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História

O Pé de Ouro de Juruti

História de: Zanira Torres dos Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 10/12/2010

Sinopse

Neste depoimento, Zanira nos conta como era o cotidiano de sua família na época de infância, com os trabalhos na roça de seu pai e as costuras de sua mãe em Juruti, interior do Pará. Zanira estudou só até os doze anos quando decidiu dedicar sua vida a ajudar sua família e casa. Antes dos 18, quando começou a dançar os cordões de sua cidade, se envolveu na produção de madioca e no comércio da região. Sua ligação com a dança a fez participar e organizar o Festribal, competição e festa que agita anualmente a cidade de Juruti.

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História completa

P/1 – Eu queria começar perguntando seu nome completo, a data e o local do seu nascimento.

 

R – Você não tomou ainda nota?

 

P/2 – Tomei.

 

P/1 – Mas é que a gente quer gravar para as outras pessoas verem.

 

R – Ah, tá (risos). Olha, o meu nome completo é Zanira Torres dos Santos. Eu nasci em 1927. E aí a minha infância não foi ruim, foi boa. Porque a gente trabalhava. Nesse tempo aqui era...

 

P/1 – A senhora nasceu aqui?

 

R – Eu nasci aqui, me criei aqui.

 

P/1 – Como é que se chamava seu pai?

 

R – Meu pai se chamava Raimundo Torres de Souza.

 

P/1 – E a sua mãe?

 

R – Mamãe chamava Maurícia Batista Torres.

 

P/1 – Eles também eram filhos de Juriti?

 

R – Eram, daqui de Juruti.

 

P/1 – A senhora sabe como é que eles vieram parar aqui?

 

R – Quando eles vieram para cá?

 

P/1 – Ou eles nasceram aqui?

 

R – O meu pai, o meu pai nasceu aqui em Juruti. Agora, minha mãe, ela nasceu para cá para o interior, que chamavam Lago Grande, foi aí que ela nasceu, ela era daí. Meu pai era aqui mesmo de Juruti.

 

P/1 – O que é que seu pai fazia?

 

R – Ele trabalhava em roça, em juta. E a minha mãe costurava muito. Ela costurava e fazia renda. Sabe como é a renda? A gente...

 

P/1 – Fala, explica.

 

R - ...a renda, a gente fazia uma almofada assim, e de lá ela arranjou uma caixa, botou aquelas almofadas dentro e pegou o papelão, furava assim como ela queria a renda. Se ela queria de pontinha, ela fazia aquele furadinho todo de pontinha. Se ela queria de entremeio, ela fazia só de entremeio. Pegava os caroços de tucumã, vocês não conhecem tucumã, né?

 

P/1 – Não.

 

R – Pois é.

 

P/1 – O que é tucumã?

 

R – É uma fruta assim, que ela tem uma carne, mas ela é muito gostosa. Com café que é especialidade. Tem uma casca, da casca tem a carne, da carne tem o caroço. Ela agarrava e começava a lixar os caroços de tucumã e aí ela furava para meter um cabo naquele caroço. E que aquele cabo, aqui nesse que ficava para cá tinha uma cabecinha aonde ela enrolava a linha. A linha para poder trocar o bilro para fazer a renda. Mas ela fazia muita renda, vendia muita. Aquele tempo era muito baratinho, a gente fazia. Depois eu aprendi também, eu aprendi costurar, eu aprendi com ela a fazer renda.

 

P/1 – E vocês faziam para vender essa renda?

 

R – A gente fazia para vender, que vinham encomendar. O pessoal, as amigas dela, as minhas colegas. A gente fazia, vendia. Mas era muito baratinho. Vendia o metro: três metros, quatro metros, cinco metros. Conforme as anáguas (risos).

 

P/1 – Ah, a senhora usava anágua?

 

R – Tinha. A gente usava uma anágua que ficava por baixo da saia. Vestia a saia por cima e as anáguas assim.

 

P/1 – A senhora não usava calça comprida nem short como hoje?

 

R – Não, não usava.

 

P/1 – Como é que era a roupa? Como é que a sua mãe se vestia?

 

R – Era saia. Era vestido. A gente fazia vestido. A mamãe fazia, eu fazia. Fazia calça para homem. Eu fazia daqueles bolsos aqui atrás.

 

P/1 – A senhora tinha muitos irmãos?

 

R – Eu tinha não. Eu tenho só uma irmã que ela ainda é viva. E os meus dois irmãos já são mortos. Um morreu em Parintins e o outro morreu aqui, porque o rapaz bateu nele muito violento e ele foi morrer lá em Santarém.

 

P/1 – Bateu nele?

 

R – Bateu.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Com uma moto. O meu irmão vinha de uma taberna, ele tinha ido comprar leite para tomar merenda à tarde. E diz que ele não enxergava, quando ele dobrou o canto ele vinha assim andando, segurando na sacolinha que vinha o leite. Bateu que jogou ele muito longe. E pronto. Os olhos dele ficaram enormes. Pretos iguais aquela sacola.

 

P/1 – Quando foi isso?

 

R – Já está fazendo uns cinco anos que ele é morto. E o rapaz era até nosso parente. Era não, é, porque ele ainda é vivo. Ele é professor aqui numa escola, chama Escola Paroquial. Ele é professor lá. E assim, lá nós fomos para lá, lá ele morreu e lá ele se enterrou. E aí ficou só essa minha irmã que ela pára em Manaus. Nós éramos só quatro.

 

P/1 – Não eram tantos irmãos.

 

R – Não, nós éramos só três, quatro assim, que a gente era.

 

P/1 – Vocês moravam aqui, nessa casa aqui?

 

R – Aqui, nós, era, aqui mesmo nessa casa aqui. A gente sempre morou nessa casa aqui.

 

P/1 – E como é que era o dia-a-dia nessa casa aqui? O que é que a senhora fazia quando a senhora era criança?

 

R – A gente, quando era muito criança a gente só fazia brincar, estudar. Depois que eu cresci mais aí que fui estudar. Mas mais era trabalho. Que meu pai tinha roça.

 

P/1 – Aonde que era a roça dele?

 

R – Aqui pra trás. Agora nem mais se fala, porque tudo é cidade. Mas a gente tinha roça aqui nessa cidade. Aqui era só mesmo uma cidade, não tinha rua, era só caminho. A gente atravessava num caminho aqui para a casa de uma senhora. O nome dela até que era Dona Tiúca, chamavam para ela. O marido dela era Pixinha. A gente atravessava para lá e de lá a gente ia embora. A nossa cozinha do forno, que faz aquele forno para torrar a mandioca que faz a farinha, ficava bem aí no fundo do quintal. Meu quintal é grande, você não viu o comprimento? Pois é. E lá era, e a gente fazia aqui mesmo farinha. Depois nós fomos trabalhar no Jará, no Lago Jará.

(pausa)

 

P/1 – Mas então a senhora ficava brincando aqui? A senhora entrou na escola com que idade?

 

R – Eu acho que foi com uns oito anos. Eu só estudei até a segunda série. Sabe por quê? Porque a minha mãe costurava muito. Quando eu chegava, mas nós chegávamos da escola com fome, não tinha nada de comida pronta. Nem fogo no fogão. Naquele tempo era lenha. Agora aqui já tem gás, né? Era a lenha. Aí eu peguei e disse: “Eu não vou mais estudar, vou ficar para fazer comida.”

 

P/1 – A senhora falou?

 

R – Depois que eu fui começando a ler e tal. Depois a gente fazia certos trabalhos com leitura, eu fui aprendendo mais. Eu não sei muito bem, mas...

 

P/1 – Me conta, a senhora entrou na escola e quando a senhora chegava a sua mãe estava fazendo...

 

R – Estava fazendo roupa, estava fazendo renda (risos).

 

P/1 – Ela fazia roupa para fora?

 

R – É, sim senhora. Ela costurava para fora.

 

P/1 – Mas ela não cozinhava nem para a senhora, nem para os seus irmãos, nem para o seu pai?

 

R – Ela cozinhava, mas tinha dias que ela estava muito ocupada. E tem dias que a pessoa já quer a roupa para o outro dia e tal. Aí fica afobada. Não dava tempo, entendeu? Mas os meus irmãos estudaram muito mais. Os que morreram, esses dois que morreram. Um era ferreiro e outro era, trabalha em casa, marceneiro. E a minha irmã é doméstica mesmo, essa que para em Manaus.

 

P/1 – Ela é doméstica, ela fica em casa?

 

R – Ela só trabalha dentro de casa. Ela não chegou a pegar muito o trabalho de roça porque ela estudou mais. Naquele tempo, a gente tinha quinta série era professor. E ela ficou logo, era professora, começou a andar pelo interior e tal. Então ela arranjou já um marido e pronto. Aí acabou a reunião.

 

P/1 – Mas e a senhora? A senhora então parou de estudar com quantos anos, nove anos?

 

R – Não, eu acho que eu já tinha uns 12. Não, a senhora sabe como foi para mim parar de estudar?

 

P/1 – Como é que foi?

 

R – Eu fui assim, eu tinha uma vizinha aqui, elas começaram a ir embora para Belém. Eu meti o pé que eu queria ir para Belém também. “Mas tu está estudando.” Eu disse: “Não, mas para lá eu estudo também.” Papai deixou, eu fui-me embora para Belém. Eu fui com 12 anos.

 

P/1 – Para a casa de quem?

 

R – De um doutor lá. A senhora sabe que eu estava até bem. Eles me gostavam muito.

 

P/1 – A senhora foi trabalhar na casa.

 

R – Não, trabalhava, fui como filha. Eles me gostavam muito, eu não fazia serviço assim, mas eu estranhei muito a comida. A gente do interior está acostumada a comer peixe só com farinha. E lá não era bem assim. Aí eu meti o pé que eu queria voltar, voltei. Me mandaram de volta.

 

P/1 – A senhora não gostou de Belém.

 

R – Não, eu fiz 13 anos, interei uns três meses, eles me mandaram de volta. Eu vim embora.

 

P/1 – E por que é que a senhora não gostou de lá?

 

R – Por causa da comida que eu não me acostumava (risos).

 

P/1 – O que tinha na comida de diferente?

 

R – Era folha, eles comiam muita folha (risos). E a senhora sabe que agora eu sou igual uma, eu gosto muito de verdura, muito mesmo. Eu gosto de comer verdura.

 

P/1 – Mas na época não.

 

R – Naquela época não.

 

P/1 – Mas por que é que essa família comia tanta folha?

 

R – É porque eles eram doutor, cheio de, acho que não era nem brasileiro. Nem lembro bem, mas eles gostavam muito de comer folha crua. Pois é.

 

P/2 – Quando você voltou como estava a cidade, estava igual?

 

R – O quê?

 

P/2 – Quando a senhora voltou para Juruti, a cidade estava, como estava? Tinha mudado alguma coisa?

 

R – Não, não tinha mudado quase nada (risos).

 

P/2 – E a sua casa como era? Ela mudou bastante?

 

R – Não, a minha casa era assim de atravessado, era de barreada, coberta com palha. Depois que, como eu contei, começou a chover, não tinha para comprar palha e o meu sobrinho me ajudou, fiz essa uma aí. É nessa que eu estou.

 

P/1 – Vamos voltar lá para quando a senhora tinha 12 anos. Qual era a sua principal diversão na cidade?

 

R – Olha, sempre era, a gente sempre gostava de fazer um teatro. Mas eu ainda voltei a estudar que eu ainda brinquei muito, ainda andei muito nos teatros que faziam. Faziam Pastorinha. Pastorinha a gente dança só em dezembro. É negócio da morte de Jesus, nascimento de Jesus. É muito bonita a Pastorinha, se a senhora visse, a senhora ia ficar. Naquele tempo que a gente coisava para a gente brincar. Fui, fui, fui, gostava de dançar que a senhora nem sabe. Eu gostava muito de dança. Dançava que, e assim, vinha Carnaval eu ia pular Carnaval.

 

P/1 – Tinha muito Carnaval?

 

R – Tinha muito Carnaval aqui. A gente pulava, brincava. Só o que eu não gostava era de pintura e nada no meu pescoço de colar, nada não gostava. Nem de brinco, nada.

 

(pausa)

 

P/1 – Então Dona Mimi, vamos voltar lá para Juruti nessa época? Como se fosse assim 1940, 50, como é que era a vida na cidade? Vê se a senhora lembra quando a senhora tinha 15 anos assim. O que a senhora fazia?

 

R – Olha, eu acho que com 15 anos eu sempre gostei de lavar roupa para fora.

 

P/1 – A senhora lavava roupa?

 

R – É, lavava. Lavava roupa para fora, eu passava. Eu gostava de ganhar dinheiro, eu não gostava de ficar sem dinheiro. Lavava roupa para fora, vinham pedir eu lavava.

 

P/1 – Mas a senhora lavava roupa aonde?

 

R – No olho que tinha. Para cá tinha olho, era um, para cá tinha uma baixada que o pessoal cavava assim. Cavava e fazia aqueles olhos, fazia as pontes. E a gente lavava roupa em cima daquelas pontes.

 

P/1 – E a senhora pegava roupa das famílias daqui?

 

R – É, de duas famílias eu lavava. Uma de uma madrinha e a outra de uma outra senhora aí. Era muita roupa.

 

P/1 – Muita roupa?

 

R – Não, não era muita. Mas a senhora sabe que mais a gente trabalhava na roça? Sempre foi na roça que a gente trabalhou.

 

P/1 – A senhora ia na roça com quem?

 

R – Com meu pai, com a minha mãe.

 

P/1 – O que é que plantava na roça?

 

R – A gente tirava mandioca, a gente botava na água. A gente fazia, descascava, ralava. Tudo era no ralo. Agora não, agora já é no motor. Mas naquele tempo não, aquele tempo era no ralo.

 

P/1 – Explica como era.

 

R – Olha, tem aquelas latas com manteiga, agora já é só no balde. Tirava uma banda daquela lata e picava, fazia o ralo furado todinho. Daquele ralo pegava uma tábua, pregava o ralo na tábua. Aí metia na gareira, um negócio grande assim que ficava aberto. Lá chamam gareira para aquilo. A gente ralava a mandioca lá.

 

P/1 – E machucava a mão?

 

R – Nem sabe, esse meu dedo uma vez quase eu acabo de tanto, quando acabava ficava aquele toquinho, a gente esfregava assim. Mais isso aqui.

 

P/1 – Deixa eu ver, a senhora tem a marca?

 

R – Não, agora não mais. Mas aqui ainda meio tem, ó. Porque ralava assim, às vezes quebrava a mandioca. E assim foi o nosso trabalho até quando, mas quando era à noite a gente vinha dormir em casa, de manhã a gente ia para o trabalho. E vinha, trazia lenha. Cortava lenha no mato, trazia os feixes de lenha, botava em baixo do fogão.

 

P/1 – A senhora que fazia isso? As mulheres?

 

R – Nós, tudo nosso. Eu, a mamãe, o papai, todos nós trazíamos a lenha, os meus irmãos que eram dois. Eles traziam também.

 

P/1 – A sua mãe não gostava de costurar?

 

R – Gostava, mas às vezes ela ia ajudar a gente. Porque o serviço de mandioca a senhora não sabe que não precisa só de um, nem dois, é muita. Sendo muita mandioca tem aquele montão de mandioca para descascar. Depois tem que ralar. Depois põe um pouco na água, aquela mandioca na água. Depois tira da água, ela já vem mole. A gente tira tudo, joga na gareira e mistura com aquela seca que a gente descascou e ralou, aí mistura. E depois vem o tipiti.

 

P/1 – Como é que era o tipiti?

 

R – O tipiti eles fazem de, de, ai meu Deus, de cipó. Um cipó que tem no mato que chamam, estou esquecida agora desse cipó, meu Deus. Aimbé. Aí meu pai fazia o tipiti. Aqui embaixo ele deixava, fazia, ele deixava aquela bunda do tipiti assim. E em cima subia o tecido lá em cima, ele deixava uma cabeça, fazia o modo de uma cabeça. Tecido, mas tinha aquele buraco. Porque lá para meter assim, aí amarrava um pau dali ali. Pegava o tipiti, suspendia, metia a cabeça lá. E aqui pegava um outro pau, metia no rabo do tipiti, que a gente chamava rabo de tipiti. E fazia assim, onde metia, amarrava um pau ali, metia e botava um pé, um pau em cima aí secava.

 

P/1 – Isso era para secar a mandioca ou para tirar o veneno dela?

 

R – Não, para secar a mandioca para poder ir para o forno. Aí daí botava a mandioca numa vasilha, numa caixa, numa coisa. Assim que espremia. Às vezes a gente fazia uma fornada de três tipiti, porque de quatro fica muito cheio o forno. Três tipiti de mandioca. A gente agarrava, pegava a peneira e peneirava todinha aquela massa. Tirava, porque daquela massa tem uma curueira. A curueira é amontoada ali.

 

P/1 – Para quê?

 

R – Para secar e depois a gente pisa no pilão aquela curueira e faz massa, faz beiju, faz mingau. Tudo isso. Aí é muito gostoso o mingau da curueira. A gente secava no forno. Botava ela para ficar cheirosa, depois botava no forno ela secava, ficava bonita.

 

P/1 – Quanto tempo demorava para fazer a mandioca?

 

R – Não, não demora muito tempo não. A senhora acredita, tinha semana que nós fazíamos, porque naquele tempo que a gente trabalha dizia um alquer de farinha. Um alquer. A gente fazia até três alquer de farinha.

 

P/1 – Um alquer de farinha é quantos pés?

 

R – Não sei, isso aí eu não sei. Agora não já faz saco de farinha, é saco de farinha. Então saco de farinha é 50 quilos. E agora eles estão pedindo sabe quanto? 150 o saco da farinha. E naquele tempo nós trabalhávamos, um alquer de farinha era cinco reais, quinze, era menos. Mas também da mandioca, vizinha, a gente faz beiju, a gente faz carimã, a gente faz a farinha, a gente faz também, eu falei, a gente faz também caiçuma, é uma bebida que é muito gostosa. A gente faz o beiju. Depois rala uma batata, mete aqueles beijus e ensopa. Outro dia põe água, remexe, põe o açúcar e côa. Ele fica rosa. Porque a batata é rosa. É muito gostoso. Aquilo azeda faz a gente correr, dessa bendita mandioca. Faz muita coisa de mandioca.

 

P/1 – Mas a sua família fazia isso para vender ou só para consumir?

 

R – Não, a gente vendia para comprar o rancho da casa.

 

P/1 – Comprar o quê?

 

R – O rancho, o negócio do açúcar, do café, do sabão, do querosene, que não tinha luz. A gente usava...

 

P/1 – Era vendendo farinha que...

 

R – É, vendendo farinha é que é.

 

P/1 – E vendia aonde a mandioca?

 

R – A gente vendia aqui para os comerciantes.

 

P/1 – Quem eram os comerciantes na época?

 

R – Nesse tempo os comerciantes eram bem poucos. Tinha um homem chamado Marcos, que era Marcos Benitá. Ele era dessa família Benitá. E mais um outro senhor que eu nem me lembro o nome dele. Caporal, essa gente assim.

 

P/1 – Vendia para eles...

 

R – É, vendia para eles e lá a gente comprava o rancho. O negócio da...

 

P/1 – Eles eram ricos?

 

R – É, eles tinham também taberna assim, e não eram ricos. Mas eles compravam para ajudar a gente. Porque eles também vendiam. Porque naquele tempo nem tudo tinha roça, né? Então a gente vendia e aquele que não tinha ia comprar lá. Era assim que era.

 

P/1 – Aí a senhora ficou nessa vida da família até...

 

R – Até grande, quando eu interei, quando eu tinha 18 anos, quando eu tinha 17 anos fui brincar  Pastorinha. Depois quando eu tinha 18 anos que eu brinquei a Barca e com 20 anos eu me casei.

 

P/1 – E a brincadeira dos cordões, a senhora fazia também?

 

R – Não, eu brincava, mas não fazia.

 

P/1 – Como era a brincadeira?

 

R – Não tinha vocação para isso. Eu só, me convidavam, me pediam na minha mãe e eu ia brincar com eles.

 

P/1 – Como é que é, me conta essa farsa que eu não conheço.

 

R - Olha, a Barca, esse cordão da Barca era assim. Ele mandou fazer uma barcazota assim. Era um barco. Lá nesse barco tinha vela, barco veleiro, chamava. Depois o pai dele, tio dele, esse senhor, ele foi ensinar a nós a dança da barca. Porque barca não dança, mas eles ensinam um quebrado que a gente dançava. Ele arranjou os marinheiros. Tinha marinheiro daqui, tinha marinheiro daqui e tinha as personagens que ficavam dentro do cordão, junto com a barca. Tinha o comandante, tinha imediato, tinha o piloto, que era eu. Tinha o faroleiro, que era uma comadre minha.

 

P/1 – O que o piloto faz?

 

R – O piloto, quando eles cantavam para o faroleiro preparar as velas que o barco ia sair, ele dizia que era para dar sinal para mim, dar sinal ao bom piloto que o barco vai navegar.

 

P/1 – E aí que é que a senhora tinha que fazer?

 

R – Aí nós ficávamos lá mesmo, porque eu dizia que dessa hora já estava preparada. Já tinha vezes que eu segurava assim, no leme do barco. Mas tinha dança que era para dar certo, não era assim.

 

P/1 – Como era a dança?

 

R – Eles dançavam para lá e eu tinha que ir com eles lá.

 

P/1 – E a senhora sabe imitar para mim como faz?

 

R – Não sei mais isso aí.

 

P/1 – Mostra pra mim, Dona Mimi, vai?

 

R – E aí tá, depois...

 

P/1 – A senhora lembra da música?

 

R – Aí depois o barco naufragava. Sei que ele ia, ia na maresia, naufragava e deixava um barco lá no meio da roda e aí o que carregava o barco ia para ali e eu também ficava aqui, no lado. E aí eles cantavam e que eles estavam enrascados da barca, e tal e tal. Mas era muito bonito. Quem dera que eu soubesse para eu cantar para a senhora. Era muito bonito. E aí eles chamavam um rapaz que, não me lembro o nome dele, sei que chamavam ele para prender o imediato. Porque ele que deixou o barco ir para o fundo. Aí ele ia. Eu me lembro que ele dizia assim, o dono do barco cantava assim: (canta) “Valei-me Deus, pelo prejuízo que deu. Eu hoje ver os meus pares lamentarem por mim.” Aí dizia: “Eu, jogado nessas ondas, não sei se hei de voltar, mas tenho Deus no céu e na terra para nos salvar.” Era lindo.

 

P/1 – Muito bonito.

 

R – É. Mas também porque eu já tive derrame duas vezes, por isso que não estou muito lembrando.

 

P/1 – Mas lembrou a música toda.

 

R – E a senhora acredita que depois com três anos, veio uma freira para cá, uma alemã, uma freira.

 

P/1 – Como ela chamava?

 

R – Ela chamava Gertrudes. Aí contaram para ela que eu tinha brincado essa Barca. Como a minha mãe ela era uma mulher que tudo que ela fazia, que ela coisava, ela escrevia tudinho. Ela tinha todinhas as letras das músicas. Tudinho, do ponto ao fim. Um dia eu procurando eu achei. Quando fui: “É para a senhora ir lá com a irmã Gertrudes.” Eu fui. Ela disse para me convidar para mim botar o cordão com ela. Ah, a senhora não sabe naquela que eu fiquei.

 

P/1 – Ah, é, junto com a irmã? Como é que foi?

 

R – Ela disse: “Mas irmã, mas eu não sei ensaiar.” “Não, a gente vai ensaiar escondido e tal. Vamos embora, vamos embora.” Pois a senhora sabe que eu botei de novo esse cordão? Mas agora eu não sei mesmo. Eu perdi assim muitas. A senhora sabe, eu canto na igreja, eu canto no coral da igreja, mas muitos hinos que eu sabia de cor, não precisava nem olhar no caderno, eu não estou lembrando. Porque tem hora que parece dá na minha cabeça, sabe?

 

P/1 – Mas esse que a senhora ensinou para a irmã Gertrudes, será que a senhora lembra?

 

R – Eu me lembro que eu ensaiei com ela, mas não me lembro mais as músicas. Porque perdeu. Perdeu, porque esses meninos, a senhora sabe, onde tem curumim grande, os meus filhos acho que jogaram tudo fora esses cadernos, que eu não sei para onde foi.

 

P/1 – A sua mãe tinha aprendido a ler e a escrever aonde, Dona Mimi?

 

R – Aí mesmo com os tios dela. Ela tinha um tio que ele era mais adiantado dela, ensinou ela. E como continuação, porque ela pegava livro assim como eu fazia. Eu pegava livro, eu fazia cópia, cópia, ia endireitando mais a minha letra. Mas agora até que nem escrevo porque a minha vista está muito ruim, tenho que tratar da minha vista. Arrumar um óculos melhor para mim usar, porque está...

 

P/1 – Mas a senhora acabou indo mesmo só até a segunda série aprendendo a ler e a escrever direitinho?

 

R – É. Mas os meus netos que eu crio eu não quero assim. Um já está na primeira do segundo grau e outro vai fazer aquele, o Pablo já está no último do segundo grau. Se Deus quiser ele vai passar. Eu falei: “Olhe, meus filhos, capricho, porque ao menos isso eu quero deixar para vocês. Quando eu morrer, vocês dizerem: ‘a avó morreu, mas ela nos deixou meio adiantados na leitura’.” Porque hoje quem não sabe não vive bem, né, mana? Só é escravo dos outros. Aquele tempo não, era tão legal, ninguém fazia uma, botava, esse homem que é o prefeito ele não deu emprego para o meu neto, porque ele não era do partido dele. Foi o que eu disse para a mulher dele, que eu sou positiva. Eu disse para ela: “Ah, mana, teu marido não quis dar emprego para o meu neto, mas tudo bem, eu sei que não vou morrer de fome porque Deus é bom. Ele é pai, Ele é bom mesmo. Mas só tenho a dizer que um dia vai ser um dia. Deus não é vingativo, mas ele dá o exemplo para a gente.”

 

P/1 – Deixa eu voltar lá, Dona Mimi, antes da gente encontrar esse prefeito aqui, a senhora estava contando para a gente que a senhora com 18 anos, a senhora brincava na Barca.

 

R – Era.

 

P/1 – E qual era o outro cordão que a senhora gostava de brincar?

 

R – Olha, eu brinquei na Barca e brinquei também numa Ventarola. Mas da Ventarola eu não lembro nadinha muito mais da Ventarola. Porque a Ventarola era uma coisa que era fechada assim, aí depois abria aquela ventarola.

 

P/1 – O que é que era fechada, Dona Mimi, eu não entendi. Era um pano que era fechado?

 

R – Não, era um papel. Olhe, era um papel que é modo fácil, eram todos assim. Tudo assim. Foi levado os gomos e depois abria. Nunca a senhora viu um leque, que sempre tem? É, assim que era. Mas era grande aquela ventarola, era rosa. Aí nós brincamos, mas nós brincamos só no dia de uma festa aqui, Nossa Senhora da Saúde. Nós éramos uma porção, eu era a que tomava conta da ventarola e a dona da ventarola era uma minha comadre. Mas eu não estou lembrada de nem mais um canto dessa não. Essa eu perdi.

 

P/1 – E nessa a freira estava metida também?

 

R – Não, a freira não estava metida.

 

P/1 – E essa freira alemã que chegou, ela chegou aqui ela mudou, o que é que ela fez?

 

R – Olha, essa freira ela fez muita coisa aqui. Todas as freiras que vieram para cá elas deixaram muitas saudades. Porque tem uma que ainda está até no Juruti Velho, a irmã Bromilde. Essa irmã Bromilde quando chegou para cá ela se meteu a fazer casa. Fazia um tal de comungó. Esse comungó era para subir as casas. Ela fez muita casa para pobre aqui. Ajudou muito.

 

P/1 – Comungó o que é que é?

 

R – É que fazem de barro para fazer assim como esse aqui. Esse aqui é tijolo, né? Mas dela era comungó que fazia as paredes da casa. E assim que era. E a irmã Gertrude ela ensinava a costurar. Muita gente que não sabia nem pisar na máquina ela ensinou a costurar. Eu era metida lá, mas o meu trabalho era só de enfiar as máquinas. Ficava lá, porque não era todo dia, eram três dias por semana.

 

P/1 – Ela ensinava costura? Só para meninas?

 

R – É. Não, não, assim, para senhora, para quem quisesse aprender que não soubesse, ela ensinava.

 

P/1 – E elas também faziam a missa? A senhora ia muito na igreja nessa época?

 

R – Não, elas não faziam missa, elas assistiam só. Porque tinham sempre os padres, né? E tinha uma outra, essa Bromilde, assim que ela fazia casa, ela fazia horta. Mas era muita horta. Só mesmo para nós mesmo ela distribuía. Chegava no dia ela distribuía. Cada uma de nós trazia um pouco das verduras. Ela trabalhou muito essa irmã aqui em Juruti. E a outra salvou muita gente da morte, abaixo de Deus, a irmã Ávila.

 

P/1 – Por quê? O que é que ela fez para salvar?

 

R – Porque ela salvava assim, mulher que estava para ter neném e não podia ter. Ela operava e fazia, mas ela era. Ela era mesmo. Agora não, a senhora vai lá no hospital é só briga. Porque tem gente que chega, você bate lá e não tratam direito dos doentes. Vai tudo para Santarém. Até chegar em Santarém já está morto. Nem que vá de avião. Naquele tempo era bom. Era bom por isso, tinha doutor. Mas agora tem, mas não sei como lá em Santarém eu escuto, falam muito da prefeita de lá. Quando querem dizer as coisas, dizem. Eu escuto, mas daqui não falam nada, mas não falam mesmo. E ele é um prefeito assim, se a senhora é empregada dele e eu não sou, a senhora vai se por a conversar comigo, no outro dia a senhora vai pegar a sua conta. É assim que ele é.

 

P/2 – A senhora disse que aos 18 anos, logo que começou a fazer as festas, a senhora conheceu seu marido também.

 

R – É, eu casei com 20 anos. Meu marido também gostava de festa. Eu gostava muito sabe de quê? De rezar. Mas era só morrer um lá, iam me chamar para rezar. Aí ele dizia assim para mim: “É lógico que tu pede já que morra para ti rezar.” Era, mas eu gostava muito de reza. Gostava mesmo.

 

P/1 – A senhora gostava de rezar em velório?

 

R – É, velório. Porque a gente faz assim, aqui na nossa terra se morre um a gente faz sete dias a reza para ela. No primeiro dia acende uma vela, no outro, até as sete velas, é o último dia. Aí a gente vem embora, já terminou. Tem a missa e pronto. É assim que é. E esses sete dias a gente vai rezar.

 

P/1 – Vai rezar o quê?

 

R – É um livro, tem um livro próprio para rezar. Um livro próprio para rezar.

 

P/1 – A senhora gostava muito de fazer isso.

 

R – Mas eu gostava muito de fazer isso. Eu gostava, não, eu gosto. Agora já não, porque a minha vista é ruim. Mas aquilo que eu posso fazer ainda faço. Eu gosto de fazer.

 

P/1 – E o seu marido a senhora conheceu aonde?

 

R – Aqui mesmo em Juruti.

 

P/1 – Mas em que situação?

 

R – Ele morava aqui nessa rua, nessa rua ele morava. Tinha uma festa, a senhora sabe, na festa a gente conversava, ora a gente arrumava uns namorados.

 

P/1 – A senhora namorou muito?

 

R – Ainda levei um ano, que a mamãe não queria que eu me casasse. Até que depois nós casamos.

 

P/1 – Mas a senhora teve outros namorados antes?

 

R – Teve (risos). Mas sabe por quê? Porque era assim, a gente ia na festa, tinha pouca dama aqui. A gente ia, aí tinha, naquele tempo tinham os caixeiros viajantes, que chamavam. Eles chegavam, eles perguntavam: “Mas qual daí que dança bem?” “Fulana.” Eles me chamavam Pé de Ouro. Eu dançava, chamavam Pé de Ouro. E eu não ficava no banco nenhuma vez. E era assim, mas eu gostava de dançar.

 

P/1 – E a senhora namorou algum caixeiro viajante?

 

R – Vários (risos). Só na época, porque tinha, caixeiro viajante está viajando, né? E vem só naquela época lá, parou, vai embora. Daí ficavam os daqui mesmo (risos). Tu já está atrás do frango, é? Passa daí, cachorro.

 

P/1 – Aí a senhora namorou os caixeiros viajantes. Qual era o nome do caixeiro que a senhora namorou?

 

R – Quem sabe, nem me lembro mais. Nem lembro mesmo mais deles.

 

P/1 – Mas namorou um, namorou dois, namorou três e acabou com seu marido? Como é que ele chamava?

 

R – O nome dele era Quirino Correia.

 

P/1 – A senhora conheceu ele assim, a senhora começou a namorar...

 

R – É, conheci por aqui. A gente era conterrâneo aí, ele, mas ele era músico. Por causa de uma banda daqui da Santa Rita. Ele vinha tocar aqui em Juruti. E ele tocava e eu dançava.

 

P/1 – E aí, a senhora que se encantou por ele ou foi ele que se encantou pela senhora?

 

R – Eu acho que todos os dois, né? Se encantaram e casaram. Eu tive nove filhos com ele.

 

P/1 – Nove? Foi bom o casamento?

 

R – Foi, até que não foi ruim. Nunca ele me bateu.

 

P/1 – Ele bebia?

 

R – Ele bebia, mas ele era um que bebia, mas não era assim de chegar, brigar, brigar. Ele procurava logo acalmar. Porque tem mulher que o marido chega, apanha. Começa a falar na memória, e pronto, mas ele não.

 

P/2 – Como é que foi a primeira vez que a senhora foi mãe, o primeiro filho?

 

R – Meu primeiro filho foi mulher, foi a Rosimar. Ela, mas era, eu acho que eu fui até uma mãe que eu não estranhei, porque eu sempre gostei de criança, sempre gostei de criança. Meus tios tinham filhos, sempre gostei, pegava as crianças. Aí quando eu tive filho eu não estranhei.

 

P/1 – A senhora teve os filhos em casa?

 

R – Todos em casa.

 

P/1 – Quem que vinha ajudar no parto?

 

R – Era uma parteira, uma velha.

 

P/2 – Qual era o nome dela?

 

R – Olha, mano, para mim ter uma idéia que ele, que chamavam, para uma chamavam Tiborna. Nome feio Tiborna. Da outra era, eram sempre duas, da outra era, como era o nome dela, meu Deus? Era Maria Brasil. Eram essas duas. Eu tinha muita fé nelas, abaixo de Deus, nunca fiquei enrascada.

 

P/1 – Mimi, então a senhora casou, teve os nove filhos. A senhora vivia do quê?

 

R – Da mesma coisa, do trabalho. De fazer a roça...

 

P/1 – Me conta dos seus nove filhos, quais são os nomes deles?

 

R – O que morreu o nome dele era José Orimar. Do outro, eu tive dois gêmeos: Lucivaldo e Rosinaldo. Aí teve o Nelson, esse que morreu já vai fazer dois anos, tem o Antônio Everaldo, esse que mora em Santarém. Tem o Edinaldo. A senhora viu aquela mulher gorda que chegou? Pois é a mulher desse Edinaldo. Mulher tinha a Linamares, Graciete e Rosimar.

 

P/1 – Os nomes quem é que escolhia, a senhora?

 

R – Eu. Eu, a mamãe.

 

P/1 – Da onde escolhiam os nomes?

 

R – Mamãe que gostava de escolher os nomes. Agora, da última, essa última que é a mãe do Pablo, que é a Linamares, foi uma tia dele. Que ela tinha uma tia por nome Lina, era uma freira. Aí ela morreu, freira. Ela disse que era para eu botar o nome da minha filha o nome da tia dela. Aí para não ser só Lina, para não ser só Mares, como é? Para não ser só Lina eu botei Linamares.

 

P/1 – A senhora botou o Mares.

 

R – O Mares já adiante.

 

P/2 – Seus filhos puderam estudar?

 

R – Eles todos estudaram. Não muito porque aqui não tinha nesse tempo. Não tinha, só tinha até a quinta série, só até a quinta. E eu não tinha como botar eles daqui. Para arredar tem que ter dinheiro, e não tinha. Mesmo assim está servindo para eles. Um é ferreiro, ele ganha muito bem, a senhora sabe. Ferreiro ele é. E outro é, ele trabalha em negócio de motor, mas ele não se dedicou muito ao motor. Ele tem uma taberna bem aqui, logo abaixo aqui da onde eu moro. E esse que morreu ele era, bem dizer, marchand. Ele gostava de comprar e vender peixe, negócio de carne de porco, carne de gado. Ele fazia isso e era disso que ele vivia. O mais velho. Agora esse que morreu agora ele não, ele morava aqui comigo. Ele era ourives, ele foi para Santarém. Lá ele fazia tudo de jóia. Eu não sei o que aconteceu que ele se desgostou, veio, nunca mais ele quis voltar.

 

P/1 – A senhora não sabe o que aconteceu?

 

R – Não sei. Não sei o que aconteceu para ele não voltar mais para lá.

 

P/1 – Ele era casado?

 

R – Não, era solteiro.

 

P/1 – Ele tinha quantos anos?

 

R – Ele tinha, parece que era 38 ao modo, não tinha 48 ele tinha. 48 anos.

 

P/1 – Ele ficou em Santarém...

 

R – Mas ele se criou lá em Santarém, bem dizer. Ele saiu daqui ele tinha uns 15 anos. Quando ele voltou ele já estava mesmo um rapaz. Aí ele veio, mas ele não quis mais voltar. Mas ele trabalhava aqui. Ele emendava cordão, e trabalhava de qualquer serviço que viessem convidar ele ia fazer. Assim, braçal, sabe? Deixou de ser, diz o coisa: “Deixou de ser mãe para querer ser pai.” Não quis trabalhar mais na profissão dele. E os dois primos dele com quem ele trabalhava, eles estão bem em Santarém.

 

P/1 – Mas ele começou a beber aqui ou lá em Santarém?

 

R – Não, desde Santarém ele bebia.

 

P/1 – Muito?

 

R – Não, lá ele não bebia muito, porque ele tinha o trabalho, né? E aqui ele não tinha.

 

P/1 – E aqui quando ele voltou, ele não tinha mais trabalho.

 

R – Não, aqui não tinha trabalho. Porque o trabalho era lá. Porque lá que tinha os maquinários de fazer tudo, jóias. Aqui não tinha, aqui só tinha as garrafas (risos).

 

P/1 – E a senhora que sustentava ele?

 

R – Não, ele se sustentava.

 

P/1 – Como?

 

R – Ele comprava roupa para ele, porque ele trabalhava assim, ele trabalhava, não mais nas jóias, mas ele trabalhava, serviço braçal. Ele pescava, ele vendia peixe. Ele ia trabalhar com outras pessoas que convidavam ele, ele ia trabalhar. Passava semana, chegava sábado. E esses primos dele, que estão lá em Santarém, eles davam muita roupa, mandavam muita coisa para ele: roupa, sapato, tudo eles mandavam para ele. Gostavam muito dele. Quando ele morreu lá eles vieram trazer ele de avião, morto já estava.

 

P/2 – Ele morreu de? Como é que foi o jeito que ele morreu?

 

R – Ele morreu muito inchado, inchado. Deu aquela grande falta de ar, aí ele foi embora. Não teve o que fizesse mais por ele.

 

P/1 – Esse é um, aí os outros dois?

 

R – Agora o outro, ele sofria hérnia. Foi para Álvares operaram ele, levou uns dias lá depois ele veio para cá. Ele estava com 18 dias de operado, não sei se era 7 ou 18. Chamaram a mulher dele para cortar a unha dele que estava muito grande. Ela foi cortar a unha, quando chegou numa dessas aqui o sangue esguichou lá da cesura. E foi sangue até morrer.

 

P/1 – Sangue...

 

R – Em Óbidos, lá pela cesura da hérnia que botou sangue, ela sangrou. Morreu disso.

 

P/1 – E ele estava aqui ou estava lá?

 

R – Estava lá em Santarém. Ele estava aqui, daqui ele viajou para Óbidos. E lá em Óbidos ele morreu.

 

P/1 – E a sua filha morreu no parto?

 

R – É, a minha filha morreu, disseram que foi derrame cerebral que deu nela. Não, hemorragia cerebral. Porque ela estava de parto, né? E aí deu uma grande dor na cabeça, a mulher disse: “Olha, Lina, trate de tomar-te um banho.” Ela pegou, tirou a blusa e embrulhou numa toalha. Quando ela abaixou para tirar o short ela rebolou. Aí só morreu. Ainda amanheceu, ela morreu umas cinco horas da manhã, amanheceu dia dois de setembro. Eu tenho dois filhos que morreram dia dois. O Nelson morreu dia 2, dia da festa daqui, de julho. E a Lina morreu dia 2 de setembro.

 

P/1 – E seu marido?

 

R – Ele morreu em novembro. Mas ele está fazendo oito anos de morto.

 

P/1 – Do que é que ele morreu?

 

R – Diabetes.

 

P/1 – Mas a senhora ainda estava casada?

 

R – Estava. Estava, ele morava aí. Mas não essa casa, era outra. Depois que nós mudamos.

 

P/1 – O que é que a senhora pensa assim, sente, quando perde uma pessoa para a senhora tão querida, um marido, um filho?

 

R – Vixe, meu Deus. Eu já passei foi muito doente. Credo, escapava de morrer.

 

P/1 – O que é que dava na senhora?

 

R – Dava ataque. Atacava meu coração. Era só injeção, remédio. Pior que eu não comia. Nossa.

 

P/1 – Mas a senhora ia na igreja, melhorava o sentimento ou não ia na igreja?

 

R – Ia na igreja sim, ia. Não deixava de ir na igreja. Agora que eu não tenho muito ido por causa que, dessas mortes, matam muita gente por aí assim. A turma bate. O velho vai andando, um dia desses um ônibus matou uma senhora bem ali no canto. Coitada, ela vinha chegando para receber o dinheiro dela.

 

P/1 – Acidente, tem muito acidente?

 

R – Mas tem. Acidente, matam os outros de brincadeira já. Eu tenho medo, medo, a senhora sabe.

 

P/1 – A senhora soube quando chegou a empresa aqui, mudou alguma coisa na cidade?

 

R – Mas se foi essa empresa que trouxe mais essa fuleragem.

 

P/1 – Foi?

 

R – Foi.

 

P/1 – O que é que a senhora lembra de quando chegou a empresa?

 

R – Porque quando a empresa não estava aí não tinha tanta gente, não tinha tanta coisa assim. Mas depois que ela chegou, mas chegou homem, homem, homem, homem, homem. Mas que chegava a escurecer. Essa rua a gente não podia andar de tanto ônibus. Carro, tudo quanto era carro. Muito carro. Aí pronto, aí me deu medo, porque aí que morria gente. Ficou assim. Agora já não tem muito, mas de vez em quando. Olha, hoje vai chegar um de Santarém. Que o cara matou porque o cara era, como é? Que faz aquelas pinturas na pessoa, que fazem? Vocês já viram. E aí esse um que morreu trabalhava na casa do sargento, mas não sei qual sargento, um sargento qualquer. E ele disse assim: “Fulano, porque tu convidou esse rapaz? Ele está muito cheio dessas besteiras. Olha, ele é galeiroso. Dispensa ele, diz que eu não quero mais que ele venha trabalhar.” Eu acho que ele não acreditou que foi o dono do trabalho que mandou despejar ele. Eu acho que ele pensou que foi o rapaz. O rapaz estava deitado na rede ele entrou com a faca, meteu-lhe que o bucho veio para fora. Matou o rapaz. Ele foi para Santarém, mas lá eu acho, eu não sei se já chegou ou vai chegar.

 

P/1 – Mataram ele?

 

R – Mataram ele. Aí morreu lá em Santarém. E ele fugiu. Por isso que eu tenho medo. Já não dá muito a gente se fiar, né?

 

P/2 – As pessoas doentes aqui vão todas para fora tratar?

 

R – Todas para fora. Porque se não for, não vai levar vela. Agora eu quando chego lá no hospital que vou doente, eu exijo, exijo que a senhora nem sabe. “Olha, eu não quero tomar só água desse soro. Porque vocês só dão aquela água, bota um remédio lá dentro. Só me conformo quando eu ver esse soro meio amarelo, porque eu sei que tem outra injeção aí.” Dizem que eu falo muito. Mas também se eu não falar, vão me dar soro só água. Não me faz nada. Agora, tem uma vacina que eu ainda não tomei e nem sei se eu vou tomar. Porque para mim estão inventando esses negócios, sei lá. Eu sou meia... Uma vez vieram dar vacina para gripe, eu fui daqui lá para a casa de uma prima minha. Eu cheguei lá, chegaram lá: “É, a senhora está fugindo?” “Não.” Me aplicaram. Mas, mana, passei a maior febre, febre, gripe forte, que passei muito mal. Aí eu disse que nunca mais eu tomava. Agora já vem de novo? A gente não toma, a gente morre; a gente toma, a gente morre sempre, então pronto. Deus é melhor médico da gente, Ele que defende a gente para tudo, então é o que Ele quiser.

 

P/1 – Dona Mimi, conta aqui para mim, o que é que a senhora gostaria que acontecesse ainda? A senhora tem um sonho?

 

R – Como, acontecesse aqui em Juruti?

 

P/1 – Para o futuro, aqui para a senhora?

 

R – Olha, (risos), a senhora sabe o que eu gostaria que eu ainda não consegui é um banheiro para mim. Isso eu gostaria de ter um banheiro. Porque quando o prefeito Isaías era prefeito ele pegou deu ordem para fazerem um banheiro aqui na minha casa. Só que foram fazer primeiro por ali, pelo interior, por onde sanitário era por trás do pau. Feio, era feio. Eles foram fazer para lá e não fizeram o meu. Quando ele entrou a primeira vez, isso aqui, um dia ela ia passando, a Aparecida, que é a mulher dele. Eu disse: “Venha cá.” Ela veio e sentou. Tinha um banco lá na frente. Eu disse: “Mas Aparecida, não era para fazer meu banheiro?” “Era.” “Mas o Isaías ia fazer e não fez, agora eu quero ver se tu vai fazer.” “Não, Dona Mimi, a gente vai fazer sim o seu banheiro. Ele não fez, mas nós vamos fazer para a senhora.” “Então tá bom”, eu disse. Manazinha, até hoje. Findou o primeiro semestre, já está para findar o segundo e não saiu o meu banheiro. Aí, hoje a minha filha chegou lá de Santarém eu disse: “Minha filha, vem ver se dá para tu emprestar um dinheiro, se dá para emprestarem um dinheiro para mim que eu quero mandar fazer o meu banheiro.” Ela foi lá no, nem sei de quê, num sargento, a modo, ele disse que dar, dava, mas só que eu já tenho 83 anos não pode fazer mais empréstimo. Eu não posso mais fazer. Só que lá no banco eu posso fazer. É isso que eu tenho vontade ainda de ter, mana, só a única coisa. Porque outras coisas eu não tenho mais vontade assim de ter, por causa que pra mim a modo eu estou para morrer, e fico brigando e... (risos). Agora, o banheiro, eu vou brigar por causa do banheiro. É isso aí, vizinha, é isso que eu ainda desejo de ter na minha casa, meu banheiro, somente.

 

P/1 – Bom, Dona Mimi, muito obrigada, viu?

 

R – De nada. Vai desculpando se eu não lhe falei bem.

 

P/1 – Falou.

 

R – Pois é, assim que é.

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