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História

O poder da comédia

História de: Filipe Pontes
Autor:
Publicado em: 27/04/2021

Sinopse

Como muitas crianças, o então tímido Filipe Pontes teve de lidar com o bullying na escola. Mas não por muito tempo. Logo, ele conta ter descoberto que as imitações de colegas e professores que fazia naturalmente, junto do irmão gêmeo, tinham o curioso poder de matar todo mundo de rir. Foi assim que, de uma hora para outra, Filipe diz ter se tornado líder da turma. Em seu depoimento, ele ainda se lembra da época em que decidiu abandonar a faculdade de Física para se “formar” como humorista profissional. Mudou-se para o Rio de Janeiro e enfrentou dificuldades financeiras para concluir o curso de teatro, mas conseguiu: desde então, vem construindo sua carreira em programas de humor da televisão, imitando personalidades conhecidas e criando personagens.

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História completa

Meu nome é Filipe Fernandes Pontes. Eu nasci no interior de São Paulo, numa cidade chamada Ribeirão Preto. Nós éramos uma família bem feliz, meu pai sempre muito atencioso, dava bastante carinho pra gente. Trabalhava bastante, mas, quando ele estava com a gente, era só zoeira. Era bem legal. A minha mãe também. Era um lar bem feliz. Eu tenho um irmão gêmeo, então, a gente era uma dupla de demônios mesmo. A gente bagunçava muito. Uma vez, minha mãe foi numa loja ver óculos. E a gente: “Vamos brincar lá no quintal?” “Vamos!” Aí, a gente deu uma volta. Era um estacionamento cheio de carro e tinha uma escadinha: “Olha que legal!”, um pé de goiaba forrado. Mas a goiaba estava do lado de lá. “Legal, vamos subir.” Subimos. Aí, estamos lá pegando goiaba, eu pisei assim e só senti “rôôô”. Eu olhei, o meu irmão vindo, ele veio, pá! Caíram os dois, caiu o telhado inteiro em cima de todos os carros do estacionamento. A minha mãe só escutou o barulho: “Pow!”, maior barulhão, parecia que tinha caído um avião. Ela só fez assim: “São os meninos”. O pai teve que pagar todos os carros. Foi o maior prejuízo que eu já dei para o meu pai até hoje, pagou a pintura de tudo, foi um desastre! Parecia filme mesmo: o telhado caiu por cima de todos os carros que estavam estacionados embaixo. Foi bem legal. Eu sofria muito bullying, era muito zoado na escola. Eu sofri muito com isso. Aí, depois, eu descobri o poder da comédia. Engraçado isso, né? Eu imitava as pessoas, só que eu era tão pequeno que eu não sabia que isso era engraçado. Você não sabe que é engraçado, mas, quando eu fazia, as pessoas riam de passar mal. Aí, eu falei: “Nossa, então, eu descobri o poder da comédia, né?”. E, dali em diante, juntava o meu irmão, a gente fez peças, eu imitava um professor, ele imitava o outro, eu imitava o inspetor, ele imitava o outro. Com o tempo, a gente fazia apresentações na quadra da escola com o colégio inteiro. Então, eu passei de bullying para o líder da escola. Prestei Física, gostava muito de Física. Mas abandonei a faculdade, abandonei tudo. Dentro de mim, eu dizia: “Eu vou tentar, eu vou tentar ser artista, eu quero tentar”. Porque, se eu morro, a vida é muito curta. Eu cheguei a essa conclusão nessa época, que a vida é muito curta. Eu quero tentar, ué! Eu não vou morrer amargo, com esse caroço dentro de mim, com essa dúvida: será que eu poderia fazer? Será que ia dar certo? Não, vamos tentar, vamos lá. Eu tinha um negócio dentro de mim: “Vai lá que você vai arrebentar, vai conseguir”. Eu tinha certeza que eu ia. Aí, eu falei: “Tô indo para o Rio, eu vou estudar teatro lá no Tablado, tá?”. Falei isso no jantar, em casa, todo mundo ria. O meu pai falou: “Ah, sei, aqui na Rua Rio de Janeiro, que é aqui em cima, tá”. Ninguém me levava a sério. Falei: “Dia 23...” – isso era novembro ainda – “Oh, dia 23 de março eu vou para o Rio de Janeiro, vou estudar teatro no Tablado e vou morar lá, talvez para sempre”. Eles zombavam de mim, brincavam. Só que, uma semana antes, eles começaram a ver. E eu fui mesmo, dia 23. Escrevi um poema para o meu pai, um poema para a minha mãe de despedida, que eu sabia que era pra sempre. Eu tenho esse poema até hoje, um poema pro meu pai, um poema pra minha mãe. No Rio, morava no apartamento de um amigo meu. E eu falei pra ele: "Olha, deixa eu ficar aqui no quarto de empregada, eu te pago tanto”. E, sem dinheiro pra nada, eu lembro que só almoçava uma refeição por dia. E eu lembro que era um quarto de empregada tão pequeno que a cama não cabia. Eu dormia de perna pra cima. E eu até me emociono, porque foi muito difícil. Eu lembro que eu falei assim: “Não, eu não aceito fracassar assim”. Eu lembro que eu falei com Deus: “Eu não aceito voltar sem nada assim”. E eu falei do fundo da alma: “Não aceito voltar para Ribeirão Preto, eu não aceito”. E, aí, eu fiz uma participação na Malhação. E, aí, o pessoal falou: “Vem aqui porque o Luciano Huck vai estar aqui, gravando aqui”. Cheguei lá, entrei na gravação, e era o Luciano que estava lá. E o pessoal sabia que eu imitava, que eu fazia imitações, aí eu comecei a imitar: [imitando Luciano Huck] “Estamos aqui na Central Globo de Produções com pessoas incríveis, Maestro Billy, pessoas incríveis”. Comecei a imitar, o pessoal ria. Quando o Luciano Huck chegou, falou assim: “Nossa, o que é isso?” “Ah, Luciano, desculpa, atrasou a gravação, tinha um cara te imitando.” “Quem é? Quero saber.” Aí imitei ele pra ele e a mulher do Vídeo Show. “Posso gravar?” Gravou. E eu não sabendo de nada, nem tchum pra isso. Só que isso passou na televisão, no Vídeo Show. Na segunda-feira, o diretor da Globo viu, o cara que manda em todo mundo lá, um dos donos da Globo. Aí, ele falou assim: “Vem aqui na minha sala”. Aí, me deu o endereço para encontrar o Maurício Sherman, que é o diretor do núcleo de humor do Zorra. Eu falei: “Caramba, vamos lá”. Eu bati lá na porta, só que eu não tinha cara de Zorra, eu era muito menino, eu tinha muita cara de menino. Eu falei: “Vim falar com o Seu Sherman”. Ele chegou e falou: [imitando a voz] “Oh, garoto, muito bem, rapaz. Eu vi você, rapaz. Filipe, você tem cara de pau?” Aí, me pegou pelo braço e me levou numa sala. Estava todo mundo lá, a equipe inteira do Zorra numa mesa. Ele sentou e falou assim: [imitando a voz] “Pode começar, garoto. Faz o que você sabe fazer”. Fiz todas as imitações, ele bateu na mesa e falou: [imitando a voz] “Eu vou ficar com o menino”. Nossa, eu fiquei muito feliz. Eu saí de lá, eu fui da praia do Leblon até Botafogo andando. Liguei para o meu pai e falei: “Pai, olha, consegui!”. Foi muito legal. E assim começou a minha carreira. Do dia pra noite.

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