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História

O Pelé dos guaranazeiros

História de: Luiz Ferreira das Neves
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 20/07/2007

Sinopse

Luiz Ferreira das Neves é reconhecido por todos como um dos mais antigos e importantes guaranazeiros. No seu depoimento ele conta a sua trajetória, de como aprendeu o ofício com o seu pai, e de como faz para obter um guaraná de tanta qualidade. Ele nasceu na Comunidade Vera Cruz, no interior de Maués, e teve uma infância muito ligada à natureza e ao plantio de guaraná.


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História completa

Meu nome é Luiz Ferreira das Neves, nasci aqui, na Comunidade Vera Cruz, Maués, em 12 de janeiro de 1931. O meu pai tinha sangue de nordestino. O meu avô era lá do Ceará! A família toda trabalhava em negócio de guaraná, arroz. Trabalhava mais na várzea, o negócio de feijão, agricultura.

 

Nós éramos dois irmãos: um homem e uma mulher, ela faleceu e eu fiquei contando a nossa história até agora, graças a Deus! Quando minha mãe morreu eu fiquei com nove anos e fui para poder da minha prima. Na época, estudar pra mim era ir tirar pau-rosa e ajudar o velho!

 

Quando eu fiquei, mais ou menos, com uns 14 anos, eu ia com o meu pai de criação tirar sorva no mato. O velho cortava e eu o ajudava para nós derrubarmos o pau e tirar o leite, tirar a sorva para ferver e vender. Naquele tempo se fazia muitos ingredientes de se comer e beber do leite da sorva. O leite da sorva é bom para temperar mingau. O mesmo que o leite de gado. Faz até aquela farofa com farinha. Bate bem, depois põe açúcar e põe a farinha.

 

Já o nosso guaraná é famoso! O nosso produto é por qualidade, não é por quantidade. Dizem: “Neves, por que tu não compra um motor pra pilar o teu guaraná?” Já pode modificar quem quiser, mas eu morrerei e o meu guaraná será desse jeito. Isso é mais um guaraná especial, mais gostoso, cheiroso. Na pilação, o senhor vê tudo quanto é peso de energia. É rápido. Hoje o povo quer saber de quantidade. De fato, às vezes depende de quantidade, mas não para nós. Com essa AmBev que está aí, vem aquela quantidade de tambor de álcool para misturar com a essência do guaraná. É verdade! E aí que ganha dinheiro mesmo no guaraná.

 

Eu valorizo o nosso trabalho. Tem que ter cuidado, saber zelar, não deixar o bicho ficar no canto e ficar moreno. Na ocasião de torrar, tem que ser em fogo lento. Ter cuidado, lavar bem, assear bem, tudo por tudo. Isso que é bom. E coar o guaraná. Tem gente que nem torra bem, fica tudo mole o guaraná. E o comprador compra, mistura um com o outro e vai fazer besteira com o outro. Tudo é diferença no trabalho. E o nosso não, é nós mesmo, a velha, a nora, o filho que colhe. E é por qualidade, não é por quantidade, ainda tem isso.

 

Tem muita gente que me conhece desde a antiguidade e diz: “Neves, será que o teu filho vai fazer assim como tu fazia?” “Se Deus quiser! Se ele não fizer é porque não quer.” Começou junto e até hoje está. Tem que fazer melhor do que eu fazia! Essa nossa área é própria para o guaraná. Ela está boa, o negócio é cavar, plantar, pisar bem. O outro já diz: “Neves, veio gente de fora e disse que o guaranazal dar bem fruta tu tem que cavar um buraco no toco no guaranazeiro e enterrar um peixe”. Eu digo: “Às vezes, não tem peixe nem para comer vai pra botar no guaranazal?” Já pensou? Tudo isso é uns homens que estudam. Então, o nosso trabalho ainda é como na antiguidade...

 

Eu tenho guaranazal aqui, meus amigos, que ele está, mais ou menos, com mais de 60 anos aberto! Eu fiz o guaranazal aqui. Um quadro pegou 364 pés e eu estava com 19 anos. O pessoal de fora tudo isso vem indagar aqui. Fazem até a conta. Dura mesmo. Outro dia um falou que não dava fruto porque está velho. Não, não dá devido ao trato porque o guaranazal não depende da química e do adubo. O negócio é cuidar dele, tirar galho seco, limpeza. É igual a nós, porque se nós também formos desmazelados, a gente perde o valor, perde a força.

 

Hoje o pessoal quase não dá mais valor para trabalho de antes. Com o meu pai de criação, nós íamos arrumar gente no mês de julho pra trabalhar no mês de novembro. Aí vinha gente para trabalhar no guaraná. Era aquela beleza. Eram duas, três toneladas que se colhia. Hoje não, meu amigo. Tem que estar todo dia correndo nesse guaranazal. Tem vezes que se deixa até cair porque tem outras coisas para fazer. Nós colhíamos oito, dez sacos de guaraná, mas eu não dormia. Noite e dia porque o guaraná é de ano em ano. Eu ia dormir para fevereiro, depois da saca estar toda costurada. Olha aqui os olhos dele. Uma vez que está assim, já está no ponto de apanhar.

 

Tudo isso tem o trabalho, a técnica da antiguidade ainda. Isso aqui é tudo perfeito! É por isso que os homens se admiram do nosso guaraná. Tudo isso você tem com a técnica da antiguidade. Hoje não, hoje os homens são todos pela pena de papel, de escrita...

 

De primeiro eu tomava para mais de dez vezes guaraná aqui, mas também eu suava. Eu suo muito trabalhando. O que a gente come sai no suor, negócio de doçura, certas coisas que a gente come sai no suor. Hoje é bem difícil a pessoa suar. A gente sua mesmo.

 

Isso é uma saúde, meu amigo, conversar com gente de longe. Porque nossos conterrâneos, da própria vila, da própria cidade passam junto da gente e não dão ao menos um salva. Não minha gente, nosso dever é salvar nossos próximos, saber acolher nossos próximos. Graças a Deus, para mim é um prazer falar do meu trabalho!

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