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História

O poder da educação

História de: Shirley Araújo Cabral
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/02/2009

Sinopse

Em seu depoimento, Shirley Araújo Cabral recorda memórias marcantes de sua vida, relembrando as brincadeiras de rua quando criança e na juventude conta sobre sua vida de agitadora e líder na Escola Normal. Fala sobre como sua liberdade veio com o casamento, se soltando das amarras do pai autoritário. Também relata seus projetos e desafios na área da educação, onde atuava dando aula de informática e cuidando da sala de recursos da escola Roberto Weguelin, auxiliando crianças com dificuldade de aprendizado a utilizar o computador.

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História completa

P/1 – Bom dia, Shirley! Qual é o seu nome completo, local e data de nascimento?

 

R – Bom, o meu nome é Shirley Araújo Cabral, nasci aqui no Rio de Janeiro mesmo, no dia 12 de dezembro de 1968.

 

P/1 – Qual é o nome dos seus pais, e o que eles fazem ou faziam?

 

R – Bom, o meu pai se chamava Sebastião Faustino Cabral. Ele, na verdade, consertava relógios. E minha mãe sempre foi do lar, o nome dela é Celi Araújo.

 

P/1 – E qual a origem da sua família, você sabe? Seus avós?

 

R – Bom, eu tenho muito pouca coisa sobre a minha família, muito pouca. Eu sei que o meu pai veio da Paraíba, largou a família toda lá para tentar a vida aqui no Rio de Janeiro. Aí, conheceu a minha mãe. A família é bastante pequena, não é? Eu não conheço quase ninguém da minha família, essa que é a verdade. Inclusive, quando eu estive em João Pessoa fiquei querendo caçar um primo, uma prima, um tio, mas não consegui contato nenhum. Ainda tenho esperança de conseguir. (riso)

 

P/1 – Você tem irmãos?

 

R – Tenho. Eu tenho um irmão, que é o Paulo, tem uns 37 anos; e tenho uma irmã de 31 anos, que é a Alessandra.

 

P/1 – Como é que era na sua infância? Vocês brincavam juntos, era dentro de casa, era na rua, como é que era, você se lembra?

 

R – Bom, eu tenho uma infância assim que foi marcada, muito marcada pelo meu pai, que, na verdade, era o meu herói e o meu bandido ao mesmo tempo, não é? Não sei nem como descrever isso. Então, nós brincávamos muito. Mas, quando o meu pai estava fora de casa. Aí, a gente fugia, ia para a rua, corria, brincava; inclusive a minha mãe. A minha mãe brincava de pique bandeira, ia para a rua, organizava tudo. Daqui a pouco alguém olhava assim, bem longe, e falava: “Hey, papai está chegando!”. Tum, perna pra que te quero, todo mundo corria para dentro de casa, sentava direitinho, quietinho, esperando papai como se nada tivesse acontecido. E sempre foi assim, sempre foi, até a minha adolescência, sempre foi assim.

 

P/1 – Qual era a brincadeira de que você mais gostava?

 

R – Ah, a gente brincava de... Na época, a gente gostava muito de brincar de uma coisa chamado queimado, não é? Queimado e pique bandeira. Que a gente juntava a rua inteira, era um time contra o outro, minha mãe ajudava a organizar. Então ficava aquela festa na rua, não é? Então, sempre brincadeiras que envolvessem muitas pessoas. Porque nós éramos assim... ficávamos muito presos dentro de casa, sempre só nós três. E aí, toda vez que tinha alguma atividade que envolvesse muita gente, eram essas as nossas brincadeiras preferidas.

 

P/1 – Então, no seu cotidiano, a sua mãe brincava com vocês.

 

R – Brincava! (riso)

 

P/1 – E o resto do dia como era? Ela cozinhava ou alguém cozinhava? Como era?

 

R – É, isso! A minha mãe sempre foi do lar, não é? Era uma pessoa assim bem submissa ao meu pai e tal, e sempre cuidou da casa. Era a sua casa, os filhos. Não costumava ir a mercado fazer compras. Essa tarefa era sempre do meu pai, ele que ia à rua fazer as compras e tal. E ela ficava sempre em casa, sempre muito próxima da gente, o tempo todo, o tempo todo!

 

P/1 – E o seu pai, trabalhava com o quê? Você se lembra?

 

R – É, o meu pai consertava relógios. Aí, inclusive, quando chegou a época desses relógios com bateria, essas coisas, ele ficou... Ele não conseguiu se atualizar e ficou para trás, já não sabia mais lidar com isso. A relojoaria dele foi à falência, e aí ele viveu de aposentadoria mesmo.

 

P/1 – E quando é que você começou a ir para a escola? Você tinha amigas com as quais ia junto? Como foi?

 

R – É, a minha história... O meu início na escola foi bem complicado. Eu fui para a escola quando tinha de dez para onze anos, porque quando o meu pai... No caso, ele veio para o Rio, não é? Nós morávamos no centro do Rio e aí, de repente, ele resolveu que nós tínhamos que vir mais para o interior, para a casa de amigos, de conhecidos, até por questões financeiras mesmo. Aí nós viemos. E meu pai: “Não, eu não sei se vou voltar para o centro, se a gente vai ficar aqui”. E isso foi adiando a questão da escola na nossa vida - na minha e na do meu irmão. E aí, quando a gente entrou na escola, já estávamos com dez para onze anos. E a minha mãe é que ensinava a gente em casa; então eu já sabia ler, sabia fazer bastante coisa, meu irmão também. E aí nós fomos para a escola, chegamos numa escola particular, na época. E quando a gente chegou lá na escola, a professora fez um teste com a gente para saber em que sala nós íamos ficar. Eu e o meu irmão... A gente, às vezes, tinha umas guerrinhas assim, aquelas coisinhas de irmãos que viviam brigando. O meu irmão: “Eu me recuso a fazer esse teste. Eu não vou ficar na mesma sala que você”. Ele disse que não sabia ler – eu me lembro disso – para não ficar na mesma sala que eu. Aí eu fui para uma sala e ele ficou em outra, não é? Mas foi assim meio... Foi maravilhoso!

 

P/1 – E descobriram depois que ele sabia ler?

 

R – Descobriram! Foi rápido! (riso). Descobriram rápido. (riso)

 

 

P/1 – Como vocês iam para a escola? A pé? Alguém levava vocês?

 

R – No começo, nos primeiros dias, a minha mãe levava a gente. O meu pai, no primeiro dia de aula, fez questão de levar. Mas era próxima, a escola. Então, depois, nós íamos a pé, tranquilo. Pelo meio do caminho exibindo... Eu tinha um orgulho de exibir o meu uniforme, era um uniforme verde. Eu me lembro de que a calça era verde! Aquele verde-bandeira, aquela camisa amarela parecendo a bandeira do Brasil. E saía eu desfilando de bandeira do Brasil. Mas eu adorava aquele uniforme, a gente passava pela rua, todo mundo: “Ih, olha, que uniforme diferente”. E eu adorava exibir aquele uniforme, adorava!

 

P/1 – Voltando um pouquinho, você foi para a escola com uns dez anos, mais ou menos?

 

R – Isso! Isso!

 

P/1 – Voltando um pouquinho, quando vocês brincavam era uma rua ainda de terra? Como é que era essa rua, você se lembra?

 

R – É, terra! Terra! E asfalto, nem pensar! Era muita lama. Em época de chuva a gente não podia brincar. Eu me lembro muito disso.

 

P/1 – E o caminho da escola, ainda era terra?

 

R – Terra, o tempo inteiro, até chegar à escola. Eu me lembro de que a gente passava por umas ruas com muitas árvores, um trecho muito bonito que tinha lá em Imbariê: “Ih, vamos passar pela rua das árvores agora!”. Era uma rua linda. Assim, para mim era linda, podia ter lama, podia ser o que fosse, mas quando eu olhava aquelas árvores assim: “Não, vamos pela rua das árvores”. E a gente seguia esse caminho sempre assim.

 

P/1 – E vocês levavam lanche de casa ou era a merenda da escola, você se lembra?

 

R – É, na época, nós sempre levávamos lanche de casa. Ai, aquelas merendeiras! (riso). Saía com aquelas merendeiras, e o meu irmão, meio invocado, não queria levar aquela merendeira, escondia! (riso). Eu não, fazia questão de exibir a minha merendeira. Que escola para mim era tudo, o meu sonho era entrar na escola! Esse era o meu sonho, entrar na escola, ir para a escola. Eu via os colegas, às vezes, indo, e eu: “Mãe, quando que eu vou para a escola? Quando?”. Então, era o meu sonho! Sair exibindo aquela mochila, a merendeira, aquele uniforme verde-bandeira. Era o máximo para mim.

 

P/1 – Você lembra o que ela preparava para vocês de lanche?

 

R – Olha, eu me lembro! Eu me lembro que, devido a nossa condição financeira, era sempre um pão com manteiga, às vezes. O meu irmão tinha vergonha, inclusive, de merendar na frente dos outros. Às vezes, levava pão com ovo. Aí, um professor ficava falando: “Não, gente, qual é o problema de levar pão com paraquedas?”. Eu não esqueço dessa história. O pão com ovo frito, no caso, era o pão com paraquedas. E suco! Ki-Suco, na época. Eram coisas assim desse tipo.

 

P/1 – E como é que era na escola, vocês brincavam muito na hora do recreio? Vocês tinham muitos amigos? Você gostava de brincar do quê?

 

R – É, lá na escola eu tinha uma questão assim, de liderança. Dentro da escola, não é? A gente: “Do que a gente vai brincar hoje?” Já ficava, um dia antes, organizando qual que ia ser a brincadeira do outro dia. E eu me lembro de que, naquela época, o recreio da escola era um intervalo muito grande. Não é como tem hoje, rapidinho, só merendar e voltar. O recreio era enorme; então, durante aquele recreio, acontecia muita coisa. A gente brincava muito de roda, mas muito! Era a brincadeira mais marcante na época, era brincar de roda. E não tinha esse negócio de menino não brincar, todo mundo brincava de roda, inclusive os meninos. E olha, isso era muito marcante, dificilmente via menino brincando de bola - um ou outro - a maioria brincava de roda. Até o meu irmão brincava de roda!

 

P/1 – Me diz uma coisa: na escola vocês tinham contato com os livros? Na sua casa você começou a aprender a ler?

 

R – Isso!

 

P/1 – E na escola, tinha livros? Vocês tinham esse contato?

 

R – Olha, infelizmente na escola não existia biblioteca, não existia esse acesso a livros. Eu tinha uma cartilha - No Reino da Alegria - e eu lia. A minha mãe, inclusive, me ensinou a ler com essa cartilha No Reino da Alegria. Então, eu lia aquela cartilha. Só tinha aquele livro lá em casa, então, eu gostava de ler. O meu irmão, não! Mas eu gostava de ler. Então, o que eu fazia? Eu lia a mesma cartilha o tempo inteiro; chegava na última página eu voltava para a primeira. Eu decorava, na verdade, as historinhas. Porque tinha o vovô, a viúva, aquela coisa bem tradicional mesmo. Eu decorava, na verdade, a cartilha inteira! Eu só tinha, na época do meu primário, uma cartilha, aquela cartilha. Mais à frente é que começaram a vir os livros, mas isso foi bem depois. Antigamente, na minha época de estudante, no primário não tinha livros, a professora passava aquele dever no quadro mesmo. Eu só fui ter livro no ginásio mesmo.

 

P/1 –  E para a leitura, a contação de histórias, antes, também não tinha muito?

 

R – Não, não! Eu gostava de gibi, eu me lembro disso. Aí, todo domingo, o meu pai me levava na feira, a gente tinha direito de escolher um brinquedo, alguma coisa. E o meu pai lia muito, todo dia o meu pai lia o jornal, sempre leu; ele não tinha assim muita instrução, mas, uma coisa que sempre me marcou foi ver o meu pai lendo. Poxa, mas ele lia tanto aquele negócio que não tinha nem desenho, não tinha muita coisa. E está o meu pai lendo jornal! Eu gostava de ler gibi. Aí, quando o meu pai comprava o jornal, às vezes, eu deixava o brinquedo para pedir um gibi; aí eu lia o gibi - era gibi do Cebolinha, eu não esqueço - a Turma da Mônica - sempre era o gibi da Turma da Mônica. Eu lembrava muito disso. Olha, eu acho que o pessoal da Turma da Mônica é bem antigo. (riso)

 

P/1 – Você tinha um melhor amigo ou uma melhor amiga na escola?

 

R – Tinha, tinha, tinha!

 

P/1 – Você se lembra dela?

 

R – Olha, gente! Olha, engraçado! Eu estou lembrando agora. Eu lembrei do nome agora! Na escola eu era muito próxima a uma amiga, o nome dela era Aparecida. Olha só, gente! Eu sempre tive muitos amigos, mas tinha sempre um mais chegado. Aí, na época do primário, eu lembro que tinha a Aparecida. Já na época do ginásio, éramos um grupo, que era a época dos Menudos; aí, nós tínhamos um grupo dos Menudos. Então, já aumentou um pouquinho o círculo, não é?

 

P/1 – E vocês gostavam de músicas, vocês cantavam e brincavam de cantar?

 

R – Nossa! Eu lembro de que, no ginásio, todo mundo esperava a hora do recreio, ia para a cantina, ia para o... Nós íamos para o banheiro. O nosso banheiro, da escola onde eu fiz o ginásio, era enorme; e lá dentro do banheiro nós ensaiávamos as coreografias do grupo Menudo (riso). Aí, eu era o Charles, do grupo Menudo, e minhas colegas... Olha, nós ensaiávamos, levávamos muito a sério aquilo! Aquilo, para a gente, era o máximo. E vinha... Inclusive vinham outras garotas só para assistir, querendo entrar no nosso grupo: “Não, no nosso grupo não tem mais vaga! Vocês têm que fazer outros”. E tinha competição de grupo. Nós fazíamos tudo isso dentro do banheiro!

 

P/1 – Nunca apresentaram para os outros, fora do banheiro?

 

R – Não, do lado de fora não! Só dentro: “Quem quiser ver, olha, é no banheiro. Oh, hoje vai ter ensaio”. Sempre no banheiro. Olha só!

 

P/1 – E me diz uma coisa: você teve algum professor marcante nessa escola?

 

R – Ai, gente, eu tenho! Tem sim! Porque quando... Eu não sei se foi muita empolgação de eu querer entrar na escola, não é? Quando eu entrei na escola, que eu vi a minha primeira professora - que, Inclusive, eu encontrei com ela agora, há pouquíssimo tempo, no desfile cívico - quando eu parei, olhei assim para ela... Tia Conceição, a chamava de Conceição. Gente, quando eu olhei para aquela professora, o carinho que ela tinha, um carinho! É uma coisa assim inexplicável o carinho que ela tinha com a gente. Quando eu virei, que eu tive a minha primeira aula com ela, eu saí aquele dia falando: “Mãe, já sei o que eu quero ser quando crescer”. Minha mãe: “O quê, minha filha?”. “Quero ser professora”. Mas por causa dela. Aí eu encontrei com ela, e falei assim: “Você sabe muito bem porque eu sou professora!”. É que, depois de adulta, eu estive com ela outras vezes, não é? Aí ela: “Mentira que era por minha causa!”. “Era por sua causa”. Ainda vou falar isso em algum momento, em algum momento! Que ela é viva até hoje, não é? Eu encontrei com ela há pouquíssimo tempo. Mas foi por causa desse carinho, dessa atenção que ela tinha com a gente, comigo. Eu me identifiquei muito com ela. Aí, minha mãe: “É muito cedo para você dizer o que você quer ser. É muito cedo! Você só tem onze anos, como é que você já sabe o que vai ser?”. E eu: “Eu vou ser professora”. E eu coloquei aquilo na minha cabeça e fui... Para mim não tinha outra coisa, era isso que eu queria ser. E fui!

 

P/1 – E nessa época, além de vocês gostarem dos Menudos, dançarem e cantarem, o que mais vocês faziam? Vocês saíam, passeavam? Como era nessa época? Como vocês se vestiam?

 

R – É verdade. Eu me lembro que a gente saía. O meu pai tinha um carro antes, um Aero Willys vermelho, eu lembro, só lembro desse carro, desse Aero Willys vermelho; e, às vezes, à tarde, o meu pai levava a gente para tomar um sorvete. Esse sorvete era no Raiz da Serra; era um bairro próximo de onde eu moro. Para mim, o único sorvete gostoso era o de Raiz da Serra, era um sorvete de casquinha. Então, quando o meu pai levava a gente para ir tomar aquele sorvete... Para mim aquilo ali era o máximo! Nós não saíamos muito. Aí, quer dizer, íamos visitar um amigo ou outro dele, e sempre por perto; lá, praticamente, eu cresci, não é? E moro próximo desse bairro, o tempo todo. Então, quer dizer, a gente saía... Eu só lembro disso mesmo, dessa parte do sorvete, de voltar. A gente saía pouco, não é? E as roupas, sempre foram roupas simples, pela questão financeira, e tal. E depois, quando a gente foi crescendo, a parte da adolescência... Eu me lembro de que a minha vizinha trabalhava numa casa de família e trazia muitas roupas. Era com essas roupas que ela trazia, que a gente se vestia. Nos vestíamos eu, o meu irmão e a minha mãe. Eram as roupas que ela trazia que nós usávamos, sempre tinha uma roupa que cabia na gente, um calçado, alguma coisa, porque sair para comprar uma roupa era muito difícil para a gente. Então, a gente usava essas roupas que as pessoas davam. E sempre tinha alguma coisa que caía muito bem na gente (riso).

 

P/1 – Quais as escolas em que você estudou? Você fez o ginásio na mesma escola que o primário?

 

R – Não.

 

P/1 – Foi em outra?

 

R – É, foi em outra. Porque a minha escola do primário, inclusive, depois ela entrou em falência. Só tinha mesmo aquele ensino primário; aí, o ginásio... Na época, escola pública era muito difícil você conseguir vaga, não é esse acesso que hoje em dia torna mais fácil entrar na escola; era muito difícil. Aí, eu fiz o primário numa escola, o ginásio numa escola particular - as duas foram escolas particulares. Só que nessa época do ginásio, a questão financeira estava muito difícil; então, era bilhetinho direto, que estava devendo a escola... Aquela questão do constrangimento que eu passava, direto! E aí eu me lembro de que quando estava assim, para a sétima, oitava série, eu comecei a dar aula na própria escola, como reforço - o diretor me chamava para dar aula de reforço. E aí foi quando eu comecei a ganhar um dinheirinho. Resolvi dar aula em casa também, de reforço. E tudo partindo daí, da questão da escola, não é? E eu me lembro de que para fazer o curso Normal eu tive que fazer uma prova para ver se eu ia conseguir uma vaga nessa escola. E aquilo ali, no meu bairro, era uma escola nova, que iniciou; estudar naquela escola era uma questão de... E sendo uma escola pública, mas era uma questão assim de elite, não era qualquer um que ia conseguir estudar ali, não era! Então, você tinha que fazer uma prova para concorrer a uma vaga com muitas crianças, muitos adolescentes, para conseguir estudar naquela escola. Aí, eu me lembro... Eu me lembro até hoje, eu fiquei em décimo terceiro lugar, a minha colocação. Porque eu queria tanto ser professora, e eu ficava pensando: “Se eu não estudar nessa escola, como é que eu vou estudar?”. Eu não tinha outra opção: ou eu estudava naquela escola ou não ia ser. Ia ter que ficar aguardando entrar outro ano, outro ano, até fazer uma prova e conseguir entrar, porque escola para fazer um curso Normal, na época, não tinha tanta facilidade. Essa, por exemplo, era a única da localidade.

 

P/1 – Aí você passou?

 

R – Aí eu passei.

 

P/1 – Qual foi o seu sentimento quando você entrou nessa escola que você queria tanto?

 

R – Pois é, não é? Aí tinha uma lista enorme que eles ficavam pendurando lá nos corredores. Eu estou: “Gente, está na hora de ver se o meu nome está lá, não é?”. E o meu pai... É como eu falo, não é? O meu pai marca muito a minha vida, ele ficava: “Não, que a minha filha vai passar!”. Eu com aquele medo: “Se eu não passar, ele vai acabar comigo! Vai me detonar na frente de todo mundo!”. “Não, minha filha, eu vou com você ver lá”. Aí, fui eu, foi o meu pai, se não me engano foi a minha mãe... fomos lá ver. E eu morrendo de medo, eu não queria nem olhar o meu nome no papel, com medo do meu nome não estar lá. E aquilo era o meu futuro, eu dependia daquilo, na verdade. Aí, quando vai lá, olhando, procurando lá, o meu pai procurou de cima para baixo; aí ele olhou logo lá: “Essa é a minha filha!”. E fez um discurso lá, na frente de todo mundo: “Essa aqui é a minha filha! E passou!”. Gente, olha, foi uma emoção muito grande para mim, muito grande! Porque ali, é como se tivesse traçando o meu futuro. Ali, naquela escola. E foi o que aconteceu: eu me formei naquela escola, trabalhei naquela escola depois como professora, durante muitos anos, e, até hoje essa escola tem uma passagem muito importante na minha vida.

 

P/1 – Se você não fizesse o Normal - você disse que era o que você queria - mas tinha alguma outra opção, se você não passasse no Normal? Você não queria, de jeito nenhum, outra coisa?

 

R –  Esse é que é o problema. Eu não admitia outra coisa na minha vida, a não ser… Eu queria ser professora. Não admitia! Eu gostava muito de Biologia, mas sempre querendo dar aula; eu não conseguia imaginar outra coisa. Por isso que eu fiquei assim meio desnorteada: “Meu Deus, se eu não passar nessa prova? Se eu não for professora, eu vou ser o quê? Eu não gosto de mais nada, eu quero ser professora!”. Mas eu, também, tinha uma determinação muito grande, eu já ficava pensando: “Bom, se eu não passar, eu vou estudar e, no outro ano, eu vou passar. Eu vou dando aula em casa”. E já ficava traçando os meus objetivos o tempo inteiro. Não tem jeito, é só professora!

 

P/1 – E nessa Escola Normal, você gostava mais do quê? O que mais te encantava?

 

R – Olha, nessa Escola Normal... Ela marcou muito, muito, a minha vida! Porque foi a fase da adolescência, aquela coisa que a pessoa é rebelde. Então, foi essa época! Eu virei a líder de turma, eu organizava formatura, organizava as festas, e fui descobrindo outros lados meus, não é? Montamos grupos de teatro. Olha, saímos por aí com o Pluft, o Fantasminha apresentando em tudo quanto é escola - outros professores da escola ajudavam também. E marcou demais! Organizávamos festas enormes, festas grandes. Eu ainda era aluna; aí, no caso, era eu e o meu marido. Porque eu já o conhecia desde essa época, e a gente começou a liderar, fazer uma revolução dentro da escola, foi o momento mais importante, mais marcante da minha vida. Eu lembro que eu era muito... Eu comecei a ficar rebelde, foi a época em que eu comecei a questionar um monte de coisas dentro de casa. Eu já não aceitava mais um não! A minha mãe falava: “Você não pode ir”. O que eu fazia? Saía escondido. E, antigamente, jamais passava isso pela minha cabeça. Eu fiz um curso de modelo e manequim escondida do meu pai! Aí, a minha mãe já me acoitava: “Não, as aulas são no dia tal e no dia tal, então você vai e eu vou dizer que você está fazendo um trabalho na casa da colega”. E foi assim. E com isso eu fiz um monte de coisas. Eu me lembro de que um dia eu estava apresentando uma festa na escola, e aí a minha casa era próxima - nessa época, a minha casa era próxima da escola. E um amigo do meu pai falou: “Acho que a sua filha está apresentando uma festa lá na escola”. “Não, minha filha... A minha filha não! A minha filha não é dessas coisas não!”. (riso) Ou seja, era aquela coisa escondida, não é? “Não, mas eu acho que era a sua filha que estava lá apresentando”. “Não, a minha filha não! A minha filha está na casa da colega, a minha filha está não sei...”. E eu estava lá na escola agitando todo o evento. Mas foi assim.

 

P/1 – E você fez alguns trabalhos de modelo?

 

R – Fiz, fiz muita coisa de modelo. Tudo escondido!

 

P/1 – Seu pai nunca soube?

 

R – Não, meu pai nunca soube! O meu pai dizia que essas coisas não prestavam, que pessoa direita não aprendia música. Eu comprei... Ah, a história do meu violão (riso). Meu primeiro salário, eu comprei um violão. Eu adorava música, aí comprava uma flautinha escondida e ficava lá. O meu pai saía e eu ficava ensaiando com a flauta. Mas nunca tive aula de música e nada. Eu falava: “Puxa, eu queria tanto um violão”. O meu primeiro salário... Eu me lembro de que, na época, pagavam tudo de uma vez, eu cheia de dinheiro: “Não, eu tenho que comprar um violão”. Saí para comprar um violão! Comprei um violão, vim com ele dentro do ônibus. E para esconder? Porque o bicho era enorme! Escondi atrás do guarda-roupa, o violão. E aí, comecei. Nessa escola em que eu estudava, que eu já tinha me formado, tinha aula de violão aos sábados. Aí, pegava o violão e ia lá para a aula, assistia. Eu nunca aprendi a tocar violão, eu nunca aprendi! Eu amo música, mas eu nunca aprendi a tocar violão. Mas eu tenho esse violão até hoje.

 

P/1 – Você ainda mexe no violão, brinca um pouquinho?

 

R – Nada, é só brincando, é só brincando! Eu não entendo nada de música! Mas está lá, até hoje esse violão está lá em casa. Eu não me desfaço dele, de jeito nenhum!

 

P/1 – Você ainda tem vontade de aprender?

 

R – Ah, eu tenho! Eu tenho! Eu falei assim... Eu sempre falo assim: “Não, eu vou arrumar um lugarzinho para poder estudar violão. Não, eu ainda vou aprender a tocar violão”. Aí eu fico com isso na cabeça, ainda.

 

P/1 – E nessa adolescência tão cheia de atividades, como é que você conheceu o seu marido, como foi a paquera?

 

R – É, no caso, eu estudava... Nós estudávamos juntos, fizemos o Normal juntos, a verdade é essa. Ele era de uma turma e eu era de outra. O meu marido sempre foi líder também, então, às vezes, a gente batia de frente. Ele liderava uma turma e eu liderava outra. E teve uma época em que as duas turmas se juntaram; aí, nisso que as turmas se juntaram, nós nos tornamos mais próximos. Nós dois liderávamos, na verdade. Então, as festas, os eventos... Porque a gente gostava por causa dos desfiles, a gente ficava organizando garota isso, garota não sei o quê, inventando os desfiles. E a gente não desfilava, a gente só fazia as coreografias, não é? Inclusive montamos um grupo de coreografias para eventos, a gente vivia apresentando, e aí começou essa questão da liderança dele e da minha. Aí foi isso, esse namorico de escola, e foi embora até hoje (riso) .

 

P/1 – E o seu pai sabia do namoro? Ele aceitava?

 

R – Ah, não! Não, o meu pai era muito difícil. Eu namorei cinco anos no portão de casa, debaixo de sol e chuva. Que ele não deixava o meu namorado entrar em casa; porque, antes disso, eu tive uma paquera e acho que o rapaz gostava muito de mim, porque para encarar o meu pai... “Não, eu vou falar com o seu pai”. Aí ele foi, não é? Foi falar com o meu pai. Aí meu pai: “Não, é, já está na hora dela namorar em casa”. Mas namorar no portão; dentro de casa, segundo ele, os únicos homens que entravam dentro de casa eram ele e o meu irmão. Então, era só no portão. E aí namoramos um tempo, depois eu vi que não tinha nada a ver, que ele era cheio de preconceitos, não sei o quê, racista, era isso e aquilo: “Não dá para mim”. E ai, quando eu terminei com ele, tinha outros namoricos por fora, sem meu pai saber, é claro. Porque meu pai falava que só podia, depois dele, namorar alguém e apresentar para ele quando faltasse uma semana para a gente se casar. E se eu falar para vocês que foi isso que aconteceu com o Marcelo... Foi o que aconteceu! Nós namorávamos na escola, então tínhamos muito contato e não precisava tanto do Marcelo ir lá em casa. Ele sabia, através da minha mãe, que eu estava namorando alguém, e minha mãe catucando: “Olha, esse namoro está ficando sério, é melhor você conhecer o rapaz”. “Que nada! Isso é brincadeirinha. Não vai casar, quando ela for casar ela me fala”. E aí nós começamos a organizar tudo para o casamento (riso). Aí, eu já estava trabalhando, eu sustentava a casa nessa época. Então, quando eu passei a sustentar a casa, a minha figura dentro de casa mudou. Eu passei a ser mais respeitada, já podia sair, já podia fazer um monte de coisas. Porque, na verdade, o meu pai se preocupava muito com essa questão de quem estava colocando o alimento dentro de casa. E quando eu comecei a trabalhar, que foi uma coisa assim muito... A outra coisa mais marcante na minha vida, não é? Que eu passei... Desde o primeiro ano do Normal, orientada por uma vizinha - eu me lembro, o nome dela é Maria Helena - ela falava: “Shirley, você tem que passar num concurso, porque conseguir escola pública para dar aula é muito difícil”. “Tudo bem”. Eu estudava! Eu não saía muito, eu pegava e ficava a tarde toda estudando! A minha mãe me ajudava. Outros adolescentes saíam, iam para cinema. Como o meu pai, na época, não me deixava sair, eu estudava! Mas eu estudava muito, eu fiquei, tipo, em vigésimo lugar no concurso que eu fiz para a prefeitura. E aí, em agosto de 1990, eu passei para o estado e para a prefeitura de Duque de Caxias ao mesmo tempo, as duas coisas assim. Tanto que, a partir dali, a minha vida mudou, mudou! Eu virei a figura principal dentro de casa, eu que sustentava a casa. Meu pai já estava só vivendo da aposentadoria, porque a relojoaria já tinha entrado em falência. E daí, pronto! A minha vida mudou completamente. Eu já podia pagar. Eu que pagava o aluguel da casa. Então, a minha figura foi outra dentro de casa, foi outra.

 

P/1 – E você estava namorando com o Marcelo?

 

R – Namorando! E meu pai, mesmo assim, mesmo ele me respeitando, mesmo assim, homem dentro de casa não entrava; então, era do portão para fora.

 

P/1 – E você trabalhava o dia todo?

 

R – É. Eu trabalhava de manhã e à tarde.

 

P/1 – E o Marcelo, já trabalhava também?

 

R – O meu marido, na época... Ele é mais novo do que eu e, sem querer querendo, ele se estimulou por essa minha situação, porque ele também vinha de uma família muito humilde; e eu falava: “Não, se a gente vai crescer juntos, você também tem que fazer um concurso, você também tem que estudar”. Aí ele começou: “Ah, tá!”. Aí ele foi e fez um concurso para a Polícia Militar, passou, e eu: “Mas, Polícia Militar! Vamos ser professor”. Porque ele gostava de teatro, essas coisas. Aí ele foi e fez o concurso, passou também. E aí, a gente já começou a pensar em casar. Só que, nessa época, o primeiro concurso que ele fez não pôde assumir porque era menor de idade, só tinha dezessete anos; então ele foi trabalhar em escola particular. E eu já trabalhava no estado e na prefeitura. Então, começamos a construir as nossas coisas; quando faltavam uns quinze dias para o casamento, que a gente já estava chamando uma pessoa ou outra, meu pai descobriu: “Vem cá!”. Sempre pelos outros, que eu não tinha diálogo, eu não sabia chegar perto dele e conversar com ele. Eu tinha medo dele! A verdade era essa. A minha mãe sabia, mas ele não. Aí, meu pai: “Que história é essa de casamento? Quer dizer que você vai casar...”. O meu pai sempre foi racista, o meu marido é moreno: “... Você vai casar com aquele marronzinho ali? Eu não sei não! Ele passou por pouco, ele passou por pouco assim”. Aí: “Vou me casar”. “Ah, é sério, é!?”. Aí, foi quando ele chamou, eles conversaram e, depois daí, pronto! Meu pai adorava o meu marido depois disso. (riso) Adorava! Mas foi assim! Foi tudo bem rápido, quando faltavam uns quinze dias para a gente se casar.

 

P/1 – E como foi que o Marcelo cativou o seu pai? Você sabe dizer o que cativou o seu pai?

 

R – Olha, para te falar a verdade, eu não sei! Eu não sei! Essa resistência do meu pai com relação a outra pessoa do sexo masculino era muito forte. E meu marido sempre foi bom de conversa. A verdade é que o Marcelo sempre foi assim, ele empolga, ele faz amizade com todo mundo muito fácil. Meu pai gostava de jogar baralho, pronto! Ele jogou baralho um dia com o meu pai e já foi o suficiente para conquistar ele.

 

P/1 – E os amigos, Shirley? Nessa época vocês conseguiam, com tantos trabalhos, tantas coisas, sair para passear com amigos? Como que era?

 

R – É, não. Na época era muito difícil, eu só comecei a sair mesmo com os amigos depois de casada. Engraçado, casamento para mim foi o meu grito de liberdade, essa que foi a verdade. Casamento para mim... Eu via o casamento como um grito de liberdade. A gente já tinha construído, arrumamos a nossa casa, começamos a organizar o que tinha dentro. Eu estava grávida! E isso me deu uma responsabilidade tão grande, que a minha mãe ficou apavorada: “Como vamos falar isso para o seu pai?”. Eu: “Mãe, esquenta não! Está tudo certo, já tem a data do casamento marcado, a nossa casa já está pronta”. Levei a minha mãe, escondido, para ver a minha casa, para conhecer a família, no caso, do meu marido. “Tudo certo, mãe! Depois que eu me casar eu penso como é que eu vou falar com ele. Eu já estou fora de casa mesmo, ele não vai poder me botar para fora de casa”. E me bateu uma coragem muito grande, e foi isso que me movimentou. E nos primeiros meses de gravidez eu não queria nem saber, eu saía, passava a noite fora. O que era passar a noite fora num baile? Aí, foi que eu fui para baile, fazia esses tipos de coisa. Gente, foi assim, um marco! Foi um grito de liberdade, o meu casamento. Foi muito bom!

 

P/1 – E quando você contou para o seu pai que você estava grávida, como foi?

 

R – Eu me preparei, não é? Depois de um mês, um mês e meio, aí eu: “Está na hora de contar”. Ai eu sentei com ele, fui lá em casa, nos preparamos. Olha, um tempão para poder falar para ele. Aquele dia, nossa! Cheguei para sentar e conversar com ele, e, por incrível que pareça - eu já estava fora de casa, ainda ajudava em alguma coisa dentro de casa - mas a reação do meu pai foi maravilhosa. Porque ele: “Eu já imaginava!”. Primeiro ele já veio com um pouco de grosseria: “Eu já imaginava que isso tinha acontecido! Eu já imaginava! Mas está bom. Também, você está casada, você está bem. Vamos pensar no bebê, será que vai ser um menino?”. Olha! Porque o meu pai tinha esse lado rude, forte, mas ele tinha um coração bom, e ele amava crianças, ele adorava criança! Tanto que meu filho era o máximo para ele, ele sempre curtiu o meu filho, desde a gravidez até quando ele veio a falecer, não é? Mas, olha...! E foi muito fácil! Eu achando que ia ser muito difícil, a minha mãe toda apavorada, e foi o máximo. E a partir desse meu casamento, mudou muita coisa na minha casa. Porque aí o meu pai não tinha mais condição de sustentar a casa, eu agora já tinha que sustentar, ajudar na minha casa, e foi aí que ele deixou a minha mãe trabalhar fora, porque mulher dele não trabalhava fora. E minha mãe não ia fazer compras em mercado, eu acho que era ciúme, alguma coisa assim que ele tinha com ela, então, ele que fazia isso tudo. E aí a minha mãe foi trabalhar fora; quando a minha mãe foi trabalhar fora, ela descobriu que existia um mundo! Existia um mundo! Aí acabou o casamento deles, e sabe, meu pai terminou os dias dele sozinho. E minha mãe construiu outra família, e hoje vive muito bem, graças a Deus.

 

P/1 – E me diz uma coisa: vocês começaram a voltar um pouquinho aos bailes? Porque a música sempre aparece na sua história, e você começou a se divertir com o casamento. Como é que eram esses bailes? O que vocês dançavam? Que tipo de música?

 

R – Olha, eu já te falei que nós montamos um grupo, não é? Então, a gente apresentava... Madonna! (riso). Inclusive nós entramos numa fila enorme para comprar o ingresso da Madonna, porque nós preparávamos as coreografias da Madonna, eu me lembro. Eu nunca levei muito jeito para dançar, eu sempre desfilei, mas não dançava. Então, eu sempre fazia a mocinha que só entrava desfilando, porque as nossas coreografias sempre tinham uma historinha - eu era a mocinha, ele era o mocinho. Aí a gente inventava um monte de ideias e botava as pessoas que sabiam dançar mais atrás. E Madonna marcou muito a nossa época! Marcou muito! Nós montávamos todas as coreografias dela, e era o maior sucesso! Não era Michael Jackson não! Era só Madonna! Era o maior sucesso! E a gente sempre saía para apresentar, tinha o horário para voltar. Tudo escondido, não é? Era tudo escondido do meu pai. E tinha algumas apresentações que eu nem podia ir. Às vezes tinha algumas que, por dificuldade de condução, eu não podia voltar, e aí eu não podia ir. As outras, na maioria, eu ia. Então, Madonna marcou demais! Marcou demais, não é? Que foi o nosso marco. Por isso que a gente não podia deixar de ir ao show da Madonna agora.

 

P/1 – E nos bailes, você já estava grávida, você dançava?

 

R – Ah, eu dançava! Não tinha esse negócio não! Meu filho nasceu, aí ele... A minha sogra sempre foi assim uma pessoa muito marcante na minha vida, não é? Porque eu trabalhava fora, então a minha sogra cuidava do meu filho. Fui ter filho cedo, não é? E eu querendo viver, mas tinha uma criança para tomar conta. Então a minha sogra sempre cuidava do meu filho quando eu ia sair, sabe? Quando eu estava trabalhando, inclusive, eu até tinha um ciúme da minha sogra... Eu chorava quando  chegava do serviço que meu filho chorava, ele não queria ficar comigo, queria ficar com a minha sogra. E aí eu chorava, nossa, no começo eu chorava muito, até acostumar e tal. Mas foi demais! Aí, a minha sogra sempre me ajudava nessa parte para eu dar umas escapadinhas.

 

P/1 – E como é que foram os seus primeiros dias de aula? Você começou no estado junto com a prefeitura, como é que foi esse início?

 

R - Quando eu comecei a trabalhar, não é? Então, quando eu comecei a trabalhar eu podia escolher a escola do estado. E aí, qual a escola que eu escolhi? A escola  onde eu sempre estudei, que foi onde eu me formei, não é? Que, no caso, era a Fernando Figueiredo, que é o nome da escola. Inclusive a Vera, minha amiga, era diretora (riso) de lá também. Aí, resultado! “Não, tem que ser essa escola”. E comecei, quer dizer, saí da questão de aluna e virei professora. E aquela escola marcou demais a minha vida. E para a prefeitura eu queria muito trabalhar na escola em que hoje eu trabalho, porque é próxima à minha casa também, e, na época, eu não consegui uma vaga lá, consegui uma escola um pouco longe. Mas eu fiquei, tipo, seis meses nessa escola longe e depois fui logo para a Weguelin, que é a escola em que estou até hoje. Eu costumo ser fiel ao lugar em que trabalho. E, na época, existia uma diferença muito grande de questão salarial entre o estado e a prefeitura de Caxias. Caxias sempre pagou duas, três vezes mais que o estado. E aí, foram surgindo outros concursos para a prefeitura. E depois de oito anos no estado, com muita dor no coração, eu tive que largar o estado, eu pedi exoneração e assumi outra matrícula em Caxias. E, também, estou na Weguelin até hoje! Até hoje!

 

P/1 – E o que você mais gosta na ação de dar aula? O que você mais gosta na sala de aula?

 

R – Eu sou muito inquieta, então eu não gosto de ficar parada muito tempo numa coisa, numa função; eu estou sempre querendo criar e inventar alguma coisa nova. Então, na escola... Eu já montei grupo de teatro na escola. Essa coisa de ficar preso em quatro paredes, não dá! Para mim, não dá! Então, eu já dei aula desde o CA até a quarta série. Aí, toda vez que tinha um projeto novo, alguma coisa, estava eu lá. Resultado: eu já fui dirigente de turno, dinamizadora de leitura, toda vez que tinha uma coisinha nova eu estava! Já fui vice-diretora da escola durante um bom tempo; não gostava muito dessa função porque essa questão de mandar, para mim, era muito complicada; às vezes tinha que mandar, e eu não gostava de mandar. Então, se tinha que fazer limpeza na escola, eu não mandava as meninas fazerem a limpeza, eu falava: “Vamos fazer a limpeza?”. Aí, eu ia também, eu ia lavar, arregaçava a calça e ia ajudar a lavar a escola, tinha umas coisas assim. E depois, com muito custo, eu consegui sair; mas continuava na escola fazendo outras coisas. E aí, a prefeitura de Caxias – eu acredito que ela seja muito avançada nessa questão da educação, tem sempre uma novidade – aí começou a sala de informática. Eu não sabia nem ligar o computador. A Vera já era diretora: “Shirley, vai ter uma sala de informática, e agora? Você tem que...”. “Mas eu vou!”. “Ah, o que você vai fazer, Shirley?”. “Deixa comigo!”. Entrei num cursinho de um mês: “Me ensina a ligar o computador! Me ensina a fazer isso, o resto eu aprendo”. E foi dito e feito: entrei. Só que tinha uma capacitação em São Paulo, no caso do Projeto do PTE, do “Tonomundo”, e eu não pude ir para São Paulo porque o meu pai estava falecendo nessa época. Eu tive uns problemas muito sérios nessa época, tanto no meu casamento... E juntou com a questão do meu pai, que estava sofrendo muito de câncer e eu tinha que dar apoio a ele. Aí eu não pude viajar, e essa capacitação era em São Paulo, aí eu não pude ir, foi a minha amiga, a Sayonara, e eu fiquei na escola. Aí, tudo bem! Voltei! Mas aí, a gente trabalha juntas. Nós estamos sempre trabalhando juntas. Resultado: comecei a trabalhar na sala de informática e fiquei; e fazendo essa questão de... Trabalhando com a leitura. Como eu gosto muito dessa questão do teatro, eu gostava muito de dramatizar, contar história dramatizando. Eu me realizei nessa função durante uns cinco anos. Aí, eu: “Já está na hora de mudar, isso já está muito quieto para mim”. A informática nunca muda, porque são tantos projetos dentro da informática que não dá para você ficar parado. Agora, dentro dessa questão da leitura já estava: “Não, já não está dando para mim, o que eu vou fazer?”. E veio, agora, uma nova função na escola, que é trabalhar com crianças que têm dificuldades de aprendizagem, são crianças que são consideradas inclusos, são crianças com síndrome de down, paralisia cerebral, vários atrasos mentais. E eu tinha muito pavor dessas crianças. Na minha escola tem uma classe especial. Eu tinha simplesmente... É a verdade, eu tenho até vergonha de dizer isso, mas é a verdade! Eu tinha pavor quando eu via aquelas crianças. Antigamente, eu até desmaiava quando via uma criança doente. Então, com a doença do meu pai, que ele ficou completamente desfigurado e eu que cuidava dele, eu parei com essas frescuras! E aí eu comecei a olhar para essas outras crianças com um olhar diferente: “Poxa, como é que eu posso ajudar?” Comecei a me aproximar devagarinho, devagarinho, perdendo o medo, e hoje eu trabalho com eles. Tipo assim, não fico direto. Às quatro horas eu faço um atendimento de duas, três vezes por semana, com horário marcado, com eles. Quase uma... Eu sou quase uma psicóloga, porque os ajudo a se desenvolverem dentro da sala de aula. E está sendo gratificante para mim, está sendo. No momento está! Mas eu não vou dizer que eu vou parar por aí, não! Que daqui a pouco eu vou querer inventar outra coisa.

 

P/1 – Shirley, quais são os maiores desafios que você acha que existem para dar aula? Você já colocou que tem esse novo trabalho com crianças especiais e adolescentes. Existem alguns outros desafios, além desses, para dar aula?

 

R – Olha, antigamente, eu achava que... Eu encontrava barreiras em muitas coisas, não é? Só que, como eu sou muito inquieta, estou sempre procurando alguma coisa; por exemplo, por causa dessa turma eu fiz psicopedagogia. Aí, eu estou sempre buscando alguma coisa que me ajude nessa área. Atualmente, eu faço um curso também voltado para esses alunos, não é? Estou sempre procurando assim me capacitar para não ficar para trás. A minha preocupação é: “Eu não posso ficar para trás. Eu não posso!”. Aí, por exemplo, eu agora descobri que o computador atrai muito essas crianças. Então, na minha sala de recursos ainda não tem computador, mas eu criei um projeto, já consegui a doação de alguns computadores que vão chegar, e eu uso um notebook que eu comprei, eu uso com eles, arrumei um mouse e uso. Eu estou com um progresso enorme com essas crianças, por conta do computador! E outras salas de recurso, na rede em que eu trabalho, não têm essa questão da informática, não é? É só o professor, os joguinhos pedagógicos e o aluno. Eu acrescentei o computador e estou começando a passar essa experiência para as colegas nesse curso que eu estou fazendo. Elas estão apaixonadas, porque através do computador o meu leque de atividades  para poder trabalhar com aquelas crianças é muito grande, é muito grande!

 

P/1 – Então me esclarece uma coisinha: na escola tem a sala de computadores?

 

R – Isso, isso!

 

P/1 – E para essas crianças com as quais você trabalha, você percebeu se eles têm muito interesse com a máquina, computadores, atividades? Você utiliza essa sala ou não? Porque você disse que vão chegar outros.

 

R – É, nem sempre, porque no horário em que eu trabalho a sala de informática está atendendo aos alunos do primário ou ginásio. Então, nem sempre sobra esse espaço livre para eu levar os alunos. Sempre que posso eu levo, mas não é uma questão frequente. Eu acho que o computador tem que estar presente em todas as minhas aulas. Tem que ter o momento de utilizar o computador; então, o que eu faço? Eu levo o meu. Mas eu já consegui essa doação que a qualquer momento... inclusive, já está para chegar na escola, já conversei com a minha diretora, a gente vai organizar a sala para atender. Esses computadores também vão atender aos alunos da classe especial, que são os alunos que ficam direto na escola, no outro horário.

 

P/1 – E esses computadores que já existem na sala chegaram com o projeto “Tonomundo”, ou não?

 

R – Não, foi uma coisa à parte. A gente começou a sentir a necessidade de ter mais computadores na escola, porque o projeto já estava contagiando todo mundo, todo mundo querendo ter acesso a isso. E a gente: “Poxa!”. Mas o nosso público maior no “Tonomundo” são os alunos de quinta a oitava. E nós queríamos, também, atender aos outros; e aí a gente começou... Para criar outro espaço para esses alunos de computadores. Eu consegui um contato. Essas empresas grandes, às vezes, estão trocando os seus computadores e fazem doações. A nossa escola tem CNPJ, tem um Conselho Escolar, então é considerada uma pessoa jurídica, a gente pode receber. E aí, fiz um projeto justamente voltado para as salas, no caso, a sala de recursos, como a gente chama. Eu dizendo que queria colocar, inovar, colocar tecnologia dentro da sala de recursos, e deu certo! Daí, nós vamos receber agora dez máquinas impressoras, o ar condicionado, tudo para essa sala. São máquinas usadas, mas que para a gente... Vai atender perfeitamente a nossa necessidade.

 

P/1 – Nessas salas de recursos você tem, também, TV, vídeo, DVD?

 

R – Tem! Eu tenho acesso a tudo isso. Eu tenho acesso a tudo isso!

 

P/1 – Na sua opinião, por que para essas crianças com necessidades especiais interessa tanto o computador? O que você acha que atrai?

 

R – Eu acho que a imagem, o som! Eles não gostam de coisinhas paradas, não é? Pode ter lá um joguinho de dominó, uma coisinha assim. Quando eles olham a tela do computador... Porque, às vezes, eu trabalho com fotos, coloco filmagens. Eu peguei o meu celular e dei para um aluno, ensinando a gravar, fazendo assim uma entrevista com ele. E o aluno mal falava. Quando ele viu a entrevista, a filmagem simples, bem rudimentar, no computador, ele ficou doido. Ele agora, toda vez que me vê, quer pegar o meu celular e quer fazer entrevista comigo para colocar no computador. Então, são os recursos que a máquina pode oferecer, que atraem. O visual, o auditivo, isso mexe demais com essas crianças. Demais! A música!

 

P/1 – E você planeja as suas aulas com algum outro colega professor, ou é sozinha? Como funciona?

 

R – É, geralmente eu planejo sozinha, não é? Mas eu tenho muito contato com os professores desses alunos. Então, num primeiro momento, eu monto um perfil desse aluno, vejo quais são as possibilidades que eu posso explorar para trabalhar com esse aluno. E aí esse bate-papo é com o professor. Só que, daí para frente, eu planejo. Eu também tenho uma pessoa que me orienta dentro da Secretaria de Educação, que acompanha todo o meu trabalho, e aí vai me dando os rumos necessários, não é?

 

P/1 – Essa pessoa que te orienta é como um coordenador?

 

R – Isso, isso!

 

P/1 – Como é essa função? Quem é?

 

R – Dentro da Secretaria de Educação existe uma equipe de educação especial e existem vários implementadores. No caso, ela é considerada uma implementadora, ela atende à minha escola e outras escolas próximas, e me dá uma assistência.

 

P/1 – Então, tem o professor da sala de aula e você é professora de informática?

 

R – Isso!

 

P/1 – Então, você tem contato com essas professoras o tempo inteiro?

 

R – Tenho, tenho, tenho! Num horário, eu trabalho na sala de informática e, no outro horário, eu trabalho com a sala de recursos.

 

P/1 – E você usa outros espaços na escola, além da sala de informática, ou você sai com os alunos para ir a alguma instituição cultural? Você tem essa possibilidade?

 

R – É, no caso, o trabalho na sala de informática nos dá muitos momentos, por conta do projeto, para sairmos com os alunos. Muitos, muitos mesmo! São riquíssimos esses momentos. E a gente sai muito, sai muito! A gente consegue condução, consegue tudo. A Oi Futuro arruma um monte de condução, arruma um monte de programa. Até para teatro nós já fomos, não é?

 

P/1 – O que mais? Levaram no teatro...

 

R – É, fomos ao teatro. Nós fizemos parte de um projeto em que as crianças filmavam a sua realidade, com o celular; então, nós fomos parar no Parque Lage por conta disso, não é? E o que mais? Várias capacitações no Instituto Oi Futuro, que nós fomos com as crianças. Aí, o teatro foi, inclusive, o teatro da Oi, não é? Fomos parar no Pan, nós fomos levar os alunos no Pan também. Cada coisa! Aquele projeto Anima Mundi. Tudo que aparece assim de novo, na região, a nossa escola está sempre levando os alunos.

 

P/1 – Essa proposta quem faz são vocês, ou a Oi Futuro convida? Como que funciona?

 

R – É, geralmente a Secretaria de Educação e a Oi Futuro estão sempre convidando; outros a gente corre atrás também, manda ofício. É Jardim Zoológico... esses outros pontos turísticos. E a gente também consegue, é fácil! Parte das três situações.

 

P/1 – Como é que o Tonomundo chegou na sua escola?

 

R – Como que chegou?

 

P/1 – É, você estava na escola já?

 

R – É, eu estava na escola. Eu não sei te dizer ao certo como é que a nossa escola foi escolhida. Eles procuravam escolas do interior, escolas bem simples, para implantar o projeto. A nossa escola é muito grande, apesar de ser num bairro e tal. Assim, não é centro! Mas eu acredito que não seja tão interior assim, não é? E aconteceu! Eu acho que aconteceu. E foi um momento mais marcante da nossa escola, não é? A nossa escola cresceu muito com esse projeto, cresceu muito!

 

P/1 – Em que sentido ela cresceu? Como é que você vê... O que foi de bom assim que cresceu?

 

R – É, cresceu em relação ao trabalho com os alunos do ginásio. O ginásio era muito colocado no canto, esquecido, sabe? Até as propostas que vêm da Secretaria de Educação dificilmente são voltadas para o ginásio; geralmente são voltadas para o primeiro segmento. E o projeto fez com que aqueles alunos do ginásio passassem a ficar, se bobear, o dia inteiro na escola. Eles não queriam mais ir para casa. O que tem de aluno que a gente conseguiu resgatar por conta do projeto... Inclusive, um aluno foi muito marcante na minha vida porque quando eu comecei na sala de informática eu era muito limitada em algumas coisas. Eu fiz o cursinho intensivo de um mês, e esse aluno tinha aquela predisposição para informática, que era uma coisa dele mesmo, e muita coisa ele me ajudou, me ensinou, nós começamos a criar monitores dentro da sala de informática. Hoje, ele diz que eu sou a segunda mãe dele, que meu marido é o segundo pai; toda vez que ele tinha problemas vinha falar com a gente. Igual a ele tinha outros alunos que, hoje, já estão trabalhando. Arrumamos, inclusive, um emprego para ele dentro da área. Então, a gente começou a ficar responsável, viramos uma mãezona para aqueles alunos. Daí, as outras mães vinham: “Não, fulano está me dando problema em casa. Está querendo sair de casa”. Passávamos de professora para amiga, para mãe: “Não, não é bem assim”. E eles ouviam a gente, aí eu: “Gente, que poder é esse!”. Inclusive, ele deu um depoimento falando que se não fosse... Ele matava aula, ele não assistia. A escola não era interessante para eles. Os alunos do ginásio estão naquela fase rebelde, não é? E muitas coisas, muitas questões da escola estão longe deles, eles não... O atrativo que tem em volta... A nossa escola se localiza dentro de, praticamente, três facções, não é? Então, o atrativo em volta para levar as crianças para o mundo da droga é muito grande, muito grande! Esses alunos, quer dizer, muitos deles tinham tudo para estar nessa marginalidade. Eles começaram a se apegar à escola através dos trabalhos, através dos projetos. E não queriam mais sair da escola. Aí, a mãe já ligava: “Fulano está aí?”. “Está”. “Ah, então, está bom!”. A mãe ficava assim, um alívio de saber que... E, realmente, você tinha que falar: “Fulano, vai para casa; hoje não tem merenda na escola”. “Não! A senhora vai comer o quê?”. “Ah, eu vou à cantina fazer um lanche”. “Ah, então eu também vou”. Assim! E ficava o dia inteiro na escola. São laços que se criam, e hoje esses ex-alunos estão sempre na escola, sempre vão visitar, sempre querem estar lá pertinho. Tem alguma festa, tem algum evento, eles estão sempre por perto querendo ajudar em alguma coisa. Gente, e isso, quer dizer, foi graças ao projeto! Se não fosse ele nós não teríamos aquele espaço ali para acolher. Foi um espaço acolhedor para esses alunos do ginásio, foi um espaço acolhedor!

 

P/1 – E então esse projeto trouxe, também, experiências para vocês, pelo que você está contando, assim, de integração de áreas, projetos interessantes para os alunos estarem tão envolvidos, não é? Que tipo de projeto que vocês fazem a partir do Tonomundo?

 

R – Na verdade, o Tonomundo trabalha com vários projetos, não é? Então, a gente têm vários eixos, no caso da entidade. São várias situações! E, no começo, nós não tínhamos muitas parcerias com os professores. Os professores têm medo do computador. “O que é isso?”. “Não, vamos levar o aluno para a sala de informática. Vamos fazer um projeto assim e tal”. Porque, na verdade, a nossa função dentro da escola não é pegar o aluno e dar aula, é orientar o professor que vai levar a turma para desenvolver os projetos. Mas, no começo, isso é muito difícil. Então, nós viramos professora de História, Geografia, de Ciências. Cada projeto que vinha, explorando mais uma área, acabava sobrando para a gente. Então, os alunos tinham algumas dificuldades, tinham que fazer alguma pesquisa, já vinham procurar a gente, ou seja, nós somos professores de primeira a quarta, não é? E acabamos conhecendo muitas outras coisas por conta desse medo do professor do ginásio de estar entrando no laboratório de informática, de estar trabalhando direto com a máquina. Tem professor que tem pavor de tocar na máquina. “Não, eu vou estragar. Não!”. Aquele medo. E os alunos não têm medo. A gente não podia mostrar esse medo também. Eu morria de medo, na verdade. Eu não tinha contato nenhum com computador e fui perdendo o medo por causa deles, porque eles não têm medo, as crianças mexem em tudo, se der errado depois a gente conserta, a gente resolve. E foi por essa questão que a gente conseguiu dar essa integração com os alunos, porque, na verdade, eu virei professora de Matemática, de História, de Geografia. Até conquistar um professor a participar de um projeto sempre foi muito difícil. Até hoje ainda é. Mas é claro que já mudou muito, não é? Já mudou muito!

 

P/1 – E você está contando que a relação com as famílias também mudou, não é? E elas estão mais dentro da escola, além de estar conversando com vocês; tem atividades que eles também frequentam?

 

R – É, a família, a gente tem... Quer dizer, tínhamos muita dificuldade de trazer a família para a escola, não é? Então, nós começamos a trazer o aluno, não é? O aluno querer ficar o dia inteiro na escola. E, por conta disso, os pais queriam saber, às vezes, onde estava o seu filho e tal, e começaram a se aproximar mais da escola. Conhecer a gente pelo nome, porque muitos pais chegam à escola sem saber quem é a professora do filho, não é? E lá, mesmo o aluno sendo do ginásio: “Não, a professora Shirley”. “Não, está com a professora Shirley, então está bem”. “Vai no passeio tal, está com quem?”. “Está com a professora Sayonara”. “Ah, então está bem, pode ir”. Então, nós fomos trazendo a família. Aí, cada vez que a família vem, começa a se lamentar: “Não, porque fulano está muito rebelde em casa”. Eles achando que nós tínhamos que ajudar nos problemas em casa. E foi isso que aconteceu. Através do relato dos pais, do desabafo dos pais, não é? Tinha aluno, inclusive, eu me lembro, foi até do primário, um aluno envolvido com... Ele pegava as coisas dos outros, e a mãe morrendo de vergonha, não sabia como relatar à escola, ficava com vergonha. Aí, foi e me chamou: “Não, porque a senhora está sempre com o meu filho, eu tenho que lhe falar uma coisa que eu estou morrendo de vergonha e não sei como resolver”. Aí, veio falar, trouxe o objeto que o aluno tinha levado e perguntou como ela ia fazer. Aí eu disse: “Não, pode deixar, me dá o objeto”. Chamei o aluno para conversar. Esse aluno, até hoje, quando me vê, ele pode ter um monte de pessoas em volta, mas quando ele me vê, faz questão de sair: “Oh, professora!”. Tipo, tem algum problema, já vem falar com a gente, entendeu? Mas foi essa ponte, foi como se eles encontrassem lá, no laboratório de informática, uma ponte. “Eu vou lá, vou conversar, que alguém vai me ajudar”. Ficou assim.

 

P/1 – Para você, Shirley, o que significa a escola?

 

R – Ah (riso). A escola para mim? A escola para mim é a minha segunda casa. Inclusive, quando eu estou em casa só falo de escola. Aí, para completar, meu marido também é professor, trabalhou comigo na escola um tempão... O assunto escola é o tempo inteiro. Aí, meu filho já faz uns combinados quando a gente sai: “Olha, falar de escola, nem pensar!”. E quem são os meus amigos? Os professores da escola. Os meus amigos mais próximos, que frequentam... A madrinha do meu filho... São professores da escola. Então, a escola marca a minha vida o tempo inteiro. E meu filho fica revoltado com essa história: “Mãe, você só fala de escola. Escola o tempo inteiro!”. É, assim, a gente quando sai tem que fazer até uns combinados por conta disso.

 

P/1 – E a educação como um todo, o que significa para você?

 

R – É, a educação, não é? Eu acho que a educação é um marco, não é? É o marco da humanidade, hoje. Eu vou transcender assim, porque…  Gente, o poder que a educação tem, o poder que a escola tem para transformar os seres humanos, para ajudar a dar um rumo, dar uma direção na vida. Eu acho que se os políticos, se as pessoas tivessem noção do que é isso. Eu acho que eles não têm noção do que é isso! O poder que a questão da educação tem, o poder que a escola tem, é muito grande. E os políticos em si, eles não dão muito valor a isso, só usam no discurso: “Ah, é bonitinho falar de educação, então, vamos falar”. Mas está ali, é o centro de tudo. Eu acho que a base de tudo está ali, dentro da educação. Que está lá dentro da escola, acho que a escola. Eu não consigo associar educação fora de escola, porque eu sei que as duas coisas acontecem independentemente, mas eu acho que a escola molda isso, encaminha. Então, eu não consigo separar essas duas coisas.

 

P/1 – Você tem alguém como referência, ou um educador brasileiro ou estrangeiro, que você lê e gosta das ideias dele?

 

R – São muitos, não é? Têm muitas pessoas assim, que marcam, não é? Mas atualmente, eu vou falar, atualmente tem Celso Antunes, que, quando eu sento para assistir alguma coisa dele, uma palestra, alguma coisa, eu não me canso. Ele fala assim da educação com tanta propriedade, com uma simplicidade, que parece uma coisa tão simples de trabalhar; a maneira como ele coloca as coisas, isso me marca muito, me marca muito! Aonde eu vejo alguma coisa dele, estou eu lá: “Não, é ele que está aqui. Ah, então eu vou, quero me inscrever nessa palestra, quero comprar o material dele”. Eu tenho um monte de coisas em casa sobre ele.

 

P/1 – Hoje em dia, você estava falando que tem combinados para poder passear com o seu filho, de tanto que você está envolvida. O que vocês fazem quando passeiam? Que tipo de lazer vocês têm quando estão em família?

 

R – Bom, eu gosto muito dessa questão da liberdade, não é? Porque eu te falei que eu achava que vivia muito presa. Essa questão da liberdade, para mim, sempre me marcou; então, hoje... A minha vontade hoje é conhecer o mundo inteiro (riso). Então eu não consigo me imaginar numas férias, num periodozinho que tenha no final de semana ficar dentro de casa, eu fico assim apavorada! Parece que está criando uma raiz, eu quero sair. Então, por conta disso, a gente já começa o início do ano planejando o que vai fazer nos feriados, nas férias. “Porque eu quero ir no lugar tal,  quero ir num outro, quero conhecer o Brasil inteiro”. Essa questão dessa diversidade, isso me atrai muito. Querer saber como é que o pessoal de Manaus se comporta. Já fui para lá, no Amazonas (riso). Agora eu descobri, através desse último Encontro, que eu não conheço nada do Amazonas, não conheço nada de Manaus, ainda não fui a uma tribo indígena. Aí, eu conheci duas professoras, já armamos um contato que, em janeiro, eu vou voltar lá e vou, depois que chegar a Manaus, pegar não sei mais quantas horas de voo de novo, vou passar um dia e uma noite dentro de um barco para poder chegar à escola dela. E vou ficar, inclusive, na casa dela, que a gente vai conhecer as aldeias, coisas assim. E isso, gente, eu acho que é um aprendizado que você guarda para a vida inteira. Conhecer essas diversidades, conhecer o mundo todo. Que é isso que eu quero fazer.

 

P/1 – Da sua vida, quais os aprendizados assim, que mais marcaram?

 

R – Ai, os aprendizados que mais marcaram a minha vida? Eu não sei dizer, eu acho que a força de vontade, querer, sabe? Você traçar os objetivos. Eu acho que é muito importante as pessoas traçarem os seus objetivos. Eu vejo tantas pessoas perdidas, sem saber que rumo tomar. Gente, desde os dez anos eu já sabia o que eu queria! E eu vejo tantas pessoas perdidas. Meu filho, por exemplo, não sabe bem o que quer ser, o que vai ser. Gente, como que falta isso? Essa questão da orientação mesmo. Eu acho que os jovens, os adolescentes, precisam muito disso. Eu tinha isso sem saber, sem ninguém me orientar, eu acho que veio de mim mesma: “Eu quero ser isso; então, o que eu tenho que fazer para fazer isso? Isso, isso e isso! Então eu vou fazendo”. Então, eu já fui traçando. Eu acho que todo mundo tem que traçar seus objetivos e todo mundo tem que pensar em alguma coisa do tipo. Até eu marquei uma meta para mim: até os quarenta e cinco anos eu quero trabalhar muito! Depois disso, eu só quero contribuir e curtir. Mas sempre curtir a vida contribuindo de alguma forma. Eu queria montar uma creche comunitária, eu queria fazer tudo o que eu gosto de fazer, mas de forma voluntária. Se Deus quiser, eu vou chegar lá. Que é o meu objetivo, eu estou traçando.

 

P/1 – Bom, nós estamos finalizando a sua entrevista, então a gente queria saber o que você achou de ter participado dessa entrevista?

 

R – Nossa! Eu cheguei aqui morrendo de medo (riso). “Nossa! O que vai ser? Como é que vai ser?”. E foi um bate-papo tão gostoso, não é? Foi tão simples, E foi tão fácil falar: “O que vai me perguntar? Sobre o quê? Será que eu vou lembrar?”. E na conversa, a gente vai resgatando as coisas da memória. Olha, eu não estou vendo nem como um trabalho, foi um prazer bater um papo aqui com vocês (riso). Foi um prazer mesmo! Muito bom!

 

R – Para nós também. Você gostaria de contar mais alguma coisa?

 

R – Deixa eu pensar aqui. Não, eu acho que não. Eu acho que já estou satisfeita, já estou satisfeita (riso).

 

P/1 – Então está ótimo. Obrigada viu, Shirley? Boa sorte no seu sonho. Muito obrigada.

 

R – Foi muito bom! Está vendo!? Gostei, gostei! (riso).

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