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História

"O PACS é um parceiro extraordinário pra administração"

História de: Amauri Luiz Pissinin
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/08/2004

Sinopse

Nesta entrevista, feita em 1997, Amauri Luiz Pissinin, então prefeito de Redentora - RS, conta sobre sua trajetória até chegar à prefeitura e sobre como o PACS (Programa de Agentes Comunitários de Saúde) auxilia a prefeitura no diagnóstico de necessidades da população.   

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História completa

P/1 - Vamos começar então com a sua apresentação: nome completo, local de nascimento e data.

 

R - Eu me chamo Amauri Luiz Pissinin, nasci em um distrito de Júlio de Castilhos - hoje é conhecido como Ivorá - em 3 de outubro de 1945.

 

P/1 - Amauri, me fale um pouco sobre a origem de seus avós, do lado paterno e do lado materno, começando pelo lado paterno.

 

R - Os meus avós…. A [minha] origem [é] descendência de italianos. Meu avô veio da Itália pequeno, se casou com minha avó, também da Itália, e marcaram residência neste distrito de Ivorá, Júlio de Castilhos. E ali criaram os filhos. Ele conseguiu viver até o período onde eu tive o prazer de conhecê-lo. Era uma pessoa típica de origem italiana, dinâmica, afetiva, enérgica.

Assim começou a minha vida naquela cidade, Ivorá. Logo no começo, nos primeiros anos de vida, eu vim pra Seberi com meu pai e mais duas irmãs mais velhas que eu, onde nos radicamos em 1946, precisamente, e onde moramos até 1969, quando mudei residência pra Carazinho, onde fui trabalhar, e depois pra Redentora, onde estou até hoje.

Minha família… Meu pai, minha mãe moram… Meu pai, infelizmente, já [é] falecido, mas no período em que vieram de Ivorá, eles moraram em Seberi, onde minha mãe até hoje mora. Meus filhos… Meus irmãos, melhor dizendo, se dividiram. Alguns ficaram em Seberi, outros foram pro Paraná e assim por diante. Eu não sei se [há] mais alguma coisa nesse sentido.

 

P/1 - Sim, o que faziam seus avós e os seus pais?

 

R - Meus avós trabalhavam na agricultura. [Em uma] Região pesada, região dobrada, de difícil acesso.

 

P/1 -  Eles tinham terra? Eram terras próprias?

 

R - Tinham terras, eram terras próprias. Só que terras que hoje [são] muito pouco valorizadas, considerando a topografia do terreno. Vejam que isso é um assunto que é interessante porque se analisarmos as colonizações, os italianos  - e meus avós não fugiam à regra - procuravam regiões montanhosas que simbolizavam a Itália que eles estavam deixando pra trás. Então, ele... E o meu pai, logo no início da sua juventude, adolescência - depois do quartel, melhor dizendo - começou a trabalhar de marceneiro. Foi a atividade que ele desenvolveu durante a vida inteira dele como industrialista, numa fábrica de madeira, que ele montou com outros amigos em Seberi. Mas os meus avós, tanto do lado paterno, quanto materno, eram agricultores, pequenos agricultores sofridos. Criaram a sua família assim.

 

P/1 - Eles vieram pra essa região quando aqui ainda era pouco urbanizado...

 

R - Sim.

 

P/1 - Não tinha quase cidade?

 

R - A princípio, quando...

 

P/1 - Foram pioneiros?

 

R - ...o meu pai... Pioneiros! Quando o meu pai veio a Seberi, poderia ter dez famílias, quando muito. Uma região de mato. [Vieram] Justamente atraídos pela febre da madeira; aquele espírito industrialista, desbravador, fez com que viessem pra esta região. Mas [era] totalmente mata virgem. Levava-se três, quatro dias pra vir de Santa Maria, quer dizer, fazia-se duzentos quilômetros.

Era mata mesmo, sem qualquer povoamento. Eram poucos os municípios dessa região.

 

P/1 - Ele já veio então pra viver de madeira?

 

R - De madeira. Basicamente madeira.

 

P/1 - E ele fazia o que? Ele derrubava?

 

R - Derrubava, industrializava a madeira...

 

P/1 - Industrializava a madeira.

 

R - ...através de indústrias de transformação de madeira. Depois eles começaram a fazer a indústria de móveis também, que foi muito difundida nesta região. Teve um ciclo muito grande do móvel, da região moveleira nessa região, porque era uma região essencialmente nativa. E existia uma abundância de madeira, principalmente araucária. O pinheiro araucária, que era uma matéria-prima de excelente qualidade. Quando começou a escassear essa madeira, eles começaram a diversificar a indústria, mas chegaram a colocar usina hidrelétrica pra manter as indústrias. [Quando] Acabou o ciclo da madeira, também foram se acabando um pouquinho porque foi com ele aquele espírito de extrativista que eles tinham.

 

P/1 - O seu pai chegou aqui já casado?

 

R - Chegou casado e eu tinha nove meses de vida.

 

P/1 - Ah, sei...

 

R - Imagina, são quarenta e... Cinquenta e um anos, a minha idade. Faz cinquenta anos e uns meses que eles vieram pra Seberi.

 

P/1 - E você tinha outros irmãos ou era o mais velho?

 

R - Sim, duas irmãs mais velhas...

 

P/1 - Mais velhas.

 

R - ...que são vivas. Uma mora no Paraná e a outra mora em Seberi hoje.

 

P/1 - Vocês, quando vieram, foi naquele momento mais pioneiro, de começar o desbravamento.

 

R - Sim.

 

P/1 - Com o tempo, o seu pai se tornou uma pessoa estável, financeiramente ficou bem?

 

R - Sim, sim.

 

P/1 - Como industriário.

 

R - Isso, isso.

 

P/1 -  Como você descreve a sua infância...

 

R - Bom...

 

P/1 -  ...e adolescência aqui na região?

 

R - Veja, é a história da adolescência, e falo isso porque é uma questão que me preocupa, pelos filhos que tenho. Em que pese o conflito de gerações, tive uma infância muito boa porque meu pai, com seis filhos, um homem e cinco mulheres, se preocupou em dar estudo pra mim, que era o único filho homem.

O estudo, naquela época, era muito difícil, mas essa dificuldade, essa procura…  Essa ânsia dele em colocar o filho na escola, num colégio como o Carazinho, que se levava um dia inteiro pra fazer cem quilômetros, fez com que eu valorizasse aquele sacrifício. Essa origem que me fez uma pessoa assim destemida, vibrante com a minha atividade. Acho que fez com que eu reconhecesse aquele trabalho.

A minha infância, em que pese cinquenta ou quarenta anos passados, foi sem muitos atrativos, mas foi uma infância que, digo com orgulho, formou a minha personalidade, norteada pelo sacrifício, pelo trabalho daquele pessoal. Foi uma infância normal, que me traz só recordações agradáveis.

 

P/1 - Você estudava em Carazinho?

 

R - Estudava em Carazinho.

 

P/1 - E morava aqui?

 

R - Morava em Seberi.

 

P/1 - E ia e voltava como?

 

R - Lá tinha um sistema de internato. É uma instituição europeia, com certeza. Precisamente o lugar da Europa eu não sei, mas que tinha ramificação no Brasil e formavam esses internatos. Era a melhor escola que existia no interior do Rio Grande do Sul, a La Salle de Carazinho. Tinha uma semelhante em Passo Fundo, que era a dos Irmãos Maristas.  

Quem podia estudar naquela época em escola deste tipo era dado como um privilegiado. Nós éramos em quatorze filhos, [com os filhos] de sócios do meu pai. Meu pai era um dos sócios de uma S/A; [os filhos dos sócios] estudavam naquele colégio. Então [a gente] ia de Seberi a Carazinho e ficava interno três, quatro meses sem vir em casa. Ficava meio que retirado lá. Pagava-se mensalmente pros padres - pros irmãos, que não gostam de ser chamados de padres porque não são padres, não podem rezar [missa]. E eles... A origem católica da gente está aí também. E era uma escola excelente; hoje infelizmente existem poucas escolas deste tipo no Brasil. Não existe mais internato.

 

P/1 -  Como era a vida no internato?

 

R - Ah, excelente. Eu acho que foi um dos melhores momentos da minha vida porque você aprendia a ser sistemático. Você tinha... Você definia a sua vida. Acordava às seis horas, tomava banho, tomava café da manhã, ia pro estudo.

Naquela época nós tínhamos o francês, o latim, o espanhol e o inglês. Era um regime de trabalho educacional muito completo. E excelente! Ficavam aqueles que realmente queriam progredir e ser alguém na vida.

 

P/1 -  Você não se sentia, como adolescente, limitado?

 

R - Tolhido? Não porque justamente aí vem o problema dos valores. Veja bem: o conflito de geração, eu entendo que é motivado pelo conflito de valores. Você tem a sua vida, você define aquilo que quer.  Você faz aquele jogo de valores que quer e, para mim, aquilo era o melhor.

Eu precisava de um lugar para estudar. Não existia atividade de lazer no interior, [em] uma cidade pequena como era Seberi, onde eu morava, que fizesse suprir aquela beleza que era o estudo. Ficar três meses sem ver o pai, sem ver a mãe - aquilo era muito valorizado. Isto, eu digo com orgulho, foi o que talhou o meu caráter e me ajudou a definir…

 

P/1 - O senhor já pensava assim, na época?

 

R - Já. A gente caminhava pra isso. Hoje você não tem opção. Essa pseudoliberdade que existe… Você, às vezes, conflita com esses valores. Você despreza, às vezes, os valores.

 

P/1 -  E você, a partir daí, vai seguindo a sua formação.

 

R - É, aí eu comecei...

 

P/1 - Você chegou a trabalhar com seu pai, não?

 

R - Não, a princípio não, porque a atividade...

 

P/1 - Só estudar?

 

R - Eu assessorava, ajudava em alguma coisa. Levar um lanche, levar um chimarrão - se usava muito, metodicamente, o chimarrão. Eu fazia o chimarrão na hora certa, levava o café na hora certa, mas era uma atividade que não me permitia tanto porque era perigosa. Lesões de oito, sete, nove anos de idade: olha os traços das lesões do dedo (mostra as mãos), cortava na máquina. Era muito perigoso.

 

P/1 -  Isso foi na...

 

R - Foi na minha infância, eu cortei o dedo numa máquina. Era uma atividade perigosa. Mesmo que nos fosse permitido, não era conveniente trabalhar lá porque eram máquinas que podiam mutilar as pessoas, então o pai também tinha um certo cuidado. E ele era o chefe.

A gente não trabalhava porque tinha um monte de empregados, não havia necessidade de trabalhar. A prioridade… Os pais da época diziam com orgulho que quem pudesse dar um estudo pro filho, era a coisa mais linda que eles podiam ter. Principalmente aqueles que foram pro ramo da indústria.

O italiano tradicional, que vivia na atividade rural, se preocupava em comprar alguma coisa pra ele, pro filho. Uma colônia de terra, uma... É assim que eles procediam. Como o meu pai era industrialista, ele não se preocupava com isso. Quer dizer, o que você vai ganhar, a sua riqueza, vai ser o seu estudo. Eles evitavam que você tivesse um contato com isso, pra não pegar… Não criar um valor diferente e desprezar o estudo, que era uma coisa belíssima, na época.

 

P/1 -  E por que você optou por Direito?

 

R - Eu acho que aí vem um pouquinho da origem da gente, também. Acho que esse dinamismo, esse arrojo típico do italiano, acho que ele faz com que você questione. Você vive eternamente questionando a sociedade. Se você questiona, procura encontrar uma solução pra correção daquilo.

Na época, também, era mais fácil pra mim. Eu comecei a minha faculdade com 33 anos porque, na minha época, ser contador... Quando eu cheguei aqui em Redentor, em 69, tinha dois contadores só. Era eu e um cunhado meu. Nós éramos considerados intelectuais da época. Como contadores. Aí eu comecei fazer a Faculdade de Direito porque também era o [curso] mais acessível aqui. Eu ia daqui a Cruz Alta fazer a faculdade. Então era assim...

 

P/1 - Você podia estudar e trabalhar?

 

R - Trabalhar. Eu era casado, meu terceiro filho nasceu quando eu me formei. Meus filhos nasceram na constância dessa faculdade. Os mais velhos, não; nasceram antes, um pouco, mas trabalhei e estudei casado, sustentando a família.

 

P/1 - E o seu trabalho como advogado? Pelo que a gente estava olhando lá na...

 

R - Sim.

 

P/1 - Até você entrar na política e se eleger prefeito, você trabalhou com advocacia basicamente.

 

R - Basicamente com advocacia. Eu fui...

 

P/1 - E dando aula?

 

R - Dando aula também. Eu tinha o escritório de contabilidade também, [por] uma época. Quando começou a saturar demais o trabalho de advocacia, larguei o escritório de contabilidade e fui me dedicar exclusivamente à agricultura, quer dizer, à advocacia.

 

P/1 - Advocacia.

 

R - Precisamente quando? De 1982, 83, de lá pra cá, eu só vivi da advocacia. Na área criminalista, era a área de júri. É a área que eu mais... Devo ter aí uns 150, 200 júris feitos.

 

P/1 - É?

 

R - É. Uma área que eu me realizei também, profissionalmente, foi na área criminalista. Em Chapecó também fazia isso.

 

P/1 - Conte pra gente o caso mais emocionante da sua vida de advogado criminal.

 

R - O mais interessante… Eu acho que tem tantos,  mas nunca me esqueço de quando defendi uma moça de infanticídio e até ganhei do pai dela um presente depois. Era um sujeito pobre. Eu recebi… Peguei porque achei que ele ia se ofender se eu não pegasse. Ganhei uma porca dele, uma coisa linda!

Essa menina tinha dezessete anos e a família mora aqui no interior de Redentor, ainda. Ela ficou grávida e sabe como é, interior tem um certo ressentimento quanto à gravidez. Comunidade humilde… E ela guardou essa gravidez até o dia em que pariu.

No dia que pariu, ela se sentiu mal e foi a uma latrina, dessas de campo. Ficou de cócoras em cima do assento - porque não é vaso, né? E era uma patente nova. Ao ganhar a criança, rompeu-se a bolsa. Ela achou que isso era normal pelo estado da gestante: ela acha que vai urinar. Ela ganhou um menino e esse menino caiu, despencou. Arrebentou o cordão umbilical e ele caiu dentro da latrina. Essa criança teve a infelicidade de bater a cabeça numa pedra.

Eu defendi a tese de que foi um acidente. Como o infanticídio é um crime que não tem a figura do culposo, que ameniza o crime, eu fiz uma jurisprudência. Eu a defendi. [O resultado foi de] Quatro a três no tribunal de júri e o promotor, descontente, apelou ao tribunal. O tribunal reconheceu a tese da negativa de dolo, que nós chamamos, porque ela poderia até ter a intenção de ganhar a criança e esconder aquele feto, mas teve a infelicidade de ganhar a criança e cair naquela pedra. O que matou a criança foi a lesão, o traumatismo craniano.

 

P/1 -  Foi dentro da latrina?

 

R - Consequência da latrina, que tinha um pedra nova. Então ficou... Isso foi um caso que me emocionou muito porque a simplicidade daquela menina do interior, que guardou aquela gravidez durante tanto tempo, principalmente nos meses posteriores ao quinto mês, que aparece… Ela conseguiu guardar e teve a infelicidade de ganhar a criança… Entendo que foi sem querer que ela jogou na latrina, foi em consequência do estado puerperal dela mesma. Ela ganhou a criança e caiu lá.

Eu absolvi essa menina. Foi uma coisa que, dentre os casos, foi o que mais me marcou. Porque morreu uma criança. A gente voltou àquela idade do tempo de Cristo… Fazer um teste de docimasia: cortar a criança, tirar um pulmão, colocar no balde, aquela história toda.

 

P/1 -  Foi isso?

 

R - O teste de docimasia é feito até hoje. Você corta a criança pra ver se ela nasceu com vida. Se ela tivesse nascido morta, não haveria crime porque a gente não pode matar quem já morreu.

 

P/1 -  Claro!

 

R - Aí corta-se, abre-se a criança, tira o pulmão e coloca num balde com água. Se esse pulmão subir é sinal de que a criança [estava] viva e respirou, porque encheu os pulmões de ar.

 

P/1 -  Nossa!

 

R - Esse é simples porque é uma coisa de milênios.

 

P/1 - Deus me livre!

 

R - Se ele estivesse respirando na bolsa, ia respirar o líquido amniótico e fatalmente morreria. Então ele não respira pelo pulmão, respira pelo cordão umbilical. Quando tiver uma vida extrauterina, ele vai respirar.

E essa criança… São esses momentos que mexem com a gente na profissão. Um fato de repercussão: “A mãe que matou o filho, aí jogou na patente...”  Não foi bem por aí.

 

P/1 - Foi apresentado assim pela polícia?

 

R - Foi apresentado assim até pela denúncia.

 

P/1 - Você estava me contando um caso que tem tudo a ver com o PACS. Uma pessoa que eu entrevistei sobre o PACS me contou que as mães - não mães solteiras, que é um caso mais dramático, mas mães desinformadas, que não tiveram orientação de pré-natal, muitas vezes quase tem os filhos na latrina porque desconhecem, inclusive, o pré-natal.

 

R - Claro, claro. E correto. Veja bem, quando isso [aconteceu], eu tive que estudar pra me situar, medicina legal. Nós vamos entrar nesse outro particular: é a necessidade e a importância do PACS, porque é uma das coisas que acontecem.

Eu me questiono: “Por que que essa menina escondeu a gravidez durante tanto tempo?”. Porque ela tinha temor de alguma coisa. Se ela tivesse uma agente do PACS, naquela época, ela iria confidenciar pra essa pessoa porque é uma pessoa estranha que, fatalmente, pelo estado dela, até poderia desconfiar, mesmo sendo inexperiente. O que não é o caso da mãe, uma senhora de pouca cultura, que não se preocupou com a barriga dela.

 

P/1 -  E que iria reagir.

R - Claro, ela ia reagir. E essa companheira… Quer dizer, pega uma pessoa do PACS que mora lá há dois anos. Essa gravidez ocorre quando essa mulher, a agente, já a conheceria. É uma amiga, uma vizinha; discute, ia perceber, ia auxiliar e salvar essa vida. Porque é um dos casos: quando a mulher vai parir, ela tem vontade de urinar e aí, fatalmente, acontece. Imagina um assento de campanha - não é que nem os nossos vasos. Ela pode ganhar a criança quando acontece isso.

 

P/1 - Eu ouvi um caso exatamente assim, que foi por falta de… Por ignorância, porque ela não tinha o menor interesse em perder a criança.

 

R - Pois é.

 

P/1 - Mas pra gente não entrar no PACS já, eu queria entrar antes na sua carreira política.

 

R - Sim, sim.

 

P/1 -  Como você entrou para a política?

 

R - Eu acho que eu sou um político por casualidade. A minha faculdade, depois que eu a fiz - Ciências Políticas, ela te induz pra isso. É aquele questionamento que eu mencionava no começo. Tudo você questiona. Se você questiona, você procura, fatalmente, encontra soluções pra esses problemas. Se você é um questionador, tenta, pelo menos, resolver os problemas, se torna um político. E foi o que me tornou. Eu vivia na comunidade. Eu questionava, brigava pelas coisas que eu entendia certas, vindo da minha própria condição de advogado, de professor. Quer dizer, um formador de juízos. Você é um questionador. E aí foi: a comunidade, um passado inteiro aqui… Eu fui candidato em 66.

 

P/1 - 66?

 

R - 60 e... Em 1976.

 

P/1 - 76.

 

R - Eu fui candidato contra a pessoa que me perdeu hoje.

 

P/1 - No Geisel, período Geisel?

 

R - Isso, me parece que sim.

 

P/1 - Hum, hum.

 

R - Eu fui candidato contra a pessoa de quem eu ganhei agora, vinte anos depois. De quem eu fui vice-prefeito, inclusive. Então veja como a história, numa comunidade pequena... Por isso eu digo: “político, em cidade pequena, ele é um fruto de uma contingência.” Você surge sem querer porque a liderança se impõe muito mais pela sua personalidade, pela maneira de você se portar na comunidade, e não pela sua ideologia ou filosofia política, compreende? Por isso que eu digo que o político em cidade pequena - aí eu me incluo - é um político de momento. Acontecem as coisas.

Fui candidato em 76, perdi pro senhor. Depois ele fez boa administração. Concorri com ele, como vice-prefeito, ganhamos a eleição! Depois eu fui embora daqui porque não dava mais, a cidade estava pequena. Fui pra Chapecó, advogar lá. A comunidade daqui, num apelo, me convidou para que eu viesse concorrer aqui.

 

P/1 -  Agora?

 

R - Agora.

 

P/1 - Você estava residindo em Chapecó...

 

R - Eu morava em Chapecó, vim pra Redentor. Meus filhos continuavam aqui… Meu filho. Ela ficava em Brasília, o outro ficava aqui, estudando na Unijuí, o pequeno ficava conosco em Chapecó. E aí [no] dia 31, precisamente dia 30 de junho, eu vim pra Redentor sozinho porque a minha esposa [está] fazendo faculdade lá, esse programa de especialização pra [educação] infantil. Ela ficou lá com o meu filho menor e eu vim pra cá, morando... Eu tinha uma propriedade aqui, onde eu resido hoje.

Comecei a fazer campanha. Depois tive que abandonar minha atividade profissional em Chapecó e me dedicar a essa vida aqui. Então foi assim que começou essa coisa. Agora eu acho que...

 

P/1 -  Agora, no lado político, você então... Havia o PMDB aqui, não é?

 

R - Sim, sim.

 

P/1 - E você competiu por uma coligação...

 

R - Uma coligação de cinco partidos.

 

P/1 -  Praticamente reuniu todos os outros principais partidos.

 

R - Todos, praticamente. E veja, isso é uma coisa que lhe transfere responsabilidade. Eu acho que cinco partidos, com ideologias totalmente opostas, como é o caso do PPB, que é o meu vice, e o PT me apoiando, quer dizer, tem um conflito muito grande, ideológico. É a prova fundamental de que a gente é político por ocasião, quer dizer, você conseguir não é honra porque acho que é contingência do momento. Você conseguir unir essas pessoas pra ter uma ideia, uma...

 

P/1 -  Você é do...?

 

R - Eu sou do PDT.

 

P/1 - Do PDT.

 

R - Meu vice é PPB.

 

P/1 - Você, quando competiu antes, competiu por quais partidos, quando candidato a prefeito e vice?

 

R - Agora, nessa?

 

P/1 -  Nas outras.

 

R - Nas outras eu concorri... A última era vice. Não, a outra eu concorri sozinho, com PDT, e perdi em 1988. Ali eu perdi sozinho.

 

P/1 - Antes você foi vice, e foi vitorioso.

 

R - É, fui vitorioso.

 

P/1 - Por qual partido?

 

R - Pelo PMDB.

 

P/1 - Pelo PMDB.

 

R - Depois eu me retirei; ainda era vice-prefeito.

 

P/1 - Lá em 76, a primeira vez que você se...

 

R - Eu fui Arena.

 

P/1 - Arena.

 

R - Na época era Arena e MDB, não é?

 

P/1 - Arena contra MDB?

 

R - Contra MDB.

 

P/1 - Ganhou o MDB?

 

R - Ganhou o MDB, que é esse senhor que perdeu de mim hoje, depois de 20 anos.

 

P/1 -  Perdeu agora pelo PMDB.

 

R - Pelo PMDB.

 

P/1 -  Tá certo.

 

R - Ele ficou. A ideologia dele é aquela história que eu comento, né? Filosofia, ideologia política se afina com a posição dele. A minha era diferente porque eu sempre dizia: “Eu acho que é um eterno questionamento.”

Você unir cinco, seis partidos, é sinal que tem que ter alguma coisa de diferente. O que eu chamo de diferente? É a posição pessoal, conduta; se leva muito isso em conta agora, então eu acho que a ideologia foge um pouquinho.

 

P/1 -  Agora, quando você assumiu a prefeitura, já existia o PACS?

 

R - Sim, já existia o PACS.

 

P/1 -  Não há muito tempo, não é?

 

R - Não. Começou aqui em maio de 96, então estava começando. Mas veja que... Não sei se nós entramos diretamente nisso mas, para você ter uma ideia, uma das preocupações minhas, no começo, foi justamente a ingerência política no PACS. Coisa que, pra mim, foi uma grata surpresa. Não houve isso.

Não sei se falo pelos meus agentes, mas são profissionais no sentido amplo da palavra, dentro das suas possibilidades técnicas e das limitações que o próprio programa impõe. Mas são pessoas que fizeram um trabalho, com raríssimas exceções, um trabalho mais voltado justamente para o objetivo que eu tinha. Então isso fez até eu me despreocupar com o PACS porque ele funcionava tão bem que você não nota.

É o mesmo que um árbitro de futebol: quando ele não está complicando, você não nota. “Quem é o juiz?” Assim eram os agentes do PACS. Eles faziam um procedimento bom, é só ver a nossa estatística. Atendendo um número de famílias, faziam um trabalho muito bom. E aí passava despercebido porque não tinha política no meio.

Eles faziam esse trabalho de aproximação realmente, que era o objetivo. Então não me preocupou durante a campanha ou após. Claro que, após a campanha [houve] um barulhão, pra [população] tomar conhecimento, mas durante o período eleitoral e pós-eleitoral não afetou porque o trabalho estava sendo feito com uma certa imparcialidade. Uma coisa que não lhe atingia, não mexia com você politicamente. Você vivia aquele momento político, então os agentes não mexiam com você. [Houve] Raras exceções; logo passou o primeiro impacto, o efeito da política, já começou a normalizar, então eu acho que... Por isso que não se tinha uma coisa mais ampla, o questionamento.

Excelente! O trabalho deles, a gente...

 

P/1 -  Quando você assumiu, o PACS já funcionava bem...

 

R - Sim.

 

P/1 - Havia, já, um entendimento da outra administração, um apoio ao programa, no sentido de...

 

R - Sim, eu acredito que sim. E, veja bem, seria até uma indelicadeza da minha parte entrar nesse detalhe.

Essa imparcialidade que eu menciono, acho que é a coisa boa que tem no programa porque ele coloca uma funcionária especificamente para aquilo. Quer dizer, é uma enfermeira que trata do PACS. E esses funcionários só são subordinados, inclusive subjetivamente, com a administração municipal, porque vem o repasse do dinheiro. Você recebe o recurso e repassa para um órgão de classe - no nosso caso aqui, o Sindicato dos Funcionários, que faz o pagamento.

O trabalho deles é um trabalho, eu diria, anônimo. Um trabalho feito da maneira como nós queremos. Acho que a busca da solução do problema pra saúde, hoje, no Brasil, é esse caminho. Você tem uma pessoa que, antes de ser um profissional que fica sempre com - nós chamamos “o gaúcho com pé atrás” - que ele seja um aproximador, um amigo, seja um conselheiro. [Que] Ele busque, com a simplicidade dele, os elementos que são sumamente importantes. E que eles fazem com propriedade porque antes de serem profissionais propriamente ditos, eles são companheiros, são amigos. É uma pessoa que, antes de tudo, tem a liberdade de chegar na sua casa e falar contigo. E você vai ter a liberdade de colocar os problemas pra ele porque enxerga nele um semelhante, por isso que é uma coisa bonita. Então essa vinculação é muito subjetiva, com o prefeito.

Acredito que ele [o prefeito anterior] trabalhou bem, como eu entendo que estou trabalhando agora. Só que o mérito não é meu e nem era dele. O mérito é do programa PACS, onde uma enfermeira coordena, fiscaliza pessoas que vão fazer esse trabalho. Não é mérito. Eu entendo que não é... Independe de uma boa ou má administração.

 

P/1 -  Hum, hum.

 

R - Uma boa e má administração pode ser feita - eu não sei se entro muito ligeiro nisso - com os resultados que esses agentes traz pra nós.

Se você analisar hoje o programa, o prefeito que está preocupado em fazer uma medicina preventiva - que eu entendo que pra nós, infelizmente, não traz voto. O que traz voto pra nós é fornecer um ataúde pra quem morre. Não é você detectar um problema de câncer numa pessoa. Se aquela pessoa morrer de câncer, pra nós, prefeito, infelizmente - é triste dizer isso - ela gera mais Ibope porque você socorre, leva pra fazer quimioterapia, pra fazer cirurgia, dá o ataúde pra ela e você fica eternamente agradecido.

Se você leva, questiona: “Quem sabe se você for ao médico? Isso aqui pode evitar que você...” “Vai lá, conversa com o médico.” Não vai entrar no detalhe de uma doença, mas [diz]: “Vai lá, faz isso.”

Olha, por exemplo, a lepra, que nós temos tanto aqui, ou tinha alguma coisa nesse sentido. Como é fácil de resolver o problema com agente do PACS! Por que? Você vai lá, vê a ferida: “Ah, que ferida! Não coça, não dói. Prá que que eu vou ao médico?” “Mas está contaminando. A longo tempo ela vai contaminar.”  Se ela viu, a agente vira: “Por que não vai olhar essa ferida? Vai lá no médico. O médico dá uma olhadinha pra você, na ferida. E você resolve o problema.”

A medicina preventiva, pro administrador, é bom. Quero até fazer um parênteses e dizer: “Mas por que o outro prefeito trabalhava?” Ele não produz efeito se nós não buscarmos esse efeito, o resultado, porque ele é um levantador de problema. O agente do PACS, no meu entender, é um levantador de problema. Se o administrador está preocupado com aquilo, ele tem elementos essenciais no PACS. O que ele vai fazer pra você? Ele vai estabelecer a causa e o efeito, quer dizer, porque lá você tem tanto problema de diarreia, ou disso, daquilo. Se você vai olhar, fatalmente tem uma correlação com uma atividade que o prefeito abandonou. É saneamento básico, é isso, aquilo, entende?

Acho que o trabalho dele não nos preocupa, sinceramente. Como administrador, não me preocupa; me preocupa o resultado do trabalho dele. Porque ele faz o seu trabalho com simplicidade e com objetividade; os resultados vão ter que ser atingidos por nós. Entende como é? Não sei se coloquei claramente isso.

 

P/1 -  Claramente.

 

R - Pra mim, é extraordinário!

 

P/1 - Eu queria, aproveitando essa sua colocação...

 

R - Sim.

 

P/1 -  ... que você me desse uma visão geral de como o PACS é. Quer dizer,  tem quantos agentes, atinge quantas pessoas?

 

R - Sim. Em Redentor temos nove agentes divididos em três campos, basicamente. Temos dois na reserva indígena; acho, infelizmente, muito pouco. Nós temos 3550 indígenas sob a nossa jurisdição e o índice de mortalidade é incrível. Ele tem uma origem diferente, o índio. Você pra ser...

O que que o agente do PACS é? Um levantador do problema. Como você levanta esse problema? Você levanta o problema se tiver confiança em mim. O não índio, ele tem uma liberdade maior. Se você cria uma simpatia comigo agora e começamos a conversar sobre a minha origem, nós tivemos uma liberdade de conversar. De uma maneira ou de outra, você vai descobrir o meu subjetivo. E na doença, ou uma atividade patológica, é bem mais fácil porque até pela visão você pode...

O índio, não. O índio precisa ter um amigo, mas com muita confiança. Pra ter uma ideia, eu entendo que o que você transmite para um não índio numa questão de um minuto, você terá que, fatalmente, usar dois minutos para o índio. Ele tem uma medicina própria dele, que é um costume; você tem que acertar aquilo pra ele lhe entender, senão não lhe aceita. Ele é desconfiado com o branco.

 

P/1 - Quem são esses índios? De que tribo?

 

R - Nós temos aqui os caingangues, que é a maioria...

 

P/1 - Caingangue.

 

R - Caingangues e uma parte dos guaranis. Guarani é uma comunidade pequena, mas tem costumes um pouco diferentes. Mora mais retirado e é mais difícil de ter um relacionamento com tribo. A maioria é caingangue, que fica aculturado e perde suas origens. É um perigo total pra... E aí o PACS é fundamental.

 

P/1 -  O caingangue já é aculturado. O guarani, menos.

 

R - Menos, um pouco. Eu entendo que o guarani é mais arredio, mais fechado, mais...

 

P/1 -  Eles são originários da região ou vieram pra cá?

 

R - Eu entendo que devem ser daqui porque essa reserva, pelo que conheço, são centenas de anos que… Na rede escolar municipal da reserva, nós temos nove escolas municipais. Nós temos mais de 590 indiozinhos. É uma geração que, durante esse longo tempo, e até a minha convivência aqui, vinte e poucos anos… As gerações se multiplicam e se esvaziam porque eles imigram também. Imigram, emigram. Eles circulam.

 

P/1 -  Eles circulam. Não ficam fechados.

 

R - Isso. O caingangue fica um pouquinho mais nas reservas, porque a aceitação dele em outra já é um pouco restrito. O guarani, não. O guarani é aceito em qualquer reserva indígena. Não sei qual é a razão deles.

Dentro da reserva, só pra completar, nós temos dois agentes. Hoje, se você questionar: “Qual é o índice de abrangência do PACS hoje?” Eu lhe diria, na população não índia, acredito que sessenta, sessenta e poucos por cento. É um trabalho bonito, belíssimo. Atinge uma parcela considerável da população. Só que, por outro lado, a reserva ficou desprotegida. Nós, com dois agentes, em dois campos, eu acho que é muito pouco. Principalmente considerando o tempo que um agente [leva] pra colher informações de um não índio - é metade do índio, né? Então temos essa divisão: dois agentes na reserva, dois na cidade, [no] perímetro urbano, e cinco no interior, divididos em regiões. Esses são o número de agentes.

 

P/1 -  Quantas regiões?

 

R - Nós somos cinco regiões.

 

P/1 -  E qual a população?

 

R - Veja, no que pese… Porque quando eu falo, é difícil separar população branca e índia. É uma briga que eu tenho. Se eu tenho 3500 índios e 5500 eleitores, eu tenho mais de nove mil, como colocaram aqui. Quer dizer, para o PACS eu tenho nove mil.

 

P/1 -  Os índios votam?

 

R - Sim, votam e são cidadãos, com todos os direitos. E uma cultura belíssima! É bonito de você ver o índio. Até fica o convite.

 

P/1 - Eles vivem do que? Qual é a atividade?

 

R - Hoje eles estão sacramentados. [Vivem de] agricultura rudimentar e artesanato. Mas havia uma exploração muito grande na reserva indígena. Nós temos 105 quilômetros quadrados: você transforma isso em hectares e nós vamos ter em torno de dez mil hectares. Temos aproximadamente 8 ou 6 desmatados. [Terra] Improdutiva. Quer dizer, o branco trabalhava na terra e lhe dava um arrendamento. Hoje não pode mais porque… O processo da Procuradoria e o governo, a União está muito preocupada com isso, então é uma preocupação minha também. A desnutrição que existe. Isso fatalmente vai acontecer e a gente precisa levantar esse problema. Pra ter uma ideia, eu tenho 820 cestas básicas da Comunidade Solidária pra reserva. É uma preocupação muito grande que nós temos.

Considerando isso, eu não gosto - não é demagogia - de separar branco e índio. Se eu contar como administrador, sem sentimento, é número: branco e não branco, índio e não índio. Pra mim é número, é valor. Um, dois mil, dez mil. Nesse número que me vem o FPM [Fundo de Participação dos Municípios]. O retorno me vem por aí. Seria impossível eu querer separar, então eu entendo que eu tenho mais de 10200 habitantes no município de Redentor, índios e não índios.

 

P/1 - Aqui eles não se misturam? Na comunidade...

 

R - Não. Olha, uma pena porque eu tenho um índio que trabalha comigo, aqui na secretaria.

 

P/1 - Ah, é?

 

R - Tem um índio que fazia parte...

 

P/1 - Eles vivem mais...

 

R - Vivem. Nós temos índio que tem cultura... Por exemplo, eu tenho, agora...

A reserva indígena, as escolas que pesam em cima do município, que estão no espaço territorial do município, elas têm uma vinculação com o Governo Federal via Funai [Fundação Nacional do Índio], porque tem uma proteção especial pro índio, aquela história da Constituição, e eles fazem um convênio via Secretaria de Estado. Nós, então, contratamos, porque o Estado simplesmente abandona a área, não tem como ele contratar professores. 90% desses professores são índios bilíngues. Temos as nossas escolas, que ensinam a língua portuguesa e o guarani, o caingangue. Veja que, se ele é apto a lecionar, ele está aculturado, ele se aproximou do branco. Tem índio com faculdade, tem índio com estudos de magistério, então ele é um cidadão redentorense, brasileiro. Uma boa parcela deles. Muitos não, porque conservam aquela cultura.

 

P/1 - Como você trata a sua população? Incluindo os índios, ou é separado?

 

R - Igual, igualdade. Não, não separo.

 

P/1 - Pensando em termos de saúde, quais são os principais males do seu município, incluindo os da comunidade indígena?

 

R - Eu acho que a desnutrição. Do índio, a desnutrição. Infelizmente, é triste dizer. E outra coisa, eu questionava os resultados do PACS, discutia. A hipertensão, os agentes levantaram nas comunidades.

 

P/1 - Aliás, isso é incrível, no Brasil inteiro, e parece que é uma coisa que as pessoas desconheciam.

 

R - Isso. Na minha comunidade eu questiono por que há desnutrição. Eles têm uma dieta que não é rica em gordura porque comem muito mal. O pequeno agricultor, hoje, é doído um Prefeito dizer isso, mas ele é desnutrido. Se ele é desnutrido, como a hipertensão ataca? Será que é um mal do século XX? Sei lá o que está acontecendo! Mas é um questionamento porque eu ousaria dizer que o pior mal da administração é a desnutrição da população - índio e a parte que os agentes do PACS atendem.

Eu acho que, pra mim, é desnutrição. As consequências, não sei, patológicas da desnutrição, teriam que ser alguma coisa com relação a isso. E na realidade não é, é a hipertensão, então não sei o que está acontecendo.

Pra mim, hoje, o maior problema é esse. Nós vimos uma área que o PACS atende - pequenas propriedades, posseiros, trabalhadores rurais - e a situação é constrangedora, é alarmante. Por que? Porque não há um enraizamento desse povo. Como administrador, eu me sinto impotente de fixar o homem do campo,  então tenho que levantar esses problemas e tentar achar a solução pra que ele fique lá no campo. Eu não tenho outra maneira, mas é preocupante porque ele não tem como fazer produzir a sua terra. Ele não tem como produzir.

Sinceramente, pra mim, hoje, o mal que eu tenho é a desnutrição.

 

P/1 -  E quais os outros? Você falou em hipertensão e desnutrição. Existe algum outro tipo de doença ou problema de vacinação que também seja tão traumática?

 

R - Veja, acho que, com o PACS, nós resolvemos a maioria dos problemas. Por que? Porque [para] o problema de vacinação há um controle mais eficaz.

Se tu me perguntares hoje: “Por que que o PACS é tão importante? O que que ele te trouxe de benefício?” Acho que vai trazer muito mais, se não pra mim, mas pra quem me substituir. A longo prazo, o trabalho preventivo - fatalmente tem que ter um longo prazo. Agora ele faz um trabalho imediato, eu diria, de nove, dez meses, que é o período de uma gestação. Você consegue fazer com que o agente vá lá e diga: “Você tem que se portar, se cuidar um pouquinho mais.” “Essas doenças que você pode transmitir sexualmente...” Quer dizer, ele entra nesse campo com alguma coisa. A limpeza, a gestante - os agentes controlam a gestante.

Está me ajudando? Muito, porque eu tenho um controle de gestante, eu tenho um controle de vacinação. Há uma fiscalização rígida em cima disso.

Nós atendemos em torno de quatro mil, cinco mil pessoas. Você imagina, disso não tem como fugir. Os agentes me dão a curto prazo um controle da natalidade, da gestante. Um controle da desnutrição do adolescente, da criança. Um controle de pré-natal, um controle infantil. Ele já está me dando esse resultado, então essas doenças, ou alguma coisa que eu poderia ter, eles conseguiram resolver porque controlam a natalidade, a gestante, o nascimento, controlam esse problema do crescimento, a projeção dessa criança. A nutrição, desnutrição.

 

P/1 - O PACS lhe apontou, com os dados que os agentes trazem, alguma outra maneira, algum tipo de problema que contribuiu pra você traçar um plano?

 

R - Muito, muito.

 

P/1 -  É? Quer dizer...

 

R - E aí vem o problema que eu encerrei. O que o agente faz? Ele estabelece a causa e o efeito. Pra mim interessa o quê? Interessa a causa daquilo. Se quero pensar num programa, vamos dizer, um plano plurianual, de quatro anos, eu vou ter que fazer um orçamento daqui a quatro anos. Bom, ele me levantou esse problema.

Se você analisar, começa a ver. A verminose: a gente não tem muita afinidade com a doença, mas o problema de contaminação por bactéria da água, do esgoto me traz isso. A asma, por exemplo, que é um problema que levantaram aqui pra mim. A asma vem de onde? Duas questões que eu me coloco. Primeiro, habitação. É um problema que o prefeito, administrador, tem que se preocupar. Eu tenho que fazer um projeto de administração rural porque a asma está diretamente ligada à habitação, aos rigores do inverno também. Mas se eu tenho uma boa moradia, estou agasalhado, eu minimizo isso. Veja, ele me levantou um problema. Quer dizer, por que vem a asma? Eu associei a duas coisas.

O segundo seria o trabalho das trilhas, que nós chamamos aqui. Você trilhar o produto e as regiões mais atingidas.

 

P/1 -  O que é “trilhar o produto”?

 

R - Trilhar o produto é você passar numa máquina o milho, o feijão, o trigo, soja, pra tirar sua casca. Tirar sua palha. Isso gera um pó infernal e a absorção desse pó pelo organismo humano pode gerar um problema de asma que está sendo levantado como segundo ou terceiro problema. Os agentes levantam isso.

Fundamentalmente, eles me alertam para uma coisa: se eu tenho problema de asma e a causa da asma não é a habitação, pelo menos a habitação vai minimizar os efeitos da asma. É por isso que eu digo: o agente, ele é um levantador de problema. E se o prefeito, como eu dizia no começo, quer aproveitar, ele só vai ser beneficiado por isso.

 

P/1 -  Você pegou administrações anteriores como vice-prefeito, não é?

 

R - Sim, sim.

 

P/1 - Você foi eleito só como vice-prefeito, antes dessa eleição.

 

R - Sim, só.

 

P/1 - Então você de alguma maneira vivenciou a Prefeitura sem o PACS...

 

R - Sim, sim.

 

P/1 -  ... e agora você pegou já com o PACS, recém implantado.

 

R - Mas, olha...

 

P/1 -  Que diferenças...

 

R - O dia e a noite. Por que o dia e a noite? Porque eu tenho um intermediário. Acho que, às vezes, o médico não resolve o problema. Eu acho que 90… Não é tanto assim, mas vamos dizer 60%. Eu não fico em 40, não fico em 50; fico em 60%. Se nós ficarmos com agente desse tipo, levantando esse problema, fazendo o acompanhamento, nós vamos resolver 60 % dos casos de internação. Eu tenho absoluta certeza!

Eu defino a doença como um crime. Eu nunca vi um crime, por maior que fosse, começar com uma causa grande. Eu não acredito que a saúde começa com um problema grande; começa com um problema pequeno e que deve ser levantado na sua origem, no início do seu problema. E isso os agentes fazem.

 

P/1 -  Agora, sem querer criticar a administração anterior...

 

R - Sim.

 

P/1 - O problema de saúde pública era mais grave antes, em termos de índices? Antes de haver os agentes?

 

R - Eu não poderia dizer isso porque acho que mudou um pouquinho o sistema de atendimento. E acho que o povo ainda está mal acostumado, no bom sentido. Porque, e aí eu volto a repetir, a importância do agente do PACS... Se você não se cuida, se você não quer bem a si mesmo... Se você não se cuida, não adianta eu cuidar, eu não vou cuidar de você. Se você não se cuida preventivamente, que é o que faz… Curativamente, eu não vou cuidar de você porque o sistema de saúde é difícil.

Melhorou? Melhorou, sim. Se eu dissesse assim: “O problema de gestantes, de pré-natal, pra mim, diminuiu? A mortalidade no meio infantil, na Redentora, diminuiu?” Mas me ajudou, e muito, já.

Outras causas? Agora nós fizemos um trabalho na reserva também, [sobre] o câncer de mama, e descobrimos 14 problemas de câncer. Útero e mama, das índias. Por que? Se eu tivesse agentes do PACS pra aproximar, fazer o elo de ligação, entre os profissionais da saúde e a população, que é feito só por esses agentes...

Notem que os meus funcionários, o funcionário vinculado diretamente à administração… É um perigo muito grande. Não se faz saúde com pessoas desse tipo porque ele trabalha ao sabor da disposição dele, ele trabalha quando o Prefeito manda, quando o secretário manda, porque é político que bota lá. O agente do PACS, não. Quando ele está muito saturado, ele não vai. Os procedimentos que ele tem da sua localidade… Ele atendeu hoje; não está bom, ele para e não vai ofender pessoa lá. Funcionário público, não. Então, muitas vezes, ele não encontra o problema porque ele está indisposto pra encontrar aquele problema. O que não acontece com o agente.

Você não vai na minha casa me visitar se você não está disposto. O agente do PACS não vai na casa do sujeito se ele está mal humorado, ou pra criticar, pra fazer alguma coisa. Ele vai quando ele está disposto a cumprir aquele objetivo que ele tem: levantar o seu problema. E esse é o grande benefício que os agentes do PACS nos trazem.

 

P/1 - Você teria algum número, alguma estatística? Parece que você estava com algumas coisas pra mostrar...

 

R - Não, só o problema das famílias. Nós atendemos, no meio rural, 758 famílias. No meio rural, cinco agentes pra fazer isso. Temos, por exemplo, no meio urbano, 500 famílias, e 290 na reserva indígena. Agora vejam bem como é interessante essa história: o que eles me levantaram? Olhe os problemas que eu tenho. Infelizmente, como eu digo, [para] o prefeito que não pensa - não estou dizendo que eu seja o caso - pra frente, os agentes não são bons pra ele porque são levantadores de problema, criadores de problema.

Por exemplo, zona rural. Qual é o pior problema? A queima do lixo a céu aberto. Isso é um problema que eu tenho que resolver. Se a Fepam, um órgão que controla o meio ambiente, vê isso, ele vai me responsabilizar. Porque eu sou responsável por isso, ele está me trazendo o instrumento que eu preciso.

Mais: água sem tratamento. Esse é um elemento que eu preciso pra gestionar o saneamento básico. Eles levantam isso.

 

P/1 -  Eles apontam...

 

R - Eles apontam. As fezes, é incrível, no interior, a céu aberto! Em pleno século XX! E isso ele me traz. Esses são dados importantíssimos. E na ordem é isso que está acontecendo. No índio, mais ainda, porque o índio não tem casa, o lixo [fica] a céu aberto, a água não é tratada. É água de qualquer jeito.  

No urbano, a maioria das casas [é] de madeira. O lixo nós coletamos, a água é clorada. Aqui menos, mas tem um problema: é fossa. A fossa hoje, amanhã ou depois vai me dar um problema, então esses levantamentos são coisas que me trazem. Onde eu colho isso? Eu colho isso através do agente do PACS.

 

P/1 -  E você...

 

R - Pra mim, ele é um parceiro extraordinário pra administração.

 

P/1 - Você traçou algum plano baseado nisso...

 

R - Sim, sim. Mas veja...

 

P/1 - ...pra atender uma área específica? Estou falando de um caso concreto. Tem alguma coisa que você já estabeleceu, baseado em dados do PACS?

 

R - Sim, sim.

 

P/1 -  Por exemplo: “vou passar a fazer saneamento básico nesse bairro.”

 

R - Sim! A maioria das coisas estão acontecendo em decorrência disso porque, veja bem, eu fiz um trabalho participativo. As comunidades levantaram seus problemas e, por incrível que pareça, houve comunidade que mencionou, como terceira prioridade, agentes do PACS. Então notem que...

Eu não sei se estou sendo claro… Pra vocês que estão trabalhando nisso, estão ouvindo, nós, às vezes, nos condicionamos, nos direcionamos em decorrência daquilo que acontece. O administrador, eu olho números, determinado momento. Números eu vou olhar, porque mexem no meu bolso. A comunidade que vive isso não pensa em números, ela pensa na solução dos seus problemas. Então notem como o agente do PACS é importante. Chegar ao ponto da comunidade dizer...

 

P/1 - “Nós queremos o agente”.

 

R -  ...num questionamento, “nós queremos o PACS, queremos o agente”.

Notem que, hoje, eu acho que é um trabalho gradativo porque a confiança é o elemento fundamental para você curar qualquer doença. Se existir a confiança, há cura, se você levantar esse problema logo. Se você trabalha isso metodicamente, levantando, controlando peso, vendo, fazendo as visitas, você consegue curar um monte de coisas, de casos perdidos.

 

P/1 - O PACS está agora numa fase de ampliação para o programa de saúde da família, não é?

 

R - Sim.

 

P/1 - Você já tem este planejamento aqui na sua cidade?

 

R - Não.

 

P/1 - Você sabe o que é isso?

 

R - A princípio, não. Mas alguma coisa desse sentido, eu gostaria que me informassem melhor porque, realmente, não... Tem coisas que... Eu tenho certeza que qualquer programa que venha, nesse sentido, se as bases são isso, é excelente. Eu não tenho uma compreensão ampla nesse sentido, do programa...

 

P/1 -  Ainda não foi implantado?

 

R - Não.

 

P/1 -  É um programa que está começando agora.

 

R - Está começando, de repente pode ter uma...

 

P/1 - Ele é uma continuação do PACS.

 

R - Do PACS, né?

 

P/1 -  Provavelmente você vai ouvir falar.

 

R - Vou ouvir falar, sim. E pode ter certeza que vai ser excelente porque isso é direcionado a saúde da mulher, não?

 

P/1 - É um...

 

R - Controle da família...

 

P/1 - O PACS passa a ter uma relação direta, que já teve ter aqui...

 

R - Sim, eu acho que eles fazem...

 

P/1 - Vão aos postos de saúde. Amplia porque o PACS começou muito voltado pra saúde da mulher e controle de...

 

R - Natalidade?

 

P/1 - Controle de...

 

R - Gestante?

 

P/1 - ...de incidentes de crianças com subnutrição.

 

R - Ah, sim.

 

(uma mulher fala ao fundo - incompreensível)

 

R - (respondendo a ela) Não, mas isso é o governo do estado, também.

 

P/1 - Agora eles estão ampliando mais, já é um pouco essa filosofia aqui no Rio Grande do Sul. Ele já veio com essa filosofia de cuidar de idosos e agora quer ter uma solução pra esses casos. Quer dizer, o agente vai ser um encaminhador para um centro de saúde modelo. Um posto de saúde com um médico, uma enfermeira, que possa, pelo menos, resolver certos casos. Eu não sei como é aqui. Talvez você possa me informar como é que funciona o seu posto de saúde, os atendimentos de postos de saúde aqui.

 

R - Temos um posto de saúde na cidade; os do interior estão desativados ainda, justamente pela falta de clientela. Mas é um serviço generalizado, há um controle, claro. Tem alguém lá que se preocupa com isso, com aquilo. Há um controle disso, mas não especificamente nesse sentido.

 

P/1 -  Sei, sei.

 

R - Especificamente nisso, um programa pra isso. Você trabalha no geral.

 

P/1 - É. Só pra te informar, a ideia é que o agente, se ele conseguir ter um posto que dê resposta para, pelo menos, casos básicos, ele pode já cortar a internação.

 

R - Excelente, é por aí.

 

P/1 - Fazer um trabalho integrado entre o posto de saúde com agente.

 

R - Excelente.

 

P/1 - Eu acho que é basicamente isso...

 

R - Tá bom.

 

P/1 - ...a não ser que você queira complementar com mais alguma coisa.

 

R - Não. Eu só quero que não se compre, sinceramente, com toda a minha liberdade, a minha maneira de ser.

Não sei pra onde, como e pra quem vai isso...

 

P/1 -  Isso vai...

 

R - Independente disso, eu quero lhe dizer: é louvável essa atitude. O PACS é uma coisa belíssima, uma coisa séria, uma coisa humana, uma coisa carinhosa. Eu tenho visto agente… Hoje mesmo, a minha secretária do bem-estar social, que é minha esposa, foi ver uma criança. Me passaram, o PACS, uma agente, que até eu tinha combinado pra virem aqui falar com vocês. Me passaram pra um problema, então eu mandei olhar.

Acho que até pela contingência, pelas exigências do PACS - dois anos no local, morar naquela região -, isso trouxe um elemento maior que é o calor humano, a compreensão humana. Isso é muito bonito. Quero que, quem ler, quem ver isso, saiba que eu estou supercontente com o PACS. É uma coisa séria, uma coisa bonita, uma coisa que nós, administradores, temos que admirar, louvar, incentivar. Procurar, cada vez mais, aumentar isso.

 

P/1 -  Tá bom. Muito obrigado, então.


 

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