Busca avançada



Criar

História

O poder dos livros infanto-juvenis

História de: Laura Sandroni
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/12/2008

Sinopse

Laura Sandroni conta sobre sua família, algumas das várias histórias de vida de seus pais, tanto que até escreveu uma biografia sobre ele, sobre a sua experiência de acampar pelo Brasil todo com a Federação das Bandeirantes do Brasil e sobre os seus vários projetos relacionados à Literatura Infanto-Juvenil. Além de falar sobre a importância da leitura na vida dos jovens. Fez um trabalho juntamente com professores para todos incentivarem os alunos à ler. Conta um pouco sobre a época em que ia para ilha do seu pai, comenta sobre a vasta biblioteca que ele tinha, e que teve autorização para ler tudo o que quisesse, menos a Bíblia.

Tags

História completa

P/1 – Pra começar Laura, a gente sempre começa perguntando o nome completo, o local e a data de nascimento.

R – Meu nome é Laura Constância Austregésilo de Athayde Sandroni. Eu nasci no Rio de Janeiro, na Rua Marquês de Abrantes em Botafogo, na casa da minha avó. No dia dezenove de abril de 1934.

P/1 – Conta um pouco o nome dos seus pais e o que eles faziam? A história deles?

R – Tá certo. Eu sou filha de um jornalista chamado Belarmino Maria Austregésilo de Ataíde, que nasceu em Caruaru, Pernambuco, mas que aos dois meses de idade tomou um Ita para o norte. Foi pro Ceará, porque o pai dele tinha feito a faculdade de Direito que havia em Recife. Ele era pernambucano e a minha avó também, mas ele foi nomeado para o Ceará. Naquela época, só havia em Recife a faculdade e depois eles eram enviados para os outros Estados do nordeste. E ele passou o resto da vida dele até morrer no Ceará, mudando de cidade em cidade. Teve onze filhos, o meu pai era o segundo. E então saiu de Pernambuco com dois meses, embora os pernambucanos se jactem dele ser um pernambucano ilustre, ele também tinha o maior orgulho de ser pernambucano, porque os pais eram pernambucanos também. Mas lá no Ceará ele foi estudar na cidade com os pais até que aos oito anos entrou pro Seminário da Prainha, em Fortaleza. Um pai de onze filhos precisava descobrir lugares onde a educação fosse boa e barata e o seminário era uma saída pra muitos. Muitos dos grandes homens brasileiros vêm de uma formação de seminário. E ele ficou no seminário até uns dezessete anos. Enfim, não chegou a receber as ordens, porque o padre reitor o chamou um dia e disse à ele que ele não tinha vocação religiosa, porque ele gostava muito de saber o porquê das coisas. Ele era um cara inquiridor, era um cara curioso e, portanto, não tinha fé. Ele queria explicar pela razão todas as coisas que existiam na terra, ele disse: “Você vai ser jornalista, o seu caminho é ser jornalista”. Aí ele conta... O meu marido e eu escrevemos uma biografia do meu pai. Então lemos tudo que ele escreveu pra poder fazer a biografia. Ele conta, em uns artigos para a Revista Cruzeiro, que trabalhou muito tempo, foi pra capela de noite e ficou chorando, rezando, porque ele tinha certeza que ele tinha vocação religiosa e custou a aceitar que não tivesse. Mas não tinha outro jeito, ele saiu de lá e foi ser professor em colégios em Fortaleza, até que quando ele tinha vinte anos, ele resolveu escrever para um tio que morava no Rio de Janeiro, e era um médico muito famoso, o professor Antônio Austregésilo. Era neurologista, foi um dos introdutores da neurologia no Brasil e que depois veio a ser acadêmico. E pediu ao meu tio: “Será que eu poderia passar um tempo até conseguir um emprego? Ficar hospedado na sua casa no Rio?” E ele muito generoso disse: “Claro! Venha, meu filho, vou lhe ajudar.” E ele veio pro Rio e começou a batalhar, primeiro como professor também, e depois foi ser associated press, que era a tradução das notícias naquele tempo que vinham pros jornais. E finalmente começou a fazer críticas literárias em rodapés de jornais aqui do Rio. Conheceu o Assis Chateaubriand na praia, remando, nadando, nos esportes e tornaram-se muito amigos. E como o Chateaubriand, que tinha sempre a vontade de ter um jornal, ser proprietário de um jornal, mas ele conseguiu mil empréstimos, não sei onde, para comprar O Jornal do Rio de Janeiro, que já existia. Ele chamava meu pai de caboclo: “Vamos lá caboclo, venha comigo”. E aí foram e o Chateaubriand deu a entrada, ou algo assim, e já no dia seguinte meu pai era o redator desse jornal, o chefe de redação desse jornal e chamou vários outros jornalistas. E nunca mais ele abandonou o Chateaubriand.

Então ele trabalhou no Jornal Diário da Noite, no Cruzeiro desde que o Cruzeiro existiu até acabar e por último no Jornal do Comércio, que ainda existe e ainda pertence aos Diários Associados. Ele foi diretor desses jornais todos, e em 52, ele se candidatou a Academia Brasileira de Letras. Foi eleito, e dois anos depois se tornou presidente da Academia e por lá ficou 35 anos como presidente. É uma coisa engraçada porque eu me lembro de discutir com ele, que achava um absurdo um cara que sempre lutou pela democracia e que foi contra Getúlio Vargas, que participou da Revolução de São Paulo e toda uma vida de luta para o sistema democrático funcionar, como é que ele podia ficar tanto tempo, acho que é 25 ou algo assim, dirigindo a academia. “Mas minha filha, é eleição anual e eu sou reeleito, porque acontece que os outros acadêmicos não querem se ocupar de contabilidade, empregados e etc.”

E depois que ele resolveu fazer aquele prédio enorme, é o prédio novo da Academia Brasileira de Letras, ao lado do Petit Trianon, ele conseguiu que o governo doasse o terreno, conseguiu que uma empresa fizesse e a Caixa Econômica emprestasse o dinheiro pra construção do prédio. Aí mesmo que ninguém nunca mais queria, até que o prédio ficasse pronto. E ele realmente conseguiu sobreviver e o prédio foi inaugurado em 79. Ele só foi morrer em 93, então ele ainda usou bastante o prédio novo, mas sempre o prédio velho com as posses dos acadêmicos no Petit Trianon e tal. Esse era o meu pai, era uma figura muito interessante, muito casmurro dentro de casa e muito alegre fora de casa. Era uma diferença grande vê-lo conversar com os amigos nos jantares, coquetéis e etc, e vê-lo sentado jantando ou almoçando com a gente. Mesmo com os netos em volta sempre uma figura séria. Eu acho que ele achava que tinha que ter esse ar de muito sério em casa pra manter o respeito, a tradição, enfim, nordestino. Era assim.

E a minha mãe é uma figura muito interessante também, ela se chamava Maria José de Queiroz Austregésilo de Athayde e ela foi dona de casa e secretária do meu pai, porque ela que datilografava, ele ditava os artigos. Ele escrevia uns cinco artigos por dia e isso tudo era ditado pra ela, e ela passava a manhã inteira na máquina. E era impressionante porque quando relia pra corrigir alguma coisa não tinha nada pra corrigir, era perfeito. Ele ditava como quem escreve pensando muito, eu nunca vi ninguém fazer isso. Mas a minha mãe tinha uma atuação também fora de casa, tipo benemerência. Aqui tem um hospital que ajuda as mães pobres, que são a Pro Matre, onde nasceu Fernando Henrique Cardoso, porque tem uma parte que você pode ir pagando, uma parte pequena, mas que pode ir pagando, e que inclusive ajuda a financiar a parte que é de auxílio às mães que não têm dinheiro. E existe até hoje. E a minha avó Laura, que é mãe da minha mãe, já trabalhava com a Dona Stella Guerra Duval nessa Pro Matre. A dona Stella fundou e quando morreu a minha avó a minha mãe achou que devia substituí-la lá.

Aí foi diretora, secretária durante muito tempo e ela também trabalhou muito na Federação das Bandeirantes do Brasil. Ela foi bandeirante e ela tinha um grande trauma, porque a mãe dela, a vovó Laura, não a deixava acampar, tinha medo. As bandeirantes já acampavam desde sempre e a vovó achava que não devia, mas deixava ir às reuniões, nos passeios, mas não no acampamento. Então, assim que eu fiz seis anos, ela me botou pra ser fadinha, que é o que antecede à bandeirante, porque de seis a dez anos por aí é fadinha. E eu adorei, continuei a vida toda, acampei pelo Brasil inteiro, fui até ao Rio Grande do Sul de trem acampar em Caxias do Sul, uma coisa maravilhosa, eu acho que devo toda a minha educação mesmo... Porque eu fui filha única onze anos e então o colégio e o Bandeirantismo pra mim era onde eu tinha pessoas com quem conversar e tal, porque dentro de casa eu era muito solitária, já que meus pais tinham uma vida social muito intensa.

Então eu agradeço muito à minha mãe esse fato de ter me posto como Bandeirante. E ela chegou a ser presidente das bandeirantes do Brasil. E eu fui bandeirante em tudo que tinha: fadinha, bandeirante, cadete, chefe e depois de casada, conselho. Deixei de ir a um acampamento na Amazônia pra casar, realmente estava na hora de deixar.

 

Enfim, continuando a minha própria vida, eu fiz meu curso inteiro no Colégio Sion, aqui no Cosme Velho onde a minha mãe também estudou. Então eu entrei no jardim da infância, que era o que havia, não tinha esses pres. Entrei no jardim da infância e me formei no terceiro ano clássico. Fiz vestibular pra Jornalismo numa faculdade que se chamava ainda Faculdade Nacional, que tinha tudo lá: Letras, Jornalismo, História, Geografia tudo no mesmo prédio, e hoje é a UFRJ. Então eu fiz dois anos e aí eu já estava namorando o Cícero Sandroni, que era um rapaz que eu conheci através da Ação Católica. Eu também fiz parte da JEC: Juventude Estudantil Católica, e tinha um jornalzinho que se chamava Roteiro da Juventude Pretensão e Água Benta. Aí o Cícero e eu em diferentes colégios, a Ana Arruda em outro colégio, você deve saber quem é Ana Arruda Callado, viúva do Callado, e várias outras pessoas. Fomos chamadas pela Rose Mary Muraro, que era a diretora do futuro jornal. Ela foi a várias escolas perguntando: “Quem acha que tem jeito pra escrever venha participar conosco e tal” e aí foram vários do colégio. E eu conheci o Cícero, a gente trabalhando juntos. Acabou ele diretor do jornal e eu secretária. E quando nós saímos, a Ana virou diretora do jornal. Foi uma fase muito boa também, fizemos muitos números de Roteiros, temos cópia aqui, achamos muita graça em ler o Roteiro hoje, da nossa pretensão, não só do título, Roteiro da Juventude, mas dos artigos. Como se nós fossemos muito idosos e tivéssemos dando grandes conselhos à juventude. Isso aos vinte anos.

Bom, aí o Cícero decidiu fazer Jornalismo na PUC, mas não estava satisfeito com o curso, e a Fundação Getúlio Vargas daqui criou uma escola chamada Escola Brasileira de Administração Pública: EBAP, e aí ele decidiu, porque davam bolsa e tinha matérias que não havia nas outras faculdades, como Psicologia, Ciência Política, Inglês e um monte de outras coisas. Sociologia, que era uma coisa que não tinha em faculdade nenhuma. Aí ele disse: “Ah, mas eu queria que você estudasse comigo.” Bom, então ele resolveu fazer vestibular pra EBAP e pediu que eu estudasse com ele, já que eu tinha mais tranquilidade, era uma pessoa mais focada nas coisas do que ele, então eu falei: “Tudo bem, vamos estudar juntos” e fiquei estudando. No fim, eu achei que sabia tanto por ter estudado com ele que decidi fazer também o curso. E eu também estava achando o terceiro ano de Jornalismo muito chato. Então fizemos o vestibular juntos, passamos os dois e fizemos.

Nós fomos a segunda turma da EBAP e realmente foi uma escola muito interessante, muito legal. Eu me formei em dezembro de 1957 e casei em janeiro de 1958. Passei dez anos em casa sem utilizar o meu diploma, tendo vários filhos nesse período de dez anos. Foram quatro até a Luciana, Carlos, Clara, Eduardo e Luciana.

Aí eu resolvi que ia fazer alguma coisa, e eu tinha uma tia que era uma pessoa maravilhosa chamada Ana Amélia Carneiro de Mendonça, uma poetisa da melhor qualidade, mas que ficou naquele vácuo entre o Modernismo, porque o Modernismo acabou com tudo que vinha antes. E ninguém mais se lembra dela, mas ela era uma poetisa importante na época e importante também porque criou uma coisa chamada Casa do Estudante do Brasil, que foi a primeira entidade a se ocupar antes que qualquer Governo o fizesse com a questão da moradia pra estudantes que vinham de fora, porque naquela época, o Rio de Janeiro não havia faculdade assim como hoje. Ou era São Paulo ou Rio, Recife, Salvador e ponto. Então vinham muitos do Brasil inteiro pra estudar aqui, e ela criou uma casa que os abrigava, criou um restaurante que alimentava não só os estudantes, como as pessoas podiam ir. Ali no Largo da Carioca, num ponto central do Rio de Janeiro. Podia a pessoa ir comer e pagava, claro um pouco mais caro, mas mesmo assim era um restaurante super barato de bandejão e tal. E conseguia bolsas pra estudarem em diversos cursos. Enfim foi uma benemérita junto com um grande companheiro, que é muito mais conhecido que ela hoje em dia, que foi o Pascoal Carlos Magno. A Casa do Estudante criou o primeiro teatro do estudante, o Pascoal, criou a primeira orquestra estudantil Florentino alguma coisa, eu não me lembro do nome do maestro. Mas tocava muito e foi a primeira orquestra realmente de estudantes, antes que a Orquestra Sinfônica tivesse uma orquestra estudantil aqui e a Petrobrás. Tudo isso hoje em dia.

Mas então ela fazia um trabalho muito interessante e me convidou “Já que você está querendo trabalhar, porque você não vem ser minha secretária da diretoria?” “Com todo prazer, vamos lá, eu quero aprender isso porque eu nunca trabalhei como remunerada na vida. Como bandeirante eu trabalhei muito, mas sempre voluntária.” Então fui lá e comecei a trabalhar. Foi ótimo, mas uns três ou quatro anos depois ela faleceu e aí Pascoal assumiu. E depois o Pascoal ficou doente, veio outro e eu já não estava gostando muito daquilo e aí um dia me telefona uma amiga de bandeirante, a Maria Luiza Barbosa Oliveira - ela me chama da Piba, meu apelido de nascença, porque eu quase nasci na Argentina; meu pai estava exilado na Argentina quando casou, e então comprava um enxoval para El Pibe, e nasceu La Piba. Então ficou Piba até hoje, meus filhos morriam de rir, porque quando alguém ligava e dizia: “A Piba está”? “Mãe, ou em bandeirante ou é do colégio, alguém quer falar com você.” Porque são as únicas pessoas que me chamam de Piba até hoje.

Bom, aí eu fui chamada por Maria Luiza “É o seguinte, nós estamos querendo fazer alguma coisa em relação à Literatura Infantil aqui no Brasil. O Doutor Péricles Madureira Pinto dirigia o Centro de Pesquisas Educacionais - onde ela trabalhava – recebeu um convite para um congresso realizado em Madrid há dois anos. Eu fui, achei que vale a pena, e agora estou de volta aqui e ele me incumbiu de reunir pessoas que trabalham com Literatura infantil” - que eram pouquíssimas na época – e eu então me lembrei e sei que você está a fim de fazer alguma coisa”. “Você não quer trabalhar comigo sem ganhar dinheiro como bandeirante?” Eu digo: “Claro que quero, vamos lá”. Aí nós começamos lá no CBPE: Centro de Estudos e Pesquisas Educacionais.

Tinha um bom auditório e nós reunimos todo mundo que, naquela época, poderia se interessar. Ilustrador tinha o Gian Calvi; autores tinham a Ofélia Fontes, talvez você se lembre de nome, é uma pessoa maravilhosa, Irene de Albuquerque; educador tinha o Juraci Silveira, o Leonardo Arroio, enfim um monte de gente que, na época, poderiam se interessar. Editor tinha a Melhoramentos, que era em São Paulo, tinha aqui no Rio a Ebal, Editora Brasil América, mas todo mundo só chamava de Ebal que só se dedicava à Literatura infantil e as outras não. A Melhoramentos também só se dedicava à Literatura infantil. Mas as outras que vieram, livro técnico, tipo a Agir, faziam as duas coisas ao mesmo tempo: adulto e criança. Nós tivemos a Flávia da Silveira Lobo, uma autora importantíssima também, que fez aqueles livros sobre animais pro Ministério da Educação, que está esgotado, mas é uma beleza. Ela fez sobre répteis, mamíferos e aves e ela participou também, deu muitas sugestões. E a gente começou...

Primeiro vamos fazer uma comissão, como tudo no Brasil. E eu fazia parte dessa comissão, a Maria Luiza também, editores uns dois ou três, autores uns dois ou três, e reunimos então um pequeno grupo pra decidir o que seria, que forma teria. Tinha um advogado que o CBPE colocou a disposição para dar forma jurídica e nós decidimos ser uma entidade de direito privado. A outra hipótese seria nós sermos um órgão do Ministério da Educação, mas todo mundo achava que era melhor não ser do Governo, era muito melhor poder ser da oposição, que em algum momento... E logo, logo veio esse momento. Mas enfim, eu digo que nós preferimos ser pobres e orgulhosos, porque não tínhamos verba de jeito nenhum. Aí os editores é que começaram a dar algum dinheiro pra gente começar a trabalhar. O CBPE cedeu uma sala, cedeu uma secretária em meio expediente e cedeu Maria Luiza pra trabalhar só na fundação. E a gente conseguiu que uma bibliotecária aposentada chamada Rute Villela Alves de Souza viesse trabalhar conosco, e, na realidade, era a única pessoa que conhecia mesmo Literatura Infantil. Ela tinha feito o curso de especialização em Biblioteca Infantil nos Estados Unidos, ela fazia resenha pra um órgão católico que se chamava Leitores e Livros e ela fazia resenha de livros infantis pra essa publicação.

Então ela foi assim, eu dizia pra ela: “Dona Rute, a senhora é o meu cérebro eletrônico” que era o que se chamava computador naquela época ainda. Qualquer dúvida “Dona Rute, esse conto é de Grimm, esse conto é de Andersen, de quem é”? Porque eu pouco sabia, mas eu tinha lido muito a minha vida toda. Então, por exemplo, Lobato sempre foi da minha maior intimidade, porque eu li. Primeiro minha mãe leu, quando eu não sabia ler, e ela adorava Lobato. E depois eu própria li, quando comecei a ler sozinha. Depois eu tive dois irmãos, depois dos onze anos, um se chama Antônio Vicente Austregésilo da Athayde, que mora em São Paulo e foi diretor da Globo - é uma pessoa que hoje assessora a ANJ: Associação Nacional de Jornais. E o outro irmão, quinze anos depois, que é o Roberto Athayde, teatrólogo, autor de Apareceu a Margarida um dos maiores sucessos brasileiros e internacionais, porque não há dia no mundo que não estejam levando em algum lugar Apareceu a Margarida, é um sucesso extraordinário. Então eu li pra eles, principalmente pro Roberto. O Antônio nunca foi muito chegado a Literatura, ele lia, mas menos. Ele é engenheiro eletrônico, com aquela cabeça de engenheiro. Mas o Roberto não, sempre foi ligado em Literatura, ele sempre gostou de ler e escrever, então eu li Lobato.

E depois fui reler pra fazer o meu Mestrado, depois de me formar, casar, ter filho e fazer a Fundação, me chamaram pra fazer crítica pro Globo, em 75 já. Quer dizer, a Fundação já tinha começado a ser conhecida, porque em 74 a entidade internacional a qual a Fundação é ligada até hoje, International Board on Books for Young People, a sigla é IBBY, a Fundação desde que foi fundada é ligada ao IBBY. Sempre participou dos congressos, que são a cada dois anos. Sempre participou do dia internacional do livro infantil, que é o dia do aniversário do Andersen, 02 de abril. Enfim, a Fundação já tinha um boletim e a Dona Rute disse logo no início: “Duas coisas que vocês têm que fazer correndo: uma é dizer pras editoras mandarem pra Fundação os exemplares dos livros que vocês editarem e os que já editaram, se for possível” - e eles começaram a mandar – “e a outra coisa: temos que fazer um boletim trimestral pra não gastar muito, que dê todas as informações sobre Literatura Infantil no Brasil, no mundo, resenhas, prêmios.”

E nós começamos a fazer imediatamente, em março de 1969. A Fundação nasceu em 68 e em 89 nós já estávamos, em março, com um primeiro número do boletim saindo, e dávamos pras pessoas interessadas e pedíamos que se tornassem sócias da Fundação. Então, em 72 , o IBBY tinha já pedido que nós fizéssemos um congresso do IBBY aqui no Rio de Janeiro, que a Fundação se ocupasse disso. Nós, ao mesmo tempo, ficamos muito honrados, porque realmente era uma prova de confiança no trabalho que a Fundação desenvolvia, mas não tínhamos dinheiro. Então fomos ao Passarinho, que era Ministro da Educação, na época, e ele disse: “Ah não, eu acho que é muito importante, vocês podem contar que quando for mais próximo, nós daremos uma verba pra vocês fazerem.” Nós cobraríamos, é claro, das pessoas se inscrevendo, mas nós tínhamos que trazer sem que eles pagassem as pessoas do IBBY: os convidados pra fazerem palestras, a diretoria do IBBY, e tudo ficava por conta da gente. Mas foi um sucesso, nós fizemos no Hotel Glória, vieram vários países Latinos Americanos que não eram ainda do IBBY, não tinham ainda uma instituição, mas que sabiam da importância. Nós convidamos sem pagar nada, mas convidamos que viessem do Brasil inteiro professores, autores, ilustradores. Vieram mais de quatrocentas pessoas. Nós temos os anais, publicamos nos anais depois e foi realmente o momento em que a Fundação se tornou mesmo nacional no sentido de ser um pouco mais conhecida, porque até hoje ela não é das mais conhecidas, mas faz o maior esforço pra se tornar.

Então em 74, o décimo quarto congresso do IBBY, deu o primeiro empurrão para que a Fundação se tornasse um pouco mais conhecida. De 74 até 82 nós continuamos a nossa vida de sempre e fazendo palestras em bibliotecas, em universidades e a Câmara Brasileira do Livro nos deu muita oportunidade também porque nos chamou, em 72, pra fazer o primeiro Seminário de Literatura Infantil dentro da Bienal, que na época era no Ibirapuera. Então eu ia lá mensalmente antes e chamei Maria Antonieta Cunha, de Belo Horizonte, chamei Edmir Perrotti, de São Paulo, chamei Lúcia, depois eu lembro o nome dela, é autora lá de São Paulo, da Brasiliense. A Odete Barros Mota também, que é outra autora que nós chamamos pra montar esse primeiro Seminário que foi um sucesso, e também sei lá quantas pessoas participando, o Brasil todo. E nós todos, a cada dois anos na época da Bienal em São Paulo - no Rio não havia Bienal do livro - éramos chamados para organizar essa Bienal. Até 78 eu participei disso e depois ficou com Edmir Perrotti, Antonieta e o pessoal de São Paulo mesmo, e a fundação deixou de organizar. Mas sempre participou. Éramos chamados pra falar nos diversos Seminários que continuaram a existir. Até hoje existe alguma coisa. A Nelly Novaes Coelho fazia um de língua portuguesa, mas eu acho que o de Literatura Infantil continua mais ou menos existindo até hoje. Mas foi também um grande conhecimento da Fundação através das Bienais de São Paulo, as pessoas que iam, passavam a conhecer a Fundação.

Depois a ALB: Associação de Leitura do Brasil, que o Ezequiel fundou e chamou a gente pra participar, e até hoje a Fundação participa. Só que hoje há uns seis, oito anos, sei lá, dez, que participa com muito mais poder, porque eles entregaram um Seminário de Literatura Infantil para a Fundação organizar, então a cada COLE - é como se chama. Já nem sei mais em que ano está o COLE, mas está a muitos anos existindo e a Fundação faz o Seminário de Literatura Infantil. Eu participei muitas vezes. Eu digo que não tenho mais nada a dizer, mas todo mundo continua a participar... Quatrocentas, quinhentas pessoas é o Seminário mais frequentado do COLE, é o de Literatura Infantil. É incrível como interessa.

Uma das lutas também de muito tempo da Fundação é que as universidades tenham a cadeira de Literatura Infantil, e nos cursos que se chamavam “normais”, no meu tempo, e hoje é profissionalizante, pedagógico ou qualquer coisa assim, que é o que forma o professor primário. Por incrível que pareça, muita gente não tinha ou não tem o curso de Literatura Infantil bem dado. Então as professoras saem formadas sem ter noção de quais são os autores e quais são os livros que elas podem indicar pra leitura obrigatória, que se tornou obrigatória só com a Lei de diretrizes e Bases de 71.

Então, aproveitando, essa Lei tem duas faces. Como legisladora foi um lado muito positivo de fazer com que as crianças conhecessem autores de suas obras completas e não trechos das obras, como era no meu tempo, com as Antologias. As Antologias davam um aspecto muito geral. Você ouvia Castro Alves, Olavo Bilac, Ofélia, enfim autores, Lúcia Machado de Almeida, que estava lá pedacinhos, mas você não conhecia nenhum autor com um pouco mais de profundidade. Então essa Lei tirou as Antologias e obriga a ler quatro ou seis livros por ano de autores brasileiros, e ler a obra inteira. Então aí a Literatura Infantil teve um incremento muito grande, porque não ia poder continuar dando só Lobato, só a Brasiliense ser comprada. E Ofélia Fontes e Lúcia Machado de Almeida e, enfim, aqueles poucos autores que havia naquela época… Flávia da Silveira Lobo, Orígenes Lessa, enfim não era muita gente que já escrevia pra criança. Então houve uma aceleração da produção, um crescimento da quantidade de editoras que começaram a descobrir que aquele mercado era um mercado interessante.

Basta dizer pra vocês que já em oitenta a gente estava pensando e buscando patrocínio para um projeto que viria a se chamar Ciranda de Livros. A Fundação do Livro Infantil queria distribuir livros nas escolas públicas das periferias das grandes cidades ou de zona rural. Procuramos então a Fundação Roberto Marinho que nos recebeu muito bem - era o José Carlos Barbosa de Oliveira o diretor - e ele nos disse muito honestamente: “Laura, eu acho o projeto maravilhoso, acho que a Globo vai ter muito interesse, porque a Globo está fazendo quinze anos de existência e ela é acusada de tirar os leitores possíveis da frente dos livros pra colocar em frente à televisão. Então um projeto que estimule o hábito de leitura é tudo que a Globo vai querer, mas eu preciso encontrar um patrocinador”, porque a Fundação Roberto Marinho o que oferece são os VTs de promoção do projeto por metade do preço, custam 50% e o patrocinador é que entra realmente com o dinheiro pra fazer um projeto e pra pagar os outros 50% dos VTs. Então eu um ano depois ou oito meses depois achava que ele não estava nem se lembrando do assunto, quando ele me liga e diz: “Laura, a Hoechst quer patrocinar”, a Hoechst Indústrias Químicas que não era um nome conhecido que tinha como grande produto a Novalgina, mas que ninguém sabia que era da Hoechst, um nome inclusive difícil. Então os primeiros VTs aparecia uma mãozinha escrevendo Hoechst.

O projeto já estava pronto, nós nos juntamos com uma equipe da Fundação Roberto Marinho pra decidir que nome teria e como seria ele na realidade, uma caixa de livros que nós tínhamos pensado. Bom, aí juntou com gente muito boa da área de publicidade, propaganda e tal e também eles contrataram o Alfredo Gonçalves, que era um editor da Codecri, que era do Pasquim. Editora mínima que acabou logo, e então com a experiência da Codecri, ele foi chamado para a questão da conversa com as editoras, porque tinha que diminuir o custo do livro, tinha que fazer uma edição especial, tinha que ter escrito todos os patrocinadores etc. Então começamos a trabalhar com o Alfredo, com o pessoal da área de criação e tal e da fundação e acabamos descobrindo esse nome fantástico “Ciranda de Livros” que eu não lembro mais como surgiu. E o Alfredo também não se lembra. Mas, enfim, alguém sugeriu porque ciranda dava idéia de mãos juntas e de uma grande roda, e a gente queria criar uma pequena biblioteca que ficasse pendurada na parede da sala de aula, que reunia meninos de primeira à quarta série, e esses meninos podiam ter até dezoito anos de idade. Porque no interior, na zona rural, é assim e mesmo, na periferia você tem meninos de doze ou treze anos aprendendo a ler ainda.

Então outra grande idéia foi usar a sapateira, aquela coisa de plástico que hoje em dia você vê em qualquer banca de jornal com jornais dentro. Mas na ocasião foi uma grande sacada. A Fundação teve que escolher os livros que integrariam cada uma das Cirandas. Foram quatro cirandas com quinze títulos cada uma, que tinha que ser de autor brasileiro, ilustrador brasileiro não repetido durante quatro anos. Seriam sessenta autores brasileiros. Como já tinha passado a década de setenta, que foi a grande renovação da Literatura infantil, nós tivemos sessenta autores, nós não tivemos sessenta ilustradores e nós tivemos só trinta editoras. Então as editoras foram repetidas uma vez, mas isso incluindo editora de Porto Alegre, de Curitiba, pequenas editoras e os ilustradores eu nem sei dizer quantas vezes foram repetidos, porque eram poucos ilustradores ainda no início da década de oitenta. Então a gente não dava bola, o ilustrador podia ser repetido, mas o autor não. Eram cinco etapas a tal da sapateira de plástico em que o livro ficava com a capa voltada para o menino. Então isso também foi uma grande inovação, porque os livros eram arrumados, ainda são arrumados, na biblioteca pela lombada, e nós queríamos mostrar a capa do livro, que seria uma coisa que atrairia o menino a ler, porque as capas geralmente são bem ilustradas e coloridas, bonitas e são chamativas.

Então o nosso trabalho, o meu e do Luís Raul Machado, que trabalhou comigo desde o início na seleção desses livros, era descobrir livros que dessem pra essas quatro idades muito diferentes que estavam lá, quatro séries com idades diferentes. Então em baixo ficava pra criança bem pequena, na segunda fila já tinha um pouquinho mais de texto, na terceira mais ainda, numa quarta mais ainda. E para o menino que possivelmente já tinha treze, quatorze, quinze anos, era a mais alta. Então o próprio tamanho da criança indicava onde que ele poderia puxar o livro e tinha uma fichinha pra dizer: “fulano de tal que levou o livro da data tal”, porque ele tirava o livro e colocava dentro da capa do plástico onde cabia o livro.

Foi um projeto realmente muito bem bolado que deu muito certo. E depois de um ano, durou quatro, mas depois de um ano a gente já era conhecido como um nome e eles nos diziam que nós já conseguimos aquilo que nós queríamos, que era que a gente se tornasse um nome presente no Brasil. Depois eles se separaram e hoje são várias firmas, não existe mais Hoechst Indústrias Químicas, são vários nomes diferentes. Mas a Ciranda então proporcionou pra Fundação uma visibilidade realmente ainda muito maior, porque nós assinávamos com a Fundação Roberto Marinho os VTs de trinta segundos que iam ao ar. E foram quatrocentos VTs por ano, cada uma das Cirandas. Foram quatrocentas vezes de trinta segundos aos lugares mais nobres que você possa imaginar. No meio do Jornal Nacional, no meio da novela de manhã, no programa da Marília Gabriela, o TV Mulher, que era super visto. Então foi uma coisa que realmente ampliou muito o conhecimento da Fundação no Brasil.

Quando acabou a Ciranda de Livros eu já estava com dezesseis anos dirigindo a Fundação, na segunda Ciranda, portanto em 84. Então eu disse a você que eu criticava meu pai, porque ele já estava há muito tempo na Academia, e um belo dia eu disse: “Meu Deus, eu estou criticando meu pai que está há muito tempo dentro da Academia e eu estou há dezesseis anos na Fundação.” Claro que a situação era diferente porque a Fundação era uma coisa nova, havia pouquíssima gente entendida em Literatura Infantil no Brasil naquela época. Nós é que começamos a tornar os professores mais interessados. Por exemplo, a Nelly Novaes Coelho é um grande exemplo, ela era professora de Língua Portuguesa e de repente ela é convidada pra participar do grande seminário décimo quarto do IBBY, aqui no Hotel Glória. Ela fez uma das palestras, ela foi chamada para outros seminários que nós fizemos para quem já lidava com Literatura Infantil, o Ezequiel, por exemplo, o Edmir Perrotti, Marisa Lajolo, Regina Zilberman, Vera Teixeira Soares, foram sendo chamados pra Bienal de São Paulo, sendo chamados pras coisas que nós fazíamos aqui no Rio, e foram cada vez mais se interessando. E a literatura foi ficando cada vez mais rica, de modo que mais pessoas começavam a se especializar. Hoje você tem praticamente em todos os Estados do Brasil pessoas especializadas em Literatura infantil e juvenil, ou como nós gostamos de dizer, literatura para crianças e jovens; criando o gosto pela leitura, não mais o hábito de leitura. Enfim, pequenas modificações de palavreados que foram se incorporando e essas pessoas foram também enriquecendo a parte crítica.

Em 79, por exemplo, a UNESCO decretou o ano internacional da criança, aí vários jornais resolveram criar resenhas, chamar a gente pra fazer resenha. Foi quando o Edmir apareceu, foi quando Fanny Abramovich apareceu, foi quando Tatiana Belinky apareceu, Marisa Majolo, em Minas, a Maria Antonieta Cunha, e no sul o Hohlfeldt, o Antônio Hohlfeldt que depois foi até vice-governador do PT há pouco tempo lá em Porto Alegre.

Mas eu gostaria de voltar a 71, com a Lei de Diretrizes e Bases, porque eu estava falando que a Lei de Diretrizes e Bases tinha um lado positivo, que era aquele que eu falei e um lado negativo, que eu não falei. Eu comecei a falar de outra coisa que é a obrigatoriedade da leitura na escola, que pode ser uma coisa ótima se o professor tem conhecimento dos livros que ele vai indicar, que são adequados, que interessam a criança de cada uma das faixas etárias, se ele procura saber o que está interessando à sua classe naquele momento pra escolher um livro que fale disso. Mas no início você tinha Machado de Assis, José de Alencar pros meninos de terceira série, quarta série, uma coisa louca que a Fundação lutou muito pra tentar mudar isso. Mas pra isso era preciso que a Literatura infantil crescesse pra oferecer mais opções. Então a Lei de Diretrizes e Bases foi uma grande abertura. Outra coisa da mesma época foi a revista Recreio, a primeira fase da Revista Recreio, que Ruth Rocha era a coordenadora pedagógica ou um nome desses. E ela conta histórias engraçadíssimas, por exemplo, ela gostava de publicar contos, mas não tinha contos pra criança. Então um dia o marido dela disse: “Ruth, porque você não escreve” aí ela disse: “Mas eu nunca escrevi pra criança.” “Senta aí nessa máquina, eu vou fechar a porta a chave e só abro depois que você escrever um conto,” foi assim que ela começou e não parou mais também. A outra coisa é que ela disse que ela era cunhada da Ana Maria Machado. O Machado da Ana Maria é o Machado da Ruth. Aí ela ligou pra Ana Maria e disse: “Ana, eu preciso que você escreva uns contos pra Revista Recreio.” “Mas eu nunca escrevi conto pra criança.” Ela tinha publicado um livro que era o Recado no Nome sobre os nomes na obra de Guimarães Rosa, que era a dissertação de Doutorado dela na França, com Roland Barthes, e ela falou: “Escrever pra criança?” E ela fazia Jornalismo na Rádio JB, era muito interessante o que ela fazia lá. Aí a Ruth disse: “Ana, escreve. Você não tem três filhos? Você deve ter contado histórias pros filhos, escreve essa história.” Aí que ela começou a escrever, começou a fazer sucesso e também nunca mais parou. E assim ela chamou o Joel Rufino dos Santos. Esses três são os mais importantes que ela lançou através da Revista Recreio, que era uma coisa de uma quantidade, a edição da Revista Recreio era, sei lá, cem mil, 150 mil, qualquer coisa assim, que nenhum livro infantil jamais alcançou no Brasil.

Então esses nomes começaram a ser conhecidos através da revista, as crianças começaram a ler e gostar. A própria Editora Abril criou uma coleção que se chamava Livros de Recreio, muito bem feitinho, em que reunia os contos da Ana Maria - tinha três ou quatro da Ana Maria, o Joel, dois ou três, quatro ou cinco da Ruth, todos que publicaram. Isso foi um sucesso também. Então quando nós fizemos a Ciranda de Livros os nomes já eram conhecidos das crianças. Talvez não pelos professores, mas das crianças sim. Joel, Ana, Ruth e outros. O João Carlos Marinho não, o João Carlos Marinho era uma figura a parte. Ele nunca se enturmou no Recreio não, mas era sempre um autor maravilhoso. O Caneco de Prata é um livro que fez um sucesso imenso e foi lançado em 69. Então um pouquinho antes ele já era bastante conhecido e fez muito sucesso.

Um terceiro motivo desse crescimento da Literatura Infantil na década de setenta, nós achamos que se deu com a criação da Fundação Nacional Infantil e Juvenil, que começou a batalhar principalmente pela qualidade de texto, qualidade de ilustração, qualidade de impressão, tipologia, diagramação, coisas que ninguém falava. Então nós criamos um prêmio em 1974. Pra você ter idéia do tamanho da produção, o prêmio era único e se chamava O Melhor Para a Criança, o melhor pra criança, porque só havia praticamente livros pra criança. A categoria juvenil é bem posterior, tipo 78. Em 78 nós criamos o Melhor para o Jovem, eram dois prêmios. Hoje são dezesseis ou talvez já tenha até passado, porque começou a ter tradução, o melhor pra criança - tradução, o melhor pra jovem - tradução, poesia, teatro, o melhor pra criança de autor brasileiro, reconto, que foi criado muito recentemente, porque apareceu tanto reconto, apareceu tanta gente recontando histórias já mil vezes contadas, tanto da tradição oral quanto histórias de estrangeiros que os brasileiros resolvem recontar. Então resolvemos criar reconto, foi um dos últimos. Mas, enfim, são dezesseis de todos os gêneros que você possa imaginar. Tem um prêmio da Fundação e os editores começaram a perceber que a Fundação era muito rigorosa no seu julgamento. Então eles começaram a tentar aperfeiçoar e realmente hoje quando você vai a uma livraria você vê a beleza, há livros lindíssimos, há também muita porcaria, é claro, mas isso você tem em toda produção cultural. Se você tem 10% que é o que eu digo que tem de livro bom, se você tem 10% de livro bom pra adulto, 10% de discos, CDs, 10% de filmes, você já tem muita coisa diante do tamanho da produção que é cada vez maior. Infelizmente as editoras não têm um critério ainda, eles editam coisas muito boas, mas também há editores que continuam a editar coisa ruim, que não valeria a pena gastar o papel, a tinta, o colorido. Às vezes, o colorido é porta de tinturaria ainda, mas também você tem grandes ilustradores fazendo coisas maravilhosas.

Então essa melhora toda da Literatura Infantil, que começou na década de setenta, eu acho que começou empurrada por essas três coisas das quais eu fiz menção. Mas esses autores, começando pela própria Ruth Rocha, que tem uma frase maravilhosa: “Eu morei no Sítio do Pica Pau Amarelo.” Então quando começaram a escrever a Ana, a Ruth, o Ziraldo e todos esses grandes que estão aí, que são muitos, leram Monteiro Lobato quando criança, portanto moraram no Sítio do Pica Pau Amarelo. Ao escrever, eles procuraram utilizar todas aquelas artimanhas que o Lobato usava pra seduzir a criança. Ou seja, uma linguagem cada vez mais coloquial. Quer dizer, se você compara como eu fiz no meu livro de Lobato a Bojunga a linguagem de Lígia Bojunga com a linguagem do Lobato, sem dúvida é a mesma busca do coloquial. Só que o Lobato ainda tinha os gramáticos em cima dele reclamando, as professoras em cima dele reclamando do uso do pronome não exatamente como se usava em Portugal, de inventar palavras novas, de tentar realmente “copiar” a linguagem oral. É oralizante a linguagem do Lobato como é a da Lígia, só que evidentemente a Lígia pode dizer hoje muito mais coisas que são numa linguagem comum, de uma linguagem popular, de uma linguagem que se fala dentro de casa, mãe e filho e tal, do que o Lobato podia na época. Então a Ana também... A Lígia tem uma coisa que eu acho que é característica dela, é que ela fala da mesma maneira como narradora e como os personagens que ela cria. Já a Ana e os outros não, quando fala o narrador fala uma linguagem mais bem comportada, mais norma culta, e quando fala o personagem é mais coloquial.

E então esses autores fazendo essa linguagem, fazendo como a Ana Maria diz: “piscando pro leitor”, fazendo coisas que chamam o leitor, sendo como a Emília, críticos audaciosos, com um humor enorme, como Sylvia Orthof, por exemplo, que se caracteriza pelo humor. E então eles conseguiram atrair cada vez mais as crianças para seus livros, que iam ficando mais bonitos, com ilustrações melhores, uma qualidade de papel melhor, uma qualidade da diagramação.

E aí a Regina Mariano tem realmente um papel muito importante. Ela foi pioneira como editora, como diz o Djalma: “A baianinha era de lascar.” Ela caprichava nas coisas dela, o Eliardo França surgiu com ela e foi um sucesso imediato. Do ponto de vista da crítica, Fernanda Lopes de Almeida tem uma importância muito grande, porque o primeiro livro, período da ditadura, que falava contra o autoritarismo foi O Rei de Quase Tudo, de Eliardo França, mas o segundo foi A Fada Que Tinha Idéias, da Fernanda. Os pais que eram contra a ditadura, mais mobilizados, mais politizados, procuravam esses livros, e aí entra uma coisa deliciosa que é: a censura foi sempre burra e mais burramente ainda achava que literatura infantil era uma coisa absolutamente que não tinha a menor necessidade, nem de ler, nem chegar perto, porque é uma babaquice, é uma coisa com criança, pra que vai ler isso? E, portanto, os escritores passaram a fazer nos livros infantis o que eles não faziam na literatura adulta, porque a essa altura a gente já havia realmente depois do AI-13. Havia censura, mesmo Rubem Fonseca, Inácio Loyola Brandão, José Louzeiro, foram autores que tiveram os livros tirados das livrarias, não podia vender porque eram contra a ditadura. E de alguma forma os censores pensavam que era e os livros infantis não. Então muitos autores percebendo isso, como a Ruth Rocha que fez logo a trilogia dos reis: O Reizinho Mandão, O Rei Que Não Sabia de Nada ou História de Rabo preso, vários livros em que ela falava de forma muito engraçada, muito adequada às crianças e falava contra o autoritarismo, que era o que estava campeando no país. E ganhando prêmios. A Ana Maria tem também uma história bastante parecida com a da Ruth, também sempre escreveu livros em que a opinião da criança é a coisa mais importante, a criança é a protagonista das histórias dela, como foi de Lobato e de todos esses autores que a gente está falando. Então tudo isso fez com que eles voltassem a Lobato e por isso o José Roberto Ita, que fez um livro muito interessante, que são Os Filhos de Lobato em que ele pega não apenas os escritores, mas também pessoas de outra profissão que leram Lobato e, portanto tem a cabeça mais aberta. A idéia de que quem leu Lobato foi influenciado por ele seja que profissão tivesse na vida, tem a cabeça mais aberta.

Outra coisa que eu já falei rapidamente, mas que gostaria de retomar é o fato de em 65 eu ter sido convidada pra resenhas de livros Infanto-Juvenis numa parte do Globo que se chamava Jornal da Família. Era um caderno do Globo. E por que Jornal da Família? Porque a mãe lia, porque tinha receita, tinha moda... Então ela leria também o que dar a seus filhos como leitura, eu achei que era interessante, aceitei e fiquei 22 anos no Globo fazendo resenha semanal. O que foi uma maravilha pra mim, porque eu tive que me manter sempre muito atualizada, mesmo depois de ter deixado a Fundação e sido contratada pela Fundação Roberto Marinho, no meio do projeto Ciranda do Livro, porque eles queriam que eu continuasse com o projeto lá. Eu achei um barato fazer resenha, porque me manteve atualizada, mas pensei logo no princípio: “Como é que eu estou criticando se eu não tive nenhuma formação literária? Eu nunca fiz nenhum curso de Literatura, eu não fiz Letras.” Aí pensei: “Vou fazer Mestrado.” Não, eu pensei: “Eu vou fazer o curso de Literatura primeiro.”

Aí fui conversar com os professores da universidade que disseram: “Você está louca, a universidade hoje não é absolutamente o que era no seu tempo.” Imagina, já estava nessa época... Eu comecei em 79 a fazer o Mestrado, aí elas falaram: “Ninguém leu nada, então não tem a menor importância que você não tenha feito o curso de Letras, porque quem fez sabe muita teoria, mas não leu nada.” E você, ao contrário, leu tudo e não tem teoria. É muito mais fácil você ler alguns livros de teoria e aprender, do que ler a Literatura Brasileira. Por causa do pai, mãe, da família eu sempre li.  Então eu me inscrevi pro Mestrado. O Mestrado na UFRJ nesse tempo era o Afrânio Coutinho o diretor de Letras do Mestrado, e ele exigia que você fizesse um ano de preparação pra fazer o exame de Mestrado. Pra mim foi ótimo porque aí eu tomei o contato mais direto com uma coisa chamada Literatura, estudando um pouco e tal. Eram duas aulas por semana ou uma coisa assim. Então eu podia continuar trabalhando na Fundação. As aulas eram às seis horas, na Avenida Chile, que é bem no centro da cidade, onde tem a Petrobras, aqueles grandes edifícios do BNDS e tal. A faculdade de Letras ficava ali num prédio que tinha sido o prédio da exposição de 22, o prédio de Portugal, e o prédio era razoável, grande. A faculdade de Letras foi pra lá, mas já chovia na biblioteca, já era belíssimo. Enfim, nunca faziam reforma nele, era uma tragédia, porque estavam construindo já o Campus lá no Fundão, onde fica hoje a UFRJ.

Bom, então eu pude fazer o Mestrado lá e depois levei uns três ou quatro anos com a Sônia Coutinho, que foi a minha orientadora e também foi interessante. Eu convidei-a porque gostei muito do curso que eu fiz com ela no Mestrado e ela era especialista em Machado de Assis, tem muitos livros e tal, e eu cheguei pra ela e disse: “Sônia, é o seguinte, eu queria muito que você me orientasse, mas a minha tese” - naquele tempo ainda era tese – “a minha dissertação vai ser sobre Literatura Infantil, uma autora chamada Lygia Bojunga, que eu acho o máximo e queria fazer sobre ela.” Aí ela me disse: “Laura, de Literatura Infantil eu só conheço Lobato, eu sou paulista de nascimento, li Lobato a vida inteira, mas nunca mais li nada, não tenho idéia.” Aí eu falei: “Bom, então vamos fazer o seguinte, eu vou pegar os cinco livros” - que a Lygia tinha até então publicado – “e emprestar pra você. Você lê e se você achar que o que ela escreve é Literatura e topar ser minha orientadora, ótimo. Se você não achar, me devolve os livros e eu vou procurar outro.” Ela ficou fascinada com Lygia, achou uma maravilha, achou fantástico e fez a seguinte combinação comigo: “Laura, eu sou sua orientadora em termos de Teoria da Literatura pra você fazer a sua dissertação, mas você é minha orientadora em termos de Literatura Infantil, porque você já está trabalhando a um bocado de tempo com isso e conhece bem os autores.”

Eu levei três ou quatro anos porque continuei trabalhando e com filho e casa já, morando nessa casa grande. Era muita coisa, mas deu pra fazer. E quando eu fui defender, já foi lá no Fundão, já tinham destruído esse prédio da Avenida Chile e construído aqueles prédios lindos, e tinha virado uma das avenidas mais bonitas do Rio. E eu fui lá pro Fundão, defendi e a banca me deu nota dez e recomendação pra publicação. Aí eu levei pra Agir, aonde eu dirigi a coleção da Lygia já, eu fui editora da Lygia, editora no sentido de editar mesmo o livro. O primeiro não, o primeiro ela fez pela José Olímpio. Aliás, não era pela José Olímpio. Começou a Editora do Autor e depois virou José Olímpio. Segundo, Angélica, que fui eu que editei; o terceiro, que foi A Bolsa Amarela, que foi eu que editei, e o quarto que foi A Casa da Madrinha, fui eu que editei, escolhi os ilustradores, fiz a diagramação. Nunca mais trabalhei nisso, me enriqueceu muito esse contato com os ilustradores e ver como se armava o livro na realidade. Foi muito bom, e o pessoal da Agir naquela época era ótimo.

Bom, aí eu estava falando do Globo. Continuei, continuei até 2002, eu acho, então foram dezete anos fazendo. Aí eu pensei: eu não vou jogar fora esse trabalho que eu tive, eu vou pegar isso tudo e buscar uma editora que tope publicar uma seleção das minhas resenhas. Aí fui conversar com o cara da Salamandra, que hoje está na Planeta, aí eu conversei e ele achou que seria uma ótima. Aí a Salamandra foi comprada pela Moderna e tal e acabou saindo pela nova Moderna mesmo. Mas a discussão com os editores de lá era assim: “Laura, você tem que fazer por faixa de idade, ou você tem que fazer por autor, não pode ser do jeito que você quer.” Eu queria por uma questão absoluta de vaidade, eu reconheço, é um pecado mortal terrível, mas eu fiz questão por ordem cronológica. Por quê? Porque quando o livro foi publicado dizer que Lygia Bojunga Nunes era maravilhosa, que Ana Maria Machado era maravilhosa, que Marina Colasanti era uma coisa fantástica, tinha reinventado o conto de fadas, enfim, esses elogios todos era chover no molhado, porque todo mundo já sabia disso tantos anos depois. Mas quando lançaram... Eu critiquei o primeiro livro da Ruth Rocha, ela sempre lembra isso: “Meu Deus do céu, quando eu vi que você tinha feito uma crítica elogiando meu livro, eu fiquei tão importante.” E de Ana Maria e da Lygia, já tinha publicado Os colegas e eu só fui comentar em Reis e Sonhos. Mas os que eu editei eu própria comentava sem o menor problema, porque o espaço era pequeno, lauda e meia, duas laudas no máximo, e minha teoria era: Eu tenho que valorizar o espaço, portanto eu só vou comentar os livros que eu gosto, eu não vou falar mal de livro nenhum; não é porque eu tivesse medo de qualquer problema, mas porque eu achava que aquele espaço era pra divulgar o que havia de bom, porque a Literatura era tão pouco divulgada, como até hoje é e muito menos ainda, porque hoje no Rio de Janeiro não há e eu acho que em São Paulo também não há colunas semanais. Depois passou para o Segundo Caderno e depois eles fizeram Prosa e Verso, que é um caderno só de Literatura. Quando a gente começou a fazer Prosa e Verso, a minha coluna começou a ser de quinze em quinze dias em vez de semanal, porque tinha que fazer Crítica da Literatura adulta. E eu brincava muito com o editor do Prosa e Verso, eu dizia pra ele: “Escuta, você tem idéia do que seja o mercado editorial, você parece que não tem, porque há muito mais livro infantil e juvenil editado do que literatura adulta. Há muito mais livros infanto-juvenis traduzidos do que Literatura adulta.” São traduzidos e tem segunda edição, terceira edição, os adultos traduzidos é a primeira e ponto, acabou. A literatura brasileira era realmente pouquíssima conhecida no exterior, agora com o Machado de Assis a coisa está melhorando, o próprio Machado está tendo edição em vários lugares, redes que estão em vários lugares e isso leva junto os outros. A Clarisse, o João Ubaldo, eles começaram a ser traduzidos, mas a infantil é muito traduzida e os jornais não dão a menor pelota de informar isso. Quando sai é uma notinha pequena, é uma pena.

Eu já discuti muito com as editoras. Na minha época era Cecília Costa e a Mana Miriam, que hoje é editora, eu também conversei muito com ela, eu desisti porque achei que iam ficar pedindo pra minha coluna sair e não fazia o menor sentido, eu já estava em idade de me aposentar, já tinha me aposentado da Fundação Roberto Marinho e ia parar com esse negócio. Aí então publicaram um livro da Moderna que se chama Ao Longo do Caminho, pra indicar exatamente a trajetória, por que está em ordem cronológica.

Outros projetos que eu participei na vida na Fundação Roberto Marinho foram Viagem da Leitura, que era uma espécie de ciranda patrocinada pela Ripasa, que é papéis, e que se dirigia a biblioteca pública junto com a Fundação. Levou dois anos, também receberam sessenta títulos já mais pra criança, e ia pras bibliotecas públicas do Brasil todo. Todas as bibliotecas receberam. Depois teve outro projeto na Fundação chamado Nossa Biblioteca, em que nós pedíamos que as pessoas doassem livros usados em bom estado para as bibliotecas públicas, e também foi um sucesso enorme.

Com tudo isso eu viajava muito, porque a Fundação ligada à televisão, é claro. Eu tinha que fazer Bom Dia Brasil, Bom Dia Pernambuco, Bom Dia Rio Grande do Norte, bom dia tudo viajando pra explicar os projetos. Tinha que assinar convênios com os secretários de educação ou de cultura dos diversos Estados, e foi uma coisa que me deu também uma vivencia muito grande de Brasil, essa participação na Fundação. Eu fiquei onze anos lá. E o último projeto que eu fiz lá, eu tenho a felicidade de dizer que dura até hoje, que é o Quem Lê Jornal Sabe Mais, é um projeto maravilhoso que a gente começou com o jornal O Globo aqui do Rio, mas meio que imitando a idéias da Zero Hora, que tinha um projeto que acho que tem até hoje que se chamava Zero Hora em Sala de Aula. Só que a Zero Hora dava os jornais que não vendiam, o encalhe, para as escolas. Mas tinha também professores que iam às escolas falar sobre jornalismo. E nós então modificamos isso exigindo que O Globo entregasse o jornal do dia durante dois meses. O jornal do dia ia pras escolas que se inscreviam. Eram, sei lá, vinte escolas por ano, por semestre, aliás. E a gente ia lá falar aos professores juntos pra eles verem que o hábito de ler não seria uma coisa da professora de Português e Literatura, mas de todos os professores, porque quem não sabe ler não entende o que lê. Ler no sentido profundo da leitura. Pra aprender Matemática, física, Química ou qualquer matéria é preciso realmente entender o que o texto diz. Pra estudar qualquer coisa. Então os meninos recebiam o jornal só na oitava série, sétima e oitava série recebiam o jornal; a biblioteca da escola tinha o jornal também e a biblioteca do bairro também recebia o jornal, e a biblioteca do bairro continuava recebendo sempre depois que a escola acabava. E porque a gente escolheu o jornal? Porque no jornal você tem N assuntos diferentes, então a gente achava que o jovem que estava na oitava série ou na sétima já tinha algum interesse, fosse por música, fosse por cinema, fosse por futebol, fosse por política ou por qualquer coisa, não especificamente Literatura. Ele iria encontrar no jornal e ao procurar aquele tema, que era o que interessava a ele, ele ia descobrir que o jornal abrangia uma série de outros temas que poderiam ampliar a gama de interesse da vida dele. Abrir janelas. Aquela história de que educar é abrir janelas. Então o jornal abre uma porção de janelas, e a gente trabalhava o professor o tempo todo e propunha concursos, isso e aquilo, e eu deixei lá a moça que trabalhava comigo, que continua lá até hoje e que faz um trabalho muito legal. Eu a acompanho de vez em quando, ela me convida pra ir ver alguma coisa. Agora já tem até a biblioteca do professor na biblioteca de bairro, falando sobre o hábito de leitura etc.

Então esse foi o último projeto que eu fiz e depois eu voltei pra Fundação como conselheira e como participante do júri que dá o prêmio. Participo de N seminários pelo Brasil todo, tive em João Pessoa há dois dias, estive em Natal há dois meses, enfim, viajo muito ainda chamada pra falar, em São Paulo frequentemente.  A gente tem que procurar aprender, eu acho que é isso.

 

P/1 – Pode perguntar mais alguma coisinha?

 

R – Lógico, estou às ordens.

 

P/1 – Eu queria perguntar uma curiosidade, duas curiosidades grandes dos anos setenta, uma delas era como era a casa mesmo da fundação, queria que você descrevesse o começo dela, fisicamente mesmo, quer dizer, tudo começa menor... E outra também é dessa época que você fala muito do Brasil, mas era muito mais ligado ao sudeste, né? Essa literatura que surge nos anos setenta não tinha norte, nordeste como que era isso? Tinha autores?

R – A cara da Fundação como casa, primeiro foi o Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais, que era um órgão do Governo, numa casa maravilhosa, antiga na Rua Voluntários da Pátria. Ele nos deu uma sala onde nós começamos a receber os livros dos autores. E uma coisa que eu não falei é que hoje a Fundação tem a maior biblioteca infanto-juvenil da América Latina, é realmente uma coisa enorme. Quando, em setenta e não sei quando o Ministério da Educação mudou pra Brasília, o Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais também se mudou pra Brasília, aí nos disseram: “Nós vamos daqui a não sei quanto tempo pra Brasília e essa casa vai ficar pra Unirio,” que é uma universidade aqui do Rio, “E vai ser a Reitoria da Unirio. Então vocês têm que arrumar outro lugar”. Eu, como diretora executiva da Fundação pensei: “Meu Deus, o que eu vou fazer”? E pensei: “O Ministério da Educação, aquele prédio maravilhoso lá, vai ficar vazio, já que o Ministério está indo para Brasília.” E eu conhecia muito vagamente a ministro nas cidades, que tem o título de delegado. Era uma moça chamada Mônica Rector, professora da PUC, muito interessante, inteligente. Aí eu pedi uma audiência, ela me recebeu e eu disse: “Olha, nós estamos na seguinte situação, a casa onde nós moramos não vai poder mais ser habitada por nós e debaixo da ponte, na praia, não dá pra ficar. Será que você não tem aí nesse prédio enorme, que está se esvaziando uma sala pra nos dar? E ela disse: “Claro, tenho sim.” Foi muito receptiva e nos cedeu uma sala bastante maior do que a que nós tínhamos lá e nós começamos a trabalhar lá. Eu acho que foi em 77 que a gente mudou pra lá.

Mas esse lugar mudou de andar algumas vezes, mas está há bastante tempo no décimo segundo andar. Tem uma cara absolutamente de funcionalismo público. A cara do Niemeyer. Tudo aberto por cima com aquelas coisas que separam. Em matéria de som, um problema, mas uma vista legal, bacana da cidade. E a gente não pagava nada, hoje em dia a Biblioteca Nacional paga porque decidiram dividir os custos de elevador, de limpeza, porque com todo mundo que trabalha lá... Como a Fundação não tem dinheiro, continua pobre, o Eduardo Portela, que era o diretor da Biblioteca Nacional, falou assim: “Não se preocupe, nós pagamos.” Então nós, Fundação mesmo, só pagamos o telefone, aí é uma coisa bem particular, e todos os funcionários. Hoje são dezessete funcionários da Fundação. E nós vivemos como? Com o dinheiro que os editores associados da ONG. E hoje em dia existem mais de cem editoras, mas apenas umas quarenta fazem parte da Fundação. Temos sócios, pessoas físicas que pagam muito pouco e fazemos projetos que conseguem patrocinadores. Nós temos, por exemplo, a Suzana patrocinando um projeto de bibliotecas enormes pelo Brasil afora, que eles já tinham, mas pediram a Fundação pra se ocupar das bibliotecas, formar e escolher os livros. Então é a Fundação que faz isso, esse é um patrocínio quase que permanente desde que ele começou a existir há uns cinco anos atrás e continua sempre.

A CA, que entrou a uns três anos atrás pra patrocinar também vários seminários da Fundação e várias coisas que a gente pede, eles dão. A Petrobras, que patrocina o Salão do Livro. O Salão do Livro foi o décimo segundo esse ano e foi uma coisa que já começou quando eu não estava lá, e é uma maravilha. Foi uma idéia de uma presidente chamada Regina Bilac Pinto da Fundação Infantil, que tinha sido do SNEL: Sindicato Nacional dos editores de livros aqui do Rio, e que tinha criado a Bienal do Rio de Janeiro, Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro, que em um ano é em São Paulo e em um ano é no Rio. Então ela dizia: “Olha, o sindicato vive do dinheiro que arrecada na Bienal, a Câmara também, então nós temos que fazer uma coisa menor que a Bienal, só com Literatura infanto-juvenil” e resolvemos chamar esse Salão do Livro Infantil e Juvenil, mas nós não tínhamos dinheiro nenhum pra começar. Conseguimos que o MAM nos cedesse um prédio que hoje é o Viva Rio, que virou teatro, mas era um prédio que se chamava Galpão das Artes. E as editoras pagando cada uma o seu stand, nós conseguimos fazer a primeira com essa generosidade de todos. E ganhamos, se não me engano, oitenta mil reais ou algo assim, que ajudou um bocado.

Quando foi no terceiro ano a Petrobras se interessou, nós fomos lá e dissemos: “Tem isso, é uma coisa maravilhosa” mostramos a quantidade de veiculação na imprensa que dava o salão, porque a imprensa é ótima quando há evento em relação a livro infantil. As crianças… As escolas visitam, o Ziraldo faz filas e filas, dão uma projeção enorme da Literatura infantil e juvenil. Quando é Natal “Ah, porque dar livro de Natal é uma maravilha, então tem esse e aquele... Novos livros para vocês darem.” Então o Salão também ganha páginas e páginas em todos os jornais do Rio, principalmente, e então a Petrobras ficou encantada com a centimetragem que ela iria ganhar e também porque eles têm um lado todo social que realmente a Petrobras tem mesmo. Então passou a dar trezentos mil reais pra Fundação. Esse ano nós vamos tentar que eles aumentem, porque nesses anos todos que eles patrocinam são trezentos mil reais e já está sendo pouco.

E lá nós mantemos o fato de só ter livro de ficção no máximo informativo, mas não temos enciclopédias, dicionários, nada disso, nada ligado a escola, nenhum livro didático, só livro de entretenimento. O máximo é o informativo, que é uma coisa muito nova ainda, mas que não deixa de ser didática. Ele quer ensinar alguma coisa, só que de uma forma divertida, bonita, com uma ilustração maravilhosa, coisa que o livro didático continua não tendo.

Quanto a outra pergunta que você me fez, essa pergunta é rápida porque na realidade essa questão são as editoras que se situam primeiro só no Rio e São Paulo, Porto alegre, que também teve a Globo que foi uma editora importantíssima, que hoje é Global, e Belo Horizonte, que começou depois, mas que tem hoje umas cinco ou seis editoras bastante boas. Então se ampliou, mas nos Estados existem hoje pequenas editoras que publicam, então o pessoal de lá, que começam a receber indicações altamente recomendáveis da Fundação e aí as editoras grandes chamam. É o caso do André Neves, é o caso da Socorro Acioli, que são pessoas que vieram do nordeste para a Ática, para grandes editoras. Então cada vez mais pessoas de fora do Rio... Porque antigamente as pessoas que tinham cabeça pra escrever vinham morar no Rio de Janeiro. Então os grandes autores brasileiros todos moravam aqui, embora fossem de origem de Pernambuco, do Ceará, de não sei onde, a grande exceção era o Érico Veríssimo, que nunca quis sair do Rio Grande do Sul e conseguiu se tornar um nome nacional importantíssimo, e o Luís Fernando Veríssimo segue a trilha do pai; ele viaja igual um louco, mas a casa dele é em Porto Alegre e ele é editado e conhecido no Brasil todo.

Mas no mais as pessoas não precisam mais sair dos seus Estados, porque já tem lá boas universidades, têm um desenvolvimento razoável. Eu que, por exemplo, há vinte anos não ia à Natal, fiquei espantada de ver como Natal está melhor, fui a São Luís acompanhando meu marido recentemente, é uma maravilha; sempre foi uma maravilha, mas caindo aos pedaços, agora tem uma parte que já é uma maravilha recuperada. Ainda há muita coisa caindo aos pedaços, mas já há a noção de que é preciso preservar. Então cada vez mais os autores locais vão tendo oportunidade de aparecer. Só pra te contar que quando você entrevistar a Elizabeth Serra algum dia, ela é que resolveu que dentro Salão, no auditoriozinho do MAM, mas ao mesmo tempo, em que o Salão está rolando, lá fora o auditório faz um pequeno seminário de três dias. Então um desses três dias ela resolveu que seria Literatura Indígena. Aí ela consegue dinheiro pra pagar a vinda dos índios. Agora já vem uma porção, no princípio era quase só Munduruku, agora já vêm vários e faz um concurso pras histórias contadas pelos índios, uma série de coisas. Ela sempre acreditou nisso e eu acho que é a coisa mais nova e mais importante que tem na Literatura hoje, que é a Literatura Indígena. E eu acho que a Beth é a grande incentivadora disso daí. Isso eu já não peguei, é coisa muito recente.

 

P/1 – Agora a gente vai voltar só mais um pouquinho, só pra contar um pouco da infância, eu queria que você contasse um pouco da sua casa, da sua rua, como era o Rio de Janeiro? Como você aproveitava? Ia pro mar? Conta um pouco da sua infância? Das lembranças antigas?

 

R – Bom, eu já falei que nasci na casa da minha avó, na Rua Marquês de Abrantes em Botafogo e logo depois meus pais alugaram um apartamento na Glória. E depois a gente mudou para outro apartamento na Glória e eu andava de bicicleta naquela praça linda, que se chama Praça Paris ou na Praça do Russel, onde fica o prédio da Manchete. Na minha época não tinha nada disso. Onde fica o Hotel Glória, que já existia, eu brincava por ali, naquela praça. Tinha uma babá que ia comigo e tal. Como eu te disse, eu era filha única, tinha que ter uma babá pra me acompanhar.

Quando eu tinha nove anos de idade, meu pai que sempre teve vontade de morar em casa, ele adoraria ter uma casa como tinha a família dele no Ceará. Sempre eram casas em todas as cidades que ele morou. Ele veio procurar aqui no Cosme Velho porque era o bairro aristocrático, o bairro de escritores, vários escritores moraram aqui, pra começar Machado de Assis, cuja casa infelizmente foi posta a baixo quando não havia ainda essa idéia de preservação da arquitetura. O Alceu de Amoroso Lima morou aqui, o Gustavo Corsão morava aqui, eu cheguei a ter contato com ele, a Cecília Meireles morava ali ao lado do bondinho do Corcovado, o Cornélio Pena, um autor esquecido, mas maravilhoso, também morou perto da Cecília na mesma rua. O Portinari teve casa aqui também, pintores, um bairro meio de artistas. Hoje em dia Santa Tereza é que tem essa característica de ser o bairro de artistas do Rio de Janeiro, mas o Cosme Velho já teve essa fama. Todo mundo queria morar aqui. Aí ele encontrou uma casa pertinho do bondinho do Corcovado e a casa estava caindo aos pedaços, era uma cabeça de porco. Uma casa de cômodos e a família queria vender, era uma família chamada Ermani, era bastante famosa aqui no Rio de Janeiro. Não sei por que não cuidavam da casa e nem moravam lá nem nada, mas venderam.

Aí papai e mamãe fizeram uma enorme reforma, mas mantendo todas as características da casa, era uma casa do início do século, que não é espacialmente bonita, mas é especialmente simpática, com uma varanda muito grande e um terreno enorme que vai até a rua dos fundos. Então eu fui pra lá com nove ou dez anos e meus irmãos, os dois, nasceram lá. E eu aproveitei o jardim mesmo sozinha. Eu andava de bicicleta, mas tinha uma companhia de bandeirantes funcionando lá, porque a minha mãe ofereceu o espaço do porão para que uma companhia de bandeirantes se criasse lá. E eu então não só frequentava como várias colegas minhas de colégio moradoras aqui do Cosme Velho passaram a ser bandeirantes na minha própria casa. Então era o dia que eu aproveitava bem o jardim, porque os jogos que a chefe preparava ocupava o espaço todo; tinha o hasteamento da Bandeira no pé de jabuticaba e coisas assim. Depois eu fui chefe dessa mesma companhia durante muitos anos, até casar. E meus irmãos aproveitaram mesmo, porque desde pequenininho, tendo nascido lá, pra eles aquele jardim foi uma maravilha.

E eu, depois que me casei, fui morar no Largo do Boticário, que é outro lugar histórico, que fica aqui do lado. Nós moramos até o terceiro filho lá, era um apartamento pequenino que a mamãe tinha ganhado da mãe dela e que estava alugado. Mas a pessoa foi tão gentil que quando a mamãe disse: “Minha filha vai se casar, será que o senhor podia ceder o apartamento”? Ele falou: “Sim,” pra grande espanto dela. E fomos nós morar lá. E então eu quando fui tendo os filhos… Eu vinha para a casa dos meus pais, que era bem perto, empurrando carrinho e depois um no carrinho e outro na mão, pra brincar no jardim. E aí eu pude aproveitar mais ainda o jardim da casa; um laguinho que tinha que virou piscina pra eles, um laguinho pequeno. Hoje em dia está com planta dentro por causa da dengue, claro, mas foi piscina dos meus filhos. Então depois eu mudei pra Brasília.

Eu sempre fui muito a praia sábado e domingo. Papai emprestava o carro pro chofer levar, ou ele e mamãe também iam e a gente ia ao Arpoador, que era a praia mais bacana da época. Aliás, é um pedaço lindo, mas hoje em dia o mar comeu muito, ficou uma faixa pequena de areia. E na minha época era uma faixa grande ainda. Depois que fizeram o calçadão o mar se zangou e comeu um pouco. Mas outra coisa que marcou muito a minha infância foi uma ilha. Meu pai quando veio morar no Rio de Janeiro com vinte anos e tal gostava muito de comprar bilhetes da loteria. Naquele tempo não tinha a esportiva, era só a federal. Aquele bilhete que até hoje você vê uns senhores tentando vender em toda parte. Aí ele comprava sempre e um belo dia ele ganhou o maior prêmio, que era de três mil cruzeiros, era dinheiro pra burro. Aí o sonho dele era comprar uma ilha, e ele comprou uma pequena ilha, uma ilhota na Baia de Sepetiba, em frente a uma cidade chamada Itacuruçá, que é um pouco antes de Mangaratiba, é um pouco antes de Angra do Reis, que é um pouco antes de Parati, enfim é o que aqui se chama de Costa Verde do Rio de Janeiro.

Então ele comprou essa ilhota, era solteiro, tinha 21 anos e ia com os irmãos pra lá fizeram uma cabana e ficavam lá e tal. Em frente a essa ilhota tem uma ilha enorme que pertence a várias pessoas, vários condomínios, não é condomínio porque não chamavam assim, eles chamavam de fazenda. Então o dono de uma casa lá - eu tenho até retrato ainda, era casa coberta de sapê, mas já era uma casa - ele quis vender. Eu não me lembro mais se estava velho, doente, sei lá, não podia mais ir. Então propôs a papai que o conhecia “Você não quer comprar”? E ele: “Quero” e comprou. Deve ter sobrado dinheiro desse prêmio, porque ele era um mero jornalista, não devia ser muito caro também, não. Depois aos poucos ele foi comprando mais dos vizinhos, porque ele gostava. Nós íamos todos os sábados pela manhã e voltávamos segunda feira pela manhã e a única comunicação com o mundo era rádio, não tinha luz, era fogão à lenha e ele tinha uma barca de motor e tinha barcos a remo também. Então dependendo, a gente usava uma ou outra, mas não eram esses motores rapidíssimos não, mas que tinha uma coberturinha para os dias de chuva a gente ficar de baixo. Eu fui com um mês de idade pra ilha e não deixei de ir até casar. Quer dizer, quando comecei a namorar eu não ia toda semana, porque tinha que ir as festa aos sábados e domingos, eu ia de vez em quando pra fazer média com a família, mas eles permitiam que eu convidasse minhas amigas de colégio na semana santa. Então várias amigas minhas iam e era divertidíssimo lá.

A gente tomava um banho de mar, tinha uma praiazinha não muito boa, mas era uma praiazinha particular e a gente remava. A gente dava a volta na ilha no motorzinho de popa parando nas praias boas dos outros lugares. Enfim, era uma coisa muito divertida. E quando eu comecei a namorar e tal, eles permitiram que eu levasse amigas e os namorados e a gente dançava na varanda e comia feijoada. Eles iam sábado e voltavam domingo e essa coisa foi uma coisa inesquecível. E você tem essa descrição no livro da Luciana, que não fala da minha, mas da dela, porque todos os meus filhos foram também com uns dois meses de idade, eu amamentando para a ilha. E eles tiveram um privilégio que eu não tive, que foi passar as férias na ilha. Por quê? Como os meus irmãos, com uma idade próxima dos meus filhos, muito mais do que eu deles, tinha a babá dos meus irmãos que passavam as férias com eles na ilha. Mamãe e papai continuavam indo sábado e voltando segunda, e os meninos ficavam o tempo todo com a babá. Então quando os meus filhos atingiam uma idade que não dava já muito trabalho, quer dizer, que já tomavam banho, que já comiam sozinho, que não eram mais uns bebês, ficavam lá com meus irmãos e com a babá. Então todos eles passaram as férias lá.

 

P/1 – Laura, por falar em Lobato… Formar leitores é importante pra você desde sempre, lá na infância você leu com... Quais eram as outras leituras nessa grande biblioteca do seu pai que você foi encontrando assim?

 

R – A biblioteca do meu pai realmente era muito grande, mas muito variada, ele não foi uma pessoa que tivesse uma biblioteca daquelas que as faculdades ficam loucas pra comprar, porque é uma biblioteca especializada em Sociologia ou em Economia. Não, ele tinha muitas literaturas e muitas traduções, muitos autores brasileiros. E o que eu lembro é que quando eu tinha sei lá, onze anos ou algo assim, ele me levou na biblioteca muito solenemente e disse: “Laura Constância, você pode ler qualquer livro que está aqui que te interessar, exceto a Bíblia.” E realmente a Bíblia tem passagens muito fortes. Então ele achava que aos onze anos eu não podia ler a Bíblia, mas que eu podia ler qualquer outra coisa. E eu ia pegando principalmente José Lins do Rego, poesia, Graciliano Ramos, Machado de Assis, José de Alencar, ele próprio me dava de presente de aniversário livros de grandes autores e tal que eu fui lendo.

 

Aí outro pedaço da minha vida que se ele souber que eu me esqueci de falar vai ficar danado, é a Revista Ficção. Ela existiu em plena ditadura também, década de setenta, eu acho que foi de 74 a 79. Nós tivemos 44 números. Era uma revista só de contos e tinha como slogan: “Ficção, uma Revista para o Prazer da Leitura.” Então eram contos de autores brasileiros em sua maioria. Nós publicamos quinhentos autores brasileiros; teve um monte desses autores que hoje são famosos que tiveram seu primeiro conto publicado na Ficção. Tínhamos um concurso de contos mensal pra publicar gente totalmente desconhecida, onde estreou nosso querido Cristóvão Buarque, que depois publicou os contos dele. Mas era assim, todo mundo, o José Rubens publicava, a Nélida, o Inácio Loyola Brandão, o Rubem Fonseca, porque o Rubem já era bastante conhecido, mas não a estrela que é hoje. Aí dava um conto novo pra gente publicar, nós não tínhamos patrocínio de nada, não havia lei Sarney, nem lei Rouanet.

Então nós tínhamos um único empregado que era o cara que ia buscar os anúncios, e o Cícero, como sempre foi um jornalista de bastante prestígio, conseguia de editoras, de bancos etc, e mandavam um moço lá buscar. Então nós tínhamos sempre quatro anúncios, um dos caras que nos ajudou sempre foi o José Mindlin, claro, a Metal Leve está em todos os números da ficção. Editoras como Nova Fronteira, que era o Sérgio Lacerda também sempre dava... Bancos... E Salim Miguel, não sei se você conhece, é maravilhoso, um escritor muito premiando, mas que hoje em dia voltou pra Santa Catarina, ele mora em Florianópolis, mas nessa época era redator da Manchete, onde o Cícero também era redator. Então eles dois ficaram muito amigos e eles dois tinham vontade de criar alguma coisa que desse oportunidade aos jovens de escrever, e inventaram o Ficção. E a mulher do Salim, que é escritora, a Egle Maria e eu, mas ambas mais ligadas a Literatura infantil, mas também escritora. Então nós quatro e mais um escritor que era bem famoso, chamado Celso Cunha, escritor de contos de ficção científica muito interessante até, então nós cinco fazíamos a revista inteiramente, não tinha mais ninguém desde fazer correção, revisão. Eu me lembro do Cícero saindo com um monte de coisas pra gráfica e acompanhar na gráfica. Nós aguentamos quatro anos disso, porque no início nós tínhamos a seguinte idéia: se fizer sucesso, daqui a um ano ou dois, um de nós, dos homens, provavelmente sairia da Manchete e ficaria só editando a revista, mas isso não aconteceu. Fez sucesso, nós tínhamos um monte de assinaturas, a revista era empacotada aqui em casa e depois era levada pro correio. Era uma loucura o trabalho que dava. No fim de quatro anos nós já estávamos muito cansados porque era trabalho de fim de semana divertido, mas cansativo. Ou Eglê e Salim vinham pra cá e a gente ficava: “Ah, esse conto é bom, eu não acho por isso, por aquilo...” Escolhíamos e montávamos o número seguinte. Ou a gente ia pra casa deles pra fazer a mesma coisa, os filhos deles ajudavam a botar no correio, os nossos filhos ajudavam a empacotar, tudo era familiar. Uma coisa que não se usa mais absolutamente.

Mas depois de quatro anos nós já estávamos muito cansados e o Salim e a Eglê decidiram voltar, eles já tinham combinado que quando se aposentassem voltariam pra Florianópolis. Eles moraram vinte anos aqui no Rio e aí voltaram. Aí nós decidimos que não íamos continuar a fazer sozinhos porque não tínhamos condições, e a revista acabou.

 

P/1 – Pra não cansar muito, mais uma última pergunta que é de praxe no Museu. Você não contou a vida inteira, obviamente, contou um recorte da vida, mas o que você achou de contar a vida pra gente aqui um pouco?

 

R – Ah, eu achei curioso que vocês tenham interesse, acho curiosa a existência do Museu, acho uma coisa muito bacana e muito inusitada. Pra mim foi uma felicidade total por ter sido selecionada pra participar. Sem dúvida é uma honra, eu me sinto realmente muito feliz de estar deixando as minhas memórias pra posterioridade.

 

P/1 – Obrigado Laura.

 

R – Eu é que agradeço.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+