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História

O poder transformador da educação

História de: Sônia Regina da Silva Costa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/12/2008

Sinopse

Infância tranquila com os avós. Brincadeiras de casinha e escolinha no quintal, com as primas. Começou a trabalhar aos 15 anos. Estudou psicologia. Casada. Mãe de dois filhos: o Lucas e a Luísa.

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História completa

P/1 – Bem, pra gente começar, eu queria que você se identificasse com seu nome completo, local e data de nascimento.


R – Meu nome é Sônia Regina da Silva Costa. Nasci em Osasco, em 1963. 


P/1 – E os seus pais? O nome...

 

R – Meu pai é Luís Rodrigues da Silva e minha mãe, Nair Ferreira da Silva.

 

P/1 – E eles nasceram...?

 

R – Eles nasceram em Alagoas.

 

P/1 – Conta um pouco da história deles.

 

R – Ah, meus pais vieram pra Osasco – não vieram juntos, porque eles são até de cidades diferentes – meu pai veio por... a crise naquela época. Ele conta da situação de pobreza mesmo que ele viveu, que ele nasceu. E aí eles resolveram vir pra São Paulo. Ele veio sozinho. A história dele é uma história muito interessante, quando ele chegou aqui em Osasco, ele era menor e tiraram os documentos dele, um tio tirou pra ele, mais velho... Tanto é que a idade dele, 67 – 68 anos, mas na verdade nos documentos, ele já tem mais 70 anos, porque ele teve que tirar pra sobreviver, pra arrumar emprego. Aí ele conseguiu emprego, começou a trabalhar em empresas de operário, sofreu muito. Aí trabalhou muitos anos numa empresa que tinha aqui em Osasco, a Eternit, que hoje é o Walmart que ocupa o terreno ali. Ali ele se aposentou. Conheceu minha mãe aqui em Osasco. A minha mãe veio com a família – minha mãe teve 13 irmãos, com ela 14 – e veio com a minha avó, meu avô e com todas as minhas tias, meus tios solteiros, todos ali: um de 10, de 11, de 12, 13 e um de 14 anos... Então, elas trabalhavam todas juntas, minhas tias, em empresas também, de operárias. E foram conhecendo os maridos, era um ano de diferença. Duas delas casaram no mesmo ano, uma num ano pra outra casar no outro. E minha mãe conheceu meu pai e se casaram. Eles moravam no quilômetro 18, naquela época. Aí eu nasci. Primeiro, minha mãe teve um filho mais velho, mas perdeu com 7 meses, depois fui eu e depois meu irmão.

 

P/1 – E você se lembra dos seus avós?

 

R – Lembro-me muito dos meus avós, principalmente dos meus avós maternos. Meu avô... eu fui criada, eu nasci... ali era todo mundo junto, bem próximo. Eu ficava muito na casa do meu avô, eu gostava muito da minha avó e do meu avô, especialmente do meu avô porque eu era muito apegada. E ele comigo também. Então, isso aí gerava até um clima nas minhas primas, porque eu era a neta mais querida… Aí eu lembro que meu avô vendia doces, ele tinha lá na estação de trem do quilômetro 18, ele tinha – na época era até de madeira – uma barraquinha, onde ele vendia caldo de cana, doces, pães. Tinham várias empresas ali e ele vendia para as pessoas que iam para o trabalho das empresas daquela região. O local chamava “Paradinha”, porque todo mundo parava pra tomar um café, pra alguma coisa naquela época. E eu era criança. Eu adorava ficar lá, porque eu comia tanto doce – ele me dava doce, me dava caldo de cana e eu adorava. Aí eu ficava só na casa dele e chorava quando eu ia pra minha casa, porque eu não queria ir pra casa da minha mãe, nem do meu pai, eu queria morar com a minha avó e com o meu avô. Aí eu chorava, chorava... meu pai me levava de volta. Tudo a pé, porque naquela época ônibus não tinha tanto e quando tinha ônibus, era caro, a gente não tinha dinheiro pra pagar ônibus. Andava a pé mesmo. Aí meu pai me levava – coitado do meu pai – ia me buscar, quando chegava em casa eu chorava, chorava, ele me levava de volta pra casa do meu avô. E eu dormia no meio da cama da minha avó e do meu vô.

 

P/1 – E irmãos?

 

R – Eu tenho um irmão. O nome dele é Clóvis, ele trabalha aqui no banco também. E éramos só nós dois ali, apegados. Mas eu tinha ciúmes do meu irmão – bastante – porque minha mãe dava mais atenção pra ele; então por isso mesmo que eu queria ficar na casa da minha avó, porque minha avó me dava toda a atenção do mundo, ele era caçula, né? Então eu queria ficar mais na minha avó mesmo, porque lá eu tinha tudo que eu queria.

 

P/1 – E você se lembra da casa – das casas – da sua avó, a casa da sua mãe, como eram?

 

R – Lembro. A casa da minha avó era uma casa grande, bem grande porque tinha tantos filhos... depois foram casando, mas tinha o quarto das mulheres, das filhas, o quarto dos filhos. Aí depois minha avó mudou de casa quando todos os filhos casaram, ela mudou para uma casa um pouco menor. Aí tinha o quarto dela, um quintal enorme, tinha pé de café na casa dela. Tão gostoso...

 

P/1 – Ela fazia o café?

 

R – Não. Era um pé que ela plantou de café, porque ela gostava de mexer com a terra, até porque é a origem dela. Então ela tinha pé de cana, pé de café, pé de pitomba. Muito legal.

 

P/1 – E a casa da sua mãe?

 

R – A minha casa, a casa da minha mãe, era uma casa simples. Mas tinha o meu quarto, que era um quarto que era sala, era junto. Acho que era tudo junto, era sala e quarto. No quarto dos meus pais tinha o berço do meu irmão. Aí tinha um quintal grande, bem legal, eu morava do lado de uma prima, Márcia, aí a gente brincava o dia inteiro num terreno vazio que tinha lá, de casinha. Uma vez, cortei o pé, sangrou muito, porque a gente ia brincar no terreno, ficava o dia inteiro brincando.

 

P/1 – E como era o seu dia a dia? Brincadeira…

 

R – Brincadeira. Naquela época, a gente ficava muito assim... não tinha essa coisa de ficar dentro de casa. E as brincadeiras eram na rua mesmo, com os primos, com os vizinhos.

 

P/1 – Quais as brincadeiras você mais gostava?

 

R – Eu gostava de brincar de casinha. E uma brincadeira que eu gostava muito era de ser professora – acho que eu já nasci com isso... [risos]. E eu lembro que eu reunia todos os meus vizinhos; eu tinha uma lousa no meu quintal, aí eu colocava um salto da minha mãe, pegava uma bolsa dela, vestia uma roupa dela e ia dar aula. Aí, cada um que errava, eu pegava uma régua, batia na cabeça… [risos]. Mas eles contam que eles aprendiam.

 

P/1 – Uma pedagogia que não era a melhor...

 

R – A pedagogia era uma das piores que tem... [risos]

 

P/1 – E como é que era Osasco nessa época?

 

R – Osasco é engraçado. Hoje a gente pensa... a Zuleika, que esteve aqui, eu conto pra ela e ela não acredita: onde é a casa dela eu brincava; onde é a casa dela hoje, porque era próximo da casa da minha avó. Não tinha asfalto, não tinha esse monte de carro, esse congestionamento. As ruas muito simples, não tinha saneamento, eu me lembro. Mas não tinha também esgoto a céu aberto; era uma coisa, sei lá, meio de interior. Acho que meio de interior...

 

P/1 – E aí como foi a adolescência?

 

R -  Bom, adolescente eu era tranquila. Saía, gostava de passear, de sair, mas nada de exageros. Na minha adolescência, é engraçado, eu já comecei a trabalhar. Eu me lembro, já adolescente trabalhando, porque eu comecei a trabalhar com 15 anos.

 

P/1 – E a escola? Onde você estudou, seus primeiros anos?

 

R – Então, estudei quando eu estava no pré numa escola municipal. Outro dia até levei para os professores uma foto minha, recebendo um diploma. Aí eles falaram que eu tinha cara de brava, que hoje eu não sou tão brava, que naquela época eu tinha cara de brava. Eu estudei numa escola municipal, depois eu estudei numa escola estadual. Aí depois eu vim pra Fundação Bradesco.

 

P/1 – Dessa primeira fase, tem algum professor que você lembra? Na pré escola, no jardim de infância …

 

R – Sim, eu tenho uma professora que me lembra muito, uma professora de primeira série que era a (Dona Mayde?), (Mayde?) o nome dela, bem afável, carinhosa. Inclusive, outro dia eu encontrei com ela, acho que ela já tem uns 70 anos. E ela lembrou. Bem engraçado.

 

P/1 – E as turmas, os colegas?

 

R – Os colegas também. Eu tinha amiga que era mais especial que chamava Estela. Eu me lembro que um dia minha mãe falou assim pra mim: “Você hoje vai voltar sozinha” e eu estava na pré escola. Aí eu falei: “Tá bom” e a minha mãe disse: “Volta com a sua colega”. Aí eu não fui pra casa, fui pra casa da minha colega. E minha mãe ficou desesperada me procurando, me procurou em tudo, não achou. Quando minha mãe me achou, mas ela me deu uma surra que eu nunca mais esqueci! E nunca mais eu fui pra casa de ninguém...

 

P/1 – Marcou então...

 

R – Marcou. 

 

P/1 – E qual era a matéria? Você já tinha uma matéria especial?

 

R – Eu gostava muito de História, de Geografia, de Língua Portuguesa. Eu nunca gostei de Matemática, de Física, de Química. Nunca foi meu forte.

 

P/1 – E era boa aluna ou rebelde?

 

R – Não, eu sempre fui boa aluna. Nunca fui na sala do diretor. Só fui na sala do diretor receber elogios, nunca fui receber bronca não. Eu era C.D.F [crânio de ferro, cabeça de ferro]… [risos]

 

P/1 – E você mantém contato com essa turma, com esses alunos da primeira fase sua?

 

R – Não. Ás vezes, encontro um ou outro, mas assim, não tenho nenhum amigo hoje. Tem alguns do antigo colegial, esses sim, que até hoje trabalham na Fundação, alguns que trabalham no banco e que, às vezes, a gente se encontra em festa de aniversário de criança. Essas coisas.

 

P/1 – Aí você veio estudar o que aqui na Fundação?

 

R – Técnico em Administração.

 

P/1 – Você tinha terminado o primeiro? Como é que foi esse processo pra você entrar?

 

R – Então, esse processo era uma loucura aqui em Osasco. Porque todo mundo queria estudar na Fundação Bradesco, e só conseguia estudar quem tinha o pai que trabalhava aqui, que não era o meu caso – o meu pai não trabalhava no banco. Mas eu tinha umas primas que já estudavam aqui; meus tios trabalhavam. Porque eu acho que todo o pessoal de Osasco sempre teve alguém que trabalhou no Bradesco. Aí eu fiquei sabendo que tinha um vestibulinho, que tinha que fazer uma prova pra entrar. Aí eu vim, uma fila imensa, enorme. Tinha que dormir na fila, ficar pra conseguir. Aí eu fiquei, fiz a prova, fui aprovada e entrei pra estudar.

 

P/1 – E a prova, como é que era?

 

R – A prova era difícil. Era uma prova de Língua Portuguesa e de Matemática bem puxada. Mas eu consegui, me saí bem e entrei.

 

P/1 – E antes de você entrar na Fundação, o que você comentava? Você falou que era uma loucura? O que você sabia da Fundação, antes? O que você ouvia das pessoas?

 

R – Eu ouvia falar que era uma escola muito rígida, que os diretores eram rígidos, mas que era muito boa e que você já começava a trabalhar. E eu queria muito trabalhar. Minhas primas me contavam: “Olha, você entra lá, você já começa a trabalhar. Mas lá é muito difícil, é difícil de acompanhar. Talvez vocês não consigam”. Mas eu falava: “Não, lógico que eu consigo! Se eu consigo em outra escola, não vou conseguir lá?”.

 

P/2 – E era mesmo muito diferente das outras escolas?

 

R – Era, era bem diferente. Até a disciplina. A disciplina era rígida. Nossa, não podia nem ficar olhando, não podia paquerar naquela época, não podia namorar, não podia fazer nada, aliás, até hoje, mas naquela época mais ainda. O uniforme tinha que ser impecável, não podia ter nada sujo, nada desorganizado. Mas eu gostei muito. Sempre me... Como eu falei, eu nunca fui chamada a atenção, ainda bem.

 

P/1 – E o seu primeiro dia de aula aqui, você lembra?

 

R – Lembro.

 

P/1 -  Conta pra gente.

 

R – Então, meu primeiro dia de aula eu entrei na sala, aí todo mundo diferente. Eu falei: “Ai, meu Deus... e agora? Como será que vai ser?”. Mas aí eu entrei e como sempre, fui muito falante. Aí eu já fui conhecendo as pessoas, conversando. Fiquei com medo e era matéria e mais matéria... E o professor pedia um livro, pedia não sei o quê. Eu falei: “Ai, meu Deus...e agora? Tanta coisa pra ler, tanta lição...”. Mas aí, depois, a gente foi se adaptando.

 

P/1 – E como que era a estrutura das aulas? Quantas aulas você tinha por dia?

 

R – Tinha 5 aulas por dia.

 

P/1 – Explica pra gente.

 

R – Então, eram cinco aulas com componentes diferentes. Então a gente entrava, tinha uma aula, depois tinha outra. Tinha matérias diferentes, contabilidade que eu detestava, tinha que fazer o balanço... Isso aí me matava, porque eu não sabia fazer aqueles balanços, mas aí depois eu fui aprendendo. Custos, outra matéria chata que eu detestava. E tinha matéria legal: língua portuguesa, inglês que eu gostava. E tinham outras que eu não gostava. Mas depois a gente ia acostumando; ia pegando aqueles cálculos difíceis de custo, de balanço. Mas aí, depois, comecei a gostar bastante do curso, me identifiquei bastante.

 

P/1 – E os professores?

 

R – Os professores também. Tinha uns professores na época, assim, bem rígidos, bravos, que puxavam bastante. Mas tínhamos um relacionamento bem legal, muito respeito, os professores bem descontraídos. Era gostoso.

 

P/1 – Mas esse curso técnico era aqui na unidade, no Assis Chateaubriand?

 

R – Na Unidade 1 hoje, que chama Unidade 1.

 

P/1 – Que era separado do Grupo? Ou não?

 

R – Era junto. Na época era tudo junto. Não tinha essa escola que é a Unidade 2. Era tudo lá em cima. A Unidade 2 foi construída depois.

 

P/1 – E aí vocês conviviam com os meninos das outras séries? O pessoal do Colegial?

 

R – A gente acabava convivendo sim, vendo os pequenos entrando. Naquela época não tinha esse mundo de aluno que tem hoje. Então, a gente acabava convivendo. Era uma relação bem legal, não tinha essa questão de briga, de um ser melhor que o outro, não. Era bem tranquilo.

 

P/1 – A escola tinha uma rotina? Como é que era?

 

R – Tinha rotina. A do Hino Nacional, rotina de como tem até hoje, tudo era fila. Hoje não tem fila para os maiores. Naquela época a gente chegava, tinha que ir pra fila, ia pra sala em fila. Tinha os inspetores de alunos que estavam sempre... como tem também, que observavam... A gente não podia ter muitos deslizes não, que ia pra diretoria. Eu nunca fui, mas eu tinha colegas que iam bastante.

 

P/1 – Teve aquela declaração de princípios...

 

R – Teve. Tinha aquela declaração que a gente tinha que fazer de próprio punho, declarando toda a idoneidade, declaração de princípios... Todo ano a gente refazia aquela declaração.

 

P/1 – E você lembra muito do Amador Aguiar nessa época?

 

R – Lembro. Lembro muito do Seu Amador. Porque ele ia muito na escola, ele era uma pessoa muito presente. Conversava com a gente, perguntava de onde que a gente era, quem era o pai, quem era a mãe, se a gente gostava da escola, se não gostava. Ele era uma pessoa muito simples, ele gostava muito da Fundação. Ele era muito presente.

 

P/1 – Então vira e mexe...

 

R – Vira e mexe ele estava lá.

 

P/1 – E tem algum professor, dessa época aí que você fala: “Ai, que saudades...”?

 

R – Tem vários professores. Eu tinha professores muito interessantes, muito descontraídos. Professores que ficaram muitos anos na Fundação Bradesco, que depois eu até trabalhei muito, trabalhei com eles. Teve o (Hinaldo?), que já até faleceu, mas ele era meu professor, a gente chamava ele de “Mestre dos Mestres”. E depois ele foi trabalhar também na Fundação Bradesco, no Centro Educacional, nós trabalhamos um período juntos. Aí ele saiu da Fundação, fiquei sabendo que ele sofreu um acidente, veio a falecer. Mas era uma pessoa muito legal. Tem o Arruda que ainda está na Fundação, ele foi também meu professor. Atualmente ele trabalha no Setor de Legislação e Normas da Fundação. Ele foi meu professor de Administração, era bem rígido; e está lá ainda, é um senhor bem interessante.

 

P/1 – E os eventos?

 

R – Um grande evento que mobilizava todo mundo era a Ação de Graças. Tinha aquela festa de Ação de Graças. Eu lembro que a gente ensaiava, ensaiava, ensaiava... E depois apresentava. E era um grande evento que mobilizava Osasco inteiro, porque vinha  escolas públicas, alunos de escolas públicas, artistas... Eu lembro que uma vez veio até o Presidente da República, da época, na ocasião. Então, era um grande evento na cidade de Osasco.

 

P/1 – E como é que era essa mobilização?

 

R – Olha, começava lá pra... Era em novembro a festa, a partir de agosto a gente ficava ensaiando, ensaiando, ensaiando...

 

P/1 – Aí tinha um coreógrafo?

 

R – Tinha um coreógrafo. O coreógrafo era o... ele era aqui do Departamento de Marketing, o César. Aí o César... Nossa, aquelas roupas exuberantes, vestidos longos de paetês, e apresentava.... E tinha pombos, pombos soltava, tinha bexiga que ia no ar, desenhos, vinham artistas... Era uma coisa assim, bem... Vinha a escola de Registro também, de Campinas. 

 

P/1 – Era a farra...

 

R – Era a festa!

 

P/1 – E você sempre participando?

 

R – É. Na verdade, essa festa eu participei em dois momentos, como aluna e como funcionária. Porque como funcionária eu também ajudava na organização, porque mobilizava todo mundo. Então, a gente acabava... Eu fazia as duas coisas, eu não sabia nem se eu era aluna ou se eu era funcionária [risos].

 

P/2 – E outras festas cívicas... Você lembra se eram comemoradas?

 

R – Eram comemoradas. Tinha o Dia da Bandeira que a gente comemorava, o Dia da Independência. Todas as datas. O Desfile de 7 de Setembro sempre foi uma banda da escola, mas a gente cantava o Hino Nacional, hasteava a bandeira.

 

P/1 – E aí, assim... paralelo a isso... Ah, não, falta só mais uma da escola. E a formatura, você lembra?

 

R – Eu lembro da formatura. Inclusive eu ia até procurar as fotos, mas está na casa da minha mãe, aí não deu tempo. A formatura foi onde era o restaurante que hoje é um departamento. E a formatura foi aquela festa, aquela solenidade. Comprar roupa, que roupa que a gente vai, vai com roupa branca, vai com roupa que cor... Aí nós combinamos: todo mundo de branco com uma blusa vermelha por baixo, uma flor vermelha aqui... [risos]

 

P/1 – Por causa das cores da escola?

 

R – Não, acho que a gente gostava mesmo. E também tinha as cores da escola, né? Acho que veio as duas coisas ali. E a formatura foi aquele evento, aquela solenidade. Um professor foi o nosso paraninfo, que foi o professor Paulo. Aí, na época, o diretor era o Almir, da escola, professor Almir. Também começamos a preparar a formatura acho que em agosto...

 

P/1 – Isso de que ano?

 

R – Foi em 1981. Começamos a preparar a formatura em agosto pro final do ano, organizamos todo o evento, convidamos o paraninfo, os pais. E aí foi aquela festa.

 

P/2 – E o que significou pra você estudar na Fundação Bradesco? Na tua formação, na tua formação profissional?

 

R – Olha, estudar na Fundação, eu falo para os alunos da escola: pra mim foi o grande diferencial. Porque na Fundação Bradesco eu aprendi a questão do respeito, da organização, da ética, da cidadania. E até eu conversando com os alunos, eu falo isso pra eles: “Olha, depende de você. O restante você que tem que traçar. Cada um vai traçar o seu destino, o seu futuro. Mas é uma grande chance”. Atualmente ela é mais disputada, naquela época era disputado demais, tinham filas e filas. Mas hoje tem muito mais porque a Fundação Bradesco não era tão conhecida. Aqui em Osasco eu vejo que o grande sonho das pessoas é de poder colocar o filho pra estudar na Fundação Bradesco. Naquela época tinha as escolas públicas que eram legais, não posso falar mal; a escola pública hoje também tem um trabalho bem interessante. Mas naquele período, tinha todo um diferencial também. E hoje já não tem tanto, as pessoas já querem uma escola diferente para os filhos.

 

P/1 – Você estava falando da escola pública. Você, quando era aluna da Fundação, convivendo com os outros alunos que não faziam parte, com seus colegas, você percebia uma diferença da educação, o que você foi mudando?

 

R – Eu percebia. Era nítido a diferença no próprio ensino; às vezes, a gente pegava o caderno pra comparar quem não conseguiu entrar na Fundação. E a gente via a diferença. Naquela época já existiam aulas vagas, na Fundação não tinha aula vaga. A gente percebia que na Fundação, existia uma diretriz para onde você queria seguir o seu caminho. Nós já éramos orientados para o curso que você queria fazer, qual a profissão mais interessante. Eles não tinham esses diferenciais. Então, dava pra ver que a formação era bem diferente, já naquela época.

 

P/1 – E aí, concomitante a isso, você entrou também para trabalhar?

 

R – É. Para trabalhar. Na verdade, entrei muito rápido. Porque naquela época, o Bradesco tinha mais de 90 mil funcionários. E tinha uma demanda grande, sempre estava pegando pessoas. Todos os dias, acho que eram admitidas várias pessoas. E quando eu entrei pra estudar, quando eu estava no Técnico, mais ou menos no mês de março, eles me chamaram – se eu queria fazer um teste pra trabalhar. Aí, o que eu queria mais era trabalhar também e estudar. Aí eu fiz o teste e a vaga nessa época, no banco era meio período de escriturário e na Fundação Bradesco eram 8h. Aí, sei lá, me perguntaram: “ O que você preferiria? Trabalhar na Fundação Bradesco ou no banco?”. Aí, como eu brinquei que desde criança eu andava com a mala de professora, que eu queria ser professora, eu falei: “Eu quero trabalhar na Fundação Bradesco”. Só que quando eu entrei na Fundação, eu vi que eu tinha que trabalhar 8 horas, e no banco eram 6. Eu falei: “Ixi, mas eu me dei mal...”. Mas aí, tudo bem. Aí eu falei assim: “Mas por que eu falei que eu queria trabalhar na Fundação? Agora eu não tenho tempo nem pra estudar...”. Mas quando eu comecei a trabalhar na Fundação, eu gostei tanto, era tão diferente do banco que os meus colegas contavam, parecia que lá já era uma grande família, as pessoas se preocupavam com você, não era mais uma pessoa, tanta gente que nem no banco. No banco eram muitos funcionários; lá, não. Aí eu contava para os meus colegas, eles achavam super legal. Eles falavam: “Nossa... mas então valeu a pena trabalhar 8 horas. Porque é muito interessante o que você faz, esse monte de escolas, você ajuda a comprar as coisas para as escolas”. E não eram tantas escolas naquela época; eu acho que tinha no máximo 10 escolas. Mas a gente já trabalhava em função dessas escolas. Então era diferente.

 

P/1 – E você fazia o quê quando você entrou?

 

R – Quando eu entrei, eu trabalhava no setor que hoje é o Setor de Suprimento. Que era um setor que era tudo junto, financeiro e de compras. De compras para as escolas que trabalhavam ligadas ao Departamento de Compras do banco, mas que a gente comprava coisas pras escolas.

 

P/1 – E aí você fazia especificamente o que lá?

 

R – Então, eu fazia os processos de compras, datilografava pra ir para o Departamento de Compras o que ia ser comprado. Mas eu sempre fui muito curiosa, aí eu queria saber o que era aquilo... “O que era esse Spin Light? Pra quê serve esse Spin Light”. “Não, esse Spin Light? serve pro professor dar aula, é um aparelho que tem uma tecnologia moderna...”. “Mas o que ele faz?”. Aí eu queria ver o que esse Spin Light? fazia, quando chegava eu queria ver ele funcionando, eu ia lá testar. E aí a gente remetia. Tudo que chegava, chegava aqui, a gente separava. Tinha uma pessoa que separava para ir pras escolas e um almoxarifado grande. Aí, quando chegava esse projetor, eu queria ver como era esse projetor de slides. Sempre fui curiosa...

 

P/1 – Quem era o seu chefe, na época?

 

R – Na época eu tive o (Damaceno?) que era bravo com todo mundo: “Ai, que chefe bravo!”. Mas não. Ele era uma pessoa bem legal. Era o jeito dele. Mas era uma pessoa bem...

 

P/1 – E a trajetória lá dentro?

 

R – Então... Aí eu trabalhei com o (Damaceno?) algum período; o nosso gerente era o seu Carlos de Oliveira. Uma pessoa que eu aprendi muito.

 

P/1 – Da Fundação já? Já tinha saído da escola?

 

R – Da Fundação. Já tinha saído da escola. Uma pessoa que eu aprendi muito, bastante. Ele me ensinou muita coisa que hoje eu fico pensando assim: “Nossa, eu aprendi isso com o seu Carlos”. Ele era uma pessoa rigorosa? Era. Mas naquela época era necessário, era uma outra época. E ele me ensinou muito, muito. Da questão administrativa, de controle, de organização. Aí, depois do seu Carlos, já foi na época da professora Ana Luísa. Aí foi outra trajetória – como você perguntou de trajetória. Então eu entrei como escriturária, em 1979. Mais ou menos em 1981,1982 eu fui promovida a Chefe de Seção. O (Damaceno?) era chefe e eu era sub-chefe do setor. Então, tinha o pessoal que despachava material, um outro que pedia, que comprava. E eu trabalhava com ele – isso ainda junto com o seu Carlos, com o Antônio Carlos – que também foi um grande professor desde aquela época, o Jeferson também. Aí, depois, eu fui trabalhar... fiquei trabalhando vários anos nesse setor, enquanto eu estava fazendo faculdade. Quando eu terminei a faculdade de Pedagogia – foi em 1985 que eu terminei – em 1986 o seu Monteiro, que era o superintendente da Fundação, me chamou e perguntou assim pra mim, se eu tinha interesse de ir para o Setor de Supervisão. Era um setor que estava começando. Quem trabalhava lá era a Sandra Marques, gerente; tinha a Zuleika, o Cícero e o Walter. E estava precisando de mais uma pessoa. Nossa, na hora eu falei: “Lógico que eu quero. É tudo que quero!”. Aí eu fui designada supervisora em 1986 – acho que foi em 1986... é, 1986. Aí eu fui para a Supervisão e fiquei na Supervisão até o ano 2000, começo de 2000. Eu fiquei 16 anos no Setor de Supervisão. Então, nesse setor foi onde eu mais cresci na Fundação. Porque eu tive a oportunidade de conhecer quase todas as escolas, de participar da implantação de várias, de montar, de selecionar profissionais. E naquela época, a estrutura era toda centralizada na Supervisão, não tinha setores como tem hoje. Então fazíamos de tudo: implantar escola, até selecionar diretor e, mesmo depois eu retornava para fazer a supervisão, pra ver se o almoxarifado estava em ordem, se o plano de aula estava certo. Então, a gente fazia o pedagógico, o administrativo, tudo.

 

P/1 – E conta esse processo: “Vamos montar uma escola em tal lugar”. Como que é todo esse processo que vocês faziam?

 

R – Então, por exemplo, naquela época, deixa eu pegar um exemplo... Paranavaí. A escola de Paranavaí vai ser implantada. Aí, eu me lembro que eu participei quando eu era do Setor de Compras, nessa época não... eu não era do Setor de Compras, mas como que fazia: então já tinha o que ia ser em cada espaço da escola; então tinha um setor que comprava tudo para aquela escola. Ia tudo de São Paulo – até o lápis ia daqui. Aí comprava tudo. O terreno normalmente, era um terreno escolhido, um terreno doado pela Prefeitura, enfim. Aí começava a construção da escola – normalmente a construção sempre era rápida, começava no segundo semestre para inaugurar no ano seguinte. Aí, lá no mês de novembro, a gente já começava com o processo da supervisão, a ir até o local para selecionar os funcionários – os futuros – o diretor, os professores, o escriturário, enfim, tudo. O merendeiro naquela época era o servente que limpava a escola. Então íamos para selecionar, era uma equipe de cinco, seis pessoas. Aplicava uma prova, elaborava uma prova, aplicavam para todos os funcionários. Aí a gente tinha a entrevista, corrigia a prova, entrevistava, até formar todo o corpo docente – do diretor, como eu falei, até o servente. Então selecionava todo mundo, organizava. Aí depois vinha para a seleção de alunos, já entrava o diretor com a equipe de orientadores, de professores, o diretor normalmente vinha pra cá, o assistente, os três orientadores, o secretário. Ficavam uma semana aqui recebendo um monte informação, informação e informação... porque eles tinham que começar. Aí depois eles voltavam e nós também. Nós íamos fazer o processo de inscrição de alunos, tinha aquela semana de divulgação, de inscrição, de visitas às casas. E depois, já no primeiro dia de aula, nós participávamos de tudo. Eu me lembro de Paranavaí, por exemplo, na véspera da escola inaugurar, até chão a gente ajudava a limpar, porque a escola tinha que estar pronta no dia seguinte. Então tinha que organizar, montar a sala. Montamos a sala de aula, a sala do diretor: “Esse móvel é aqui; aquele é ali”, ia no depósito, pegava o material, colocava no caminhão, ajudava; não ia por no caminhão, mas orientava  a descarregar, onde que ia cada mobiliário. Depois participávamos da primeira semana de planejamento dos professores, o que ia ser discutido naquela semana, o que ia ser refletido, explicava para os professores como funcionavam as aulas da Fundação, o plano de aula, ajudava a elaborar. Enfim, tudo. 

 

P/1 – Até a inauguração?

 

R – Até a inauguração. E depois da inauguração eu ainda ficava uma semana, duas, até o diretor pegar um pouco do ritmo lá, porque eram muitas informações. Aí depois, a gente voltava.

 

P/1 – E essas pessoas que vocês pegavam lá, esses diretores... De onde eles vinham? Quem eram essas pessoas?

 

R – Normalmente eles eram da própria cidade. A Fundação divulgava – saía até no jornal – que ia ter um processo para uma escola nova e tal, eles se inscreviam e, normalmente, eram candidatos da própria cidade. Eles se cadastravam e aí tinha a prova de diretor, a prova de orientador, a prova de professor – professor a prova era por componente curricular. Depois a entrevista.

 

P/1 – E assim... era um choque muito grande? Por exemplo, que a gente sabe que o salário de professor nesses lugares é algo assim, impronunciável. E tinha essa coisa: “Vou trabalhar na Fundação, minha vida vai...”. Essa perspectiva toda?

 

R – Tinha. Ainda tem.

 

P/1 – E era muita diferença, né?

 

R – Muita. Eu me lembro de Propriá, porque essa aí ficou marcada na minha cabeça. Quando eu fui montar a escola de Propriá, eu fui sozinha, inicialmente...

 

P/1 – Em Sergipe, né?

 

R – É, em Sergipe. Aí, Propriá não tinha muitos profissionais, era uma cidade muito carente de profissionais mesmo. Aí eu atravessei o rio São Francisco de barco. Foi uma aventura, porque era um barquinho bem simplesinho... Aí eu falei: “Ai, meu Deus... – eu morro de medo de água! Como que eu vou atravessar isso aí? Se eu morrer no meio desse rio?”. Tinha uma balsa, mas na balsa só podia ir quem estava de carro. E eu não estava de carro, eu estava a pé, porque eu ia pegar o ônibus do outro lado. Aí, tinha um rapaz de moto; eu falei: “Ai, moço... Posso fazer de conta que eu estou com você pra eu atravessar aqui na balsa?” Aí ele falou: “Pode, pode fazer de conta”. Aí eu fiz de conta que eu estava com o moço para eu poder atravessar na balsa, pra não ter que atravessar no barco, porque eu morria de medo. Aí eu fui até a cidade de Arapiraca – que até o meu pai nasceu lá...

 

P/1 – Aí já vem toda essa coisa...

 

R – É. Aí veio tudo isso. Aí eu tinha um tio-avô que morava lá, ainda aproveitei e tirei um tempinho pra ir conhecê-lo e fui lá. Conversei com o gerente da agência do Bradesco, aí ficamos cadastrando currículos também de Arapiraca, pra trabalhar em Propriá. Cadastramos currículos de Palmeiras dos Índios que é outra cidade...

 

P/1 – Que é a da sua mãe...?

 

R – Não. Minha mãe é União dos Palmares. Cadastramos de Palmeiras dos Índios, cadastramos de Penedo. Aí voltei, analisei os currículos. Aí foi uma equipe para a gente aplicar a prova. Aí aplicamos a prova e tal. Aí falando em salário, que você perguntou do professor: essa me chocou muito, porque, na época, a Fundação Bradesco pagava assim.... era CR$2.000,00 o salário de um professor PN1 que é de educação infantil, da quarta série. E na cidade, pagavam 200...era uma discrepância imensa. Então assim, para professor, sempre tinha uma concorrência enorme. E quando a gente falava o salário na entrevista, a pessoa não acreditava que ela ia ganhar tudo aquilo. Era muito dinheiro perto do que ela ganhava. Mas não é que era muito dinheiro, mas porque ela ganhava muito pouco, entendeu? Até porque a Fundação tinha e, ainda tem, toda uma pesquisa de região, paga um salário compatível com o local, com o estado. Então, era um salário compatível ao de uma escola particular que não é um salário exagerado. Mas para eles era muito, era uma discrepância imensa esse salário. Então, os professores que entravam, são professores nos quais muitos fizeram carreira, muitos se tornaram diretores, porque era muito interessante trabalhar na Fundação, tanto pela questão da aprendizagem, quanto pela vida pessoal. E a gente acompanhou alguns depoimentos, algumas pessoas. Eu me lembro, por exemplo, em Marília que acompanhei a trajetória da Ana Lúcia atual diretora aqui. A própria diretora, a Neusa, as orientadoras, os professores, eles conseguiam muita coisa rapidamente, até na vida pessoal, porque o salário era um salário atrativo, muito bom. As condições – tem o tíquete, tem isso, tem aquilo, que as outras escolas não ofereciam. Então, eles trocavam de carro: “Olha, vem ver meu carro! Já troquei depois que eu entrei aqui! Já consegui comprar meu apartamento na cidade!”. Nossa, então era uma realização.

 

P/1 – E isso também era um reforço...

 

R – Aí era um estímulo. Lógico que tinha profissionais mais motivados ainda, mais dispostos a trabalhar, a colaborar mais.

 

P/1 – E dessas histórias de transformação, tem algum exemplo – você já falou de um – que você vê a pessoa, por exemplo, que não tinha nada e a vida mudou completamente, de Propriá, desses lugares mais distantes?

 

R – Eu me lembro de professores, sim. Lembro de uma professora, até de Propriá, era uma pessoa de uma família simples, de origem simples também, tinha um marido… e, que depois de 3 anos eu voltei até lá e ela veio me mostrar que comprou uma casa, que já tinha um carro, um Fusca que chovia até dentro. Depois ela conseguiu, quando eu fui lá, ela já tinha um Escort da época. Então, que a vida dela mudou, ela contava em depoimentos que mudou muito. Tanto assim, até na maneira de ser dela, na aprendizagem mesmo, na formação dela enquanto professora. 

 

P/1 – E aí, todos eles depois foram... Porque, naquela época, não era obrigado ter Pedagogia. A formação vocês estimulavam?

 

R – Estimulávamos bastante. Porque,naquela época, PN1 não era obrigado a ter Pedagogia. Mas nós já estimulávamos porque era interessante, até mesmo para a formação profissional dele, até mesmo para ele conseguir uma melhoria na instituição, ele deveria ter Pedagogia. E eles já iam, porque a partir do momento que começava a ganhar um pouco mais e que tinha mais condições, é lógico que ele tinha mais recursos e já ia procurar um curso.

 

P/1 – E você acha que isso é uma coisa que, é quase que... todos faziam isso, uma grande parte?

 

R – Todos. Eu acho que era raro quem não fazia. Mas todos, todos, procuravam estudar. Mesmo aquele que já tinha uma faculdade, queria fazer um outro curso, uma especialização, uma pós-graduação. E eles se mobilizavam pra estudar. Até porque, na Fundação Bradesco naquele momento – e hoje mais ainda – o currículo já era algo diferenciado, exigia do profissional conhecer mais sobre o mundo, sobre a vida. E ele já ia buscar isso até para o trabalho dele, para ele ter essa formação e desenvolver um trabalho melhor.

 

P/1 – E vocês supervisionavam isso também?

 

R – Supervisionamos isso. Supervisionávamos a formação dele, estimulávamos a estudar. E também uma coisa muito legal na Fundação, que eu sou um exemplo disso, não só na Fundação, como no banco que valoriza muito a questão do plano de carreira, mesmo do funcionário. Então, normalmente as pessoas entram e têm essa chance de crescer profissionalmente. Então, as pessoas que tinham essa vontade, mais ainda. E nós estimulávamos: “Olha, pra você crescer, é legal você fazer uma faculdade”. Eu me lembro do Genésio, ele entrou como secretário de Natal, hoje é assistente de direção em Caucaia. Eu fui uma que estimulei bastante: “Olha, Genésio, você tem potencial, você é uma pessoa que só precisa ter um curso de Pedagogia, estudar mais, desenvolver...”. E ele foi em busca. Ele foi fazer esse curso, se formou. Depois, continuou como secretário e teve uma chance que, há alguns anos, se mudou, foi convidado. Atualmente, ele é assistente de direção. Então tem vários exemplos assim. Como eu falei, eu sou um exemplo, mas não foi só eu, teve vários.

 

P/1 – E o engraçado é que vocês, aqui em São Paulo, acabam tendo a ligação com personagens desse Brasil inteiro, né?

 

R – É. Enquanto supervisão é o que eu falei, foi assim… um setor, até por eu ter trabalhado mais anos – 16 anos da minha carreira – eu aprendi muito, porque eu convivi com a diversidade de todo o Brasil. De todas as escolas. A gente saía pra viajar, não tinha um monte de funcionário. Até hoje brinco  que, às vezes, vai alguém na minha escola da supervisão e fala: “Ai, eu fui pra Irecê. É tão longe...” Eu falo: “Ah, você foi de carro, né? Você pegou um carro de Salvador a Irecê. Eu ia de ônibus naquela época!”. Eu lembro que era um ônibus leito, mas não interessa: você pegava o ônibus no Domingo, à noite, pra chegar lá na segunda de manhã, á noite inteira viajando. Então tem muitas facilidades que antes não tinha. Mas eu não sei... Naquela época era tão gostoso. Acho que esse negócio de viajar de ônibus foi até melhor, eu aprendi tanta coisa, conheci tantas pessoas, tantas coisas diferentes, tantos costumes.

 

P/1 – E desses aí, conta alguns casos pitorescos. Por exemplo, dificuldade pra chegar, diferença cultural mesmo...

 

R – Ah, eu lembro que uma vez eu passei muita raiva. Eu cheguei a descer e chorar de raiva! Porque eu peguei o ônibus de Salvador, comprei minha passagem e tal. Eu gostava de sentar sozinha, porque como era ônibus leito, tinha um corredor que tinha poltronas individuais. Eu cheguei nesse dia, não tinha mais a poltrona individual; aí eu comprei uma outra poltrona, na janela. Sentei lá no ônibus para viajar, a noite inteira, no domingo e tal. Aí eu dei uma cochilada e tinha um rapaz do meu lado, mas eu nem conversei com ele, quando eu dei uma cochilada, eu percebi que esse rapaz estava se aproximando de mim e eu não gostei... Aí eu peguei e já fiquei antenada. Aí eu dei outra cochilada. Quando eu vi, o rapaz pôs uma blusa no meu colo. Aí eu falei: “Moço, eu não estou entendendo o que o senhor...”. “Não...você está sozinha?”. Aí eu fiquei com muita raiva! Aí eu levantei, fui até o motorista e falei. O motorista: “Ah, aqui é assim mesmo dona... Aqui é assim mesmo...”. Aí eu fiquei com tanta raiva... Eu viajei a noite inteirinha em pé. Seis horas em pé no ônibus para não sentar do lado do homem! Mas, não sentei. E eu cheguei a descer acabada, com uma raiva! A primeira coisa que eu fiz foi comprar minha passagem de volta pra vir sozinha na poltrona. [risos]

 

P/1 – Hoje isso dava um processo...

 

R – É. Mas naquela época não tinha esse negócio de processo. Não tinha esse negócio de assédio, nada disso.

 

P/1 – E outras assim, por exemplo, o norte. Quais as escolas assim...?

 

R – Ah, o norte... Paragominas, por exemplo. Paragominas uma vez eu viajei também, a situação era bem precária. A gente descia em Belém, do avião, e pegava um ônibus. Eram 6h, a estrada péssima, péssima... Aí eu lembro que eu era fácil pra cochilar... Eu estava cochilando no ônibus – eu viajava tanto que eu cochilava, né? Eu cochilava no ônibus, quando eu olhei, uma barata assim na janela! Ai que nojo, Credo! Então a situação era precária, os hotéis muito precários. Lógico que nas capitais sim, mas a Fundação tem muitas escolas no interior. Em Paragominas eu ficava num motel, porque era o lugar melhor da cidade. Aí eu lembro que uma vez eu fui para o motel com uma outra colega que eu era chefe, da regional, nessa época a supervisão já era regional, aí fui levá-la. Era a primeira vez que ela estava viajando, a gente ia ensinar o serviço, como que era e tal. Aí eu falei pra ela – ela é diretora hoje de uma escola da Fundação, lá em Feira de Santana – eu falei: “Ai, Denise... vamos ficar no mesmo quarto, porque a gente vai ficar num motel. A gente não pode nem sair do quarto, porque é estranho.” Aí ela falou: “Vamos”. Aí a minha cama era redonda, com espelhos... Eu falei pra moça assim: “Ah, põe uma cama de solteiro aqui pra ela do lado, por favor”, porque eu não ia dormir na mesma cama que ela. Aí a moça pôs a cama e ela dormiu. Aí eu fiquei uns 3 dias e ela continuou, ela me ligou depois, pra me contar como é que estava a viagem, o que tinha lá, pra trocar idéias. Aí ela falou assim: “Ai, você não sabe o que aconteceu. Quando você veio embora, a moça falou: ‘Nossa, a senhora está sozinha! A sua companheira te deixou... vocês brigaram, vocês discutiram?”. Então, essas coisas eram engraçadas, a gente dava risada. A gente ia até em velório no final de semana, porque não tinha nada pra fazer. Aí ela me ligou e falou: “Ah, Sônia... morreu o vice-prefeito, acho que eu vou no velório. Não tenho nada pra fazer...”. Eu falei: “Vai! Vai no velório, vai na missa...”. Não tinha nada pra fazer, tinha que ir no velório, tinha que ir na missa, para o tempo passar. Para o sábado e domingo ir embora rápido, porque ficar num motel, você já imaginou? Não tem uma janela, não tem nada... 24 horas, sábado e domingo, ninguém aguenta! Pinheiro também era uma grande aventura. Quando eu fui implantar a escola de Pinheiro, eu fiquei lá sozinha, acho que um mês. Eu lembro que era recém-casada casei em dezembro de 1989. Em janeiro de 1990, fui para Pinheiro, para implantar a escola. E fiquei lá. Minha lua-de-mel foi lá sozinha, quase... Lógico que eu casei, tirei férias, viajei de lua de mel e tal. Mas quando eu voltei, fui pra Pinheiro passar minha lua de mel sozinha... Aí fiquei num hotel assim, na época, era até um hotel bom, porque era um hotel do estado. Só que eu era a única hóspede. Tanto é que esse hotel faliu, fechou, porque não tinha hóspede. Eu era a única hóspede. Aí fiquei pra selecionar, pra pegar currículos, pra ir até São Luís também ver se conseguia candidato, porque eu falei pra vocês, nem todas as cidades tinham. E Pinheiro, pra chegar, era uma grande aventura. Porque a gente pegava um ônibus em São Luís e tem muitos búfalos. Então a viagem normalmente dura cinco horas – naquela época durava cinco horas - durava oito, nove horas, porque toda hora o motorista tinha que parar, a gente tinha que descer pra tocar os búfalos pra poder seguir viagem. Aí chegava num lugar, tinha um búfalo no asfalto, descia um, tocava o búfalo, continuava a viagem. Era uma aventura pra chegar até lá.

 

P/1 – E como é que era Pinheiro na época?

 

R – Pinheiro, na época, era uma situação... Como eu falei, o hotel acho que era a melhor coisa que tinha cidade. Era um hotel muito simples; mas era um quarto, mas tinha tv, tinha ventilador. Então era muito bom, porque a cidade, era uma cidade muito... A gente andava na rua, tinha que tocar as galinhas, os porcos, era uma cidade assim, bem precária, mas muito precária. Não tinha restaurante, só um restaurante na cidade. Você ia comer, dava aquele vento, seu prato enchia de terra junto com a comida... Mas, como eu sempre fui boa de garfo, eu comia tudo mesmo, não passei fome em lugar nenhum. Tudo eu experimentava, tudo eu queria provar mesmo.

 

P/1 – O fato das escolas serem implantadas, assim... a região. O que acontece no entorno, com o tempo?

 

R – Olha, eu tenho uma experiência que pra mim foi uma coisa muito marcante. Quando a escola de Salvador começou eu fui pra implantação, eu era supervisora. Então, era um condomínio de prédios… era tipo um Cingapura. Não tinha Cingapura em São Paulo, mas era mais ou menos no estilo. Eram favelas que tinham na cidade, que eram construídos uns prédios lá em Cajazeiras e as pessoas iam morar em Cajazeiras. Era muito longe do centro de Salvador, o transporte era horrível. Então, os funcionários reclamavam muito de tudo, porque eu ia de táxi do hotel até a escola: “Olha, mas você não pode imaginar que dificuldade que é pra chegar aqui! Como o transporte é ruim, a situação é muito precária...”. Aí eu falava: “Oh, gente, mas não é. Eu vejo passar aqui toda hora na estrada”. “Não, porque você não pega o ônibus...”. Eu falei: “Então vou pegar o ônibus com vocês um dia”. Ai maldita hora que eu entrei naquele ônibus! Eu peguei o ônibus que ia até um terminal, chamado Terminal Eva. Nesse Terminal Eva, fazia a baldeação pra ir para a escola. Na hora da baldeação, as pessoas se jogavam pela janela, abria a janela, o cara se jogava pra entrar no ônibus. Aí você não via! Eu fui empurrada pra entrar no ônibus... empurrada! Eu fui pior do que sardinha no ônibus, em lata, assim espremida desse terminal, acho que 2 horas até a escola. Aí eu falei: “Gente do céu... que situação!”. Aí eu lembro que na época eu falei para o diretor: “Olha, vocês têm que lutar. Porque a Fundação tem toda essa condição quando chega num local, pra conseguir um transporte melhor, você tem que começar a fazer ofícios, pedir pra Prefeitura, porque realmente você não vai ter funcionários daqui. Porque é tudo muito longe”. Aí tudo bem. Aí naquela época a gente trocava de regional, de escolas. Eu fiquei sendo supervisora de Salvador acho que um ano, aí mudei de regional. E nunca mais eu fui pra Salvador. Eu fui para o Norte, Nordeste, Sul, Sudeste, mas não fui pra Salvador. Acho que eu fiquei uns 10 anos sem ir a Salvador. Quando eu passei a ser gerente do Setor de Educação Profissional, eu tive que ir até a escola de Salvador. Aí eu peguei um táxi no hotel e falei pro motorista: “O senhor vai pra Cajazeiras...” . Eu me lembro: “O senhor pega a estrada tal, a estrada tal...”. “Não, moça. Agora já tem um monte de estradas diferentes, a senhora não sabe?”. Aí eu falei: “Ah, tá bom. Então o senhor vai”. Quando ele entrou no local, que eu vi que ele virou, ele falou assim: “Aqui é o bairro Castelo Branco”. Eu falei: “O senhor está enganado...”. Ele falou: “Não. É aqui”. Tinha um shopping já lá, aquela Cajazeiras, não era mais aquele lugar. Virou uma grande cidade, emendada com Salvador, com tudo lá: casas muito boas, shopping, hipermercados... Quando eu cheguei, eu falei: “Gente, mas não dá pra acreditar!”. Os terrenos que eram vazios na frente da escola, que não tinha nada, eram prédios. Então, foi uma coisa que me marcou muito, a transformação de 10 anos após da implantação da escola.

 

P/1 – Mas isso geralmente acontece...

 

R – Mas isso acontece em todas as escolas. Um exemplo disso é onde eu estou hoje, que é o Jardim Conceição. Nós começamos o ano passado e em um ano o bairro já teve uma transformação incrível. Hoje já tem asfalto, quando nós chegamos lá não tinha, agora tem iluminação nas ruas mais precárias que antes não tinha. Lógico que a escola vem colaborando, nós temos a arborização do bairro. Então, o bairro vem numa transformação que daqui 10 anos, se alguém for lá, também não vai conhecer com certeza, não vai imaginar.

 

P/2 – A pergunta que eu ia te fazer, mais ou menos você já respondeu... Mas você acha que a Fundação tem influência sobre essa transformação?

 

R – Ah, com certeza. Tem muita influência. Porque onde a Fundação chega, normalmente, eu me lembro de Cuiabá também, ela implanta numa situação bem precária. Depois de um ano, você vai no local, você já vê as transformações. Até das próprias moradias, porque as pessoas vêem aquela escola. Eu me lembro de uma senhora que falou assim pra mim em Cuiabá: “Eu tenho que melhorar a minha casa, até por fora. Essa escola é tão bonita... Minha casa não combina”. Então a gente vê o esforço das pessoas também, até em transformar o seu local.

 

P/1 – E a relação da escola com essa comunidade no entorno: como é que se dá?

 

R – É uma relação muito legal. Eu vejo assim, uma relação de muito respeito. Porque quando a Fundação implanta... Eu me lembro de Jaboatão que quando implantou a escola, é um local assim, bem precário – ainda é, até hoje – que é um bairro muito pobre. As pessoas não acreditam que aquela escola vai ser de graça pro filho dele. Então hoje já não tem isso; quando vai implantar uma escola da Fundação, todo mundo já conhece, quer colocar o filho lá. Antes, a gente catava aluno, não tinha aluno. Porque os pais tinham medo. Eu lembro que alguns pais falavam assim pra mim: “Mas, dona… isso não é verdade. Como que uma escola vai dar uniforme, vai dar material, vai dar livro, vai dar merenda, vai ter dentista e não vai cobrar nada? Vocês estão me iludindo… Eu acho que quando chegar no fim do ano, vai vir uma nota para eu pagar e eu não vou ter dinheiro!”. E a gente tinha que explicar que não. Então, não tinha uma seleção que nem hoje, porque eu lembro que a gente tinha que oferecer vaga, porque eles tinham esse medo. E aí, a gente vê a transformação. Porque esses alunos que entram, são ex-alunos hoje que são médicos, são… sei lá, diversas profissões e o que eles conseguem transformar até o entorno mesmo da escola. Os próprios alunos que vão mobilizando as famílias. E a relação é muito legal, eles têm um respeito muito grande, respeitam a escola, gostam da escola. Nós não temos na Fundação Bradesco problemas de pichação, depredação. O Jardim Conceição, onde eu estou hoje, no início a gente tinha um receio. A escola nunca recebeu nada de depredação, de pichação, muito pelo contrário. Eles cuidam da escola e cuidam da gente. A gente sente isso em todos os locais onde tem Fundação.

 

P/1 – Acesso… Ele facilita o acesso pra você.

 

R – Facilita o acesso. Porque as pessoas que estão lá, eles não querem que nada de mal aconteça nem pra escola, nem para os funcionários, porque os funcionários estão lá pra cuidar dos filhos deles, pra dar uma educação de qualidade para os filhos. Então, a gente escuta eles falarem. Ontem mesmo, uma senhora falou assim pra mim: “Eu busco na Fundação Bradesco a qualidade; é isso que eu quero, a qualidade de ensino”.

 

P/1 – Porque a gente sabe como é complicado você ter acesso a uma favela, por exemplo. Ir lá, em Jaboatão…

 

R – Não. Eu lembro que em Jaboatão eu subi na favela. No Jardim Conceição, hoje, lá tem muito a questão do tráfico, a gente sabe, como qualquer lugar tem. Mas a gente entra e todos conhecem, sabem de onde a gente é. Eu tenho certeza que, daquele bairro, eles sabem até onde eu moro, onde eu nasci – eles devem saber da minha vida mais do que eu… E eles cuidam muito da gente. A gente tem livre acesso. Eu lembro que uma vez, o ano passado, uma pessoa que mora em frente a escola falou assim pra mim: “A senhora pode circular aqui a hora que a senhora quiser, de dia, de noite, de madrugada, que nada vai acontecer pra ninguém”. Como nada aconteceu até hoje mesmo. Porque nós estamos lá para um benefício, para transformar, porque eu acredito que a transformação ocorre através da educação. E eles enxergam isso também.

 

P/1 – Dessas sua época, você já falou muita coisa marcante. Mas tem aquela coisa que você: “Meu Deus... como isso me marcou”? Algum evento, alguma coisa que pra sua vida te marcou e que fez você repensar certas coisas? Uma realidade que te assustou?

 

R – Eu vou falar do passado e de agora. A primeira vez que eu fui para Irecê, como eu falei pra vocês lá do ônibus, quando eu cheguei na cidade, mas não foi dessa vez do ônibus, eu fui no leito, quando eu cheguei na cidade eu fui num hotel que era um horror. Aí eu peguei um táxi e falei para o motorista que eu queria ir na escola da Fundação Bradesco que todo mundo conhece – como conhece até hoje. O táxi era a gás, butijão de gás, eles trocavam o botijão. Quando chegou numa rua, uma rua estranha, o motorista falou assim: “Olha, a senhora fica aqui que acabou o gás. Eu vou lá na cidade buscar rapidinho”. Aí ele pegou o botijão, tirou, colocou na cabeça e saiu correndo pra pegar o gás. E eu falei: “Meu Deus, e agora? O que eu faço? Eu vou descer pra conhecer, já que eu estou aqui mesmo...”. Aí desci. Aí eu olhei assim... “Boate”, “boate”, “boate”. Eu falei: “Nossa... acho que eu estou aqui na rua da prostituição. Sei lá... Mas deixa eu descer”. Aí quando eu desci tinha umas mulheres enroladas na toalha, outras enroladas num tule, mas assim, numa situação de extrema pobreza mesmo. Aí elas perguntaram pra mim de onde que eu era. Aí eu falei: “Não, eu estou aqui conhecendo”. Eu não falei de onde eu era: “Mas no que você está interessada? No nosso ponto?”.  Pelo amor de Deus! O que é isso? Eu falei: “Moça, pelo amor de Deus! Eu não interessada em ponto nenhum. Eu sou da Fundação Bradesco”. “Ah, tá! Meu filho estuda lá. A senhora é de São Paulo?”. Eu falei: “Sou”. “Ah, então a senhora pode ficar tranquila”. Isso me chocou muito, porque eu vi aquela pobreza misturada com prostituição, que aquilo era o único meio de sobrevivência pra viver. Isso aí é uma coisa... Me marcou bastante.

 

P/1 – E mãe de alunos...

 

R – É. E tinham filhos na escola, porque é a melhor escola, pobres, tinham todo o perfil.

 

P/1 – Hoje essa região ainda existe lá?

 

R – Eu acredito que não. Porque anos depois eu voltei e não existia. Eu acredito que não, porque isso aí foi mudando. Isso aí foi 20 anos atrás.

 

P/1 – E aí a sua trajetória lá, você não ficou só na Supervisão? Depois você...

 

R – Não. Como eu falei, eu fiquei 16 anos na Supervisão. Aí na Supervisão teve várias mudanças, como todo local tem, vários momentos. Então, primeiramente, a Sandra foi minha chefe;,uma pessoa que eu aprendi muito também. Depois, a Zuleika, e nos tornamos até amigas, ela saiu recentemente da Fundação, mas é uma pessoa que eu considero bastante – que você já entrevistou.

 

P/1 – Vocês fizeram muitas viagens juntas?

 

R – Fizemos bastante viagens juntas, nós trabalhávamos juntas. Aí mudou o Setor de Supervisão, passou a ser regional. Aí eu era coordenadora da Regional Nordeste, foi meu último período de Supervisão. Ia sempre com a professora Ana Luísa, a professora Cristina, pessoas assim, maravilhosas, que sempre... A professora Ana Luísa, uma experiência fantástica, vocês vão poder conhecer, acho que ímpar na Fundação. E depois, o Antônio Carlos, que é uma pessoa maravilhosa também, ele era gerente do Setor de Educação Profissional e Telecurso. Aí, o Setor de Educação Profissional, ele me... a Zuleika tirou licença maternidade, ela já tinha passado pra lá, ela era da Educação Profissional Técnica, só ela estava começando. Aí ele me falou se eu queria assumir,  ficar no lugar da Zuleika durante a licença maternidade dela. Eu fiquei. E aí, como ele já conhecia o meu trabalho, gostava, surgiu uma vaga pra gerente do Setor de Educação Profissional Básica, aí ele me convidou e eu fui, no ano de 2000. Fiquei lá de 2000 até 2004.

 

P/1 – Esse Telecurso que você falou é o que era parceria com a Fundação Roberto Marinho?

 

R – Ainda é.

 

P/1 – Ainda existe?

 

R – Ainda existe. Na minha escola tem. Eu tenho 810 alunos do Telecurso.

 

P/1 – Explica um pouco o que você souber dessa parceria, de como a escola utiliza esse processo.

 

R – Então, na escola, o objetivo do Telecurso é a escolaridade para os pais e para a comunidade, porque normalmente as escolas da Fundação como são em bairros carentes, as pessoas não tiveram muito acesso a escolaridade, são pessoas que vieram de outros estados. Então, o objetivo é promover a educação, a inclusão dessas pessoas na educação, a partir do ensino fundamental, que seria de quinta à oitava série e depois, o ensino médio – que é o antigo colegial. Então, nós fazemos semestralmente inscrições de pais, da comunidade, eles vão até a escola e eles participam diariamente de aulas. Então, tem o monitor que media e eles assistem o vídeo, tem o livro que é da Fundação Roberto Marinho, onde eles fazem as atividades e tudo mais. E tem um setor aqui que é o setor envia as provas, os exames finais, materiais complementares, onde tem professores que assessoram os monitores também, se necessário.

 

P/1 – E isso nas 40?

 

R – Nas 40. Além das 40, tem Tele-Postos também. Tem empresas que têm o Telecurso.

 

P/1 – E vocês estão juntos em tudo?

 

R – Juntos em tudo. Então tem acho que 50... em São Paulo, deve ter umas 55 empresas hoje que têm o Telecurso para os funcionários. E tem o setor aqui que supervisiona.

 

P/1 – E aí, você lá, o que você fazia?

 

R – Não, lá eu não era do Telecurso. Eu era da Educação Profissional. Eu cuidava dos cursos profissionalizantes para a comunidade, cursos de curta duração que nem sempre são de curta porque um curso de cabeleireiro, por exemplo, ele tem quase um ano de duração. E tem aqueles também que têm duas semanas, que têm 30 horas, cursos de artesanato, cursos de tecnologia gráfica, de cabeleireiro, manicure, toda a parte de embelezamento, de costura, de moda, de cozinha. Nós começamos a estruturar, organizamos os materiais por área, participei de um processo de reestruturação mesmo desse setor, onde nós agrupamos os cursos por área de conhecimento, começamos a elaborar materiais didáticos - que antes não existiam - dar diretrizes para as escolas de como selecionar os monitores para esses cursos, selecionar os alunos, como montar as turmas, reorganizamos os ambientes onde esses cursos acontecem. Foi um momento muito legal também onde... 

 

P/1 – São cursos para… vou falar as 40, que a gente já sabe, para as 40 escolas do Brasil?

 

R – Isso. Para as 40 escolas. Onde as escolas realizam uma pesquisa e atendem a demanda necessária naquele momento. Então, por exemplo, esse ano, sei lá... na minha escola, no Jardim Conceição, ano que vem eu vou priorizar área de embelezamento e moda que é uma demanda necessária que eu já fiz uma pesquisa. Já a escola de Irecê ou sei lá, de repente lá não é moda, eles vão priorizar alimentação que é uma demanda necessária para a época. Então, sempre ocorre, mas a centralização é aqui na matriz, no Centro Educacional.

 

P/1 – Mas até essa pesquisa de demanda tem uma sistematização?

 

R – Tem uma sistematização que na época eu participei que nós elaboramos, orientando as escolas como deve ser essa pesquisa, como ela vai priorizar, como formará as turmas, quantos alunos devem ter por turma, como é a seleção do profissional, como será o material didático, enfim...

 

P/1 – E na realidade, é um curso que tem uma característica que ele é totalmente ligado a comunidade, né?

 

R – É. Ele é totalmente ligado porque o objetivo é qualificar ou requalificar o trabalhador para o mercado de trabalho.

 

P/1 – E o resultado?

 

R – O resultado é interessante. Ontem, por exemplo, na minha escola, tive o primeiro encontro de alunos egressos desse curso. E é muito legal eles contando, a gente teve um palestrante e teve depoimentos, o que isso mudou na vida deles. Como eles estão colaborando hoje com a renda familiar ou até mesmo se mantendo, mantendo a casa sozinho. Como eles estão conseguindo vender, produzir esses materiais, oferecer em shoppings, até na própria casa deles, abrir comércio. É isso que a gente busca mesmo, a qualidade e a melhoria disso.

 

P/1 – E o resultado no Brasil foi...?

 

R – O resultado no Brasil é assim. Quando eu trabalhava aqui, a gente podia observar os depoimentos de pessoas que conseguiam até uma profissionalização através desses cursos.

 

P/1 – Que também, por ser da comunidade, já também dá uma melhoria no entorno...

 

R – Ah, sim. Por exemplo, na frente da minha escola hoje, tem uma senhora que fez o curso de manicure e a filha de cabeleireiro. Elas estão atendendo na residência. E ela estava falando pra mim: “Não, mas o ano que vem, dona Sônia, eu vou abrir uma porta. Então eu quero fazer maquiagem, porque eu vou abrir...”. Ela já tem uma placa lá: “Cabeleireira, manicure e pedicure”. Ano que vem ela falou que vai oficializar, vai abrir firma e vai realmente instalar um salão, mesmo lá. Então, a gente percebe o quanto isso muda. Por exemplo, o curso de cabeleireiro que hoje é o último dia de aula, iniciou em abril e está terminando hoje lá na minha escola. O que nós fizemos? Requalificamos os cabeleireiros da região porque não adianta ficar formando vários cabeleireiros pra trabalharem todos no mesmo local. Embora São Paulo ser grande, a nossa idéia não é que eles fique mno bairro, mas que procurem salões fora. Semana passada mesmo eu recebi um telefonema de um salão no Jardins que uma ex-aluna nossa está trabalhando como manicure e ela indicou a nossa escola, que lá tem cabeleireiro. E a dona me ligou pedindo um cabeleireiro. Então isso é legal, é isso que queremos, que ele saia do bairro, que ele tenha um olhar diferente, que abra essa visão dele. Mas nós também requalificamos os cabelereiros. Então, hoje, o salão dele já mudou, já abriu um salão melhor, melhorou a fachada, o atendimento. Então, tem até funcionários que vão no salão do bairro.

 

P/2 – Vocês priorizam os pais de alunos nesse curso ou não? É aberto?

 

R – Ele é aberto. Mas se tem pai de aluno, a gente procura priorizar, sim. Lógico, que se o pai tem interesse, porque se é um pai também que quer fazer só pra ele ter o curso, e fazer na casa dele, não.

 

P/1 – E, por exemplo, ela ligou, uma empresa procurou. Tem um departamento, alguma coisa que faz essa ponte entre empresas e essas pessoas?

 

R – Tem. Na escola, quem faz essa ponte é o orientador e o diretor. Por exemplo, não só nesses cursos, mas no ensino médio. Os meus alunos do ensino médio, hoje, estou com 50% deles já trabalhando. Lógico que tem muitos aqui na organização, até porque tem o Programa Adolescente Aprendiz. Mas nós também oferecemos para as empresas. Eu recebo telefonemas de empresas que falam assim pra mim: “Olha, eu estou precisando...”. Outro dia “O Boticário” me ligou: “...Eu estou precisando de um estagiário aqui no Boticário. Você tem? Porque eu sei que aluno da Fundação Bradesco é aluno da Fundação Bradesco”. Aí a gente indica. Até hoje está tão engraçado que eu não tenho mais alunos pra indicar do ensino médio, eu não tenho mais ninguém acima dos 16 anos que ou não está fazendo estágio ou está trabalhando já, até com registro. Então, isso é a gente que faz, esse intermédio. Porque o nosso objetivo também... Até porque esses meninos precisam trabalhar e contribuir com a renda familiar.

 

P/1 – Desses cursos também, aí você foi pra escola...

 

R – É. Eu era gerente desses cursos. Aí o Antônio Carlos ele sempre falava assim pra mim, ás vezes, quando tinha uma vaga de diretora, eu me lembro que ele chegou a me oferecer aí alguns locais : “Você não quer ser diretora lá no estado, sei lá, no Nordeste, numa cidade, lá no Distrito Federal?”. Eu nunca quis sair. Porque é como eu falei pra vocês, eu sou de Osasco, meus pais são praticamente daqui, porque chegaram aqui muito jovens. A minha família, somos somente eu e meu irmão, de filhos. E meus pais agora estão precisando mais ainda da gente,  estão ficando velhos. E meu marido também tinha um emprego, ele também gosta daqui de São Paulo, não tem interesse. Então eu falava: “Antônio Carlos, eu não tenho interesse porque meu marido trabalha aqui, meus filhos são pequenos, meus pais precisam de mim. Eu não quero sair de Osasco”. Então eu nunca fui. Aí quando começou a escola do Jardim Conceição, em Osasco, nem me passou pela cabeça, até porque, sei lá, não me passou que eles iam me convidar. Porque tantas pessoas que estão começando, tanta gente que tem uma formação melhor do que a minha, que são doutores, que estão no Setor de Currículos, nos outros setores da Fundação. Não me passou. Aí um dia a professora Ana me chamou e me convidou pra ser diretora. Eu fiquei até assim, surpresa; e fiquei feliz, porque eu sempre quis ser diretora, como eu falei pra vocês, eu sempre quis ser  professora, diretora, orientadora. Aí eu falei: “Nossa, vai ser um desafio. Mas eu vou... Lógico que eu vou!”. Nem pensei: “Você não quer conversar com o seu marido?”. “Não, eu vou. Eu não quero conversar com o meu marido não. Eu vou. Meu marido vai gostar”. Aí eu aceitei e foi tudo tão rápido. Isso foi em dezembro, em março eu já estava lá como diretora. Já tinha participado do processo de seleção de todos os funcionários, de todos os alunos, de tudo, da obra, já ia lá, dava palpite.

 

P/1 – Isso antes de ser convidada?

 

R – Não. Depois que eu fui convidada, foi tudo muito rápido. Porque ela me convidou em dezembro, em março a escola começou. E de dezembro até março eu me envolvi, tudo. Eu ia lá xeretar, dava opinião na obra: “Põe isso. Tira isso. Não sei o quê...” e já comecei. Enquanto Setor de Educação Profissional, eu nem sabia que eu ia ser diretora, já fui para o Jardim Conceição porque o Antônio Carlos – acho que ele já tinha até segundas intenções, sei lá – me chamou e falou assim: “Sônia, vamos dar uns cursos lá, até pra gente ir conhecendo a comunidade, vendo onde que vai ser essa escola, como que é... Aí você vai trazendo informações para a diretoria, de como é o bairro e tal”. Aí em agosto de 2003 eu já estava lá no bairro, já conhecia o padre, o líder de bairro, começamos a dar o curso de artesanato na Igreja. Aí já fui conhecendo as pessoas e comecei a falar do Jardim Conceição, já conhecia aquele lugar, ia lá à noite ver os cursos, tal... De repente, eu estava lá.

 

P/1 – Então você é um caso único que acompanhou tudo na escola: desde os móveis, montar tudo... Acho que é uma das poucas diretoras que fez isso.

 

R – A pedra fundamental. Quando eles lançaram a pedra pra começar a construção da escola, eu estava lá, porque eu levei a banda, eu cuidava da banda. Mas eu não sabia que eu ia trabalhar lá. E era um lugar feio, um lugar longe. Aí quando me falaram, eu respondi: “Nossa, pra chegar naquele lugar longe e feio...”. Hoje é tudo tão perto da minha casa, tem dias que em 10 minutos eu já estou na escola. É engraçado quando você vê assim... No começo é tudo tão difícil, né? Então, quando eu era gerente da educação profissional, eu cuidei também do museu histórico que eu acho que você conheceu...

 

P/1 – Da implantação dele?

 

R – É. Porque esse museu já foi em outro espaço. Então, na verdade, quando eu cheguei lá, eu cuidei daquele andar de cima, onde tem a reserva técnica, o acervo. Ajudei a Adriana, nós compramos os móveis, organizamos o espaço. E da banda também, da Fundação que hoje é ligada a escola. 

 

P/1 – Então você tinha várias funções?

 

R - … E o Prédio do Cristo, que tem os cursos de… eu era responsável por aquele prédio que tem os cursos de Tecnologia Gráfica, cursos de Informática.

 

P/1 – Que aí é o antigo Cetag [Centro de Treinamento em Artes Gráficas]?

 

R – É, o antigo Cetag. Onde o Marcos trabalhava.

P/1 – E como que era essa relação com os outros departamentos? Tem o Centrefor [Centro de treinamento Bradesco] também…

 

R – Não. O Centrefor é da minha época quando eu entrei. Depois deixou de ser Centrefor.

 

P/1 – Conta essa história pra gente que é onde a gente menos entende...

 

R – Bom, quando eu entrei pra trabalhar na Fundação, eu entrei pra trabalhar num prédio que hoje é a inspetoria que era o Pronamp [Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural]. 

 

P/1 – De alimentação?

 

R – De alimentação.

 

P/1 – Como que é a sigla?

 

R – Pronamp.

 

P/1 – Programa...

 

R – Programa de... Ai, eu não lembro muito bem a sigla, era um programa de alimentação. Lá tinha um setor de treinamento que era muito forte. Hoje eu percebo isso, naquela época eu nem percebia. Eu acho que o setor que eu trabalhava estava lá de empréstimo mesmo de espaço, porque não tinha nada a ver. Era o Centrefor que era o auge. Aí eles construíram esse prédio que hoje é o prédio do Centro Educacional. Tinha um túnel. Você conhece lá? Você passa pelo túnel, nossa, era um auge passar por um túnel, debaixo da rua e aquele prédio. maravilhoso. Aí, todo mundo ia mudar pra lá. Só que o prédio era do Centrefor. Por quê? Porque esse prédio foi construído para esse setor de treinamento que era o Centrefor.

 

P/1 – Que treinava os funcionários do banco...

 

R – Que treinava os funcionários do banco. Até a Zuleika trabalhava nesse Centrefor aí, nesse setor de treinamento, não era nem supervisão. Aí eu fui pra lá, pra trabalhar lá, mas a gente ia ocupar um espaço do prédio, era um andar porque o forte era todo treinamento. Tudo era Centrefor. Tinha até alojamento, as pessoas que vinham, por exemplo, de outros estados. Atualmente, onde é o prédio da Previdência era um alojamento, um hotel. Então, as pessoas se hospedavam lá, dormiam lá, ficavam a semana inteira lá, tinha restaurante, tinha tudo. Toda uma estrutura pra dormir, para já ir pro outro dia de manhã para o treinamento que era lá no prédio do Centrefor. Então isso aí ficou anos como Centrefor. Até hoje é o prédio... As pessoas: “Ah, lá no Centrefor?”. Só que não tem nada a ver mais com o Centrefor. Depois de alguns anos, eu lembro que foi acabando esse programa de treinamento. Na verdade não foi acabando, porque hoje tem um setor de treinamento que é imenso, mas ele foi passando para o banco. Aí onde era o prédio da Cooperativa, virou o prédio do treinamento que esse Centrefor foi pra lá. Mas não foi como Centrefor, foi como treinamento que hoje é uma coisa imensa. Aí tinha a Pecplan que mexia com touro, com sêmen, com vaca, com não sei o quê, tudo no mesmo prédio. E essa Pecplan comercializava, vendia sêmen, produzia. Aí depois essa Pecplan acabou também. Aí virou tudo Fundação Bradesco e aos poucos foi se transformando. Quando viu, aquilo lá era Fundação Bradesco, o prédio inteiro. Era tudo misturado, aí depois, há uns seis, sei lá... uns sete, oito anos, cada andar virou um departamento. Aí tinha as pessoas que eram dos setores, por exemplo, o Antônio Carlos que trabalhava no expediente, ele cuidava do expediente, assessorava a diretoria, tipo um assessor, e ao mesmo tempo, era gerente de tudo lá. O Jeferson era do Financeiro, gerente do financeiro. O Nivaldo veio de Campinas e era gerente de informática da  Fundação. A Cristina era gerente do Telecurso. Aí depois eles foram reestruturando. A professora Ana, quando chegou, deu uma grande guinada na Fundação e isso foi mudando. Aí ela foi organizando, até modificando os nomes, eram uns nomes esquisitos que não tinham nada a ver. E aí ela foi organizando e  transformou aquilo lá em quatro departamentos, que é o que se conhece hoje. Então, tem o departamento de tecnologia, o Nivaldo ficou gerente, quem cuida de toda parte de informática, de tecnologia, de uma escola imensa – a Escola Virtual, que tem um monte de cursos. O Jeferson foi gerente de toda a área administrativa e sempre trabalhou com o setor financeiro, em mobilizar. O Jeferson foi meu colega, nós trabalhamos juntos, depois tornou-se gerente da área financeira, da área administrativa, do setor de recursos humanos, de expediente, de seleção. O Antônio Carlos passou a ser gerente do setor de educação profissional, técnica, básica, telecurso. A Cristina era gerente de toda a educação básica da fundação – de educação infantil até o ensino médio. Então ela foi estruturando, a professora Ana e transformou aquilo em quatro grandes departamentos.

 

P/1 – A gente está vendo que a LDB [Lei de Diretrizes e Bases da Educação] também forçou algumas mudanças...

 

R – Sim, porque com a LDB, por exemplo, quando me tornei gerente desse setor, fui em função também da LDB. Porque essa estruturação que o (Marcos Naglia?) falou pra vocês do Cetag [Centro de Treinamento em Artes Gráficas], do Cecap [Centro de Empreendedorismo e Inovação], quando eu cheguei lá, tinha o Cetag ainda, o Marcos foi meu chefe um período, porque ele saiu logo também. Aí eu fui pra reestruturar esse Cetag, porque não tinha mais nada a ver. Eram cursos da área gráfica, que antes tinham uma demanda porque tinha a Gráfica Bradesco; isso aí já não tinha há anos. Então a LDB já veio com um novo parecer que tinha que ser cursos voltados para a área de indústria e de tecnologia gráfica. Então, fui conhecer, fui em busca. Fui no Senai [Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial], porque tinha uns cursos parecidos, contratei consultores para escrever os materiais didáticos, pegamos tudo que tinha lá: “Vamos transformar”. Então: “No que é que cabe?”. “Cabe na área de indústria”. “Quais são os cursos, na área de indústria, que têm a ver?”. “Tecnologia Gráfica”. “Que curso que a gente pode dar?”. Então, onde tinha impressão, tipografia – não tem mais tipografia, mas também não podemos perder essa história, então, podemos dar um curso de composição, para conhecer os tipos, mas só onde eles vão ver a teoria que isso é importante. Mas não ficar imprimindo tipos, que isso aí não leva a nada. “Mas as impressoras?”.“Vamos colocar lá num hall”, que vocês depois podem ir visitar, que aquilo lá fui eu que ajudei a montar, onde é legal também o aluno manusear esses tipos, de repente, ligar aquela impressora para ver como era, há muitos anos, na época do (Guttemberg?), tem lá... Então ficou tipo um museuzinho, uma coisa histórica que a gente montou.

 

P/1 – Mais de prático também...

 

R – Prático, mas também o resgate histórico. Aí nós montamos cursos também na atualidade: “O que é que nós precisamos na área de gráfica, que não tinha lá?”. A área de informática, computação gráfica. Então, nós criamos cursos de Photoshop, Pagemaker, Design Gráfico, desenho – já tinha, mas reestruturamos para desenho artístico e publicitário. O curso de impressão off-set continuou, produção gráfica.

 

P/1 – E onde é aplicado esses cursos? No prédio?

 

R – No prédio do Cristo.

 

P/1 – E aí, como é que são selecionadas essas pessoas?

 

R – São pessoas da comunidade. Tem um banco de dados, ela preenche, faz a inscrição dela. Aí, por exemplo, vai começar o curso de Photoshop, lógico que para o curso de Photoshop a intenção é que ele tenha já feito o curso de informática, tenha feito produção gráfica. Mas, vamos supor que está sobrando vagas. Então: “Quem é? Que área que ele é?”. “Ele é publicitário, ele tem interesse”. Então, vai naquele banco de dados, coloca o perfil, aí sai lá, pessoas que estão fazendo publicidade que têm interesse. Aí chama, vai preenchendo as vagas.

 

P/1 – E nesses anos todos que a gente percebe que você sempre foi tendo desafios, mas qual  foi o maior, o que você acha?

 

R – Ah, eu acho que o maior desafio foi ir para o Jardim Conceição porque tudo foi desafio. Ir para a Supervisão foi um grande desafio, porque naquela época, como eu falei, era tudo diferente, tínhamos que fazer tudo, dar conta e tinha que ser certo, porque se desse errado, como que ia ser? As pessoas dependiam da gente também. Então, tudo foi um grande desafio. Nessa área gráfica, aliás, nessa área de educação profissional também foi um grande desafio, porque nós tivemos que reestruturar tudo; eu que estava ali no comando da equipe, tínhamos que pensar nas mudanças em função da LDB e readequar tudo que tinha. Que era tudo legal, tudo bom, cursos interessantes, mas que tinham que ser readequados naquele momento. E depois, ir para o Jardim Conceição foi um grande desafio, por quê? Porque lá eu fui trabalhar com educação infantil, depois ensino fundamental, ensino médio, cursos profissionalizantes, telecurso, aquela comunidade, aquele bairro, enfim, foi uma loucura muito grande na minha cabeça. Mas assim, foi muito legal porque se eu não tivesse a experiência que eu tive na Fundação, de conhecer tudo isso aí que eu contei – que eu fiz um resumo pra vocês – eu não sei como que seria minha vida no Jardim Conceição; acho que eu nem estava mais lá. Porque foi uma grande loucura. Eu fico imaginando: se eu fosse uma diretora que tivesse entrado para ir trabalhar no Jardim Conceição, acho que eu já tinha ido embora, não tinha dado certo. Porque se eu não tivesse esses conhecimentos anteriores, tem situações que como que eu estaria resolvendo, trabalhando com aquela comunidade?

 

P/1 – Então, o dia a dia lá dessa diretora?

 

R – Bom, o dia a dia é uma correria, mas é muito gostoso. Às 7h , a gente já está lá e começa os pequenos – que é de educação infantil até a quarta série, pela tarde, nós temos de quinta a oitava e, à noite, ensino médio – adultos. A comunidade, a procura de vagas era imensa, todo mundo querendo estudar naquela escola... Essa época do ano então, é uma época.... Cada caso que a gente escuta, um pior do que o outro, um mais triste do que o outro. E o dia a dia é assim, muito gratificante, porque a gente consegue enxergar. Hoje já consigo ver assim, essas mudanças significativas de atitudes, de postura, de estudante, de conhecimento, de visão de mundo. Então isso é muito legal.

 

P/1 – E aí, assim, você tem liberdade para implantar alguma coisa, os seus projetos? Como que é a dinâmica? A diretora gerindo isso, a relação com a Fundação?

 

R – Olha, a minha relação com a Fundação é muito legal, porque como eu já vim daqui eu conheço praticamente todo mundo. Então, não tem essa questão de: “Ai, com quem eu falo agora? Com quem que eu resolvo isso?”. Eu já sei com quem eu resolvo. E eu tenho, assim, a liberdade também. Eu tenho essa liberdade. Porque, por exemplo, agora, o ano que vem, o que eu vi quando eu cheguei no bairro? Nós constatamos que o índice de analfabetos era muito grande, muito. Então, nós fomos pra implantar uma sala de Alfa para os pais que é um programa de alfabetização de adultos, com 40 alunos. Mas, tinha uma demanda incrível. Aí o que é que nós fizemos? Chegando lá, eu discuti, conversei... na época, o seu João Cariello que era o nosso diretor foi lá e me perguntou. Eu falei: “Olha, seu João, daria para montar mais turmas porque a demanda é grande”. Ele falou: “Ah, então por que você não monta? Porque a idéia é essa mesmo, a gente acabar com o analfabetismo dos pais”. Aí eu já fiz uma proposta rapidamente e em questão de 15 dias já estava com monitor, livro, com todo mundo. Hoje tem o maior número de Alfa, com 150 alunos. Só que eu tinha um problema: tínhamos sala por dois anos, o ano passado e esse, para essa demanda. O ano que vem eu não teria sala, teria a sala para 40. Aí o que é que eu percebi? Eu conversando com a minha equipe, com o assistente de direção, com as orientadoras: “Poxa, gente... Mas é importante ter mais Alfa aqui nesse bairro. A gente tem que acabar com esse analfabetismo rapidamente. Até para os pais poderem ajudar as crianças e, também, conseguir se desenvolver mais, profissionalmente. Enfim, mesmo que ele fique na casa dele, mas mudar: “Poxa vida! Já pensou uma pessoa que não sabe ler e escrever?”. Aí, esse ano, eu fui buscar uma parceria, que é uma coisa inédita; aqui na Fundação não tem. Nós vamos ter um Alfa num outro espaço, que é um espaço da comunidade, que é um centro social, onde nós vamos ter o material, vamos ter o profissional, mas o espaço físico vai ser há um quilômetro, dois, da escola. Então a gente tem essa liberdade. Lógico que a gente tem que correr atrás, tem que buscar essas parcerias, tem que ter essa visão. Por exemplo, hoje na minha escola, nós estamos colocando o primeiro muro de mosaico que os alunos fizeram. A gente não está colocando na escola da Fundação o primeiro muro; o primeiro muro está sendo na creche do bairro. E isso, lógico, que tudo a gente submete, tudo a gente discute, mas a idéia não é minha e sim da minha equipe. A gente tem que ter essa... Vai conversando com um, conversando com o outro, então um dá uma idéia, o outro dá outra. Aí vai formando, vai discutindo, vai surgindo projetos. Nós temos muitos projetos legais na escola. Temos dança, temos esse de mosaico, o ano passado tivemos um de grafite, temos um de pintura em azulejo. E a idéia é que o aluno aprenda e que a comunidade aprenda a técnica, também. Então, nós temos pessoas participando no dia a dia.

 

P/1 – Uma outra coisa é que a educação, a inclusão, esse trabalho que você fez, como é que surgiu isso?

 

R – Então, quando foi implantada a escola do Jardim Conceição, a Fundação dos Rotarianos ficou sabendo que ia ter a escola e a Fundação tinha um contato. Aí eles perguntaram, consultaram se haveria a possibilidade de mandar os alunos surdos de quinta série, em diante, estudar naquela escola, até porque a escola deles é em Cotia, a Raposo é muito próxima ali. E eles estavam sem ter onde mandar esse alunos, estavam mandando para a rede pública, às vezes, não conseguiam intérprete. Enfim, estava muito complicado. Aí a Fundação fez uma parceria com a Fundação dos rotarianos e já entraram 30 alunos surdos o ano passado, de quinta a oitava série. Esse ano, já tem o ensino médio. Esses alunos estão fora da faixa etária, até porque eles são surdos: alguns pais demoraram pra descobrir que o aluno era surdo, o aluno teve mais dificuldade, então, ele teve que ser reprovado em algumas séries. Nós os incluímos. E essa também é uma atividade muito legal na escola, tem um intérprete e na sala de aula – uma sala comum – tem sete, oito alunos surdos. O professor dá a aula dele, o intérprete vai interpretando a aula e os alunos, hoje, estão muito incluídos. Eles dão depoimentos e nem parece que tem surdos na escola. E esse ano, uma coisa que eu vi que era necessária, eu e a equipe, nós percebemos a necessidade de aprender a se comunicar com esses surdos. Porque, e quando não tem um intérprete? E tem um aluno surdo que dá aula para nós; então nós estamos aprendendo, toda sexta-feira temos aula. Hoje é o último dia de aula desse ano, vai ter até uma festinha no final do expediente. E nós fomos aprender. Lá tem todos os funcionários, então tem: eu, a diretora, tem o orientador, o professor, o merendeiro, inspetor de aluno, a mãe de aluno que quis aprender e a gente abriu. Por exemplo, isso daí foi uma coisa que eu coloquei por minha conta, porque todo mundo quer aprender, vamos colocar. Aí depois, lógico que a gente acabou informando para o Centro Educacional, aí acharam a idéia legal. Atualmente, as pessoas daqui ligam pra mim: “Sônia, não vai ter outro curso? Eu também quero fazer”. Eu falei: “Calma. O ano que vem a gente abre outro”.

 

P/1 – Ou abrir nas outras escolas...

 

R – É...

 

P/1 – Então, a Fundação tem essa liberdade de aceitar propostas nas escolas, experiências que dão certo nas outras regiões e multiplicar...

 

R – Sim. A Fundação trabalha muito com essa questão da multiplicação. Por exemplo, eu tenho um projeto interessante, aí tem o setor de projetos, que é ele que articula. Aí eu mando para esse setor, ele acha interessante, aí fazemos um CD [Compact Disc] e divulgamos para todas as escolas. Lógico que cada realidade é uma realidade. O diretor vai ver se é interessante, e se não, é a equipe. Mas, existe essa liberdade de criarmos e adequarmos de acordo com a realidade. Esse é o objetivo

.

 

P/1 – Tem um certo banco de dados de experiências, assim, vão passando?

 

R – É, tem. Vão passando.

 

P/1 – E os alunos? Como é que eles receberam esses novos alunos que chegaram?

 

R – Todos eram novos. Eles entraram juntos. Então, o processo de adaptação foi muito rápido. Tanto é que, até eu te falei, infelizmente, nós pegamos alunos que não sabiam ler e escrever na oitava série. Mas, eles aprenderam rapidamente a conversar com os alunos surdos. Mais rápido do que ler e escrever. E hoje, isso é uma coisa na escola muito comum. A gente nem percebe, às vezes. Se você chegar: “Ah, e os surdos?”. “Ah, é mesmo!”. Nós fomos com os alunos assistir o Fantasma da Ópera: “Nossa, mas nós não podemos esquecer de levar um intérprete! Tem que ter um intérprete lá, para interpretar para o alunos surdos!”. Então hoje, já se tornou uma coisa muito comum na escola. Muito tranquila.

 

P/1 – E assim, não tem uma discriminação assim, do começo?

 

R – Não. Aliás, assim, até as normas, as regras...

 

P/1 – Eles não são, assim, um grupo que anda junto. Eles são diluídos no todo...

 

R – Eles são diluídos. Lógico que eles andam juntos, porque se eles são surdos, eles têm uma comunidade surda também que frequentam. Vieram de outra escola. Mas um, já namora uma outra que não é surda, que é do bairro, conhece o outro, já vai numa festa na casa do outro. Hoje já está tudo em família ali, né?

 

P/1 – E a escola ajudou nisso?

 

R – A escola ajudou bastante. E os pais contam. Os pais falaram em uma reunião, perguntei para os pais dos alunos ouvintes e eles falaram assim: “Nossa, essa experiência foi fantástica, porque através disso meu filho ficou mais humano, mais solidário”. 

 

P/1 – Essa convivência é rica.

 

R – Essa convivência é muito interessante.

 

P/1 – E a escola tem projetos para melhoria da comunidade partindo dos alunos?

 

R – Sim. Aliás, os projetos são todos em função, a maioria, em melhoria da comunidade. Nós temos um projeto que conta a história do bairro, como começou. Em 2004 e esse ano… em 2004 foi, assim ,o comecinho. Este ano teve uma frequência… ele foi bem trabalhado. Conta como começou o bairro, porque aqueles nomes: Vila da Conquista, Vila da Justiça, Jardim dos Trabalhadores. Então, os alunos foram pesquisar as origens. E isso, o produto final, está sendo um grande painel de azulejos, onde tem as primeiras escolas, o primeiro pronto-socorro, a primeira padaria do bairro. E nós vamos colocar esses azulejos numa escola municipal que é a Escola Municipal Renato Fiuza Teles. Qual a idéia o ano que vem? Nós já resgatarmos a história. Então, os professores estavam conversando comigo: “Agora, Sônia, a gente tem que trabalhar as melhorias. O que é que a gente quer melhorar neste bairro? O que é que precisa? Precisa de saneamento? Então, o que é que faremos para conseguir esse saneamento junto a Prefeitura? Junto às instituições?”. Então, ele vai ter esse foco o ano que vem, dessa melhoria. Por exemplo, os azulejos lá que eu te falei, do mosaico; a intenção é melhorar também o visual do bairro. A arborização do bairro: plantamos várias árvores em toda a avenida, arborizamos as praças, o córrego que tem perto da escola, a rua da escola, as ruas onde moram os alunos, onde eles foram fazer uma pesquisa para ver se o morador cuidaria daquela árvore. Conseguimos uma parceria com a Secretaria do Meio Ambiente de Osasco que forneceu as mudas. Plantamos, o Secretário do Meio Ambiente foi até lá. Plantamos algumas mudas, agora estamos plantando mais. Tem um terreno que fica ao lado da escola e a idéia dos alunos é de conseguirmos uma praça para aquele lugar – eles já estão articulando. Então, todos os projetos são voltados também para o estudo, lógico, que vai estar ligado aos componentes curriculares que eles já estão estudando – e a transformação também do lugar onde eles vivem.

 

P/1 – A mobilização dos alunos...

 

R – Nossa, a mobilização é super legal. Ontem, por exemplo, eles estavam atrás de um pedreiro voluntário para colocar o mosaico. Aí, um senhor falou assim pra mim: “Dona Sônia, até o meia colher está trabalhando! Porque é final de ano, todo mundo recebeu o décimo terceiro e está investindo nas obras, no bairro...”. Aí eles foram atrás. Conseguiram o marido de uma professora da escola que está afastado do trabalho porque está com problema de saúde, ele é pedreiro e hoje está lá, voluntário, para colocar junto com eles.

 

P/1 – Eles também põe a mão na massa?

 

R – Lógico. Eles que vão colocar. O rapaz vai ajudar só com a parte que eles não sabem, enquanto pedreiro. Então, a mobilização, tudo que a gente faz lá o envolvimento é muito legal.

 

P/1 – E nesses cinco anos que você está lá...

 

R – Não. Lá estou há dois anos. Aliás, um ano, porque foi em 2004.

 

P/1 – O quê de marcante já está guardado? Teve alguma coisa marcante, uma relação marcante, um evento marcante, uma criança marcante?

 

R – Teve. Tudo foi marcante ali. A Isabela é uma pessoa marcante na minha vida. Ela é uma aluna que tem um grau de deficiência mental, me lembro muito dela quando teve a pedra fundamental. Ela me chamou a atenção porque ficava sentada lá na rua, na calçada. Aí eu falei: “Nossa, essa menina na calçada...”, observei. Aí depois, no natal de 2003, teve uma arrecadação de brinquedos aqui, fomos levar lá no centro social, eu já sabia que eu ia ser diretora, a Isabela estava lá. No primeiro dia de aula, eu vi a Isabela sendo selecionada na escola. E o quanto que ela mudou depois disso, porque ela era uma criança que o pai não cuidava muito, não tinha muito tempo e nem muito recurso. O ano passado ela repetiu a primeira série. Esse ano, nós resolvemos levá-la ao médico, junto com o pai, num psicólogo. Então ela tomou um remédio. E o quanto que ela aprendeu. Essa semana a professora veio me mostrar: “Sônia, olha a avaliação da Isabela! Ela já sabe ler e escrever”. Então, o quanto que essa criança vem se transformando dentro da escola, vem levando isso pra casa dela, vem cuidando até dela própria, do material, porque, infelizmente, na casa dela não tem tanto recurso. Essa criança me marcou bastante.

 

P/1 – Então você acha que ela vai longe ainda?

 

R – Eu acho. Eu acredito muito na Isabela. No que depender de mim e da equipe, ela vai.

 

P/1 – Então é uma equipe muito atenciosa...

 

R – Muito atenciosa. É uma equipe muito legal, nós acertamos bastante, todo mundo. Porque o Eli, vice-diretor, também tem uma trajetória de 30 anos de Fundação Bradesco. Ele trabalhou só na área administrativa da Fundação, sempre voltado para a área administrativa. E foi convidado para ser assistente de direção, então, a gente já se conhecia de anos de trabalho. E ele, hoje, nunca tinha trabalhado com o pedagógico, com a área educacional, e sabe, deu tão certo, ele é uma pessoa que... o lado professor estava no bolso dele, porque hoje é uma pessoa que está se identificando tanto, que tem uma sensibilidade, que consegue enxergar, é ponderado. Ele é mais ponderado do que eu, ás vezes, pois sou muita afoita, falo demais e ele já é mais tranquilo. Então, a gente vai trocando; um vai completando o outro. Acho que vai formando um grande mosaico. As três orientadoras: a Patrícia como eu falei pra você que veio de Marília, de uma trajetória como professora, aí veio para cá em Osasco e foi pra lá ser orientadora. A Cássia que era professora em Osasco de Língua Portuguesa e foi pra lá ser orientadora, a Neide que foi professora aqui de educação infantil e foi pra lá ser orientadora. Os professores que eram poucos, foram daqui pra lá, outros, foram contratados. E todo mundo com aquela vontade, com aquele empenho. Nós tivemos algumas atividades aos sábados, todos lá, voluntário, todo mundo feliz e alegre. Então, acho que isso é uma coisa legal na nossa escola, tem um clima bem legal.

 

P/2 – Você falou do lado do professor, do seu colega que devia estar no bolso. E aquele seu... que você contou para nós, lá de quando você era criança? Finalmente desabrochou?

 

R – Finalmente desabrochou. Mas ele já tinha desabrochado, porque quando eu ia nas escolas eu me metia a assistir aula, dava palpite, pegava plano de aula e discutia com o professor, com o orientador. Então eu já tinha, mas lógico que ele desabrochou muito mais lá no Jardim Conceição.

 

P/1 – E nesse período, você namorou, casou, noivou, filhos…? Conta um pouco dessa...

 

R – Namorei, casei, filhos – uma loucura. Então, conheci o meu marido eu já estava no setor de supervisão, então, já conheci o meu marido viajando. O conheci e já fui viajar, fiquei um mês... Sabe, foi uma coisa tão, assim, louca. Aí em 1990. Não, 1989, a gente se casou. E casei viajando, viajando, viajando... aquela confusão, sempre viajando. Depois de um ano de casada eu engravidei. Aí o Lucas nasceu, fiquei quatro meses afastada e depois já voltei viajando. Aí o Lucas foi crescendo, eu demorei para ter a Luísa porque eu me preocupava, eu viajava muito. Como cuidaria de dois, se não cuidava nem de um direito? Aí, quando eu tive a Luísa, eu parei um pouco. A Fundação foi crescendo. Eu viajava, mas não viajava tanto assim como na fase do Lucas. E sabe, foi tudo tão assim... Meus filhos cresceram já vendo eu na Fundação, já vieram pra escola e tudo é Fundação. Na minha casa é Fundação, tudo que eu tenho é Fundação, sabe? “Mãe, você está na Fundação?”. “Estou”. “Você chegou cedo hoje, 9h você já está em casa?” [risos]

 

P/1 – Da noite, né? [risos]

 

R – Então... Mas eles já têm essa relação super legal: “O que aconteceu? E o seu aluno tal, como é que está?”. Então, sei lá, a gente acaba vivendo. É tudo uma mistura muito grande, Fundação... Eles estudam na Fundação Bradesco. Então é tudo, não tem como separar.

 

P/1 – E como é que é ver, assim, o resultado de um processo que você ajudou a implantar, de educação, na sua própria casa – porque seus alunos são frutos desse processo também, né?

 

R – Meus filhos...

 

P/1 – É, filhos... É... [risos]

 

R – É muito legal. Você sabe que meu filho, eu estava discutindo com ele lá... ele foi comigo ver: O Fantasma da Ópera e o olhar dele, ele tem 14 anos, aí eu falei: “Nossa, eu estou aprendendo tanto com o meu filho! Como é que ele tem um olhar que eu não tive?”. A gente vê que é fruto até do currículo que ajudamos a implantar. E do que a Fundação propõe? Esse cidadão crítico, desse sujeito que reflete, que pergunta significados, que quer saber o por quê: “Isso aqui não é assim, mesmo”, ele vai discutir, ele vai dar sugestões. Então é muito legal a gente ver isso na casa da gente. Meu filho, ele é bem CDF [Crânio de ferro], acredito que ele tenha puxado o meu marido, assim, bem... E a minha filha é um pouco, mas acho que puxou a mim, ela dá uns nós, ás vezes, no professor. A Ociara é professora dela e, ontem, ela falou assim pra mim: “A Ociara está pegando muito no meu pé, viu mãe?”. Eu falei: “Por quê?”. “Ah, eu fiz minha lição e esqueci meu caderno...”. Porque ela deixa um caderno lá numa sala, o outro em outra sala, o outro no quarto e o outro não sei onde – “, aí ela falou pra mim que eu não tinha feito minha lição! Eu falei pra ela: “Lógico que eu fiz a minha lição! Você acha que eu não vou fazer minha lição? Eu simplesmente esqueci o meu caderno. O que é que você cismou de pegar no meu pé?” [risos].

 

P/1 – Só um detalhe...

 

R – Aí eu falei: “Gente do céu!”. É engraçado, mas você percebe, assim, o quanto... Eu fico imaginando como é que eles vão se desenvolver. Meu filho quer trabalhar, ele falou que no ano que vem já quer entrar no Adolescente Aprendiz, no outro ano já. Eu falei: “Ah, você tem que entrar. Se você quer...”. Mas ele quer ser médico, aí eu fico pensando também se isso não vai atrapalhar, mas se ele quer… Não sei também se ele vai ser médico, ele quer, ele é novo ainda.

 

P/2 – E o seu marido, faz o quê?

 

R – Meu marido trabalhou em um banco por muitos anos, 25 anos. Aí ele saiu e montou um estacionamento.

 

P/2 – Ah, você não falou pra nós também o nome dele?

 

R – Anselmo o nome dele. O Anselmo é meu parceiro em tudo, ele me ajuda em tudo, com os filhos então, acho que ajuda mais do que eu. Ele cuida mais do que eu, muito mais.

 

P/1 – Partindo já para uma avaliação você acha que, tudo bem que são 40 escolas apenas, mas você acha que essas 40 fez diferença na educação do Brasil? A Fundação, quanto a exemplo, faz diferença?

 

R – Lógico que faz. A Fundação Bradesco é reconhecida hoje, até internacionalmente pela educação, pelo ensino de qualidade, por tudo isso. E a gente percebe a grande diferença que tem. No ensino, na qualidade, nas pessoas. Eu vejo assim, se toda empresa fizesse um pouquinho do que a Fundação faz, hoje, o Brasil estaria bem melhor. E percebemos onde a Fundação está, o quanto que ela fez essa diferença e faz. Em qualquer lugar que ela esteja, não importa se é no Oiapoque ou no Chuí, porque ela está do Oiapoque ao Chuí. 

 

P/1 – E você, fez diferença? Enquanto pessoa, essa vivência toda...

 

R – Eu acho que eu fiz. Acredito que fiz bastante diferença sim. Hoje pensando, avaliando, estou quase aposentando já. Aí, às vezes, a gente para e pensa:  “Como tudo passou tão rápido!”. Eu não tenho outra experiência profissional, é engraçado. Acho que se eu fosse trabalhar em outra empresa... Eu já trabalhei em outro lugar, quando eu terminei a faculdade dei aula à noite. E eu fui muito chata, porque eu queria que lá fosse uma Fundação Bradesco e não era. Era muito desorganizado. Aí eu comecei a entrar lá e falei: “Vamos pôr ordem nesse barraco aqui!”. Acabei pondo umas ordens lá, aí o diretor me convidou para ser diretora, eu me lembro da época.

 

P/1 – Já estavam te perseguindo.

 

R – O diretor falou assim: “Você não quer ser diretora?”. Aí foi quando tornei-me supervisora. Aí eu falei: “Eu não vou deixar de ser supervisora para ser diretora aqui nessa bagunça total!”. Aí eu não fui. Ainda bem que eu não fui, porque acho que se eu tivesse ido, hoje minha vida seria muito diferente. Eu acho que o próprio ser humano que eu sou hoje, aquele aspecto humano, foi muito graças a Fundação que, além de ser uma grande escola é uma grande família. Porque a gente se apega muito às pessoas, acaba... não sei... acabou sendo uma grande família mesmo. Tem um lado, assim, que a gente não consegue se desligar. Eu tenho uma colega que fez uma cirurgia essa semana e que é daqui, todo dia eu tenho que ligar para saber dela.

 

P/1 – O que a gente tem percebido, nos depoimentos, é que é uma grande amizade.

 

R – É uma grande amizade. Eu ligo para a mãe dela: “Como é que ela está? Ela está bem? Ela já saiu do hospital? Já comeu? Já foi não sei onde? Já tirou o soro? Já tirou a sonda? Está bem?”. “Está ótima!”. “Ah, então está bom. Amanhã eu já ligo para saber”. Não tem como. A gente acaba criando uma grande amizade, um grande vínculo.

 

P/1 – Ficou faltando só um detalhe: você fez faculdade de...?

 

R – Pedagogia.

 

P/1 – Quer contar um pouquinho como foi isso?

 

R – Conto. Bom, a escolha, acho que desde criança eu queria fazer Pedagogia e trabalhando na Fundação, mais ainda. Na época, eu prestei vestibular, terminei o curso e já entrei direto quando terminei o curso técnico. E fui fazer Pedagogia que era o que eu queria. E não dei sequência em fazer uma pós-graduação não, uma especialização, por conta das viagens, porque eu viajava muito. Então, não tinha como. Eu até cheguei a me matricular, mas não consegui frequentar. Só que eu nunca parei de estudar, eu sempre procurava cursos para fazer no sábado, domingo. Congresso, curso que eu fosse nas férias que eu não estivesse viajando. Então, sempre eu estava enfiada. Aí quando eu fui para o Jardim Conceição, coincidiu que eu falei: “Nossa, agora eu vou parar de viajar...”. Aí eu falei: “Agora eu tenho que fazer as duas coisas ao mesmo tempo para recuperar o tempo perdido!”. Aí coincidiu que a Fundação ganhou uma bolsa para esse curso que eu terminei, duas bolsas. Aí a Ana Luísa me ofereceu porque eu ia trabalhar com alunos surdos e tinha tudo a ver porque era curso de Inclusão, na PUC [Pontifícia Universidade Católica]. Nossa, na PUC eu dei um show lá – eu e a Ana Lúcia. Nós acabamos dando aula lá. Já estão convidando a gente para dar aula, para dar palestra, porque tínhamos muita prática. E a teoria também, porque a gente não deixou de estudar nunca. E lá foi muito legal. Aí já estou pensando agora em fazer um mestrado. E eu vejo que isso é um diferencial grande.

 

P/1 – E o que é que você achou da iniciativa da Fundação de estar fazendo esse trabalho de memória, a partir do resgate da memória das pessoas que estiveram nessa história aí?

 

R – Nossa, eu achei tão interessante. A Alessandra me ligou e falou, mas eu nem me liguei. Eu já conhecia o Museu da Pessoa porque quando eu trabalhei no museu, eu entrei no site, aí vi umas histórias de um casal que se conheceram no interior, que tiveram filhos, aí conta a memória do filho deles... Li a história de um escritor. Eu fuçava lá e lia de vez em quando. Mas, nunca mais eu tinha entrado nesse site. Aí a Alessandra falou. Eu falei: “Nossa, Alessandra! Eu lembro desse Museu da Pessoa, mas ele fala da pessoa! Eu li a história de um homem lá, de um senhor, que era do interior, que casou com uma mulher e ele conta a história dele...”. Aí ela falou assim: “Não, mas acho que é isso que eles vão fazer”. Aí você me ligou depois. Aí eu falei: “Nossa, que estranho...”, mas eu achei tão interessante. Eu falei: “Nossa, que coisa legal, né? Lembrar...”. Eu achei que foi uma coisa, assim, mais humana ainda. Porque, simplesmente, tem o museu, tem um monte de documentos, poderia se construir essa história e já está escrita, pegar lá e contar. Mas não. Eles quiseram conhecer através dos depoimentos. Eu achei tão legal, sabe? Uma coisa tão... Até conversando com a Ociara, ela falou assim pra mim: “Sônia, foi meu prêmio de professor nota dez! Ser escolhida”. Eu falei: “Que legal, Ociara, eu também”. Eu falei: “ Mas, nós já fazemos parte de um museu, se a gente pensar bem, porque, depois de tantos anos, nós já somos um museu! Daqui a pouco nós vamos ser tombadas pelo patrimônio!”.

 

P/1 – Tem alguma coisa que a gente deixou de perguntar e que você acha que valha a pena você estar falando? É seu...

 

R – Não. Eu acho que, assim, que vocês deixaram... Eu acabei falando um pouco de tudo. Eu acho que eu falei um pouquinho de tudo, da minha trajetória, da minha família, do meu casamento, do meu marido – que é meu companheiro, nossa, que me ajuda em tudo, dos meus filhos, dos meus pais. E depois, do meu lado profissional, meu lado profissional é intenso, não tem como não...

 

P/1 – Então, em nome da Fundação Bradesco e em nome do Museu da Pessoa a gente agradece muitíssimo essa sua entrevista.

 

R – Eu agradeço por ter sido lembrada, por ter sido convidada! Isso daí pra mim foi muito legal. Ontem, o Eli falou assim pra mim: “Você fala meu nome lá, tá?”. Eu falei: “Eli, você pode ficar tranquilo que você vai ser citado” [risos].

 

P/1 – Não dava pra você pegar todo mundo porque são só 40. Se a gente pudesse, fazíamos 200 porque olha... de cada um é uma história.

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