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História

O olhar dos outros

História de: Bianca Cutait
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/12/2012

Sinopse

De ascendência libanesa, Bianca nasceu no bairro do Bixiga, em São Paulo, e deseja contar a sua história através do olhar do outro; acha que contar a partir do que ela mesma acha beira o prepotente. Tendo vivido intensamente os aspectos culturais de sua família na infância, valoriza os seus princípios e tenta passar para os novos membros da família. Apaixonada por fotografia, foi fotógrafa da Vai-Vai e viajou pelo Maranhão, onde lançou um livro. Colecionadora e consultora de arte, nessa entrevista Bianca nos conta pequenas situações que viveu a partir do contato com o outro, como o câncer de sua tia, o encontro com o seu marido no samba e a influência na carreira do filho da mulher que trabalhou para ela como segurança.

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História completa

P/1 – Bianca, eu gostaria de te agradecer por você ter vindo até aqui para contar a sua história. Eu queria que você falasse o seu nome completo, local e data de nascimento.
R – Eu me chamo Bianca Cutait. Eu nasci no bairro do Bixiga, em São Paulo, em 1979.
P/1 – Qual o nome dos seus pais?
R – Meu pai se chama Raul Cutait e minha mãe Márcia Andraus Cury Cutait. 
P/1 – E dos seus avós?
R – Os meus avós paternos: meu avô se chamava Daher Elias Cutait e a  minha avó se chama Ivone Cutait. Os meus avós maternos: meu avô se chamava Pedro Kalin Cury e a minha avó se chamava Odete Andraus Cury. 
P/1 – Bianca, qual é a história da sua família? Conta um pouquinho da atividade dos seus avós, dos seus pais e a origem da família. 
R – Os meus avós são libaneses. A minha avó, mãe do meu pai, é síria; mas os meus outros três avós eram libaneses. Eles vieram para o Brasil com os pais dos pais e, como muitos libaneses que vieram pro Brasil, se estabeleceram em São Paulo. Os meus dois avôs eram médicos e as minhas avós sempre apoiaram eles como boas esposas de libaneses. 
P/1 – Por que eles escolheram São Paulo? Por que eles escolheram o Brasil? Como é que foi?
R – Não sei. Muitos libaneses, quando fugiram da guerra, vieram para o Brasil. O porquê de São Paulo eu não sei. 
P/1 – Você chegou a conviver com os seus avós?
R – Sim, bastante.
P/1 – Como era a casa deles e a convivência com eles?
R – Eu tive muitos primos. Os pais da minha mãe tiveram quatro filhas mulheres e os pais do meu pai tiveram quatro filhos homens, então eu tive muitos primos dos dois lados. Eu tive muita influência dos meus dois avôs porque eram pessoas que tinham personalidades muito fortes e que regeram muito do que eu sou hoje. Eu procurei muitas coisas, muitas fotos, muitas memórias para vir aqui hoje contar um pouco da minha história; até trouxe duas caixas de fotos grandes, que eu procurei coisas que estimulassem a minha memória. No final de tanta procura, de tanta cavidade do cérebro que a gente tem, eu cheguei a uma conclusão de que eu não queria relembrar a minha memória a partir do que eu lembro. Eu acho mais legal se de repente eu contar a minha história a partir do que os outros veem em mim, porque eu só me ver é muito prepotente. Eu contar a minha história a partir do que eu acho beira o prepotente. Hoje eu gosto mais de contar a minha história baseada no que os outros já ouviram de mim, a partir do que os outros já me olharam, a partir dos olhos das outras pessoas. Como referência, eu sempre vou ter o meu pai e a minha mãe. Eu trouxe até uma foto em que a minha mãe me desenhou quando eu era pequena. Minha mãe é artista plástica, ela me desenhou em várias fases da minha vida e a forma como ela me deseja é tão real que em alguns momentos eu até olho e falo: “Ah, que foto bonita, preto e branco! Ah, não. Não é. É um desenho!” De tão real e de tanto que a minha mãe me conhece, ela consegue me desenhar e me transpor nesse nível de perfeição. Eu acho que é muito do que ela almeja também para mim. É saber o que é a perfeição, ela vê isso em mim. Por outro lado, eu vejo o meu pai, que é a pessoa mais parecida comigo... Até também eu acho que eu volto a usar a palavra prepotente. Falar que eu me pareço com ele é prepotente porque, para mim, ele é a melhor pessoa do mundo. Eu sempre brinco e falo que sou a segunda pessoa mais honesta do mundo, porque ele é a primeira e eu sou filha dele, então não tem como eu não ser. Eu sou filha da minha mãe, que é a pessoa mais generosa do mundo, então também não tenho como não ser. É muito difícil eu achar isso de mim, então eu acho isso deles e me espelho neles, espelho o que eu sou a partir dos olhos deles. Se eles enxergam isso em mim também, que bom. Eu espero que todas as pessoas que convivem comigo enxerguem isso também. Se os meus irmãos conseguem ser assim, eu acho que também posso ser. Eu espero que as pessoas me olhem com esse mesmo discernimento. 
P/1 – Você sabe como os seus pais se conheceram, a história deles?
R – Meus pais conviviam desde criança, por causa da colônia.
P/1 – Os seus avós também moravam no Bixiga?
R – Todo mundo. A vida inteira no Bixiga.
P/1 – Como era o Bixiga naquela época? Do que você gostava de brincar? Como foi a sua infância?
R – Eu fui morar muito cedo nos Estados Unidos com os meus pais, porque o meu pai foi trabalhar em Baltimore, em Nova York. Eu fui morar nos Estados Unidos com eles quando eu tinha cinco meses. Eu comecei a minha vida nos Estados Unidos, e não no Bixiga [risos]. Quando eu voltei pra São Paulo a gente voltou a morar no bairro e a gente mora até hoje perto da região, porque o meu pai trabalha no Hospital Sírio-Libanês; a gente tem essa necessidade geográfica. Nada na vida é por acaso e as coisas vão acontecendo por um motivo. Em 2007 eu estava trabalhando com fotografia e me chamaram pra fazer um trabalho para a Vai-Vai, que estava fazendo oitenta anos. A Vai-Vai é ali no Bixiga, onde a vida inteira eu convivi. Para ir pro Hospital Sírio-Libanês você passa pela Vai-Vai, na Praça 14 Bis, e me chamaram pra fazer o livro da Vai-Vai. Desde então eu comecei a frequentar, a fotografar. Hoje eu tenho um acervo muito extenso de fotos da Vai-Vai, colhi muitos depoimentos e isso vai virar um livro logo mais, se Deus quiser. Estou fazendo esse livro junto com o Nirlando Beirão, isso para mim é um super orgulho. Eu conheci o meu namorado dentro da Vai-Vai... O começo da minha vida voltou e hoje me encaixou em um círculo em que eu conheci a pessoa com quem eu estou dentro desse mesmo ambiente, dessa mesma região geográfica. O meu namorado é cineasta e fez o filme da Vai-Vai, então as coisas vão se encaixando e acontecendo.
P/1 – Já que não teve essa infância no Bixiga, como que foi essa infância americana? Qual foi a sua primeira escola? Você lembra da sua casa?
R – Eu não lembro porque eu era muito pequena e voltei para o Brasil com dois anos e meio.
P/1 – Você voltou para qual região?
R – Eu voltei para o Bixiga, mesmo. A primeira escola em que eu estudei aqui foi a Escola Morumbi, onde eu estudei quase a vida inteira, até os quinze anos de idade.
P/1 – Quais eram as suas brincadeiras preferidas? O que você gostava de fazer quando você era pequena?
R – Não sei pontuar…
P/1 – A sua família tinha festa?
R – Família árabe, né? Tem que comer! Família árabe tem que sentar pra comer, pra jantar, pra almoçar. A gente sempre – como todo bom árabe – senta pra comer, essa é a grande festa da família. Até uma das fotos que eu trouxe... Eu fui gorda durante muitos anos. Isso é uma coisa que eu conto na maior naturalidade porque eu consegui emagrecer e me manter magra e saudável. Não magra, mas saudável, que era uma coisa que eu não era e nunca tinha sido. Hoje eu afirmo: Se eu consegui emagrecer qualquer pessoa consegue! Se eu consegui parar de fumar e emagrecer, qualquer um consegue. Eu garanto!
P/1 – Tem alguma história marcante dessas festas de família? Alguma coisa que ficou com você desse tempo?
R – De quando eu era muito pequena eu não sei dizer muito, mas eu tenho memórias pontuais mais recentes. Eu acho que quando você cresce, crescem os princípios. Hoje eu sou uma pessoa que tenho princípios muito fortes e os meus valores são os mesmos que eu tinha de quando eu fui morar nos Estados Unidos. Quando eu voltei pro Brasil – quando eu tinha dez, onze anos –, são os mesmos... Foram as mesmas coisas que os meus pais me ensinaram, que os pais deles ensinaram para eles e para os meus irmãos, e que meus irmãos e eu vamos ensinar para os nossos filhos. Assim vamos. Toda a minha infância foi muito pontuada em princípios. A vida inteira escutei o meu pai falando que nós temos que ser bons com os outros, que a gente tem que ser honesto e gentil com os outros. Eu escutei a vida inteira a minha mãe dando a alma por quem precisasse, o que ela pudesse oferecer pras pessoas. De tamanha generosidade... Porque o meu avô Pedro era assim, então ela não iria ser diferente disso. Se você for me perguntar o que eu gostava de fazer quando eu era criança, eu gostava de escutar eles. Eu gostava de ouvir eles. Eu ficava muito tempo no hospital com o meu pai esperando ele passar a visita, porque eu gostava de ficar lá com ele. Eu venho de uma família de médicos. Para mim, eu queria estar ali com ele. Eu não queria ser médica, mas eu queria ouvir o que ele estava dizendo. Eu queria ouvir o que ele falava pros outros. Até hoje, quando ele fala com alguém, eu só fico escutando ele dizer, porque eu quero aprender o que ele tem a dizer mais do que eu mesma quero dizer.
P/1 – Como era essa convivência com o seu pai? Você ia com ele com ele para o trabalho, ficava com ele no Hospital?
R – A gente tentava, nos finais de semanas. Tinha um pé de amora na frente do Sírio em que a gente ficava muitas vezes com o seu Oswaldo, que era o guardinha, até hoje é o mesmo senhor que fica lá. A gente ficava comendo amora esperando ele passar a visita. Ele vinha entre uma visita e outra. Ficava lá, brincava com a gente e voltava.
P/1 – Como era o Sírio naquela época? Você deve ter acompanhado várias mudanças.
R – O meu avô foi diretor do Sírio durante muitos anos e meu pai depois ficou por alguns anos. Mudou muito. Eu acho que a tecnologia hoje ajuda muita coisa. Eu agradeço a Deus que eu tenho um médico qualificado como o meu pai na vida, porque eu acho que todo mundo tem que ter um bom médico e um bom advogado. Advogados eu tenho ótimos, e o médico, graças a Deus, eu tenho o melhor!
P/1 – Bianca, me conta da sua fase escolar. O que você gostava? Qual era a matéria que você mais gostava? Algum professor te chamou a atenção? Essa coisa da arte já apareceu no começo da história?

R – Isso é complexo. Eu sempre fui da turminha dos nerds da escola. Eu sempre era um outcast porque eu ficava junto dos nerds e eu achava aquilo um barato, eu achava o melhor. Eu olhava para o pessoal que queria ser cool, entrar na frente e eu falava: “Nossa, nada a ver comigo. Eu gosto é de ser nerd, mesmo. Eu gosto de chegar em casa e ler, estudar.” Eu era péssima aluna, mas eu era nerd. Eu gostava de fazer as minhas coisas, de ler… Eu nunca ia na dos outros, muito pelo contrário: os outros que iam na minha. Eu sou super brava, então até hoje lembro de outras pessoas, queriam: “Ah, vamos lá. Vamos fazer tal coisa!” Eu falava: “Não. Me deixa!” Eu gostava de ficar na minha, de ler e ficar fazendo as minhas coisas. Eu lembro de alguns professores. Os professores na Escola Morumbi até hoje são pessoas com quem eu convivo, os meus amigos da Escola Morumbi são pessoas com quem eu até hoje convivo. São pessoas que fizeram parte desse princípios que foram crescendo comigo ao longo dos anos. Eu escrevi um livro sobre o Maranhão, que é um outra história [risos]... Eu só conseguiria escrever um livro, escrever mesmo a punho, se eu tivesse aprendido a falar português direito. Eu só aprendi a falar português direito porque na Escola Morumbi a gente tinha que numerar as folhas do caderno de português para você não arrancar e jogar no lixo quando você errava. Eu nunca esqueci daquilo. Hoje eu escrevo e reviso o texto de outras pessoas porque eu fiquei boa naquilo. Você só fica bom em uma coisa quando você se esforça e a escola me ensinou muito isso. Quando eu resolvi efetivamente escrever um livro... É um processo psicológico escrever um livro. Antes de mais nada: você começar, sentar lá e escrever é um processo psicológico. Eu já tinha passado psicologicamente por algumas dessas fases porque eu tinha visto o meu pai escrevendo não sei quantos livros, o meu avô escrevendo não sei quantos livros… Eu já vinha dessa linhagem. Hoje, para mim, é muito mais natural o processo. Quando eu comecei a fotografar, no colegial, eu tive um professor que um dia viu as minhas fotos: “Nossa, que legal! Você deveria ser fotógrafa.” Eu olhei para ele e falei: “Nossa, o senhor é louco. Imagina eu fotógrafa, meu filho? Não!” “Vem cá. Vamos conversar.” Bom, resumo: virei fotógrafa e hoje tenho o meu escritório de arte, mas ser fotógrafa no Brasil ainda é uma coisa muito difícil e eu comecei a fazer consultoria de arte. O meu dia a dia é com consultoria de arte, só que eu só consegui chegar e aconselhar – eu faço consultoria para colecionadores – os outros porque eu tomei muita porrada lá atrás, aprendi muita coisa e formei os meus princípios cada vez mais fortes. Não adianta, hoje alguém chega pra mim e fala: “Ah, eu acho que tal coisa.” Se não faz parte dos meus princípios eu não faço, não realizo. Eu indico quem faz, mas eu não faço. Muita gente – fotógrafo –, quando eu ainda estava fotografando mais assiduamente, me perguntava: “Você faz casamento?” Eu: “Não.” “Ah, mas faz. Você vai ganhar a maior grana!” Eu: “Gente, eu não gosto. Não é minha área, não quero. Eu indico umas dez pessoas que fazem, mas eu não faço.” “Ah, tá bom.” As pessoas não entendem. Tudo bem, porque os meus princípios continuam sendo só única e exclusivamente meus. Eu não estou falando nada do que eu imaginava que iria falar [risos].
P/1 – Essa é a proposta. Depois eu vou querer saber mais dos seus livros e dessa trajetória mais profissional. Você tinha uma mãe artista plástica e um pai médico, como foi essa questão de escolher o que você ia fazer? Você chegou a pensar em fazer medicina?
R – Nunca. Eu, desde sempre, quis ir por um caminho mais artístico. Eu queria ou escrever – gostaria de viver de escrever livro, mas como isso não é real... A gente adapta as vontades com as necessidades. Hoje, no Brasil, é muito difícil viver de livro; eu acho que só o Paulo Coelho e o Chalita conseguem, o resto... Eu não consegui ainda descobrir quem. Estou com o pessoal já concordando aqui comigo [risos], porque é muito difícil. Eu escolhi esse caminho das artes porque eu acho que foi um processo muito mais natural, e hoje eu consigo colecionar arte porque eu venho de uma família de colecionadores. Tudo volta para aqueles princípios, sabe? Aqueles mesmos [risos]. É a mesma coisa.
P/1 – Você tinha acesso aos trabalhos da sua mãe? Você ficava com ela? Como era essa convivência?
R – Tenho. Minha mãe trabalha comigo, ela é a minha diretora de arte. A gente conseguiu fazer a necessidade e a vontade virar uma coisa real e virar uma empresa, efetivamente.
P/1 – Bianca, como foi a sua adolescência?
R – ‘Putz’!
P/1 – Como que era o seu dia a dia? O que você fazia na época? Como foi essa fase de juventude?
R – Bom, eu acho que assim... O mais forte que eu posso dizer... Eu sempre fui uma adolescente careta, então eu não usava drogas, eu não saia beijando meio mundo. Eu era uma pessoa careta. Eu gostava de ficar na minha como eu sempre fiquei, desde criança. Eu me introverti. Eu sou super extrovertida, mas me introverti na época da adolescência para eu mesma entender e procurar saber para que lado eu ia, para que caminho eu ia. Hoje eu aconselho todo mundo a fazer isso [risos]. Eu tenho oito afilhados e toda vez que eu converso com eles eu falo a mesma coisa. Eu tenho um afilhado que é pré-adolescente e quer ser chefe de cozinha. Ele quer ser chefe de cozinha, show! Eu levo ele para almoçar em restaurante, eu levo ele pra comer em restaurantes exóticos, eu levo ele a comer coisas... Eu levo ele na minha casa, experimenta tal coisa e: “Ah, não gosto! Eu comi e não gostei.” ‘Eu não gosto’ é só depois que comeu. Isso são as coisas que fizeram parte da minha adolescência, minha adolescência inteira foi assim. Eu cresci ouvindo o meu avô, pai da minha mãe, falando: “Não gosto da comida. Eu provei e eu não gostei.” Hoje eu ensino isso para esse meu afilhado, é a mesma coisa.
P/1 – Você falou que gosta muito de ler. Nesse período teve algum livro que te marcou?
R – Há vários [risos]. Não dá para falar um.
P/1 – Os que ficaram mais?
R – Não dá para falar um porque eu li muitos livros. Um que me marcou muito foi o livro que a minha tia, irmã da minha mãe, escreveu. Umas das irmãs da minha mãe faleceu tem alguns anos e antes dela ficar muito doente – ela teve um câncer – começou a escrever um livro. Esse livro nunca foi publicado, mas essa história dela me marcou muito. Eu li o livro inteiro, revisei o livro dela e até escrevi o prefácio, só que os meus primos nunca publicaram; não quiseram publicar ainda. Esse livro marcou muito a minha vida.
P/1 – Você pode contar um pouquinho da história?
R – Ela teve um câncer com quarenta anos e ficou doente durante muitos anos. As coisas que eu me lembro mais é do médico falando pra ela: “Olha, a senhora tem dois anos de vida.” Ela respondia para o médico: “Essa é a sua opinião, a minha não é a mesma que a sua. O senhor me desculpa, eu não acho. É o que o senhor acha? Que bom! Puxa, eu não acho.” Ela viveu quinze anos. O médico falou para ela: “Agora a senhora só vai viver seis meses.” Ela ficou mais três anos. Eu acho que na vida tudo é uma questão de escolhas. Você escolhe as coisas que quer. Claro que você não escolhe nascer, morrer etc., mas você escolhe como você quer viver. Sabe os princípios, aqueles [risos]?
P/1 – Bianca, como era a estrutura da Escola Morumbi em termos de comemoração? Tinha festa junina? Tinha alguma que você gostava mais ou que você não gostava?
R – Não me lembro.
P/1 – Como você escolheu o curso que você iria fazer na faculdade? Como foi essa fase de entrar na faculdade e de prestar vestibular?
R – Isso foi uma coisa mais tranquila. Eu prestei, entrei em Administração de Empresas e parei no meio. Comecei Relações Públicas e me formei, aí me pós-graduei em Fotografia e Cinema. Eu fiz faculdade aqui em São Paulo e me pós-graduei em Nova Iorque.
P/1 – Como foi a entrada na faculdade, o primeiro ano?
R – Qual dos dois? Do primeiro ou do segundo?
P/1 – Primeiro da Administração. Por que você escolheu fazer Administração, você lembra?
R – Não lembro. Nossa, faz muitos anos... Faz apenas quinze anos. Eu lembro até que eu vi ontem...
P/1 – Por que você desistiu?
R – Porque eu achei que, na época, não tinha muito a ver comigo. Hoje eu me arrependo, eu queria e deveria ter ido até o fim. Eu não desisti. Na verdade, eu não acompanhei uma série de matérias e acabei me desestimulando. Desestimular e desistir são duas coisas diferentes.
P/1 – Essa passagem de Administração para Relações Públicas... Por que você escolheu Relações Públicas? O que você projetava?
R – Ah, porque é totalmente a ver comigo. Eu acho que é mais a minha cara. A gente – não só no Brasil, mas acho que em todo o mundo – tem que escolher a nossa faculdade muito novo, aí um monte de gente desiste e muda de ideia no meio do caminho. Você não é obrigado a ser ortodontista se você quer ser joalheiro, então é complicado. Você não pode ser designer gráfico se você quer ser manicure, só que com dezessete, dezoito anos é muito cedo para a gente escolher o que tem que fazer para o resto da vida. É muito despreparo e eu acho que eu estava despreparada, aí me desestimulou.
P/1 – Nesses anos de Relações Públicas, qual foi o seu primeiro estágio? Como que foi a faculdade?
R – Eu estagiei na UOL, foi o meu primeiro estágio. Da UOL eu saí e fui trabalhar com marketing político, aí trabalhei com o Nizan Guanaes. ‘Top’ [risos]. Depois eu fui trabalhar – uma mudança radical – na Duda Mendonça, com marketing político também. Eu fiquei seis anos trabalhando com marketing político. Foi uma época da minha vida que eu absolutamente adorava. Sinto muita saudade e me aperta o coração lembrar que não dá mais, era uma fase que eu gostava muito.
P/1 – Em termos de desafio pessoal, o que você acha levou com você desse pedaço, dessa fase, e que talvez fique com você até hoje?
R – Ah, muita determinação. Muitas horas de trabalho e muita determinação  para alcançar um objetivo. É muito legal.
P/1 – Depois, quais foram os passos? Nisso você ainda estava na faculdade?
R – Estava na faculdade. Quando eu me formei… Como é que foi? Espera aí, deixa eu recapitular um pouco. Nossa, faz tanto tempo! Quando foi final de 2004… Isso mesmo, quando eu tinha me formado já estava trabalhando na Duda. Eu saí da Duda, na época, e não conseguia ficar sem trabalhar por muito tempo porque já me dava um siricutico. Eu falei para o meu pai: “Eu preciso fazer alguma coisa.” Ele falou: “Por que você não vai escrever e fotografar, que são as duas coisas que você gosta e sabe fazer?” Eu falei: “Está aí. Boa! Agora vamos fazer virar real. O tópico está lindo, agora vamos ver real. Vou fazer um livro.” “Legal, mas sobre o quê? Qual tema? Qual é o lugar que você mais gosta no mundo?” “O Maranhão. Pronto!” Mudei de mala e cuia para São Luís e fui escrever um livro, que hoje é o meu livro [risos].
P/1 – Isso foi antes de você fazer a sua pós?
R – Foi antes. Isso foi em 2005, eu fiz a pós em 2006.
P/1 – Como que foi mudar de mala e cuia para lá?
R – Um show, foi a melhor coisa da minha vida. Eu fui a primeira vez em 1999 pro Maranhão, com o meu pai. A gente ia ficar dois dias e no dia de ir embora eu falei para ele: “Tchau, vou ficar aqui.” Fiquei uma semana. Na outra vez era para eu ficar duas semanas, fiquei um mês e meio. Na terceira vez eu já fui com mala e quase levei o cachorro junto [risos], levei tudo e fiquei por lá mesmo. Fiz uma viagem grande de carro, eu guiando; tanto que o meu livro se chama 9.357 Km, que é o tanto que eu guiei. Eu fiz essa viagem pelo Maranhão inteiro sozinha, em alguns momentos acompanhada com um pedaço de equipe. Foi uma viagem mais interna do que pelo Maranhão e hoje eu tenho esse livro publicado, que é a história da minha viagem.
P/1 – Por que você escolheu o Maranhão?
R – Todo mundo me pergunta isso. O Maranhão me chamou mais a atenção do que qualquer outro lugar – espiritualmente falando – e a família com quem eu morei lá me chamou muito a atenção desde que eu conheci eles.
P/1 – Com que família você morou? Conta um pouquinho deles.
R – Eles são uma família muito parecida com a minha, um pai e uma mãe libaneses com três filhos. A filha é mais velha – que nem eu –, dois filhos e nós temos as mesmas idades. É uma família muito parecida com a minha. Como eles são libaneses, têm costumes e hábitos muito parecidos com os meus. Até na porta do quarto do casal lá tem um quadro religioso igualzinho ao que tem na porta do quarto dos meus pais. Isso é uma coisa em que as coincidências foram... Um dia, dois, três, duzentas, cinco milhões de coincidências e eu acabei um dia indo parar lá e morei com eles. Morei lá um ano e hoje eu tenho o maior carinho – de família, mesmo – por eles. Eles me deram todo o apoio na época em que eu morei lá. Eu morava com eles dentro da casa deles e eu só consegui escrever esse livro e publicar graças a isso. Até teve uma história muito legal, uma das pessoas que viajou comigo... Eu tive uma segurança que ia comigo, uma policial que muitas vezes viajava comigo. Na época o filho dela era pequeno – ela tem dois filhos, o mais novo era pequeninho. Eu não sei se foi inspirado nas fotos, no livro... Ele diz que sim, mas eu prefiro deixar para ele, um dia, quando ele ficar famoso, contar essa história; ele resolveu ser fotógrafo. Ele hoje tem dezesseis anos e resolveu que ele quer ser fotógrafo. Um dia eu sentei com ele e falei: “Vem cá, você quer ser fotógrafo para valer? Vamos conversar.” Conversei um monte de coisas com ele, dei um monte de dicas, aí eu fui para os Estados Unidos e comprei uma câmera profissional para ele. Hoje esse menino fotografa, uma das fotos que eu trouxe foi ele que tirou. No dia em que eu fiz o lançamento do meu livro, em São Luís, ele fotografou o meu evento. Ele era o meu convidado, mas quis fotografar o meu evento e as fotos de divulgação que eu uso hoje são as dele. Eu tenho certeza que esse menino vai ser um sucesso no mercado de fotografia, eu boto a minha mão no fogo. É uma coisa que me deu um orgulho muito grande, porque ele era criança e via a mãe me acompanhando com as histórias, com as fotografias; hoje ele que seguiu esse caminho. Eu fiquei tão orgulhosa que dei uma câmera para ele [risos].
P/1 – Ele chegou a conviver com vocês na viagem?
R – Não, ele era muito pequeno na época.
P/1 – Como foi essa viagem às vezes acompanhada, às vezes não? Quais foram os primeiros desafios?
R – 287 páginas [risos].
P/1 – Os primeiros desafios, conta um pouquinho para a gente.
R – Ah, muita coisa aconteceu. Nessa época em que eu morava no Maranhão muita coisa aconteceu comigo. Eu parei de fumar, emagreci, comecei a fazer exercício e uma série de coisas, mas acho que as coisas mais importantes que aconteceram foram os eventos que me fizeram olhar para mim mesma e voltar para os meus princípios, porque eles não mudavam. Conforme eu ia aprendendo mais coisas eu ia agregando a eles, mas eles permaneciam ali cimentados no meu pé. Eu nunca deixei de ser aquilo, nunca deixei de querer viver aquilo. Eu só queria viver aquela mesma estrutura em paz. Isso foi um grande adicional que eu tive: eu aprendi a ficar em paz comigo mesmo ou com outras pessoas, mas sozinha. Eu aprendi sozinha a ficar em paz. Aquilo agregou dentro dos meus princípios. Eu continuava dentro daquela redoma de aço dos meus princípios, só que ela foi aumentando.
P/1 – Teve alguma família, algum encontro que te marcou e que foi muito especial?
R – Ah, vários! O encontro com essa família da Vanderléa, que era a minha segurança, foi muito especial. Ela foi uma pessoa que mudou muito a minha vida. Eu devo a minha vida a ela literalmente [risos], porque ela me salvou em vários momentos ali. Mais do que ela ter me salvado, ela me ensinou muita coisa. Ela foi uma das pessoas que me ensinou muitas coisas e hoje eu vejo os filhos dela me ensinando coisas... A família com quem eu morava... A Jane e o Jorge, que são os pais... Nossa! Eu não sei o que falar, porque é além do que eu entendo como estar aqui na Terra e ter viajado até o Maranhão. É muito além disso.
P/1 – Você falou que a Vanderléa te salvou duas vezes. Você teve alguma situação muito difícil na viagem?
R – Tive, mas… à parte [risos].
P/1 – Como foi finalizar a viagem e ter que decidir voltar pra casa? 
R – Foi difícil!
P/1 –Você não quis ficar lá?
R – Quis, foi muito difícil voltar. Eu lembro que no aeroporto, eu me despedindo do Jorge... Eu acho que eu emagreci uns dois quilos na viagem de volta de tanto que eu chorei [risos]. Eu voltei porque a minha vida é estruturada aqui em São Paulo e eu tive que voltar. O ciclo se fechou. Naquele dia no aeroporto eu sabia que o ciclo tinha se fechado, a gente não pode forçar as coisas. Eu tenho muita fé, eu acredito muito que as pessoas podem se permitir fazer o que já está predestinado pra você. Eu me permiti voltar pra São Paulo naquele momento, assim como eu me permiti ir para o Maranhão naquele outro momento. Como eu me permito as coisas acontecerem, porque eu batalho muito pras elas acontecerem [risos]... Na hora em que elas acontecem eu me permito viver a situação. 
P/1 – Como que foi essa volta para São Paulo? Quais foram os próximos passos na tua carreira?
R – Eu voltei e na sequência eu fui fazer pós-graduação. Me inscrevi neste curso de pós que eu queria fazer e já foi tudo meio corrido. Nessa época eu estava trabalhando com o João Carlos Martins, o maestro, e fiz uma coleção de CDs para ele. Foi muito legal porque o designer que fazia a capa dos CDs dele se chama Milton Glazer e é o cara que inventou o símbolo ‘I love NY’ nos anos 1960, então era um ícone acontecendo na minha vida. Quando eu tive essa oportunidade não pensei duas vezes: eu fiz a minha mala e fui para Nova Iorque. Lá eu consegui realizar esse trabalho e foi muito legal.
P/1 – E a experiência do Maranhão para Nova Iorque?
R – Ah, é fácil! Líbano, Maranhão, Nova York, Suíça... São lugares fáceis de comparar [risos]. É o que eu falei: eu me permiti muito essas mudanças. Eu gosto das mudanças.
P/1 – Como foi o curso? Teve alguma coisa que te chamou mais atenção, que você se apaixonou?
R – ‘Putz’, foi muito difícil. Eu estudei uma fase em colégio americano... Uma coisa é você estudar História, Matemática, Ciências, Inglês. Outra coisa é você estudar Física Ótica, que é Fotografia e Cinema. Eu quase enlouqueci. Primeiro dia de aula, eu voltei para o apartamento em que eu estava, liguei para minha mãe e falei: “Putz, eu desaprendi mesmo! E agora?” Minha mãe falava: “Ah, conversa com o seu professor.” Eu: “Aham… Eu vou falar o que para ele? Ó meu senhor, eu entendo que o senhor fala até good morning, dali em diante eu só vou entender de novo see you tomorrow.” Porque eu não entendo o que o cara fala, é difícil entender. Eu comecei a anotar todas as coisas e o meu pai tinha sido professor de física, então eu ficava mandando e-mail pra ele: “Hoje ele falou isso, isso e isso.” O meu pai: “Meu, eu não entendo de Física Ótica!” É complicado porque não é uma matéria muito simples, não. Admiro os fotógrafos do cinema. 
P/1 – Você teve um tempinho pra aproveitar Nova York e descobrir a cidade?
R – Nada. Eu estudava das nove às cinco. Chegava às cinco e eu tinha que ouvir a aula que gravava para conseguir acompanhar no dia seguinte .
P/1 – Você teve que fazer algum trabalho?
R – Fiz um filme.
P/1 – Era sobre o quê?
R – Não lembro… Era como eu chegava da minha casa à faculdade. O que eu olhava vindo da minha casa até a faculdade. Eu tirei A+. Eu já era fotógrafa, então filmar é um pouquinho mais fácil nessa hora. Quando eu cheguei na aula o professor falou: “Você já é fotógrafa? Então o que você estava fazendo aqui, minha filha?” Eu falei: “Ah, eu estou fazendo tudo. Fotografia é fotografia e cinema é cinema. Duas coisas diferentes, não é?” “Ah, não é tão diferente assim.” No fim não era, mas era muito mais complexo.
P/1 – Bianca, você tinha planos de mexer com cinema na volta para o Brasil?
R – Tinha. Ainda tenho um sonho, que é filmar um videoclipe, um clipe de música. De vez em quando xaveco o meu namorado para ver se ele, um dia, tiver oportunidade de me liberar, eu fotografar no clipe. Eu tenho um problema: eu decoro todas as músicas que passam pelo meu ouvido. Acho que é a memória mais inútil que existe, porque eu não sei nem cantar. Se eu soubesse seria cantora, seria ótimo. Eu iria decorar as letras... Mas eu decoro tudo, em qualquer língua. É engraçado. Mesmo que eu não saiba falar a língua, eu decoro as palavras. Em árabe, por exemplo – eu não falo nenhuma palavra em árabe –, eu escuto música árabe e decoro a música inteira. É ridículo [risos].
P/1 – Quando você voltou para o Brasil, quais eram os seus planos? O que você queria ir atrás?
R – Quando eu voltei para o Brasil eu queria publicar o meu livro, essa era a minha grande vontade [risos]. Hoje, publicar livro no Brasil é muito difícil. Só escrever o livro já é um perrengue, publicar são dezoito perrengues. Lei Rouanet, Ministério da Cultura, proponente, editora... Olha, é tão difícil que é na beiradinha do: “Hum, não quero mais.” Eu só não desisti porque eu tinha o material todo pronto e no dia em que eu peguei o meu livro na minha mão, eu falei: “Nossa, é meu! Sou eu, olha! Bianca Cutait.” Aí eu mudei de ideia [risos]. Eu falei: “Ah, não vale a pena. Vale o perrengue inteiro!” Eu não imaginava que fosse tão difícil, não deveria ser assim; mas infelizmente é. Eu sou contra essa dificuldade toda. 
P/1 – Como foi a festa de lançamento?
R – Foi o máximo [risos]. Tive duas: uma aqui em São Paulo e outra em São Luís. Em São Paulo foi o máximo, eu fiz na FIESP. Eu sou diretora do Comitê de Jovens na FIESP tem seis anos e foi muito legal. Eu não me intimido com quase ninguém, algumas poucas pessoas na vida me intimidaram quando eu conheci. Uma pessoa que foi no meu lançamento – que eu já conhecia, mas me intimidou na hora que chegou perto de mim – foi o Chalita, porque o cara tem quarenta e poucos anos, escreveu sessenta livros e conseguiu vencer isso. Me intimidou um pouquinho na hora: “Querido Gabriel...” Eu falei: “Eu não sei o que eu escrevo para você.” Ele começou a rir: “Ah, pelo amor de Deus.” Foi muito legal, o meu lançamento foi ‘top’. A FIESP meu deu o maior apoio e foi muito bacana. Em São Luís eu fiz o lançamento em um lugar chamado Palácio Cristo Rei, que é um dos lugares mais lindos que eu já vi para qualquer tipo de evento. Também foi ‘top de linha’, muito bacana. Foi muita gente em São Luís, no lançamento. Estava bem concorrido. 
P/1 – Bianca, quando que começou o projeto da Vai-Vai? Como que foi?
R – Em 2007, o João Carlos Martins fez um primeiro teste para tocar a Orquestra Bachiana com a Bateria da Vai-Vai. Na época eu estava trabalhando com o João Carlos: “Ah, vem. Vamos juntos!” Eu falei: “Está bom.” Eu peguei e fui. “Você faz as fotos para o João Carlos, você faz CD para o João Carlos, você faz tal coisa para o João Carlos? Você poderia vir fazer o livro da Vai-Vai.” Eu falei: “Podemos estudar o assunto, né?” Aí gostei, topei. Chegou o Nirlando para entrar comigo e ele também gostou, adorou. Topou. Fomos parar com a Rosana na história e estamos agora na fase de finalizar para publicar. Foi muito legal, foi um aprendizado. Na Vai-Vai eles são super profissionais. Eu aprendi com eles um nível de profissionalismo que eu não imaginava e que eu simplesmente não sabia... Eu não imaginava que eles eram tão profissionais – como eu acho que quase todas as escolas de samba são –, mas eles são de um profissionalismo ímpar. Isso é muito legal. Eu aprendi muita coisa e conheci o meu chuchu [risos]. Conheci o Fernando.
P/1 – Qual é a história de vocês?
R – Ele nega, mas a história é a seguinte: a gente tinha duas equipes que começaram a competir, porque a minha equipe atrapalhava a dele e a dele me atrapalhava; a gente ficava medindo forças ali. Um dia a gente estava se desentendendo e ele ficava assim para mim: “Sai comigo!” E eu: “Que sai comigo...” A assistente dele, que é minha amiga de anos, ficava: “O Fernando está a fim de você.” E eu: “Está nada, se estivesse a fim de mim já teria me convidado pra sair.” “Ele não está te convidando pra sair?” “Está nada. Ele está convidando para me encher o saco, ele não quer sair.” Nisso tinha um motorista de táxi da Vai-Vai, que é um dos diretores da Velha Guarda, ficava assim para mim: “Bianca, para de ser fresca e sai com o Alemão! O Alemão é gente boa, o Alemão gosta de você.” “Gosta nada, seu Roberto!” “Gosta sim, sai com o Alemão que ele é gente boa.” “Ai, meu Deus. Está bom!” E aí eu: “Bom, e aí? O que você quer fazer?” Ele vinha ficar brincando com o meu cabelo: “Ah, então você quer sair? Então tá.” Está aí, nunca mais parou e nunca mais nos soltamos [risos]. Olha como as coisas são na vida: a gente foi se conhecer dentro da Vai-Vai com trinta anos de idade e a gente mora na mesma quadra há trinta anos. Desde que eu voltei para o Brasil eu moro no mesmo prédio, ele mora no mesmo quarteirão que eu há 28 anos e a gente foi se conhecer na Vai-Vai com trinta anos de idade. Engraçado.
P/1 – Você já gostava de samba, Bianca?
R – Não conhecia o suficiente para gostar nem para desgostar. 
P/1 – Como foi o contato com o mundo samba, com a Velha Guarda?
R – Ah, viciante. É emocionante! O filme do meu namorado é exatamente o retrato do que hoje eu sei que é. O filme dele é a coisa mais linda, é uma obra de arte, tanto que ganhou a Mostra de Cinema [de São Paulo] e agora vai concorrer em vários festivais. É o máximo o documentário dele. O meu livro que também mostra essa mesma beleza em fotos – obviamente sem o som que uma escola de samba produz, então a gente tem que procurar em palavras narrar aquela beleza, aquela magnitude toda... Em palavras e com imagens, o que é toda a delicadeza de uma escola de samba e a imponência ao mesmo tempo. Samba, quando você começa a entender – eu estou falando de samba, não de pagode –, começa a gostar. Não tem como, é viciante. É muito engraçado porque o pessoal da Vai-Vai... Hoje eles olham a gente e falam assim: “E aí, vocês não vão casar?” A gente: “Vamos, gente. Parem de perguntar.” [risos] Todo mundo fica lá: “O Fernando sabe que você está aqui sozinha? Ó lá, hein?” Uma vez eu estava lá e fui buscar algum depoimento, alguma coisa, e na hora o cara: “Alemão, você sabe que a sua ‘mina’ está aqui, né?” Eu: “Vocês são muito folgados, gente. É óbvio que ele sabe que eu estou aqui. Como assim?” Eles defendem o nosso relacionamento. Eu acho engraçado porque a gente se conheceu lá.
P/1 – Você desfilou na Vai-Vai?
R – Os primeiros três anos eu saí como fotógrafa e esse ano agora a gente saiu como apoio técnico.
P/1 – Como que foi?
R – Eu achei uma das melhores experiências da minha vida, foi muito bom. Eles são muito profissionais. A gente tem uma relação com eles muito profissional, é muito bom. É bom você ter uma relação profissional com quem você trabalha efetivamente. Você pode manter uma amizade, mas sempre baseada no respeito profissional. Cada macaco no seu galho. 
P/1 – Bianca, você sentiu alguma diferença no sentimento, na emoção, na hora em que vocês estava na avenida como fotógrafa de como quando você estava de apoio técnico?
R – Não, a emoção é a mesma. É muito emocionante. A Vai-Vai, especificamente, é muito emocionante. Tem muita gente, você está ali e vê a arquibancada, todo mundo com a bandeirinha: “Tchá, tchá.” Aquilo, na primeira vez que eu vi, eu tive um ataque de choro. É lindo! É muito legal. As raízes africanas no Brasil, todas... São coisas que eu admiro demais. 
P/1 – Por trabalhar com samba você chegou a ter contato com as religiões afro?
R – Não por causa da Vai-Vai, mas eu tive. O contato com as religiões veio bem antes. Isso é um assunto muito pessoal, muito delicado; mas sim, eu tenho uma grande afinidade, enorme, gigante, quase maior do que eu pelo tema. Quando eu estava no Maranhão eu conheci muita gente de Umbanda e comecei a conhecer um pouco melhor porque muita gente frequentando lá. Tem no meu livro muitas fotos que falam disso e há alguns anos atrás eu acabei conhecendo. Isso é uma coisa que poucas pessoas sabem [risos], mas eu acabei conhecendo o Candomblé e foi amor à primeira vista. É um tema muito pessoal, delicado. 
P/1 – Conta um pouquinho do seu dia a dia. Quais os seus planos, seus projetos?
R – Bom, eu acordo super cedo [risos] e trabalho que nem um camelo. Como nas horas vagas – hoje eu almocei dentro do – e aí eu chego em casa e capoto para, no dia seguinte, eu conseguir acordar cedo e continuar essa loucura. Eu só consigo fazer isso porque eu realmente gosto do que eu faço. O meu pai, a vida inteira, ensinou eu e os meus irmãos que a gente pode ser qualquer coisa. “Quer ser qualquer coisa? Ótimo! Vai ser o melhor qualquer coisa da sua área. Você vai estudar para ser qualquer coisa, vai se qualificar para ser qualquer coisa e vai fazer o que precisa.” Eu sou a melhor qualquer coisa na minha área e hoje eu garanto que sou excelente no que eu faço, mas eu estou há anos me qualificando, batalhando, todo dia acordando cedo, indo trabalhar, indo estudar, me esforçar e me aliar a pessoas qualificadas. Eu via as pessoas mais do que qualquer coisa. É o que eu falei no começo: eu prefiro muito mais olhar as pessoas. Hoje é engraçado, porque eu entendo muito dessa área e manjo muito do que eu faço, mas eu acho que não manjo nem um vigésimo do que eu gostaria. 
P/1 – Vou fazer uma pergunta que você já deve ter respondido várias vezes: quais os fotógrafos que mais te inspiraram na sua trajetória? 
R – Não tem a trajetória, tem quem hoje eu uso como referência. Eu acho que a referência é a melhor forma de você falar quem você admira. De fotógrafo brasileiro eu gosto muito do Claudio Edinger, ele até me fotografou. Uma das fotos que eu trouxe aqui é uma das que ele me fotografou. É a foto que eu uso hoje para quase tudo, para divulgação de tudo, porque a foto mais linda minha é a que ele tirou. Eu tenho uma obra dele, nossa... Acho que da minha coleção é uma das coisas que eu mais gosto. O Claudio é um cara que eu gosto… Eu gosto muito do Peter Lik, que é um americano e o meu sonho é ter uma obra desse cara, uma específica, que é a foto de um elefante com a cabeça encostada em uma árvore [risos]. Não sei se vocês conhecem essa foto?
P/1 – Conheço [risos].
R – Chama Ele Dreaming. O dia que eu vi comecei a chorar. Um dia eu descobri que existe um negócio que chama Síndrome de Stendhal, que quando você olha uma obra de arte que é muita bonita e se emociona, você tem uma crise. Quando eu vi essa foto do Peter Lik pela primeira vez eu literalmente comecei a chorar. Estava com a minha tia, ela virou para mim e falou: “Você está boba?” Eu falei: “Nossa, eu fiquei emocionada. Olha isso!” Stendhal, olha aí. Pronto! Tem muita gente que eu gosto muito. Eu coleciono artistas japoneses que gosto muito; aliás, o Japão é a grande paixão da minha vida. Eu acho que fui japonesa em outra encarnação [risos], eu realmente vou para o Japão sempre que posso. Hoje, se fosse falar: “Vamos chutar o pau da barraca e largar tudo. Você vai para onde?” Para o Japão, com certeza. Nem pisco, porque é o lugar mais legal do mundo. 
P/1 – Que lugar do Japão você iria?
R – Putz, todos. Eu conheço tudo, de Hokkaido a Okinawa... Eu acho o máximo, sou suspeitíssima pra falar. Meus pais, quando se casaram, foram passar a lua de mel no Japão [risos]. A minha mãe engravidou de mim nesse percurso, então eu sou made in Japan. Começou daí a minha paixão. O meu cachorro chama Saquê [risos]. Eu adoro, sou suspeita para falar do Japão; para mim, é a minha grande paixão. Eu comecei a colecionar artistas japoneses. Já que eu não posso morar no Japão, pelo menos colecionar a arte japonesa. É uma coisa que eu gosto muito. Acho que metade da minha coleção é arte japonesa. Eu sou consultora de arte hoje, então a gente faz da necessidade... Aquilo que eu já falei: a gente faz da vontade a necessidade. Junta tudo e faz um milk-shake. Eu comecei a ser consultora de arte. Por isso que falo: “Hoje eu realmente manjo do que eu falo.” Eu já sofri como fotógrafa, já ralei para lançar um livro, já quase morri para lidar com editora, lei Rouanet e o escambau. Hoje eu não quero mais nada disso para mim, quero fazer para os outros. Depois da décima oitava porrada é impressionante como você fica esperto, então comecei a ver para os outros e hoje eu tenho uma sócia, anjo da guarda, que a gente conseguiu fazer da paixão... Ela é colecionadora também. A gente conseguiu montar isso como uma empresa e prestar serviço com essa natureza, que é muito legal.
P/1 – Você pode contar alguns dos trabalhos que você fez que foram muito prazerosos de fazer?
R – Com consultoria?
P/1 – É.
R – A gente está começando isso agora, mas uma coisa que eu tive e estou tendo muito prazer é quando vem um fotógrafo, me liga e fala: “Ah, eu não sei para que mercado eu vou. Estou em transição!” Isso eu acho um máximo, eu entrar nessa hora, porque hoje tem tantas possibilidades... Semana passada eu dei consultoria para um menino que estava me falando: “Ah, eu estou entre job tal e não sei o quê. Eu não sei se quero continuar fotografando tal coisa, acho que quero mudar para tal coisa.” “Vamos por etapas, vamos fazer uma coisa direita.” Eu gosto disso. Quando eu cheguei aqui, eu queria ver as fotos. Eu tenho as etapas, sou muito programada e se não me programo, não consigo raciocinar. Eu estou aflita que estou desprogramada aqui falando com vocês, porque eu sou muito programadinha. Para poder prestar consultoria para alguém... Você só consegue dar consultoria ou você só consegue dar conselhos; consultoria nada mais é do que um conselho pago. Eu só consigo dar conselho para alguém se eu programar na minha cabeça o que vou falar. Do além acho que só bíblia. No resto você não consegue dar conselho pro outro do nada, eu acho. 
P/1 – Bianca, conta um pouquinho dos seus afilhados. Você leva eles pra passear?
R – Uhul! Eu tenho um afilhado que é o meu primo sobrinho, ele é filho da minha única prima mulher e tem onze anos. Ele chama Stefano e é um barato! Ele quer ser chefe de cozinha, eu dou o maior apoio para ele. Se é isso que ele gosta, eu acho que ele tem que ser mesmo. Adoro levar ele para almoçar, adoro levar ele em restaurante japonês! A grande sacada é o dia da madrinha, então a gente vai, brinca e tal. Os meus outros afilhados... Eu tenho uma afilhada que se chama Daniela e que é exatamente um ano mais nova que o Stefano, porque eles nasceram no mesmo dia com um ano de diferença. Os pais são do Maranhão, mas eles moram em São Paulo. Eu tenho essa menina, que é uma princesa na minha vida. Eu tenho um afilhado na Turquia, que é filho da minha amiga, e tenho esses outros afilhados que a gente chama de afilhado de coração, mas que chama de madrinha: “Oi, madrinha!” Chama afilhado e tudo, porque nunca batizou como cristão. Nós, cristãos, achamos que é o batizado, mas eu amo os meus afilhados. Eu quero agora é ter sobrinho de verdade. Isso é um recado para o meu irmão, que é casado [risos].  
P/1 – Conta um pouquinho do seu irmão. O que ele faz?
R – Eu tenho dois irmãos. Eu tenho um irmão que se chama Raul, que é três anos mais novo que eu e é o oposto de mim em personalidade; só que é a pessoa com quem eu mais me dou bem. Todos os dias a gente se fala, nem que for para mandar uma mensagem de texto: “E aí, tudo bem?” Pronto, acabou, é a conversa; mas a gente se fala todos os dias, em qualquer país que a gente esteja. Eu me sinto tão à vontade de conversar com ele que às vezes eu nem tomo uma decisão. Eu preciso tomar uma decisão e nem penso, pergunto para ele a opinião dele e vou na dele, porque eu sei que ele vai responder o mais próximo do que eu gostaria se fosse eu mesma resolver e vice e versa. Se ele precisa tomar uma decisão e me pergunta, eu vou responder pra ele o mais próximo do que eu acho que ele gostaria, o que eu acho que seria melhor pra ele. Não o que que seria melhor porque eu acho que seria, mas o que ele acha que seria melhor. É engraçado porque nós somos muito diferentes de personalidade. Eu tenho outro irmão mais novo que se chama Fernando, ele é engenheiro musical. Muito legal! O meu irmão Fernando é um gênio da lâmpada. Ele é cabeça dura, mas é um gênio. Ele mora em Los Angeles e é o menino mais lindo do mundo, por dentro e por fora. Por fora ele é muito bonito [risos], por dentro é impressionante. Ele é muito parecido com a minha mãe de personalidade, então ele se dá muito bem com a minha mãe. É muito legal, a relação na nossa casa é muito light. 
P/1 – Bianca, quais são os seus sonhos para o futuro?
R – Eu acho que posso sonhar em vários aspectos. Profissionalmente eu sonho em prosperar no que eu estou fazendo, que os meus árduos esforços tenham o resultado que eu espero. Eu tenho certeza de que o que estou fazendo vai dar certo. Tenho muita confiança na Cidinha, que é a minha sócia, e acho que ela também tem bastante confiança em mim, então a gente vai dar muito certo juntas. No âmbito pessoal eu espero que os meus princípios cada vez fiquem mais fortes, mais determinados e me impulsionem mais ainda para a frente. Eu acho que no âmbito espiritual eu não espero nada, eu só agradeço tudo o que tenho e ofereço.
P/1 – Bianca, tem mais alguma coisa que você queira contar?
R – Acho que está bom, né? Uhul! 
P/1 – Nada a acrescentar?
R – Nossa, eu contei tanta coisa que eu nem lembrava mais. 
P/1 – Como foi para você contar a sua história e construir uma história agora?
R – Exótico. Eu vim toda programada para contar uma história pessoal que eu achava, no final você me desconstruiu e contei uma história do nada. É como se eu tivesse montado um quebra-cabeça e trazido ele dentro de um negócio e você pegou todas as peças. Eu contei a mesma história, só que com as peças todas separadas. É mais isso que eu sinto. Eu acho que você contar... Vou repetir o que eu falei no comecinho. É muito prepotente você contar a sua própria história. Não é uma prepotência ruim, mas continua sendo uma prepotência. Eu acho que a melhor pessoa pra contar a sua história são os outros. Eu acho que ninguém melhor do que o meu pai, minha mãe e os meus irmãos para contar a minha história. Eu tentei repetir agora tudo o que eu ouvi eles falando nos últimos anos. Se eles acham isso tudo de mim e eu estou ouvindo através da minha boca o que eles falaram, se estou só repetindo o que eles falaram, eu sou uma pessoa realizada.
P/1 – Bianca, obrigada. Parabéns pela sua história, muito bacana!
R – De nada.

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