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História

O percurso da vida vai te levando

História de: Regina Aparecida de Oliveira Magrini
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/11/2014

Sinopse

Namoro, gravidez, casamento e estudos, na vida de Regina as coisas foram acontecendo ao mesmo tempo e com muita rapidez, como ela mesma conclui. Nascida em fazenda no interior de São Paulo, teve uma educação familiar muito rígida e ela teve que fazer de um tudo para ter liberdade e conseguir seguir adiante.

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História completa

Meu nome é Regina Aparecida de Oliveira Magrini. Eu nasci em Auriflama, dia 21 de novembro de 1970. Meu pai, Benedito Bernardo de Oliveira. A minha mãe é Francisca Lima de Oliveira, ela nasceu no Estado de Alagoas, se não me engano, Maceió. Ela veio pra cá pro Estado de São Paulo, mais ou menos, ela tinha uns 11, 12 anos. O meu pai é do Estado de Minas, eu não sei bem a idade que ele veio pra cá pra região de Araçatuba, também, quando criança. O meu pai já é falecido. Ele trabalhava com agropecuária. Era gerente de fazendas no interior de São Paulo. Chegou ir, também, pro Mato Grosso do Sul, mas sempre mexendo com gado, nunca com lavoura. E a minha mãe sempre foi do lar, sempre trabalhou em casa mesmo.

Família - Meu pai é uma pessoa muito rude. É aquelas pessoas que ele chegava dentro de casa, não falava nada, bastava dar um olhar que nós já entendíamos. Não era de conversar muito conosco, era naquela base: ele falava, nós obedecíamos. Agora, a minha mãe não. Minha mãe sempre foi mais protetora, carinhosa, gostava muito de conversar conosco, aliás, gosta, que graças à Deus ela ainda é viva. Os dois viveram juntos durante longo tempo, depois se separaram, infelizmente. Tenho mais dois irmãos, eu sou a mais velha. Eu passei a infância em fazenda, próximo a Auriflama. Sempre morei em fazenda, mas sempre estudava na cidade. A casa que eu morava era uma casa grande, de três quartos, uma varanda enorme na frente, toda de vermelhão, não tinha piso, era vermelhão mesmo. Ela cozinhava ainda em fogão à lenha. Tinha o fogão a gás, mas gostava mais de cozinhar no fogão à lenha. Tinha um pomar muito grande no quintal. Nós brincávamos muito, muito de subir nas árvores, de balançar, andávamos bastante a cavalo, até brincadeiras de torear os bezerros do curral. A gente fazia, escondido do meu pai, é claro, quando ele chegava, adeus à brincadeira. Mas era uma casa muito gostosa na Fazenda União. Fica na região de Pereira Barreto, quase divisa com Mato Grosso. Eu me lembro que eu também já saí de lá com quinze anos, quando eu me casei.

Quermesse - Brincava de fazer comidinha, aniversário pra boneca, mas sempre época de férias era mais isso: era andar a cavalo, era ir atrás dos açudes, de fazer a panelinha de barro. E gostávamos também nas férias de junho de participar das quermesses, da vilinha próxima a esse lugar que eu morava, que se chama Bandeirantes do Oeste. Tinha umas quermesses maravilhosas, sempre feitas pela Igreja de São Sebastião. Tinha bingos, bingos de frango. A gente gostava muito de comer, que o frango assado de lá é bem diferente, eles colocavam uma farofa dentro. Tinha o correio elegante, sempre tinha que ser muito escondido do meu pai. Eu sou filha única, dos meus dois irmãos. Quando ele levava nós pra quermesse, geralmente a gente não podia nem olhar do lado quando ele estava perto. Quando ele dava uma saidinha para conversar com algum amigo, aí alguém entregava algum recadinho, algum correio elegante. Eu comecei a namorar o meu marido, muito jovem, nessa época, inclusive.

Namoro que virou casamento - Eu fui estudar em Auriflama porque eu comecei a namorar escondido, né, o meu esposo. Eu conheci ele acho que mais ou menos, dos doze, pros treze anos. Nós nos conhecemos em um casamento da própria fazenda. Nessa colônia, onde eram as escolas, moravam muitas pessoas. Teve um casamento de um conhecido, nós fomos convidados, meu pai não estava, aí minha mãe deixou eu ir com uma vizinha. Então, eles iam casavam na cidade, a cerimônia era na cidade, voltava e a festa era na casa, na fazenda mesmo. E da festa eu participei. Teve uma janta maravilhosa, eles faziam aquela panelada de macarrão, carne e depois da janta, teve o baile. Aí, ele chegou. Ele chegou, me lembro até hoje, com uma jaqueta da Honda, ele sempre gostou muito de moto, e os olhos dele eram verdes. Ele chegou, e quando eu olhei, falei: “Nossa! Quem será?”. Eu não conhecia ele. Aí ele me tirou pra dançar. Ele me tirou pra dançar e eu uma criança, doze anos, não sabia dançar, então ele me levava. Me apertava demais. Aí, chegaram pra ele: “Olha, você sabe de quem ela é filha?”. Ele falou: “Eu sei”. “Ó, cuidado hein, rapaz.” Que meu pai viajava, mas todo mundo ficava de olho, todo mundo conhecia ele. Tinha muita consideração por ele. Minha mãe deixou eu ir até esse casamento porque sabia que todo mundo era conhecido e todo mundo ia me olhar. O nosso primeiro contato foi nesse casamento. Meu pai descobriu e me transferiu pra Auriflama, fui morar com essa tia, né, essa tia que é minha grande inspiração por ser professora. Continuei com os estudos e o namoro. Quando eu passei pro segundo magistério, eu engravidei do meu primeiro filho. Então, me casei. Olha, foi um choque muito grande, porque na hora, que eu peguei o resultado do exame e que eu vi lá, uma cegonha segurando um bebê e estava escrito: “Mãããããããeeeeeeee, tô chegando!”. Na hora eu vi o rosto do meu pai! Eu não pensei em mim. Eu não falei: “Nossa! Eu sou muito criança. Vou cuidar de outra criança! Como será o meu futuro?” Nada disso! Eu pensei no meu pai. À noite, ele foi me encontrar, porque ele sabia que eu ia fazer o exame. E ele ficou superfeliz, e eu falei: “E agora? E agora?” “Não! Nós vamos nos casar!”. Eu voltei pra minha tia, e foi assim, a minha gravidez, nos três primeiros meses, eu engordei muito rápido. Era pra mostrar mesmo que eu estava grávida. Trabalhava inclusive já, na época. Eu queria ser independente, muito cedo, então eu inventei em trabalhar em uma loja em Auriflama. Estudava à noite, trabalha durante o dia numa loja. A minha tia começou a jogar indireta que a filha da cozinheira da escola dela estava grávida e a mãe estava muito triste, né, e eu ficava quieta. O meu pai uma vez tava jantando na casa da minha tia, e falou assim: “Menina, você tem que ir pra uma academia, fazer uma ginástica! Olha, a sua barriga! Isso é barriga?”. Eu deixei até o prato cair, e saí de perto. Foi indo, até que a minha mãe foi até a loja que eu trabalhava e falou assim pra mim, com jeitinho, tadinha, não me esqueço, quase chorando, porque ela nunca também sentou e conversou comigo sobre nada. Nunca me explicou o que era menstruação, nada! Porque ela foi criada dessa forma, né? Sempre foi muito difícil conversar sobre isso. Ela falou assim: “Regi, você já foi do Marcos?” Aí, eu comecei a chorar. Ela falou: “Minha filha, o que nós vamos fazer?”, pensando também no meu pai. Minha mãe escreveu uma carta pra irmã dela, aí eu vim pra cá, pra Osasco. Minha tia me recebeu muito bem, ficamos quinze dias na casa dela. Ela deu todo o apoio. Enquanto isso deu tempo, meu pai chegar de volta na minha casa e, aí, contarem tudo pra ele, e tal, aí ele ligou, pra me retornar. Que eu precisava retornar urgente, que ele queria resolver essa situação, que ele precisava voltar pro Mato Grosso, que ele tinha deixado lá os trabalhos pela metade. Nós voltamos, mas como chegar a essa conversa, né? Como encontrar o meu pai? Nós viajamos durante o dia. Foi uma viagem, nossa, eterna, eu queria que demorasse muito! Nós chegamos, fomos direto pro sítio que os pais dele moravam, e chegando lá, minha mãe e meu pai já estavam lá. Eu lembro que nós entramos, o meu pai e a minha mãe estavam sentados no sofá, e os pais dele em outro. Foi aquela conversa: o que seria, o que ia fazer, o que quê não ia. Aí, o meu marido, sempre falou que assumiria, que nós iríamos casar e ele, sabe, falou pro meu esposo, até foi assim bem taxativo, que se ele não cuidasse bem de mim, até o mataria. Sabe aquelas coisas de pai, mesmo? Só que o meu pai, ele praticamente participou obrigado. Não entrou comigo na igreja, não foi no cartório. Ele fez tudo que devia: me deu enxoval, até o almoço do casamento, foi um jantar, o jantar ele deu. Ele foi obrigado e nem foi por mim, nem pela família, foi porque um padrinho meu de casamento era grande amigo dele. Ele foi pra não contrariar o amigo. Nós nos casamos em janeiro, dia dez de janeiro, continuamos morando em Sud Mennucci, estudando em Auriflama, viajava todas as noites, até o meu filho nascer, Fabrício. Eu casei dia dez de janeiro, ele nasceu dia quatro de abril. Quando eu engravidei, eu não tinha quinze anos ainda. Nós esperamos eu completar quinze anos, pra nós casarmos. Aí eu me casei. Continuei estudando, não parei. Na época, eu fui morar, estudando em Auriflama ainda, eu fui morar em Sud Mennucci, que é uma cidade da região também, próxima. Só que o ônibus da Prefeitura continuava levando, então eu continuei estudando em Auriflama.

Magistério -  Desde criança, eu não passava em ser, não tinha outra profissão na minha mente, sempre professora. Cresci com essa meta e não desviei. Eu estudava naquela escola onde fui ser professora pela primeira vez. Eu comecei a trabalhar com dezessete anos. Como eu comecei a estudar com seis anos, eu me formei muito nova. Então com dezessete anos, eu já tinha o magistério, comecei a trabalhar. E eu peguei o meu irmão caçula na terceira série. E ele era um aluno muito inteligente. Então quando eu entrei na sala, ele ficou tirando sarro de mim, falando que eu era professorinha, por causa da minha altura, mas ele fazia as lições, eu não tinha problema de comunicação com as crianças na época. Eu lembro que eu entrei na sala, encarei numa boa, não me senti insegura. Mas o meu irmão, ali, enchendo, sabe, tentando atrapalhar a todo momento. Eu fui até a minha mãe, reclamei, falei: “Olha, mãe, pede pro Rodrigo colaborar, porque eu entro na sala de aula, ele fica me desobedecendo. Isso é muito chato perante os outros alunos. Eu vou perder a autoridade”. Logo ele parou, aí foi tudo bem. Quando eu me formei em Letras, eu acho que eu tinha 22, 23 anos. Só que eu demorei a trabalhar nessa área, porque eu continuei lá no interior com os pequeninhos, com o maternal. Dei aula pro Fernando, o meu segundo filho. Ele foi comigo pro Jardim I. Me chamava de “tia”. Que eu deixei bem claro pra ele: “Aqui, eu não sou a sua mãe, eu sou sua professora”. Depois disso, eu fiquei todo esse tempo, trabalhando lá com a pré-escola, não consegui mais aula no Estado, eu perdi o vínculo, porque houve um concurso público, eu lembro, na rede estadual, ingressaram muitos professores, se removeram pro interior na época. Eu perdi o vínculo com o Estado, fiquei só com a Prefeitura de Sud Minucci. Foi quando, em 98, eu resolvi retornar pra cá. Eu retornei com todos: viemos eu, meu esposo, meus filhos. Nós estamos aqui, definitivos, desde 98.

Escrever a história - Quando você para pra contar a sua história, traz muitas recordações, a gente para pra pensar nos flashes da vida. Contar a sua própria história é difícil, porque a nossa história não é escrita do jeito que nós queremos. A vida, o percurso da vida vai te levando. Então, de repente, se fosse para eu escrever a minha história, eu gostaria de ter estado mais tempo com o meu pai. Eu gostaria de ter sido mais filha. Filha de estar ali, junto com eles, não ter saído tão nova de casa. Então eu gostaria de ter mudado algumas coisas da minha vida. Mas de ter casado, de ter meus filhos, de ser professora, isso tudo eu continuaria.

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