê, bastante música. E eu gosto muito de tudo que é relacionado a música e família. É o que eu mais gosto. Estar com a família, conversar ou de ver filme junto, ou de ter uma comemoração, um aniversário, um almoço em família. É o que geralmente mais me atrai, assim, o que mais eu gosto de fazer.

 

P/1 – E a pandemia, como que afetou, assim, a sua vida, desde profissionais até pessoal, mesmo?

 

R– Então, a pessoal foi ruim, porque eu tive que estar um pouco longe da minha mãe, né? Porque ela mora no Guarujá, não é tão próximo, mas todo domingo eu ia lá. Então, assim, bem no comecinho da pandemia eu me isolei mesmo, total, até a gente ver como é que ia ser, foi bem complicado. Mas, com o tempo, a gente foi vendo que o uso de máscara, uso de álcool gel, manter distância, estava funcionando. Aí eu passei lá quinzenalmente ou mais espaçados, mas indo, continuando indo, até porque ela é idosa e o medo era que ela, de repente, entrasse numa depressão. Então, aí, depois, com o tempo deu para conciliar, no começo foi bem difícil. Agora, vir trabalhar a gente continuou vindo. Mesmo adotando os [protocolos]... então, eu acabei não ficando isolada, porque eu vinha trabalhar, então aqui a gente fala com as pessoas. Mas, assim, foi complicado, porque você tem uma equipe e, às vezes, você tem as baixas, então, você vai reduzindo o time. Às vezes, uma pessoa pega, aí tem aquele exame que tinha que ficar quatorze dias e não podia vir, então você vai tendo que ser criativo, cada vez mais, porque você vai lidando com a falta de efetivo e tendo que ser criativo: tirar dali, põe ali, essa pessoa não vem hoje, o que nós vamos fazer? Isso diariamente, né? Até hoje diminuiu bem, porque agora está bem mais controlado, bem mais mesmo, então, a baixa diminuiu, mas teve semanas de se falar: “Eu estou sem fulano, ciclano, beltrano”, sabe? Então, a gente teve que ser bem criativo na parte profissional, assim. E o pessoal foi essa parte que eu acabei não sentindo tanto, porque eu vim trabalhar, então, encontrava as pessoas, não senti essa falta de ter contato com ninguém. Falta de sair eu já estou, eu já ando bem caseira mesmo, então, não senti tanta falta de sair, não. Porque filme a gente acaba ficando em casa, hoje em dia a gente tem várias opções para ver filmes. De sair, eu sinto falta de fazer essas reuniões familiares, né, que eu gosto de fazer e que não dava para juntar, assim, tanta gente. Aniversário que não deu para comemorar, enfim, meu, da minha mãe. Mas é por um bem maior, né, que é a saúde dela e deles, enfim. Então, vale a pena, mas deu para conciliar sim, não sofri tanto, não, no isolamento.

 

P/1 – Queria saber, para você, o que representa, o que o porto de Santos representa na sua história. Até pensando nessas gerações anteriores a você, que vêm trabalhando e até na sua história, mesmo, individual.

 

R – Porto de Santos é orgulho, é como se fosse... não digo um filho, porque é um filho mais velho do que eu própria, mas, assim, eu tenho muito orgulho de trabalhar no porto de Santos. Quando eu vou viajar de férias, eu abro a boca mesmo e falo: “Eu sou de Santos, trabalho no porto”. Então, assim, o porto de Santos é o meu orgulho, tenho muito orgulho de trabalhar no porto, de ter nascido em Santos, né? Da história de Santos, em si. Então, assim, eu tenho muito, muito orgulho.

 

P/1 – Como é isso, para você, essa relação do porto com a cidade? Você consegue enxergar muita relação, quais são os aspectos positivos e negativos? 

 

R – O porto está tão misturado com a cidade que, para mim, é uma coisa só, entende? Eu não consigo ver uma separação do porto e da cidade e da cidade com o porto. Para mim eles estão tão, assim, um faz tão parte do outro, que eu não consigo ver uma separação, sabe? Para mim é uma coisa, talvez por eu morar aqui e ser daqui, eu não consigo ver uma separação porto e cidade. Para mim é uma linha só, é uma coisa só.

 

P/1 – E quais são os seus maiores sonhos, hoje?

 

R – Ah, ter saúde, isso é o que eu mais valorizo hoje. Ter paz, cada vez mais, né? Manter a paz, manter a serenidade. Saúde em primeiro lugar, porque sem saúde não adianta você ter dinheiro, você ter trabalho, você não tem nada. Então, o mais importante é a gente ter saúde e ter paz. E continuar batalhando, conquistando nossas coisas, com esforço, determinação, um dia após o outro, ajudando os outros também a crescerem, a se desenvolverem. É isso.

 

P/1 – A gente está encerrando, começando a encerrar, mas antes eu queria fazer uma pergunta: se você gostaria de acrescentar alguma coisa, contar mais alguma história que eu não tenha instigado, ou deixar alguma mensagem. 

 

R – Eu queria deixar uma mensagem para as mulheres, encorajar as mulheres que estão, de repente, na dúvida se devem seguir nesse ramo do porto ou não. Mulherada, vale a pena. Venham para esse desafio, é muito gostoso, não tenham medo do que vão falar, ou do que vão pensar, ou se vão te julgar. O porto é para todos e as mulheres têm um potencial enorme, que está crescendo cada vez mais. A mulher é muito detalhista, muito dedicada em tudo que ela faz, não que os homens também não sejam, mas, assim, a mulher tem aquela coisa de mãe, né? Aquele senso de dedicação muito forte. E eu acho que isso acaba destacando as mulheres. E que eu indico, sim, venham para cá, venham pro porto, mostrem a nossa força, mostrem o trabalho, mostrem competência, que tem espaço para vocês.

 

P/1 – E o que você acha da proposta de mulheres que trabalham no mercado rodo porto ferroviário serem convidadas para contarem sua história de vida, através de um projeto de memória?

 

R – Eu acho muito válido, fiquei muito orgulhosa quando recebi o convite, porque a minha história pode servir de inspiração para tantas outras mulheres. Isso é um motivo de muita felicidade para mim e de muito orgulho e eu espero que realmente seja e, quando eu ficar velhinha, eu possa ver meu vídeo de hoje e, de repente, me emocionar com isso. Eu agradeço a oportunidade de estar compartilhando com vocês a minha história. E é isso.

 

P/1– Cíntia, para você como foi esse momento de relembrar algumas coisas, desde pequena até hoje, fazer esse balanço?

 

R – É bem forte, né? Às vezes, dá vontade de chorar, você fica com o coração, assim, sabe, cheio e a voz embargando. Às vezes, quando eu falo do meu pai, dava aquele suspiro maior, né, porque hoje ele não existe mais. E se continuar falando, eu acabo chorando, mas é bem... a gente acaba não fazendo esse retrospecto, parando para fazer essa análise toda. E esse momento foi bem, assim, sensível. Bem emocionante. Eu estou aqui, estou com a voz embargada e o olho cheio de lágrimas, que é normal. A gente fala de passado, de coisas que emocionam, né?

 

P/1 – Muito obrigada por ter topado, foi uma tarde muito gostosa, obrigada mesmo.

 

R – Eu agradeço vocês, o carinho, o respeito, a oportunidade. Agradeço a vocês.


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