Busca avançada



Criar

História

O pão nosso de cada dia

História de: Glaci Salete Schleicher
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 22/06/2011

Sinopse

Glaci Salete Schleicher aprendeu cedo a cozinhar, fazendo pães, cucas e biscoitos. Trabalhou na roça com a família. Começou a fazer os produtos para vender. Participa de uma cooperativa. Com apoio do Sebrae e do Instituto Camargo Corrêa pode comprar maquinário e ampliar a produção.

Tags

História completa

P/1 – Boa tarde dona Glaci.

 

R – Boa tarde.

 

P/1 – Obrigado por ter atendido nosso convite. Eu queria que a senhora, por favor, começasse dizendo o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.

 

R – Glaci Salete Schleicher, Barra Grande, 17 de dezembro de 1956.

 

P/1 – Certo. O nome do seu pai e o da sua mãe, por favor.

 

R – Teobaldo Rendes e Tereza Rendes.

 

P/1 – O que fazia o seu pai?

 

R – Meu pai era agricultor.

 

P/1 – Onde?

 

R – Aqui mesmo.

 

P/1 – O que ele produzia?

 

R – Fumo, feijão, milho, criava porco.

 

P/1 – E a sua mãe?

 

R – A minha mãe o ajudava também.

 

P/1 – Vocês moravam onde?

 

R – Dá três quilômetros daqui.

 

P/1 – Como era? Era uma chácara, uma fazendola, uma granja, o que era?

 

R – Uma colônia de terra, ele tinha.

 

P/1 – E ele tinha uma área grande?

 

R – Dezenove hectares. 

 

P/1 – E ali que ele produzia o quê? Enfim, cultivava, além do fumo, feijão, mais alguma coisa? Animal cuidava?

 

R – A gente tinha um potreiro, vaca de leite para o gasto.

 

P/1 – E como era essa casa da sua infância?

 

R – Minha casa, como é que eu vou dizer? Era uma casa de madeira.

 

P/1 – A senhora saberia descrevê-la, como ela se distribuía?

 

R – Era uma casa com três quartos, sala, cozinha e uma área. Banheiro não tinha. Na época banheiro era fora, aquelas...

 

P/1 – Sei.

 

R – Privada que tinha.

 

P/1 – E eram mais irmãos?

 

R – Sim. Nós éramos nove, mas uma faleceu pequena e nós éramos oito, um irmão e sete irmãs.

 

P/1 – Um irmão e sete irmãs? E a senhora se localizava em que ponto dessa escadinha?

 

R – Eu sou a mais nova.

 

P/1 – Caçula?

 

R – É.

 

P/1 – Dona Glaci, a senhora conheceu seus avós?

 

R – Meus avós pelo lado do meu pai sim, e o pai da minha mãe também.

 

P/1 – A senhora sabe o nome deles?

 

R – Nomes dos meus avós eram...

 

P/1 – Por parte do pai por exemplo.

 

R – Bendoline e Avelina Rendes.

 

P/1 – Rendes. E por parte da mãe?

 

R – Da mãe era Carolina e... Como era o nome do avô? Não, do pai era Miguel.

 

P/1 – Certo.

 

R – Eu não me lembro do pai.

 

P/1 – Então vamos repetir, o do pai...

 

R – Do pai era Miguel e Adelina.

 

P/1 – Adelina. E da mãe?

 

R – Da mãe era Carolina e Bendoline.

 

P/1 – Dona Glaci, a senhora sabe da origem dos seus avós, de onde eles vieram, como é que eles vieram parar na região, a senhora já ouviu essa história alguma vez?

 

R – Mas olha, eles vieram de Selbach, pai falava.

 

P/1 – Como chamava?

 

R – De Selbach.

 

P/1 – Serba.

 

R – Selbach.

 

P/1 – Onde fica?

 

R – Selbach é ali perto de Ibirubá para lá, esses lados.

 

P/1 – Ibirubá?

 

R – É.

 

P/1 – E a senhora chegou a conviver com eles?

 

R – Não.

 

P/1 – Os seus pais falavam dos pais deles, dos seus avós, eles contavam histórias deles?

 

R – A minha mãe contava história que foi ajeitar o casamento da avó dela que não queria casar quando eles... Juntaram eles e os fizeram casar. Ela dizia: “Eu não quero esse vermelho”. 

 

P/1 – Não quero esse o quê?

 

R – “Eu não quero esse cara”, ele era vermelho.

 

P/1 – Ah, vermelho.

 

R – E ele era muito ruim com ela depois. Sempre sozinha. Quando ela teve o primeiro filho, teve sozinha, ele só corria o mundo.

 

P/1 – O que ele fazia?

 

R – Minha mãe dizia que ele saía de cavalo e nunca voltava quase pra casa. Disse que depois que ele faleceu, ela disse: “Não vou levar nunca nenhuma flor pra ele, porque ele não era bom pra mim”.

 

P/1 – Nossa. Que história. Enfim, mas de todo modo a origem da sua família sempre foi ligada ao campo...

 

R – Sim.

 

P/1 – À agricultura...

 

R – Sim.

 

P/1 – Ao cultivo, pecuária e tudo mais?

 

R – Depois que eu casei ele era ferreiro, eu o ajudava aqui também, na oficina.

 

P/1 – E a senhora, nesta sua infância, o seu pai e a sua mãe convocavam a senhora pra trabalhar junto com eles, a senhora ajudava na _____?

 

R – Sim.

 

P/1 – Desde quando a senhora se lembra de trabalhar?

 

R – Desde os seis, sete anos. Fazia uma enxadinha e tinha que ir junto com eles.

 

P/1 – O que a senhora fazia? Quais eram as suas responsabilidades ali naquele...

 

R – Depois que eu tinha oito anos eu já fazia pão, fazia almoço e os outros iam pra roça.

 

P/1 – Aos oito anos, dona Glaci?

 

R – Sim. 

 

P/1 – E como é que alcançava o fogão com essa idade?

 

R – Dava um jeito.

 

P/1 – A sua mãe lhe ensinou tudo isso?

 

R – A gente tinha que aprender.

 

P/1 – O que a senhora gostava de fazer?

 

R – Eu gostava de fazer almoço, fazer pão também, eu ficava bem feliz da vida quando fazia uns pães bonitos.

 

P/1 – Foi daí que veio essa vocação no futuro?

 

R – Eu acho que Deus me deu as mãos pra fazer isso.

 

P/1 – A senhora quando fazia um pão bonito o que acontecia? A senhora ia dizer aí.

 

R – Eu ficava feliz.

 

P/1 – Dona Glaci, trabalhando desde criança, desde pequena, como é que essa criançada, essa menininha se divertia ou não se divertia? Como é que era a brincadeira?

 

R – Ah, muito pouco. Fazia uns balanços só no domingo, brincava um pouco, machucava-se ainda. Balanço nas árvores. Nós pegávamos corda e fazíamos balanço.

 

P/1 – Não passeava? Não ia até o...

 

R – Muito pouco. Às vezes eles colocavam todo mundo dentro da carroça e daí nós íamos passear nos tios.

 

P/1 – Nos tios?

 

R – É. Mas era difícil.

 

P/1 – Dentro de casa não tinha uma brincadeira, uma boneca, um brinquedinho qualquer?

 

R – Até boneca nesse lado o pai era bem caprichoso pro Natal e pra Páscoa, a gente sempre ganhava um presente, ou uma boneca ou uma sombrinha.

 

P/1 – Uma o quê?

 

R – Uma sombrinha.

 

P/1 – Ah, sombrinha.

 

R – É. Alguma coisa sempre a gente ganhava.

 

P/1 – E quando que a senhora começou a estudar?

 

R – Comecei a estudar com sete anos.

 

P/1 – E a escola, onde era?

 

R – A escola era na várzea dos buracos, assim, passava potreiro ______ alta assim. Pegava o calçado na mão pra não estragar.

 

P/1 – Carregava o calçado?

 

R – É. 

 

P/1 – Tinha que passar pelo barro, é isso?

 

R – É. Barro. Capim você molhava, às vezes não conseguia nem escrever, tava dura com as mãos de frio, né?

 

P/1 – E era longe da sua casa a escola?

 

R – Dava três quilômetros. Tinha que subir um morro e descer. Nós íamos lá porque meu cunhado lecionava na época. Daí nós não descíamos pra cá, né? E era um pouquinho mais perto.

 

P/1 – Sei. E três pra ir, três pra voltar?

 

R – É.

 

P/1 – Nossa Senhora, era uma caminhada, né? A senhora se lembra de alguma professora que tivesse impressionado a senhora, que a senhora tenha lembrança até hoje?

 

R – Que deu aula pra mim?

 

P/1 – Sim.

 

R – Meu cunhado, Arsênio ______.

 

P/1 – Sim. Só ele que deu aula pra senhora?

 

R – Ele, daí tem a Altilha ____. Quem mais? Sabe que a gente até esquece. Valdir ___. ___________ também. A __________ também.

 

P/1 – Tinha várias então.

 

R – Sim.

 

P/1 – E quando a senhora estava frequentando essa escola, como que era a rotina? A senhora ia que horas? Voltava a que horas? Trabalhava que horas?

 

R – Se nós íamos de manhã nós tínhamos que ir às...

 

P/1 – Que horas da manhã, dona Glaci?

 

R – Seis e meia pra sair pra chegar até o horário. Dava uma hora de caminhada, uma hora, uma hora e pouco.

 

P/1 – E no frio?

 

R – Um dia pegamos um _____ do mato pra ver onde nós íamos chegar, chegamos quase no _____.

 

P/1 – Quase o quê?

 

R – Chegamos duas horas da tarde em casa.

 

P/1 – Quiseram cortar o caminho e erraram o caminho?

 

R – É. 

 

P/1 – Tá certo. E aí voltava pra casa a que horas?

 

R – Uma hora, uma e pouco. Às vezes a gente ficava brincando também, né?

 

P/1 – E aí ia trabalhar com a...

 

R – Com o pai na roça.

 

P/1 – Com o pai. E voltava a que horas?

 

R – Da roça?

 

P/1 – É.

 

R – Às vezes era escuro, depende do que a gente ia fazer, né? Depende do trabalho a gente queria terminado.

 

P/1 – E as refeições eram feitas em casa ou lá na roça?

 

R – Olha, às vezes em casa, às vezes na roça também. Levava, um levava pros outros que ficavam lá também.

 

P/1 – E quando que a senhora começou a se dar conta de que precisaria trabalhar por conta própria, ou ser empregada de alguém, sair de casa, por exemplo? Quando é que a senhora começou a se dar conta disso?

 

R – Mas olha, até na verdade eu ia à aula, estava fazendo a quinta série aqui, daí eu comecei a namorá-lo...

 

P/1 – O seu Evaldo?

 

R – É. 

 

P/1 – Como é que a senhora o conheceu?

 

R – A gente conhecia assim, porque eles tinham oficina e um comércio, né? A gente era freguesa ali deles. Mas daí na verdade eu tinha 17 anos, daí comecei a namorá-lo, engravidei, casei e parei de estudar. Devia ter continuado, mas parei.

 

P/1 – E aí como é que foi a vida? O que mudou? Mudou muita coisa, evidentemente, mas do ponto de vista do trabalho, como é que a coisa se arrumou?

 

R – Eu ia daqui lá em cima onde o pai morava trabalhar na roça.

 

P/1 – Continua trabalhando com ele?

 

R – Continuava trabalhando na roça. Eu dava a terça parte pra ele. Fazia pra comer, né? E ele trabalhava aqui, ganhava um salário do pai dele.

 

P/1 – Nesse trabalho que a senhora tinha, o que a senhora fazia? A senhora plantava?

 

R – Plantava milho, feijão, amendoim e coisas assim pra comer também.

 

P/1 – E a senhora disse que dava a terça parte pro seu pai, é isso?

 

R – Sim.

 

P/1 – E o resto comercializava como e onde?

 

R – A gente vendia ali pro pai dele, eles compravam feijão na época. E milho também.

 

P/1 – E aquele talento lá atrás que a senhora tinha desenvolvido com relação aos pães e tudo mais, como é que desabrochou novamente?

 

R – Quando eu casei a minha sogra um tempo dava sempre pão, não deixava terminar, mas dava pão. Daí um dia eu peguei e fiz, porque nós morávamos bem do ladinho da casa dela. Eu peguei e fiz os pães, ela viu os pães no meu forninho e falou: “Ué. Comprou pão no padeiro”. Eu disse: “Mas eu que fiz.” “Tu sabes fazer pão?” Eu disse: “Eu sei”. Daí ela não me deu mais pão, eu fazia sempre, né? E daí as cucas quando eu comecei a fazer, o pessoal gostava: “Faz alguma pra vender?”. Eu disse: “Faço”. 

 

P/1 – E a cuca a senhora aprendeu com quem? Com a sua mãe também?

 

R – A mãe fazia também pras festas.

 

P/1 – A gente pode dizer que foi aí que a senhora descobriu uma forma de ganhar dinheiro?

 

R – Eu faço crochê também. Não paro.

 

P/ 1 – E quando que a senhora decidiu fazer desse talento um negócio?

 

R – Como? Como tá funcionando agora?

 

P/1 – Sim. A senhora em determinado momento decidiu: “O meu negócio agora é fazer pão, fazer bolo, fazer cuca, fazer doce”. 

 

R – Sim. Eu fazia assim, daí meu filho viajava de caminhão e ele não quis mais ficar na estrada. Ele disse: “A mãe tá vendendo. A mãe faz e eu vou vender”. Eu disse: “Mas será que vai dar certo?”. Ele disse: “Vai sim”. Daí ele voltou e começamos a fazer mais, ele começou a me ajudar. Nós fazíamos aqui nesse local, lá tava abandonado, né?

 

P/1 – Vamos só organizar essa história. O seu filho é o único filho?

 

R – Não. Eu tenho quatro.

 

P/1 – Tem quatro filhos. Esse é o mais velho?

 

R – Não. Tenho uma guria que é mais velha.

 

P/1 – Ah, sim. A senhora então já casada estava fazendo pães e cucas e já estava vendendo.

 

R – Sim.

 

P/1 – Isso dava um bom sustento pra senhora naquela época?

 

R – Ajudava um pouco, não muito porque aquele lugar é pequeno também.

 

P/1 – E pra quem a senhora vendia?

 

R – Pros casamentos e pras vizinhas.

 

P/1 – Tinha boa saída?

 

R – Tinha. Quem comia uma vez depois queria... Um professor de Alpestre também, um filho dele que se ordenou padre, também fiz. Sempre para os aniversários dele sempre pega aqui, faz uns festões grandes. Pra Oktoberfest, a primeira que foi feita, eu fiz 200 cucas, eu e uma prima minha. 

 

P/1 – Oktoberfest aqui? De...

 

R – De Alpestre? A primeira, né? Depois cada ano faço. Mas aquela já faz 12, 13 anos, foi a primeira no caso.

 

P/1 – Então, quer dizer, aí o seu filho tinha resolvido sair de casa fazia tempo.

 

R – Sim. Ele não quis estudar, os outros estudaram e esse não quis saber de estudar e foi fazer o supletivo em Pato Branco. O segundo grau pra...

 

P/1 – Sim. E fazia o quê?

 

R – Quem? Ele?

 

P/1 – É. 

 

R – Ele primeiro estava por aí. Depois ele fez a carteira dele pra ir trabalhar com caminhão. Foi com caminhão, mas aí também não gostou. Ele quis voltar.

 

P/1 – E aí que começou esse negócio?

 

R – Sim.

 

P/1 – Entendi. E qual foi a armação que a senhora e o seu filho fizeram?

 

R – Daí ele pediu pra mim, um dia eu fui passear no Vagner, eu pedi pra ele assim, tinha uma reunião no Sebrae [Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas], porque eu sempre tava interessada no negócio de ____ do Sebrae, né? Eu escutei no rádio o que era essa reunião no Sebrae. Ele começou a falar pra mim, eu fiquei interessada, eu disse: “Eu vou mandar o Luciano falar com você, se ele se interessar ele pode entrar junto nessa cooperativa”. Ele foi, conversou com o Vagner e foi. Ele conseguiu essas máquinas tudo. E aí tá indo.

 

P/1 – Isso foi no momento em que a cooperativa estava sendo constituída? É isso?

 

R – Sim.

 

P/1 – Certo. E o que isso acabou mudando aqui no negócio da senhora? O que aconteceu aqui?

 

R – Como assim?

 

P/1 – No sentido... A senhora mudou daqui, saiu desse local, foi pra outro.

 

R – Ah, lá é bem melhor, tem mais espaço e tudo.

 

P/1 – E a produção?

 

R – A produção, i... Com o forno lá... Fazia aqui em... Meu Deus, como é que eu vou dizer? Num dia, lá faz em uma hora ou duas.

 

P/1 – Ah, é assim? Nessa escala?

 

R – É. Porque aqui era tudo com a mão, amassar na bacia. Lá tem as máquinas que amassam.

 

P/1 – E a senhora passou a vida inteira praticamente amassando no muque.

 

R – Eu sou assim. Um dia um cara me ligou 11 horas da noite, queria um bolo pro outro dia. E daí o meu filho disse: “Eu não vou fazer. Só se a mãe fizer”. Daí eu peguei e fiz. Uma hora da manhã eu tava fazendo bolo ainda. Parece que eu não sei dizer que não.

 

P/1 – É verdade. E como é que, quando a Camargo Corrêa veio pra cá, essa barragem toda, o que isso mudou na vida das pessoas aqui da região?

 

R – Ah, a gente sempre tinha esperança que ia melhorar. Meu marido pelo menos dizia: “Deixa vir a barragem que vai melhorar as coisas”. Isso aí deu uma grande melhora pra gente.

 

P/1 – Em que sentido, dona Glaci?

 

R – Que nem essa ajuda das máquinas e tudo que foi conseguido. Foi uma boa. A gente não ia conseguir assim.

 

P/1 – Essa relação que a senhora mencionou com o Sebrae ajudou o negócio da senhora a deslanchar, ou não?

 

R – Sim.

 

P/1 – Em que sentido? Como ajudou?

 

R – Ah, nós fizemos também uns cursos, né? Fizemos de ____, fizemos um monte de administração de empresas também.

 

P/1 – E como é que aparece o Instituto Camargo Corrêa nessa história?

 

R – Isso eu não vou saber te explicar. Não tô entendendo.

 

P/1 – O papel do Instituto Camargo Corrêa que apoia essas iniciativas, trabalhou junto com o Sebrae no desenvolvimento desse negócio.

 

R - Ah, isso aí é muito bom. Deus me livre.

 

P/1 – Porque tem aí também uma entidade que de algum modo tá ajudando a promover esse tipo de negócio.

 

R – Sim. Não é só o Sebrae no caso, que nem eu falei antes. O Instituto Camargo Corrêa, era a prefeitura também, né? Se não fosse a Camargo Corrêa a gente não ia nem... Não ia ter nada essas coisas que a gente tem.

 

P/1 – E a senhora participa das reuniões da cooperativa, do conselho do desenvolvimento comunitário?

 

R – Quando eu fico sabendo, sempre eu vou. Não perco. Ia aos cursos também. Nem que a gente não consiga gravar tudo, mas sempre participo.

 

P/1 – O que essas atividades mudaram pra essa comunidade que a senhora conhece desde tanto tempo? A participação nessas reuniões melhorou de algum modo a relação das pessoas, a relação da produção aqui da região?

 

R – A produção melhorou muito também.

 

P/1 – E a organização do trabalho, da própria comercialização, houve algum avanço nesse sentido?

 

R – Como? Se vende mais?

 

P/1 – Sim.

 

R – Sim.

 

P/1 – Quem ajuda mais? A cooperativa ou...

 

R – A cooperativa tanto... E também ele sai. Ele pegou uns trajetos pra fazer. Daí ele sai a vender também. Que nem, agora começou a ir até Planalto porque pediam pra ele ir. Dizem que lá ninguém faz pão que nem ele faz. O pessoal que vem aqui acampar, né? Daí ele começou, ele vendeu bem, ele foi sexta passada, ele vai toda sexta de manhã agora.

 

P/1 – O seu marido?

 

R – O meu filho.

 

P/1 – O filho da senhora. Hoje o que a senhora produz?

 

R – Hoje pão, cuca, biscoito, nega maluca, pastelzinho, massa, pizza. Deixa-me ver se eu não me esqueci de nada. É o pão francês, o outro de água, aquele sovadinho também.

 

P/1 – Sovado.

 

R – Pão caseiro. Cuca sovada.

 

P/1 – A senhora tem um cardápio bem diversificado.

 

R – É. E não fizemos curso nenhum. Tudo assim...

 

P/1 – E quantas pessoas estão envolvidas nesse processo?

 

R – Tem três, quatro.

 

P/1 – E como que é a comercialização disso? A senhora vende, tem pessoas pras quais a senhora vende com frequência? Como que é?

 

R – Tem. 

 

P/1 – A senhora leva lá ou eles vêm buscar? 

 

R – A gente leva, né? Que nem pra cidade dá 12 quilômetros, aí no sábado ele vai, sempre fica um tempo na feira, depois ele vai às casas. O pessoal espera já, né?

 

P/1 – E a senhora vende toda a sua produção?

 

R – Vende quase tudo. Se sobra é muito pouquinho. Mas cuca, ele nunca volta com cuca e pão. Só às vezes algum biscoito, né, que já leva a mais também pra...

 

P/1 – O que tá faltando pra aumentar a produção? A senhora tem capacidade de aumentar essa produção?

 

R – Teria que no caso... Como que é? A Vigilância liberar. Eles tinham que fazer dois banheiros e coisa, não tem dinheiro pra arrumar isso aí ainda.

 

P/1 – Entendi. Tem ainda esses empecilhos.

 

R – Eles vieram, olharam, daí mandaram fazer dois banheiros. Até uma repartição ele colocou, mas a gente tem que ir devagarzinho porque a gente tinha umas contas pra trás também.

 

P/1 – Como é que se dá essa estrutura de crédito? Como é que a senhora consegue crédito, esse microcrédito? Quem é que financia esse negócio da senhora?

 

R – Das máquinas pra ele estava a Credioeste.

 

P/1 – Credi?

 

R – Credioeste. Chapecó.

 

P/1 – Credioeste? Ah sim. E é microcrédito? Dá pra pagar? É uma coisa que dá pra administrar?

 

R – Mas olha, isso aí eu não sei bem porque é o Luciano mais que faz, né?

 

P/1 – É o Luciano que trabalha com isso. Então, a senhora hoje tem o seu marido Evaldo, o seu filho Luciano envolvidos diretamente no negócio, é isso?

 

R – É. 

 

P/1 – Tá certo. A senhora mencionou esse fato da família estar junta, do filho voltar. Isso melhorou a produtividade? A senhora acha que hoje...

 

R – Sim. Melhorou. Os outros filhos também não gostaram que ele estivesse na estrada. Não queria estudar e na estrada a gente não sabia onde é que estava, se estavam assaltando, o que tava fazendo, né? E assim daí... A gente ficou muito triste quando ele foi.

 

P/1 – Mas agora o quadro é outro.

 

R – É. 

 

P/1 – Dona Glaci, o poder público ajuda de alguma forma ou incentiva? A prefeitura tem algum programa? O governo do Estado tem algum tipo de apoio, de promoção pra esse pequeno negócio?

 

R – Mas olha, até agora nós não conseguimos. Precisaria, né?

 

P/1 – Sim.

 

R – Que nem, pra fazer isso aí nós precisaríamos um empréstimo com pelo menos um ano de carência. Essas coisas não tem. O juro é muito alto, ele tem outras contas pra pagar, ele não consegue fazer. Se fosse ganhar uma carência pra fazer tudo seria melhor.

 

P/1 – Mas esse crédito não está disponível em lugar nenhum ou apenas ele está disponível e é caro?

 

 R – O que tem disponível é caro _____________. Aí não adianta você colocar também.

 

P/1 – Entendi. Dona Glaci, esse trabalho em família é mais fácil ou mais difícil de ser feito? Isto é, tem aí uma liga boa entre as pessoas que estão trabalhando no negócio?

 

R – Tem. Às vezes é um pouco complicado, mas sempre se dá um jeito. 

 

P/1 – Tá certo. E qual é o segredo do seu produto, do produto que vocês fazem? Porque ele é tão elogiado, tão procurado, tão bem aceito?

 

R – Não tem como eu te dizer agora.

 

P/1 – Não. Não quero seu segredo, só quero a sua avaliação.

 

R – Porque tu tens que fazer as coisas bem e cuidar. Assar bem na hora certa, não pode deixar crescer demais, não pode deixar passar do ponto. Tem que ter todo o cuidado, porque eu já dei a receita pra muitas pessoas, elas não acertam e é a mesma receita. Eles acham que não é a mesma, mas é a mesma.

 

P/1 – É o ponto da cozinheira.

 

R – É.

 

P/1 – Tá certo. A senhora, portanto, pensa ainda em ampliar o seu negócio, em vender mais?

 

R – Eu penso. Depois, se der certo tudo, que a Vigilância aprovar, daí a gente pode vender até pra outros Estados. Quando eu vou a Chapecó eu sempre levo, tem gente que quer, né? Quem come uma vez depois fica encomendando.

 

P/1 – Dona Glaci, a cooperativa pode ter um papel importante nesse processo aí de comercialização?

 

R – Sim. Até o Vagner falou se ele quer ver se depois ele coloca também, como é que eu vou dizer? Nos negócios que ele quiser, ele coloca o nosso produto junto também.

 

P/1 – Pra isso tá faltando só a regularização?

 

R – É.

 

P/1 – E quais são as suas expectativas pro futuro, dona Glaci? Como é que a senhora enxerga aí os próximos anos, o futuro do seu negócio?

 

R – Eu espero que a gente se dê bem, né?

 

P/1 – Mas o caminho tá construído.

 

R – Sim. É só continuar e caprichar.

 

P/1 – Outra vez eu vou insistir, sem pedir o segredo da senhora, mas qual é a receita de uma boa massa? Não do produto final, mas aquela base lá, a matéria prima que a senhora usa. De onde é que a senhora compra a matéria prima? Como é que a senhora escolhe?

 

R – A farinha?

 

P/1 – Isso. Por exemplo, açúcar.

 

R – A farinha eu uso a _________ e a... Como é que é a outra? Tem a Orquídea. Tem mais uma marca. E o açúcar o cristal.

 

P/1 – E a senhora tem facilidade em encontrar esses produtos, matéria prima...

 

R – Tem alguma coisa que eu mando meu filho trazer de Chapecó, que nem no caso as embalagens. Ou senão tem a _____________ eu consigo ali.

 

P/1 – A Cooperoeste tem alguma... Essa cooperativa...

 

R – É. Eu acho que é.

 

P/1 – Eles fornecem bastante insumos?

 

R – É. Que nem, o açúcar tá bastante na promoção e a farinha e eu aproveito, né?

 

P/1 – Entendi.

 

R – Só que os recheios eu teria que...

 

P/1 – E as massas pra macarrão, por exemplo, que a senhora pelo jeito faz tão bem?

 

R – Vai ovo e farinha também e depois faz a massa e passa na...

 

P/1 – E a senhora também comercializa assim dessa forma, de mão em mão, entrega?

 

R – Ele leva junto também uma caixa de isopor. A gente congela e leva.

 

P/1 – Tá certo. Muito bem. A senhora disse que conheceu o seu marido enquanto tava na escola ainda...

 

R – Sim.

 

P/1 – Aí são quatro filhos, a senhora disse...

 

R – Sim.

 

P/1 – Tem netos?

 

R – Tenho cinco.

 

P/1 – Cinco netinhos?

 

R – Duas meninas e três guris.

 

P/1 – Que futuro que a senhora espera pra esses seus netos?

 

R – Eu espero um futuro muito bom pra eles. Já tão bem assim, encaminhados. O mais novinho tá com três aninhos e já escreve o nome dele, copia tudo os nossos nomes também. Bem inteligente.

 

P/1 – A senhora imagina, por exemplo...

 

R – Ah, ele diz sim que ele quer ser doutor.

 

P/1 – Mas a senhora imagina os seus netos nesse negócio que a senhora começou?

 

R – Nesse negócio?

 

P/1 – Por exemplo.

 

R – Essa menina que tá aqui fala que... Já os outros é um pouco mais difícil eu acho. Não se sabe também. De repente vão querer também. Até minha filha mais velha disse: “Mãe, vem pra cá e coloca alguma coisa junto com o meu marido”. Porque ela tem três filhos, ela leciona no Senai e numa faculdade e ele tava sempre: “Vem aqui. Coloca alguma coisa aqui em Chapecó, vocês vão vender bem também”. 

 

P/1 – Mas pode ser um...

 

R – É. Pode ser também. Posso ensiná-los também.

 

P/1 – Certamente. A senhora disse que participa de todas essas reuniões que...

 

R – Sim. Só se é alguma que a gente não sabe, mas que eu sei e posso ir, eu vou.

 

P/1 – A senhora que conhece aqui a região há tanto tempo, a senhora acha que esse tipo de atividade melhorou a relação das pessoas? As pessoas tanto do ponto de vista da relação humana quanto da relação profissional, teve um avanço, não teve? Como é que a senhora avalia isso?

 

R – Ah, melhorou.

 

P/1 – A vida, digamos, tá melhor do que antes?

 

R – Ela tá um pouco melhor.

 

P/1 – O que a senhora quer mais pro futuro?

 

R – O que eu vou querer mais pro futuro?

 

P/1 – Assim, um pouco, quais são os seus sonhos? O que a senhora...

 

R – Ah, meu sonho é que a gente tenha um pouco de conta. Terminar essas contas. Meu sonho, eu quero ter um Fiat Uno pra mim. Isso aí também porque eu tenho carteira, né, não tenho carro pra sair agora.

 

P/1 – Essas contas acabam se pagando.

 

R – A gente tem que correr atrás que a gente consegue.

 

P/1 – Porque também tem uma vida de trabalho aí pra sustentar tudo isso.

 

R – É, porque agora tá difícil. Trabalha até meia-noite, amanhã seis horas já está de pé.

 

P/1 – A senhora trabalha até meia-noite?

 

R – Trabalho. Tenho doce, faço crochê também. E ele vai e leva os estudantes pra cidade também.

 

P/1 – Então é uma vida pesada.

 

R – Bem. Nunca a gente tem férias, nada. Eu gostaria de umas férias também. Até hoje nunca ainda.

 

P/1 – Gostaria, né?

 

R – É.

 

P/1 – E a senhora gosta do que faz?

 

R – Gosto. Se a gente faz com amor a gente acerta as coisas, né?

 

P/1 – Por isso que os seus produtos são tão gostosos. Tá bem, dona Glaci. De todo modo, tem alguma coisa que a senhora gostaria de dizer que eu não lhe perguntei?

 

R – Gozado, eu não lembro também.

 

P/1 – Tá bom. Então eu agradeço bastante a sua gentileza de ter nos atendido.

 

R – Obrigada.

 

P/1 – Muito obrigado.

FINAL DA ENTREVISTA


Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+