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História

O poder da educação não-formal

História de: Maria Paula Correia de Souza
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/09/2021

Sinopse

Origem portuguesa e infância repleta de brincadeiras. Histórias que o pai contava. Primeiras lembranças da escola e praticando balé contra a vontade. Mãe veterinária e vivência no sítio com muitos animais. Pais ativistas políticos e sobre frequentar comícios desde pequena. Fase surfista e gosto pela Biologia Marinha. Faculdade de Biologia e mudança de interesse dentro da área. Estágio e paixão pela Botânica. Educação de Biologia e primeiras experiências como professora. Gravidez da primeira filha. Trabalho como Laboratorista, eventos de Ciência e a educação não formal. Jardins botânicos e ações educativas. Criação da Percebe e projetos na educação não-formal.

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História completa

P1 – Boa Tarde, Maria Paula, tudo bom?

R - Boa tarde, Genivaldo, tudo bem? 

P1 - Tudo bem e com você?

R – Tudo certo. Muito feliz de poder falar com vocês!

P1 – Ah, obrigado, o prazer é todo nosso! Eu vou começar com a primeira pergunta, que é a mais básica: eu gostaria que você me dissesse o seu nome completo, a sua data de nascimento e a cidade onde você nasceu.

R - Meu nome é Maria Paula Correia de Souza. Eu nasci em São Paulo, capital, e vivo em São Paulo. Eu nasci no dia 15 de setembro de 1978.

P1 – Então, parabéns, porque foi ontem, né? (risos)

R - Foi ontem. (risos) Obrigada!

P1 – Qual o nome dos seus pais?

R - O meu pai é Francisco Domingues Alves de Souza. Era o nome completo? Legal. E a minha mãe é Emília Correia de Souza.

P1 – Você tem irmãos?

R – Tenho um irmão, ele é mais velho, chamado Eduardo. E tem uma irmã, também mais velha do que eu, que é a do meio, que [se] chama Anita.

P1 – E a sua família é de São Paulo mesmo ou seus pais vieram de alguma outra localidade?

R - Meus pais são portugueses. Meu pai é da região de Setúbal, em Portugal, que é um pouco abaixo de Lisboa, um pouco ao sul de Lisboa. Bem pertinho de Lisboa. E a minha mãe também, nascida em Portugal, é da região de Coimbra. De uma aldeiazinha, ali perto de Coimbra.

P1 – E você sabe por qual motivo eles se mudaram para o Brasil?

R – Ambos os meus avós, as famílias, vieram na época em que estava, em Portugal, a ditadura de Salazar. E eu acho que, para além de não concordar com aquela situação opressora, tinha uma situação econômica muito grave. E eles viam, no Brasil, por conta de ter... Bom, essa relação que tem Brasil e Portugal. Mas, eles tinham parentes aqui em São Paulo e foi um momento que eles acharam que era oportuno mudar. Eles não vieram exatamente na mesma época. O meu pai veio com, acho, nove anos para cá. Ambos vieram na década de cinquenta, mas o meu pai tinha acho que nove anos e a minha mãe, se eu bem me lembro, tinha onze, doze. Eram crianças.

P1 - E qual ocupação dos seus pais, Maria Paula? 

R - O meu pai era engenheiro mecânico de formação, trabalhava com combustão, no Instituto de Pesquisas Tecnológicas, aqui em São Paulo, no IPT. E a minha mãe é veterinária.

P1 – Então, me conta um pouco da sua infância, Maria Paula. Você se lembra da casa onde você morou, quais brincadeiras você gostava mais de fazer?

R - Eu não me lembro da casa que eu morei logo que nasci, né? Quando eu era bem pequenininha, quando eu tinha um ano, meus pais mudaram para um apartamento, em que eu vivi toda minha vida, até quando eu saí da casa dos meus pais. Então, acho que eu só me lembro dessa casa, acho que ela é o núcleo. E era muito legal, era um prédio... É ainda, minha mãe mora, mais ou menos, nesse apartamento até hoje. E era um prédio muito bacana, porque tinha muitas crianças da minha idade, da idade dos meus irmãos, então era uma espécie de uma mini cidade dentro do prédio, assim, uma lógica paulistana aí, né, acho que classe média paulistana. Então, a gente ficava muito ali, com aquele grupo de amigos, no prédio. Sei lá, acho que as minhas primeiras lembranças de brincadeira nesse contexto eram as brincadeiras de "playground", né, que vira, que o "playground" que vira tudo, qualquer coisa que você imaginar, né? Desde o foguete da Xuxa, que afinal eu sou da época da Xuxa, (risos) até, sei lá, uma cidade espacial e milhões de coisas. Eu me lembro muito das competições de balança, de quem balançava mais alto, girava mais rápido. Sei lá, de andar de bicicleta, brincadeira de escritório de... Enfim, um pouco de boneca, um pouco de bola, um pouco de tudo, assim. Polícia e ladrão, eu lembro que a gente brincava muito de polícia e ladrão, já um pouquinho maior, né, não muito pequenininha. Mas tinha essa lógica assim, de juntar diferentes faixas de idade. O meu irmão é seis anos mais velho que eu, a minha irmã é dois. E eu lembro que, nesse momento do polícia e ladrão, havia uma coisa que juntava, desde a idade dele, da galera que tinha os seis anos a mais do que eu e até a minha geração. Então, aí virava uma coisa de ter, sei lá, mais de trinta molecadas correndo pelo prédio, se escondendo. E aí era um tal de porteiro chamar zelador, que chamava síndico, que chamava pai, que chamava mãe, assim, zoneava o negócio todo. Eu adorava, achava aquilo o máximo, envolver os adultos, sabe? Causar um pouco. (risos) E me lembro muito das brincadeiras do final de semana, porque os meus avós maternos moravam num sítio aqui perto de São Paulo, na cidade de São Roque (SP). E a gente ia todo final de semana ou quase todos os finais de semana, a gente ia para o sítio. Aí núcleo familiar mesmo, só o meu avô, a minha avó, meus pais e meus irmãos. Então, também era outro espaço, né, de outro tipo de brincadeira. E era meio que um esquema rural mesmo. Meu avô tinha essa lógica de vida em Portugal, ele era produtor de vinho em Portugal. Ele veio para o Brasil e, tipo... Veio para São Paulo, para a cidade, tentou algumas coisas na cidade, mas não era a ‘praia’ dele. Então, ele conseguiu achar esse lugar, esse sítio e criou tipo sítio de brincadeirinha, sabe? Que tinha plantação, vaca, ovelha, galinha, porco e a gente achava aquilo o máximo, né? Imagina! Tipo uma brincadeira de fazendinha, com os bichos de verdade. (risos) Então, tinha esse lugar da brincadeira mais suja, assim, sabe? Suja no sentido de mexer com a terra, de mexer com os bichos, de usar roupa velha, rasgada e, sei lá, fazer guerra de laranja. Tinha esse outro núcleo de brincadeiras, que eram bem diferentes, porque eram com os meus irmãos só, ou em grande parte do tempo, era com os meus irmãos, mas uma coisa mais livre também, de andar de bicicleta na estradinha de terra que não tinha nada, ninguém, fazer trilha no mato, né? Sei lá.

P1 - E você gostava de ouvir histórias, quando você era criança? Alguém te contava? 

R - Ah, muitas, muitas histórias. Acho que eu não me lembro tanto dos meus pais, que eu sou a mais nova, né? E acho que lá pelas tantas os meus pais meio que delegaram essas histórias para o meu irmão e para minha irmã, então eu não tenho uma memória super das histórias... Não, meu pai tinha muito hábito de contar história. A minha mãe não, o meu pai tinha muito. Mas ele tinha umas histórias que ele inventava da cabeça dele, com um propósito eu diria que moral. Então, eu lembro que tinha uma história que ele gostava muito de contar, que era de umas crianças que, por acaso, eram pais que tinham três filhos também, né, não sei porquê. Coincidência do destino. E essa história era sobre três garotos - ele tentou dar uma mudada ali na família - que não gostavam de comer sopa e que só gostavam de comer, sei lá, arroz com batata frita e sei lá o que era. E aí a lógica toda, no final das contas, da história, é que a mãe, os pais ficavam muito chateados, mas aí que os garotos, depois de uma coisa meio, uma situação meio deprimente que eles tinham que comer a sopa de não sei quem, que era azeda e horrível, porque eles estavam longe dos pais, eles acabavam achando a sopa da mãe o máximo. Então, essa era uma história que (risos) voltou. Eu só lembro dela assim, porque ela voltou com os meus filhos. Meu pai reeditou a história, (risos) para contar quando os meus filhos eram pequenos, então essa eu lembro bem. Tinham outras várias, mas todas ele inventava, histórias que não eram... Assim, ele não trazia do tempo, eram histórias que ele inventava. E eu tenho a impressão - porque eu não me lembro, assim, com clareza de mais nenhuma como essa - de que ele inventava para fazer, ali, um aprendizado de questões morais e éticas. A minha mãe, eu lembro dela contar uma história também que ela inventou e que até um tempo atrás... Ela contava bem menos. Acho que, nessa separação, que era mais evidente na geração deles, né, de papéis, que a mãe está sempre muito mais ocupada, atribulada com aqueles cuidados mais básicos. Mas eu lembro que tinha uma história muito bonitinha que ela contava, da raposinha dourada e que, depois, quando meus filhos nasceram, ela acho que retomou a história e acabou escrevendo um livro. Que nunca foi editado, mas ela resolveu escrever. Ela é amiga do Ignácio de Loyola Brandão e aí ela escreveu, ele super incentivou, mas nunca levou para frente esse projeto. E de outras pessoas contarem histórias, eu lembro de muita história dos meus avós, deles contarem, não lembro mais as histórias, assim, lembro “flashes” das histórias. E lembro dos meus irmãos lerem coisas para mim, inclusive coisas muito chatas que eu achava, falava: “Gente”. O meu irmão começou a ler aquela coleção, sei lá, “O que é Comunismo”, “O que é Pedagogia”, lembra aquela “Primeiros Passos”? E ele queria ler para mim, só que eu tinha seis anos a menos. (risos) Eu achava aquilo insuportável, ficava pensando: “Por que esse cara está falando esse monte de coisa para mim? Eu não quero saber!”. (risos) Sei lá, eu lembro de ter essa coisa, assim, dos irmãos também não terem noção, né, do que você vai estar ligada em fazer ou não.

P1 - E vamos falar um pouquinho sobre a sua vida escolar. Você se lembra dos seus primeiros anos escolares? Tem alguma lembrança que te marca até hoje?

R - Eu comecei, acho que fui uma vez ou duas na escola, durante essa época, bem pequenininha, do jardim de infância. E acabei ficando meio que resfriada, sei lá, doente e minha mãe resolveu me deixar em casa mais tempo. Eu só fui para a escola de novo com cinco anos, no pré, e era uma escola... Minha mãe não conseguiu vaga na creche e me colocou numa escolinha que era uma escola pequenininha, particular, que eu odiei. Desde o momento que eu pus o pé lá dentro, eu odiei. E era uma classe que acho que tinha umas vinte crianças, tinham quatro meninas e o resto eram meninos. E eles tinham alguma dinâmica ali, que eu acho que entrei depois, eu não tenho bem certeza. Mas eu odiava, porque acho que foi um pouco o momento de separação da minha mãe, porque, de fato, eu nunca tinha tido essa separação e eu ficava sozinha com ela nos períodos que os meus irmãos estavam na escola, então ela era a minha mãe em tempo exclusivo. Então, acho que houve essa separação e ela me colocou no período oposto dos meus irmãos. Eles iam para escola de manhã e eu estava em casa, aí eu ia para escola à tarde, quando eles estavam em casa. Eu também não ficava com eles, aquele... Enfim, acho que mudou a rotina e eu odiava a escola, porque era uma coisa cheia de regrinhas que, sei lá, tinha, por exemplo, o que acho que mais me marcou é que tinha, as meninas, de atividade física, que fazer balé e os meninos faziam judô. E eu não queria fazer balé, porque a meia-calça do balé, o “collant”, é aquela coisa horrorosa, odiava aquilo. Era tudo preto, eu colocava aquilo e ficava me sentindo um palito, porque eu era muito magra e achava aquilo desconfortável, colante demais. E aí eu falei para a minha mãe que queria fazer judô, né? Achava que, bom, tinham duas opções, por que raios eu não poderia fazer judô? E eu não pude fazer judô, não deixaram. Tipo: meninas fazem balé, meninos fazem judô. E aí acho que isso ainda tornou a minha vivência ali mais complicada. Então, eu chorava para entrar na escola, fugia. Minha mãe às vezes ia embora, ficava o portão aberto e eu fugia da escola. Eu odiava, eu acho que o pior começo possível de escola, para mim. Mas eu fiquei um ano só nesse esquema, porque era o pré, era o finalzinho. E aí, no primeiro ano, que era a primeira série, né, do primeiro grau, eu fui a escola, que era uma escola da prefeitura, que os meus irmãos estudavam. E a minha mãe estava, assim, em pânico, porque ela já imaginou mais um ano de tortura. Porque foi uma tortura para ela também, né? E, sei lá, eu cheguei lá, fui com os meus irmãos, né, estavam os dois ali, mesmo que em outra sala, em outra série, com os seus amigos, mas estavam os dois ali, perto de mim. Eu cheguei, entrei na fila, achei aquilo ali tudo mais... Sei lá, que eu já conhecia a escola por causa deles, né, tinha ido nas festas juninas, nesses eventos, enfim, de escola. E eu simplesmente entrei, comecei lá e a coisa fluiu, gostava, achava legal, adorava a professora. E acho que, a partir daí, fluiu como é para todo mundo assim, né? Tem a parte chata da escola, tem a parte legal, aquele ano que você se revela um pouco mais, um pouco menos. Mas acho que a minha mãe deve ter acendido muita vela, viu, para ter dado certo. 

P1 – E tinha alguma matéria que você gostava mais? Você já tinha alguma identificação, por exemplo, com Biologia, com Exatas, Humanas?

R – Tinha. Eu acho que a vivência do sítio e a minha mãe ser veterinária, né, ela tinha também essa lógica: ela ia para o sítio e também cuidava dos bichos que estavam lá, né? Uma época eles tiveram uma criação de suínos, a suinocultura, minha mãe tinha feito um curso de especialização. Então, eu vivenciei muito essa coisa de lidar com os bichos. E aí nasciam aqueles filhotinhos, não sei [se] vocês já viram porquinho nascendo, é a coisa mais fofa da face da Terra. Nasce um monte, tipo: vai nascendo, ‘bláblábláblá’, uma coisa louca, aquele monte de bichinhos. Eles são lindos, são sedosos e têm um cheirinho de bebê, de bebê, assim, não sei, um cheirinho gostoso. E eu lembro que a gente achava aquilo o máximo e aí nascia, sei lá, tinham umas ovelhas que eu lembro de ter nascido. Esse cuidado da minha mãe com os bichos, então eu já tinha uma aproximação com esse mundo mais veterinário. E gostava, adorava as aulas de Ciências, também porque eram mais fora da caixa, né? As de Artes e as de Ciências sempre foram as mais fora da caixa. Você saía, ia, sei lá, investigar o bichinho da folha do jardim, ou ia para o laboratório. Sempre tinha uma coisa um pouco mais fora da caixa. E, durante vários anos, eu pensei em fazer veterinária, no final do fundamental II, né, que na época era o primeiro grau, eu pensei em fazer Veterinária.

P1 - E passando então para o seu ensino médio, para o segundo grau, você mudou de escola? A escola era mais longe, mais perto? Me conta como foi essa mudança para você.

R - Eu mudei de escola na quinta série. Estudei nessa da prefeitura da primeira à quarta série. E aí, na quinta série, meu irmão já tinha saído da escola e a minha irmã ia mudar, nem lembro mais bem como é que foi, mas eu fui junto com a minha irmã, para escola do Sesi, que era ali perto daquela Igreja Nossa Senhora de Fátima. Era meio ligado, eu até achava que a escola era religiosa, no princípio, porque era do lado da igreja. Eu achava que a escola era, sei lá, uma escola de freiras. Enfim. (risos) Não tinha nada a ver, mas a princípio eu fiquei meio... Achei que era aquilo. Então, eu já tinha feito essa primeira mudança. Essa vivência do Sesi foi ótima, porque minha mãe morava... Quer dizer: a gente morava, né, na Pompéia, ali perto da Avenida Pompéia e era muito perto. Então, a gente fazia o percurso, voltava às vezes de ônibus, às vezes a pé, aí voltava com as amigas. Foi um período muito legal, de ter essa proximidade com a casa, de conseguir me deslocar sozinha. Foi bem bacana. Mas ela acabava na oitava série, eu não podia prosseguir. Então, aí eu mudei para uma escola particular, que é o Oswald de Andrade. E aí eu acho que, quando eu fui para o Oswald, teve esse corte da escola que eu conhecia, que era perto, eu podia ir a pé. Essa já não era... Era um outro lugar. A minha irmã já estava lá, porque como ela era pertinho de mim, eu entrei no primeiro ano do ensino médio e ela estava no terceiro. E era uma escola que era meio uma coisa assim, meio: “Ai, vamos ter, dar liberdade”, mas era tipo liberdade bem vigiada e cheia de pequenas punições, que eu acho que não são bem claras assim, sabe? Aquela coisa um pouco nebulosa, que você não entende muito bem. Aí a hora que acontece, você é punido em excesso. Que eu achava que não tinha... Hoje em dia, olhando, acho que faz muito pouco sentido para o que era a proposta que chegava em mim, né? Também pode ser uma percepção que eu tive ali, né, naquele momento. Mas foi um ano meio de rebeldia, eu não gostei assim, tive uma... Eu odiava essa coisa da comparação com a minha irmã, né? Que eu acho que isso pegou muito e nunca aconteceu nas outras escolas, nem com a minha irmã, nem com o meu irmão, que estudaram nas mesmas escolas. E nessa tinha, o tempo todo. Os professores falavam: “Nossa, você podia ser que nem a sua irmã”, que ela era mega boa aluna, é aquela que, sabe, o professor pergunta qualquer coisa, ela já está com a mão levantada, fala e está certo, não sei o quê. Super estudiosa e dentro dos padrões esperados. E aí acho que eu fui piorando, né, porque aí falei: “Ah, já que é para ser igual, eu vou ser diferente, vou causar”. Então, foi um ano meio conturbado, esse primeiro ano. E aí, no começo do segundo ano do ensino médio, eu lembro que deu um estresse com o coordenador e aí ele meio que ameaçou: “Ai, se acontecer qualquer coisa, você vai ser expulsa da escola”. E aí eu falei para a minha mãe: “Mãe, não está rolando, não está fluindo, está errado. Acho que está me fazendo mal esse lugar”. E ela falou: “Tá me fazendo mal também”. (risos) Porque é isso, né? Você fica lá, também, naquela situação, coordenador chamando. E aí eu mudei, fui para o Objetivo, que era tipo para fazer nada mesmo, ela sacou, falou: “Ai, deixa, faz nada”. E eu fui para o Objetivo fazer nada. Na verdade, eu fiz. Fiz um monte de social, criei umas manifestações lá no Objetivo. Aí tinha uma coisa qualquer de um campeonato, que eu lembro que tinha que arrecadar recurso, aí arrecada recurso, aí o recurso que era comida para dar para não sei quem. Enfim, sei que aí eu entrei meio que numa coisa de fazer produção, não era mais de estudar. A escola era bem fácil, porque o Objetivo é aquela coisa apostilada, você lê a apostila, pergunta uma coisa ou outra para o professor e consegue levar. Então, eu comecei a fazer social, assim, falei: “Ah, vou conhecer pessoas, deixa eu ver isso daqui”. Aí tinha manifestação do banheiro, a manifestação não sei que, sabe essas coisas de escola? Eu me envolvi em todas. Era do grêmio, era do não sei o que e foi. Foi meio uma parte ‘política-produção’ assim, da vida.

P1 – E, Maria Paula, pensando nesse período de adolescência, fora da escola, o que você gostava de fazer? Por onde você circulava pela cidade?

R - Eu tive, durante vários anos, né, como eu falei, essa convivência mais intensa com os amigos do prédio, as amigas principalmente, que eu tinha muitas amigas da mesma idade ali. E acho que teve um momento muito gostoso, que a gente começou também a ganhar essa liberdade para além do prédio, de sair, de andar pelas ruas, de ir até a [Avenida] Paulista, pegar um ônibus, sozinhas, né? Teve um movimento assim, mas eu acho que começaram essas relações ali, durante, acho que, principalmente, no final do fundamental II, começaram a mudar, porque você vai criando novos vínculos com pessoas da escola e de outros espaços, as atividades extracurriculares, acho que interesses. Enfim. E eu comecei a ter mais um conjunto de amigas da escola, né, em paralelo. Essas coisas foram meio acontecendo em paralelo, nunca dá para saber exatamente quando diminuiu, de verdade, mas essas minhas amigas da escola. E tinham também outros núcleos, então você conhece aí os amigos da convivência delas. Então, tinha um grupo que gostava mais de, sei lá, ouvir música na casa de alguém. Aí tinha um outro grupo que era mais esse de, sei lá, caminhar. Eu gostava muito dessa coisa de caminhar pelo bairro, principalmente, porque eu podia fazer sozinha, a pé, sem depender de muitos... Assim, fazer a qualquer momento. Então, eu gostava muito, tinham alguns percursos que fazia quase que diariamente. E acho que o Sesc Pompeia foi um espaço também que teve um papel importante e que me fez acho que também começar a perceber mais, de forma mais potente, esses espaços museais e de exposições, porque sempre foi... Eu lembro que meus pais levavam a gente no Sesc Pompeia, mais com o intuito da parte de esportes, que eu lembro que fiz natação, alguma coisa assim, lá. Ou, sei lá, esportes de quadra, não sei. Porque uma época eu lembro de ter feito naquele... Eu não sei se vocês conhecem, que vocês estão meio que aqui por perto, por isso que eu tô falando como se todo mundo conhecesse, mas tinha um espaço público perto do Parque da Água Branca, aqui na zona oeste, que era muito legal, que era da Secretaria de... Acho que era a Secretaria de Esportes e Cultura, sei lá o que era na época, mas era um mini clube do governo do estado. Ele está fechado há anos, eu várias vezes passo lá na frente e ele está fechado há anos para reforma. E era um espaço incrível, porque tinha toda parte de esportes de quadra, tinha pista de corrida, tinha natação, ginástica, enfim, era um clube, só que público, né? Então, eu lembro de ter feito durante muitos anos essa coisa de Cadi, de criança, sabe? Que é aquela coisa no período inverso da escola, que faz a introdução aos esportes. Aí tinha, sei lá, ginástica artística… Achava aquilo tudo o máximo, né? E depois fiz natação, fiz vôlei, mas chegou um momento que foi isso: o negócio estava tão degradado, a falta de manutenção era tamanha, que não tinha mais como fazer. A piscina quebrou o aquecimento, os caras nunca mais consertaram. E aí eu lembro que teve essa fase de transição, que a gente passou a frequentar o Sesc Pompeia. E aí virou um pouco isso, né, que eu ia com os meus pais e, num determinado momento, eu comecei a ir sozinha, entrava ali, ficava, ia com os amigos. Depois teve uma época meio também de ir em "shopping", mas nunca foi um negócio que eu curti muito. Aliás, tenho meio aversão a "shoppings", esse excesso de luz, de informação. Que mais que eu gostava de fazer? Tinha essa coisa do sítio, né, que continuou. A gente chegou numa determinada idade, que a gente conseguiu falar pros meus pais: “Vai sozinho, que a gente não quer ir”. Mas tinha essa coisa da Paulista, né, de achar legal. Centro, o meu pai adorava o Centro de São Paulo, então ele levava, queria que a gente soubesse onde que a gente estava, sabe? “Ah não, porque essa micro viela que dá naquela rua” e você nunca conseguiu decorar. Aí você fica só com as principais ali e fala: “Ok, eu sei me localizar”. Mas nome de rua ele adorava, o passeio que ele adorava era esse, de ir lá na Sé, coisa e tal. Ah, tinha uma outra coisa: os meus pais eram ativistas políticos, né? Então, o meu pai, eu lembro muito pequenininha, de ir em comício. E era evento, eu adorava ir em comício, achava aquilo super o máximo, porque não estava nem entendendo nada do que estava rolando de verdade ali, mas lembro que era o momento que os dois queriam, eles iam, então era aquela coisa, multidão no comício. E eram os comícios do PT (Partido dos Trabalhadores), que meus pais meio que entraram ali na fundação do PT. E aí eu lembro deles, a gente ia, né, porque tinha que ir junto com eles. Mas eu adorava! Não era porque eu tinha que ir e era chato, não, eu adorava. Porque aí era aquele monte de pessoas e os amigos deles, e dando atenção para a gente. Podia comer um monte de picolé, porque eles estavam querendo prestar atenção num discurso de não sei quem e aí eles deixavam a gente comer picolé. Então (risos) eu achava aquilo super legal. E tinha esse espaço também, que era muito presente, espaço das pessoas nesse grupo político na minha casa, que eu também achava legal, movimentava a casa, né? E a gente também ia, né, sei lá, não tinha com quem deixar, sei lá por que a gente ia para a casa desses amigos também ou nesses momentos... Eles faziam aqueles panfletos, para fazer panfletagem em fábrica. Então, tinha o dia que ia passar naquele treco lá, no mimeógrafo, adorava! Gente, aquele negócio, aquele cheiro delicioso do mimeógrafo! Aí eu queria ir. E colar carta, dobrar cartinha, colocar, para mandar lá para os caras do diretório. Achava aquilo tudo assim... Eu não sabia, honestamente, o que eu estava fazendo direito, mas achava o máximo. Era uma super brincadeira. (risos)

P1 – E pensando agora em vestibular, né, você... Já voltando [para] essa parte da adolescência, do ensino médio: como você definiu o que você queria fazer? Você fez logo, imediatamente, ou se deu um tempo? Como foi esse processo, para você?

R - Acho que ao longo, ali, do início do ensino médio, eu comecei a olhar a Veterinária, que eu gostaria de fazer de uma forma um pouco mais crítica. A minha mãe tinha meio que mudado um pouco de área porque, enfim, ela tinha feito aquela especialização em uma coisa que era muito rural, mas aí, morando na cidade, não tinha muito como atuar nessa parte rural e ela decidiu ir um pouco para esse mundo dos “pets”. E aí eu lembro que ela começou a trabalhar com uma pessoa, numa clínica e eu adorava, lógico, porque aí é isso: tinha os cachorros, eu ia até ajudar a fazer coisas e tal. Eu continuava com interesse, mas comecei a olhar de uma forma crítica, achar aquilo meio chato, sabe? Essa coisa de ter que lidar com as loucuras do dono do “pet”. Enfim, começou a me dar meio um bode daquilo ali, eu falei: “Não, acho que não era isso”. Aí comecei a pensar um pouco, né, o que seria perto da Veterinária, mas que não tivesse essa ligação, que era uma ligação que eu achava muito psicológica, entre o dono e o animal. E o veterinário que não consegue chegar a atingir o dono da maneira correta, né, que às vezes é, assim, até rude com o dono, porque é um bicho, não é um ser humano. Ou ao contrário, né, que começa a tratar o dono do “pet” como se fosse uma criança. Então, enfim, eu achei aquilo meio complexo, comecei a pensar. Pensei em Zootecnia, mas também não queria fazer uma coisa tão aplicada. E aí eu pensei... Também teve essa fase na adolescência, que eu acho que esqueci de contar, que é meio brincadeira o que eu fazia: eu ia muito para a praia, comecei a ir muito para a praia, que eu me livrei da obrigação de ir para o sítio com os meus pais, já estava maior, tal. E aí comecei a encontrar uns amigos que tinham casa na praia, o meu pai tinha também uma casa, que a gente ia. Aí começamos a ter uma liberdade de frequentar, eu comecei a achar que podia ser surfista. Eu falei: “Ah, acho que, de repente, pode ser legal”. Comecei a surfar. Desde pequena, fazia, assim, meio de brincadeira, mas aí comecei a achar que podia levar mais a sério. E aí adorava esse esquema da praia, não sei o que, eu falei: “Ah, acho que eu fazer Biologia Marinha”. Achei bem bacana a ideia. Aí, no finalzinho do ensino médio, eu já prestei Biologia, mas sabendo que precisava de mais um tempo para pensar. E também tinha uma pressão dos meus pais. Os meus pais fizeram USP (Universidade de São Paulo), meu irmão e a minha irmã fizeram USP. Eu estava, tipo, para entrar na faculdade, imagina o nível da pressão! Os caras estavam assim: “É o mínimo que se espera, que você entre na USP”, sabe? E eu, assim, né, meio de cabelo em pé. Meu pai veio e falou assim: “Não, não precisa ser na USP, pode ser numa pública qualquer”. Eu falei: “Ufa, que bom! (risos) Ajudou bastante, hein! Tá ótimo!”. Aí eu fui, enfim, não ia entrar mesmo, prestei, só fiz Fuvest, nem passei da primeira fase e fiz cursinho, nesse ano, justo depois do terceiro ano do ensino médio. E aí foi que eu fui me dando conta, assim: “Ai, queria fazer Biologia Marinha, queria fazer Biologia Marinha”. Tinha um namorado surfista, na época, aquela coisa, né? E aí, a hora que chegou nessa coisa da inscrição do vestibular, tinha, na época, eu acho que só dois cursos de Biologia Marinha, um era na Federal de Santa Catarina, que é em Florianópolis, que é o que eu almejava, mas era no mesmo dia da Fuvest. E aí meu pai falou: “Sinto muito. Se você quiser fazer Biologia Marinha depois, você faz, sei lá, vai seguindo essa carreira. Mas, assim, você tem que prestar Fuvest, a gente mora aqui, né? Pagar, manter você num outro estado e tals”. Daí eu falei: “Bom, não vou poder fazer”. E aí o outro lugar que tinha Biologia Marinha era na Marinha, na Marinha mesmo, aquela que faz parte das Forças Armadas. E aí meu pai soltou os cachorros, falou: “Meu, de jeito nenhum!”. Meu pai foi preso político, né? Então, ele odeia... Odiava, né, que já faleceu, mas ele odiava com uma força qualquer coisa que fosse Exército, Aeronáutica, Marinha, ele falou: “Filha minha não pisa nesse tipo de terreno!”. É engraçado, né, porque, assim, a gente olha hoje em dia, fala: “Ah, uma pessoa super de esquerda, que deveria ser mais plural, diversa”, mas tinha os traumas dele. E aí eu acabei ficando presa em fazer Biologia mesmo, que a Marinha já tinha saído do foco. E aí acho que eu prestei Fuvest e Unesp, só. E aí eu acabei passando nas duas, mas, enfim, como eu morava aqui, acabei fazendo Fuvest. E, logo nos primeiros dias de aula de invertebrados, eu desisti da Biologia Marinha. (risos) 

P1 – E me conta como foi essa experiência de fazer a faculdade. Você foi mudando de ideia, como você disse, nos primeiros dias, Biologia Marinha já saiu do radar, já não era mais o seu foco. Como foi essa experiência para você, estar ali na Cidade Universitária, mergulhar num mundo específico, né? Porque até aí a gente só tem generalidades, em ensino médio, cursinho, enfim. Como foi isso, para você?

R – É... Tirando a parte da obrigação de ter que entrar na faculdade que, enfim... (risos) E nessa faculdade, né? Mas, enfim, cumpri lá a meta, carimbei, todo mundo ficou feliz, pararam de me atormentar. Isso foi ótimo, foi incrível. Eu já tinha uma ligação ali, com a Cidade Universitária, porque o meu pai trabalhava no IPT, que é lá na Cidade Universitária desde sempre, desde que eu nasci. Então, a gente já circulava por ali, conhecia, porque a gente ia no trabalho dele. Ele também adorava mostrar onde era a Poli, aonde era a FAU. Eu já tinha uma vivência daquele espaço, mas achei completamente assustador os caras te darem lá o conjunto de disciplinas que você vai fazer e falar: “Meu, se vira!”. Então, de repente, você tem que achar aquela sala naquele espaço enorme. E aí você nunca nem viu as pessoas e uma coisa esquisita, eu achei aquilo tudo meio assustador. Acho que a passagem da escola para... Talvez agora menos, né? As escolas estão fazendo um pouco mais essa transição. Mas a passagem da escola, eu acho que, especialmente para universidades públicas, é uma transição muito chocante. Ninguém quer saber se você vai ter o texto, se vai ter o livro, se vai aparecer na aula, se você não vai, se você copiou, não copiou, se faz prova: ninguém quer saber. Assim, te largam lá e falam: “Meu, vai, se vira, aprende a ser gente aí”. E eu achei, assim, fiquei assustadíssima, falei: “Gente, será que eu vou dar conta de fazer isso daqui? Onde é que eu pego esse xerox? - que você sabe que era a época do xerox, né? - Onde que eu pego esse texto?”, aí imprime. “Que xerox é esse, que passa de quem, de professor, de não sei quem?”. Eu fiquei chocada! Mas passou rápido, né, que você entra rápido naquele contexto. E acho que foi assim... A Biologia é integral, né? Então, eu ficava de segunda-feira a sexta-feira, quase que todos os dias, o dia inteiro, na faculdade. Então, aquelas pessoas, um, que tinham muito a ver comigo, porque acho que isso é importante, essa coisa de você escolher uma carreira, de gostos, de gostar de determinadas coisas, acaba que você encontra pessoas que são muito parecidas com você. Do tipo de valorizar a natureza, de gostar de praia, de gostar de esporte, acho que tem um pouco isso assim. A Biologia tem essa característica. Muitas das pessoas ali têm isso, e aí eu falei: “Nossa, essas pessoas são muito mais parecidas comigo”. E depois tem todo o contexto da universidade pública, que são pessoas mais engajadas politicamente, que olham mais criticamente para as coisas, que acho que fazia sentido na educação que eu tive. Então, acho que o susto inicial foi rápido e compensou. Acho que foram os anos mais legais, assim, que eu me lembre, de não ter a responsabilidade que a gente tem na vida adulta, mas estar num lugar em que eu me sentia muito à vontade. 

P1 – E durante esse período da faculdade, você chegou a fazer algum estágio ou alguma coisa que já te desse um certo contato com o trabalho em Biologia? 

R - Da Biologia? É obrigatório, né, fazer aqueles estágios, para fazer iniciação científica e eu acabei fazendo. Era isso: eu adorava animal, aí fui até procurar um pessoal ali da Zoologia que trabalha com mamífero aquático. Mas logo ali, no comecinho, eu achei aquele negócio uma coisa meio que eu tinha impressão de que ia ser, sabe, estudar tudo na natureza e não é. É tipo um trabalho de laboratório, é raro quem está mesmo na natureza. A fase de coleta, como a gente chama, nessa coleta "in loco'', de ir para o meio da floresta ou de ir para o mar, é uma parte muito pequena do trabalho, boa parte do trabalho é um trabalho de laboratório. E o laboratório é fedido, bicho fede muito. É cruel, porque é uma coisa muito parecida, ainda mais mamífero, né? É muito parecido com a gente. E aquilo foi me dando uma estranheza e eu falei: “Aqui não é o que eu gosto”. Aí eu comecei a trabalhar com planta, fui fazer um estágio no laboratório de anatomia vegetal, que foi bem legal, foi bacana, mas não era ‘minha praia’, desde nunca, ficar presa dentro de laboratório. E, na verdade, quando eu entrei na Biologia, já tinha uma perspectiva, ou pelo menos sabia que uma possibilidade era trabalhar com Educação. Então, eu lembro até que uma das primeiras matérias que teve na Biologia, um professor falou: “Ah, quem aqui vai trabalhar com Educação, quer dar aula?”. Era um grupo de sessenta pessoas, levantei a mão eu e mais uma menina. E chocante assim, né? Porque todo mundo, não sei o que as pessoas achavam também que tanto que tinha para fazer, sei lá o que elas acharam. Mas aí, hoje em dia, eu olho para o meu grupo mais restrito de amigos, que deve ter umas trinta pessoas e um monte de gente trabalha com Educação, né? Assim: ou dá aula, escreve material didático, enfim. Então, é meio assustador, acho que as pessoas entram muito, como eu entrei: apesar de eu gostar do mundo da Educação e saber que era uma possibilidade, a gente entra muito achando que vai fazer uma coisa meio, sei lá, tipo essa parte gloriosa da Biologia, sabe? Que mostra no "Jornal Nacional'', sei lá, no "Fantástico", que são os caras andando no meio da mata, escuta passarinho e fala: “Ai, porque esse daqui é não sei o que, do não sei o que lá”. Não é. A Biologia não é isso, certamente. (risos) É isso também, mas não é só isso.

P1 – E nesse período você, então, já estava pensando em Educação. Uma dúvida que me surgiu: nessa sala, nesse grupo de pessoas que estudaram com você nesse período, existiam mais mulheres, ou você e algumas pessoas, eram em número menor das mulheres? 

R – Ah, não, acho que era bem dividido. Eu não me lembro de ter... Talvez tivesse até mais mulher do que homem, mas acho que era bem mesclado. Nesse meu grupo de amigos eu diria que se não for cinquenta por cento, é algo muito próximo disso. O que tem, gente, é que é isso, né: não existiam negros na USP. É a faculdade pública que só tem branco. Hoje em dia, acho que, é claro, com as cotas, foi mudando, mas eu não me lembro de ter. Tem alguns amigos de outras etnias, tinha até uma pessoa que era indígena, que ficou uma época com a gente. Mas, assim, não existe diversidade, né, ou não existia. A minha turma é basicamente de pessoas brancas, na sua maioria hetero, vindas de escola particular, pouquíssimas pessoas de escola pública e grande parte de São Paulo. Ou São Paulo, capital ou do interior de São Paulo.

P1 – E voltando então a essa questão da Educação: durante a faculdade, você já chegou a pensar a direcionar a sua carreira pra questão da Educação, ainda dentro do curso?

R – Sim, a Biologia... Ai, eu não esperei os cinco segundos, mas eu vou continuar. (risos) 

P1 – Tudo bem!

R – (risos) A Biologia tem duas vertentes, né? Quer dizer: agora mudou, tem algumas vertentes, sei lá como é que é. Mas, na minha época, tinha uma vertente, que era bacharelado, que aí você se forma em Biologia, e tinha a vertente licenciatura, que você é licenciado, pode dar aula de Biologia e até, inclusive, de Química, Física, que eu achava um absurdo, mas enfim. E eu acabei fazendo as duas coisas, porque também era o que todo mundo fazia, que o núcleo básico ali do bacharelado você fazia em quatro anos, mas no último ano você já conseguia encaixar as disciplinas da licenciatura, algumas disciplinas, que também eram bem menos. Então, eu acabei fazendo Biologia em cinco anos. O último ano, praticamente, eu só estava fazendo as matérias da licenciatura e umas optativas que, enfim, escolhi coisas lá que eu achava interessantes. Aí tem o estágio obrigatório da licenciatura e era um monte de horas, eu não lembro mais, acho que hoje em dia [são] trezentas horas de estágio, acho que talvez fosse até mais. E aí eu comecei a fazer alguns estágios, eu fiz um pouco no EJA (Educação de Jovens e Adultos), num grupo de EJA, de jovens e adultos, achei ser super legal. Fiz na Escola de Aplicação, da própria Faculdade de Educação da USP. E fiz numa escola pública. Tentei fazer no Jardim Botânico de São Paulo, mas não podia. Você só podia colocar dentro das horas de estágio, o estágio em educação formal. Não formal e informal, o que seja, não podia. 

P1 - E o que você achou dessas experiências? Como você reagiu a esses diferentes locais? Porque a Escola de Aplicação fica ali dentro mesmo da faculdade, fica ali do lado da Faculdade de Educação da USP, mas você também foi para a escola pública, outro universo, né? Então, como você reagiu a esses diferentes locais? 

R – É, eu acho que a Escola de Aplicação é uma coisa irreal, assim, né? Irreal no sentido de que todo mundo está ali preparado para receber o estagiário, tem um programa de estágios, então eles deixam, né? Você faz uma parte de observação de aula, tem uma coisa de fazer um relatório, de fazer uma prática, propor uma sequência didática e uma prática que você vai fazer junto com os alunos. Então, acho que tem um cuidado que é irreal em qualquer outro estágio e que eu achei que foi ótimo, que foi o primeiro que eu fiz e achei que foi super zeloso, né, foi bem bacana. E para você ter até esses elementos do mundo real. Você vê um monte de disciplinas durante a licenciatura e aí, a hora que vai aplicar, não é... Você não tem aquele tempo, que parecia que ia ter. Então, achei que foi muito legal, mas é muito idealizado. Acho que a educação, que na sequência eu fiz a parte de Educação de Jovens e Adultos, eu achei que foi a mais legal de todas as experiências, porque as pessoas estão ali porque elas querem continuar [a] estudar, né? Então, elas não precisariam estar ali, diferente da escola formal, né, que você está meio que obrigado, ali, a seguir aquele currículo. O currículo é muito mais flexível. Eu acho que os professores ouvem muito mais, de verdade, os alunos do EJA. Assim, é verdadeira a escuta. Eu acho que, no ensino formal, tem muito essa coisa do diagnóstico, né, de: “Ai, vou entender os conhecimentos prévios do aluno”, ela se torna quase que uma coisa de aplicar uma metodologia. Mas até por conta do tempo, do espaço, do número de crianças, ela acaba se tornando uma coisa repetitiva e de ter que cumprir aquilo. No ensino de jovens e adultos, eu achei que era uma coisa mais real, mais verdadeira, de acolher de verdade, de pegar aquelas partes das narrativas que cada um traz e encaixar de verdade numa sequência didática, num tema, num assunto. Então, eu acho que é uma das coisas mais legais que eu tive, de experiência de educação formal, foi a de jovens e adultos. E a do ensino da escola pública, era uma escola pública que eu fiz na Freguesia do Ó. Era um horror. Assim, os professores não queriam… Nitidamente, eles falavam: “Meu, senta aí, olha, faz o que você quiser, a gente vai assinar a sua ficha”. E eu fiquei meio, falei: “Não, mas eu posso ajudar e, sei lá, preparar alguma coisa”, “Ah, se você quiser, ok”. E você fala: “Ai, será que eu devo, que eu não devo, que eles estão achando que não precisa, eles não querem? Ou pelo contrário, eles querem, mas eles não querem que eu os solicite?”. Não sei, acho que tinha um misto de tudo e também, sei lá, tinha vinte anos, eu não soube muito bem lidar. Então, fiquei ali meio passiva durante um tempo, depois virei meio que a amiga, assim, sabe, dos garotos? Então, eles vinham: “Ah, você pode tirar uma dúvida para mim disso daqui?”, então eu virei meio plantonista da galera. (risos) E assim foi indo. Acabaram os estágios e eu não tive mais contato com essa escola. Pelo menos, nunca mais tive contato. 

P1 - E depois do fim da faculdade, então, por onde você prosseguiu?

R - Eu acabei esse estágio na Botânica junto com o final da faculdade. E eu lembro que, em algum momento, o estágio, acho que eu fiquei um ano e meio, que foi o mais longo e foi o que eu fiz a iniciação mesmo: você faz lá uma espécie de um trabalho de conclusão de curso e tal. E aí eu lembro que, em algum momento, foi bem legal aquilo e tinha... Sei lá o que aconteceu lá, que eu achei alguma coisa muito legal. Então, eu tinha expectativa de continuidade daquele trabalho. E eu lembro que a minha orientadora da época era uma pessoa muito legal, uma querida, e ela falava: “Porque você não faz mestrado aqui na Botânica?”. Aí eu falei: “Ah, sei lá, de repente”. Porque eu estava trabalhando com uma coisa meio de Anatomia, mas uma coisa também de Fisiologia, porque eram umas coisas nascidas em cultura, né? Então, aí ela falou: “Ah...”, porque eu trabalhava com umas coisas de tomate, era de tomateiros que nasciam “in vitro” e a gente analisava, tomateiros que eram selvagens, outros que eram híbridos, outros que eram melhorados geneticamente. Sei lá, era uma galera de tomatinhos lá, diferentes. A gente plantava os carinhas lá numas placas de petri e eles iam crescendo. Lá pelas tantas, a gente ia cortando, para ver as características. Eu sei que ela falou: “Ah, tem aquele rapaz que estava fazendo os tomateiros, está fazendo agora um trabalho com abacaxi”, é engraçado falar, né? (risos) Aí eu falei: “Ah, legal”, e tal. Ela falou: “Não, escreve um projeto de mestrado, assim. Você vai ter uma co-orientação. - porque ela também estava meio querendo se aposentar - Ah, você pega uma coorientação lá na Fisiologia e vai ser parecido com o seu trabalho, né, com o nível de desafios”. E eu já tinha a nota, não precisava nem fazer prova para entrar na pós-graduação, no mestrado e tals, escrevi o projeto. Tudo bem, mandei, fui selecionada, ia começar. Aí comecei a pensar naquela vida, né? Sei lá, três, quatro anos dentro do laboratório, aí aquela estufa, com as plaquinhas de petri, aquele cheiro, não sei. Começou a me dar um negócio sozinha, né, que tem uns dias que você prepara material, que precisa ir mudando-o de uma solução para outra e eles têm que ficar exatamente um tempo dentro de uma solução, para mudar para outra, para não estragar, não sei o que, ‘nananã’. E aí, assim, você parte dos cem para chegar até o dez ou vice-versa, são horas. Você tem que ficar tipo dez, doze horas fazendo aquilo ali e aí entram pessoas no laboratório, saem, rodam e você está lá sozinha, no final da tarde, aquela escuridão. A Biologia é bem escura, é um lugar já mais ermo da USP. É aquela escuridão, tudo fechado, ninguém, aquele silêncio. Falei: “Ai, gente, não! Não quero segurar esse ‘abacaxi’. Não é para mim esses abacaxis”. Daí falei não, falei com ela: “Desculpa, não tô nesse momento, não vai ser isso”. Ela falou: “Não, imagina, acho que você tem que seguir a vida, tentar outras coisas” e eu desisti do mestrado com os ‘abacaxis’. (risos)

P1 - E aí você chegou a pensar logo em seguida num projeto que estivesse ligado à Educação, ou você deu um tempo _____ (falha no áudio)?

R – É, eu saí desse processo e logo depois fui trabalhar na Escola da Vila. Eu tinha uma amiga que estava fazendo um estágio lá, que era o estágio dela de conclusão de curso - acho que era isso - e aí ela falou que eles precisavam de uma pessoa para o laboratório, que é o que eles chamam de laboratorista. E aí eu fui, me candidatei lá para a vaga, entrei, fiquei de 2001 ou 2002, acho que uns dois anos e meio ou três. Eu fiquei acho que uns nove meses em sala de aula, que eu substituí uma professora. Primeiro fiquei no laboratório, trabalhando lá. Foi incrível! Porque aí eu estava trabalhando com os professores, tanto de Ciências do ‘Fund’, as professoras de fundamental I, que não são especialistas, são professoras generalistas. Fiquei com o pessoal do ensino médio de Física, Biologia, Química, enfim, quem aparecesse lá, para fazer qualquer coisa prática. E aí eles também me colocaram para ir em tudo quanto era estudo de meio, né? Porque era meio isso: eu não tinha família… Assim, tinha, mas não tinha filhos, obrigações outras, então: “Ai, você vai na Pinacoteca”, você vai. (risos) Nem tinha nada a ver, vai. (risos) “Ah, você vai para não sei onde”, vai. “Vai pro estudo de meio, não sei o que de campo”, vai. Então, foi uma fase super legal, porque eu era muito próxima da idade dos alunos, porque eles estavam no ensino médio. Então eu tinha idade mais próxima deles do que dos próprios professores. Mas também tinha uma coisa que era isso: fazia parte do corpo ali, que era docente. Foi ótimo. Foi um ano super incrível de experiência na Escola da Vila, adorei. E aí eu fiquei… Foi em 2003. Aí, no começo de 2003, eu engravidei da minha primeira filha. Eu já era casada, casei durante a faculdade. Até cortei essa parte da história, porque a gente não entrou nisso. Eu cortei, mas, enfim, fiquei grávida da minha primeira filha, saí de licença [por] seis meses e, quando voltei, eles me colocaram em sala de aula, para substituir uma professora que estava saindo de licença-maternidade. E aí foi desafio “plus”, né? Porque eu estava voltando de licença-maternidade, então eu tinha um bebê pequeno em casa, essa separação do bebê e com uma sala para tocar, eu nunca tinha sido professora titular, vamos dizer assim, da turma, apesar de ser a substituta, eu estava ali, naquele papel. E numa escola que era ultra exigente, que qualquer deslize seu ia ser percebido, que as coordenadoras acompanhavam sua aula de verdade, quando elas não, assim: cortavam você no meio da aula. Então, foi assim ultra desafiador. Acho que foi uma experiência ótima, mas foi ultra desafiadora. Mas, enfim, até nesse momento eu já estava completamente mergulhada na Educação, acho que não tinha mais volta. Acho que, sei lá, não sei como é que foi exatamente, mas eu achei que aquilo ali era muito mais a ‘minha praia’. Eu gostava de falar e lidar com pessoas. Eu adorava esse processo da comunicação, da mediação, da troca. E essa coisa de ter os outros professores, né, tipo, quando eu entrei na Escola da Vila, que eu era laboratorista, essa troca com essa galera que não era exatamente da área da Biologia, até de outras áreas, sei lá, da Literatura, porque tinha sempre essa coisa, tinha os eventos lá de Arte e Ciência. Foi, assim, muito encantador, eram uns professores muito bons. A Escola da Vila, não sei como é que está hoje em dia, mas eles tinham uma sorte de ter aquele grupo ali. Era um grupo fantástico, uns professores, assim, que amavam o que eles estavam fazendo. Acho que os pais também eram muito legais. Era uma escola super progressista e tals, né, também completamente fora do que é o padrão das escolas no Brasil. Mas, eu achei que foi uma experiência que certamente me carimbou para o mundo da Educação, não tinha mais volta. E ali, quando a professora voltou, no final daquele ano - era um final de ano -, eles me perguntaram se eu queria voltar para o laboratório ou se eu pretendia dar aula, que naquele momento eles não tinham como me oferecer classes, porque ela tinha voltado, ela ia assumir as classes. Então, se eu queria ficar no laboratório, esperar por uma oportunidade e tals, eu falei: “Não, vou sair, vou fazer pós-graduação, fazer alguma coisa, vou procurar alguma coisa aí”. E aí eu entrei, isso foi final de 2004, acho, começo de 2005, que eu saí de fato. É, foi isso. E aí eu fui, comecei a pensar no que fazer, né? Falei: “Ah, acho que vou fazer uma pós-graduação”. E essa experiência das saídas, né, essa coisa do campo, de sair para o museu, de fazer o estudo do meio, acho que foi bem decisivo para ir para o mundo da educação não formal, porque eu queria fazer o mestrado, mas decidi que não queria fazer uma coisa absolutamente na educação formal. Podia ter uma relação. Então, a primeira coisa que me veio à cabeça era justamente estudar essa estratégia didática, que são as visitas, as saídas e estudos do meio. Eu comecei a pensar como fazer isso e aí me veio a ideia de que eu gostaria de voltar para a Botânica, de certa forma, porque o estudo da Botânica é ‘chatérrimo’, né, nas escolas, todo mundo odeia, os alunos odeiam, acham aquilo chatíssimo, porque vem aquela coisa de gimnosperma, capinha, que não sei o quê. Depois tem a pteridófita, não sei o que lá, todo mundo odeia, porque vira uma ‘decoreba’ chata. E eu achava o mundo da Botânica incrível, estive mergulhada nele e falei: “Ah, que lugar que é esse, que poderia explorar essas saídas, estudo do meio?”. Pensei em trabalhar com o Jardim Botânico. E, nisso, eu conheci a Martha Marandino, que foi minha orientadora do mestrado e do doutorado. Então, eu primeiro procurei um professor da Biologia, que trabalhava… Ele é um cara da Botânica, mas que trabalha com algum viés da Educação. Assim, tem uma preocupação ali, também, com a Educação. Ele trabalhava com uma coisa de trilha interpretativa, sei lá. Mas fui conversar e achei que não era bem aquilo, que ele não estava engajado do jeito que eu imaginava um orientador para educação. E aí eu fui conversar com a Martha e ela me cooptou. Falou: “Ah, beleza, você pode até entrar no mestrado depois, mas agora você tem que participar aqui, do grupo de pesquisa”. As filhas dela eram pequenininhas e a minha também, aí as [nossas] filhas já viraram amigas, iam na brinquedoteca, não sei o quê. Eu sei que, de repente, a Martha entrou na minha vida, assim, não foi só na vida acadêmica, né, foi na vida pessoal também e aí acabei entrando para o grupo dela, trabalhei num projeto de pesquisa, com o Museu de Zoologia. Eu tinha uma bolsa dessas, tipo de desenvolvimento industrial, sei lá como que chama. Essas bolsas técnicas, né, que não são de mestrado. Eu fiquei um tempo com essa bolsa. Aí, nisso, eu fui trabalhar numa escola, em paralelo, no Nossa Senhora do Morumbi, que também foi uma experiência horrível. Sei lá, foi uma experiência com estudo, com a educação formal, que era isso, assim, sabe? Ninguém queria nada com nada, eles, tipo, te largavam e falavam assim: “Se você quiser, você faz. Se você não quiser, também você não faz”, uma coisa meio esquisita. E entrei no mestrado. Fui levando o mestrado e a escola, Aí eu saí dessa escola, que eu recebi uma oferta. Na verdade, participei de um processo seletivo no Colégio Santa Clara, que é aqui na Vila Beatriz. E aí eu entrei para dar aula de Ciências no fundamental II, meio - também - isso, em paralelo com o mestrado. E acho que essa foi a experiência mais importante que eu tive com a educação formal, porque aí era isso, assim: eu era professora da sétima e oitava série, que virou oitavo e nono ano, logo ali, a princípio, fiquei seis anos no Santa Clara. E, apesar, né, eu sempre brinco, as pessoas falavam: “Mas é um colégio de freira, você dava aula na Escola da Vila”. Eu falo: “Gente, assim, dar aula no Santa Clara foi uma experiência completamente diferente e libertadora em relação ao que foi a Escola da Vila”. Eu tive uma liberdade enorme de fazer coisas no colégio de freiras, que eu não tinha. Quer dizer: não tô falando exatamente da mesma coisa, mas esse vigiar era muito menor no Santa Clara, sem ser uma coisa que te largava. Era uma coisa acompanhada, mas que te dava liberdade, um pouco de uma confiança, sabe? “Tudo bem, você consegue fazer isso daqui. A gente confia em você, não vai ficar pegando no pé de cada vírgula que você fizer”. Porque era isso: eu era nova na Educação. Mas, foi um trabalho muito importante.

P1 – Bom, então retornando, Maria Paula, eu queria que você falasse um pouco sobre como começou esse seu envolvimento mais próximo com a educação não formal, com museus, instituições culturais etc.

R - Tá. Então, como contei, né, eu estava querendo fazer uma pós-graduação e pensei nessa possibilidade de não fazer algo com a educação formal, estritamente. Eu queria fazer algo até numa interface com a educação formal e algo que fosse vinculado a essa coisa dos estudos de meio e visitas. E acabei indo para o grupo de estudos da professora Martha Marandino, o Geenf. E o grupo foi formado… A Martha é bióloga de formação, então ela acolheu muita gente que veio desta área, porque ela está ali na Faculdade de Educação, no Departamento de Metodologia, dá aula de Metodologia para licenciatura, na área de ensino de Biologia. Então, acaba que ela junta ali muitas pessoas que são da área das ciências da natureza, com esse olhar para a educação não formal. E aí eu entrei no grupo, achei super legal, porque acho que aí tem uma coisa que, se na faculdade eu me senti à vontade com aquelas pessoas, porque elas tinham interesses muito parecidos comigo, lá, então, as pessoas tinham mais a ver ainda, né? Era aquelas pessoas que eu falava: “Nossa! Essas pessoas são facilmente meus melhores amigos, porque eles têm muito a ver comigo”. (risos) Então, foi um envolvimento muito fácil, muito bacana. E eu comecei a trabalhar, então, num projeto no Museu de Zoologia, com uma metodologia muito bacana, de conversas de aprendizagem e fui me inteirando ali, dos assuntos da educação não formal, me aprofundando. E, depois de um ano que eu estava no grupo, entrei no mestrado e consegui fazer a ponte com o Jardim Botânico. Então eu trabalhei, a princípio, com os Jardins Botânicos de São Paulo e do Rio de Janeiro, com as ações educativas promovidas por esse espaço. Era uma análise dessas ações. Acabei ficando só com o Jardim Botânico do Rio de Janeiro, enfim, por uma série de questões, mas consegui unir aquilo que eu queria, né, que era um pouco desse olhar da Botânica num espaço não formal e as possibilidades, como que esses espaços aproveitam e fazem essa comunicação e educação com o público. Então, foi uma experiência ótima. Nesse ínterim, é isso. Eu estava dando aula também na educação formal, e ainda aconteceu uma terceira coisa: quando eu estava ali, no finalzinho do mestrado, já no último ano do mestrado, começaram a aparecer umas propostas de trabalho, que chegaram primeiro pelo grupo, para a Martha e obviamente é isso, ela é da universidade pública, ela não pode fazer, tinha que ser uma coisa empresa. E aí eu e umas pós-graduandas que faziam parte do grupo, pensamos: “Ah, vamos pegar esse trabalho, vamos fazer e ver no que dá”. E foi assim que acabou surgindo a Percebe. A gente, primeiro, fez um trabalho numa exposição, que era bem da área da Biologia, que chamava “A Revolução Genômica”. A gente fez esse trabalho não ainda como uma empresa constituída, foi um trabalho acho que incrível, que deu um pouco essa dimensão: “Nossa, é possível ter uma empresa nessa área, é possível fazer isso!”. Acho que a gente tinha bem pouca dimensão do que é, qual é o nível de desafio de ter uma empresa e uma empresa nessa área. (risos) Então, a gente juntou, a princípio, cinco pessoas. Éramos três biólogas, uma historiadora e uma física, que também era legal, né, que traz esses outros olhares e recortes. Então, a gente começou em 2009. O trabalho com “A Revolução Genômica” foi em 2008, mas a empresa foi constituída em 2009. E acho que teve caminhos naturais, que algumas pessoas estavam no final do percurso da pós-graduação, eu e uma das sócias estávamos terminando o mestrado, outra estava ainda engatando o doutorado, então sempre uma coisa assim com um pouco um pé na Academia e um pouco um pé na empresa. E eu ainda tinha a escola, que eu levei durante muitos anos em paralelo com a empresa. Que eu estava acabando mestrado, fiquei com a escola e a empresa. E foi bem desafiador esse começo porque, de repente, de colega de um grupo de estudo, você vira colega de pessoas que estão dividindo obrigações de uma empresa, né, que também não é um colega de trabalho qualquer, é um sócio. E aí a gente começou a perceber que tinham questões ali que... Um, assim: acho que a primeira constatação é que tinha uma divergência muito grande de como administrar uma empresa, entre as cinco. Ficamos quatro. Então, isso logo no começo, saiu uma das sócias. Ela foi trabalhar não sei se no Butantã, em algum outro lugar, com educação não formal, mas ela saiu. E depois, nesse percurso, a gente fez um monte de projetos, um monte de coisas legais, numa lógica que éramos mulheres trabalhando com uma empresa de educação não formal, que é algo muito pequenininho, é um nicho muito específico, todas com esse viés acadêmico e da empresa. Então, acho que, assim, inexiste até hoje, né? A Percebe não é uma empresa que tem uma concorrente, que você fala: “Ah, ela é concorrente”. Tem várias outras empresas que trabalham com contratação de educadores, que por ventura fazem supervisão, de educativos que fazem informação, mas que não têm, acho, essa mesma configuração, essa mesma história de trazer. Porque a gente sempre teve essa preocupação de colocar em prática aquilo que a gente via no mundo acadêmico, aquilo que era da pesquisa e vice-versa, né? Como levar para o mundo acadêmico essas experiências da prática, então a gente tinha sempre essa preocupação. E acho que, enfim, nesse percurso a gente perdeu uma outra sócia. Perdeu é ótimo, né? (risos) Parece que a pessoa morreu. Nada disso, ainda bem. Mas uma das sócias foi fazer doutorado no Canadá e não voltou mais, assim, lá pelas tantas ela falou: “Gente, não quero mais voltar, não é ‘minha praia’. Eu vou seguir carreira acadêmica, então eu vou sair da empresa”. E aí ficamos durante muito tempo, assim, trabalhando à frente dos projetos, eu, a Luciana Martins e a Diana Pontier, que acho que foi o núcleo mais duradouro e duro da empresa. A gente fez muita coisa, passou por muitos desafios financeiros, inclusive, porque é uma empresa que não sustenta três pessoas com o número de projetos que tem. Muitas vezes não sustenta nem duas, então várias vezes o que aconteceu: eu saí da escola em 2013, quando eu entrei no doutorado, mas saí da escola para colocar uma outra coisa no lugar dela, né? Não era uma dedicação total e exclusiva para a empresa. Isso só aconteceu em 2017, quando eu acabei o doutorado, que aí eu fiquei exclusivamente. Hoje em dia, eu tô exclusivamente trabalhando na Percebe. Mas é muito desafiador, porque é um campo muito pequeno, é um campo que tem muito pouca verba, né? Que você vai... Eu falei: fui escolhendo caminhos assim. Podia ter feito Administração de Empresa, né, hoje em dia, ser acionista de alguma coisa. (risos) Mas não, escolhi a Biologia, que já é uma coisa que você fala: “Ah, legal!”, né? Aí você vai para a Educação: “Poxa, é, vai para a educação, desafio, batalha”. E acho que tem esse desafio muito grande, de você estar numa área que ainda mexe com cultura, né? Que, a princípio, a minha vivência do grupo de estudo era uma vivência muito dos Museus de Ciências. Mas na empresa não foi isso, né? Porque, na empresa, o que começou a acontecer é que a gente começou a ser contratada para fazer educativo de tudo quanto é coisa diferente. Então, sei lá: a gente participou do Comitê Curatorial de um museu, ainda que de Ciências, que eles chamam de Museus de Ciências e Tecnologia. Ele é um museu de uma empresa que produz motor elétrico. Tipo, sei lá, eu entendo o que é um motor elétrico, agora eu sei várias coisas. (risos) Mas, na época: “Eu sei o funcionamento básico da física do motor elétrico”, mas um monte de pormenores que apareceram ali, que a gente que ficou responsável por fazer, escrever os textos, a exposição, pensar junto com a expografia, e museografia. Então, começou esse nível de desafio, que é trabalhar nessa interface, com outras áreas que não são tanto a minha área de conforto e da outra sócia. É claro que a gente sempre tentou direcionar para quem está mais próximo daquele assunto, mas é isso, a gente vai caminhando com várias coisas diferentes. E isso é muito legal, desse trabalho, porque acho que um pouco do que me dava ‘bode’ na escola ou da educação formal, é esse currículo muito rígido, né? Então, sei lá, eu acho super legal, amo dar aula, amo ter os alunos, mas aí tem essa coisa que você precisa cumprir um número de coisas, de conceitos, de não sei o que, ‘nananã’ e, de repente, tem, sei lá, gente, uma bomba estourando lá fora. Eu lembro de uma coisa muito engraçada, que eram os alunos falando do... Como é que chama? Um filme que tinha um tal do Capitão Nascimento. Isso me marcou muito forte, porque eles vinham com essa coisa, gente, não tinha nada a ver com a aula de Ciências. No fundo até teve, porque eles vieram, um dia, me perguntar se era verdade que se, com o negócio, aquele saco de plástico, era possível mesmo afogar uma pessoa. Veio daí a história, aí eu olhei para aquilo e eu falei: “Gente, essa discussão?”. Eu não lembro o nome desse filme, gente, não sei porquê. É um filme brasileiro.

P1 - “Tropa de Elite”.

R – Isso, “Tropa de Elite”. Essa discussão era uma discussão que não era, gente, a Biologia do saco e o afogamento, era uma outra discussão muito maior, né? Por que isso tinha despertado tanta atenção? Eles estavam quase gostando daquilo. E eu falei: “Não, a gente precisa parar, né? Não é assim, vamos...”. E é isso: eu era professora de Ciências, não era de, sei lá, Filosofia, Sociologia ou História, que, em geral, tratam mais essas questões, mas eu falei: “Não, vamos parar [e] discutir”. Aí acho que o ensino não formal, a educação não formal tem essa liberdade de um currículo que... Tem pessoas que nem acham que tem currículo, né? Eu acredito que existe um currículo, mas é muito mais flexível, é aberto, é dinâmico e tem milhares de olhares diferentes. É muito apaixonante lidar, né? E sem monotonia, porque é isso: uma hora que você está ali no Museu do Motor Elétrico, outro dia você está fazendo parques na Mata Atlântica e outro dia... Enfim, então é super apaixonante. E é uma pena que as empresas ou que essa área da Cultura, a gente que está nessa interface da Educação com a Cultura, seja sempre a primeira que sofre, né? A gente já tinha essa perspectiva quando teve ali a questão da Dilma, o golpe, a gente falou: “Bom, vai ter um problema, né?”. Assim, tinha nitidamente uma questão econômica problemática, aí um governo que veio totalmente sem legitimidade e esse que, enfim, nem se fala. E aí, nesse percurso, a gente teve uma conversa e acho que sempre teve isso de em qualquer momento que a gente precise, porque é isso: precisa fechar a conta no final do mês; se aparecer uma outra coisa que precise ser feita, que você precise dar aula, que precise... Não sei, uma outra coisa que você precise fazer e que não seja o trabalho da empresa exatamente, que, enfim, tem que abraçar a causa, porque é isso. Então, acho que é um milagre a Percebe ter sobrevivido. Um milagre não, acho que foi isso, assim, o fato da gente conseguir levar outras coisas em paralelo. Eu tenho, já há uns cinco anos, foi 2015... É, há uns cinco, seis anos, eu tenho feito, produzido material didático para o ensino Formal, então é feito autoria mesmo de livros aí, para o ensino formal. Então, eu nunca ‘perdi o pé’ com o ensino formal. Não estou mais em sala de aula, mas acabei fazendo coisas muito legais, de produção de material didático inovador, com uma liberdade de propor os conteúdos do jeito que eu queria, com outros autores também, que teve um diálogo legal. E tentando sobreviver nesse mundo dos projetos da educação não formal, que é isso, é muito desafiador. Ao mesmo tempo que é apaixonante e que a gente queria poder continuar para sempre, é difícil. Acho que teve um momento ali, em 2016, que a gente teve uma perspectiva, porque é isso, a gente já vem fazendo, desde que começou esse problema, né, ali, aquela coisa que o governo Dilma já começou deslegitimado, por conta de toda a história aí, já começamos a nos preparar e abrir o olho, assim: “Vai ter uma piora no nosso campo”. E também percebendo o movimento do avanço da tecnologia no mundo dos museus, a gente começou a pensar que nicho mais que a gente poderia ocupar e que fizesse sentido com o que a gente já trabalhava, que eram os processos de educação e comunicação com o público. E a gente acabou propondo esse projeto de tecnologia que a gente tem até hoje, que é o desenvolvimento de um de um "software", que começou como um "software" de agendamento. Hoje em dia, ele foi além. E, no fundo, esse projeto foi decisivo para a gente entrar nessa seara da transformação digital dos museus. Porque, junto com ele, uma das nossas sócias começou a trabalhar, nesse negócio que eu falei, né: sempre a gente acaba arrumando uma outra coisa, eu ali com o material didático e ela foi trabalhar com o laboratório de inteligência de redes da Universidade de Brasília (UnB). E aí ela estava mais em contato ainda, o projeto, esse do desenvolvimento do "software", era da Percebe, a gente estava fazendo e ela começou, em paralelo, a trabalhar nesse laboratório. E aí acho que, de fato, isso virou um campo de atuação da Percebe, que hoje em dia fica muito mais na responsabilidade dela uma parte mais prática de trabalhos, que não são esse projeto. Eu sou a coordenadora desse projeto hoje em dia, já foi a Luciana, essa sócia que está na UnB. E, hoje em dia, esse projeto teve uma relevância importante do ponto de vista financeiro, de ser um projeto financiado, não ser a gente a ter que colocar dinheiro para fazer isso. Acho que teve uma importância em colocar a Percebe como uma empresa que trabalha com esse tipo de coisa, de soluções tecnológicas digitais, para os museus. E numa discussão que é uma discussão teórica também, né? Que o fato de ter um vínculo com o laboratório na universidade, acabou trazendo uma discussão que a gente nunca quis deixar, que é essa relação da teoria com a prática, né? Mesmo esse projeto que eu sou coordenadora, nasceu como um projeto de pesquisa. É financiado pela Fapesp, então é um projeto de pesquisa e desenvolvimento, com um caráter de inovação. Então, acho que é um desafio muito legal, é uma área que eu acho que os museus... Bom, vocês são um museu que é totalmente virtual, né? Então, não preciso nem dizer o quanto que o virtual é importante. (risos) Mas para os museus que não eram, que isso ainda não era tão importante, a pandemia trouxe, né, um choque de realidade. E, para a gente, a gente está desde 2016 com esse projeto, teve uma interrupção e voltamos para a segunda fase. A gente pegou bem essa fase da pandemia, com o desenvolvimento do "software", o que até foi legal para a gente ir avançando para outros caminhos com ele. E pensando o quanto essa discussão do mundo digital para os museus é importante na perspectiva, na nossa perspectiva de atuação, para melhorar o relacionamento e ampliar o acesso das pessoas, do público, ao acervo, aos espaços, a uma diversidade de âmbitos aí que possam, que têm esse espaço da relação da comunicação com o público. Então, é isso, gente: a gente está sobrevivendo a esse mundo. (risos) Felizes, porque é muito legal, nós somos completamente privilegiadas que, no final, a gente acaba conseguindo, né, daqui e dali, se segurar e manter a empresa, que é o que a gente acha que faz o olho brilhar, viva.

P1 – Então, a gente vai para as perguntas finais e um pouco mais pessoais. Para você, como é a experiência de ser mãe, no meio de todas essas atividades? 

R – Olha, vou te falar que, às vezes, eu nem sei. (risos) Eu acho que é isso, é bem desafiador também, porque acho que o tempo... É muito louco isso, que é o tempo mais produtivo da nossa vida, produtivo do ponto de vista do trabalho, da formação e é também o momento que é possível ter filho, biologicamente, né? Chega uma hora que, assim, a não ser que você adote. E, mesmo adotando, é um ritmo, gente, é complexo, são noites sem dormir, são problemas emocionais que permeiam isso tudo. Então, às vezes, eu acho que, assim, eu tenho a impressão de que eu nem lembro quando foi o que, o que aconteceu, como é que isso tudo se misturou, como é que eu dei conta disso tudo. É uma loucura! Mas o que eu posso te dizer é que tem um impacto enorme, um acho que nas escolhas, uma coisa influenciando a outra, né? Sei lá, eu tive filho muito nova - a primeira, né -, não tinha nem a empresa, eu não estava nem no mestrado. Eu estava na Escola da Vila, foi em 2003. Enfim, faz bastante tempo já, eu era muito nova. E ela, obviamente, teve ali um papel que foi muito mais uma curtição, eu consegui muito mais olhar... Ai, sei lá, um pouco quase brincar de boneca, tinha muita assistência [dos] meus pais, os avós, os outros avós dela, minha irmã. Estava todo mundo muito ali, imbuído daquilo, teve uma coisa mais perto. Ao mesmo tempo, teve uma questão desse desafio assim: “Opa, acabou a brincadeira, né? Estamos no mundo adulto, então e aí, e agora? Agora tem que ter um emprego sério, tem que ter, acabou, a casa tem que ser séria, tipo: não dá mais para comer na frente da televisão o que tiver na geladeira, né? Tem um cuidado aqui, que vai demandar uma assistência”. E, ao mesmo tempo, tem um crescimento de olhar o mundo por uma outra ótica, acho que de deixar o mundo melhor. Pode parecer meio bobo isso, mas tem uma coisa, uma lógica, sim, de você olhar e falar: “Opa, o que eu tô fazendo aqui, né? Que ser humano que eu quero para esse mundo e que mundo que eu quero para ser humano que está aqui?”. Então, acho que muda muito a nossa relação. A minha relação com a minha mãe mudou muito. Não digo [que] mudou muito, mas eu entendi muito mais o lado dela, sendo mãe. E a minha relação com o trabalho, como eu disse. Mas acho que o mais desafiador na minha vida foi ter o segundo, porque já era outro casamento que, nesse ínterim de tudo isso que eu contei que aconteceu, de escola, com empresa, com mestrado, com doutorado, não sei que, eu me separei, casei de novo, tive outro filho. E aí, o segundo veio no momento que era isso: eu estava na escola, estava com a empresa e eu tive uma super depressão pós-parto, assim, de ficar ‘malzaça’, com uma filha mais velha demandando um monte, que eu não conseguia, não tinha para dar. Eu tinha um bebezinho pequenininho, que eu precisava minimamente amamentar, já não tinha para dar para ele [e] não conseguia minimamente dar para ela. Então, foi um momento muito difícil, que eu tive muito apoio, claro, da escola eu estava em licença, né? E ainda bem que existe lei trabalhista ainda. Mas da empresa eu tive muito suporte das minhas sócias de falar: “Meu, desencana, agora você não precisa participar de nada, fica aí. Quando você conseguir voltar, você volta”. Então, teve isso assim, que é muito positivo de trabalhar com outras mulheres, que têm uma sororidade, uma ideia do que você está passando. E apoio do meu marido, da minha família, acho que foi essencial. Mas foi longo, foi duro e, às vezes, eu tenho a sensação de que eu não lembro o que aconteceu nesse ano, com essas crianças, esse ano que eu fiquei mal e tendo que lidar com essas outras coisas, né? Você precisa uma hora voltar a trabalhar, precisava… Aliás, isso era parte, eu entendi depois que isso era parte do processo de cura. Essa coisa de ficar presa dentro de casa, cuidando da casa e das crianças, não é ‘minha praia’. E acho que, enfim, tinha um processo de cura no trabalho. Mas, assim, às vezes eu acho que eu não lembro, sei lá o que essas crianças comeram nessa época, sei lá o que elas comeram. O pequeno tomava leite, ok. Mas e a maior, o que ela comeu, gente, o que aconteceu? Que horas que ela foi dormir? Ela estava em que ano da escola, o que aconteceu? Então, às vezes eu tenho impressão... E acho que eu estava dando conta ali, minimamente, né? Eu fui na festa do Dia das Mães, recebi o cartão, tirei foto, mas, assim, minha cabeça estava a milhão. Acho que é isso: é um desafio. O mundo ainda é muito machista, né? Você é muito cobrada pelas atitudes. Então, a mãe ainda é a chave da coisa. Hoje em dia, no meu relacionamento não, né, acho até que ao contrário, entendeu? Meu marido dá muito mais conta das coisas dele e da minha filha, que não é filha dele, mas ele também dá conta de um monte de coisa dela. Mas a sociedade cobra muito isso, né, assim, “qual o seu papel”: “Por que você está trabalhando tanto?”. Os meus filhos falam: “Você está trabalhando demais. Você não tinha que trabalhar um pouco menos, não?”. Então, assim, ninguém chega para o homem e fala isso: “Você não está trabalhando demais? Acho que você está trabalhando demais, né?”. Quer dizer: sem ser a gente mesmo, né, as mulheres e tal. Então, acho que ter filho sendo produtivo no trabalho e tendo o mínimo de responsabilidade ali, também de cuidar e zelar pelas relações familiares, é muito desafiador.

P1 - E quais são as coisas mais importantes para você, hoje em dia, Maria Paula?

R – Olha, hoje em dia, né, (risos) com esse contexto maluco, pandêmico, eu fico só pensando assim que, gente, a gente precisa fazer essa galerinha mais jovem olhar para esse mundo de uma forma diferente. Está tudo muito errado, né? Esse contexto pandêmico e o contexto brasileiro. Porque o pandêmico, dentro da nossa realidade... Eu, sei lá, fico olhando para a realidade do Brasil e falo: “Gente, que futuro que essas... O que eles vão querer fazer, né, porque…”. Então eu vejo os educadores que a gente costuma trabalhar a formação, muito desmotivados. Minha filha, que vai fazer dezoito anos agora, desmotivada, assim meio... Sabe, essa coisa arrastada, o que será que vai ser? Um país em que as pessoas estão completamente perdidas. Não sei, eu sou um pouco pessimista - apesar de ir para frente sempre: “Vamos, vai dar, não sei o quê” - de forma geral, com o Brasil e com o ser humano. Acho que a gente está caminhando para meio [que] um beco sem saída. Vai chegar uma hora que vai explodir climaticamente, a gente vai ter problemas sérios com a alimentação. E estamos tendo um problema seríssimo no Brasil, com a política e as escolhas. Então, eu sempre fico pensando o que a gente pode fazer com essas pessoas que estão na ponta, né? Que é o aluno, que é o visitante do museu, que são meus filhos, que é a minha sobrinha, ou que são pessoas próximas. O que a gente vai ter que fazer, né? Não só a minha atuação, porque eu acho que sei o que fazer, minimamente. (risos) Aos quarenta e tantos, eu sei o que fazer, mas eu fico pensando sempre nisso: qual o meu papel com essas pessoas que estão aqui crescendo, que estão prestes a fazer escolhas que podem ser muito complicadas, que podem ir por um caminho que não tem mais volta. Acho que essa é a minha principal - apesar de pessimista - motivação é: “Vamos tentar alguma coisa, quem sabe eles consigam viver um futuro mais otimista”.

P1 - E quais os seus sonhos para o futuro, Maria Paula?

R – Ah, eu acho que queria, talvez, sair de São Paulo. Não sei, eu acho que queria uma casinha no campo, né? Apesar de clichê. (risos) Várias pessoas querem isso: uma casinha no campo. Acho que eu gostaria muito de ter uma situação propícia, para continuar fazendo o que eu gosto. Acho que trabalhar nesse meio é muito gostoso. Queria muito que esse país valorizasse isso, que a gente tivesse condições para continuar esses projetos, essa relação entre a cultura, a educação, fazer com que as pessoas... E é isso, né? Eu sempre fico pensando: é um caminho de fazer com que... A cultura é um lugar também das pessoas começarem a olhar criticamente para tudo isso que está aqui e a gente parece que volta atrás, vai para frente, volta atrás. Então, eu gostaria muito de poder continuar atuando, queria que fosse para frente esse projeto que a gente faz, com a empresa. Acho que, talvez, ter um pouquinho mais de tempo para curtir e um pouco menos de angústia. Acho que todos nós que vivemos a área da cultura e da educação estamos passando por um período, acho que ali, principalmente desde a eleição, a gente está vivendo um momento muito angustiante. E acho que mobilizando muita energia - acho que é até um projeto mesmo dessas pessoas que estão aí no poder - com umas coisas que não deviam mais mobilizar tanto, né? A gente tinha que usar essa energia para dar um passo adiante e a gente está só tentando apagar incêndio. Então, acho que eu queria viver com menos angústia, ter um tempo mais de paz e, sei lá, acho que de progresso mesmo, né? Um progresso, enfim, não aquele dos militares. (risos)

P1 – Então, vamos para a última pergunta: o que você achou de contar a história da sua vida para a gente hoje?

R – Nossa, sei lá, tô até tonta, de tanto que eu falei. (risos) Achei super legal! É engraçado fazer isso com pessoas que, enfim, eu não conheço, né? Assim, a gente não tinha um contato prévio. Acho que, por vídeo, ainda é mais louco, né? Mas, ao mesmo tempo, acho super legal essa ideia de chamar pessoas diferentes, de contar trajetórias que são tão interessantes, né, e que fazem, podem fazer a gente pensar em tanta coisa diferente, olhar nessa diversidade e aprender. E mexe um pouco, acho que até lembrar disso, né? Para mim, lembrar de tudo isso, assim, num espaço de tempo tão pequeno, me fez querer contar outras coisas, que eu acabei lembrando depois e, enfim, muito legal esse trabalho, muito bacana mesmo.

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