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História

O palco é a minha casa

História de: Yamandu Costa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/02/2009

Sinopse

Nascimento em Passo Fundo. Infância e adolescência viajando com a família para apresentações musicais. Interesse por violão e uma vida integralmente dedicada ao estudo do instrumento. Amor e dedicação à música. Apresentações em diferentes locais do Brasil e do mundo.

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História completa

P/1 – Boa tarde.

 

R – Tudo bem? 

 

P/1 – Tudo bem. Pra começar eu gostaria que você dissesse seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Yamandu Costa, nascido em Passo Fundo, Rio Grande do Sul, em 24 de janeiro de 1980. 

 

P/1 – O nome dos seus pais? 

 

R – O nome do meu pai é Jesus Algacir Costa e o nome da minha mãe é Clari Marcon.

P/1 – Qual a atividade profissional de seus pais? 

 

R – Música, totalmente música. 

 

P/1 – Os dois, pai e mãe? 

 

R – Os dois, pai e mãe. Isso já vem dos meus avós, né? Família italiana por parte de mãe totalmente musical. Eu acho que eles vieram em 1860, uma coisa assim. E de todos os lados da família, música.

 

P/1 – Mas o que tocavam? Que instrumento? 

 

R – Tocavam acordeom, tocavam violinos, tocavam violões que existiam na época. Italianos, cantores, assim, gente feliz. Então a parte musical vem muito mais da parte da minha mãe. Do meu pai, a minha avó por parte de pai também tocava um pouco de piano, eu acho, e ensinou o amor pela arte, pela leitura. Ele teve uma educação caseira sofisticada pra época e pro lugar da onde veio. Ela era uma mulher muito artística, a minha avó era uma mulher muito caprichosa. E meu vô era um cara muito... Era mestiço de índios, um cara muito tranquilão e tal, mas muito familiar. Então é música de todos os lados. 

 

P/1 – Qual a origem deles? 

 

R – É dali dessa mesma região, uma cidade que chama Tapejara, que em tupi guarani significa conhecedor de caminhos. É uma cidadezinha pequena que hoje está crescendo pra caramba. Então vêm todos daquela região. O meu avô eu acho que veio de Santa Maria, uma coisa assim. Uma família meio uruguaia, Lopes. A família, aquela mistureba, né, de espanhol com índio. E a parte da minha mãe, totalmente italiana.

 

P/1 – E irmãos, você tem irmãos? 

 

R – Tenho um irmão mais velho que tem hoje... Ele tem sete anos a mais que eu. Tá com 35, se eu não me engano.

 

P/1 – O nome dele? 

 

R – Diego Costa. Ele tem um talento musical e tal, mas não mexe com isso. Ele tem uma musicalidade impressionante, toca um pouquinho de violão. 

 

P/1 – Ele faz o que? 

 

R – Ele mora com a minha mãe, ele fica por lá. Ele tem problema mental, uma figura. Tem esquizofrenia, é um ser iluminado. Uma pessoa que só dá luz pra gente. É uma pessoa impressionante. Ele fica por lá com ela. 

 

P/1 – Eu queria que você falasse da sua infância, você já estava falando um pouco. Como é que era o lugar que você morava? Sua casa, se você lembra. 

 

R – Na verdade eu nasci em Passo Fundo e fui morar em Porto Alegre com 4 anos de idade. Então tenho lembranças de Passo Fundo, mas lembranças de infância, pequenas, alguns flashes. Eu me lembro que a gente morava muito bem em Passo Fundo. O meu pai montou um grupo musical com a minha mãe na década de 1970, 1971, por aí. 

 

P/1 – Tinha nome? 

 

R – Eram 'Os Fronteiriços', música regional gaúcha. E eles viajaram o Brasil todo com esse grupo, moraram uma época no Recife. Eu morei uma época no Recife com eles quando eu era criança, quando eu era neném, até o meu primeiro ano de idade. Era uma casa repleta de música, era quase uma embaixada do Brasil. Um Consulado Brasileiro Musical, porque o meu pai adorava música latino americana, era um cara muito ligado nisso, e recebia gente que chegava da América Latina inteira. De vez em quando chegava um grupo de 15 peruanos, cheios de... aquela (salbonha?), aquela... Já tinha uma casa atrás da minha casa que era pra receber as pessoas, então você imagina como é que a gente cresce, né? Música 24 horas por dia, minha mãe cozinhando, papai compondo e gente tocando sempre. Gente tocando o tempo inteiro. Silêncio era muito pouco, era música o tempo inteiro. 

 

P/1 – E você tinha amigos, brincava? 

 

R – Tinha. Eu tive uma infância muito curtinha, mas tive. Porque logo comecei a cantar, com quatro anos eu logo comecei a cantar. 

 

P/1 – Você lembra o que você começou a cantar? 

 

R – Lembro, eram umas músicas regionais de lá da época. Eram umas músicas faladas e tal, falavam sobre o machismo gaúcho, era muito engraçado. Eu já era todo serelepe, já era todo artistinha, fazia ânimo, coreografias, inventava, improvisava no palco cantando. Era muito engraçado, então as pessoas davam risadas pra caramba e eu me divertia com aquilo. Logo depois eu comecei a tocar violão. Com sete anos eu já comecei a crescer e o meu pai tinha um violão em casa, e ele era muito chato com esse violão. Daí ele tinha ciúmes desse violão que nem minha mãe podia botar a mão nesse violão. Eu, por intransigência, ficava pescando aquele instrumento ali. Quando ele saía de casa, eu pegava escondido pra ficar tocando. E com medo, aquela coisa saborosa do medo, do proibido. E aí senti uma certa facilidade pra tocar o instrumento e não teve mais jeito. 

 

P/1 – Você falou de palco, você lembra a primeira vez que você foi pro palco? Como foi isso? 

 

R – Ah, foi uma surpresa que um amigo de meu pai fez pra ele. Esse amigo de meu pai me ensinou essa música. 

 

P/1 – Quantos anos você tinha mesmo? 

 

R – Tinha quatro. E o meu pai tava tocando num bar, que foi um bar muito importante pra meu pai, que chama Puperia. Eu cresci nesse bar, pra você ter uma ideia. E aí esse amigo, eu ia ficar na casa desse amigo nessa noite e ele, o Otávio, me ensinou essa música. Ele me ensinou essa música e me levou no bar e pediu, mandou um bilhete pro meu pai: "Olha, tem um rapaz querendo dar uma canja, ele é bem pequenininho, mas ele já sabe cantar". E ele me colocou no palco e eu comecei a cantar. Meu pai começou a chorar e tal. Aí virou um setzinho do conjunto, virou um set a parte do gurizinho. Era o cantor mirim do grupo [espirra]. Barbaridade! Vamos lá. E virou um tipo de um quadro do grupo na parte do cantor mirim, que cantava em cima das mesas, era um fiasco. Eu lembro que as mulheres adoravam, aquela coisa de criança, sempre as pessoas ficam "que bonitinho", não o sei o que. Eu cantava em troca de batata frita, eu adorava batata frita! Eu perguntava pro meu pai: "Pai, o que é que a gente ganha pra cantar?". Meu pai falava: "Depende. Às vezes ganha comida, às vezes pode ganhar dinheiro. Mas no teu caso, você é muito pequeno, você pode só ficar pedindo comida pra gente aqui que a gente consegue. Se você quiser uma batata frita, você canta uma música e a gente te dá". Então era um desastre, cantava pra caramba. Depois chegava nas mesas e ficava pedindo batata frita para os clientes, muito engraçado. 

 

P/1 – Você lembra da música, um trechinho, alguma coisa? 

 

R – Não me lembro, faz muito tempo. Fazem mais... Fazem 24 anos, 25 anos. Não me lembro, não. Mas era muito divertido, eu era muito mimado, mimado pelo público desde criancinha. Fui crescendo e a atenção foi diminuindo, né, eu fiquei preocupado com aquilo, eu sempre fui muito exibido. Eu comecei a tocar violão por isso, conquistar o público novamente, muito engraçado. 

 

P/1 – E quando você começou a estudar, como foi isso? Você lembra da primeira escola?

R – Escola normal? 

 

P/1 – Não, primeiro ano, né? Sete anos, como foi isso? 

 

R – Foi um desastre porque eu não gostava daquele troço. Eu estudei muito pouco, estudei até a quinta série primária. Larguei de mão, não gostava mesmo. Acordar cedo, aquelas pessoas falando aqueles troços. 

 

P/1 – Mas não tinha uma professora preferida? 

 

R – Tinha uma professora de artes que era um barato. E tinha uma de matemática que era muito bonita, meu Deus do céu, essa sim. Mas a minha relação com a escola foi complicada e a minha família entrou em crise quando eu quis parar. Aquela coisa de menino bobo, de começar a querer parar de estudar. Mas não teve jeito, eu não consegui me... Foi uma crise na família, reuniões familiares: "Como esse menino vai parar de estudar?", "É uma criança, não sabe nada da vida" e não sei o que. E eu tranquei o pé, tranquei o pé e parei. Foi um erro, né? Mas eu parei pra ter uma vida cômoda e... Muito pelo contrário, meu pai me deu livros de músicas e eu me trancava num quarto e ia estudar música o dia inteiro. Então não teve moleza nenhuma, quer dizer, totalmente focado pra história da música. 

 

P/1 – Então você direcionou, você... 

 

R – Direcionei, ele direcionou porque... 

 

P/1 – Mas você se especializou, você foi fazer um curso... 

 

R – Não, ele me dava aula. Ele era muito bom professor, ele tinha métodos de teoria e solfejo, as coisas mais teóricas da música, da leitura musical e tal. Então ele me ensinou a ler, a ouvir música. A gente ouvia muita música junto. E o violão virou, quer dizer, o violão virou obsessão. Nessa idade eu já estava tocando há bastante tempo. E aí virou a obsessão total, eram 24 horas por dia em cima do instrumento.

P/1 – Nisso você estava mais ou menos com que idade? 

 

R – 11 anos. Aí explodiu. Na verdade, eu tocava quando criança, com sete, oito anos, mas eu tocava pra acompanhar cantando, tocava para os amiguinhos e tal. O violão chegou realmente com os 11 anos de idade. Eu me lembro que teve três meses de descoberta do instrumento que foi tocando, assim, do nada. Em três meses eu já estava tocando músicas difíceis. E aí virou uma loucura, virou um tesão que eram 24 horas por dia em cima desse negócio, tirando música. Tinha violão no banheiro, violão no quarto, violão na cozinha. O dedo ficava verde de tanta corda. Eu era conhecido como o menino do dedo verde de tanto que eu ficava em cima desse meu amigão aqui [começa a tocar]. 

 

P/1 – E os amigos nessa época? Que aos 11 anos tem uma galerinha pra brincar, você chegou a jogar bola? 

 

R – Cheguei sim, tinha um pouquinho disso. Mas como a gente viajava muito com o grupo, a minha relação com o pessoal da minha idade parou por aí, com 11 anos já não tinha mais isso. Eram viagens só convivendo com adultos. E por opção. Quando os meus pais saíam pra viajar, eu ficava doido. Eu gostava da estrada, gostava da rota desde muito pequenininho. Então minha infância foi meio cortada pela metade, mas por gosto e não por forçação de barra. Eu gostava daquilo mesmo, eu gostava da função da música, da conversa da música, do sentimento das pessoas emocionadas. 

 

P/1 – E festa, assim, você ia animar? 

 

R – O meu pai era uma pessoa muito séria, então ele não era boêmio. Ele não era nada boêmio, era uma família muito séria, eles tocavam e iam embora. Mas eu, logo que eu comecei a tocar com 11, 12 anos, eu comecei a sair com os amigos. E aí sim, aí a noite se mostrou. E não teve jeito. 

 

P/2 - Além do convívio exclusivo da música, o que você lembra da tradição da comida? O que vocês comiam... 

 

R – Ah, comida muito gauchona mesmo, do interior, né? A comida gaúcha é muito parecida com a comida mineira nesse aspecto de cozer as coisas, de batata, aquelas coisas, moranga. Ah, que coisa! Isso eu sinto saudade, de comer bem mesmo. Meu pai era um glutão, assim. Acordava cedo, tomava um café da manhã, mas um café colonial, assim. No almoço ele comia pra caramba. E à tarde, quatro e meia da tarde... O café era tarde, mas um café com salame, morcília, com queijo, era impressionante. E à noite, janta. Mas janta, janta, feijão e arroz, um exagero. Isso era muito bom. A gente tinha um ônibus e viajava o Brasil com esse ônibus. Mais pelo Rio Grande do Sul, mas às vezes tinha viagens mais longas.

P/1 – Quando você fala a gente... 

 

R – A família toda, né, que era um grupo. E isso era um barato porque esse ônibus virou um motohome, virou um trailler, aonde tinha uma cozinha. Então a gente cozinhava na estrada, parava o motohome e minha mãe cozinhava coisas maravilhosas pra gente. E tradição italiana, né, eram massas feitas em casa, (portenho?), que é um tipo de pastelzinho que tem uma moranga dentro. Ah, comia muito bem, impressionante. 

 

P/1 – E qual seu prato preferido? 

 

R – Eu quando criança gostava de bife com batata frita. Depois fui pegando o gosto por coisas mais tradicionais mesmo, não tão americanas. Mas sempre que eu vou pra Porto Alegre minha mãe capricha lá, faz umas comidas. 

 

P/1 – Quando você fala tradicionais... Que a gente está falando dos Pampas, o que é o Pampa pra você? O que significa ser desse lugar? O que é esse lugar? 

 

R – Carnívoro! [risos] 

 

P/1 – E a paisagem, clima, vegetação, o que vem a sua lembrança quando você ouve isso?  

 

R – Eu me criei na cidade, né? Mas com uma tradição de campo, de família. Por exemplo, meu vô era um homem muito campeiro, como a gente chama. Ele vendia fumo, trabalhou para o governo uma época como fiscal sanitário do governo. Na época tinham pessoas que iam nas fazendas ver se as manadas tavam vacinadas, enfim, estavam bem tratadas. Então venho de família de tradição de ter o contato com o animal, com o cavalo que é a nossa estátua, é o nosso santo. Esses dias, agora há pouco, fiz uma turnê, estive na Suíça e lá se come carne de cavalo, mas meu Deus do céu, eu queria morrer. Acho que é a mesma coisa que comer carne na Índia, o amor que a gente tem a esse animal. Então meu pai sempre fez questão de me levar em fazendas de amigos pra eu aprender a montar, pra aprender a encilhar o cavalo, pra conhecer um pouco da lida de campo e tal. Então minha relação sempre foi muito essa, mas mais de visitante e não de um contato real da coisa do campo. Mas a cultura vem de casa, essa coisa de eu falar esse gauchês do interior que é bem diferente do porto-alegrense, que tem um sotaque muito "an", esquisito, eu acho muito feio aquilo [risos]. E a gente mantém essas tradições, que é do costume familiar. E o Pampa é aquela solidão do homem profundo, do cara que gosta de conversar e também gosta do silêncio, isso eu sinto falta. Isso é um pouco difícil encontrar por aqui, né? As pessoas são muito afetadas, a cidade estressa a gente de uma maneira. E esse silêncio, essa calma, não ter medo de deixar o tempo passar, tomar o mate, amigos que se encontram e ficam horas sem falar nada porque não precisa. Se não tem o que falar, não fala, deixa o tempo fazer o seu... O tempo faz a profundidade necessária pra poder falar alguma coisa. Isso, quer dizer, depois você encontra isso na literatura, Simões Lopes Neto, que é um craque, ou de Pelotas, um homem que era urbano, mas que a família tinha campo e ele se criou ou teve uma vivência real do campo. E aí escreve contos e lendas gaúchas que você fica louco. O trabalho que eu tenho feito ultimamente é muito em cima dessa literatura, do Simões e do Érico Veríssimo. Depois _______________ do Érico Veríssimo, do 'O Tempo e o Vento", você começa a ver esse gaúcho de fora, ainda mais você morando fora do estado há bastante tempo, esse sentimento começa a te procurar de novo. E é tão bonito, tão sincero. Quando você vai pro interior de Minas também, ou pro interior de Pernambuco, que você vê aquele povo daquele jeito. Eu tenho uma admiração por isso, por essa sabedoria que as pessoas da cidade não têm nenhuma, não tem o talento nem pra apreciar esse tipo de profundidade do campo, né? As pessoas que têm o real contato com a natureza, sabe? O que é que a lua transforma nas pessoas, o que é que o tempo tem a dizer... Eu sou apaixonado por isso, quando tenho oportunidade de estar perto dessas pessoas, desses velhos, desses sábios do campo, então é onde eu bebo da água limpa, assim. Eu gosto de ficar perto pra sentir o que é o que o tempo tem realmente pra dizer. 

 

P/1 – Você falou de lenda, tem alguma lenda em particular que você pode dá um toque pra gente? 

 

R – Tem várias. Tem uma que é a mais conhecida que é a do Negrinho Pastoreio, que o Simões narra isso de uma maneira muito linda. Agora tem outras lendas também, tem uma Salamanca do Jarau, que conta de uma mulher meio misturada com uma lagartixa, que seduzia os homens e depois... Eu não me lembro bem, eu não posso ficar chutando aqui porque de repente eu vou falar bobagens. Mas têm lendas, tem lendas super lindas. Tem um livro do Simões que chama Lendas Gaúchas, Lendas Gauchescas, é fundamental pra conhecer um pouco aquilo lá. E a gente quando fala do Pampa não fala do Brasil, né? A gente fala de uma região do mundo, que pega três países ali, ou pelo menos, que são o Uruguai e a Argentina, um pensamento completamente sem fronteiras. Que as pessoas daquela região ali se comunicam dessa forma, que é essa vida do campo, que é a coisa do Pampa, naquela imensidão toda que é o horizonte, que é o fim da história, né? É super lindo, eu tenho muita saudade. De vez em quando eu fico pensando em passar uns dias por lá, mas é difícil, tá difícil. Mas é um lugar muito lindo, um lugar muito especial. 

 

P/1 – E sua relação com a música, essa relação com os Pampas, como é que isso vai aparecer? 

 

R – Aparece nas músicas, nas composições, né? O trabalho que eu tenho feito ultimamente, que tenho levado pra fora do Brasil e tenho tocado aqui, que é um trio, né? [Toca]. Um trio, que é violino e baixo, acústico, e é um trabalho completamente virado pra isso, com músicas que são homenagens a personagens de Veríssimo de 'O tempo e o vento'. Outra música... O disco se chama ‘Lida’, que é o trabalho do campo, que a música é um (meloma?) que eu fiz, lendo um conto do Simões Lopes Neto. Então tem toda uma... Aparece claramente essa força que vem dessa região.   

 

P/1 – O que diz o conto? Pra situar um pouco. 

 

R – Chama (Manantchau?) o conto. É um cara que é apaixonado por uma menina e parece que é um amor proibido e tal. Aí o negócio vai se enrolando e o (manantchau?) é um pequeno riacho, denso, pantanoso, onde brotam flores lindas. E ele começa a fazer uma metáfora sobre aquilo. É um negócio tão bem narrado que o conto acaba de uma forma, assim, cinematográfica. Parece que o menino se afoga nesse (manantchau?), é uma coisa assim, uma coisa doida. A menina quer salvar ele, sei lá, é uma história que eu fiz em cima, pensando em cima desse conto. 

 

P/1 – A sua vida, pelo que a gente está vendo, é toda permeada pela música, né? 

R – Sim. 

 

P/1 – Assim, amigos, tudo, namoradas. 

 

R – Tudo. 

 

P/1 – Como é isso? 

 

R – A minha mulher é jornalista, pra você ter uma idéia. É até um troço que de repente eu perco de conhecer muita coisa por estar alienado assim dessa forma. Mas não tem jeito não, é mais forte do que a gente. Não tem que ficar pensando muito nisso também não, tem que viver essa emoção que é esse convívio com essas pessoas, tudo em volta disso. 

 

P/1 – Como você conheceu a sua esposa? 

 

R – Conheci em Paris, ela é francesa, né? Fui tocar lá num concerto com a Orquestra Nacional da França, um negócio super importante com um maestro alemão, ____________, que é um homem, uma dinastia da música erudita. Eu estava tocando e conheci ela numa roda de música, num encontro. Porque eu adoro promover esses encontros. Onde eu vou eu ligo pro pessoal e falo "oh, pode arrumar uma carne aí, uma cervejinha que a gente vai fazer uma...". O negócio é não ir gente (em volta?), o círculo que é legal: cada um mostra o seu trabalho e dali você tira inspiração para vida ficar mais fácil um pouco, pra coisa ficar um pouco mais leve. Então eu a conheci num encontro de música desses.  

 

P/1 – Faz tempo? 

 

R – Fazem quase dois anos. Ela veio pra cá, tá morando aí, tá carioquíssima. 

 

P/1 – Acostumou, foi tranqüilo isso? 

 

R – Tá adorando o Brasil, tá tendo aulas com grandes músicos e fazendo cursos de arranjo. Então, imagine, é música o tempo inteiro. Em casa também, eu acordo já ouvindo um negócio clássico, é ela estudando alguma coisa e tal. Agora eu fui tocar na Suécia, na semana passada, num festival de guitarras, aí ela me faz encomendas: "Você me traz lixas", que são lixas especiais pra violão. Aí vou lá comprar, e o papo inteiro: "Troca a corda pra mim". Ela é muito engraçada, é o tempo inteiro música, o tempo inteiro convivência de música. 

 

P/1 – Então o diálogo é assim: você toca de um lado, ela toca do outro. 

 

R – É, às vezes toca junto, quando briga toca junto pra ver se acalma. 

 

P/1 – Uma perguntinha, você falou que ela veio pra cá e já acostumou, mas eu não posso deixar passar batido. Você nasceu em Passo Fundo. E as suas andanças, como é que você veio parar aqui? Você foi se adaptando a outros lugares que você foi morando? Como é que foi isso? Como é que foi essa sua trajetória?  

 

R – Como a gente teve uma criação de cigano, eu não sinto muita saudade do meu lugar. Porque quando você se cria viajante, a saudade tem outra cor, né? A saudade tem outra profundidade. Então quando eu cheguei no Rio... Na verdade eu saí do Rio Grande do Sul em 1997, uma coisa assim. Borghetti me convidou, um grande músico gaúcho. Aí entra o Banco do Brasil na história. Me convidou pra tocar num projeto que se chamava Brasil Musical, patrocinado pelo Branco do Brasil. Um projeto importantíssimo, que colocou a música instrumental... A música instrumental hoje no Brasil, ela cresce. Eu tenho pavor desse nome, música instrumental, uma coisa totalmente preconceituosa que dá preguiça em qualquer um. Mas essa famosa música instrumental teve um apoio danado nesse projeto 'Brasil Musical'. E hoje ela começa a conquistar muito mais espaço no Brasil, eu acho que por conta também desse projeto. E eu toco com Borghetti e conheço um empresário de São Paulo que foi o criador desse projeto 'Brasil Musical', que me convida, adora meu jeito de cantar, e me convida pra passar uma temporada em São Paulo. E eu fui sem pestanejar. Esse cara me ajudou durante bastante tempo, pra não fazer qualquer coisa, ficar esperando uma estratégia um pouco cara, mas que funcionou, de me manter lá por pouco tempo até a carreira começar a acontecer, caminhar com pernas próprias. E o (Projeto Brasil?) esteve muito ligado diretamente com isso, assim. Logo depois que esse projeto acabou, se criou um circuito cultural, eu viajei o Brasil todo. Quer dizer, eu fiz um trabalho de carreira com esse circuito impressionante em lugares legais de tocar, sempre com a coisa do ingresso muito acessível, muitas vezes em troca de alimentos. E aí eu fiz uma plateia em lugares super doidos, assim, São Luiz, aquelas regiões que a gente vai muito pouco, lá pra cima, Teresina. Viajei muito com o projeto, aí fiquei por aqui. Quer dizer, cheguei primeiro em São Paulo. Morei dois anos em São Paulo e conheci uma carioca, me apaixonei loucamente. E me apaixonei pelo Rio, pelo choro, que é a música que eu sempre procurei na música brasileira, o choro, o samba e tal. E aqui eu encontrei isso, encontrei essa noite com essa música, com essa vivência que eu queria ver de perto. Então casou totalmente. Logo depois eu me apaixonei pelo Rio e não tem jeito de eu sair daqui, não tem mais maneira de sair daqui, a gente se acostuma com a cidade. Está com os problemas dela, mas enxergo o lado bom que é único. A gente anda pelo mundo, por aí, o Rio tem uma luz que só tem aqui. Aquela luz que cega a gente, aquela luz do 'Ensaio Sobre a Cegueira', né? A pele fica, a pela gosta daquilo ali, é tão lindo, é uma cidade muito especial. 

 

P/1 – Nesse percurso, nessa trajetória sua de viagens, tem alguma coisa que tenha sido marcante? Um causo, alguma coisa que tenha acontecido? 

 

R – Ah, tem milhares. Eu não me lembro, assim. Eu não sou bom contador de causo, não [toca]. 

 

P/1 – Tem alguma? 

 

R – Eu não tenho talento pra contar, mas tem vários. A estrada, o tempo inteiro na estrada é uma loucura [continua tocando]. 

 

P/1 – E desafio, dificuldade que você tenha tido? 

 

R – Oxe, tanta coisa. Lá no Sul ainda, quer dizer, você se perdendo num festival na noite, depois não encontra mais ninguém da produção local, depois você não tem onde dormir, um frio. Umas coisas, assim, cada “doidera”, cada história. Passar fome, passar frio, essas coisas de estrada, de início de estrada. Tem milhares de histórias, imagina? Eu não me lembro muito bem. Quando as festas são boas, a gente se esquece de muita coisa.  

 

P/1 – E a alimentação, aproveitando? Você vem de um lugar que come muita carne, como é que foi ir para outros cantos? 

 

R – Isso a gente sofre. Isso fora do Brasil, rapaz, meu Deus do céu. Isso, você não tem ideia como se come mal [risos]. E sem regularidade, esse prato brasileiro que a gente está acostumado, feijão e arroz, ele é super regular. O organismo funciona daquela forma. Lá fora é uma confusão, meu Deus do céu, a gente sofre. Agora a gente fez uma turnezinha de uns quatro shows por dois países, na Suíça e na Suécia, foi rápido. Ficamos quatro dias de bobeira, “day off” como a gente chama. A gente ficou na casa de um cara muito legal, ele foi ótimo. A gente foi no mercado. Eu levei feijão do Brasil, aí a gente fez um feijãozinho, uma carnezinha, uma coisa mais parecida, uma salada. Porque normalmente é qualquer coisa, né? Essas viagens longas que a gente fica comendo sanduíche em aeroporto, meu Deus do céu, quando chega no final, você tá... 

 

P/1 – Deixa eu voltar um pouco pra música. Quando você era criança que você ouvia muito em casa o seu pai e sua mãe tocando, o que você pode dizer que tenha te inspirado mais em relação à música? Um autor, uma coisa assim, que tipo de música que vocês ouviam? 

 

R – Muita música argentina, meu pai era apaixonado por música argentina. Ele chegou a gravar dois discos lá, ele com o grupo. Então muita ligação com a música latino americana, isso foi uma inspiração muito, muito forte. Como eu te falei, aquela região ali do Brasil que não pertence a nenhum país... Aquilo, né? Aquilo é o Pampa _______ chê, que é uma região completamente sem fronteiras. 

 

P/1 – Com as influências que você tem recebido, com a música que você vem produzindo, quando você olha hoje para trás, como você vê a sua evolução? 

 

R – Eu sinto uma volta. É engraçado que a gente vai caminhando, caminhando, sempre para voltar pro... Parece que a gente faz uma volta enorme pra chegar no mesmo ponto, que é o lugar da onde você veio, que é o seu sentimento mais puro. É a coisa regional mesmo, não tem jeito. O trabalho que eu tenho feito pelo mundo aí é completamente focado nisso. É completamente falando do meu lugar ali, do vigor, daquela força, às vezes daquela ignorância também, né, daquela beleza. Então é completamente ligado nisso, totalmente. É o caminho da volta, a inspiração é essa sempre. Todo percurso pra chegar ali no mesmo lugar.  

 

P/1 – Teve algum momento em que você começou a compor e de repente "Epa, eu não vou por aí, vou voltar"? 

 

R – Não. Tem muita coisa diversificada na verdade. Eu gosto muito do choro, então a gente faz muita coisa, eu tenho muita composição mais brazuca, como a gente chama. Mas não adianta, o que é mais natural pra mim é tocar aquela música de lá, aquela música da fronteira mesmo [toca]. 

 

P/2 - Como é que foi a sua juventude? Você sempre teve essa certeza? 

 

R – Ah, sim. 

 

P/2 - Teve momentos de questionamentos? 

 

R – Tive tempo pra isso não [continua tocando]. 

 

P/2 - Você lembra da primeira namorada?

 

R – Já viu a roupa da mulher gaucha, não? Vestido de prensa, aquele troço enorme! Aquilo é um saco pra namorar. Não dava pra namorar. O cara não encosta na mulher nunca com aquele troço. A mulher parece uma couve-flor, porra! Então aquilo é um desastre, é um troço muito chato. Mas tinha música, palco, né? Eu dei uma emagrecida. Engraçado, eu era bem gordinho. Pá! Tem uma história horrível, que eu tava tocando com um cantor lá. Tinham duas meninas. Tinha uma gata de uma menina conversando e eu olhava pra ela. Eu fiquei doido por ela. E ela me olhava de vez em quando, dava um flertezinho, uma coisinha assim. E (mentira?) ela tava com a amiga dela do lado, assim, e eu li os lábios dela uma hora que ela falou pra outra assim: "Ele toca bem, né?" Aí a outra: "É, toca bem" [riso]. Aí a amiga dela fala pra ela: "Que pena que é gordo" [risos]. 

 

P/1 – Você era gordinho?  

 

R – [risos] Aquela puuuu, aquela brochada terrível no palco, né? Você tocando [toca]... Vou ter que emagrecer, não tem jeito. Mas, o violão salvou. O violão salvou bastante essa coisa do namoro, porque música tem um encanto, né? O canto da serpente, né? Flautinha, aquela não tem jeito. Sempre ajudou muito. Mas namorada, nunca fui muito de namorada não. Sempre fui meio free mesmo. Logo me apaixonei pela primeira vez pela minha primeira mulher. Aí a coisa desandou, né? Aí casei e fiquei com ela por sete anos. Bastante tempo. Nunca tive muito namoro não. Nunca fui muito chegado em namoro não. 

 

P/1 – Você chegou a ter filhos? 

 

R – Não. Tem uma história doida, né? Que tem um menino que era pra ser meu filho. Que eu fiz o parto. 

 

P/1 – Que história é essa? 

 

R – Doidice. Uma namorada que eu tinha. Uma namoradinha. Amizade colorida lá em Porto Alegre e um dia eu liguei pra ela pra falar pelo telefone e tal. E ela me conta que tava grávida, né? Falei: "Mas Cristo, de quem?" "De ti". Falei: "Mas como, chê? Mas que barbaridade!” E aí sim fiquei apavorado. E comecei a fazer a manutenção toda que tinha que fazer. Minha mãe começou a entrar mais em contato com a menina, de vez em quando eu mandava um dinheirinho pra ajudar em alguma coisa, né? Eu tava em São Paulo nessa época. Numa “eme”, desgraçado. E ela... Foi um troço todo, né? Menina, (materna?). No parto eu fui lá. Chorei com o menino no colo. Meu filho, né cara? Mudou a cabeça, assim, do dia pra noite. Só pensa na criança, né? E eu fiquei... Eu não tenho importância nenhuma. Aquilo ali que tem importância. Sentimento de pai, é tudo. A sensação de ser pai. E a minha avó conhece a criança uns dois meses depois. E me fala: "Olha, não é teu. Pode fazer o exame". Falo: "Mas, como assim, chê?" Minha vó é meio bruxa. Falei: "Mas, não é possível. Mas, não importa também". A criança era tão linda. Não podia ser minha. Tão linda, rapaz. Não tava ligando pra isso. E fiz o exame só pra desencargo de consciência e não era. Uma história muito maluquice. Como ser pai e não ser. É muito louco. 

 

P/1 – Que triste. Eu vou mudar um pouco a entonação. Eu sei que você tá calmo, né? Com o tempo, você viu que a gente tá tranqüilo.  

 

R – É. Tenho que sair 15 para as cinco. Tenho que sair.  

 

P/1 – Tá tranqüilo. Ah, 15 para as seis que você quer dizer? 

 

R – Seis. 

 

P/1 – Você falou do Banco do Brasil, desse projeto que você participou, né? Esse foi o primeiro contato que você teve com o Banco do Brasil? 

 

R – Foi. 

 

P/1 – Antes você não tinha? 

 

R – Não. Muito novo também, né? Quando eu te falo, eu tinha dezessete anos, né?

 

P/1 – Você começou a tocar, assim, pra fora, com dezessete anos? 

 

R – É. 

 

P/1 – Você não tinha vergonha? 

 

R – De que? 

 

P/1 – Nunca deu uma gafe? Vergonha de público. 

 

R – Não. Me criei com ele. 

 

P/1 – Ah, é. Desde os quatro anos. 

 

R – Não tem a menor. Eu tenho que me cuidar às vezes pra não fazer fiasco no palco. Porque eu fico tão à vontade... 

 

P/1 – Nunca aconteceu fiasco? 

 

R – Deve ter acontecido. 

 

P/1 – Não lembra... 

 

R – Não lembro. Mas eu fico tão à vontade no palco que eu tenho que me cuidar pra não desrespeitar, às vezes, o público, porque é minha casa. Eu me sinto em casa de um jeito. Então, tem coisas importantes. Agora eu vou tocar com orquestra, por exemplo, amanhã eu começo a ensaiar com a orquestra, a OSB (Orquestra Sinfônica Brasileira) aqui do Rio. Estreia do meu concerto que eu escrevi. Junto com o Paulo Aragão. Que é um amigo, um orquestrador. Grande músico. Eu vou estrear esse concerto em São Paulo, dia 25 agora. Sábado que vem. Concerto que a gente escreveu pra violão e orquestra. Música inédita, né? Então, amanhã eu começo a estudar isso e tô o ano inteiro esperando por isso. Então, eu tô super feliz. Um projeto grande de se fazer, música mesmo. Tem três movimentos, a música dura vinte minutos e tal. É o trabalho de um ano inteiro esperando essa história. Aí você fica mais apreensivo, né? Porque é muita gente envolvida e não sei o que. Mas palco é muito natural. Muito. Já tô acostumado. 

 

P/1 – E depois que a sua carreira tem ascendido, assim. Como é que tem sido a relação com a sua família? Seus pais continuam no Sul, né? 

 

R – Meu pai é falecido, né? Meu pai morreu em 1997. Meu pai morreu de Aids [toca]. Olha o acorde [toca]. Isso mesmo. Separou da minha mãe em 1989, uma coisa assim. E aí, naquela época, aquele troço ainda era muito novo ainda. E aí a gente passou isso, foi um negócio duro na vida, né? Eu cuidei dele esse tempo todo e é impressionante, a força desse negócio... E a música envolvida, né? Tocando pra ajudar a manter, comprar remédio, era um troço. Tristeza total. E ele morreu em 1997. A minha mãe tava separada dele há muito tempo já. Minha mãe mora em Porto Alegre ainda. Com meu irmão. E eu encontro com eles quando vou tocar lá. Final de ano, negócio de Natal, aquelas coisas, eu vou pra lá. E toco bastante em Porto Alegre. O pessoal, então, dá pra ver com bastante regularidade. Mas contato, a minha vida virou uma loucura total. Minha agenda é uma doideira. Tá tudo fechado até no final do ano que vem. 

 

P/1 – Nós percebemos. Pra conseguir segurar você aqui... 

 

R – É uma loucura. É uma missão de loucura. Você entra num ritmo que não tem mais como travar. É uma loucura. 

 

P/1 – E dessa vida, assim, louca, o que é que você mais gosta? Do acelerado? De tocar? 

 

R – De tocar. É a hora mais prazerosa. É tocar. É a hora da música. A viajada é um saco. Esteira de avião, caminhada em aeroporto enorme. E comer mal. Todas as coisas chatas que têm. Mas, a hora que você toca, rapaz... Aí tudo fica claro assim. Ah! É a hora da curtição. Impressionante. Aí é bom. Mas, é uma loucura a vida, né? Essa semana eu ensaio toda semana e toco sábado. Aí segunda tem um negócio em São Paulo, uma gravação. Aí na terça eu volto pra cá. E na outra sexta eu vou pra Israel. Aí eu toco em Israel. Toco em Chipre, uma ilha bem perto. O nome da cidade é Nicósia, se não me engano. E depois toco em Nova Déli. Depois volto pro Brasil de novo. Aí em fevereiro vou pra Paris. Fico um mês por lá. Em março tem uma turnê grande pela Europa. Tem Ásia. Esse ano eu viajei... Esse ano eu fiz turnê no Canadá. Eu fiz uma turnezinha na Austrália. Toquei na Coréia agora, há pouco tempo. Europa nem se fala. Umas três, quatro vezes esse ano. Fui a Nova Iorque no início do ano. No final do ano passado fui a Washington, que é a capital. E tem que manter o nível. Tem que manter o nível do negócio. Esse negócio não é brincadeira, né? Tocar e estar bem de saúde pra tudo isso. 

 

P/1 – Os fusos horários, tudo. 

 

R – Os fusos horários, meu Deus do céu. Tem que chegar dias antes pra acostumar. Na Coréia foi um desastre. 

 

P/1 – Como foi? 

 

R – A comida. Meu Deus do céu. Uma comida apimentada. E não era uma pimenta que arde na boca. Arde no estômago. Tu não sentes quando come a comida. Sente meia hora depois, que dá um “brambrambram” [risos]. E já não tem pra onde correr. São coisas assim. Mas tem o lado lindo disso. De conhecer culturas, de ver gente diferente. E de ver o mundo de uma forma global mesmo, do jeito que tá o mundo. A velocidade que tá essa coisa da Internet, enfim, não tem mais, não tem muita diferença. Eles acabaram com os centros das cidades do mundo inteiro. Hoje em dia tudo é Doce & Gabbana e virou tudo a mesma coisa. Mcdonald's. De vez em quando que a gente come uma comidinha bem pesada, assim. Que é a tradição local. Mas uma vida completamente louca, né? Sem parar. Pá. Pingando no mundo. Uma bola de ping pong dando voltas. 

 

P/1 – E na América Latina? 

 

R – Muito pouco. Aliás, no ano passado eu tive no Uruguai. Toquei no Teatro Solís, lá, que é o teatro principal. Muito bonito o teatro. E muito boa gente, os uruguaios. Muito queridos. A gente viaja muito pouco, cara. Você tem que dar a volta no mundo inteiro. E não toca na Argentina. Não toca no Chile. Eu tive no Equador. Duas vezes. Foi muito bom. Mas nunca estive na Colômbia. Nem na Venezuela, nem no Peru. 

 

P/1 – E por qual motivo? 

 

R – Bah, isso é uma coisa triste. Eu acho que é por falta de grana mesmo. É uma pena. As pessoas não têm maneira de levar, sabe? Tem até vontade, as pessoas conhecem. Pelo menos o meio musical ______ conhece bastante. Os formadores de opinião. Não tem como levar. É falta de patrocínio mesmo. Isso é... Eu espero que com essa força dessa pequena esquerda aí, que tenha mais incentivo pra isso. Pra essa conexão real que tem quer ter. Pra gente se fortalecer um pouco. Que é muito problema parecido pra estar tão longe. Pra não ter conhecimento nenhum da cultura do outro, como acontece. É uma pena. Eu acho que o meu papel é muito nesse sentido. De juntar. Como eu venho daquela região que tem aquela fronteira toda ali, o sentimento latino-americano é total. A minha felicidade é essa. Esses dias ligaram lá pra produção falando que de repente ia rolar uma turnê na Colômbia. Eu fiquei super feliz. Até agora não se fechou a história. Mas eu fiquei muito feliz. Porque a gente anda pelo mundo mostrando uma música meio exótica, você entende? O sentimento europeu de consumir a boa música do mundo. Quer dizer, eles têm muito conforto, sabe? De todo mundo querer tocar naquele mercado. Aí eles ficam naquela coisa: "Vamos ver de aonde vem a world music". A coisa toda é um encantamento. Que é uma pena a gente não estar tocando nas salas da América Latina, em praça pública. Pra esse povo que precisa dessa música nessa cultura. E que tem. E que produz essa música de uma forma muito natural, com muita profundidade que falta no velho mundo. Esse frescor do mundo novo. Então, é uma pena. É uma queixa que eu deixo aqui, porque espero que mude isso, que a gente comece a fazer turnê e possa trocar figura, realmente, com o nosso povo latino-americano, que é tão lindo. Tem tanta arte, tanta coisa bonita. Tomara que melhore isso. Isso é uma falta grave. 

 

P/1 – Eu vou fazer uma pergunta agora que eu devia ter feito no início. O seu nome? Qual é a origem do seu nome? 

 

R – Guarani. 

 

P/1 – Que significa? 

 

R – O senhor das águas. Meu pai era apaixonado pela cultura guarani. Falava um pouco de guarani. Meu pai era apaixonado pelos índios. Me lembro que a gente parava nas estradas, aquela coisa triste. Aqueles acampamentos indígenas vendendo coisinha lá no Sul. E a gente encostava o ônibus e ele botava toda aquela gurizada dentro do ônibus pra ouvir guarani, pra falar guarani com eles. E tinha um poeta chamado Yamandú Rodrigues, que foi um grande poeta uruguaio. O meu pai gostava muito. Em homenagem a esse poeta e acho que à beleza do nome. Um nome muito bonito. Um nome muito especial, assim. Ele foi bastante corajoso, né? Porque na infância não foi nada fácil. Na escola enchiam meu saco pra caramba. Mas, valeu muito a pena, porque é um nome muito original, muito bonito. 

 

P/1 – Bonito mesmo. A gente tá fechando, tá? Você olhando, assim, pra sua carreira. O que você poderia dizer como os maiores aprendizados que você tem? As lições que você tirou. 

 

R – Dominguinhos soltou uma frase, esses dias, maravilhosa: "É que nem andar de bicicleta. Não pode parar senão cai". É isso. Tem que seguir. O negócio é seguir, porque é uma missão, esse negócio. Quando você começa a viajar bastante você começa a ter uma noção, eu acho que, mais esclarecida um pouquinho das coisas. Você vê a importância do Baden Powell, por exemplo. O cara era um embaixador. Esse cara mostrou um Brasil tão bonito, durante tantos anos fora do Brasil. Então, a missão da gente é essa: levar um povo na mão. É levar um povo no som. Levar uma maneira de sentir a vida. Essa alegria que a gente tem que eles tanto invejam. Tem que invejar mesmo. Essa beleza que a gente tem. Essa vontade de viver que a gente tem. Que é isso que impulsiona, que emociona e que dá vontade de seguir. Eu acho que é só isso. Tem que fazer a coisa com a dignidade sempre em primeiro plano. Sendo sincero consigo e com os outros. Com o público, com o povo. E seguir. Porque a gente ajuda muito mais o Brasil do que o que a gente imagina aí. E tem que dar um jeito nesse país, não tem jeito. A gente faz o nosso papel, levando a música, levando a coisa boa que não é só o carnaval, que não é só o futebol. Que é a profundidade desse povo tão ingênuo e tão lindo. Então, eu acho que é essa que é a meta. 

 

P/1 – Que é que você diria... Qual foi a principal realização da sua carreira até o momento? 

 

R – Ah, tem tanta coisa boa. Os meus vinte anos, aí. Vou ter saudade deles. Porque foram muito produtivos. Até agora, doze discos. E tem lá muito mais saindo por aí. É muita viagem. Muito show. Muito concerto. Muito aprendizado. Vinte anos inesquecíveis. Espero que os trinta tenha mais calma, um pouco, pra fazer as coisas mais direitinho. Mas, não tem uma coisa. É o seguimento, é o caminho a ser traçado que é legal. Como é que tem uma frase tão bonita de ________. Não me lembro, mas é uma frase tão bonita que fala do caminhante e do caminho. Não é o caminho que faz o caminhante. É o contrário. Então, é mais ou menos por aí. Seguir essa linha e deixar uma carreira limpa, uma carreira bonita, uma carreira digna. Para que um dia algum jovem possa falar: "Aquele cara contribuiu pra cultura do Brasil. Contribuiu pra música no mundo".  

 

P/1 – Eu vou fazer uma pergunta meio besta, aqui, mas eu tenho que fazer. O que é que a música significa pra sua vida? 

 

R – Ah, minha gente [risos]. É o motivo pra eu acordar todo dia. É ela. Só isso. 

 

P/1 – Bom, olha, Yamandu, tem uma questão que é, assim, o Banco do Brasil tá fazendo esse trabalho de memória. E o que é que você acha de tá participando com o seu depoimento, contando um pouco da sua história, como contribuição dessa história do Banco do Brasil? 

 

R – Acho muito lindo. Minha história tá ligada ao Banco de uma maneira muito profunda, como eu já falei aqui. Pelos projetos que caminham junto com o Banco. Então, quer dizer, toda a minha estrada, todo o start da minha carreira, começou com o Banco do Brasil. Então, você imagina o carinho que eu tenho por isso. E a saudade que eu tenho também de tocar. Esses dias eu toquei pelo circuito, com Dominguinhos em Campo Grande. E aí revi amigos daquela época, daquelas giras todas que a gente fez com o Circuito Cultural. E é muito gostoso. É muito bom. Tenho saudade bastante daquele tempo e esse start, não só da minha carreira, mas de tanta gente que começa por aí no Brasil. Um país cheio de talento desse jeito. Cheio de pérolas aí perdidas. E o banco financiando e trazendo essa gente junto com o Circuito. Que é que se quer mais? Só se quer um bom lugar pra tocar. Com dinheiro honesto e com gente que precisa ouvir música. O banco é fundamental nessa história, eu fico muito orgulhoso de estar aqui podendo... Que bom que tem essa coincidência. Eu podendo falar um pouco da minha vida junto com o Banco, porque tem uma coisa completamente ligada à outra.  

 

P/1 – Tem alguma coisa que a gente não tenha perguntado, que a gente não tenha abordado e que você queira acrescentar? 

 

R – O que é que eu vou fazer agora? Sabe o que eu vou fazer agora? Jogar bola. 

 

P/1 – Isso você não falou. Eu até falei se você jogava bola, você falou que nunca jogava bola. Como é isso? 

 

R – Não, eu jogo bola. Adoro. Eu tenho que jogar bola senão eu viro uma baleia. 

 

P/1 – Ah, então eu faço questão, mesmo que seja na última pergunta, você fala um pouco disso pra gente. Você joga bola desde quando? 

 

R – Eu jogava quando criança, pouco. Mas voltei a jogar agora, uns dois anos. Uma pelada de músicos. Só violonista. Muito engraçado. Luís Cláudio Ramos, arranjador, violonista. O Rogério Caetano. Poxa, todo mundo que vai lá é músico. Muito bacana. Isso aí é fundamental. Assim, é terapia total. A pelada organiza tudo. Organiza a cabeça, é muito bom. 

 

P/1 – Em que posição você joga? 

 

R – Eu sou muito ruim. Um desastre. Um jogador horroroso. Mas é uma maneira de perder peso se divertindo. É tirar a cachaça, como a gente fala. Hoje morreu um amigo querido, rapaz. Grande compositor. Deixar registrado aqui. Luís Carlos da Vila. Grande sambista. Faleceu hoje de manhã. Até bom que esse negócio fica pra sempre, né? Então, deixar expresso aqui minha tristeza. Grande sambista. Querido amigo. 

 

P/1 – Jovem? 

 

R – Tinha uns 55 anos. Muito novo. 

 

P/1 – No Rio mesmo?

 

R – É, no Rio. Carioquíssimo. Lá da Vila Isabel. Grande sambista. Hoje o samba tá de luto. 

 

P/1 – Queria agradecer a sua contribuição pra esse projeto. 

 

R – Obrigado vocês. Adorei.

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