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História

O poder da prática esportiva

História de: Ângela de Carvalho Bernardes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 25/06/2021

Sinopse

Ângela conta sobre a sua infância e seus problemas com sua mãe por conta do esporte. Sua mãe, apesar de ter sido jogadora de vôlei da Seleção, nunca incentivou sua filha a participar dos campeonatos. No entanto, Ângela nunca desistiu e participou de vários times. Relembra sobre sua vida nômade, por conta do esporte, sua trajetória profissional, e como entrou na Fundação Gol de Letra, como é trabalhar num ambiente que pede soluções a cada segundo. Por trabalhar na comunidade, ela coordena um programa de esporte e teve que lidar com ameaças de traficantes. Conta sobre o desafio de trabalhar no terceiro setor, o perfil do jovem atendido no programa e sua paixão em trabalhar com esporte educacional.

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História completa

P/1 – Então começando a nossa entrevista Ângela, pedir para você falar o seu nome completo, o local e a data de nascimento.

 

R – Ângela de Carvalho Bernardes, eu nasci em Uberlândia, Minas Gerais, no dia dezesseis de março de 1970.

 

P/1 – E o nome dos seus pais?

 

R – Meu pai chama-se Alan Bernardes e minha mãe Claudete Carvalho Bernardes.

 

P/1 – E o seu pai trabalhava com o quê? O que ele fazia profissionalmente?

 

R – Ele foi jogador de futebol profissional pouco tempo. Dizem que ele era um talento, dizem que ele jogava muito bem, mas na época, ele passou num concurso do Banco do Brasil que era um mega, super emprego e aí ele parou de jogar. Quando eu nasci ele era funcionário do Banco e naquela situação que mandavam-se as famílias pro interior do país, para lugares bem longes. Então eu nasci em Uberlândia, mas ele já morava no interior de Goiás, uma cidade que chama-se Goiatuba. E a minha mãe dá risada porque ela fala: “Ninguém nasceu em Goiatuba, pelo amor de Deus. Foi tudo para Uberlândia...” porque ela é de lá então ela teve os três filhos e voltava para Goiás para ficar com ele, porque a cidade realmente não tinha nada, mal tinha luz elétrica, e pra criança, infância era uma delícia, mas para ela, ela não gostava nem um pouco. Então ele trabalhava no Banco do Brasil, nessa época, e a minha mãe não trabalhava nessa época.

 

P/1 – E você passou a infância em Goiatuba?

 

R – Cinco anos. Eu voltei para Uberlândia porque ele sempre tentava transferência do Banco, na época, e eu tenho mais lembranças da minha infância, poucas de Goiatuba, mas muito mais de Uberlândia porque eu fui com cinco anos e meio mais ou menos. Voltamos para Uberlândia que foi quando eu comecei mesmo a vida escolar e envolvimento com grupos, esportes e tudo o mais.

 

P/1 – De Goiatuba, o que você lembra?

 

R – Eu lembro da casa que a gente morava, era uma casa deliciosa, um jardim enorme na frente, tinha piscina. Lembro-me das brincadeiras de rua com os amigos da própria rua, porque a gente brincava muito na rua. Ficávamos sentados na rua conversando com os amigos e me lembro muito da minha primeira professora que eu ficava com muita vontade de ir pra escola porque os meus dois irmãos - eu era mais nova - e meu irmão já estudava, minha irmã já estudava e eu não. Então eu tinha muita vontade de começar a estudar. E a minha mãe... Ela ensinou os três filhos a ler e escrever em casa, então naquela época isso era uma novidade, ela ostentou isso como um troféu, sempre contava isso com orgulho, porque os três entraram na escola com cinco anos, passamos no vestibular com quinze anos, então isso sempre foi um orgulho que ela trazia da família. Mas eu me lembro de muitas brincadeiras de rua, de jogar bola, de cantigas de roda, essas coisas.

 

P/1 – E aí com cinco anos vocês mudam para Uberlândia?

 

R - Isso.

 

P/1 - Ele consegue uma transferência?

 

R - Ele conseguiu a transferência, a gente mudou. Viemos todos, em cinco. E uma lembrança vaga, quando nós voltamos ele alugou apartamento e a gente morava em casa, então teve um processo aí de não adaptação à apartamento, porque a vida toda a gente sempre morou em casa, a minha mãe sempre morou em casa, o meu pai também e a gente também, então não conseguimos adaptar a um apartamento. Ficamos uns seis meses só, e logo em seguida ele conseguiu uma casa. E aí a gente... Em Uberlândia sempre minha mãe morou na mesma região, região central da cidade, muda de duas ruas para trás ou para frente, mas sempre na mesma região que é onde ela mora atualmente.

 

P/1 – Agora, Uberlândia é uma cidade perto da _______.

 

R - É.

 

P/1 – E como é que foi esse negócio de sair de uma cidade pequena e ir para uma cidade grande?

 

R – Maior, né?

 

P/1 – É.

 

R – Uberlândia, na época, não era tão grande assim. Bom, acho que não tive muita dificuldade. Eu nunca tive dificuldade de me adaptar a nenhum ambiente. É um pouco diferente da minha irmã, eu sou um pouco mais parecida com meu irmão mais velho, a minha irmã do meio tem um lado um pouco mais inseguro assim. Eu sempre me adaptei muito bem a ambientes novos. Não me lembro nada marcante de ter tido problema com escola, de grupos, não. Eu sempre me adaptei muito bem a qualquer ambiente novo.

 

P/1 – Mas essa coisa de ficar na rua, de brincar, permaneceu isso?

 

R – Permaneceu, porque Uberlândia também é... Naquela época dava para fazer isso. Então a gente também tinha amigos vizinhos que ficávamos uns nas casas dos outros, a gente também brincava na rua, a casa também era grande, tinha um quintal, e a gente manteve esse lado de brincadeira, não mudou muito, não.

 

P/1 – Ângela, fala um pouquinho dos seus avós. Maternos e paternos.

 

R – Eu convivi pouco com avós. Eu não conheci a mãe do meu pai, ela faleceu bem antes de eu nascer, Amélia. O pai do meu pai, eu conheci, ele morreu bem idoso, acho que ele tinha uns 97 anos, 98 anos, por aí. Fiquei sabendo que assim... Ouvia histórias dele, ele era um, muito ruim, que ele... Ele teve quinze filhos, meu pai é filho de quinze e... Batia nos filhos, bebia para caramba, diz que era uma bagunça naquela casa. E eu convivi muito pouco com ele, eu peguei ele mais na fase, acho que ele já tava calminho. E a família não fazia muita questão de conviver com a família do meu pai. Minha mãe e meu pai são separados, divorciados, mas hoje convivem super bem, mas nunca se deram muito bem as famílias, então eu não convivi muito com a família do meu pai, os avós paternos. Já do lado da minha mãe, eu me lembro que eu era muito ligada quando criança, mas eu não tenho muita imagem do meu avô, o pai dela. E ele faleceu quando eu tinha onze anos, eu lembro que foi uma situação muito triste porque foi um erro médico, minha mãe ficou muito mal com essa história e toda família ficou muito mal. E eu me lembro que ele era um senhor muito fechado, me lembro da cara séria dele, ele era taxista lá em Uberlândia, muito conhecido, mas eu brincava muito com ele. Eu me lembro que todo mundo conta que eu brincava muito com ele. E eu chegava e me jogava no colo dele e... Mas ele faleceu quando eu também era nova, tinha onze anos de idade. A minha avó faleceu a pouco tempo, a mãe da minha mãe. Mas eu já tinha saído de Uberlândia, eu saí de lá... Faz quinze anos que eu tô em São Paulo. E a minha avó era sempre aquela coisa de tomar café na casa da avó no fim de semana, comer o pudim da avó, então aquele carinho, não muito de convivência, eu sei que a minha avó também ajudava muito a minha mãe quando a gente era bebê, mas não tenho muita convivência com avós. A casa da minha avó era muito gostosa, também era um quintalzão de terra, isso já em Uberlândia. Como eu te falei, a gente... Não perdemos muito esse lado de brincar em quintais grandes, árvores, subia em árvore, quintal de terra, a casa da minha avó era assim. Então a gente ia todo fim de semana brincar, às vezes ficava lá período de férias, eu tenho algumas lembranças de natais que a gente passava na casa da minha avó. Então sempre tinha aquele ritual de acordar no dia seguinte, o presente tá lá e tal. E era sempre na casa da minha avó. E não tive muita convivência também com avós. Acho que foi mais quando criança e depois eu saí e não fiquei mais em Uberlândia.

 

P/1 – Como é que chama essa avó?

 

R – Essa avó chama Floripes. Aliás, a lista de nomes da família da minha mãe e do meu pai, você vai dar risada até acabar o mundo. Porque é muito engraçado. Esse... O pai do meu pai chama Fenelom, que foi casado com a Amélia, essa que eu não conheci. O meu avô Hermes e a minha avó Floripes. E são nomes engraçadíssimos nessa família. Algumas primas da minha idade, ou um pouco mais velhas, claro, conheceram o bisavô e a bisavó, que era o Calimério e a Isaltina. Olha isso, dá música. Dá um forró essa família. Mas eu não conheci. Eu tenho uma prima que era uma grande amiga também, ela conheceu os dois e eu não conheci.

 

P/1 – Ai que ótimo. E dessa infância, você falou de várias brincadeiras. O que era esse grupo de meninos e meninas que brincavam assim, os irmãos, os primos...

 

R - Eu me lembro muito dos meus irmãos. A gente brincava muito na casa dessa minha avó, mãe da minha mãe. E eu tenho parentes, tenho primos de primeiro grau por parte de mãe, mas a gente não tinha muita brincadeira, não, era mais eu, meu irmão, minha irmã, que eu lembro bem, a gente sempre tava junto, os três. Temos diferença, minha irmã é dois anos mais velha que eu, meu irmão é quatro anos, quase cinco mais velho que eu. Então, os três, a gente sempre tava junto, de criança. Primos, eu me lembro pouco, eu me lembro mais de um... De primos por parte do meu pai, mas já numa outra idade, doze, treze anos, porque a gente também brincava.

 

P/1 – E dessa infância mais tenra, do que vocês brincavam assim, nesses quintais? Você aprontava muito?

 

R – Eu tinha uma brincadeira, eu acho que em São Paulo eu nunca vi isto, era em quintal de terra, eu não me lembro o nome da brincadeira, a gente fazia uns caminhos com a mão e uns buraquinhos. Aí a gente jogava uma bolinha que tinha que acertar naquela bolinha. Isso era brincadeira preferida na casa da minha avó. E subia em árvore, era uma delícia também. Subir em árvore, brincar lá em cima na árvore. Eu tenho mais lembrança de brincadeiras que... Já com mais idade. Eu gostava de brincar de gravar, a gente tinha aquele gravador que você apertava e ficava gravando historinha. Lendo, criando, inventando histórias e comecei a brincar com esporte, porque também a minha vida inteira eu fiz esporte, já nessa idade, sete, oito, nove anos, aí ficava jogando vôlei na rua, brincava de escorregar no quintal, tinha aquele quintal com piso liso, jogava água e sabão, nossa, a gente adorava fazer isso. Pique esconde e fazíamos... Brincava muito, muito, muito.

 

P/1 – Mas sempre vocês três ou dessa de dez, onze anos, o pessoal da rua, os vizinhos...

 

R - Tinha mais amigos... Exatamente, tinha vizinhos... A minha casa sempre foi uma casa cheia, sempre. Seja de... Minha família adora festa, então a gente nunca tava sozinho, eu nunca tava sozinha. Não era só com meu irmão e com minha irmã, mas eu não tenho aquela pessoa que conviveu com a gente muito tempo, não sei se foi por causa da mudança, porque a gente foi para Uberlândia e depois criou um círculo de amizade ali, e eu comecei a ter amizades no voleibol também, então essas amigas iam pra casa, a gente brincava. Mas eram sempre vizinhos, amigos, chamava a amiga para ir pra casa e a gente já começava a brincar. Brincava muito de boneca também, mas eu me lembro que eu tinha umas brincadeiras mais de movimento do que de boneca. Brincava de boneca eu tava no primeiro colegial, porque eu era muito nova, com treze anos eu tava fazendo colegial, chegava em casa ia brincar de boneca. Mas eram sempre brincadeiras muito… Com bastante gente. Brincar de esconder, brincar de cabra-cega, essa brincadeira de gravar historinhas, eu tinha fitas até a pouco tempo, eu dava muita risada.

 

P/1 - Uma delícia, né?

 

R - É uma delícia. A gente criava, inventava...

 

P/1 - Criavam sozinhos, em turma?

 

R - Não, em turma, sempre em turma. Sozinha mais na adolescência, porque eu comecei a ficar um pouco mais sozinha.

 

P/1 – E esses estudos de infância? Onde você foi estudar, qual colégio?

 

R – Eu comecei em Goiás, em Goiatuba, numa escola particular. Eu me lembro dessa professora. Eu acho que tem um lado muito forte da minha mãe que ela, desde quando eu nasci, eu acho que até antes, quando os meus irmãos nasceram, ela sempre criou os filhos muito mais ela do que meu pai. Então era um pouco aquele padrão que o homem trabalha e a mulher cuida dos filhos. Mas já vivendo uma certa transição desse papel aí, porque a minha mãe dava aula, ela é formada em Música, ela dá aula de música hoje, ela voltou a dar aula de música, e ela tinha parado de trabalhar, então ela se dedicava aos filhos. E ela sempre foi uma pessoa muito responsável, muito trabalhadora, então esse lado da responsabilidade, acho que vem no DNA porque eu não tinha muita vontade de estudar e sempre me saí muito bem em estudos, nunca tive também dificuldade. Um empenho fora do comum, responsabilidade acima de tudo, primeiro a obrigação, depois a diversão, aquele lema que grava na sua cabeça pro resto da vida e isso tudo para mim sempre foi algo interessante, sempre gostei muito de estudar. Então nunca repeti de ano, passei no primeiro vestibular na federal e fiz o que fiz, e foi assim, foi uma coisa meio que natural. Óbvio que é natural pelo empenho, pela responsabilidade e pelo compromisso com o estudo. Então sempre foi algo bem interessante.

 

P/1 – Mas assim, qual foi a escola que você foi estudar em Uberlândia? Goiatuba era essa escola particular?

 

R - Eu estudei em escola pública em Uberlândia que era uma escola muito boa, anos... Final de anos setenta pra metade da década de oitenta. Era uma escola que chamava Polivalente. Era conhecida como Polivalente, Guiomar de Freitas Costa. Era a melhor escola da época. Tinha escolas particulares mas essa escola estadual era... Oferecia as melhores atividades. Eu me lembro que era uma escola que tinha muita diversidade. E é interessante que hoje a gente estuda isso. No trabalho em educação integral você tem que oferecer diversidade, imagina, eu tive isso. Então a gente tinha Práticas Agrícolas, Educação para o Lar, Práticas Industriais e Práticas Comerciais. Essa diversidade fora Matemática, Português, Inglês, tudo isso. Era muito legal da escola, então a gente ia pra horta, aprender a fazer horta, mexer com máquina, com torno, com serralheria, nem lembro bem o que é que a gente fazia, tinha definido o período que a gente ia fazer lá. Mas essa escola era muito bacana. E, saindo da oitava série nessa escola, aí eu voltei para uma escola particular que também era a melhor escola, eram umas duas escolas que tinha lá na época, Promove e o Anglo. E aí era mais ou menos natural você passar nessa escola estadual, naquela escola particular e entrar na federal, o caminho era mais ou menos esse que todo mundo seguia lá.

 

P/1 – E o início do seu contato com o vôlei, você falou que foi quando criança ainda.

 

R – É, a minha mãe foi jogadora de vôlei.

 

P/1 – É mesmo?

 

R – É, ela também jogou na Seleção Estadual, levantadora. Mas essa história com minha mãe é interessantíssima. Eu comecei no vôlei, bom, acho que toda criança começa fazendo natação. Então a gente começou com natação para aprender a nadar, não morrer afogado, e aí chegou uma hora que eu falei: “Ah...” não tinha muita idade para escolher, era mais a minha mãe: “Não, vocês estão ficando já fortes, com ombro largo, não pode mais fazer natação. Vamos fazer outra coisa”. Era assim. O que eu me lembro foi na época que eu comecei a competir na natação e aí comecei no vôlei com nove anos. A minha irmã já fazia vôlei, era mais velha que eu e eu comecei no vôlei. Eu era baixinha, muito baixinha. Adorei. Tinha uma facilidade muito grande pro voleibol, e daí eu não parei mais. Foram trinta anos de vôlei que eu continuo jogando até hoje para brincar. Mas é... Era um clube, dois quarteirões da casa da minha mãe que é até hoje onde ela mora. A gente morava numa rua de trás, também era bem próxima, a gente ia a pé. Comecei numa escolinha e adorava, então dos nove anos até quando eu parei de estudar, minha vida foi isso, chegava da escola e ia pro clube. Fazia tarefa, fazia o que tinha de fazer de estudos e ia pro clube, então não era nem horário de treino meu e eu ficava lá catando bola no treino da outra turma, ficava assistindo o treino do adulto, ficava sempre ali junto porque era paixão, adorava jogar. Sempre gostei muito.

 

P/1 – Recuperar um pouquinho... O que você sabe da carreira da sua mãe?

 

R – Eu me lembro de algumas fotos. De ver aqueles uniformes que você dá risada hoje. O vôlei jogava assim, com a mãozinha aberta, eu cheguei a jogar com ela. A minha mãe não conta muito. Ela conta mais das diversões, das viagens que ela fazia, e ela não falava muito do prazer dela jogar vôlei, do quanto... Porque a gente tinha um conflito muito grande que desde pequena eu comecei a receber propostas para sair de lá de Uberlândia. E ela nunca incentivou para jogar vôlei. E era um contra-senso absurdo. Porque ela tinha sido jogadora, mas ela não me incentivava, eram brigas homéricas e eu ficava um mês sem falar com a minha mãe porque desde... Joguei primeiro a Seleção Estadual com quatorze anos, então desde os quatorze anos eu recebia muitas propostas para sair e jogar nos clubes porque não dá para ficar em Uberlândia, interior, você não joga. Não tem cidade perto, você não pratica muito.

 

P/1 – Você tinha proposta de onde? Rio, São Paulo?

 

R – Rio, São Paulo, Amazonas, Sul... Sul tinha um time, a Hering que investia, tinha tudo quanto é lugar. O pessoal descobria e ligava. E era motivo de briga, eram dois, três telefonemas por semana na minha casa e briga. Tocava o telefone e eu falava, porque eu não sabia o que fazer. Tinha quatorze anos, então não podia resolver sozinha. E com ela era assunto encerrado. Atleta é vagabundo, atleta... Eu não tinha ainda discernimento para poder conversar esse tipo de situação com ela. Então eu não sei muito da vida da minha mãe como atleta. Eu me lembro de fotos de jornais, de títulos dela. Mas conversar com ela sobre isso, a gente conversou muito pouco, porque o voleibol era um motivo de conflito entre mim e ela. E eu também sempre fui a filha mais próxima da minha mãe, ela adorava ficar comigo. E depois vieram os anos e as santas terapias que te ajudam a entender porque que sua mãe não quer que você saia do lado dela, e aí depois que eu consegui sair e entender um pouco isso, eu pude conversar isso numa boa, porque de uma certa forma era exatamente o contrário que ela deveria fazer, me incentivar a viver um talento que ela não viveu. Ou ela viveu por um tempo porque depois ela casou e parou. Ela abriu mão da vida dela, mas eu não queria abrir mão da minha. Foram anos para chegar nesse ponto e enquanto isso eu vivia um conflito muito grande ali porque, para mim, eu tinha que ter aquela questão da obrigação primeiro, então a obrigação era o quê? Estudo, “estudo é o que vai te levar a algum lugar na vida, então você tem que estudar. Voleibol não é profissão. Nunca foi”. Mas eu adorava, minha paixão era o voleibol, então não faltava à aula nunca, ia pra aula doente, aquela coisa da responsabilidade para poder viajar em campeonato. Teve, tive, acho que eu peguei umas duas greves no período que eu fiz faculdade e tentava conciliar para ver se desse para viajar só na época da greve. Teve... A última seleção que eu joguei estadual, eu tive que trancar a faculdade para poder ir jogar na Seleção, então esse paralelo de voleibol e estudo eu sempre fui driblando para fazer os dois bem feitos. Não dá para fazer meia boca. Então eu não conversava muito com minha mãe isso. É interessante. Quando eu saí a primeira vez eu tinha 21 anos, a gente ficou um tempo sem conversar porque foi engraçadíssimo, dia treze de julho eu me formei, foi a festa de formatura e dia quinze eu estava em Ribeirão jogando, então foi aquela ceninha de entregar o diploma pra mamãe e ir embora, mala pronta e... Cumprir a obrigação do que você queria.

 

P/1 - Aí você foi pro time de Ribeirão?

 

R – Fui, eu já tinha assinado com esse time e falei: “Não, então espera só eu formar que eu já tô indo”. Mas na verdade o esporte tem um tempo, eu saí um pouco atrasada quando eu resolvi jogar profissional. Se fosse para realmente despontar, minha geração cresceu porque clubes, incentivo e apoio, não é só o talento, não é só o esforço que faz você viver muito tempo disso. Mas enfim, tem o lado bom também, que é fazer faculdade, é conhecer o lado acadêmico que eu também sempre gostei. Mas eu acho que esse peso emocional dessa situação do vôlei entre mim e minha mãe, a gente sustentou aí um conflito durante muito tempo.

 

P/1 – Ela não queria que você seguisse carreira no vôlei ou ela não queria que você ficasse longe da família?

 

R – As duas coisas, Cláudia. Porque minha mãe teve a questão do casamento, então foi um casamento frustrado. Ela brigava muito com meu pai, eles se gostavam muito, mas não davam certo juntos. Meu pai também bebia, bebe até hoje, é um bom (vivano?), uma pessoa linda, maravilhosa, mas é aquilo. E eu acho que toda a expectativa dela, ela viu que foi frustrada. Então ela... A minha mãe era... A cena que eu tenho da minha mãe, são cenas inclusive em terapia, deu me lembrar muito bem, é aquela cara amarrada. A gente brinca e fala: “Nossa, essa cara aí pelo amor de Deus, mau-humor absurdo”. Mas ela é uma pessoa ao mesmo tempo engraçadíssima que tem livrinho de piada, guarda no sutiã, onde ela vai, ela tira o livrinho e conta piada, você olha e tem rodinha de gente dando risada. Mas é uma pessoa muito dura, uma leoa e essa proximidade de troca a gente não teve, o carinho da minha mãe, ela dava carinho através de comida e tal. Mas eu tinha uma relação muito próxima com a minha mãe, eu acho muito que pela... Não sei se filha caçula, pela situação dela e do meu pai, eu me lembro que minha infância toda até adolescência os dois brigavam, brigavam, eram só brigas, brigas, eu não me lembro de... eu me lembro de bons momentos, a gente viajava, tinha festas e tal. Mas eles brigavam muito. E eu fui desenvolvendo um papel que eu acho que tem tudo a ver comigo, sempre teve, de ser a mediadora dessa história. Então eu fazia graça, eu fazia palhaçada até todo mundo ficar bem. E aí depois eu ficava mal mas eu tinha que dar um jeito de resolver aquilo ali. E costumo brincar que “eu não escolhi Psicologia, a Psicologia que me escolheu, não dá para fazer outra coisa”. E minha irmã não, minha irmã se descontrolava, o meu irmão ficava bravo, brigava junto e eu fazia palhaçada ao ponto deles tarem no meio de uma briga, eu entrar no meio e começar a dançar, cantar, eu sei lá, nem me lembro. Então isso, acho que não me aproximou muito da minha mãe, porque a minha mãe, ela se relaciona ou se relacionava com recursos, não era uma fala: “Olha, fica comigo, eu vou sentir saudades” referente a essa minha saída de lá. Não, era assim: “Voleibol não presta”, então eu demorei um tempo para entender o que significa esse: “Voleibol não presta”. E aí eu tinha que elaborar toda essa relação com a minha mãe porque era uma coisa muito difícil para mim. Então eu tinha méritos, eu tinha talento, me empenhava, jogava campeonato, era escolhida a melhor, não sei o quê, ia receber prêmios, tal, tudo isso eram situações ao mesmo tempo muito prazerosas e muito conflitantes, porque eu não tinha aquele apoio que eu precisava ter. E o meu pai, aquela figura assim: “O que você escolher tá bom”. Assim, te dá uma segurança absurda do que você vai fazer, “o que você falar eu assino embaixo”, ou seja, nada. Se passar de ano tá ótimo, se não passar tá bom também. Então eu não tinha muito parâmetro. E a minha mãe sim, era aquela coisa, certa ou errada era um parâmetro.

 

P/1 – E dessa época, quatorze, quinze anos, o que te apaixonava no vôlei? O que você curtia?

 

R – Então, eu acho que o vôlei... Eu acho que o atleta, não sei se o atleta ou quando qualquer pessoa descobre o seu talento. Eu acho que tem um lado de curtir aquilo que você faz bem, então minha função no vôlei é levantadora, levantadora já é uma função um pouco diferenciada porque só tem “a levantadora”, não tem “as atacantes e a levantadora” e a minha habilidade em jogar vôlei é uma das coisas que mais me agrada e sempre agradou, então você faz aquilo e tem sucesso, você faz uma jogada brilhante e você recebe o feedback imediato, isso é uma coisa extremamente prazerosa. Claro que tem o empenho muito grande por trás disso, anos de treinamento e dedicação e tal. Mas o momento de colocar isso em prática, ele é... Eu curto, sempre curti treinar, fazer parte física, porque eu sei que isso vai ter um resultado a médio ou longo prazo. Então, o que me apaixonava no vôlei, o que me apaixona, o que eu jogo até hoje mesmo com uma ficha médica enorme, porque vai passando o tempo e você vai aumentando os seus problemas. Eu acho que é isso, eu acho que a habilidade, é você fazer bem algo e o esporte tem isso, ele te dá um resultado imediato. Você tem um curto prazo de tempo para se desempenhar, bem ou mal, e se você se desempenha mal, você tem a chance daqui a poucos segundos de tentar de novo e tentar de novo e fazer certo, e você faz um monte de vezes certo e um monte de vezes errado. Então essa relação imediata com o sucesso e o fracasso é algo fascinante, faz parte da minha vida acho que desde pequena porque eu sempre gostei de jogos, video game, war, jogos, adoro jogar, adoro competir, e sou assim... Aprendi a perder. Perder brigando até o fim, fico brava mas saio dando risada, é o prazer pelo jogo que eu tenho e sempre tive.

 

P/1 – E o relacionamento com a torcida também? Como é que...

 

R – Bom, eu sempre fui muito tranquila.

 

P/1 - Tem uma resposta imediata da torcida também.

 

R – É, tem. Eu sempre fui muito brincalhona também. Então eu nunca tive nenhum problema, entre aspas, algumas situações engraçadíssimas que a gente lembra, e jogos, principalmente Liga Nacional, em cidade pequena que você vai jogar, o pessoal joga moeda, lagartixa na sua cabeça, tampinha, fala coisas bem agradáveis ao seu ouvido. Cenas memoráveis com a torcida mas nada que tenha me deixado tensa ou atrapalhado o meu desempenho, não. Sempre brinquei muito com torcida, e alguns técnicos dependiam um pouco da personalidade da pessoa que incentivava isso ou não. Tem técnico que é mais focado: “Oh, vamos...” eu sempre brinquei, alguém fazia um comentário a hora que eu ia sacar e eu olhava e respondia, assim, uma relação extremamente tranquila, nunca tive nenhum problema com torcida, não.

 

P/1 – Mas você também tem a sua torcida, né?

 

R – A minha pessoal?

 

P/1 – É, do seu time, que te incentiva, que te leva.

 

R – De outras pessoas?

 

P/1 – É, do seu time, a favor de você assim.

 

R – É, tem. Eu tento pensar um pouco nisso, assim Cláudia, porque eu acho que essa questão de eu ter ido jogar, ela foi uma luta minha, né? E eu fico olhando pro lado para ver quem que é marcante nessa minha luta, nessa minha carreira de voleibol. Ninguém mais além de mim (risos). Porque já brigar com a minha mãe já foi tão difícil que eu consegui sair de lá, eu sei que foi uma briga interna mesmo. Cada time que você joga, cada temporada tava jogando num lugar. Morei em Ribeirão, morei em Jundiaí, em Belo Horizonte três vezes, e em Brasília, aqui em São Paulo, então chega uma hora também que você cansa de ficar mudando de lugar. Cada time que você tá tem a torcida do time que te apóia, mas apóia o seu time e se amanhã você tiver em outro, eles tão torcendo contra, né? Tive algumas pessoas que se aproximaram de mim, começaram como uma admiração pelo jogo e depois a gente conviveu e foram pessoas que eu mantenho amizade até hoje, pessoas muito legais, e que até compraram brigas ao meu favor nos times, com técnico, e tudo o mais. Mas assim, eu me lembro muito... Eu acho que a maior torcida para dar certo era a minha, de ir atrás porque é muito interessante, eu sempre fui muito independente, isso é um lado que meu pai fala até hoje, com orgulho, “você, quando você aprendeu a andar, você ia lá e pegava sozinha, você nunca pediu nada para ninguém”. Também tive que fazer terapia para aprender a pedir, porque não dá para viver sem pedir ajuda. Mas eu sempre fui independente sim, eu acho que tem um lado meu também de olhar para aquele desafio e falar: “Não, vamos embora, eu vou fazer”. Acho que a família é fundamental para você sentir essa base, esse apoio. Uma das coisas que mais mexia comigo, eu ficava mal, é quando eu via algum atleta dando algum depoimento. Algum atleta de seleção: “Puxa, a minha família foi fundamental na minha carreira” e eu chorava, “a minha não foi” e aí eu lembrava das brigas com minha mãe e até no meio dos clubes, isso faz um pouco de diferença. Você não pode muito ser dona do seu nariz, você não pode muito ser a única pessoa com quem vai se relacionar. Então eu fechava contrato, eu me relacionava com técnicos, eu fazia tudo. Vivia umas situações de desrespeito em relação a isso e que chegou a ser até engraçado, o diretor de um clube que eu joguei aqui em São Paulo, eu não sei o que é que aconteceu, ah, sim, eu lembro o que aconteceu. Ele fez uma negociação lá com as atletas, resolveu pagar em dólar quando o dólar tava mais baixo do que...

 

P/1 - O real.

 

R - Era o real já, não era?

 

P/1 – É.

 

R – E o meu contrato, eu renovei o contrato. Vim, fiz o contrato pela temporada e aí renovei o contrato com um valor x a mais, e ele tinha fechado com algumas atletas em dólar porque o dólar tava mais baixo. Aí quando eu fui receber, eu recebi a menos. Eu falei: “Nossa, o que é isso” “Ah, em dólar” “Mas como assim? Tem um ano que eu tô aqui, tô recebendo em real, você vai me pagar em dólar? Não entendi. Qual foi a parte que eu perdi que eu não entendi” e o cara já tava bravo, um cara extremamente inescrupuloso, altas histórias de questões complicadas de administração nesse clube. E aí eu falei: “Olha, meu amigo, se esse dinheiro vai fazer falta para você, você beleza, põe no bolso e tal, mas não foi isso que a gente combinou”. Eu nunca deixei a minha opinião só para mim, então eu sempre... Tudo o que me incomoda, tudo que sempre me incomodava, seja pro lado bom ou ruim, eu sempre falei. E não é interessante você bater boca com diretor de clube, não é interessante você discordar de um técnico. E aí o cara ligou pro meu pai, depois de um ano que eu tava aqui. Não, eu tinha 25 anos, meu pai me ligou, eu falo pouquíssimo com meu pai, falou: “Ângela, me ligou um tal de Juraci” eu comecei a rir, falei: “Meu Deus do céu, aos 25 anos o cara vai ligar pro meu pai”, eu comecei a dar risada e o meu pai foi como se eu falasse com ele todos os dias da minha vida. Falou: “Olha, se ela falou isso, com certeza ela tá certa, eu assino embaixo”, a velha história do: “eu assino embaixo”. “Não, porque ela falou que eu sou isso, que eu sou aquilo”, “se ela falou ela tem razão. Eu conheço a Ângela, não sei o que, ela sempre foi autônoma, ela toma conta da vida dela, pessoa extremamente responsável, idônea e ela não teria motivo para não falar e se ela não resolver o senhor pode ter certeza que vou aí e resolvo”. Meio aquela... Mexeu com a minha menina. E eu nunca tive muito essa coisa. Eu acho que tem um lado meu que é de ser autônoma mesmo, de ir atrás, de resolver, de buscar os meus objetivos e de uma certa forma essas pessoas que se mostram auto suficientes, também criam uma certa distância de outras pessoas. Então, onde eu posso ajudar, eu nunca pedi ajuda, então... Algumas situações eu fui aprendendo ao longo da vida nessas relações, principalmente com clubes, que as pessoas te respeitam mais, te olham de uma forma diferente, te olham, se você tá com seu pai, com a sua mãe, com o seu empresário, com o seu qualquer coisa. Então não é muito legal você não ter ninguém.

 

P/1 – E você não tinha empresário?

 

R – Não. No voleibol isso é difícil...

 

P/1 - Isso não acontece muito?

 

R - É, isso não acontece. Futebol é um universo paralelo, né? Futebol não é esporte, futebol é um universo paralelo...

 

P/1 - É business.

 

R – Isso. Só, né? O voleibol e acho que todos os outros... O voleibol no Brasil ainda é um dos esportes mais estruturados, que recebem um investimento aí até grande. Mas não funciona muito assim. Para você ter uma ideia, eu nunca tive uma carteira registrada, uma carteira assinada no voleibol. Vivi jogando profissionalmente alguns anos só fazendo isso e não tem, não tem. Você conversar disso com algum diretor de clube, ele dava risada: “Ah, tá querendo já criar problema pro Clube”, tocar no assunto de ter uma carteira assinada...

 

P/1 - Vínculo empregatício...

 

R - Vínculo empregatício. Não tinha nem contrato. Nunca deixei de receber, era palavra com palavra, só que você tava sujeita a qualquer maluquice que algum técnico ou diretor quisesse fazer e eu vivi muita maluquice também em alguns clubes que eu joguei.

 

P/1 – Agora, essa época, coincide também com uma ascensão do voleibol. Você começa... A gente tem uma popularização...

 

R - Sim, sim... Década de oitenta e noventa, isso mesmo. Foi a Geração Prata, eu comecei a jogar nos clubes com aquela geração e teve uma ascensão sim. Naquela época, o vôlei, os ótimos atletas do Brasil iam jogar na Itália, porque a Itália pagava muito melhor do que aqui. E depois isso virou, o Brasil começou a ter um investimento bem maior de voleibol. E ganhavam-se excelentes salários, sessenta mil mês, oitenta mil mês, esse era... Claro que para minoria, para quem era Seleção Brasileira e tava em grandes clubes aí, mas pagava-se muito bem, dava para viver disso.

 

P/1 – Vamos voltar um pouquinho? A sua opção por Psicologia.

 

R – É, foi engraçado que eu tinha sempre esse lado de viver a razão e a emoção na minha vida. Hoje eu acho que eu tenho uma visão bem mais clara disso daí. E eu gostava muito de uma prima que era dentista, ela é dentista até hoje, ela tratava da família inteira e eu sempre muito curiosa, e ajudava muito ela ali no consultório. Chegava mais cedo e ficava perguntando o nome de tudo, eu sou assim, insuportavelmente curiosa. E aí eu coloquei na minha cabeça que eu queria fazer Odontologia porque era muito legal. Fui, eu tava no meio do colegial, do terceiro colegial, prestei o vestibular para Odontologia para saber como que era. E aí falei: “Gente, eu nunca vou conseguir ficar sentada numa cadeira dentro de um consultório, nunca, jamais. Eu não quero isso”. Aí pensei em fazer Educação Física mas “Onde já se viu fazer Educação. Educação Física não é profissão, não é?”, falas da minha mãe. “Nunca jamais, você vai ganhar dinheiro, não vai isso, não vai aquilo”, então Educação física nunca, jamais, Odontologia eu não ia suportar fazer, porque eram algumas opções que eu tinha. E eu fiquei naquela de “mamãe mandou bater nessa daqui” e eu não sabia, não conhecia muito bem profissões e troquei ideia com umas duas amigas. E uma amiga me falou: “Ô Ângela, porque você não faz Psicologia? Você é uma pessoa calma, você gosta de ouvir as pessoas, olha que legal” e eu falei: “Ah, o que é que faz um psicólogo?”, eu tinha quinze anos de idade, nem sabia escolher profissão.

 

P/1 – É, porque você entrou muito cedo, né?

 

R – É, entrei muito cedo na escola.

 

P/1 – Muito cedo para fazer uma escolha profissional.

 

R – Eu acho que sim. Eu e meu irmão com quinze, imagina, eu mulher, com quinze e meu irmão com quinze anos. Ele entrou na Engenharia com quinze anos. Ele era o baby-bicho, tinha... Saiu no jornalzinho interno lá. Um bebê, né? Fazendo um curso. Tanto é que largou. Fez engenharia até o oitavo período, depois fez Economia, fez Administração, aí seguiu para outro caminho. E essa questão da escolha, foi algo assim, eu preciso escolher porque a inscrição do vestibular é amanhã. Eu não falava: “Eu quero ser psicóloga”, eu nunca pensei em fazer Psicologia, eu fui atrás do conhecimento do que é a Psicologia, na época de escolher mesmo, para fazer o vestibular e comecei a faculdade. Aí passei, estudei malucamente, fiz ponto para passar em Medicina, na época, entrei no curso e aquele período básico, aquela coisa insuportável, um monte de matérias. Você sai de colegial, que é estudar de manhã e ir pro clube à tarde. Psicologia era integral, estudava de manhã e à tarde, cinco anos de período integral. Eu falei: “Meu Deus, não é isso que eu quero” (risos). E aí mudou completamente a vida acadêmica porque doze matérias, aquela coisa insuportável de Ética Profissional, aliás, o currículo da Universidade, bem adequado, no primeiro período você vê Ética Profissional. Não me lembro de absolutamente nada, então eu pego as disciplinas que eu tinha nos primeiros períodos e falo: “Isso deveria ser do oitavo período para frente” que é uma maturidade diferente ou talvez fosse a minha maturidade também, né? Eu tinha quinze anos fazendo... Então eu passei dois anos e meio, até o quinto período trocando bilhete, fazendo palhaçada, dando risada, e aprendendo a “cabular” aula, coisa que eu nunca tinha feito. Eu era sempre muito “caxias” e uma grande amiga de Uberlândia, que coincidentemente ela trabalha numa empresa aqui em São Paulo que é a parceira da Fundação e eu voltei a encontrá-la aqui. Mundo pequeno. E a gente fez faculdades juntas, ela é de Uberlândia também, trabalha na Nextel, tem uma boa função lá, e a gente dá risada hoje de lembrar disso. Então do primeiro ao quinto período, era muito conteúdo, era muita novidade e eu falei: “Meu Deus, é como se eu tivesse chegado a uma etapa. Bom, entrei na Federal, agora posso dar uma relaxada”. E aí aprendi a “cabular” aula, isso foi um mérito na minha vida. A primeira vez eu me lembro que a Beatriz, essa minha amiga, ela falou: “_______ essa aula tá chata. Vamos pra cantina?” aí eu olhei e falei: “Como assim?” “Não, a gente pode sair, a porta tá aberta, essa aula tá muito chata” e eu fui levantando, eu me lembro da cena, eu falava: “Meu Deus, eu vou sair, o cara tá falando”. Como assim, né? “Não posso”. E eu brinco hoje que eu aprendi que eu posso sair, não preciso ficar ouvindo alguém falar alguma coisa que eu não concordo, eu posso ir embora. Eu não preciso ficar aqui. E até o quinto período foi isso, era muito conteúdo, muito assim, eu não tava acompanhando, mas passava, tirava nota, sempre estudei, sempre me empenhei muito. Lembro-me de alguns professores que voltaram a dar aula nos períodos mais avançados e algumas disciplinas bem interessantes no começo. Acho que todo período básico de faculdade tem disciplinas que não tem nada a ver, que você nunca mais vai usar. E aí foi interessante porque eu já tava com dezoito anos no terceiro ano de faculdade, e saiu uma convocação de uma seleção estadual, me chamaram e nessa época ainda era assim: eu fazia faculdade e jogava campeonatos, fazia faculdade e jogava campeonatos, jogava emprestada. Teve uma época de uma greve que eu já citei, que teve um convite... Antigamente não tinha Liga Nacional, era Circuito Nacional de Vôlei. Aí fui jogar emprestada e fiquei um mês em Brasília, um pouco mais, uns dois meses, voltei, ainda tava em greve e fui administrando essa questão de faculdade e voleibol. E aí no ano de 88 teve uma Seleção aí eu tive que apitar. Se eu fosse jogar essa Seleção eu tinha que trancar a faculdade no meio do período porque não ia dar, eram três meses que eu ia ter que ficar lá. E aí eu tranquei. Eu falei: “Ah, já tá tudo chato mesmo, já tá muito... Nem sei se é isso que eu quero, vou trancar” e eu já tinha um pouco mais de força para ter essas decisões, mais nova eu não tinha, não tinha como brigar com a minha mãe que era a figura que bancava ali a resistência para eu não sair de lá. Aí fui jogar, joguei o Campeonato Brasileiro, voltei, fiquei mais ou menos uns dois meses sem fazer nada e nessa época eu prestei o vestibular para Educação Física. E passei no vestibular, mas eu falei: “Ah, vou terminar Psicologia” e foi muito interessante porque para mim o curso de Psicologia começou a partir do quinto período. Eu acho que um momento meu, pessoal, de ter voltado de um período sem estudar e também porque as disciplinas começaram a ficar mais voltadas pra área, ficaram bem mais interessantes. E eu aproveitei o curso pra caramba a partir do quinto período, então eu me lembro muito mais de conteúdos e tudo o mais que eu investi no curso. E assim... Eu ia pra faculdade só para estudar, eu vivi umas coisas, ainda bem que eu cresci e fiquei adulta e aprendi a fazer coisa errada na vida, a minha mãe fala isso também. Porque eu ia na faculdade para estudar, eu não participava de festas, de diretório acadêmico, de nada. Eu ia pra faculdade para estudar. E aí eu comecei a ficar um pouco mais, eu digo que relaxada com as situações, a partir desse período que eu voltei já com uma outra postura. E aí terminei a faculdade e foi quando eu terminei que eu voltei a jogar vôlei.

 

P/1 – Mas nesse período você tava com a faculdade, você ia fazer alguns campeonatos, como você conciliava os estudos com treino, ou não treinava, você ia direto pro...

 

R – Treinava um período só, treinava quando saía da faculdade, à tarde. Aí na verdade o treino era à tarde e noite. Com treze anos eu comecei a jogar com equipe adulta, então eu jogava campeonato infantil, infanto-juvenil e adulto, era muita coisa. Mas eu adorava fazer isso, só que eu ainda tava em colegial, ainda dava para fazer isso. Quando eu entrei na faculdade, aí eu jogava três campeonatos, era infanto, juvenil e adulto.

 

P/1 – Na faculdade?

 

R – É.

 

P/1 – Você jogava infanto?

 

R – Infanto, juvenil e adulto. E aí eu treinava uma vez só. Ou eu treinava só com adulto e jogava os outros dois campeonatos, ou eu treinava só com infanto, ou eu treinava só com infantil.

 

P/1 – E como que era isso, jogar três campeonatos diferentes, com faixas etárias diferentes?

 

R – Era muito bom. Eu pequenininha, novinha e jogava bem, então sempre convivi com pessoas mais velhas do que eu, seja no vôlei ou em ciclo de amizade e me dava super bem. Então era muito legal aquele reforço positivo que eu entrava e jogava bem num campeonato adulto, tinha essa coisa aí de um talento que tá ali no meio das pessoas. Era bem legal, nunca tive dificuldade, não, com isso daí. Mas era uma ginástica conciliar, então obviamente eu faltava à aula, ia ter trabalho eu tinha que negociar trabalho, eu não me lembro de faltar à aula por preguiça, por doença na minha vida. Eu não me lembro. Antes porque minha mãe não deixava, e depois porque eu queria jogar, então eu tinha que ir pra escola. Não podia faltar a aula porque eu sabia que em época de jogos e campeonatos, eu ia faltar. Nos jogos também tentavam pegar dois dias da semana e um final de semana, então tinha uma intenção de não atrapalhar tanto a vida escolar, mas a gente nunca teve um incentivo também, em termos de país, da pessoa ser atleta e estudar, como tem nos Estados Unidos e em outros países.

 

P/1 – Deixa eu te perguntar uma coisa. Aí a vida pessoal de amigos, de juventude, de saída, barzinho, também?

 

R - A milhão. Sempre em turma, então era turma... Eu saía em quinze, em vinte, turma do vôlei com a turma do futebol, turma do basquete, sempre. Vida social, eu acho que viagens de família, todo ano a gente vinha passar férias em Itanhaém, litoral paulista, pelo Banco do Brasil que tem um clube lá do Banco, e desde os meus três anos de idade a gente vinha com a família passar férias lá. Aí nessa época não tinha nem aulas nem campeonatos, a gente vinha. Durante o ano, saía todo fim de semana, sempre fui muito de vida social, sempre fui de sair, muita gente, muita turma. Quando não tinha ninguém saía sozinha, porque com certeza ia encontrar alguém, então sempre muito à ativa...

 

P/1 – E onde vocês iam em Uberlândia, tinha um lugar específico?

 

R – Não. Barzinhos, poucos. A cidade era pequena, a gente saía a pé e eu sempre gostei de conversar, não gostava de ficar com a moda da turma que era passar de carro não sei onde. Igual aqui em São Paulo, eu ouvia falar que o pessoal passava na Rua Augusta, subia, ficava andando ali e tal. A gente... Eu escolhia mais um lugar assim, barzinho que tivesse um lugar para sentar e conversar, bater papo. Comecei a sair com uns treze, quatorze anos, eu saía com a minha irmã e gostava de conversar, sempre gostei, então os lugares não importavam muito, claro que não dá para conversar em danceteria, em boate, então eu não ia na danceteria nem boate, pouquíssimas vezes eu fui, a não ser quando era festa de alguém, “Ah, vamos sair para dançar”. Eu não tinha o hábito de sair para dançar. Quando eu fiquei um pouco mais velha, mais adulta, aí a gente saía para dançar, mais samba, de casal e tal. Mas sempre muita farra, muita farra. Atleta adora sair, adora.

 

P/1 – Sempre em turma também?

 

R – Sempre em turmas. Aqui em São Paulo tem muitos lugares onde vão os atletas e tal, às vezes a gente saía e emendava, chegava cinco horas da manhã e viajava direto para jogar.

 

P/1 – Ser jovem é bom, né?

 

R – Ser jovem é bom. A gente aguenta fazer isso, eu me lembro... A gente aguentava fazer isso, hoje não, esquece (risos).

 

P/1 – Ô Ângela, e depois que você se formou você praticamente entregou o diploma e foi para Ribeirão, né?

 

R – Foi.

 

P/1 – Como que a sua carreira se desenvolve a partir daí?

 

R – Minha carreira de...

 

P/1 - Atleta.

 

R – Atleta. É.

 

P/1 – Ou você conseguiu levar a carreira de Psicóloga paralelo?

 

R – É. Isso é aquilo que eu acho que faz parte de mim. Eu não consigo ser só uma coisa, não tem jeito. Tem uma questão muito interessante no voleibol que é... É muito difícil conciliar estudos com a prática esportiva, então a maioria das atletas... Quando eu jogava, ninguém tinha faculdade, a maioria tinha parado na sétima série, na oitava série, de estudar porque não dá. Jogava Seleção, treinava no clube e você chegava a treinar sete a oito horas por dia, não dá para estudar, ninguém aguentava estudar. E eu já tava negociando com esse time de Ribeirão que tinha me chamado quando eu tinha quinze anos. O cara todo ano me ligava: “Ângela, vem para cá, vem para cá” e eu falava: “Não, eu tenho que entrar na faculdade”, olha isso. Aí entrei na faculdade, terminei a faculdade e falei: “Vou para aí”. E já tinha fechado o contrato com ele que foi o primeiro contrato que eu fiz profissionalmente para jogar uma temporada inteira, e também aquela história: eu fiz o contrato, eu fiz tudo. Comecei assim com uma expectativa enorme. O que é que será isso, mas eu já tinha 21 anos, então um amadurecimento, eu sempre fui mais madura do que a minha idade cronológica e já um discernimento de poder investir e decidir “Não, eu vim, agora vou me empenhar” sabia que não ia ser fácil, imaginava que não ia ser fácil entrar no meio de atletas profissionais, mas tava com muita dedicação e muita vontade. E eu comecei muito bem nesse time que eu joguei e aí eu comecei a conhecer as famosas sacanagens de técnicos que me acompanharam durante toda a minha vida de vôlei também. Eu digo isso porque tem uma hora que, para pessoas muito independentes e auto-suficientes, é difícil você aceitar que alguma coisa não dependeu de você. Porque o que depender de mim eu vou fazer. Psicólogo acha isso e eu sou assim, então fica muito difícil aceitar que algumas decisões dependem de outra pessoa e não de você. E eu vivi muito isso no voleibol, então não adianta só o meu empenho, só o meu talento, não adianta só eu jogar bem. Tem outros fatores que tão envolvidos nessa história. Eu tive uma experiência muito legal nesse meu primeiro ano como profissional, foi apaixonante. Morar em Ribeirão é uma delícia, jogar lá era uma delícia, Liga Nacional fomos campeãs nos jogos abertos, campeãs do Paulista naquele ano. Foram vitórias maravilhosas que eu tenho na minha vida, mas daí para frente comecei a bater de frente com técnico. Por quê? Porque o cara começou a me deixar de lado por outras questões, e eu nunca aceitei. Então: “Por que você tá me deixando de fora sendo que eu tô jogando melhor? Bem, quando eu entro o time ganha e tal” esse tipo de diálogo eu sempre tive e óbvio, técnico não gosta disso. E quando eu saí de lá eu tinha acabado de renovar o contrato para 92, e a gente tava no meio da Liga Nacional. Foi totalmente inesperado, ele me chamou no final de um treino e falou: “Ângela, vem cá.” Eu falei: “O que foi? Vamos tomar cerveja?”. Ou alguma coisa assim. Ele falou: “Não, renovei contrato com você mas agora eu decidi que eu não quero mais que você fique aqui” e aí eu não podia nem fechar contrato com outro clube porque já tinha passado o período de renovação. Eu falei: “Cara...” essa época ainda não tinha aprendido a xingar, olhar pra pessoa e xingar, porque é bom demais, desopila o fígado, não dá torcicolo, é ótimo. Mas eu comecei a chorar, eu falei: “Como assim? Você tá me mandando embora?” eu não acreditava, tava ele e o diretor financeiro. Falei: “Mas qual é o motivo?” “É, eu não sei”. “Ah, que bacana. O cara tá me mandando embora e não saber o porquê”. E aí eu falei: “Óbvio que você sabe, é pessoal, porque não pode ser técnico, técnico você tá com resultados na mão, é só olhar” “É pessoal” “Ah, tá bom”. E o que é que você faz, nada! Eu, a Ângela, sozinha, um filho da mãe desses fala para você que tá te mandando embora por questões pessoais e eu não posso fazer nada. E aí fui embora. Voltei para Uberlândia mal, mal, mal. Eu falei: “Não jogo vôlei nunca mais na minha vida, não quero saber” e fiquei um bichão do mato, eu acho que foi a época que o mau-humor fez parte da minha vida, porque eu não me lembro de ter tido mau-humor na minha vida também. Fiquei uns dois meses enfiada dentro de casa e não queria saber mais de vôlei. E aí essa coisa do “entregar o diploma e sair para jogar”, eu tinha deixado estágio para trás, então eu tinha... Ainda tava devendo coisa na faculdade. Aí eu falei: “Bom, ainda tá bom, agora eu vou ser psicóloga de verdade” Inclusive esse técnico falou para mim: “É, eu acho que você deve seguir a carreira de psicóloga, é melhor você sair do vôlei porque não é o seu meio e tal”. Assim, em outras palavras, a minha postura pessoal não combinava com uma postura de atleta. Atleta não questiona técnico, atleta não pergunta: “Por que você não me pôs para jogar sendo que eu tô jogando melhor do que o outro”. Atleta faz. Isso, eu ouvi várias vezes de vários técnicos. Claro que eu não tive só esse tipo de técnico porque se não eu era uma louca de ter amado o voleibol e jogado durante tanto tempo, eu tive técnicos excelentes. Mas esse tipo de fala é muito comum. E aí terminei o estágio, aí voltei para Uberlândia pra casa da minha mãe com o rabinho no meio da perna, todo mundo me tratando super bem porque queria que eu ficasse lá, e eu mal, mal, mal. Fui atrás de estágio, terminei o que eu tinha que terminar e comecei de novo a receber convites para jogar vôlei ali em Uberlândia. “Ah, vai ter um campeonatinho tal, vamos jogar”, “Tá bom” inofensivamente eu voltei a jogar vôlei. Mas não tem jeito, aí joguei, aí fui eleita a melhor do ano ______, daí a pouco recebo um convite de novo para sair de lá. E nessa época que eu voltei para Uberlândia, eu fiz cada coisa muito engraçada, comecei a cantar, aí cantava em banda.

 

P/1 – É mesmo?

 

R – É, vivi na noite, olha que tudo! Música é uma coisa também que sempre me acompanhou a vida inteira. Violão, eu comecei a aprender a tocar violão sozinha, cantar. Eu não sou nada de mega, super, hiper cantora, só que eu sou muito tranquila, faço graça, agrado, sou afinadinha e então vamos embora. E foi um barato também essa coisa de viver a música um tempo. Eu não tava jogando vôlei, não queria nem saber de vôlei e falei: “O que eu vou fazer?”. Aí uns amigos que tocavam: “Vamos cantar na festa tal”, “Vamos embora”, fiquei seis meses vivendo disso, ganhando dinheiro de música. Muito engraçado, tem umas histórias também muito boas dessa época. E aí, final de 93, que aí eu voltei em 92, final de 93 eu recebi uma proposta para sair novamente. Eu falei: “Gente, eu já tô com quase 24 anos, o que eu vou fazer?” Será que... Porque você já começa a ficar numa descendente aí na vida de atleta. Aí me chamaram para jogar em Jundiaí e eu já trabalhava na Secretaria de Esportes de Uberlândia na época, depois que eu terminei estágio, fiz um trabalho, aí me chamaram para ir para lá, e aí eu topei, eu falei: “Não, acho que agora tá na hora de eu sair mesmo”. Eu sabia que mais cedo ou mais tarde eu ia sair de lá, pelo estilo de vida da cidade, pela maturidade que eu já tava, eu queria algo mais desafiador, eu tenho um ritmo um pouco diferente do ritmo da cidade, é uma coisa muito pessoal. Sempre ouvia dos amigos lá de Uberlândia: “Nossa, parece que você não é de Uberlândia! Nossa, você é tão diferente!”, o “diferente” é querer que as coisas aconteçam, é ir atrás para resolver. É até interessante a minha relação com a minha própria família, porque hoje eu falo com a minha mãe uma vez por semana, no horário marcado para cumprir tabela. Porque assim, o ritmo da minha própria família não é o meu ritmo. É de ficar um mês para ligar para alguém. “Ah liguei, mas a pessoa não tava lá” “Não gente, mas tem um mês que você ficou de ligar” “Então vamos resolver o problema”. Eu sou muito mais o perfil de quem mora em São Paulo, tanto é que eu me adaptei muito bem aqui. E aí voltei a jogar, fui jogar em Jundiaí, fiquei uma temporada lá até o final do ano, no final do ano eu recebi proposta para vir para São Paulo, para jogar no Pinheiros. Eu joguei no Pinheiros, joguei uma temporada inteira, saí, fui jogar em Belo Horizonte, joguei uma temporada, voltei para jogar no Paulistano, joguei em Santo André que foi o meu último time que eu joguei profissional. E eu já tinha começado a fazer um curso de especialização e aí voltando a história do como é seguir a carreira do vôlei sem a Psicologia ou com os dois juntos, ou como é isso. No meio do voleibol eu sempre estimulava as pessoas a estudarem, porque não dava, eu não assisto novela, a mulherada conversava de novela, de homem, de música, e de samba, e de mais nada, e de vôlei. “Gente, vamos estudar”. E quando eu tava no meio da Psicologia eu incentivava o pessoal a fazer esporte “Gente, vocês só estudam. Tem que sair, tem que fazer outras coisas” porque não dá, eu acho que é uma coisa minha, não dá para fazer uma coisa só. E realmente essa questão era muito difícil. Eu sentia falta de ter um... Na verdade, um esporte vivido de uma forma diferente, eu acho que o próprio fato... Aí começava a questionar os meus amigos, as pessoas que se aproximavam de mim eram os dirigentes de clube, técnico de outras modalidades, porque eram as pessoas que eu conseguia trocar ideia, que gostavam de trocar ideia, então eu realmente sempre dei muita opinião, às vezes até onde eu não sou chamada, eu falo isso hoje pro Sóstenes: “Oh, tô dando opinião onde eu não sou chamada. Avisa-me, me dá limite quando for preciso, tá? Porque se eu vejo algo que eu acho que pode colaborar eu vou falar”. E sempre foi assim, esse momento muito interessante. Então os clubes que a gente tinha psicólogo, não tinha jeito. Eu tava no meio das atletas e eu ouvia os comentários, e o psicólogo vinha e fazia uma bobagem enorme com o time e eu chamava o cara para falar: “Oh, você não tá enxergando. Não é por aí, é por aqui, não sei o que...” “Ah, legal e tal”. Mas assim, eu não tava ali para ser psicóloga do time, eu era atleta, mas não tinha jeito. Os técnicos... A gente viajava e eles colocavam a menina problema comigo no quarto. Sempre assim. E eu não ganhava hora-extra para atender. “Não Ângela, agora você vai ficar com a Fabiana porque ela não tá muito bem”. “Puta que pariu, de novo?” Então assim, eu podia ficar com aquela que eu queria e tal. Sempre tive uma função dupla, tripla, onde quer que eu passasse. Você vai viajar, vai levar o violão, porque os momentos de lazer são o violão, a Ângela, o violão. Eu tenho várias fotos desde o início das viagens sempre eu tinha que viajar com violão. Sempre reuni pessoas, aquela coisa de que legal, vamos proporcionar momentos legais, agradáveis. Então isso sempre também acompanhou até o voleibol. Eu nunca quis fazer uma coisa só. Não acho que a vida de atleta profissional ou hoje já com tantos anos depois, e trabalhando do outro lado da mesa, não precisa ser do jeito que eu vivi. A gente tem um grupo que a fundação participa desde 2007 que foi criado, chama-se “Rede, Esporte pela mudança social”. É uma rede de organizações no Brasil que tem um braço ou um irmão que já tinha sido criado mais cedo na África, foi organizada pela Nike, pela Fundação Nike e coordenada pelo Pnud durante até o mês passado. A gente ficou praticamente dois anos com esse suporte aí muito bom e é um movimento que tem muito a ver com a minha vida pessoal, por quê? Porque ali tem organizações tanto que trabalham com esporte quanto organizações que trabalham com o desenvolvimento humano. Eu acredito muito nesse movimento de interdisciplinaridade, de trabalhar junto, de rede, e a pessoa da Fundação que representa sou eu, e a gente faz... Aí teve eleição de conselho representante e eu morrendo de vontade de ir, só que eu tinha que pedir o respaldo pra Fundação. Falei: “Sóstenes, o conselho representante tão querendo que a gente vá” “Não, então você vai”. Então a gente faz parte do Conselho de Representantes, hoje eu vou para Brasília discutir políticas para esporte, que é uma coisa muito assim, para mim pessoalmente, eu me sinto muito realizada de poder hoje meter a boca naquilo que eu vivi no esporte. E tô com outras pessoas que são ícones do esporte e que têm a mesma fala que eu. Então é muito interessante eu falar que eu era polêmica e que eu era deixada de lado, por isso e a Ana Moser falar a mesma coisa. A Paula falar a mesma coisa do basquete. Então a gente troca ideias de pessoas que viveram uma intensidade muito maior do que a minha, do esporte, mas que também acreditam que o esporte não precisa ser feito da maneira como ele é feito. E que é um sentimento muito atual, a gente vê situações, por exemplo, o Ricardinho brigou com o Bernardinho e todo mundo quer saber o que aconteceu. E “Nossa, mas será?”, “Nossa, mas o cara dá títulos não sei o que” então precisa conhecer um pouco a história. Quem viveu no meio do esporte já sabe que atleta normalmente é assim, atletas que têm opinião, é difícil, vai ser difícil, se despontarem vai ser muito difícil. Eu me lembro um encerramento de um evento da Unilever do ano passado, eu não me lembro quem falou isso, que passou a admirar a Ana Moser quando ela começou a não aparecer mais na televisão. Porque sabia que ela não tava mais sendo chamada para dar entrevista, porque é uma pessoa polêmica, é uma pessoa envolvida, é uma pessoa que teve uma evolução absurdamente grande dentro desse meio de projetos sociais e hoje tá numa ação política muito interessante pro esporte. Isso é uma coisa muito legal para mim, porque eu tô conseguindo viver hoje. Como se eu tivesse fechando um ciclo de tudo o que eu vivi no meio do esporte. Não dá para ser só atleta, não dá para ser só... E o formato que o esporte é oferecido num país, ele não favorece que você se desenvolva em outras áreas, ele vai muito do empenho individual. E é muito difícil. Eu sei porque eu vivi isso, essa vida paralela aí de conseguir fazer um bom curso de Psicologia e me dedicar e ter uma formação boa, e também conseguir ter uma vida legal no esporte.

 

P/1 – Esse grupo que tá se reunindo em Brasília do qual você faz parte, qual é o grande objetivo, o que vocês estão discutindo agora?

 

R – O objetivo é desenvolver, disseminar práticas que sejam extremamente inclusivas, sejam respeitosas, trabalhem diversidade, trabalhem todos os temas transversais, seja com esporte, voltados para o desenvolvimento humano. Então o objetivo, a meta é políticas públicas, a gente quer influenciar políticas públicas. Tem divididos em três grupos, a gente tem uma preocupação com a sustentabilidade desse grupo também, mas as ações, temos algumas organizações que ficam em Brasília, que acompanham de lá, tem a organização do Rio de Janeiro, do Sul, do Nordeste. Onde que o esporte não chega, onde que o esporte não é bem trabalhado, o que tá acontecendo em nome do esporte, não só esporte, mas também o desenvolvimento humano, algum tipo de trabalho que tenha preconceito, racismo, esses temas que acompanham ações que sejam para valorizar o esporte, a gente tá discutindo, atuando, tava começando agora. Começamos a colocar a cara na rua, fazer alguns manifestos. A Nike já sinalizou que não vai sustentar essa rede pro resto da vida, mas vai fazer parte da rede, porque faz parte do projeto da Fundação da área de responsabilidade social da Nike que foi uma grande iniciativa para fazer isso daí. Eu falo Nike sem nenhum problema, também não tenho desconto nos agasalhos lindos, maravilhosos, mas porque eu reconheço a grande iniciativa que foi, e a grande sacada que os caras são realmente bons. Ao invés de financiar um projeto, eles financiaram uma rede de organizações. Incentivaram isso durante esses dois anos até a rede se consolidar, que é o momento que a gente tá hoje. Então hoje tem uma outra organização que assumiu a Secretaria Executiva dessa rede. E esse processo de você discutir com várias pessoas, de vários locais do país é muito interessante. Porque a gente sabe que São Paulo é onde acontecem projetos sociais, não tem jeito. O que chega no Nordeste é outro mundo, é outra realidade, e seria um pouco cuidar disso. Não tem organização do Amazonas na rede, a gente precisa buscar alguém de lá para tá discutindo essas questões aí. O objetivo é esse mesmo, é o objetivo macro de influenciar políticas públicas.

 

P/1 – Através do esporte.

 

R – Através do esporte ou de ações voltadas pro desenvolvimento humano. Tem uma ONG que trabalha com hip-hop e que aí, bem ou mal, essa ONG também tá sendo influenciada por algumas ações esportivas. Não dá para você propor uma ação de esporte e participação, uma rua de lazer que tenha hip-hop. Então a gente tem uma troca mútua aí. Tanto as organizações trazem algum conhecimento quanto se discute alguma coisa na rede, as organizações levam pra própria rede, pra própria organização, o que foi discutido ali. É um processo bem legal.

 

P/1 – Vamos retornar um pouco, quando você encerra a carreira você tá em Santo André, né?

 

R – Eu estava em São Paulo, jogando em Santo André.

 

P/1 – E como é que foi encerrar a carreira, porque é uma decisão difícil...

 

R - Também foi um marco. Dizem que a vida é feita de marcos.

 

P/1 – É, a gente fala isso.

 

R – Eu conheci uns três marcos bem bacanas por sinal. Bom, esse acabar com a carreira, encerrar. Eu sempre acreditei que nada acaba da noite pro dia, é tudo um processo. A gente nem começa e nem acaba. Então eu sei que eu fui acabando, tanto é que a minha escolha para jogar em Santo André, já foi um início do final. Porque Santo André era uma divisão abaixo da especial. O voleibol tem especial e primeira divisão, então eu escolhi jogar na primeira divisão, porque eu queria uma carga horária menor de treinamento. Eu já estava fazendo um curso de especialização aqui em São Paulo, eu fiz especialização em Psicodrama e Teatro Espontâneo, e adorava, também era uma outra paixão que eu comecei a conhecer aqui e sempre fiz Psicologia em Uberlândia, conheci o Psicodrama lá, e tinha alguma coisa aqui que eu ia atrás, eu sabia disso. Falei: “Puxa, vou morar em São Paulo e vou ficar de olho nisso aí”. Já tinha começado esse curso e aí eu tinha que treinar menos, não dava para treinar seis, sete horas por dia. Então jogar Liga Especial era treinar muito e não ia dar. Aí eu decidi jogar numa equipe de primeira divisão, você treina uma vez por dia só, ganha menos, é um salário menor, tem uma menor estrutura, mas eu ia tentar me virar por aqui. E foi o que aconteceu. Aí nessa época eu namorava um cara que jogava no Pinheiros e já tinha... Namorava ele há muito tempo, falou: “Não, você vai ficar lá em casa” porque Santo André não bancava apartamento. Geralmente o Clube banca toda estrutura que você vai, a gente é nômade, você não tem onde morar. Não gastava também, você ganhava um salário seu. Falei: “Jesus Cristo, eu vou morar na casa de namorado com pai e mãe, meu Deus do céu” foi uma coisa meio maluca. Mas eu não tinha opção. Se eu fosse bancar apartamento, e eu queria jogar, não ia dar, o dinheiro não ia dar. Eu falei: “Tá bom, vamos ver até eu conseguir um apartamento eu vou ficando por aqui” esse “vou ficando” durou dez meses, que foi o tempo que eu joguei em Santo André. Foi muito legal. Mas aí no final desse ano... Então eu terminei a carreira de vôlei, eu terminei com o namorado, eu mudei de casa, mudei tudo. Aí consegui um apartamento no final do ano que era de uma amiga do vôlei também e conheci assim, nessa época já tava trabalhando com inglês, trabalhando com evento aqui em São Paulo, porque eu já comecei a ver como eu vou me sustentar aqui. Eu não quero sair daqui, eu fazia o meu curso e sempre estudei inglês, nunca... Comecei a dar aula de inglês em Uberlândia, precisava de graninha, então dava aula de inglês. Inglês é uma carta na manga. Falei: “Tá bom, eu vou começar a dar aula de inglês aqui” e aí terminando o campeonato, eu já comecei a olhar escola de inglês para poder trabalhar. E eu acho que é o emprego mais fácil no mundo, porque qualquer escola precisa de professor, está sempre precisando de professor. Peguei um monte de aulas de inglês porque eu não podia ficar um mês sem pagar aluguel, e fiquei meio mal, desesperada de pensar como é que eu ia sobreviver nessa cidade que tem um custo de vida bem mais alto do que outras cidades, mas também tem várias oportunidades de trabalho. E foi muito assim, então eu trabalhava, acordava às cinco horas da manhã, chegava em casa meia-noite. Dava aula de inglês o dia inteiro, como eu tava fazendo esse curso de especialização, eu resgatei um professor que era daqui de São Paulo, entrei em contato com ele, e comecei a trabalhar com ele. Conheci o trabalho dele, chama Ateliê, na época Ateliê de Psicodrama, ele fazia parte de um grupo de teatro espontâneo e aí eu comecei a conhecer esse trabalho, aí comecei a me apaixonar por esse trabalho, aí ele me chamou para trabalhar lá com ele e eu vi um livro que tinha na época, que eles tavam... “Ah, a gente pegou esse livro para traduzir” e eu vi que ninguém deu muita atenção, eu falei: “Nossa, sou eu que vou traduzir esse livro” e já me enfiei na tradução desse livro, então comecei a buscar situações que eu gostava também, mas não dava mais para continuar com o voleibol. Eu já sabia que a partir do ano de 98 eu não ia mais assinar contrato para ficar exclusiva com time de voleibol. Primeiro porque eu tinha que pensar o que eu ia ser quando crescer, já tava ficando velhinha, 28 anos. E não dava para ficar muito distante de um mundo também acadêmico, eu digo não dava, não sei se é só pela minha situação de sempre querer buscar conhecimentos, mas também uma preocupação de... Daqui a pouco eu tô com trinta anos para começar uma carreira, vai ser complicado. E eu já tava no curso de especialização, então eu falei: “Alguma coisa eu tenho que começar a fazer agora” e foi um processo, foram coisas significativas que eu deixei na minha vida. O namoro também foi terminando, eu namorei três anos, e na verdade eu sofri muito mais pelo carro que eu vendi, do que pelo namorado. Foi uma questão meio complicada. Eu também nunca sofri muito com términos na minha vida. Então eu não sofri muito quando eu saí de Uberlândia porque também foi um processo. Eu não sofri muito quando eu parei de jogar, eu tinha consciência de como seria o meu processo de início de uma outra vida sem o voleibol, porque o que me motivou para sair de Uberlândia foi o voleibol e mesmo eu tendo parado de jogar, eu não voltei para Uberlândia e não pensei em voltar. Eu não sabia que eu não ia voltar para lá. E aí eu já tinha começado... O meu sustento aqui era o inglês e esse psicólogo que eu tava trabalhando com ele na tradução desse livro, falou: “Não, você atende aqui. Você tá precisando de grana, atende aqui. Não precisa pagar aluguel”, eu falei: “Ah, mas sem pagar nada eu não quero”. Aí combinei lá, eu pagava o material de limpeza e o café, “Beleza, isso é o que eu posso pagar”. Aí fiquei trabalhando dois anos com ele nesse ateliê, nessa clínica lá. Atendi um ano, falei: “Bom, não é para mim. Não consigo ficar fechada em quatro paredes. Definitivamente eu não consigo”, mesmo trabalhando com Psicodrama, que é um universo que te abre muitas opções, não dava. Eu não consigo ficar esperando o cliente vir, eu tenho que ir, tenho que trabalhar com grupo. Tanto é que fiz especialização nessa área, de trabalhar com grupo. E aí fizemos, foi uma época muito legal, enchi minha vida de um monte de coisas. Eu acho que até o fato de eu ter conhecido meu ex-marido nesse ano, também foi extremamente significativo porque eu entendo muito bem porque eu me uni a uma pessoa muito diferente de mim. Eu me separei tem um ano e meio, fiquei oito anos casada, e é uma pessoa muito diferente de mim. Não em princípios, em princípios eu acho que seria o ponto que a gente se uniu, mas foi um ano... Ele era aluno de inglês na empresa que eu dava aula, depois ele saiu e a gente começou a se relacionar. Ele é um cara extremamente sério, executivo, só pensa em trabalho e era um cara para casar. Sabe aquela coisa de “esse cara é para casar”. Um cara sério, é estável, tá tranquilo, maduro, então é ele. E eu casei com uma pessoa muito diferente de mim. E vivi oito anos com essa pessoa e foi tudo nesse ano. Então parei de jogar, terminei o namoro, vendi meu carro, comecei a trabalhar, deixei o vôlei e casei. Meu Deus do céu, foi um ano muito intenso.

 

P/1 – Que ano foi esse?

 

R – 98. E aí, em 99, início de 99, a gente foi morar junto, moramos juntos um ano, depois a gente casou. Aí eu mudei de casa, essa coisa de nômade também continuou na minha vida, aqui dentro de São Paulo mesmo, porque aqui eu joguei em dois clubes, no Pinheiros e no Paulistano. Morei em uns três lugares quando eu joguei no Pinheiros. Paulistano morava no outro, depois eu mudei para um apartamento, depois morei na casa do namorado, depois saí fui morar em outro apartamento, aí morei com uma amiga, casei e fui morar não sei onde. E depois mudei de novo, depois um ano, quando a gente casou de verdade, a gente mudou e foi onde eu morei oito anos, eu morava na Mooca. É engraçado porque o fato de parar de jogar vôlei, ele parece que tira um pouco um lado lúdico na minha vida. Eu sou uma pessoa muito brincalhona, a palhaçada, a brincadeira, sempre fez parte da minha vida, seja por uma escolha própria, ou não, mas no esporte a gente pode dar vazão a esse lado lúdico de uma maneira muito tranquila, então é sempre muita alegria, sempre muita brincadeira, muita palhaçada, tal. E eu trago isso para qualquer ambiente que eu tô. Mas nessa época, eu, parece que eu resolvi ser séria. “Então vamos lá, então agora já que eu parei de jogar, vamos... Tô namorando um cara super maduro, não sei o que, vamos casar, fui morar junto”, então resolvi ser séria na minha vida. Uma bosta, não serviu para nada! (risos). Não sei para que é que eu fiz isso. Mas eu acho que teve um aprendizado aí muito legal, e aí trabalhava pra caramba, envolvida, fazia apresentação nesse grupo de teatro, dava aula de inglês de manhã, à tarde e à noite, fazia um monte de coisas. No ano de dois mil, quando a gente mudou para Mooca, aí eu parei tudo que eu tava fazendo. Eu ainda jogava vôlei final de semana na Fupe (Federação Universitária Paulista de Esportes) que tinha a Liga Universitária. Parei porque eu dava aula em Perdizes, era onde eu morava e saía lá da zona leste para dar aula em Perdizes. Eu falei: “Não, retardada, né? Tem que arrumar um emprego de aula de inglês aqui”. Só que demoraram para me chamar. Eu fiz cadastro, passei nos testes lá, mas demoraram para me chamar e tinha uma escola de inglês na esquina da minha casa, eu queria dar aula naquela escola. E aí eu sei que, não sei, eu fui deixando, “Pô, não tá dando mais para trabalhar”. Saí com esse psicólogo, a gente teve uma questão muito difícil no trabalho, é um trabalho que eu era apaixonada, e eu saí brigada com ele e fiquei assim também, oito anos sem conversar com o cara e depois eu fui atrás do cara de novo por uma situação muito complicada. Ele perdeu duas mulheres, ele foi casado três vezes e perdeu duas mulheres de câncer, pelo mesmo motivo. Quando eu fiquei sabendo da segunda mulher dele que morreu, eu conhecia inclusive, eu falei: “Não, eu vou lá. Vou fazer uma surpresa para ele”. E foi muito legal, voltei a conviver, voltei a encontrar e tal. Mas enfim, o trabalho também foi muito significativo para mim. Mas nessa época eu larguei tudo. Aí eu fiquei sem trabalhar, sendo esposa, meu Deus do céu. (pausa)

 

P/1 – Então vamos lá, você tava falando que mudou completamente a sua vida, que você virou esposa.

 

R – Sim, virei esposa. Isso durou pouco, porque eu não ia suportar mesmo. E aí no ano seguinte eu consegui o emprego nessa escola que eu queria e também jogava vôlei de final de semana, e aí também voltou a aparecer proposta para jogar vôlei só de vez em quando, alguns campeonatos e tal. Mas inglês não era um trabalho que me satisfazia, e aí eu engravidei. Três anos depois que eu tava casada eu engravidei. Entrei em pânico, fiquei com medo de ter filho, mais pela minha relação que já não era legal, mas beleza, vamos encarar, porque uma pessoa que gosta de desafios esse é o maior do mundo. Só que eu sabia que eu não ia poder trabalhar porque não tenho família, tava sozinha, e não ia segurar a onda de criar um filho, pelo menos no começo, do jeito que eu queria, numa boa. Aquela coisa de acompanhar o desenvolvimento e tal. E aí quando a Júlia nasceu, foi em 2002, eu fiquei sem trabalhar. Saí do trabalho, eu tava na coordenação de uma escola de inglês, já tinha avisado que eu não ia voltar e eu era mãe. Fui mãe durante dois anos, na verdade um ano e oito meses, eu já tava começando a arrancar os cabelos, “Olha, eu preciso voltar a fazer alguma coisa”. Mas foi uma delícia ser só mãe nesse período. Estava em casa naquela calma de mãe, alheia ao mundo, a Mônica, minha amiga que trabalhava na Gol de Letra me liga um dia. A gente se falava... Eu conheci a Mônica quando eu mudei para São Paulo, há quinze anos. A gente se falava duas, três vezes por ano, ligava para dar parabéns, final de ano, saber quando tinha acontecido alguma coisa...

 

P/1 – Como você conheceu a Mônica?

 

R – O marido dela... Essa história é mais longa do que essas duas horas que eu acabei de contar.

 

P/1 – Consegue resumir?

 

R – Resumidamente, o marido dela era amigo desse cara que eu namorei, do Pinheiros, que eu cheguei a morar na casa. Só que eu conheço o marido dela a mais tempo que ela, ele namorava uma menina que a gente conhecia em Itanhaém, onde a gente vinha passar férias. Então assim, é um mundo todo costurado. E aí quando eu comecei a namorar esse cara do Pinheiros, a gente marcou “Nossa, você conhece o Jofrer, vamos lá”. Marcamos uma pizza e eu comecei a conviver com eles desde essa época e conheço e convivo. Só que era aquela convivência de amizade que você fala uma vez em seis meses e tá muito próximo da pessoa. Aí a Mônica me ligou e falou: “Ângela...” eu já tinha feito alguns trabalhos com ela, esse próprio trabalho de teatro espontâneo ela fez parte com a gente do grupo. Eu não sabia onde ela tava trabalhando, eu sabia que ela trabalhava em Diadema, na prefeitura, porque ela fazia projeto social, mas eu não sabia o que ela tava fazendo. “Apareceu uma vaga aqui na Fundação. Vem aqui” e ela sabia que eu tava sem trabalho, só que ela também sabia que eu tava começando a procurar alguma coisa para fazer. “Que Fundação? Onde você trabalha?” nem sei, eu tava alheia ao mundo. “Aqui na Fundação Gol de Letra” eu nem sabia o que era Gol de Letra, não tava... Bom, aí fui lá. A vaga era de assistente da Olga, que era a vaga que a Valéria ocupou até o ano passado. Quando eu cheguei, eu gostei muito do ambiente, das pessoas. Eu olhei, aquela cara, aquelas pessoas, aquela correria, mas assim, uma sensação de produção, de alguma coisa produtiva, eu acho que essa é a palavra. Aí cheguei e conversei com a Olga, gostei muito de conversar com a Olga, e ela gostou muito de mim. Só que eu saí de lá com a sensação de que não ia dar certo, principalmente pela questão financeira. Por que? Porque eu ia ter que colocar a Júlia bebê numa escola integral, eu morava na Mooca, eu ia ter um deslocamento, ia ser um custo muito grande para eu ir trabalhar. E pela vaga de assistente, numa ONG, eu falei: “Não vai ser uma grana que vai valer a pena” eu tinha um valor mínimo que valeria a pena de eu ir para lá. Fiquei com isso na cabeça. E aí ela falou: “Não, eu te ligo”, aí ficou aquela: “Quanto você quer ganhar?” eu falei: “Não, quanto você vai oferecer?”, “Não, fala”, “Não, fala”. Ninguém falou nada de dinheiro. Tá bom. Aí fui embora, cheguei em casa até comentei com meu ex-marido e falei: “Ah, eu gostei muito mas acho que não vai dar certo”. Aí passaram-se uns cinco dias, a Mônica me ligou de novo: “Ângela, apareceu outra vaga”. “Como assim, Mônica?” “A coordenadora do programa de esportes que vai acontecer não aceitou, ela já tinha sido escolhida. É para você. Eles estavam na dúvida se contratavam alguém da área de humanas ou da área de esportes. Você tem as duas coisas. Vem para cá!”. Falei: “Ai meu Deus do céu - a Mônica, muito engraçada - tá bom”. Aí liga pro Jabu, era a pessoa que fez a escrita do programa e que tava fazendo o processo de seleção. Aí liguei pro Jabu, já praticamente acertei com ele pelo telefone. Marquei de conversar com ele lá na Fundação. Aí voltei pra Fundação para falar sobre uma outra vaga, na mesma semana. E a Olga deu risada aquele dia, ela falou: “Ângela, quando eu bati o papo com você eu falei ‘Gente, ela não é para assistente, ela tem que coordenar alguma coisa, não é para cá e tal’”. Eu não sei se alguém lá em cima nas estrelas mexeu os pauzinhos porque chega a ser engraçado falar sobre esta vaga que eu ocupo há cinco anos na Fundação. Tanto para minha vida pessoal, quanto pro trabalho que eu desenvolvo lá. Conversei com o Jabu, conversei com o Sóstenes e me escolheram para coordenar esse projeto. Então assim, em termos de realização pessoal e profissional, eu tô extremamente realizada. Continuo sendo aquela pessoa que busca desafios, mas eu tô vivendo hoje uma valorização da minha prática esportiva que eu nunca vivi em lugar nenhum. Isso é uma coisa pessoalmente falando. E profissionalmente, é óbvio que a Psicologia me dá o respaldo que eu preciso para fazer a capacitação dos educadores, o acompanhamento dos jovens em formação, como lidar com essa comunidade, aquela coisa de grupo que eu sempre gostei e é como se unisse as duas coisas. Eu fui muito atrás da parte teórica do esporte, eu sempre fui uma pessoa muito curiosa na prática quando eu jogava, de me interessar tanto pela estrutura física quanto pela questão administrativa. Mas hoje, de cinco anos para cá, eu vou atrás de teoria, de esporte educacional, “O que é que a gente faz, vamos respaldar o nosso trabalho”. Então é um desafio a cada dia, eu acho que eu nunca vivi uma rotina naquele lugar, eu nunca trabalhei tanto num lugar, eu ficava um ano e meio no máximo, meu período máximo foi um ano e meio. Eu tô lá há praticamente cinco anos e não penso em sair a não ser que mude alguma coisa. Se for sair, eu vou sair para algo semelhante. Já vivemos alguns períodos difíceis ali dentro, de crise, de não saber o que vai acontecer. Mas não por uma decisão nossa que bate naquela questão de novo “Poxa, não depende de mim”. A gente tem que saber que outras situações e outras pessoas também definem a sua vida. Adoro o trabalho, falo do trabalho com a mesma emoção que eu falo desde o primeiro ano. A gente tem a possibilidade de criar práticas novas, estratégias novas de trabalho, é sempre alguma coisa nova, essa coisa de não ter rotina, por mais que seja a mesma cadeira, a mesma mesa, o mesmo computador há cinco anos, o mesmo lugarzinho, isso é fascinante. Trabalhar com pessoas num ambiente que pede soluções a cada segundo, para mim é fantástico.  

 

P/1 – Deixa eu perguntar uma coisa: quando você foi fazer a entrevista, o que te explicaram sobre o projeto? Você conversou com o Marcelo Jabur, como é que...

 

R – Ele falou do projeto esportivo, ele falou: “Olha, a proposta é a Fundação, apesar de ser do ________ Leonardo, nunca teve um programa de esportes. Eles não queriam que fosse confundido com programas de esportes, mas eles sempre quiseram que algum programa de esportes fosse criado aqui dentro. Por quê? Porque o esporte é um ambiente de aprendizagem, tem questões inerentes à prática esportiva que facilita essa relação educação de valores e tudo mais”. E aí eles me chamaram e eu escrevi esse projeto, então o projeto vai acontecer pra faixa etária de treze a dezesseis...

 

P/1 - Você que escreveu o projeto?

 

R - Não, ele, o Jabur. Eu que implantei o projeto. Eu cheguei quando a quadra tava sendo construída. Ele me deu o papel, a receita de bolo: “Ó, é assim que tá aqui. Vê o que dá para fazer.”

 

P/1 – Então você tá falando... É para treze a...?

 

R – Era de treze a dezesseis a prática esportiva, e de dezesseis a dezoito anos, jovens que a gente chama de monitores de esporte. Era um outro nome: quando chamava FAC-Esportes, era agente comunitário. A decisão de mudar o nome do programa foi exatamente por isso. O programa chamava-se Formação de Agentes Comunitários em Esporte e Lazer, mesmo nome do programa de jovens, que era Formação de Agentes Comunitários, o FAC, então tinha o FAC e depois veio o FAC-Esportes que era a segunda versão do FAC. Só que...

 

P/1 - Para jovens mais dessa faixa etária maior?

 

R - Exatamente. Só que o FAC dentro da área artística, é de quinze a 21, e da área esportiva, você pega o adolescente com uma idade mais baixa, por quê? Porque ele já tá numa faixa etária que já pode começar a trabalhar uma especialidade esportiva e ele já pode escolher também. E aí a gente pega a comunidade mais baixa. A questão é: os agentes comunitários eram a minoria, tinha jovem ou criança que ia lá para praticar esporte, você perguntava para eles: “O que é agente comunitário? Você se sente um agente comunitário?” “Não, eu vim aqui jogar bola”, então não tinha sentido o programa ficar com o nome da minoria, de dezesseis jovens ia atender 180 que é a maioria. Foi aí a decisão de mudar o nome, e aí o pessoal fez esse processo de avaliação que eu participei durante todos esses dois anos, só desse workshop que eu não participei, e escolheram o nome de Jogo Aberto. E aí desde 2006 ficou Jogo Aberto.

 

P/1 – E como é que o Jogo Aberto tá estruturado?

 

R – Bom, você perguntou se... Como que era o trabalho, né?

 

P/1 – É.

 

R – Como que Jabu me explicou. Pra gente chegar nessa estrutura que a gente tem hoje, eu olho a parte escrita do projeto, dá até um certo orgulho de ver que a gente faz direitinho como ele pensou. É óbvio que tem a sua adaptação ao longo do tempo, mas existe uma questão, alguns pontos que foram mudando desde a implantação. Por exemplo: a relação com a comunidade dentro daquele espaço. A história que eu escrevi no folder, ela representa isso, porque pra mim foi um dos pontos mais marcantes dessa prática ali, então eu cheguei para coordenar um programa de esportes e eu tive que lidar com ameaças de traficantes. Não me falaram isso que eu ia fazer, não me avisaram. Na verdade a gente fala um pouco dessa questão do tráfico, como se... Desmistificando o que é o tráfico. São pessoas que fazem parte da comunidade e que se gostam de esporte, eu tenho que atender. Só que são pessoas que não têm outra referência de relacionamento que não a ameaça. Não sabem chegar, conversar, e marcar um horário e respeitar aquilo ali. Então, mais ou menos um ano e meio ou dois anos, a gente viveu um processo de aceitação pela comunidade, porque nós estamos num outro espaço muito mais vulnerável fisicamente do que a Fundação, do que a sede da Fundação. Então é um espaço que tinha um muro baixo, os caras entravam a hora que queriam durante o dia, usavam drogas, usavam o espaço para fazer o que quisessem. Ameaçavam, não saiam, e quem tinha que sair era você. E isso a gente tinha... Tivemos vários momentos até chegarmos no formato que a gente tá hoje. Então como que funciona hoje a estrutura do programa: a gente tem a prática esportiva no núcleo onde nós ficamos, depois de um ano, tivemos a possibilidade de expandir esse projeto para outros locais, aí fizemos parcerias com escolas públicas da região, que atendem o mesmo público que a gente. De uma certa forma, a intenção é incentivar essa cultura de esporte e a forma como a gente trabalha esse esporte ali dentro da região. Hoje a gente tem parceria com três escolas públicas, desde 2007, de 2005 a 2007 a gente fez parceria com duas, em 2007 a gente fez parceria com mais duas, então a proposta seriam quatro escolas. Mas aí chegamos a conclusão que uma escola não valia a pena. A gente saiu e o formato de três escolas é o que a gente tem pernas e braços para poder cuidar. Porque tudo isso tá sobre a minha responsabilidade, a minha coordenação. Temos um educador que fica com esse público da comunidade, que funcionam três noites e final de semana, sábado, e a gente tem um braço que é o projeto de lazer que funciona na sede da Fundação, aos sábados. Então o programa hoje se estrutura assim: a oferta de prática esportiva no núcleo, nessas três escolas, a formação de jovens monitores que atuam no núcleo, nas três escolas e no projeto de lazer, e esse atendimento à comunidade, que são noites que funcionam lá no núcleo e ao sábado, e o projeto de lazer aos sábados que funciona lá na sede da Fundação.

 

P/1 – O atendimento à comunidade ele se constitui no quê?

 

R – Praticamente jogo de futebol, fica lá no núcleo onde eu fico. A gente incluiu uma comunidade adulto que tava... Já utilizava o espaço de maneira informal, a gente incluiu oficialmente, então eles não querem professor, eles não querem outra atividade. Alguém que fica ali para eles jogarem bola, é praticamente isso. É óbvio que tem uma interface do educador, que tem que ter, depois de toda a fase que nós vivemos de adaptação com esse público, uma aceitação mútua, uma relação de respeito. Vivemos situações muito interessantes ali, de invasão, de quebra-quebra, de roubarem tudo do espaço, da ONG vizinha, porque a gente tá no mesmo espaço que uma outra ONG e os caras devolverem tudo. A gente chamar, conversar, e eles devolverem tudo. E outras situações não tão agradáveis assim. Mas com certeza foi o maior aprendizado meu dentro desse trabalho, não tem nada a ver com o esporte, não tem nada a ver com Psicologia, tem a ver com uma comunidade pobre que tem aquele estilo de vida ali de resolver as coisas.

 

P/1 – Você falando em comunidade, qual foi a sua primeira visão quando você chegou ali?

 

R – No espaço?

 

P/1 – No espaço, assim, algo muito diferente do que você convivia?

 

R - Eu me lembro, Cláudia, de uma... Quando eu cheguei em São Paulo, eu tava pensando em parar de jogar vôlei, eu conversei com uma fonoaudióloga, amiga de uma amiga, muito famosa, que eu tava pensando em trabalhar com Psicologia. Batendo um papo com ela, ela chegou no meio da conversa e falou assim: “Ângela, você quer trabalhar com rico ou com pobre?”. Aí eu falei: “Nossa, por que essa pergunta?” falou: “Não, porque tudo o que você me contou e o seu olho brilha quando você fala de pobre”. Eu falei: “Então acho que você tem razão. Eu quero trabalhar com pobre”. Gostava de trabalhar em grupo, gostava de trabalhar no local, no espaço da pessoa. Eu não tive nenhum estranhamento em chegar naquele espaço, é óbvio que eu acho que as favelas aqui em São Paulo, elas têm uma característica diferente de outros locais. A gente não tem tanta casa de madeira, papelão, como existem em outros locais no país. Mas aquela estrutura, aquele visual, ele é algo que não me chamou a atenção. Agora, quando eu entrei a primeira vez na casa de um morador ali, aí eu fiquei chocada. Eu já me peguei em alguns momentos... Já me balançaram assim. De achar que é uma gota no oceano e que a gente não vai dar conta nunca de resolver isso. E olhar e falar: “Meu Deus, como é que se vive nesse espaço. Não tem jeito”. Mas eu acho que isso de uma certa forma é um motivador pra gente continuar focado nos objetivos e saber que cada um tem o seu papel e que tem que continuar assim.

 

P/1 – Lá no Jogo Aberto, quais são os esportes que vocês trabalham?

 

R – A gente trabalha as seis modalidades: basquete, capoeira, futsal, handebol, tênis e voleibol. E tem a liberdade de se experimentar qualquer modalidade esportiva que os educadores acharem que são pertinentes, tanto à aula, quanto ao tema norteador do ano. Nós tivemos dois anos que utilizamos temas norteadores voltados pro esporte. O primeiro ano, esse trabalho de Metodologia de Projetos, foi escolhido o tema dos jogos Pan e Para-Panamericamos. Então os alunos faziam aquecimentos com boliche, fizemos a oficina de badminton, atletismo, eles experimentam e brincam com outras modalidades, tem uma outra modalidade que é o tchoukball, é uma modalidade que foi apresentada por um educador… Um professor que mora na região, extremamente interessante. Hoje a gente trabalha bastante com o tchoukball, principalmente nas escolas, é um dos esportes considerados como o esporte modelo de cultura de paz, porque apesar de jogar adversários, é um handebol, misturado com voleibol. Tem um quadro que fica no chão com uma tela, você joga a bola e você tem que... O time adversário tem que agarrar essa bola. Então qualquer criança que consegue agarrar uma bola, pode jogar o tchoukball. E um idoso de oitenta anos consegue jogar o tchoukball também. E você não pode atrapalhar o adversário, você perde pontos se você atrapalha o adversário a agarrar a bola, é um jogo extremamente estratégico, e você corre pra caramba. Porque você tem que jogar a bola e pegar a bola que o outro jogou. É bem legal. Então a gente tem essa liberdade de experimentar outras modalidades também. Essas seis modalidades foram escritas originalmente, na verdade, tivemos uma época que a gente trabalhou com taekwondo, que foi muito legal também, mas o educador saiu porque foi morar fora do país e aí ficamos pensando o que é que a gente faz. Trazemos um novo educador de taekwondo ou trazemos a capoeira que tem a ver, que já tem no Virando o Jogo. Tanto é que o educador é o mesmo do Virando o Jogo, era uma possibilidade, uma ponte entre os dois programas e tem funcionado muito bem até agora, com todas essas modalidades, a gente consegue manter as seis modalidades.

 

P/1 – E essa parceria com as escolas, como é que foi chegar nas escolas, conversar com os professores de Educação Física, com os diretores. Deve ter sido um desafio grande também.

 

R – É. Essa possibilidade de parceria veio por uma outra fundação, Fundação Decathlon, eles iam, na verdade, fazer o lançamento da Fundação Decathlon e estavam decidindo se criavam um projeto próprio ou botavam dinheiro num projeto que já existisse. Acredito que pelo relacionamento do Raí com o presidente da Fundação Decathlon, eles chegaram a esse acordo que eles iriam colocar dinheiro no nosso projeto. Só que a gente já tinha financiamento pro núcleo, então não podia ser ali. Na época de entrar nas escolas, eu recebi uma proposta de uma escola que eles tinham que cumprir... A escola da família, não sei se a escola da família ou a escola aberta. Um é município, um é estado. A proposta é a mesma, deixar a escola aberta no final de semana e buscar pessoas para poder desenvolver atividades ali dentro. Então, eu tinha recebido um convite, um telefonema, nessa mesma época que a gente tava montando esse projeto, de fazer não dentro do núcleo. Uma escola nos procurou, a outra eu fui atrás, era uma escola que é a mais próxima logisticamente do local, tem bastante aluno e que era uma escola considerada caótica pelos alunos. Então, beleza, vamos lá. Aquela coisa de gostar de desafio. Funcionou muito bem, Cláudia, em algumas escolas, já nessa outra, não tanto. Então assim, você... Ser parceiro de escola pública tem uma visão que não é só usar o espaço da escola, a gente não quer só isso. Alguns coordenadores, alguns diretores hoje depois de dois anos, entendem bem a nossa proposta de atuação, mas a gente tem um certo limite que eu acho que é até saudável de não interferir tanto na rotina da escola. É óbvio que nós temos uma intenção de ter uma ação política e de dar uma desestabilizada naquela prática que tá engessada ali dentro, então a relação do nosso educador com o aluno, é diferente dentro da própria escola. Uma professora usa microfone para dar aula de Educação Física, porque talvez ela não consiga o silêncio. Aí você olha na nossa aula que tá acontecendo do lado, a mesma situação e o educador lidando numa boa. A gente vai fazer uma apresentação de capoeira numa escola, a diretora agradece o carinho que a gente trata os alunos. Você também tem a possibilidade de tratar com carinho. E aí não é que a Fundação é melhor e a escola... Não, na verdade, eu acho que acaba todos sendo vítimas de um processo só. Eu já participei de reuniões de educadores que eu tomei porrada uma hora e meia, às vezes de não conhecer o objetivo da Fundação. Existe um mito de que os alunos preferem ir pra Fundação e não gostam de ir pra escola, que na verdade não acaba sendo mito, mas é óbvio que nós temos opção de poder escolher o que a gente vai trabalhar. A escola não tem. Então eu não culpo a escola, nem os professores, nem os alunos. Eu acho que todo mundo é vítima desse processo que a educação pública do país tá vivendo, eles não têm recursos, a gente tem. Eu posso escolher trabalhar com tchoukball. A professora de matemática talvez pudesse escolher em termos de estratégia. Também acho que a gente sempre tem alguma coisa que dá para fazer. Então eu vivo isso juntamente com o educador, um pouco diferente porque o educador vai dar a aula, então ele chega, vai pra quadra, pega o material, os alunos que estudam à tarde fazem aula de manhã, e os alunos que estudam de manhã fazem aulas à tarde. E a grade horária é bem reduzida, depende de como a escola disponibiliza os horários da quadra pra gente. Então o educador trás para mim, como é a rotina, eu tenho um educador que trabalha só em escola, e eu faço esse acompanhamento junto à direção e à coordenação. Mas essa intenção e óbvio, a minha visão do trabalho, é exatamente até onde a gente consegue valorizar aquele espaço escolar, porque esse é o objetivo, não é fazer pela escola, é poder valorizar a escola, o que ela tem para oferecer. De repente, o aluno começa a ter uma possibilidade de gostar da escola, já que agora a escola oferece um esporte bacana, só isso. Então, detalhes que a gente pensa: “Eu vou entregar o uniforme aqui no Jogo Aberto, ou eu vou entregar o uniforme na secretaria da escola?” “Eu vou entregar na secretaria da escola”. Eu quero que essa família vá até lá, outra oportunidade que a família vai lá na secretaria, assinar um papelzinho e retirar a camiseta. A escola vai poder fazer isso, porque, às vezes, a secretaria acha que é mais trabalho, não pode...

 

P/1 - Trabalha mais...

 

R - Exatamente. Algumas não, então são mínimos detalhes que você percebe que vale a pena o trabalho dentro da escola, porque a escola tá te dando essa possibilidade de você atuar ali, mas em momento algum, a gente quer fazer pela escola.

 

P/1 – Não é sobrepor o papel da escola nem do professor de Educação Física.

 

R - De maneira alguma. Existem ações conjuntas, então depois de um ano, dois, que a gente tá numa escola especificamente, eles montam uma aula juntos. Vamos fazer um amistoso de vôlei semana que vem, a gente não trabalha vôlei, mas a gente faz o amistoso de vôlei. Aí eles fazem uma aula só, juntos. Faz um bem bolado. Relações muito bacana e que nos remete a um outro papel, é o papel político. Eu sou uma pessoa que gosto muito dessa coisa de provocar, então se a gente não pode provocar mais, eu acho que a gente cumpriu o nosso papel. E tem uma escola que nós vamos sair pro ano que vem, ia completar quatro anos que a gente ficou nessa escola, desde o início, foi a primeira escola que nos procurou. Eu tenho um olhar que é... A gente já fez o que tinha que fazer ali, porque não temos mais como sair desse engessamento da escola. É uma escola de pequenos, a gente vai mudar, eu até já consegui uma outra escola que nós vamos começar o ano que vem mas também nós, eu acho que enquanto a organização dessa cidade civil, a gente não pode se acomodar como é o ensino formal. Então o ensino formal, de uma certa forma, ele tem que manter aquela transmissão de conhecimento como sempre foi, mas a gente não pode ter esse mesmo papel, eu não quero ficar dez anos na mesma escola. Eu quero ficar três, quatro anos numa escola e depois procurar outra escola pra gente poder fazer o mesmo papel de uma... De desestabilizar a escola para que ela ache um outro equilíbrio que tenha que valorizar, que tenha um outro... Olha, é possível, busque outras parcerias, crie você mesma outros espaços de aprendizagem para esses alunos. Essa ideia também é muito legal, porque eu acho que faz parte também do nosso trabalho de sempre buscar coisas novas.

 

P/1 – Queria que você falasse um pouco mais do tema norteador. Vocês trabalham cada ano, como é que tá… Faz parte da metodologia?

 

R – Faz parte da metodologia da Fundação. Na verdade, a gente tem a proposta de trabalhar esporte educacional, que é um esporte que tem de incluir todos, não tem diferença de talento, o mais talentoso, o menos talentoso. A gente trabalha com os princípios do esporte educacional que teoricamente é o esporte que você trabalha na escola. Só que a gente trabalha com modalidades específicas. A Fundação começou a implantar esse trabalho de Metodologia de Projetos, se não me engano, a partir de 2003, eu não tinha chegado ainda lá. A interdisciplinaridade que pede a Metodologia de Projeto é mais vista claramente no programa Virando o Jogo. Por quê? Porque são várias áreas diferentes, então ali tem: capoeira, dança, teatro, música, eu consigo pegar a aula de informática e fazer um projeto com a aula de música, que faz um projeto junto com a aula de educação física. Esse projeto didático, ele é mais é bem visto nessa situação. Como é uma prática da Fundação, a gente implantou a partir do ano de 2007, só que estamos no terceiro ano do projeto de tema norteador, e que para um trabalho de esportes, ele funciona mais voltado para esse tema mesmo. Então a gente tem uma escolha, um processo de escolha do tema norteador, que fazem os educadores e os jovens monitores no período de capacitação, ou no final do ano. Geralmente é no final do ano que a gente escolhe o tema pro ano seguinte, eles imaginam que tema seria interessante de se trabalhar ao longo do ano, além dos aprendizados específicos das modalidades, eles sabem que vão trabalhar junto com os alunos. Escolhemos o Panamericano que seria no Rio de Janeiro, a molecada ia ter fácil acesso à mídia, jornal, para fazer pesquisa e conhecer um pouco mais. No ano seguinte, calhou das Olimpíadas novamente, mas aí o interessante foi “A gente não quer ficar só com os Jogos Olímpicos, a gente quer conhecer um pouco mais sobre a cultura chinesa” então a gente já percebeu uma ampliação do universo. “Puxa, eles já entenderam o universo, que legal”. Então fica muito em termos de eventos que a gente proporciona, onde a gente leva, o que a gente trás, pesquisas, bate-papo na quadra ou nos horários de formação com esses monitores. Esse ano o tema já saiu completamente do esporte que era sustentabilidade, então eu falei: “Nossa, agora a gente tem que tentar ver como é que trás pro esporte” e um tema riquíssimo que tá assim, tem que selecionar o que a gente vai fazer, se não a gente fica o ano inteiro trabalhando sustentabilidade e esquece de trabalhar o esporte, que é outra coisa também que não pode acontecer. Então o garoto vem aqui para jogar basquete, ele não quer só ouvir falar sobre a reciclagem do plástico, ele quer jogar basquete. E o desafio dos educadores é esse, é de trazer pra aula, de fazer com que a metodologia de projeto e o tema norteador, seja algo interessante pra aula e não um trabalho a mais. Ele não tem nem a obrigação de trabalhar isso toda aula, muito pelo contrário, mas ele também não pode abrir mão desse recurso porque é extremamente interessante. Então os educadores se motivam, porque é uma preocupação grande que a gente tem. A sua equipe de profissionais, ela tem que estar motivada, ela tem que estar buscando novidades e o tema norteador ajuda muito isso. Então eles fazem muita pesquisa, o que vão trabalhar em aula, o que não vão trabalhar em aula, o que dá para envolver todo mundo, o que não dá. E a gente dá o suporte pro que vai acontecer, então vamos até Salesópolis, ver a nascente do rio Tietê. Tá bom, vamos até Salesópolis ver a nascente do rio Tietê. Foi o primeiro evento do ano. Isso para eles é bem legal e o tema ele ajuda a motivar principalmente a equipe de educadores.

 

P/1 – Qual é o perfil dessa equipe de educadores?

 

R – Eu tenho três profissionais da área de educação física, um arte educador, o Flávio, professor de capoeira. Um psicólogo, é a pessoa que atua como educador social com a comunidade, e que esse ano começou a fazer formação de jovens também. Então na verdade são cinco educadores, uma estagiária da área social, que é o braço da área social que fica lá no núcleo comigo, e uma auxiliar de serviços gerais. Dentro da minha visão de equipe, eu não tiraria nenhum deles, porque ali dentro todo o mundo faz um pouco de tudo. Mas a maioria é da área de educação física, profissional da área de educação física. Tivemos uma evolução, óbvio, porque o profissional da área de educação física fica um pouco focado só na aula, aula prática e essa evolução a gente vê em narrativas dos próprios educadores. A gente deixa de ser professor e passa a ser educador aqui dentro de um projeto desses, é fundamental ele conhecer um pouco do contexto, um pouco da área social no trabalho. Hoje já existe uma prática bem interessante entre eles e a própria área social, eles já se relacionam diretamente, “Olha, vamos lá saber a história de vida desse menino que tá complicado. O que tá acontecendo?”. A primeira pergunta agora é assim: “Tá acontecendo alguma coisa? O cara tá estranho” e não é só focada no comportamento daquele menino que chegou brigando, xingando, zuando o barraco, porque antes era. A equipe eu acho que funciona muito bem. Eu também tive o privilégio de poder escolher a minha equipe e é a mesma equipe até hoje. Eu tive um profissional que saiu, na verdade já tive sérios problemas ali também, mas dessa equipe que eu tenho, eu escolhi os profissionais, participei do processo de seleção, escolhi os profissionais para trabalhar e a equipe funciona muito bem. Acho que eu tenho uma facilidade de trabalhar com homem, são só homens, a estagiária é uma menina. Acho que tem uma praticidade no trabalho com homem que ajuda muito, não que eu tivesse algum problema em trabalhar com mulher, mas só apareceu homem para fazer parte do processo de seleção. O educador social tinha que ser homem, porque ia ficar lá á noite e final de semana sozinho, aí não podia ser mulher. E isso é motivo de brincadeira também lá dentro da Fundação, porque a mulherada fica tudo alvoroçada. Mas é muito legal trabalhar com perfil prático e eu acho que eu tenho um pouco isso em mim, também no meio do esporte. A gente tem uma fala muito parecida, mas o meu trabalho eu acho que é mais de... Totalmente de coordenar, eu não tenho que... Eu não supervisiono ninguém porque a minha visão é super... Eu não oriento ninguém, eu trago a minha visão do que eu acho que pode trabalhar mais um pouco aqui, trabalhar menos um pouco aqui. Um grau de exigência menor, um grau... É um acompanhamento de fora dessa equipe aí. É uma equipe com perfis bem diferentes mas o objetivo do trabalho é o que nos orienta, então é a formação de jovens, vocês que fazem formação de jovens se relacionem e troquem ideias, vejam o que dá para fazer e o que não dá para fazer. É atendimento em escola, você que faz atendimento em escola, faz tal coisa.

 

P/1 – E quem é esse jovem que é atendido pelo programa? Qual o perfil dele?

 

R – Bom, primeiramente é um jovem dentro dos critérios que a gente atende, provavelmente saiu ou do Virando o Jogo ou tem algum contato ali com os programas já da Fundação. Então é da comunidade, entre doze e dezesseis anos que goste de esportes. A gente recebe poucas famílias que trazem o jovem porque ela quer que ele faça alguma coisa. Geralmente esse jovem nem começa, porque já tá numa faixa etária, quatorze, quinze anos, quando a família traz o cara é porque quer que ele faça alguma coisa, ele nem começa. Ele já tá numa idade de escolher e ele não vai mesmo se ele não gosta, mas a maioria gosta de esporte. Jovem que estuda em escola pública tem que estar estudando ali na região e que tenha um tempo disponível para estar com a gente e fazer a prática esportiva.

 

P/1 – E o que caracteriza esse esporte educacional que você tava falando?

 

R – Tem algumas questões fundamentais, todos têm que ter a mesma possibilidade de sucesso e de fracasso. A aula tem que ser pensada para todos, quem tem habilidade e quem não tem, princípio da inclusão. Você trabalhar isso é bem detalhado, então eu não posso criar situações só de desafio para menino que não consegue segurar numa raquete de tênis, ele vai ter que sacar só naquele quadradinho. Você vai ter que criar uma outra estratégia para que ele sinta que ele teve sucesso. Princípio da dialogicidade, então você cria situações na aula que eles conversam, que eles dão ideia, protagonismo, eles têm que participar da construção dessa aula, o educador não pode fazer essa aula sozinho. Ele criou um exercício e tá percebendo que tem metade da turma não tá participando, que falha é essa que esses alunos tão tendo, porque também não pode se enganar. Quando você constrói a condição coletiva, é fundamental para que o trabalho aconteça, a questão de relacionamento, de atitude, você valoriza que o aluno se posicione, aquele aluno mais tímido, mais quietinho, agora você vai coordenar essa turma aqui. Então são princípios que o educador e os monitores tão sempre atentos e eu principalmente, para acompanhar esse trabalho, não podem faltar para criar essa aula, para criar oportunidade de que o garoto ou a menina participem daquela modalidade esportiva. O que acontecia antes que foi bem no comecinho, é que vinha muito jovem querer jogar futebol e a gente falava: “Ó, futebol não tem vaga. Você quer fazer handebol?” “Ah não, não gosto” “Não, experimenta a aula, se você não gostar... Quer fazer basquete, quer fazer vôlei e tal” e já de uns dois, três anos para cá, isso mudou. Então eles já procuram o programa para fazer qualquer modalidade, alguns querem só aquela modalidade, “Se não for aquela, eu não quero”, é a minoria. Mas eu acho que eles já acostumaram, e já sabem que ali todo mundo vai jogar, todo mundo vai se divertir, essa aula tem que ser lúdica, ela tem que ser recreativa, não é nosso objetivo ter uma especificidade técnica do movimento. Eu não vou exigir um critério dum toque do voleibol perfeito, não é essa a intenção. Então são jogos adaptados, quadra menor, bola maior, joga vôlei com cinco bolas ao mesmo tempo, o esporte educacional traz muito isso, essa criatividade para que a aula envolva todos, porque a diversidade é muito grande. Quem tem facilidade e quem não tem.

 

P/1 – Ao longo desses anos acompanhando o Jogo Aberto, o que você percebe de mudanças nessas pessoas, na comunidade?

 

R – É interessante que no começo, o Jogo aberto, por ele tá no outro espaço, ele não tem a obrigatoriedade que tem o Virando o Jogo, que é um programa diário e ele não tem uma identificação visual como sendo da Fundação Gol de Letra. Eu acho que uma grande mudança que a gente teve de pouco tempo para cá, de dois anos para cá no máximo, foi a identificação que o Jogo Aberto também faz parte da Fundação Gol de Letra, pela própria comunidade, então a procura que as famílias têm agora pro Jogo Aberto, ela é outra, porque teve um apoio muito grande da área social, que pegou a lista de espera do Virando o Jogo e começou a oferecer o Jogo Aberto. A gente lidava com a procura, então tem um programa de esportes, a gente divulgava em escolas, tem um processo de divulgação próprio nosso, mas começamos a ver que tinha gente que não conhecia o programa. Hoje já existe um reconhecimento da comunidade que esse programa de esportes faz parte da Fundação e que é um programa que as pessoas vão gostar de participar. Independente do que se faz lá dentro, é bom, as famílias vêm um pouco com essa fala. Na verdade, a gente não quer que eles tenham só essa confiança, a gente quer que eles conheçam o programa e a gente cria estratégias para que isso aconteça. O resultado: esse eu citei a pouco, porque no começo os jovens vinham procurando uma modalidade específica e a gente oferecia outra modalidade. Eu acho que esse é um grande resultado que a gente construiu ao longo do tempo, eles reconhecessem que o legal é praticar esporte, independente de qual modalidade que seja. Então eles começaram a experimentar aula de tênis que é uma coisa que eles nunca tinham jogado e adoram, as turmas são cheias. Modalidades que eles não imaginavam que eles iam gostar de praticar, algumas estratégias que nós criamos que facilitam a integração no meio do esporte, é óbvio, todo mundo cria festival, torneio, competição. A gente sempre faz um torneio no final do ano, um festival que inclui atividades no horto florestal, em cada escola, então situações diversas que eles vão poder experimentar no meio do esporte e conhecer a prática esportiva de uma forma mais prazerosa. Isso também é um resultado ao longo dos anos que a própria comunidade passou a reconhecer. A relação que a maioria deles tem com o esporte dentro das escolas, é uma relação pequena, pouca, e que a gente sabe infelizmente que não é trabalhada com a qualidade que deveria ser trabalhada, a nossa proposta é basicamente essa daí. A relação com a comunidade do Entorno, ela teve uma mudança muito significativa. No começo era muito difícil, ameaças, acho que eles não queriam aceitar o trabalho ali, isso depois de um ano e meio, dois anos, a gente chegou a ter um representante da comunidade ou alguns representantes que colaboraram muito com essa relação aí. Então eles respeitam o horário que a gente abre à noite, antes não respeitavam, passaram a respeitar, eles vêm para conversar quando acontece uma questão no local. A gente tem um vínculo com eles que permite que a gente ligue, vá atrás, chame para conversar, quando tem alguma questão referente ao espaço. Podemos dizer com toda a certeza que a maioria da comunidade passou a respeitar o espaço e o trabalho que a gente desenvolve ali naquele lugar.

 

P/1 – Fala-me uma coisa: em termos de espaço, por que foi para um outro espaço que não o da Fundação?

 

R – Porque apesar de serem duas quadras lá na Fundação, elas são utilizadas no programa Virando o Jogo, tanto de manhã, quanto à tarde. Então são utilizadas para as aulas de Educação Física e para os horários de socialização, e não teria espaço suficiente para fazer um programa só de esportes que também atenderia de manhã e à tarde. Pelo que me contaram, na época, eles foram atrás de um espaço dentro da comunidade que suportasse a construção de uma quadra e que te fosse favorável para que as pessoas procurassem o espaço, e aí fizeram uma parceria com... Aquele espaço onde a gente tá é do município e já existia uma outra ONG lá, então foi uma parceria com quatro instituições: Poder Público, Promove, Fundação Nike, que financiou o projeto e a construção, e a própria Fundação Gol de Letra.

 

P/1 – E nesse percurso, Ângela, você... Jogadora de vôlei, psicóloga, como é que foi esse novo desafio de atuar no terceiro setor?

 

R – Quando eu voltei para Uberlândia, porque eu tinha parado de jogar, eu trabalhei na Secretaria de Esportes lá. Quando eu tava na faculdade, eu cheguei a fazer estágio uma época com idosos, fui para bairros de periferia que eram os trabalhos que eu mais gostava. E nessa época da prefeitura, eu trabalhei com crianças, tinha crianças de rua e tinha crianças que utilizavam os poliesportivos para fazer a prática esportiva. Eu não conhecia teoricamente o que era um trabalho de uma ONG, eu nunca tinha trabalhado numa ONG, mas a relação com o público para mim não era novidade. Então eu resgatei muito esses dois trabalhos que eu tinha feito, seja em comunidades, periferia, na época em Uberlândia, esse trabalho com idosos e o trabalho com crianças na prefeitura que eu fiquei uns dez, onze meses também trabalhando lá. Muita novidade, eu acho que eu levei um ano para me adaptar e me acostumar com o que é trabalhar numa ONG, o que significa uma ONG, eu acho que até mais. Um ano, eu vou dizer que uns três anos para eu entender um pouco o que é essa proposta do trabalho de uma ONG, o que a gente pode fazer, o que nos cabe fazer. Acho que eu encontrei o espaço onde eu quero trabalhar, eu acho que agora representado isso em anos cronológicos, porque é o lugar que eu mais trabalho há muito tempo, cinco anos da minha vida é um recorde. Mas é uma atuação que você tem ao mesmo tempo direitos e deveres. A gente tem um objetivo a seguir e não dá para achar que tudo dá para resolver, não dá para querer mudar o mundo, mas dá para fazer um monte de coisas. É bem interessante porque tem um espaço, uma liberdade que eu gosto, até a forma como o Sóstenes dirige a Fundação, eu sempre dou este retorno para ele. Valoriza muito a prática que a gente tem e a gente pode colocar em prática o que eu acho, eu tenho uma liberdade para fazer isso, mas ao mesmo tempo a gente tem metas a cumprir e isso te traz para o lado prático do trabalho.

 

P/1 – E assim, quais são os próximos desafios do Jogo Aberto? Você falou que no ano que vem vai ser uma parceria com outra escola...

 

R – Sim, dentro da estrutura que nós consolidamos ao longo desses cinco anos, eu acredito que a intenção não é fazer Jogo Aberto em todas as escolas da região, não, são dezenove. Para isso a gente teria que ampliar a equipe, crescer muito, e dentro de ONG e de trabalho social, é muito complicado você ampliar equipes. Sair criando projetos e contratando pessoas. Eu imagino que a gente vá manter essa parceria com três escolas e o que nós imaginamos de ampliação ou de melhoria do trabalho, é mais qualitativo, então a gente pode criar e manter uma área de pesquisa dentro do esporte educacional, a própria metodologia de projeto com esportes é uma novidade. Quando eu participo de alguns eventos para falar sobre isso, é uma coisa que chama muita a atenção das pessoas, como é que a gente consegue conciliar essa coisa de tema norteador com a prática esportiva. Eu falei: “Eu imagino uma ampliação nesse sentido” até mesmo da área social. Eu tenho uma estagiária da área social que fica comigo, então uma prospecção é que a gente tem um suporte maior da área social para que eu possa criar estratégias de aproximação com essa família, com essa comunidade ali naquele espaço que também tem um espaço reduzido e eu não posso criar muita coisa, mas manter, eu costumo dizer, acho que até no processo de avaliação, se a gente consegue manter o que nós fazemos hoje, já é um excelente resultado. Um atendimento em torno de quinhentos, 550 adolescentes e jovens, fazendo formação de jovens monitores atuando dentro de três escolas públicas, com projeto de aulas regulares e projeto de esporte e participação que é lazer, já é bastante coisa. Então se a gente consegue manter o que tá lá, maravilha, a gente tá com... Tem escrita de projeto, então o projeto de lazer, nós já estamos com uma proposta de dar uma melhorada, trazer inovações dentro do que já existe. E temos esse ano alguns convites para realizar, principalmente no Jogo Aberto e em outros locais que não São Paulo. A gente tem umas propostas que vieram de fora, até o próprio projeto que a Olga tá coordenando e que as pessoas crescem os olhos no projeto de esportes, porque tem uma facilidade de trazer pessoas, de inserção, de implantação, então provavelmente o Jogo Aberto vai ser a menina vendável aí.

 

P/1 – Vai ser multiplicado...

 

R - Exatamente.

 

P/1 – Você falou uma coisa interessante: outras instituições procuram a Gol de Letra, o Jogo Aberto para se inspirar? Para conhecer, para ver a estrutura, metodologia?

 

R – Procuram bastante. No começo do programa vinham mais pessoas. Eu não sei se... Acho que paralelo à isso houve uma disseminação de outras instituições que também trabalham com esporte. Mas a gente teve várias procuras, acho que essa fala não é novidade e o Sóstenes já falou isso. O Raí também falou que outras organizações e outras pessoas procuram a Fundação para ver como acontece, para ver a nossa prática. Alguns seminários que eu sou chamada para participar, a gente mostra o programa, as pessoas se interessam, alguns outros parceiros até dentro de São Paulo mesmo a gente troca informações, “Ah, vocês fazem formação de jovens, a gente também faz. Como que é isso?”.

 

P/1 – Tem algum período que para você foi mais marcante na Gol de Letra? Caminhando para um final, teve assim, um começo que você entrou...

 

R – É, eu acho que a gente teve muitos períodos marcantes. Eu tenho algo que permeia todo meu trabalho, todos esses cinco anos que eu acho que é meu vínculo pessoal com o que faço. Eu acho que isso me sustenta ali diariamente com muita vontade de fazer o meu trabalho, uma paixão pelo trabalho, uma realização muito grande ali. Isso teve presente, isso é muito marcante no meu trabalho lá. Mas a gente teve períodos muito difíceis e isso também foi muito marcante. Tivemos a morte de um garoto que foi num passeio nosso, na mesma semana que um outro tinha sido atropelado e eu fiquei muito mobilizada, porque eu fiquei prestando primeiros socorros com esse que foi atropelado na porta da Fundação e fiquei estragada. Naquela semana eu acho que todo mundo ficou em outro mundo porque foi inacreditável, um menino atropelado na quarta, em coma, e no domingo, o outro morre. Então desestruturou todo mundo. Isso foi muito marcante, muito, muito, muito. Eu me lembro que eu falei com Sóstenes: “Sóstenes, eu acho que essa semana vai mudar a história da Fundação Gol de Letra, não tem como não mudar”. Porque a gente não sabia mais o que fazer. Na verdade mudar, eu acho que um pouco a nossa expectativa, porque você tá trabalhando com situações que bem ou mal são de risco. A gente já perdeu muita gente ali. Seja morto, seja assassinado, seja... Cuidados com a vida que não fazem parte de uma comunidade, porque são muito diferentes. As mortes acontecem de um jeito que você fala: “Meu Deus, não é justo. Isso é estúpido, não é possível”. Então esse contato com a morte veio de uma forma assustadora, arrebatadora para todo mundo, exatamente. No ano seguinte a gente teve uma crise interna na Fundação, programas foram fechados, pessoas foram mandadas embora, outras saíram, devido a toda situação, e meio que ninguém sabia o que fazer, as coisas não estavam muito claras e para pessoas muito participativas, quando você tá sem saber o que fazer, com coisas não muito claras, isso é agoniante. Então foi um período muito marcante ano passado, início do ano passado...

 

P/1 - Teve uma crise financeira que atingiu várias ONG’s também.

 

R - Teve uma crise financeira... É, mas então...

 

P/1 - Se você não quiser falar...

 

R - Não, eu acho que não é só a crise financeira, porque uma crise financeira não acontece da noite para o dia, aquela velha história do processo. Falei isso pro Sóstenes algumas vezes: “Sóstenes, eu acho que não foi o que aconteceu, mas como aconteceu, e o como acontece a gente pode colaborar. Então não resolva as coisas sozinho, compartilhe, a gente tá aqui para isso. Vamos chorar juntos, vamos descabelar junto, mas não vem com a coisa pronta, porque aí te pega de surpresa, aí te tira o chão”. Então eu acredito que as coisas poderiam ter sido resolvidas de forma diferente, eu acredito que a gente não precisava ter perdido pessoas fundamentais ali dentro. É claro que o trabalho continua, hoje eu diria que eu tenho até mais autonomia para trabalhar dentro do programa, não que eu tivesse, mas a gente tinha uma função de gerência antes, acompanhava o trabalho, e dava uma riqueza para a área pedagógica, bem diferente do que a gente tem hoje. Hoje a gente tem três programas que atuam individualmente. Antes a gente tinha uma unidade desses três programas que eu acho que dava uma consistência diferente na área pedagógica da Fundação. E a gente perdeu e nós não vamos ter outro. Existem alguns sinais de que a Olga possa assumir uma função de gerência, eu acho muito interessante.

 

P/1 – Aí articularia com esses três programas?

 

R - Exatamente. Acho fundamental. Então falar do Jogo Aberto é uma coisa, a gente tá num outro espaço, o programa tem os seus resultados, é fantástico. Mas o Jogo Aberto faz parte da instituição, porque eu vivo estas duas situações quando eu tô na rede de esportes, é uma visão mais politizada, é uma visão mais estratégica, e lá eu tô falando em nome da instituição, eu não tô falando só em nome do Jogo Aberto. Também foram momentos marcantes essa... Momentos ruins, negativos, mas fundamentais pra gente entender a força daquela equipe de trabalho tem, a forma como a gente resolveu tudo isso. A gente resolveu juntos, todo mundo se ajudou, a gente buscou a ajuda de profissionais. Agora, momentos marcantes positivos, a gente... Acho que eu tenho todo dia. Momentos muito legais, muito legais. Seja com jovem, seja com educador...

 

P/1 – Tem alguma história que te marca...

 

R - Tem, tem. Eu tenho uma história muito legal que eu não sei se o Jeremias já contou, uma história com ele, muito engraçada.

 

P/1 - Mas pode contar a sua versão da história.

 

R - Na minha versão, eu acho que é a mesma, ele começou... O Jeremias que atua na área de DI, ele deu aula de tênis comigo durante um tempo. E eu sempre gostei muito da postura dele com a comunidade. Ele não é da área de Educação Física, a gente tá indo contra o CREF (Conselho Regional de Educação Física), nós tentamos conseguir com CREF para ele, porque ele foi atleta profissional de tênis muito tempo. Teve uma época que o CREF fazia CREF provisionado, era só para atleta que não é da área. Parou de fazer, então vetaram, aí eu falei: “Mas a gente vai dar aula assim mesmo”, porque ele é bom, e ele era muito bom. E ele começou a fazer formação de jovens que é um relacionamento mais próximo com esses jovens monitores. E os caras não aceitaram ele. Então boicotaram o cara total, iam reclamar e tal. E ele extremamente detalhista, agoniado. Isto no primeiro dia que ele tava fazendo formação de jovens. Então ele entrava na minha sala umas cinco vezes “Ângela, eles não querem me ver”. Falei: “Jeremias, calma. Você tá no primeiro dia, na primeira semana, calma. Você tá começando a se relacionar com os caras agora, eles tão se acostumando com o seu jeito” “Tá bom”. Saía, passava meia hora ele entrava na sala: “Eu já tentei de tudo Ângela, não tá dando certo” “Jeremias, calma!”. Bom, eu acho que foram umas quatro vezes que ele entrou na sala e aí da última vez eu olhei para ele e falei assim: “Jeremias, por favor, você tem que dar tempo para os caras...”, “Ângela, não dá, eu sou físico, eu quero respostas”, eu falei: “Eu sou psicóloga, eu quero tempo” e os dois caíram na risada, porque era isso que era. Ele tava querendo respostas, “Porque é que não tá dando certo o que eu tô tentando fazer”. E eu, psicóloga, falei: “Cara, você tem que dar tempo, você começou a se relacionar com os caras agora”. E foi uma sacada fenomenal porque ele começou a se acalmar e o relacionamento com os caras foi ótimo a partir disso. E eu comecei a entender um pouco mais o jeito dele funcionar, por que é que ele entrava na minha sala oitenta vezes por dia para perguntar porque as bolinhas dele não tavam na terceira prateleira. Uma rotina de convivência, ele gera um pouco isso assim. Esse entendimento de como as pessoas funcionam. Esse momento foi muito legal de aproximação, tanto é que eu desenvolvi uma amizade muito grande com ele, tem uma proximidade, ele trabalhou na equipe durante dois anos, saiu, foi pra França e voltou agora pro DI. E assim, no dia-a-dia, situações muito legais com... Seja com alunos, como eu disse, com a própria Sinésia que é uma pessoa fundamental ali dentro, a senhora que fica cuidando do café, da limpeza, de tudo. Eu dei um suporte para ela ser o braço direito de tudo ali, eu deixo o programa na mão dela se for preciso. Não é a proposta, obviamente, mas ela cuida maravilhosamente daquilo ali. Então tem situações...

 

P/1 - É uma moradora da comunidade, a dona Sinésia?

 

R - Ela é uma moradora da comunidade, mãe de ex-aluno, de ex-monitora, de atual estagiária da Fundação, e mora na comunidade há mais de trinta anos. É uma figura fantástica...

 

P/1 - E como que ela se vê nesse papel?

 

R – Ah, eu acho que ela adora. Ela fala que ela não sai mais dali, ela toma conta. E não sabe ler e escrever. É analfabeta. Mas atende telefone perfeitamente, tá sempre sorrindo, sabe de absolutamente tudo o que acontece, é fundamental a pessoa dela ali dentro. Sabe, conhece a família de todo mundo, sabe o que faz, qualquer história que surge na comunidade eu chamo a Sinésia: “Sinésia, vamos lá, o que aconteceu?”, ela sabe de tudo. Fundamental. Com ela tem situações interessantes também.

 

P/1 – Tem alguma que você possa...

 

R – Com a Sinésia?

 

P/1 – É.

 

R – Acho que foi muito do que a gente construiu de possibilitar que ela começasse a se soltar ali dentro. Eu contratei a Sinésia, não fui eu, foi o RH (Recursos Humanos), mas a pessoa me indicou como uma pessoa extremamente calada, “Olha, ela é trabalhadora, mas ela não se relaciona. Ela é fechada, ela é calada”. Falei: “Nossa, trabalhar num programa de esportes e ser calada...” eu me lembro quando eu jogava, eu conversava com a faxineira, com a roupeira, com não sei quem, não dá para ser calada. “Mas eu acho que devagar ela vai se soltar” e foi exatamente isso que foi acontecendo. E o espaço, por ser uma sala muito pequena, é o espaço que todo mundo chega, todo mundo se relaciona, onde ela pega o material, toma lanche, é só ali que acontece. Então eu comecei a possibilitar que ela participasse de reunião de educadores, aí eu fazia reunião ali na sala onde ela fica. Eu queria que ela ouvisse como que a gente pensa, como que a gente se relaciona, como que a gente atende as pessoas. E ela começou a trazer muito essa informação para nós. “Nossa, que legal o jeito que vocês atendem, o jeito que...” Essa mulher se soltou mais do que tudo. Então toca telefone, se ela tá ali, ela atende o telefone “Jogo Aberto, bom dia, Fundação Gol de Letra e Jogo Aberto, bom dia”. Dá todas as... “Olha, modalidades são seis, tal horário, você quer fazer vôlei é à tarde” ela se vira completamente, maravilhosamente bem. E assim, na verdade eu não tenho uma situação marcante com a Sinésia, mas ela dá um suporte para mim fora do comum. Eu acabo de conversar com o jovem que veio, chorou, falou que não pode vir e tal. Aí ela sai da sala, entra e fala assim: “Mentiroso, tava não sei onde ontem” (risos). Pelo menos eu já consegui fazer que ela não interfira no meio da conversa, porque antes ela fazia isso. Eu dei liberdade para ela participar, e eu queria que ela participasse. E aí a gente começou a ter um certo problema com as famílias que vinham fazer matrícula, porque a estagiária da área social reclama e eu dava corda, aí ela falava assim: “Ângela, ela interfere no meio da conversa, não dá para interferir. Porque a mãe fala que não tem tempo de fazer o café da manhã da criança” e a Sinésia fala “Não tem tempo? Você fica lá sem fazer nada” (risos), começava a dar opinião na entrevista. Falava: “Gente, a gente tem uma sala para trabalhar, nós vamos ter que driblar para isso, não tem jeito”. Aí chamava a Sinésia e falava: “Sinésia, por mais que a pessoa esteja mentindo, deixa ela falar que depois a gente vê como é que a gente faz”. Mas muito engraçado, porque assim, ela caba te dando um outro lado e também a gente mostra para ela: “Ó, Sinésia, legal, mas você entende, talvez, porque ela mentiu nesse momento? Ela não se sentiu à vontade, por mais que ele esteja mentindo, uma hora ele vai perceber, não precisa falar para ele que ele é mentiroso”. Mas a gente se diverte porque ela tem esse lado de saber de tudo, absolutamente tudo, tudo.

 

P/1 – Ai que ótimo! E Ângela, olhando assim, essa trajetória na Fundação, como você avalia o seu percurso na Fundação?

 

R – Bom, eu tenho, acho que um crescimento muito grande, de conhecimento nessa área de terceiro setor que eu não conhecia, não conhecia o que era trabalho de assistente social, é algo que eu também me interesso muito. Não conhecia como funcionava políticas públicas, não sabia absolutamente nada dessa área, por mais que eu tivesse um relacionamento com o público em outros ambientes. Acho que uma satisfação pessoal muito grande e profissional dentro de toda minha vida anterior de poder colocar em prática muitas coisas que eu acredito. Eu tenho possibilidade de fazer isso hoje, além de tudo um senso de justiça social que é algo que sempre me acompanhou também, porque coloca em prática isso hoje lá, então eu acho que tem os dois lados, tem um crescimento contínuo, quero investir, quero estudar mais, quero... Dentro da própria rede a gente tem a possibilidade de estar atuando cada vez mais nessa área de políticas públicas que é algo que me interessa. Ser polêmica, trabalhando para ser polêmica, uma coisa que eu adoro fazer. Então tem tanto esse lado de crescimento, eu acho que isso não para, quanto o lado de satisfação pessoal e profissional que é muito bacana também.

 

P/1 – Se for traduzir a Gol de Letra em algumas palavras, como que você definiria a Gol de Letra?

 

R – Olha, difícil. Eu tenho... Essa coisa da paixão, ela tem o bem e o mal, mas eu vejo ali como um mundo de criação de soluções. Eu não vou dizer que é um mundo de resultados não, porque a gente sabe que nem todas as soluções que a gente vai criar são eficazes. Mas eu diria que é um mundo, é um universo. Ele não tá isolado do contexto porque tá dentro do contexto, mas ali dentro a gente cria um mundo de soluções, de desafios. Soluções de desafios, eu acho que é muito isso. É como se fosse um laboratório de criação de soluções. Se vai dar certo ou não a gente já não sabe, mas eu acho que é um pouco isso.

 

P/1 – Maravilha. E esse trabalho que a gente tá fazendo de registrar a memória das pessoas que fazem parte da Fundação nesses dez anos, o que você... Como você...

 

R – Não, eu tô adorando esse processo, apesar de não tá participando muito próxima desse processo de como vocês trabalham. Os momentos que nós tivemos, eu... Em cinco anos da Fundação, de trocar ideias com pessoas sobre isso, confirma que a Fundação tem de melhor são as pessoas. A gente ouviu isso várias vezes, então o que tem de melhor aqui na Fundação? São as pessoas que trabalham aqui dentro, por mais que a gente tenha propostas de área social, metodologia, pedagógica, as pessoas que acabam se encaixando nesse perfil, fazem esse trabalho ser como ele é. Eu acho que tem tudo a ver com a proposta de trabalho de vocês, que é feita de histórias, histórias individuais que acabam construindo uma história conjunta, eu tô achando muito legal.

 

P/1 – E a última pergunta, enfim. O que você achou de ter vindo aqui? De você ter deixado sua trajetória, sua experiência, sua história registrada?

 

R – Eu adoro falar, você já percebeu que eu falo pra caramba e adoro, adoro. Acho que até dentro do conhecimento da Psicologia, você conquista alguém quando você dá espaço pra pessoa falar dela. E eu adoro falar de mim, da... Isso me ajuda. Eu acho que eu consigo até elaborar melhor cada vez que eu falo, que eu conto histórias da minha vida, eu vou elaborando, então eu ficaria aqui o dia inteiro falando da minha vida e sem nenhum constrangimento. É muito legal, é muito gostoso. Gostei muito.

 

P/1 – Que bom! Tem alguma coisa que a gente deixou de perguntar, que a gente não focou, e você gostaria de deixar registrado?

 

R – Ah, eu acho que não, acho que tá tudo falado. Assim, desde antes da Fundação até o que eu vivo atualmente, a Fundação. Talvez eu tenha falado muito pouco da minha filha, que é uma coisa que consome muito a minha vida.

 

P/1 – Júlia, né?

 

R - A Júlia, mas que também é uma outra paixão que deixa a gente de cabelo branco...

 

P/1 - Com quantos anos ela tá?

 

R – Tá com seis anos, vai fazer sete anos agora no meio do ano. Mas também é algo muito marcante na minha vida hoje, além da Fundação. Eu divido a Fundação e Júlia, como eu dividia voleibol e estudos, para fazer as coisas bem feitas.

 

P/1 – E você falou que teve de armar um esquema todo para conseguir conciliar a Fundação, trabalho, com a escola da Júlia.

 

R – É. Isso, com certeza, sim. Separei-me, consegui outra escola para ela e... Mas assim, a prioridade é o trabalho, então hoje eu não tenho como abrir mão do meu trabalho e nem é o que eu quero. Eu faço com paixão e faço magnificamente tranquila, mas só quem tem filho que sabe como esses bichinhos consomem a gente, mas vamos numa boa, a gente se diverte muito, dá muita... Temos ótimos momentos.

 

P/1 - Como é a Júlia?

 

R – A Júlia é temperamental, perfeccionista, igual a mãe, dedicadíssima, extremamente alegra, adora fazer palhaçada como eu, mas é temperamental. E isso cansa. Nada que uma outra mãe de uma criança dessa idade não fale a mesma coisa, mas é uma delícia, uma delícia. Ter filho é uma delícia, nem pensava em ter, depois que ela nasceu, a referência dela sempre fui eu, mesmo casada, isso praticamente não mudou na vida dela, essa coisa de vida social, de sair, viajar, passear, coisa que eu adoro fazer. Eu estou podendo fazer isso com ela agora, depois que eu me separei, porque quando eu tava casada, não saía, não viajava, não fazia nada. Quando eu viajava, viajava eu e ela e hoje a gente faz isso de uma maneira muito mais tranquila. Muito legal, muito legal. Dá trabalho mas vale a pena (risos).

 

P/1 – Então queria agradecer a sua entrevista em nome do Museu da Pessoa, da Fundação, então eu queria agradecer demais.

 

R – Não foi nada. Foi um prazer.

 

P/1 – Obrigada.

 

R – Eu é que agradeço.

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