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História

O poder é passageiro, mas o aprendizado é eterno

História de: Valdmário Rodrigues Júnior
Autor: Thais Montanari
Publicado em: 25/02/2021

Sinopse

Família. Infância no interior de Minas Gerais. Incentivo aos estudos. Mudança para o Mato Grosso do Sul. Formação em Medicina. Primeiras experiências profissionais. Amizade e influência de outros profissionais da Medicina. Ingresso no sistema Unimed. Desafios na cooperativa. Cargos assumidos no sistema Unimed. Perspectivas sobre a cooperativa e as funções dos dirigentes.

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História completa

Projeto Unimed Brasil 40 Anos

Realização Instituto Museu da Pessoa

Entrevista de Valdmário Rodrigues Júnior

Entrevistado por Rodrigo Godói

São Paulo, 27 de fevereiro de 2007

Código: UMBR_HV006

Transcrito por Lúcia Nascimento

Revisado por Luana Baldivia Gomes

 

P1 – Boa tarde. Para começar nossa entrevista, gostaria que o senhor dissesse seu nome completo, local e data de nascimento.


R – Valdmário Rodrigues Júnior, minha data de nascimento é 4 de julho de 1962. Nasci em Douradoquara, Minas Gerais.


P1 – Qual sua função atual na Unimed?


R – Eu sou Presidente da Federação das Unimeds do Estado de Mato Grosso do Sul.


P1 – O nome dos seus pais?


R – Valdmário Rodrigues de Oliveira é o nome do meu pai. E Maria do Carmo Oliveira, nome da minha mãe.


P1 – São vivos?


R - Vivos.


P1 – Qual é a atividade deles?


R – Meu pai é pecuarista e minha mãe, do lar.


P1 – Qual é a origem da sua família? São todos de Minas mesmo?


R – A origem da nossa família... Somos descendentes de portugueses, toda minha família é mineira. Sempre estivemos em Minas. Saí para estudar e acabei me fixando em Mato Grosso do Sul, desde 1981.


P1 – Você tem irmãos?


R – Tenho duas irmãs. Uma mora em Uberlândia, Minas Gerais. É psicóloga, casada, dois filhos. A outra mora em Goiânia, é engenheira ambiental, casada e com dois filhos. É casada com um médico que mora e reside em Goiânia.


P1 – A sua infância você passou toda em Douradoquara?


R – Douradoquara, Monte Carmelo, que é uma cidade próxima a Douradoquara. É uma cidade também do interior de Minas, do Alto do Paraíba, onde passei toda minha infância e meus estudos. No segundo científico, terceiro científico, na época um cursinho, eu fiz em Uberlândia, que é uma cidade próxima. 


P1 – Na sua infância, como era a casa em que você morava? Quais são suas lembranças?


R – A nossa família é de origem humilde, uma casa bem simples, bem humilde. Mas a gente sempre teve a orientação dos meus pais, a quem eu agradeço sempre. Eu me recordo até hoje meu pai e minha mãe me orientando: “É preciso estudar. Nós vamos te proporcionar tudo para que você possa concluir seus estudos”.


P1 – Isso em Douradoquara?


R – Douradoquara e Monte Carmelo. As duas cidades.


P1 – Mas você morava em Douradoquara?


R – Morava em Douradoquara, mas depois mudamos para Monte Carmelo.


P1 – Com que idade você estava?


R – Estava com nove anos. Passei a residir em Monte Carmelo.


P1 – Como eram Douradoquara e Monte Carmelo?


R – Douradoquara era uma cidade muito pequena, uma cidade bem humilde, onde tinha apenas um grupo escolar. Na época, não se chamava nem colégio. Era um grupo escolar, onde eu concluí meu primário. Era uma escola muito humilde, mas muito boa. Aí, quando terminamos o primário, fui estudar em Monte Carmelo, onde concluí o restante dos meus estudos, até o segundo científico, quando passei a residir em Uberlândia.


P1- Monte Carmelo já era uma cidade maiorzinha?


R – Era um pouco maior, mas também uma cidade bem pequena, onde eu estudei também em escolas públicas: num colégio público e depois num colégio estadual, todas escolas públicas.


P1 – Como era o dia a dia na sua casa?


R – Era muito gostoso, onde eu tenho recordações muito boas. Sempre gostei muito de esporte e alternava... Minha infância era alternada entre os estudos no colégio e jogar futebol, brincar e jogar futebol na rua, em Monte Carmelo, uma típica cidade do interior de Minas. Uma cidade pacata, onde a vida era muito tranquila. Mas a gente sempre teve em mente a importância dos estudos.


P1 – Na sua época de infância, sua brincadeira favorita era mesmo futebol?


R – Futebol e natação, mas a que eu me dedicava bastante mesmo era futebol. Mas sempre com a orientação do meu pai e minha mãe: “Você vai brincar, mas tal horário tem que estudar, precisa estudar”. Sempre aquela educação dos meus pais dirigindo a minha vida para que eu buscasse realmente os estudos.


P1 – E uma lembrança marcante da sua infância?


R – Deixa eu recordar... As lembranças marcantes que eu tenho da infância sempre foram no sentido de que na minha casa sempre teve muita harmonia. Eram duas irmãs, meu pai e minha mãe, e sempre passando para gente os bons costumes, a seriedade, a honestidade. Sempre trilharam nesse sentido, e as minhas recordações eram sempre da época do final de ano, quando a gente estava aprovado ou não. Então, na época a gente comentava muito: “Esse ano vai tomar bomba ou não vai tomar bomba?” Esse era o vocabulário que se usava em Minas, que significava ser aprovado ou não nos seus cursos, que você fazia, e consequentemente junto a isso vinha a época do Natal, que sempre tenho boas recordações, que traziam os presentes, minha família. Nesse sentido.


P1 – Sua família é muito grande?


R – Sim. A família da minha mãe, entre irmãs e irmãos, são 11, alguns já falecidos. E na de meu pai, são sete.


P1 - Realmente as festas deviam ser...


R – Família bem grande e bem unida, tanto na de meu pai como na de minha mãe.


P1 – Todos são mineiros?


R – São mineiros.


P1 – E sua adolescência, como foi?


R – A adolescência também foi sempre participando, voltando a repetir, estudando e participando de atividades esportivas. Lá em Monte Carmelo existia um time de futebol tradicional, chamava-se “Clube dos 100”, e a gente disputava jogos. Lá disputei jogos no Uberabão, preliminar de Cruzeiro e Uberaba, joguei em Araguari, na preliminar de Araguari e Atlético Mineiro. Em Araguari tinha um outro time, acho que era o Fluminense de Araguari, que jogava com o Atlético e Cruzeiro. Eu sempre participava dessas atividades esportivas. Sempre me destaquei muito na parte esportiva.


P1 – Tinha bailinhos, cinema? Como era essa...


R – Nessa cidade, Monte Carmelo, sábado à noite era tradicional: os amigos iam para o cinema assistir um filme. Só tinha um cinema em Monte Carmelo. Após isso geralmente a gente ia num baile, numa festa. Essa era a rotina: de segunda a sexta feira, estudar à noite e atividades esportivas à tarde; de final de semana, cinema e festas: baile, aniversário. Típico de cidade pequena do interior de Minas, onde eu fui nascido e criado.


P1 – Tinham festas típicas nessa cidade?


R – Nessas cidades tinha muito pouca, porque eram cidades muito pequenas, mesmo. As atividades sociais eram muito restritas. Basicamente era o cinema, uma praça, onde se reuniam os amigos, sábado e domingo nessa praça e uma ou outra festa, resumia-se basicamente a isso. E, no domingo, geralmente na parte da manhã, ou na parte da tarde, um jogo de futebol tradicional, onde se reunia grande quantidade de pessoas.


P1 – E aí, voltando um pouquinho, para sua vida educacional. Você começou a estudar em Douradoquara, o primário. Depois em Monte Carmelo, o secundário. E como eram essas escolas?


R – Em Douradoquara era um grupo escolar, na época, Grupo Escolar Davi Ramos. Tinha professores bastante capacitados, vejo isso hoje. Quando fui para Monte Carmelo, que era uma cidade um pouco maior, continuei meus estudos sem nenhuma dificuldade. E sempre meu pai me orientando que eu deveria continuar e me interessar e me dedicar aos estudos. Tanto que, com uma certa dificuldade, na época, meu pai me levou para Uberlândia, onde visitamos algumas escolas, e ele decidiu me matricular no colégio Objetivo de Uberlândia. Foi um material didático muito importante para que eu pudesse fazer o terceiro ano, fazer um ano de cursinho e depois ingressar na faculdade de Medicina. 


P1 – Nesses colégios que o senhor estudou, teve algum professor emblemático, que tenha marcado de uma forma especial?


R – Em Uberlândia, eu me recordo muito bem que tinha o diretor da escola, chamado Professor Andraus. Eu me recordo muito bem que era caro a escola para meu pai, que morava em Monte Carmelo. Nessa época meu pai tinha uma propriedade rural, mas a despesa para ele era grande de ter um filho estudando fora. Eu me lembro desse professor, que fui conversar com ele, para pedir para fazer um desconto na mensalidade da escola Objetivo. Contei para ele que tinha vindo de Monte Carmelo, passei aquilo. Ele falou: “Você vai estudar. Vou te dar um desconto, mas você vai ter que estudar mesmo”. “Pode ficar tranquilo, professor”. Ele me deu um desconto bastante importante naquele momento. Eu, sempre que encontrava com ele no colégio, ele se lembrava de mim e perguntava: “Está estudando? Como está?”. Quando eu concluí o terceiro ano, fiz mais um ano de cursinho, porque a base que eu trouxe de Monte Carmelo - uma cidade pequena - para quem queria fazer Medicina, era uma base um pouco deficiente. Quando eu fiz o próximo ano, que foi um ano de cursinho, e ingressei na faculdade de Medicina, a primeira coisa que me lembrei foi de voltar lá no colégio Objetivo e agradecer a esse professor pela importância de ele me dar aquele desconto e me estimular a continuar estudando. Fez uma grande diferença para mim. Então, fui lá no colégio e agradeci. Trouxe o recorte de jornal onde estava minha aprovação na faculdade de Medicina de Vassouras, no Rio de Janeiro, foi onde eu passei. Fiz um ano de faculdade em Vassouras. Quando fui para Vassouras fazer a matrícula, não conhecia pessoa nenhuma. Após um ano... Quando fui para Vassouras, comecei a estudar no primeiro ano e fiquei muito amigo de vários, fiz várias amizades, porque sou uma pessoa que faz amizade muito facilmente. Inclusive por essa parte do esporte que une bastante, faz várias amizades. Foi quando fiquei conhecendo uma pessoa que hoje é praticamente um irmão, ele é médico e vereador em Mato Grosso do Sul, Campo Grande. Quando terminei o primeiro ano de faculdade, ele me convidou para que eu me transferisse para Campo Grande, Mato Grosso do Sul, que lá tinha a Universidade Federal de Medicina e ele conseguiria que a gente fizesse uma prova e ia para lá estudar em Campo Grande. Eu nunca tinha viajado nem para Mato Grosso, nem para Mato Grosso do Sul. Quando em março, fevereiro de 2002, fui para Campo Grande e conseguimos realizar essa transferência da Faculdade de Vassouras para a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Campo Grande.


P1 – Em que ano foi isso?


R – 1982. Quando foi onde eu concluí meu curso de Medicina.


P1 – Quando foi para Mato Grosso, o senhor só tinha feito o primeiro ano de faculdade?


R – Isso. Todo o restante foi feito em Mato Grosso do Sul. 


P1 – E como era a faculdade, o curso? Era um curso bom? Supriu as suas expectativas?


R – O primeiro ano, que fiz em Vassouras, foi muito bom. E quando eu fui para a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul também foi excelente o curso. Um hospital muito bom, bem equipado na época, uma maternidade, onde fiz estágios, e que inclusive eu trabalho até hoje, e fui diretor clínico por dois mandatos. Tinha a Santa Casa, um dos maiores hospitais do Centro Oeste. E nessa época ainda não tinha nem serviço de residência. Então, os acadêmicos de medicina eram bastante requisitados. Aqueles que se interessavam mesmo tinham um enorme potencial a ser explorado. E os professores colaboravam bastante, porque necessitavam do auxílio desses acadêmicos. Foi uma época muito boa, muito importante, que eu aproveitei bastante, em Mato Grosso do Sul. Foi onde acabei, por coincidência, quando me transferi para Campo Grande, foi onde acabei morando na casa desse meu amigo, que é pediatra hoje. Fiquei morando na sua casa, como se fosse um irmão. Então, os pais do Paulo Siuf, que é o meu amigo, me consideram como um filho, e eu também os considero como se fossem meus pais. E acabei, por coincidência, casando-me com a prima primeira do meu amigo, a Ione, que por acaso o pai dela também é médico em Mato Grosso do Sul. Constituí família e fiquei lá. Para mim hoje, Mato Grosso do Sul, Campo Grande, é como se fosse minha terra natal. Então tenho dois estados de berço, mesmo. 


P1- Seus pais continuam morando em Minas?


R – Meus pais... Com o passar dos tempos, e como eu sou muito apegado a eles e tenho a maior gratidão pela orientação, pelo alicerce que eles me proporcionaram, eu acabei levando os dois para Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Eles residem lá hoje, por causa da minha vontade de tê-los perto de mim. Residem lá hoje, estão, graças a Deus, bem, saudáveis e contentes.


P1 – Qual é a sua especialização?


R – Ginecologia e obstetrícia.


P1 – Como foi feita essa escolha?


R – Eu, quando estava cursando Medicina, comecei a frequentar a maternidade da Santa Casa, que era a maior do Estado, e a maternidade Cândido Mariano, que era a outra maternidade que tinha em Campo Grande. Comecei a frequentar e acompanhar também, na época, o Doutor William Maksoud, que era ginecologista e que acabou sendo meu sogro. Então, comecei a acompanhá-lo e a me interessar bastante pela ginecologia e obstetrícia, comecei a ler os livros que ele me emprestava, as orientações que ele me passou, me interessei e passei a gostar muito dessa especialidade. Quando terminei o curso, fiz dois anos de especialização na maternidade Cândido Mariano e fiquei como profissão minha mesmo, ginecologia e obstetrícia, minha especialidade


P1 – Durante a faculdade, por ser integral, creio que você não tenha trabalhado.


R – Isso.


P1 – Mas como foi sua primeira experiência profissional?


R – Na faculdade de Medicina, eu me dediquei bastante ao curso, a frequentar os hospitais. Praticamente quando não estava estudando na biblioteca, estava dentro de hospitais. Tinha acesso à Santa Casa, à maternidade, ao Hospital Universitário, me integrei muito fácil aos profissionais dali, era requisitado e, como gostava, acabava ficando o dia inteiro lá, ou na faculdade ou nos hospitais. Minhas primeiras experiências, no terceiro ano de faculdade, frequentando o quarto ano, já comecei a fazer partos. O primeiro parto que eu fiz, foi um parto normal de uma múltipla, que é uma paciente que já tinha quatro, cinco filhos. Foi gratificante. O primeiro dia que eu fiz um parto normal, que vi aquela vida nas minhas mãos, eu fiquei muito, foi realmente gratificante para mim.


P1 – E aí passou a atuar em Campo Grande nessa área.


R – Passei a atuar em Campo Grande. Quando eu me formei, fiz os dois anos de especialização. Aliás, quando eu me formei em 86, em 30 de maio de 87, eu me casei com minha esposa Ione Maksoud Rodrigues. Ela era professora, pedagoga, e sempre me apoia bastante na minha profissão. Passei a trabalhar bastante também com a minha cunhada, irmã da Ione, que é a Lílian, ginecologista também como o pai dela. Acabamos nos entrosando bastante e trabalhamos bastante até hoje.


P1 – Como foi seu ingresso na Unimed?


R – Na Unimed, quando eu terminei minha especialização, ingressei na cooperativa, que sempre foi um acesso livre na Unimed, e passei a me dedicar bastante, a começar a fazer leitura sobre cooperativismo no trabalho médico. Passei a me interessar, participar das reuniões, das assembleias da Unimed, aprender bastante sobre aquilo, que era novo, o cooperativismo. E acabei me apaixonando por aquilo.


P1 – A Unimed, em Campo Grande, região do senhor, existe desde quando?


R – A Unimed existe desde 1973. A Unimed nossa tem hoje 33 anos. Desde 1973, a Unimed Campo Grande. Sempre foi uma Unimed forte, líder de mercado, como continua a ser até hoje, com mais de 100 mil usuários. 


P1 – Quais os momentos marcantes da Unimed Campo Grande nesses 33 anos?


R – Os momentos mais marcantes, pela história que a gente vê na Unimed Campo Grande, contada pelos nossos professores, fundadores, foi quando se reuniram 20 médicos na Associação Médica de Mato Grosso do Sul, e decidiram que necessitavam criar alguma coisa, que passou a ser a nossa cooperativa, a Unimed, para que eles pudessem ter mais poder de negociar e defender mais dignidade para os honorários médicos, que naquele momento começavam a ser bastante explorados. Foi um marco esse início da Unimed. Ela foi criada em Campo Grande, Mato Grosso do Sul e passou a partir daquele momento a fortalecer a negociação com outros convênios na época. A Unimed passou a crescer e se tornou a cooperativa forte e líder de mercado como é hoje.


P1 – As dificuldades encontradas pela Unimed na implantação... Dê um panorama para gente nesse sentido.


R – No início, a Unimed teve bastantes dificuldades, porque a maioria dos nossos colegas médicos na época não conhecia bem como era uma cooperativa, como se estruturava uma cooperativa, a sede da cooperativa, então foram problemas bastante marcantes que exigiram muito na época do Doutor Hélio Mandeta, que é um ortopedista em Mato Grosso do Sul, e que foi a pessoa realmente responsável pelo nascimento da Unimed em Mato Grosso do Sul, em Campo Grande. Foi um trabalho árduo, até mesmo para poder explicar para os cooperados o que era aquela cooperativa. Porque muitos achavam que aquilo ia prejudicar os pacientes particulares que tinham naquela época. Mas na verdade, a ideia era boa, era defender realmente, dar mais dignidade na defesa da remuneração dos honorários médicos. 


P1 – E os principais desafios que você enfrentou na Unimed?


R – Eu, na Unimed Campo Grande, desde que ingressei na Unimed, nunca tive muita dificuldade. Os desafios meus são o da maioria dos dirigentes até hoje de Mato Grosso do Sul, que é o de buscar o entendimento dos cooperados de que a Unimed é a nossa empresa. Que todos os nossos cooperados, hoje mais ou menos 1300, eles devem entender que a cooperativa é a nossa empresa. Ela não é um grupo mercantilista, ela não é um bico para nenhum. Ela é a nossa empresa, e os pedidos de exames que estão nas mesas de cada um de nós são talões de cheques que nós emitimos e que no final do exercício daquele ano nós somamos todas as despesas, todos os talões de cheques que nós emitimos e comparamos com o que nós recebemos. A grande dificuldade que nós vemos até hoje é o não comprometimento de todos os nossos cooperados. A gente tem buscado isso através da Federação, através de cursos de cooperativismo, de esclarecer, de trazer os cooperados para as assembleias, para que eles entendam que a nossa empresa é vital para todos nós, até para a sobrevivência de todos nós médicos. 


P1 – O que você considera como sendo uma vitória sua na Unimed?


R – Uma vitória minha na Unimed, eu acho que foi sempre buscar, levar aos cooperados de Mato Grosso do Sul todos os conhecimentos, as experiências e as trocas de informações que eu adquiri ao longo desse tempo que eu tenho me dedicado ao cooperativismo. Eu sempre procuro, nos eventos que eu participo, das convenções que eu participei, trazer um pouco desse aprendizado que eu tenho ganho e tem sido proporcionado a mim pela minha cooperativa, pela marca Unimed. Isso eu procuro levar para todos os cooperados de Mato Grosso do Sul, para que possa enriquecê-los e trazer algum conhecimento e agregar valor a suas atividades. 


P1 – Você está na Unimed desde 87. Quase 20 anos participando da história da cooperativa. Nesse período de 20 anos, quais foram as mudanças que aconteceram na Unimed, na sua opinião?


R – As mudanças que aconteceram foram bastante. Porque, principalmente nos últimos oito anos, mudanças muito importantes na conscientização dos nossos dirigentes, de que eles devem e deveriam estar capacitando cada vez mais um maior número de cooperados profissionalmente. Ou seja, oferecer cursos de cooperativismo, módulos de educação cooperativista e os cursos de capacitação profissional, como foi o que eu relatei para você na nossa entrevista, que foi o MBA [Master in Business Administration, curso de pós-graduação lato sensu] proporcionado pela minha Unimed, um investimento que ela fez na minha pessoa, uma pós-graduação feita na Fundação Getúlio Vargas, onde isso tem me ajudado bastante a tomar decisões e a passar essas informações a todos os nossos cooperados. 


P1 – E como são os colegas de trabalho? Alguém especial? Como é o seu relacionamento com os outros cooperados, com a estrutura da Unimed?


R – Eu tenho um relacionamento muito bom com a maioria dos cooperados da Unimed de Campo Grande e de Mato Grosso do Sul. Tenho uma afinidade muito grande com praticamente todos os ex-Presidentes da Unimed de Campo Grande. Eu tive alguns desafios, algumas discussões, no campo sempre das ideias, o que acaba causando às vezes um certo desconforto com outros cooperados, por eu ter participado como Conselheiro Fiscal da minha cooperativa e ter exercido o mandato de Conselheiro Fiscal como deve ser: examinando as demonstrações contábeis, as demonstrações financeiras, solicitando informações e apresentando sugestões. E num dos mandatos que eu exerci como Conselheiro Fiscal coincidiu com o período em que a Unimed me proporcionou o curso de MBA de Gestão em Cooperativa. Eu estava muito bem embasado para poder fiscalizar a cooperativa naquele momento. E isso acaba incomodando aquela diretoria que naquele momento está presente. Mas não por maldade, é por problemas realmente de conduta. Cada um pensa de uma forma e aquilo causou um pouco de desconforto. Mas foi passageiro e hoje vivemos, a maioria dos cooperados de Campo Grande, em harmonia. 


P1 – O que a Unimed representa para os cooperados, tanto no passado como agora?


R – Para um grande número dos cooperados ela ainda não representa muito, porque muitos ainda não dependem muito da Unimed. Então, a gente ainda tem muitos desafios de mostrar para todos os cooperados que a Unimed é a nossa empresa. Não é do Presidente, do Vice-Presidente ou do Diretor Financeiro. É de todos. E isso é o princípio do cooperativismo: a igualdade entre todos os cooperados. Os dirigentes são passageiros. Os que estão exercendo mandato, devem exercer com dignidade, porque são passageiros e a Unimed vai continuar, a marca Unimed, a grife. Na verdade, hoje esse nome Unimed é uma grife. Quando você fala Unimed, as pessoas te respeitam. E essa solidificação da marca Unimed nos últimos dez anos foi muito intensa. Ela fortaleceu bastante e, praticamente, no nosso Estado, Mato Grosso do Sul, só tem Unimed. É líder absoluta de mercado e cresce a cada dia. O mercado e as dificuldades do país impõem certas dificuldades no crescimento, mas o sistema Unimed no Mato Grosso do Sul está sólido e acredito que continuará por muitos anos. 


P1 – Nesse seu tempo de Unimed, aconteceu algum caso pitoresco, alguma situação estranha, diferente ou engraçada?


R – Às vezes, nas assembleias, porque quem não está familiarizado com os termos do cooperativismo, por exemplo, AGO, Assembleia Geral Ordinária, que ocorre sempre nos meses de março, e AGE, Assembleia Geral Extraordinária. Então, às vezes nas assembleias, você ouve algum colega fazer algumas colocações que não têm o menor sentido. Então são coisas que você tem que ir com calma, com tranquilidade, explicar que aquilo ali não é uma empresa mercantilista, que é uma cooperativa. E essas cooperativas têm suas peculiaridades. Então, ocorre algumas vezes nas assembleias fatos interessantes, porque o cooperado, ao mesmo tempo em que ele é dono, usuário e às vezes prestador. Isso confunde um pouco nas cabeças de alguns cooperados que ainda não aprofundaram um estudo maior no cooperativismo. E alguns fatos também interessantes são em relação às correntes políticas que existem em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Hoje está em harmonia, mas sempre foram muito disputadas as eleições. Às vezes os ânimos se tornam bastante acirrados e as discussões partem para o campo pessoal, para divergências pessoais. E a gente tem procurado deixar isso restrito dentro da cooperativa. E temos procurado também que após o pleito todos se unam em torno da nossa empresa. E nesse desafio às vezes ocorre algumas coisas interessantes. Há uns seis ou oito anos, não me lembro bem, um ex-Presidente da Unimed, grande amigo, inclusive foi meu professor, ele sempre se preocupa muito quando os dirigentes viajam. Ele acha que não devem viajar muitas pessoas, porque tem que economizar. Ele tem o lado dele que está certo, mas por outro lado, a gente também entende que quanto mais pessoas estiverem bem informadas, melhor. Então, às vezes ele nos liga e pergunta, geralmente nas épocas das convenções, se a gente está em Campo Grande, se está viajando, onde está e quantas pessoas têm. Certa vez, eu estava no Conselho Fiscal, e liguei para ele, Doutor Wellington Penaforte, liguei perguntando se ele estava em Campo Grande ou em São Paulo, ou Ribeirão Preto, porque tinha uma convenção na época. Eu falei: “Graças a Deus”. E ele: “Por que graças a Deus?”. “Porque estão dizendo que a comitiva da sua diretoria é a maior que tem lá na convenção”. Ele achou muito interessante, porque há uns três anos atrás ele tinha me feito a mesma pergunta. Até hoje, quando a gente se encontra, se lembra dessa recordação nossa de que a comitiva era muito grande. 


P1 – Quais são os fatos marcantes na sua carreira na Medicina? Aí em paralelo com a carreira como cooperado.


R – Os fatos marcantes são bem definidos: o meu ingresso na Faculdade de Medicina - porque eu fui sempre de uma família humilde, nunca faltou nada, mas fui sempre de família humilde. Meus pais não tiveram oportunidade de estudar, mesmo porque meu pai perdeu meu avô com sete anos. Ele que teve que ajudar a cuidar da família. Minha mãe também vinha de uma família tradicional, mas humilde. Então, meu ingresso, vindo de uma cidade pequena como Douradoquara, entrar numa faculdade de Medicina, foi uma vitória, um marco na minha vida. Mas isso fruto da orientação dos meus pais, que tiveram a visão de que eu tinha que estudar em Uberlândia para poder ingressar numa faculdade de Medicina. O segundo marco foi minha transferência para Campo Grande, Mato Grosso do Sul. De uma faculdade no Rio de Janeiro fui para Mato Grosso do Sul. De Minas, fui para o Rio de Janeiro e de lá para Mato Grosso do Sul, onde fiquei conversando com Doutor Paulo, hoje como se fosse meu irmão. Me formei em Mato Grosso do Sul. Outro marco foi minha formatura. E daí em diante sempre me dedicando à medicina e ao cooperativismo. Então, eu considero o meu ingresso na Unimed outro marco, e quando eu comecei a atuar como dirigente. Foram coisas bastante gratificantes. Eu estou hoje com 44 anos e me dedicando ao cooperativismo, porque eu gosto do sistema cooperativo.


P1 – Misturando o médico com o dirigente. Como que é compatibilizar essa carreira de médico com essas atividades de dirigente da Unimed?


R – Às vezes, um pouco difícil. Mas como eu fui dirigente da Unimed Campo Grande, Conselheiro Fiscal da Unimed Campo Grande, Conselheiro Fiscal da Dederação, fui Diretor Financeiro no sistema Unicred. Mas em Campo Grande, para viajar e participar mais do sistema foi a partir agora de 2006, quando fui eleito Presidente da Federação. Como já estou com 20 anos de formado, a gente está um pouco estabilizado. Eu tenho meu plantão, consigo trocar meu plantão, mudar meu horário, fazer algumas alterações, e continuo. Não deixei de ser médico, continuo trabalhando todos os dias, me dedicando à Federação e à medicina. Nunca deixei a medicina. Diminuí um pouco, para me dedicar à Federação, tenho me dedicado e vou me dedicar cada vez mais, porque quero deixar um marco na Federação das Unimeds de Mato Grosso do Sul ao término da minha gestão, mas sempre a gente consegue conciliar. Porque eu não sou dirigente profissional. Eu me dedico da melhor maneira possível, mas minha profissão é médico.


P1 – E quais os singulares na sua Federação?


R – São cinco singulares: Corumbá, que fica no Pantanal, uma cidade histórica muito bonita, na divisa com a Bolívia; outra cidade é Aquidauana, na entrada do Pantanal, uma cidade muito bonita também; a cidade de Três Lagoas, na divisa com São Paulo; Dourados, que é a segunda cidade de Mato Grosso do Sul, uma cidade que cresce bastante, enorme potencial; e a maior singular que é Campo Grande, nossa capital.


P1 – Quais são os principais projetos de responsabilidade social que existem na sua Federação?


R – Na nossa Federação, isso é uma coisa inclusive muito importante e atual, a Federação tem buscado cada vez mais esses projetos de responsabilidade social. Ela tem ajudado algumas instituições, como no caso de crianças com Aids. Buscar trazer os cooperados da nossa singular de Campo Grande, que é a sede da Federação, para proporcionar atendimento em bairros pobres, para crianças carentes. Nesse ano de 2007, a Federação vai estar ainda mais voltada para esses projetos de responsabilidade social. Porque isso aí é uma das missões da Unimed, do sistema Unimed no Brasil inteiro, e principalmente na capital. A gente vai concluir ainda palestras educativas em escolas, orientações em instituições que orientam jovens, em relação à prevenção de doenças. Hoje a filosofia nossa é estar vendendo saúde. E para vender saúde, a gente tem que passar informações de profilaxia, de prevenção. Então a Unimed vai buscar, cada vez mais a marca Unimed vai buscar esse tema que é responsabilidade social.


P1 – No caso de Mato Grosso do Sul, o número de associados é de 100 mil. É isso?


R – Da Unimed singular de Campo Grande é de mais ou menos 100 mil usuários. No estado inteiro, nós devemos ter mais ou menos 150 mil usuários. 


P1 – Quais são as peculiaridades da sua Federação, da Federação de Mato Grosso do Sul? No que ela se difere das outras Federações?


R – Então, a nossa Federação, a função dela é muito importante para o sistema Unimed Mato Grosso do Sul, porque ela passou a ser o órgão representativo do sistema Unimed Mato Grosso do Sul na Unimed do Brasil. É de proporcionar políticas, informações, experiências, estar mostrando para todas as nossas cinco singulares o que está acontecendo no sistema Unimed, o que está sendo feito, qual estratégia que cada unidade deve estar tomando com seus diretores, seus presidentes. Nós temos na federação de Mato Grosso do Sul um registro no Sistema Nacional de Saúde de operador, mas existe um acordo em Mato Grosso do Sul de que a Federação não vende plano de saúde. Isso fica a critério das nossas singulares. Algumas Federações, aliás muitas, operam também, vendem planos de saúde. A nossa, não. A nossa é proporcionar as políticas de representatividade para as nossas singulares. Nós procuramos diante desse quadro que eu te disse fazer as reuniões itinerantes. O que são reuniões itinerantes? Nós fazemos uma reunião, a cada sessenta dias, em cada uma das nossas singulares. Nós vamos em cada singular, levamos uma palestra, levamos informações do que está acontecendo no sistema Unimed, como está, quais as estratégias que estão sendo feitas nas Unimeds bem sucedidas. Com essa reunião aquela singular se fortalece, se sente prestigiada, a gente dá uma oxigenada, discute aqueles problemas da peculiaridade local, quais as possíveis soluções, quais as estratégias, quais as necessidades. Ocorre uma troca muito importante de experiência e informações. Então, uma característica importante da nossa Federação é que ela vai até as singulares. E está sempre no dia a dia no contato. Disponibiliza um departamento jurídico, disponibiliza agora um TI [Tecnologia da Informação], que é um sistema de informática na Federação, disponibilizando informações para nossas singulares. E nesse momento a Federação de Mato Grosso do Sul está buscando fazer a câmara de compensação nacional, que é feita pela nossa maior Unimed, Campo Grande. A Federação está procurando trazer isso para dentro da Federação, chamar essa responsabilidade para ela.


P1 – Você foi eleito Presidente para o período 2006 a 2010. Como que é no caso a escolha do Presidente? É uma escolha direta? É por indicação? Como funciona esse processo?


R – Em Mato Grosso do Sul, sempre foi e sempre são os cinco Presidentes das singulares, no mês de março, era a cada três anos; os Presidentes fazem a eleição e escolhem o Presidente, o Diretor Financeiro, o Diretor Administrativo e o Conselho Fiscal, que são seis conselheiros. Então, a diretoria da Federação e o Conselho Fiscal eram eleitos a cada três anos. Na Federação de Mato Grosso do Sul ficou aprovado numa AGE que o mandato do Presidente passaria a ser de quatro anos. Por exemplo, o meu se iniciou em 2006 e vai até 2010. E a Unimed Campo Grande indicava dois representantes e as outras quatro do interior, o outro representante. A Unimed Campo Grande, por cobrança de alguns cooperados, achava que seria mais justo se ela fizesse uma consulta aos 1300 cooperados, uma consulta direta – no caso uma eleição – para definir quem seria os dois nomes que iriam compor a diretoria da Federação. A eleição é na Federação, mas ela fez uma consulta democrática, uma eleição entre aspas, e pela primeira vez na história os dois representantes da Unimed Campo Grande na Federação foram mandados pelo voto direto na singular Campo Grande. Na primeira eleição teve uma disputa bastante intensa e eu fui eleito o mais votado. O segundo mais votado, meu amigo Doutor Maurício Jafar, cirurgião vascular, ficou em segundo lugar e passou a ser o Diretor Financeiro. Então, fiquei Diretor Presidente, Diretor Financeiro o Doutor Maurício e a segunda maior Unimed mandou o nome do Doutor Jamel Nasser para compor a diretoria administrativa da Federação das Unimeds do Estado de Mato Grosso do Sul. Isso foi um avanço, porque ficou mais democrático.


P1 – Não acontece em nenhuma outra Federação?


R – Não, acho que foi a primeira, quase certeza. 


P1 – Você hoje está como Diretor Presidente, mas já esteve em outros cargos dentro da Unimed. Eu queria que você desse um apanhado da sua trajetória dentro do sistema Unimed.


R – Eu iniciei minha vida como dirigente em 1995, numa eleição que teve, bastante disputada. Fui convidado por um dos candidatos na época, Doutor Wellington Penaforte, para me candidatar ao conselho fiscal. Na época, a eleição do conselho fiscal era junto com a diretoria. Nós fomos eleitos, a diretoria que eu apoiei, que eu estava junto, foi eleita e eu também fui eleito Conselheiro Fiscal. Após esse mandato, eu fui eleito Conselheiro Fiscal da Federação das Unimeds de Mato Grosso do Sul, também por um mandato. Após esse mandato, eu exerci o cargo de Conselheiro Fiscal no sistema Unicred e após esse cargo eu retornei e me candidatei, aí sim, eleição novamente, para escolher os seis Conselheiros Fiscais da Unimed Campo Grande. Eu fui eleito o conselheiro mais votado, e na primeira reunião do conselho fiscal, fui eleito o Coordenador do conselho fiscal. A partir desse momento já tinha o segundo mandato como Conselheiro Fiscal. Tinha exercido também o mandato de Diretor da Unimed Campo Grande, numa eleição bastante disputada, onde nós ganhamos a eleição por uma diferença de 11 votos. Uma eleição bastante disputada, onde eu era o primeiro secretário. O Doutor James Câmara foi eleito Presidente e eu primeiro secretário juntamente com ele. Após esse mandato, nós fizemos, acredito, uma administração muito boa, onde implantamos a farmácia da Unimed em Mato Grosso do Sul, implantamos o atendimento domiciliar, o home care, como a gente diz, e também o SOS, que é o serviço de atendimento de emergência da Unimed. Após esse mandato, que eu fui primeiro secretário, eu disputei uma eleição como Vice-Presidente. Infelizmente a nossa chapa perdeu a eleição. Fiquei dois anos afastado do sistema Unimed e voltei novamente como Conselheiro Fiscal mais votado, como eu já tinha citado. Terminado esse ano de Conselheiro Fiscal, eu estava também exercendo também o cargo de Diretor Financeiro da Unicred central, de Mato Grosso do Sul, onde exerci por quatro anos. Após esse cargo, fui eleito Conselheiro Fiscal da Unicred central Mato Grosso do Sul – Paraná, por dois mandatos consecutivos. Após esses mandatos é que eu voltei ao sistema Unimed, me candidatando ao cargo de Presidente da Federação, quando fui eleito.


P1 – Só para deixar claro, a Unicred seria?


R – Uma cooperativa de crédito. Não tem nada a ver com a Unimed, que é uma cooperativa de trabalho médico. Muitas vezes as pessoas acham que a Unicred e a Unimed são irmãs. São duas cooperativas: uma de crédito, outra de trabalho médico. São muito parecidas, mas diferenciam na finalidade básica. Uma é cooperativa de crédito e outra cooperativa de trabalho médico. As duas são co-irmãs, existe uma parceria muito grande, se confundem um pouco, mas são duas cooperativas totalmente independentes uma da outra. 


P1 – A educação é um dos princípios básicos no cooperativismo. Como o senhor avalia essa questão na sua região?


R – A educação cooperativista é um dos pilares que leva as cooperativas ao sucesso. Porque é nessa educação que você está mostrando para todos os donos, cooperados, médicos, mostrando para eles que a empresa é dele, ele não é empregado, ele não pode explorar aquela empresa. Muitos cooperados entram na cooperativa sem conhecer realmente o que é uma cooperativa. E mais, o que é uma cooperativa de trabalho médico, que é diferente de uma cooperativa agrícola, uma cooperativa de crédito. Então, hoje é uma exigência básica: entrou cooperado, uma educação cooperativista, saber o que é uma cooperativa.


P1 – Em relação a ANS [Agência Nacional de Saúde], quais foram as principais mudanças no sistema Unimed após a criação da agência?


R – No início, o sistema Unimed sofreu bastante, porque quando a Agência foi criada, em 2000, quando começou a exercer sua função fiscalizadora, uma das receitas da ANS eram as multas que ela aplicava no sistema Unimed. Naquele primeiro momento era muita cobrança e não tinha muito diálogo, o retorno era difícil. A ANS foi depois se aprimorando, e hoje ela tem muitas exigências que impactam bastante os custos da cooperativa. Mas por outro lado, teve o lado bom: ela passou a fazer algumas exigências, o que exigiu que o sistema Unimed fosse mais profissional, que buscasse realmente a capacitação de dirigentes, de colaboradores, para que você tivesse realmente informações consistentes para passar para ela, que era uma exigência, mas ao mesmo tempo essas informações eram vitais para você tomar decisões para a saúde da sua da Unimed. A Agência Nacional de Saúde tem um lado bom e um lado ruim: o lado ruim, é que a Unimed às vezes quer mais diálogo, mais entendimento e ela na sua função que é devida, exigida do governo, ela exige, exige, quer que você cumpra e não sabe se você vai gastar muito, se vai impactar os custos, ela determina e quer que você cumpra. O sistema Unimed acredita que tem um lado positivo em tudo isso, mas muitas coisas deveriam ser mais discutidas de quem está mexendo naquilo naquele momento, para que não houvesse tantas repercussões nas singulares. 


P1 – Como foi sua passagem pela aliança Unimed?


R – Quando eu estava na Federação, já tinha acontecido o processo da aliança, já tinha sido decretada. Ela já vinha com problemas. Quando eu assumi a Federação, em março de 2006, foi exatamente quando nós estávamos voltando para a Unimed Brasil, inclusive eu participei da cerimônia da assinatura da nossa volta para o sistema Unimed do Brasil, que eu acredito que tenha sido vital e importante para o crescimento e a solidificação da marca Unimed. Porque todos os cursos, tudo que a gente faz, você nota que a união e a intercooperação de uma marca como a Unimed só vão fortalecer. Um sistema rachado, dividido, só tem coisas negativas. Essa reunificação do sistema, através do nosso Presidente Celso Barros, que se empenhou bastante, esteve em Campo Grande, viajou, buscou harmonizar o sistema Unimed... Isso foi um marco também no sistema Unimed, porque você reunificar um sistema adverso como o nosso não é fácil. E hoje nós estamos praticamente com todo o sistema Unimed unificado. 


P1 – Agora, falando um pouquinho da família. O nome da sua esposa?


R – Minha esposa é Ione Maksoud Rodrigues.


P1 – Como você conheceu ela, já disse... Você tem filhos?


R – Tenho duas filhas lindas: a Maria Lina, que está com 17 anos, e a Mariana, que está com oito anos. São duas filhas maravilhosas. Se eu tivesse que escolher novamente, seriam duas meninas. Me foram proporcionadas pela Ione, minha esposa, que é pedagoga, tem uma escola de educação infantil, bem sucedida em Campo Grande. Chama Soletrando, a escola. Inclusive tem parceria com uma escola tradicional aqui de São Paulo, a Pueri Domus. Ela se dedica e gosta muito disso. E sempre me ajudou muito porque o seu pai era médico ginecologista, tradicional, em Campo Grande. E sua irmã é médica. Isso facilitou bastante, e ajudou muito a me apoiar nos projetos que eu resolvi encarar e procuro exercer com a maior seriedade. 


P1 – Suas filhas pretendem seguir seus passos?


R - A Maria Lina, que é a mais velha, pretende ser advogada. A Mariana, que tem oito anos, diz todos os dias que vai ser médica, ginecologista, que vai trabalhar na Unimed, para seguir meus passos e do avô materno, Doutor William, meu sogro, falecido. 


P1 – E nas horas de lazer você continua firme no futebol?


R – Continuo. Frequento a Associação Médica. Na verdade, Campo Grande é uma cidade muito bonita e boa de se viver. E nessa cidade, eu frequento bastante o meio médico. Alguns colegas nossos não frequentam muito a Associação Médica. Mas eu estou em todos os eventos da Unimed, Unicred, Associação. Estou sempre me envolvendo no sindicato. Campeonato de classes, de médicos contra dentistas, advogados, a gente está sempre junto procurando unir a nossa classe em Mato Grosso do Sul.


P1 – Como você vê a atuação da Unimed no Brasil?


R – A atuação da Unimed no Brasil, hoje, tem sido marcante. Tanto é que ela tem recebido vários prêmios, como Top of Mind, da Folha de São Paulo. É a marca mais lembrada quando você fala de saúde. Hoje a atuação dela é bastante profissional. E graças a isso é que a marca Unimed é considerada uma grife, sinônimo de qualidade. É isso que a Unimed do Brasil tem passado para nós, federações, singulares, para a gente buscar duas coisas básicas: qualidade no atendimento ao nosso cliente, ao nosso associado, com busca na excelência da qualidade do serviço de saúde; e, ao mesmo tempo, ela tem procurado e passado para que nós possamos perseguir um honorário digno ao cooperado, ao dono da empresa. Então é: remunerar dignamente seu dono, nossos cooperados e uma busca de excelência na qualidade de atendimento ao nosso usuário. E ela tem procurado agregar valores à marca. Várias Unimeds nossas, hoje, têm farmácias Unimed. Várias Unimeds têm seus hospitais próprios, gerando recursos próprios. Geralmente, onde tem hospital Unimed, ele é referência naquele local em qualidade no atendimento. Acho que a Unimed nesses últimos anos deu uma solidificada na marca Unimed, buscando realmente a qualificação de todos. 


P1 – E, na sua opinião, como a sociedade vê a Unimed Brasil?


R – A sociedade vê a Unimed como uma segurança. A sociedade nossa hoje tem um respeito muito grande pela Unimed. Tanto é que nós temos clientes nos vários Estados, clientes muito importantes: por exemplo, o Tribunal de Justiça, em Mato Grosso do Sul, é nosso cliente; o Tribunal de Contas é nosso cliente. Em alguns Estados, todos os funcionários são clientes Unimed. Tocantins, por exemplo, todo o funcionalismo, é cliente da Unimed. No Rio de Janeiro, quantos mil usuários tem? São Paulo, quantos tem? Claro que, quando acontece algum problema numa singular, dá uma repercutida na marca. Para isso a gente está buscando cada vez mais solucionar os problemas nas Unimeds, sejam pequenos ou grandes, antes que saia alguma coisa negativa sobre a marca.


P1 – Qual a diferença da Unimed para os outros planos de saúde?


R – A principal diferença é que, na Unimed, quem presta assistência são os donos. Os donos devem sempre prezar por uma qualidade na prestação do serviço. E, além disso, ela não explora o trabalho dos seus cooperados, dos seus donos. Ela procura defender com dignidade a remuneração. A maioria dos outros grupos, que a gente diz que são mercantilistas, usam o trabalho médico para a exploração, para ganhar dinheiro no trabalho médico. A Unimed não. É para remunerar dignamente esse trabalho. Sem explorar, e buscando a qualidade no atendimento ao usuário. E muitos grupos mercantilistas não têm essa preocupação. Apenas os números interessam. Nós somos contra esse tipo de ato.


P1 – Para você, qual a importância da Unimed na história do cooperativismo brasileiro?


R – Para mim, a importância da Unimed é o marco principal na história do cooperativismo. Porque para uma classe como a médica estudar, se aprofundar, desenvolver e fortalecer tanto um sistema como o sistema Unimed, é porque realmente é uma coisa importante, um marco na história do cooperativismo.


P1 – E como você vê o futuro da Unimed Brasil?


R – Eu vejo um futuro promissor, mas com muitos desafios. O que vai exigir muita dedicação dos seus dirigentes, muito diálogo com os órgãos governamentais. Porque o sistema Unimed é vital, não só para as pessoas que escolheram a saúde suplementar para pagar e ter um plano digno, mas também para toda a nossa população. Porque se o sistema Unimed for mal, todo o restante dessas pessoas vai mal, porque quem está pagando a saúde suplementar e não puder mais vai passar para o SUS [Sistema Único de Saúde], que mal o governo hoje dá conta de gerir o SUS. Se o sistema Unimed for mal, vai mais gente para o SUS, que já está estrangulado. Então o governo também deve enxergar a importância do sistema Unimed e apoiá-lo. Dialogar e apoiá-lo para que ele não possa ajudar a piorar o SUS, e sim a melhorar. Cada vez mais melhorar e fortalecer o sistema Unimed.


P1 – E quais foram os principais aprendizados de vida que você obteve desses anos na Unimed?


R – O maior aprendizado que eu tive é que o dirigente deve ser humilde e nunca colocar os seus interesses pessoais ou particulares à frente dos interesses da marca Unimed, da singular Unimed, da Federação Unimed, acima dos seus interesses. Deve pensar nos cooperados como um todo. E nunca colocar a marca Unimed para dela se servir. A cooperativa e a marca Unimed são dos cooperados. Não é dos dirigentes, porque eles são passageiros, mas a marca continua. O aprendizado que eu tive é que você deve ser desprendido, não pode achar que o poder é eterno. Ele é passageiro e você tem que tentar exercê-lo da maneira mais honesta e correta possível.


P1 – E o que você acha de a Unimed comemorar os seus 40 anos com um projeto de memória?


R – Eu acho da maior importância, porque todo povo, toda empresa que não tem cultura, que não preserva sua memória é fraco. Então, um projeto dessa magnitude só vai fortalecer a marca, e é o que fica realmente para o resto da vida.


P1- E o que o senhor achou de ter participado dessa entrevista?


R – Achei muito boa. A qualidade da entrevista foi muito boa, as perguntas, como foi conduzida, bastante profissional.


P1 – Para finalizar, alguma mensagem para seus colegas cooperados, para as futuras dirigências que acontecerão ao longo dos anos?


R – A mensagem que a gente procura deixar depois de uma vivência no cooperativismo é que o cooperativismo é muito bonito. Precisa ser fortalecido a cada dia, e a semente do cooperativismo precisa realmente ser disseminada por todos os segmentos da nossa sociedade, não só no meio médico. Porque acredito que o caminho e o sucesso de várias gerações vão passar pelo crescimento do cooperativismo no nosso país. 


P1 – Em nome da Unimed e do Museu da Pessoa, agradecemos a sua entrevista.


R – Nós é que agradecemos, em nome da Federação de Mato Grosso do Sul, em nome de todos os cooperados de Mato Grosso do Sul e da região do Pantanal, pela maneira como foi conduzida essa entrevista.


P1 – Obrigado.

 

-- FIM DA ENTREVISTA --

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