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História

O peso da maré

História de: Almir Alves Lima
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 02/10/2013

Sinopse

A infância na colônia de pescadores entre marés e colheitas. A pesca artesanal e a agricultura familiar de seus antepassados. Educação básica na cidade do Rio de Janeiro. Regresso a comunidade de Barra de Itabapoana, casamento, construção familiar, formação dos filhos e consolidação na pesca profissional. Contemplações, considerações e memórias das dificuldades e prazeres do trabalho de pescador.

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História completa

P/1 – Seu Almir, para começar eu vou pedir para o senhor falar o seu nome completo.

 

R – Almir Alves Lima

 

P/1 – Onde o senhor nasceu, Seu Almir?

 

R – Barra de Itabapoana.

 

P/1 – Aqui em Barra mesmo, e qual é a data de nascimento do senhor?

 

R – Doze de julho de 1950.

 

P/1 – O senhor conheceu seus avós, Seu Almir?

 

R – Só um avô por parte de mãe, o avô materno.

 

P/1 – E esse avô, o que você lembra dele? Como ele era?

 

R – Lembro dele, quando eu o conheci com pouco tempo perdeu a visão,  na época ele era chefe de padeiro daqui dessa cidade.

 

P/1 – E ele era daqui mesmo?

 

R –  Era de Vitória.

 

P/1 – Conta um pouco dos seus pais, sua mãe e seu pai, o que eles faziam? Como eles eram?

 

R – O meu pai vivia da pesca, depois viveu da lavoura  e da agricultura, a minha mãe sempre dona de casa.

 

P/1 – E a casa que o senhor nasceu, como  era a casa em que vocês nasceram?

 

R – Era casa de estuque, eram os paus assim, barreado com barro, né, de estuque, de sapê e tábua, usava esses tipos de coisas, era tapagem antigamente.

 

P/1 – E era uma casa grande? Como  era?

 

R – Grande e comprida. Tinha poucos cômodos, quatro cômodos, mas compridona.

 

P/1 – Eram muitos irmãos, quantos filhos?

 

R – Eram nove irmãos.

 

P/1 – E como era o dia a dia, para comer, por exemplo?

 

R – O dia a dia na lavoura, existia fartura, né, porque a gente trabalhava na lavoura, mas depois, quando viemos para a pesca, era mais difícil. Tínhamos  mais dificuldades sobre a pesca, eram muitos irmãos e  tudo pequeno. Quando meu pai morreu me deixou com a idade de sete anos, eu fui criado um tempo por minha irmã casada e depois, com nove anos eu comecei a trabalhar, nove, nove anos, eu comecei a trabalhar para ajudar minha mãe, aí a vida foi dura, foi difícil, né, trabalhei muito, trabalhei na roça por muito tempo.

 

P/1 – Esse período da roça, vocês tinham roça na casa de vocês ou trabalhavam em outra?

 

R – Não, não, trabalhava em terra dos outros, era colono, né, o nome é colono.

 

P/1 – Uma parte ficava para vocês? Como é que funcionava?

 

R – Não, geralmente, na época nem ficava nada para o dono da terra, muito pouco, ficava mais para a gente, porque o meu cunhado era herdeiro  dessas terras, então conversamos com o pai dele e tal e ficamos lá um bom tempo. Depois viemos para cá e começamos a pescar.

 

P/1 – Mas esse começo da lavoura, vivia só da lavoura?

 

R – Só da lavoura.

 

P/1 – E no dia a dia o que vocês comiam? Comiam o que plantavam?

 

R – É, da lavoura a gente usava muito o milho, feijão, batata e criava muito, então existia aquela fartura e também fazíamos  muita farinha.

 

P/1 – Tinha algum prato, alguma coisa que a sua mãe fazia que você lembra?

 

R – Ela fazia muito angu e milho verde, isso geralmente era a nossa alimentação. Pão a gente viu uma vez, era difícil, porque para chegar onde comprava o pão tinha que andar muito, nós tivemos fartura de pão sim, mas quando o meu avô foi mexer com padeiro, trabalhou muito tempo na padaria, mas com pouco tempo que estava lá, ele perdeu a visão, aí não recuperou  mais e morreu cego.

 

P/1 – E como é que era Barra nessa época, tinham muitas casas?

 

R – Olha, pouca casa existia aqui na Barra, não tinha muita casa não, a única coisa que eu sei, porque eu conheci, logo ali tinha o cemitério, era no mesmo local que é hoje. Agora, nessa rua, onde estão aquelas casinhas, ali existia uma casa só, uma lavoura de caju, tinha um papagaio, que ele vigiava a gente, se ele visse a gente apanhar caju ele chamava a dona do cajueiro e dizia que a gente estava roubando caju, pensa um papagaio.

 

P/1 – Gritava: “Tá roubando caju, tá roubando caju”?

 

R – Ele dizia assim: “Dona Justina, tem gente roubando caju”, falava mesmo,  e a dona dessa propriedade, ela geralmente era boa de coração, a gente chegava lá, pedia um caju a ela, se a pessoa chegasse e pedisse: “Me dá um caju”. Ela apanhava uma cuia,  você sabe o que é uma cuia?

 

P/1 – Sim, é uma baciona.

 

R – Não, não, é uma vasilha, dava o nome de vasilha, não sei como é que dava o nome na época, então cortava no meio, cerrava, faziam duas cuias, davam duas cuias, então, ela apanhava aquela cuia, mandava a gente ir lá catar o caju, catava, enchia, tinha que trazer para mostrar a ela, assim apanhava dois ou três e o resto dava para gente, ela queria assim e assim a gente fazia, bom, eu fazia assim, eu não sei se os outros faziam, né. Beirando aqui existiam só duas casas, assim, mais ou menos aqui logo na entrada , existiam essas duas casas e para lá não existia mais nada, não existia casa, era mangue. Lá na frente tinha uma passagem d’água com uma pontezinha, uns tratavam como ponte, mas existia mesmo uma pinguela, um negócio assim, né, então existia essa ponte. Depois dessa ponte existia a passagem dos moradores, mas poucas casas salteadas, de onde nasceu essa pinguela, mas não era aterro, era areia, areia de fora a fora, então essa areia ia embora, aonde vocês passaram, não sei se você foi, mas eu acho que a moça foi, existia uma manilha que está lá até hoje e naquela manilha ainda existia outra ponte,  quando a  maré estava cheia formava um rio, mas com a maré seca passava por aqui, mas com a maré cheia tinha que passar na ponte, existia essa ponte também, mais ou menos uns 300 metros de ponte.

 

P/1 – Como é que era para se deslocar aqui?

 

R – Só passavam pessoas, carro não, não tinha carro, os carros davam à volta, vinham e entravam ali perto do cemitério. Só existiam duas vendas, hoje chamam de mercearia e supermercado, naquele tempo era venda, existiam só duas vendas nessa época, era umazinha aqui pequenininha, um botequinho e a outra lá na frente,  mas essa era uma venda e ficava antes da ponte. Depois da ponte para lá existia também, mas tinham poucas casas, eram bem poucas casas, inclusive na rua onde eu moro hoje, antigamente era Rua da Palha, que se tivesse umas 30 casas era muito, só existia uma de telha, o resto tudo era tábua, foi onde eu conheci minha esposa, onde eu me casei com ela e moro na mesma casa até hoje.

 

P/1 – O senhor falou da venda, como era? Tinha dinheiro, faziam trocas e como funcionavam as vendas?

 

R –Tinha, era naquela época, gastões, réis, mais ou menos eu lembro que era assim, teve gastões, tinha réis, não enrolava farinha, se tivesse que comprar sal tinha que levar o depósito, se fosse banha você tinha que levar o depósito também e assim por diante. Se quisesse comprar banana tinha: “Me dá 200 réis de banana”, o cara pá, um monte de banana, 200 réis dava, tá entendendo? Vendia assim,  uma galinha, ovos, essas coisas todas se vendiam.

 

P/1 – E como eram as relações das pessoas, dos vizinhos e da comunidade?As pessoas se davam bem?

 

R – Ótimo, boa, uma vizinhança boa, ainda se encontram muitos vizinhos aqui e que fazem o que se fazia antigamente. Naquela época o vizinho ia lá  e dizia: “Me empresta uma caneca de açúcar”; “Me empresta um pouco de pó”; “Me empresta um litro de farinha” e por aí vai. O outro matava um porco e aí vinha alguém e  falava: “Dá um pedaço pra fulano pra almoçar”, o outro dava, então existia essa boa relação. Hoje ainda tem alguns assim, algumas pessoas que ainda fazem essas gentilezas,  falando vizinho: “Ó, fulano, se precisar pega aqui comigo”, ali a minha vizinha, ela mesmo faz isso e  é assim por diante. A vida aqui era assim nessa relação, só que era difícil de se ganhar o dinheiro, emprego era muito difícil, naquele tempo tinha o grupo escolar aqui, mas vinha professora de Campos para dar aula, para se formar uma professora aqui era novidade e todo mundo dizia: “Em Barra de Itabapoana se formou uma professora”, hoje não, hoje já se forma juiz, médico, advogado, hoje evoluiu muito, mas antes tinham essas dificuldades para as coisas.

 

P/1 – Você falou um pouco do seu pai, como eram o seu pai e sua mãe? Eram muito bravos? Como  era a criação?

 

R – Não, minha mãe era legal, era boa, puxei a ela, eu acho que eu puxei a ela, meu pai  faleceu, mas ele era meio durão, sabe? Ele era durão, ele olhava para a gente tinha que sair fora, olhava, tinha que ir, já minha mãe não, minha mãe tudo queria passar a mão por cima, mas sempre a mãe  passa a mão por cima e tal, mas ele era durão, não era de bater ou de machucar, entende? Hoje  não pode dar um tapinha, não pode dar mais, né.

 

P/1 – Vocês tinham algum hábito? Vocês tinham horário para comer todo mundo junto, tinham algum costume?

 

R – Tinha horário, o horário era 11 horas, isso aí tinha.

 

P/1 – E as brincadeiras de infância, quais eram as brincadeiras de vocês?

 

R – Olha, as brincadeiras de infância aqui eram brincar de pique, pique-bandeira, pique- esconde, existiam outras, tinha muita brincadeira e jogo de bola.

 

P/1 – Vinha muito para praia, para o mar, brincavam no mar, com água ou não? Na lagoa vocês brincavam?

 

R – Brincávamos, tinha a lagoa para gente tomar banho, tinha a época da água salgada, a época da água doce, tudo isso aí, hoje é difícil, hoje a água aqui está poluída, mas essa água aí, nós nos alimentamos  de água, bebia água, água desse rio aí, hoje está poluída, é barco, é óleo, enfim, animal, fossa descarregando para o rio, antigamente a gente vivia dessa água.

 

P/1 – O senhor falou de beber essa água, como é que era, tinha que ir buscar a água, não tinha água encanada, como  era?

 

R – Não, o pessoal carregava na cabeça essas águas, a minha mãe mesmo carregava muita água, sabe aquelas latas, esses galões de óleo, não tem esses galões assim grande? Aqueles galões cheios d’água, trazia na cabeça, carregava, quem tinha condições até pagava, quem tinha condição pagava para carregar, pagava, né, minha mãe mesmo ganhava um dinheirinho carregando água para os outros, ela ganhou muito, quem não tinha como pagar carregava, levava na cabeça. Aí quando a água salgava, porque a água ficava muito salgada, levava dois ou três dias devido a maré ser muito grande, maré de março por exemplo, aqui a água salga, a maré cresce muito e aí aparecia um carro para dar água para as famílias, precisava de um carro, quando não era o carro da Ducremon, aqui de Buena, era o carro da fazenda São Pedro, de um político grande que tinha aqui de nome Simão Mansur, ele dava, mandava dar água para o povo.

 

P/1 – Seu Almir e energia elétrica, demorou para chegar aqui? Você lembra quando chegou?

 

R – Ó, energia elétrica a minha família tinha, quando eu me casei eu casei com energia elétrica, só que era bem pouca, era o gerador que tinha aí, quando era 15 para às 23 dava o sinal, 15 para às 23 dava o primeiro sinal, o segundo, o terceiro  e 23 e meia, não tinha mais luz. Eram poucas casas que tinha também, não era, não era a Barra em peso,  hoje não, hoje está geral, né, hoje é beleza.

 

P/1 – O senhor falou do grupo escolar, o senhor chegou a frequentar?

 

R – Não, eu não cheguei porque na época tinha que ter registro, eu me registrei com a idade de 13 anos mais ou menos, foi registrado em Campos, minha irmã tinha uma irmão que morava lá e eu foi registrado lá em Campos, me registrei com 13 anos, então eu não estudei nesse grupo escolar.

 

P/1 – Mas o senhor chegou a frequentar escola?

 

R – Frequentei escola, primeiro eu fui para o Rio com uns dez pra onze anos,  fui criado na casa de um pessoal um tempo, me botaram no colégio lá, um colégio particular à noite, estudei, depois eu vim, eu fui para Campos, para casa de uma irmã minha e eu estudei um ano e meio ali naquele quartel, não tem o Quartel da ponte, de Campos?

 

P/1 – Sei.

 

R – Antigamente tratava que era Remonta, tinha o nome de Remonta, né, grupo, acho que tinha o nome General Dutra, eu estudei ali, um ano e meio, aí depois vim para cá, ajudar a minha mãe, ela estava com dificuldades, tinha também meus irmãos e por aí vai, eu não estudei mais, eu cheguei a fazer, fiz a primeira B, que antigamente tinha, né, primeira B e a metade da outra, a segunda série, por aí eu parei e comecei a trabalhar.

 

P/1 – Seu Almir, deixa eu te perguntar, o senhor falou que chegou a ir para o Rio de Janeiro, morar no Rio de Janeiro.

 

R – Fui.

 

P/1 – Foi muito impactante perceber muitas coisas diferentes?

 

R – É, naquela época não tinha grandes coisas de diferente no Rio, não, a população era muito grande, é claro, né, mas não tinha muita diferença.

 

P/1 – Mas não teve nada que te surpreendeu, como os prédios, alguma coisa que te impactou?

 

R – Prédio tinha, eu acho que a televisão me chamou a atenção, era diferente porque tinha pouco tempo, né, era difícil a casa no Rio de Janeiro que tinham televisão naquela época. Eu estou com 63 anos então, há 54 ou 55, né, era difícil as casas que tinham televisão no Rio, no Rio era difícil.

 

P/1 – O senhor falou que já teve que começar a trabalhar bem novo, qual foi o primeiro trabalho, como foi?

 

R – Olha, o meu primeiro trabalho foi na roça, quase a troco da comida, né, pense, quase a troco da comida, depois fui crescendo e tal, aí comecei a trabalhar a dia, aquele negócio, eu cheguei a trabalhar a dia, com direito do almoço, a janta não, só o almoço. Fim de semana um trocadinho, eu entregava à minha mãe para sobreviver e assim foi levando até um certo tempo, da idade de uns 14 anos, não, acho que até uns 15 anos, uns 15 para 16 anos eu cheguei a trabalhar, depois eu deixei e disse para mim mesmo: “Sabe de uma coisa, eu vou pescar”.

 

P/1 – E como que a pesca entrou na sua vida?

 

R – Os meus irmãos, os mais velhos, eram pescadores, começaram a pescar, eu trabalhava arrumando a roça para os outros a dia, tal, aí quando foi um dia eu cismei, eu falei assim: “Poxa, sol quente, mês de janeiro”, mês de janeiro o sol é quente, né, mês de janeiro, sol quente, eu falei assim: “Poxa, todo mundo passeia, todo mundo tem dinheiro, tem roupa melhor, pô, tô trabalhando, não tenho nada disso, sabe de uma coisa?”, assim mesmo, não é mentira, não, eu peguei, eu trabalhando sem camisa, com o chapéu na cabeça, peguei a enxada e disse assim: “Desde hoje que eu não trabalho pra ninguém”, joguei a enxada para trás, e segui, também não olhei para trás, não, segui, peguei a camisa e fui embora. Aí o dono da lavoura foi lá e disse: “Que isso? Vou pagar você” e eu respondi “Não, também não quero receber também não, deixei e também não quero receber esse dia, esse dia eu não quero receber, vou receber para trás, esse dia que eu deixei eu não quero” e nunca mais trabalhei, aí comecei a pescar e pesquei por muito tempo.

 

P/1 – O senhor falou que os seus irmãos pescavam, eles aprenderam com quem, como  foi isso?

 

R – Já veio de pai para filho, o meu pai.

 

P/1 – Os irmãos mais velhos então conseguiram aprender com o seu pai?

 

R – Aprenderam, meu pai trabalhou muito, trabalhou nas usinas, a época da pesca difícil ele ia para a usina trabalhar, cortar cana, tudo isso, até isso eu também já fiz, cortei cana, graças a Deus, só não levei a mão do que é dos outro, mas trabalhar trabalhei muito.

 

P/1 – E essa coisa de pescar como se aprende, como é que começa, assim, para ir pescar, a primeira vez que vai para um barco? O senhor lembra a primeira vez?

 

R – Lembro, lembro, a primeira vez que eu fui para o mar a minha mãe aprontou comida, a comida de antigamente, assim, antigamente a comida era farofa, uma farofinha, botava numa latinha, quem gostasse de café levava, quem não gostava levava, mas eu não cheguei a comer, comecei a enjoar, porque a primeira vez a pessoa enjoa, nem todos, mas eu enjoei, também foi uma vez só, aí eu me lembro que eu peguei uma pescada,  daí para frente comecei e nunca mais enjoei, comecei a pescar, pesquei por muitos anos e quando eu me casei já vivia da pesca.

 

P/1 – Quando o senhor começou a pescar foi em água doce?

 

R – No mar.

 

P/1 – A primeira vez já foi para o mar. Quando você fala que pescou, pegou uma pescada, o que isso quer dizer, é só um peixe? O que é uma pescada?

 

R – É, peguei alguns peixinhos miudinhos, mas primeiramente o peixe que fazia a pessoa sobreviver para ganhar o dinheiro é a pescada, né, peguei a pescada, aí comecei, a gente sente aquele gosto de ganhar o dinheiro, peguei um peixe e assim eu comecei.

 

P/1 – Você lembra o que fez com esse primeiro dinheiro que você ganhou?

 

R – Ó, eu não tenho ideia, não lembro, eu não sei se eu dei à minha mãe, se eu gastei, eu não sei, eu sei que eu ganhei esse dinheiro, aí eu não tenho essa lembrança, o que  eu fiz.

 

P/1 – E como é era a primeira vez, vocês iam já com os irmãos, como é que vocês faziam para ir pescar?

 

R – É, a gente acordava de madrugada e naquela época era remo, a gente ia no remo e vinha a pano, que geralmente de manhã quase  não tem vento para levar, mas à tarde já tinha vento para trazer, então a gente vinha a pano.

 

P/1 – Entendi, mas é uma canoinha, uma embarcação, com era?

 

R – É uma embarcação, pegava duas pessoas, hoje você não vê esses, lá para o nordeste, aqui dá o nome de baleeira, batelão, dava o nome de batelão.

 

P/1 – Então eram duas pessoas.

 

R – Duas pessoas.

 

P/1 – E a pesca era com anzol, como é que pescava?

 

R – Anzol.

 

P/1 – Sempre anzol.

 

R – Sempre anzol.

 

P/1 – E como foi isso, vocês sempre foram pescar de anzol? No começo sempre ia com o irmão, acordava cedo, a mãe fazia a comida, e aí como era, ficava um dia inteiro?

 

R – Não, não, a gente ia, saía de manhã, o dia clareando, voltava dez, onze horas ou meio dia, de acordo com o tempo, de acordo com a pescaria, né, porque tudo evolui assim, a gente sai com o tempo bom, de repente, o tempo piora, às vezes, saia com o tempo bom ficava bom o dia inteiro e achava boa pescaria, aproveitava, né, então tudo isso aí conta.

 

P/1 – E nessa época o que tinha de mais abundante, quais eram os peixes que tinham em maior quantidade?

 

R – Olha, na época a fartura mesmo era pescada, sarda, isso é peixe de verão do mar, agora, no inverno aqui era muito “farturento” de tainha e robalo.

 

P/1 – Tainha e robalo.

 

R – É, isso aqui era rico, pescada também, isso aqui era muito rico de pescada, hoje dá muito pouco, mas era muita pescada naquela época, para você ter ideia, eu era criança e via meu pai chegar com a pescada, eles davam lanço na praia, usavam lanço, deitavam o lanço na praia, encher batelão de pescada e  outros peixes.

 

P/1 – O que é o lanço, quando o senhor diz: “Dava o lanço na praia” o que isso quer dizer?

 

R – Soltava a rede assim, ó, na beira da praia,  os peixes vinham, aí juntavam de  seis a oito pessoas para puxar, então aí vinha pescada, vinha sarda, vinha robalo e diversas qualidades de peixe, né, mas não tinha a quem vender, vendia, mas muito pouco, então dividia, por exemplo, se tivesse dez pessoas, se aparecesse alguém para comprar se vendia, o que sobrava dividia, uma parte ia para o dono da rede, que ficava com a maior parte, e para os outros companheiros, cada um fazia o que quisesse fazer, um trocava por galinha, trocava por ovos, o outro salgava para vender salgado, enfim cada um escolhia o que iria fazer com sua parte.

 

P/1 – Não tinha gente para comprar, era isso, era difícil?

 

R – Muito pouca, muito pouca, o robalo naquela época se levava para Campos de ônibus, imagina levava de ônibus.

 

P/1 – O ônibus levava?

 

R – É, robalo e algumas pescadas, já outros peixes não, tinha que salgar porque naquele tempo a aceitação de peixe era muito pouco, muito pouco mesmo, para você ter ideia era pouco e o pescador era discriminado, naquela época as pessoas falavam assim: “Ah, é pescador ih”, você vê que passa filme hoje que o pescador, o estilo de roupa, barbudo, todo esquisito, já reparou isso? Ainda tem  alguns filmes, algumas coisas, agora mesmo estão filmando uma novela, não sei onde é o lugar, mas a paisagem tá muito bonita, né, você vê o cara chegando todo barbudo, então, a vida é assim, mas aquele da novela tá bem vestido, a nossa vida era completamente  diferente, bem pior que aquilo ali.

 

P/1 – Então Campos era uma alternativa, levava para campos para vender?

 

R – É, Campos era o único lugar que consumia peixe, era Campos.

 

P/1 - Outra coisa que o senhor falou, então algumas pessoas trocavam por outros alimentos?

 

R – Trocavam, salgava, trocavam por galinha, ovos, trocavam por farinha, enfim, era a vida, né?

 

P/1 – E para preservar não tinha gelo? Tinha  o quê?

 

R – Ah, não existia gelo, imagina, aqui tinha um bar, ainda tem o prédio tá lá, só que o dono do bar já mudou de prédio, esse é o único bar, era lá que conservava algum peixe, quando era pouco, eles conseguiam fazer uma barra de gelo e botava no ônibus, o ônibus enchia, aquele ônibus de bagagem, alto, botava numa caixa de madeira ou numa lona e colocava aquelas barras de gelo para conservar os peixes, para refrescar os peixes até chegar em Campos, mas não existia fábrica de gelo, não existia gelo.

 

P/1 – Então para conservar temperava?

 

R – Isso, para refrescar primeiro até chegar a Campos.

 

P/1 – E para temperar como é que fazia, você já limpava ele?

 

R – Não, não, ele ia sujo, sujo, ele ia sujo.

 

P/1 –  Seu Almir, quais outros tipos de pescaria você praticava?

 

R – Na época era só pescaria de enseada,  logo quando comecei, aí com a idade de 18 anos eu tirei o documento de pescador, 18 anos, depois tirei o direito de pescador,  a pescaria foi melhorando, então surgiu a pescaria de camarão, arrastão de camarão, do outro lado do Espírito Santo, aqui desse rio com o Espírito Santo, montaram um frigorífico com dez barcos, começou a arrastar camarão e esse camarão ia para o Rio, depois passou a colocar uma fábrica de gelo, tinha gerador e o dono colocou uma fábrica de gelo.

 

P/1 – Tudo pelo frigorífico?

 

R – É, e tinha um caminhão que puxava e nós trabalhávamos, eram dez barcos, esses arrastavam o camarão,

 

P/1 – E você ganhava pela quantidade que pescava ou tinha um fixo nesse frigorífico.

 

R – Não, aquilo ali eles tinham o preço fixo, mas fixo assim, digamos, na época o preço era de dois cruzeiros, era o negócio de cruzeiro, acho que  era cruzeiro, não sei mais.

 

P/1 – Mas era por uma quantidade dois cruzeiros?

 

R – Não, dois cruzeiros, você ganhava pela quantidade que você amarrasse, se você pegasse pouco vendia dois cruzeiros, ia dar pouco, mas se você pegasse uma quantidade boa claro que ia render no dinheiro, então a gente vivia assim.

 

P/1 – Fale um pouco de como é a pesca do camarão. Como você pega o camarão, é diferente?

 

R – É com rede de arrastão, uma rede.

 

P/1 – Rede de arrastão.

 

R – É rede de arrastão, mas com  barco a motor.

 

P/1 – É diferente a rede de arrastão, como é essa rede?

 

R – Aqui na época a gente conhecia como balão, hoje é arrastão rede de camarão, mas antigamente era conhecida como balão, então a gente trabalhava com duas redes, cada barco trabalhava com duas redes, existia muita fartura, muito camarão, se você fosse e apanhasse 60 quilos, no outro dia você não ia nem querer ir, eram 200 quilos, 300 quilos, muita pescadinha, muita qualidade de peixe no meio, hoje...

 

P/1 – Hoje é mais difícil?

 

R – E como ficou.

 

P/1 – O senhor falou que ficou um tempo pescando camarão e quais outros tipos de pesca o senhor também praticou? O camarão é água doce?

 

R – No mar, só no mar, aí dedicava só a pesca no mar, naquela época dedicava só ao camarão, devido aos horários, a gente saía  meia noite ou uma hora, às vezes até ás   duas horas da madrugada e voltava três horas, isso ia de acordo com o tempo, então o cansaço não dava para a gente pular para outra, né, tinha que descansar e assim foi, a gente trabalhou para a firma, essa firma acho que funcionou uns três  ou quatro anos, mas ela faliu, foi passando de dono,  um negócio de empréstimo com o governo lá do Espírito Santo, mas faliu. Aí eu voltei a atividade, fui trabalhar de ajudante de pedreiro, eu já era casado,  a primeira vez que eu fui trabalhar de ajudante de pedreiro foi na reforma desse cemitério aqui, depois fui para um lugar de nome Santa Luzia, lá também trabalhei  na reforma do cemitério. Era um cemitério jesuíta, era tudo feito de pedra, os muros, as paredes eram de pedras, era só pedra, o lugar era tão duro, era tão duro que o coveiro deixava meia cova aberta, era sério mesmo, meia cova aberta, o cara chegava, por exemplo, o cara morria, vinha um da família, alguém lá avisa ele: “Fulano morreu”, era para que ele pudesse  começar logo cedo a cavar, porque assim  já ficava meio caminho aberto, porque era barro tinha que colocar água para amolecer e cavocar.

 

P/1 – O senhor falou que nesse meio tempo casou, como conheceu sua esposa?

 

R – Já era casado.

 

P/1 – Quando o senhor conheceu a esposa, como  foi?

 

R – Eu já era casado, de lá, eu sempre gostei de trabalhar e com os companheiros, vim para Guaxindiba, você conhece Guaxindiba, não conhece?

 

P/1 – Sim.

 

R – Tem o clube do Guaxindiba, eu trabalhei na reforma daquele clube, depois de lá eu vim, comecei a pescar novamente, aí comecei a pescar de linha, acabou o negócio do camarão e tal, nessa época tinha o desenvolvimento da pescaria de camarão de barco em Guaxindiba, tinha uma cooperativa e lá fracassava de camarão, os barco vinha para Barra, aí eu peguei conhecimento com a turma, o dia que faltava um iam lá em casa me chamar de madrugada, eu ia, o negócio era ganhar o dinheiro, né, aí eu vim. Eu já era casado, aí o negócio piorou mais, aí meu irmão também foi para o Rio, trabalhar na pesca no Rio, uma pescaria de mar novo, que trata abrolho, mar novo é perigoso, muito perigoso, aí eu disse: “Essa aí eu não vou, não, essa pescaria eu não vou, eu vou trabalhar em outra pescaria”, aí eu fui trabalhar na época e eu tinha 25 ou 26 anos, por aí, eu fui trabalhar na traineira, traineira é essa que traz muita sardinha, descarrega na fábrica para enlatar, eu trabalhei muito tempo, muito tempo mesmo.

 

P/1 – Aí trabalhava em alto-mar?

 

R – É alto mar, só que não era tão perigoso como comércio de mar novo, abrolho, eu trabalhei, conheci muito a Ilha de Santana, aquela ilha que tem em Macaé e Cabo Frio.

 

P/1 – Aí tinha que sair de casa, ficava um tempo longe?

 

R – Ah, não, aí é o seguinte, eu fui para o Rio, eu tinha um colega que já morava lá, vivia pescando também, mas por intervenção também do meu irmão ele mandou me chamar na época para eu ir  ir para lá, eu fui, encontrei o apoio dele, tal, eu fui, eu levei quatro meses e cinco dias sem vir em casa, eu já tinha um filho, Felipe, quatro meses e cinco dias, quando eu cheguei o meu filho não me reconheceu, estranhou, deixei ele novinho e ele não estava nem engatinhando ainda.

 

P/1 – Não tinha um ano ainda?

 

R – Tinha não, não tinha ano ainda não, ele não me conheceu e estranhou. Eu trabalhei na pesca da sardinha lá, na época ganhei um dinheiro, eu conheço Cabo Frio, conheço Angra dos Reis e Santos.  Fui ao sul de Santos bastante bem e essas áreas de lá, todas eu conheço.

 

P/1 – E aí depois acabou votando?

 

R – Aí eu trabalhei muito tempo no Rio, naquela época a exportação de sardinha estava aberta e ganhamos muito dinheiro, deu para ganhar muito dinheiro na época, né, eu sempre fui colono, gostei de colonizar, pensava, eu chamei até a minha esposa na época para nós irmos morar lá, mas ela disse: “Ah, não vou não.” Ela morou um tempo no Rio, mas no tempo da infância, ela me disse: “Não vou não, tenho a minha mãe aqui, a minha mãe é doente”, eu pensei: “Tudo bem, tudo bem”. Aí eu voltei para lá, levei quatro meses e cinco dias, depois passei a vir de dois em dois meses, às vezes,  três meses ou até 20 dias. Às vezes o barco chegava em Cabo Frio, descarregava lá, levava dois dias para sair para o mar, eu conversa com o mestre do barco, vinha em casa, passava só uma ou duas noites, ia embora e a vida foi assim, aí eu fui para o Rio, quando eu vim do Rio eu já tinha uma “economiazinha” mais ou menos, eu fiz um barquinho de sociedade, trabalhei dois anos de sociedade com um rapaz.

 

P/1 – Você fez o seu barco ou comprou um barco?

 

R – É, um barquinho,  um dos primeiros de  motor que saiu da Yamaha marítimo, aí eu comprei,  fiquei uns dois anos e pouco sócio, depois eu comprei a parte dele, fui tocando e até hoje vivo tocando pescaria.

 

P/1 – E quando você saía para pescar nesse seu barco, como era a tripulação, quem você chamava?

 

R – Não, já tinha um companheiro certo todo dia, no dia a dia, quando ele não quisesse mais me avisava: “Não vou pescar mais, não dá”, aí eu tinha que arranjar outro.

 

P/1 – E vocês iam em duas pessoas?

 

R – Duas pessoas, camarão são duas pessoas.

 

P/1 – Pescando camarão?

 

R – Sim, duas pessoas, outros tipos de pescaria, às vezes, depende de mais um ou dois, né.

 

P/1 – Mas em geral o que o senhor pesca é camarão?

 

R – É, geralmente eu toco pescaria de camarão, agora está em extinção, camarão está  em extinção, então estou com outra pescaria, trabalho de bijuda, pescada, sarda, anchova, cação, corvina, esse tipo de peixe.

 

P/1 – Durante a semana sai quantas vezes para pescar ou vai todos os dias?

 

R – Agora, agora nós estamos assim na beirada da praia, mas em outros meses, como no final desse mês, por exemplo, aí a gente  leva dois dias no mar, vai num dia e volta no outro, depende se estiver tendo pesca, depende da situação da pescaria.

 

P/1 – Quando fala que está na beira do mar o que quer dizer?

 

R - Geralmente, nós estamos na beira da praia, assim como agora, uma ou  duas milhas fora da praia.

 

P/1 – Próximo você quer dizer?

 

R – É, é, trabalhando com redes, tirando esse fim de mês agora, já começa a trabalhar com sete,  oito ou nove milhas, às vezes, vai até dez milhas para fora.

 

P/1 – E isso varia, a distância, o lugar onde vocês vão e o tipo de peixe varia de acordo com o período do ano, como é isso?

 

R – Não, não, é de acordo com a pescaria, que às vezes você acha pescaria, não acha aqui na beira, tem que ir abrindo fora, só procurando, procurando,  aí vai, está entendendo, aí no meio de julho para agosto já não dá mais, já vem outro vento, muito vento nordeste, aí não tem como a pessoa trabalhar porque já começa a beirar novamente, voltamos para pescaria de camarão que é para praia, porque o camarão dá na beira da praia, daqui para aquela casinha onde vocês estiveram, ou até menos, daqui para a esquina, na beirinha da praia.

 

P/1 – E  o camarão, quando ele não dá, o senhor vai avançando, vocês vão indo para frente?

 

R – Não, geralmente o camarão é o seguinte,  você sai para pescar ele e você não acha, estava ruim, quer dizer achar acha, mas não é uma quantidade que compensa por causa do óleo, o óleo caro, né.

 

P/1 – Que quantidade que compensa, a partir de que quantidade vale a pena?

 

R – Dependendo do preço, aqui varia muito de preço, por exemplo, hoje camarão tá cem reais o quilo, você com 50 quilos você faz R$ 300, digamos assim, né, R$ 300, você tira aí uns R$  60 ou R$ 70 de óleo, então fica aí 200 e poucos reais, 230 ou 240 reais, para dividir entre quatro pessoas, porque o barco tem duas partes e cada pessoa tem uma parte, então é dividido por quatro.

 

P/1 – A divisão do lucro é igual?

 

R – Não, o do barco sempre é mais, é dividido em quatro, duas partes para o barco e duas para dividir entre os pescadores, tá entendendo? Quer dizer, dá para equilibrar, quando você pega 80 ou 100, melhor ainda, mas isso depende da época, ele agora tá nesse preço, mas pode chegar  até  três e cinquenta ou quatro reais o quilo no inverno, mas quando chegar no verão ele vai a oito, nove ou até dez, nos meses de janeiro e fevereiro, no  carnaval, ele chega até a nove reais ou dez reais.

 

P/1 – E esse barco que o senhor tem é o mesmo que você comprou quando o senhor voltou lá do Rio de Janeiro, é o mesmo barco?

 

R – Aí eu foi só melhorando, era motor menor, aí fui ajeitando, vendia, comprava um maiorzinho, enfim, hoje o barquinho é maior e a capacidade do motor também é outra.

 

P/1 – E fora daqui de Barra, o senhor vai para outros lugares com esse barco pescar ou é normalmente concentrado mais aqui mesmo?

 

R – Não, não, vai, geralmente a gente vai para outros lugares, às vezes, para caçar o camarão a gente ia lá para São João da Barra, trabalhava lá no Açu, cheguei a trabalhar em Barra de Itapemirim e o mais longe que eu fui com esse barco aí, eu só não, e diversos barcos foram, a Conceição da Barra, já ouviu falar em Conceição da Barra?

 

P/1 – Já.

 

R – Já estivemos lá, aquele barco que a senhora viu colocar lá, aquele barquinho que estava com a rede, nós tivemos lá em Conceição da Barra, que isso aqui era muito rico de peroá, a senhora conhece o que é peroá, não conhece? Isso aqui era muito rico, não é só aqui, não, Atafona, Maratais, Guarapari, aquelas praias, isso era rico em peroá, muito rico mesmo, aí foi só fracassando, fracassando, fracassando, chegou um ponto que nós tivemos que ir para Conceição da Barra, levei lá uns três meses, mas lá também fracassou, aí voltamos,  hoje você vê, hoje tem dois frigoríficos aqui, estão desativados, parados, fechados, não tem como.

 

P/1 – Quem são os principais compradores dos peixes?

 

R – Desse peixe aí?

 

P/1 – É, no seu caso camarão sobretudo, né, quem compra?

 

R – Aqui ainda tem um comprador e tem dois frigoríficos ainda, nós sobrevivemos do camarão e de outros peixes.

 

P/1 – Aí normalmente o senhor negocia para ver qual será melhor?

 

R – Não, não, os preços são iguais.

 

P/1 – Os preços são iguais?

 

R – É, ele não bota preço diferente, não, quando um aumenta um pouquinho a gente vai lá: “Fulano aumentou, como é que vai ficar?”, ele responde: “Vou aumentar também”, e tal, sempre tem aquela brigazinha, aquela confusãozinha e tal, mas no fim dá tudo certo.

 

P/1 – O comprador é daqui ou o comprador é de fora?

 

R – Não, é daqui, eles mandam para o Rio e outras praias.

 

P/1 – O senhor falou um pouco dessa variação, o que o senhor acha que mudou de antes na pesca? Hoje em dia o que mudou?

 

R – Olha, mudou assim, mudou para melhor em termos de material, né, evoluiu, porque antigamente aqui ninguém sabia o que era sonda, então hoje a gente tem sonda, tem barco que tem sonda, tem GPS [“Global Positioning System” que em português significa “Sistema de Posicionamento Global”], geralmente aqui o que se  conhecia muito era bússola, muito pouco, você ia para fora pela serra, quando a serra tapava o cara ficava meio perdido, aí via pelo sol e a posição do vento, tá entendendo? Hoje não, hoje tem bússola, GPS, hoje você anda por aí dez dias para fora, joga o seu tijolo, bateu lá no fundo, marca a posição, daqui a um mês, um ano, você vai, navega, chega lá, chega na posição  que o GPS dá o sinal, é ali que tá aquele tijolo, sendo uma coisa que bate e fica, né, não uma coisa que anda, uma pedra, uma pedra bate não sai mais, esse aí vai acusar, agora, troço que anda.

 

P/1 – Isso é legal, o que você estava falando, de como vocês se orientavam antes que não tinha essa tecnologia, né, o senhor, por exemplo, se orientava pela serra, como é era?

 

R – Ia pela serra, nós íamos pescar pela serra, aí a serra tapou, veio aquela neblina, tapou a serra eu disse: “E agora? Não, tem a posição do sol, o sol assim,  bota aqui do lado só um pouquinho, a gente vai dar para chegar em terra”.

 

P/1 – Agora, se ficou nublado, perdeu o sol, aí a coisa fica feia.

 

R – É, aí fica meio perdido, né, olhando, vendo a posição das águas com o mar, tá entendendo,  antigamente quando era barco a pano,  meu pai pescou muito peroá, muita garoupa, esses peixes assim, eles quando vinham cedo, chegavam cedo na praia, estava tudo bem, mas quando às vezes, não tinha vento para voltar, eles chegavam à noite, então o que que eles faziam à noite? Iam na praia, faziam um fogo, uma fogueira, faziam uma fogueira no porto  onde são acostumados, né, digamos, eu costumava chegar aqui,eles sabem que esta pelo sul, pelo norte da posição deles, sabem, navegando eles sabem, eu falava: “Os barcos, já anoiteceu e não apareceu ninguém, faz uma fogueira”, aí todos juntavam aquele bocado de lenha, faziam aquela fogueira, aí o cara vinha navegando no pano, aí via aquele reflexo, aquele fogo, e eles falavam: “Ó, já fizeram a fogueira pra gente, o porto tá lá, pelo norte do porto ou pelo sul do porto, de acordo com a posição do vento eles controlavam o pano para chegar naquele lugar.

 

P/1 – E alguma vez o senhor correu perigo no mar, Seu Almir,  têm alguma história  que  ocorreu um perigo? Alguma história difícil no mar?

 

R – Olha, eu não cheguei  a passar, não, mas tem muitos colegas meus que já passaram, inclusive aqui já teve navio que cortou um barco, salvaram, a tripulação salvou, teve um que tombou também, outro barco, um rebocador salvou, esse foi parar em Macaé, tá entendendo? Agora há pouco tempo, teve um barco que foi ao fundo, não deu tempo de socorrer ninguém, morreu todo mundo, o barco também foi embora.

 

P/1 – O barco passa em cima da embarcação?

 

R – Não, não, não, dizem que temporal, ainda pediram socorro, mas quando chegaram não alcançaram mais, muito distante do outro, esse foi ao fundo, morreram cinco, e agora há pouco tempo, um negócio de um ano e pouco, teve outro que caiu dentro d’água, também não voltou, alta madrugada fazendo vigia, geralmente esse barco grande trabalha alinhado nos navios, né, então alinhado no navio, durante a noite fica uma luz, a luz do top, em cima da casinha fica uma luz acesa e essa luz acesa serve de vigia, mas geralmente fica sempre um numa vigia, por exemplo, são cinco tripulantes, dá mais de duas horas, duas e meia de vigia para cada um, às vezes, o cara dorme, vacila, ou ele vem, fica na borda assim do barco, o mar grosso, muito vento, de repente um acidente cai n’água, o peso da maré é difícil, é quando acontece esses tipos de acidentes.

 

P/1 – E tem alguma história de pescador, Seu Almir, alguma história boa para contar?

 

R – Como assim?

 

P/1 – Uma história de algum peixe muito grande, história de pescador.

 

R – Olha, geralmente não é história, geralmente é verdade e ainda tem, o maior peixe, eu não cheguei a ver, não vi, nessa época eu estava trabalhando no Rio, mas chegaram a pegar um cação de quase mil quilos ou mais de mil quilos, parece que foi cortado em dois pedaços e foi o carro aqui da companhia da Ducrebon, o carro buqui...que embarcou no carro para levar para o Rio. Mas não foi vendido, a carne muito escura...um dos pescadores mora em Arraial do Cabo e os outros moram aí na Barra, era um senhor já de idade. Agora, que eu peguei, o maior peixe que eu peguei foi de 130 quilos, foi um cação, eles diziam que era tubarão, tubarão é 500 ou  660 quilos, para mim era cação, 130 quilos, esse eu já peguei.

 

P/1 – E qual é a sua relação com os outros pescadores, Seu Almir, tem uma relação boa, como é?

 

R – É, boa, graças à Deus eu não tenho inimigo, nunca tive, graças à Deus, procuro fazer amizade, o máximo que eu puder fazer eu faço, isso aí eu nunca tive.

 

P/1 – E os pescadores se ajudam, por exemplo, de falar: “Olha, o mar tá bom”?

 

R – Ajuda, se comunicam, isso aí se comunicam: “Ó, o tempo tá bom, o tempo não tá, o mar aqui fora tá ruim, mas na beira tá bom, as água estão indo para onde, puxando o sul ou o norte”, eles informam: “Não, tá ao sul, está ao norte, então dá para eu ir ou  não, tem que trabalhar com a água norte, água sul não vai servir para mim”, tem esse tipo de coisa, porque a gente tem rádio de comunicação.

 

P/1 – E quando está lá embarcado, você passa muito tempo, com é o cotidiano lá no barco, se fala, fica todo mundo muito tenso, como é?

 

R – Não, a gente conversa, na hora do trabalho trabalha, que geralmente o pescador é aquele negócio, é grosso, assim, de se lidar com o material lá fora, é tudo na base da grosseria, não sei o que, é pesado, o serviço lá fora é pesado, e aquele negócio, você tem que ser, ter jogo de cintura, se você for mulherengo você cai n’água, então é você caindo por cima de rede, é dando encontrada no colega, enfim, procurar se livrar, então o troço é meio grosso, é abrutalhado, mas acabou dali todo mundo senta, vamos bater papo, liga um radiozinho, escutando uma música, contando palhaçada, para poder passar o dia.

 

P/1 – E tem alguma associação, você já participou de alguma associação ou cooperativa, Seu Almir?

 

R – Olha, aqui na Barra nunca teve cooperativa de pescadores, teve associação de pescadores, mas durou pouco, muito pouco, eu acho que não durou um  ano, aí parou por ali.

 

P/1 – E você acha importante? O que você acha?

 

R – Eu acho, eu acho muito importante.

 

P/1 – Ajudaria?

 

R – É, ajudaria, ajudaria sim, porque digamos, se juntar hoje, antigamente tinha pouco pescador que podia dizer que era pescador, hoje tem muito pescador documentado, e se todos tivessem a força de vontade eu acho que dava para abrir uma associação de pescadores, com a mensalidade que não  prejudique, porque o número de pescadores hoje, se hoje todos contribuíssem com a mensalidade de dez reais por mês no fim do mês daria um dinheiro muito bom. E geralmente, se levar aí, digamos assim, dois anos, só arrecadando, sem prestar benefício para ninguém, não pode prestar benefício para ninguém, só para arrecadação, depois de dois anos começar a prestar benefício ao pescador que tivesse doente, um remédio, tal e tal, então as coisas mudariam. Mas a que tinha durou pouco, parou por aí, o presidente tá por aí, o dinheiro ninguém sabe por onde andou e por aí vai.

 

P/1 – E aí, Seu Almir, você consegue viver da pesca hoje em dia, dá para viver só da pesca?

 

R – Olha, é duro, se vive com dificuldade, mas se vive, eu posso dizer a você que hoje ainda vivo mais favorável um pouco, porque eu já estou aposentado, é um salariozinho, mas todo mês salariozinho ajuda, né, é um empurrãozinho, né, mas é difícil, é duro, a vida da pesca é dura, é dura porque não ganha tão bem, digamos assim, hoje você vai, chega o fim da semana você ganha aí, a pescaria aqui é na beira da praia, digamos assim, você ganha aí, 300, 400 ou 500 reais, ou até mesmo só 200 reais, mas tem semana que você não ganha nada, o tempo tá aí, tem temporal. Aí quando o tempo melhora você vai e ganha cem, cento e pouco, aí quando os pescadores que ganham, 300,  400 ou 500 tá entendendo, essa de beira de praia, agora essa pescaria lá nas plataformas, essa também dá muito dinheiro, mas o pessoal não aproveita, o pessoal bota droga, bebida, aí chega, na safra do dourado,  chega por viagem  pode ser três mil, três mil e pouco,  ou menos, dois mil, mil e 500, mil, tá entendendo, mas bem pouco aproveita, acho que é a vida cansada, a vida é dura, é dura.

 

P/1 – Isso que você está falando da vida ser dura, você já ensinou para outras pessoas de como é ser pescador? Você formou muitos meninos para serem pescadores, ensinou muita gente?

 

R – Eu? Algumas pessoas, não muitas, né, algumas, algumas pessoas, inclusive os vizinhos.  Os meninos vizinhos vão crescendo, queriam ir para o mar, eu levava, então bora, bora levar para o mar, é aquela história você vai e diz: “Você vai para o mar amanhã comigo. Ó, para você não enjoar leva uma galinhazinha assada, Coca-Cola, a farofinha boa com azeitona, para você não enjoar, porque se você comer você não vai enjoar, não”, aí o cara levava, é brincadeira, enjoa mesmo, aí um pouquinho, não, porque chega lá você vai enjoar, quem vai comer somos nós, você não vai comer é nada, mas enjoa, é difícil, é difícil a pessoa que vai para o mar e não enjoa,  por causa do balanço do mar e aquela “catingazinha” do óleo, né, é difícil, acontece muito. Eu, por exemplo, já levei um, eu levei duas pessoas no mar, um era do Rio, ele era acostumado a alugar barco lá e pescar na ilha que tem lá no Rio, ali em Itaipu, a Ilha de Itaipu, ele era acostumado, disse: “Ó, eu sou acostumado”, eu perguntei: “E esse outro aí?”, ele me disse : “Rapaz, esse outro aí ele viaja muito, Rio –São Paulo, mas de carro, mas ele quer ir para o mar”. Nós levamos no mar, não fomos para demorar, não, nós fomos pescar na beira da praia, na rede, para pescada, cação e tal, aí o que era acostumado estava lá puxando rede, tirando peixe, tal, e eu estava no comando, jogando a rede, barco em posição, tal, ali, aí eu senti o cara, o cara branco, branco, eu falei assim: “Não tá legal não, ele não tá legal, não”, aí cheguei perto dele e perguntei: “Rapaz, você não tá legal, né?”, o cara começava tossindo, tossindo, engasgando, eu falei assim: “Faça o seguinte, senta aí”, em cima de um colchonete  que tem, onde a gente descansa, né: “Senta aí” e ele respondeu: “Não, não vou sentar”, apoiava assim, ficava assim e eu insistia : “Não, rapaz, pode sentar, senta aí, rapaz”, ele falou assim: “Não vou sentar, tô todo cagado”. Eu aguentei o jogo, também não falei nada, não, foi mesmo, aguentei o jogo, pô, o cara não tá legal, aí veio embora, depois nós entramos na boca da barra, eu parei na beira de um barranquinho, a água à vontade, ele tomou um banho, se ajeitou e aí ele que foi contar para os outros a história que ele passou.  Eu não tive coragem de contar, porque se eu contar tu vai dar risada do cara, eu aguentei, pô, eu envergonhar os outros fica chato, mas foi, passou isso aí.

 

P/1 – E o senhor falou do vizinho que você levou, os jovens se interessam, você percebe se os jovens se interessam ou não pela pescaria hoje em dia?

 

R – Hoje, rapaz, hoje pelo contrário, a maioria está deixando, esta deixando porque depois que surgiu muitas firmas e essas empreiteiras, a Petrobras por exemplo, o pessoal tá fazendo curso, o meu filho por exemplo, eu tenho um filho que está com 30 e poucos anos, esses dias falando com a minha esposa, se ele gostasse de pescar eu não vendia o meu barco mais, porque eu daqui um ano e pouco, dois anos vou estar vendendo, não aguento, não vou aguentar mais, a idade está chegando, as pernas não aguentam mais por causa do balanço do mar e a gente sente isso que não dá mais. Então eu ia vender, mas se ele gostasse eu não venderia o barco, deixava e falava: “Vai cuidar da sua vida, é seu, vai tocando, o que eu tenho para deixar à vocês é isso”, mas ele não quer, não é costume de mar, levei ele diversas vezes, começava a passar mal e tomava remédio ainda, Dramin, para não enjoar, não teve jeito e  começou a estudar. Aí ele fez o curso para montador de andaime nas plataformas, passou, trabalhou, não gostou, é perigoso, ele disse que lá tem que andar pendurado num cabo de aço, aí saiu, começou a estudar, fez curso técnico de segurança no trabalho, formou, está formado, mas emprego é difícil,está esperando,  aguardando uma chamada lá do Açu, inclusive o presidente da colônia aqui de Grajaú, o Mauro, e o presidente da colônia de Atafona, William, muito conhecidos, muito amigos da gente, estão procurando onde ele se encaixa lá, mas é difícil.  A maioria dos jovens estão deixando a pescaria  e  estão fazendo cursos.

 

P/1 – Outras oportunidades.

 

R – É, oportunidades, porque geralmente o futuro da pesca você tem que ter documento e andar em dia para você chegar aos 60 anos, ter aposentadoria, claro, tem direito a benefícios, mas hoje é difícil benefício, você ter aposentadoria,  ter direito a aposentadoria, e você trabalhando em outros lugares tem férias, 13º, ticket refeição, seguro-desemprego por seis  ou quatro meses, de acordo, né,  tem o tempo de casa, tal e tal, porque hoje a juventude está deixando a pesca abandonando, é difícil até de arranjar pescador, você tem um barco, às vezes o barco fica parado por falta de tripulação porque o pessoal está deixando.

 

P/1 – Seu Almir, qual a importância da pesca na sua vida?

 

R – Olha, a importância é que eu fui, fui não, sou de família pobre e eu me orgulho em criar meus filhos com dignidade, graças à Deus, criei dois filhos, criei três, uma nós criamos, agarrou com a gente, nós criamos ela também, é a nossa filha, é uma amor de pessoa, e criei um casal de filhos, graças à Deus, e ajudei, esse pouco tempo ajudei algumas pessoas que estavam precisando de ajuda, ajudava e ajudo. O que eu tenho da pesca é isso aí, riqueza não tem porque não tem pescador rico, não existe, existe pescador controlado que já apanhou alguma coisa, que já é do início, da onde veio, mas que ele arranjasse da pesca e melhorasse de vida não tem, não.

 

P/1 – Seu Almir, como o senhor conheceu a sua esposa?

 

R – Eu conheci, negócio de pesca,  quando comecei a pescar, me entendi com 16  ou 17 anos, eu pescava com um rapaz, que é meu cunhado, daí batendo papo, conversando, ia na casa dele, o meu sogro, não era sogro ainda, matava muito porco e a gente ia lá comprar torresmo e naquele bate-papo, e chega lá, comprar torresmo, conversando, daí foi onde eu conheci, a conheci assim.

 

P/1 – O senhor falou dos filhos, como é ser pai?

 

R – Para mim foi bom, meus filhos sempre foram obedientes graças à Deus, não foram estudiosos, foram preguiçosos, mas sempre foram obedientes.

 

P/1 – Você falou um pouco do seu filho, o que eles fazem hoje, você tem vontade que eles fossem pescadores?

 

R – Não, não, até se ele fosse, se ele fosse pescador eu deixaria o barco para ele, deixava, mas ele nunca teve vontade, pescador tem que ser é da vontade da pessoa, é aquele negócio, se é da vontade dele, a pessoa quer puxar para o outro lado, se vier  acontecer alguma coisa, vai aquele remorso, né,  eu não penso muito assim, mas a minha esposa pensa: “Ah, ele quer assim deixa assim, depois acontece alguma coisa, a gente vai ficar com aquele remorso”.

 

P/1 – E o que o senhor mudaria aqui na comunidade, o que o senhor acha que falta aqui em Barra?

 

R – Ah, falta muita coisa, aqui na comunidade falta muita coisa, tem problemas na saúde, aqui não tem nada, está precária, está precária há mais de quatro anos, já vai há mais de quatro anos que é precária a situação, não existe médico, não tem remédio, mudou de prefeito, continua a mesma coisa e não melhorou nada. Inclusive essa semana a gente, ontem, acho que foi ontem, foi uma senhora, não conheço o nome, mas estou dizendo porque deu a notícia no rádio, a reportagem, ela foi para ganhar neném, quase abortando a criança, chegou lá o médico não atendeu e disse: “A senhora está com pressa? Se tiver com pressa a senhora pode voltar”, o povo ligou, disse que essa moça é de Guaraú, eu ontem fui a Guaraú e era para perguntar ao rapaz se isso foi verdade mesmo. Outra, a mãe dela ligou para saber notícia, como é que ela tava e responderam: “É uma que chegou aqui com dor de dente, deve ter ido embora”, não temos, nós não temos, nós não temos programa para saúde, está abandonada, está difícil. O estudo não, hoje tem estudo, geralmente aqui para João Pessoa, tem o ônibus que leva o pessoal para faculdade, hoje já se forma professora, apesar de que hoje professor não é grande coisa mais, é tão comum, né, mas professora, outros advocacia e por aí vai e  técnicos em muitas coisas. Então, agora, sobre saúde e água, nós temos tudo para ter água potável dentro do nosso município, nós não temos, dói, dói, não vou dizer ao senhor que a água, se ficar sem ela é pior, porque hoje a nossa água está poluída, nós bebíamos dessa água, há 40 anos, 50 anos atrás bebia dessa água, hoje não se pode beber mais, hoje a água é óleo, é descarga de fossa, é peixe que limpa e  joga aquela água de peixe, enfim, está poluída. Tem essa água aí, só que essa água é pesada. Essa semana passada mesmo a minha esposa foi parar a água, foi obrigada a deixar sentar porque botaram tanto cloro dentro d’água que a água fica preta, botar cloro na água ela escurece, ela ficou preta, esperou vir no outro dia a água clara para poder lavar roupa. E a água você não pode usar ela para beber.  Você lava o cabelo fica meio durinho, quem tem o cabelo bom ainda quebra o galho, mas quem não tem, eu acho que piora mais ainda, e temos tudo porque temos rio, onde fizeram o poço a água lá é limpa, que pode fazer o tratamento da água direto, água doce direto, não tem. E o Espírito Santo, não sei se você conhece, já ouviu falar na Praia das Neves, população pouca, geralmente são mais os turistas, mas é de dentro ali, são os mineiros os turistas, os moradores são muito pouquinho, mas tem água potável, tratada, tirada desse próprio rio que faz divisão Barra de Itabapoana com Espírito Santo, temos tudo para ter uma água potável, nós não temos, compramos água, nós compramos água para beber, R$ 4,50 o galãozinho.

 

P/1 – Seu Almir, agora para caminhar para o final, eu tenho duas perguntas, a primeira é: Qual o sonho do senhor hoje, o senhor tem algum sonho ainda?

 

R – Olha, eu tenho, assim, não por minha profissão, o meu sonho é que  eu ainda possa ver muitos jovens formados aqui na Barra, saber que estão  formados, porque eu tenho uma casa, aliás, tenho três netos, um é da menina, três netos, né, tenho uma neta que vai fazer nove, um menino com oito e o outro com sete para oito também, ver eles formados, não sei se eu vou alcançar. Estudar porque hoje se não estudar é mais difícil, formado já é difícil um emprego, imagina se não se formar em nada. Então, esse é o meu sonho, ver eles, eles e outros, a população, né, da cidade, saber que estão se  formando e outros: “Eu sou jogador de bola”, que sonho, ter uma pessoa, jogador de futebol, outro é juiz, outro advogado, enfim, se formar em alguma coisa, é uma sonho que eu tenho vontade de ver a cidade crescer, todo mundo empregado, a juventude empregada, todo mundo ter uma vida normal, né, situação financeira é muito importante, porque a gente não pensa só na gente, pensa nos outros, não adianta você ter a barriga cheia e a minha estar vazia, não, vamos dividir, todo mundo ter a barriguinha cheia, coisa boa, né, ver todo mundo feliz é muito bom, eu gosto.

 

P/1 – Seu Almir, para finalizar eu queria te perguntar como foi dar essa entrevista, como  você se sentiu contando?

 

R – Para mim foi bom, geralmente algumas pessoas acham que vai ver isso e vai sentir  dificuldades para falar  de como era o lugar antes e  como é que está o lugar hoje, mas aqui  precisa de muita coisa, né, calçamento de rua não temos, inclusive essa nossa rua, a Travessa dos Faria, faz divisão com a Rua Revil, essa levou calçamento, 40 metros de rua, já onde eu moro não levou calçamento até hoje, nem sei se vai levar com esse prefeito aí, é difícil.

 

P/1 – Tá certo, Seu Almir, então eu te agradeço, obrigado pela entrevista.

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