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História

O poder em ser protagonista da própria história

História de: Sandra Conceição dos Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/08/2018

Sinopse

Sandra conta sobre sua infância em casa de família, no colégio interno que estudou e nos diferentes bairros pelos quais passou. Relata sobre a adolescência, sobre seu primeiro namoro, os preconceitos raciais que sofreu e de como foi acusada de roubo no primeiro emprego. Narra sua trajetória profissional nas creches e bibliotecas do Hospital de Infectologia e sobre a criação da Fundação Poder Jovem, onde fala sobre preconceito, a dificuldade dos jovens para aderir ao tratamento e que há 10 anos auxilia e estimula adolescentes através da arte. Sandra fala também sobre os principais conflitos que os jovens com HIV enfrentam. Conta ainda sobre as dificuldades e preconceitos que passou para manter existindo a Fundação e como ela encara a gratidão e as oportunidades que a vida oferece.

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História completa

Sandra Conceição dos Santos nascida em 10 de agosto de 1968, paulistana e filha de baiana, Dona Felipa. Filha única e criada até os oito anos de idade na casa da família onde sua mãe trabalhava. Foi lá que Sandra aprendeu matemática e recebia incentivo para estudar, sempre gostou de cálculo e de desenho, por isso queria ser arquiteta.


Quando sua mãe decidiu mudar de emprego foram morar de aluguel. O colégio em que estava matriculada após a mudança teve uma breve passagem na vida de Sandra, pois a primeira atitude que fizeram quando ela chegou foi cortar seu cabelo sem permissão de sua mãe. 

 

 

“Meu cabelo era muito comprido e eles cortaram. Eu lembro que eu me escondi naqueles fogões à lenha. Eu me enfiei dentro do negócio para que não cortassem meu cabelo, mas eles conseguiram cortar. Quando minha mãe chegou ela ficou furiosa.”

 

Dona Felipa saía cedo e Sandra ficava sozinha em casa. Em uma dessas situações, uma vela virou e incendiou a casa, Sandra conseguiu escapar e então sua mãe achou necessário colocá-la em um colégio interno. 

“Esse colégio interno foi muito bom, porque foram dois anos da minha vida em que aprendi muitas coisas, como fazer tricô, crochê, bordar. Tinha um tal de escovão que nós tínhamos de passar, mas ele era maior do que eu. Eu lembro de entrar dentro da panela. Nós tínhamos ofício e cada uma tinha uma função.”

 

Nessa época ficou mais próxima de seu tio Ivo, que acabou se tornando sua referência masculina/pai. Foi ele que a orientou quando teve sua primeira menstruação, no início da pré-adolescência, e ela lembra com carinho do conselho que ele lhe deu de aproveitar cada mínima oportunidade que a vida oferece.

 

“Ele falou para todos: o homem, quando negro, tem de se esforçar muito. Se o branco é competente, você tem de ter duas vezes mais competência para, um dia, poderem reconhecer o seu trabalho e, sendo mulher negra, piorou. Então, estudem.  Ele foi o primeiro engenheiro negro na Itaipu.”

 

Sandra se recorda com saudosismo sua adolescência em uma rua sem saída no bairro de Pinheiros, como elas se mudavam muito de casa, Sandra não tinha muitos amigos, mas nesse período mais longo morando ali naquela Rua proporcionou-lhe ótimos momentos como a convivência com seu amigo Luis, das festas juninas, de pular corda, dos passeios ao Playcenter, a primeira comunhão e crisma.

 

Seu primeiro emprego aos 17 anos foi em uma empresa de tubos aletados e apesar da experiência ter sido muito importante, Sandra sofreu uma acusação de roubo ao sumir o anel de um dos diretores. Depois da polícia comparecer ao escritório e nada constar, foi em uma manhã de sábado após a limpeza semanal das salas, que uma das faxineiras encontrou o anel preso em um tubo das mesas.

 

Um tempo depois Sandra trocou de emprego e conheceu seu primeiro namorado, um menino branco, e foi quando ela viu o preconceito mais uma vez, pois sempre ouvia comentários do tipo: “O que o Marcelo viu naquela negrinha?”. Apesar de tudo, o namoro seguiu de uma forma muito saudável e gostosa, mas chegou ao fim depois que ela conheceu o pai dos seus três filhos. E esse fim de namoro foi através de uma carta, mas Marcelo acabou aceitando bem.

 

Sua primeira filha veio quando Sandra tinha 21 anos, e logo depois passou em um concurso público para trabalhar em uma creche. Apesar de querer ser arquiteta quando criança, acabou se apaixonando por pedagogia. Lá ela se descobriu pelo trabalho que realizava com as crianças, ia desde festas juninas à painéis de aniversário, mas foi quando entrou para um projeto no hospital Emilio Ribas, que apesar das decepções sofridas e obstáculos enfrentados por serem muito “dentro da caixinha”, Sandra com seu jeito espoleta como ela mesma se intitula, conseguiu modificar muitas coisas  pouco a pouco. 

 

Sandra conseguiu desenvolver vários projetos com as crianças que cuidava, que tinha idades de 4 e 5 anos, inclusive o de teatro, o que ajudou na convivência entre os mais indisciplinados. Foi quando decidiu entrar na faculdade de pedagogia e se realizou com isso.

 

Ao mesmo tempo em que Sandra se desenvolvia bem na faculdade, também se separava do marido, momentos marcantes em sua vida, mas como ela mesma diz: “quando você pensa positivo o universo conspira a seu favor”.

 

Sua entrada para a brinquedoteca ela considera o maior ganho de sua vida, pois foi no Emilio Ribas que ela começa a ter contato com soropositivos para HIV e percebeu o tamanho do preconceito existente entre as pessoas com a doença. Sandra então teve a ideia de criar um projeto multidisciplinar fazendo a integração das áreas para que todos falassem a mesma língua. Ela também levava com suas festas a alegria para dentro do hospital, até uma feijoada com direito a grupo de pagode ela trouxe.

 

Nesse meio tempo, Sandra foi se identificando com o trabalho voluntário e de humanização. Foi então que nasceu a ideia de um trabalho mais a fundo com os jovens que nasceram soropositivos. Devido aos altos índices de mortalidade entre esses jovens, ela então decide criar um projeto dentro do hospital para incentivá-los ao tratamento clínico, trabalhando a autoestima e desenvolvimento desses jovens na sociedade.

 

“Eu comecei a acompanhar a vida desses jovens. Acompanhar a vida, que eu digo, é ir para a balada, ir para o parque, a vida deles. Abria a porta da minha casa, enfim, e eu fui conhecendo cada um deles”.

 

Seu projeto tomou tal proporção que ela teve que começar a se reunir com os jovens também aos sábados fora do hospital, criando assim, a Fundação Poder Jovem.

 

A Poder Jovem é a primeira instituição voltada para jovens soropositivos para HIV de transmissão vertical no Brasil. Sandra explica que você não precisa necessariamente ter uma doença para lutar pela causa. Nessa fundação já foram ministradas palestras em cerca de 55 escolas para mais de 22 mil alunos, além dos projetos como teatro, dança, música, etc.

 

“Não dá para mensurar em que ponto a Poder Jovem ajuda, para que ele se torne aderente ao tratamento. O que dá para perceber, as melhoras, é quando ele chega e fala: eu quero estudar e para estudar eu tenho que estar bem. Você vê ele entrar numa faculdade e aí  entende que ele está melhorando”.

 

Na busca para entender a não adesão dos jovens ao tratamento clínico, Sandra chegou à conclusão de que existem três fases para quem vive com HIV: diagnóstico, negação e aceitação, que é onde a Poder Jovem se encaixa. Dos jovens atendidos pela Fundação há apenas um casal em que ambos são soropositivos, os outros são soro discordantes, muitos tem filhos e nenhum dos filhos tem HIV porque se o tratamento for feito corretamente, a pessoa convivendo com HIV fica indetectável e portanto intransmissível.

 

Um dos momentos difíceis enfrentados na Fundação Poder Jovem foi quando em uma reunião administrativa da Fundação, disseram que Sandra não poderia ser a “porta-bandeira” do projeto, pois não tinha o perfil necessário. Mais uma vez sentiu o preconceito.

 

“A gratidão, o gesto de ser grato é você receber a oportunidade de uma pessoa ou da vida, e você pegar essa oportunidade e levar com determinação, competência, dedicação para aí tomar posse do que você conquistou, e mostrar para essa pessoa que valeu a pena ela ter dado a oportunidade.”

 

“Então eu sou sim a primeira mulher negra presidente da primeira fundação de HIV do Brasil, por que eu tenho que ter medo de falar isso?”. 

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