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O novo o tempo todo

História de: Mateus Calligioni de Mendonça
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 19/12/2015

Sinopse

Mateus Calligioni de Mendonça nasceu em Ribeirão Preto, interior de São Paulo. Lá viveu uma infância plena, regada a muitas brincadeiras de rua e viagens com seu pai, que era vendedor de livros. Formou-se em Farmácia Bioquímica na USP de Ribeirão Preto e atuou no setor de cosméticos na Natura, onde mais tarde ajudou no desenvolvimento de embalagens sustentáveis. Hoje Mateus está engajado na área de Gestão de Resíduos, onde atua na Giral Viveiro de Projetos, New Hope Ecotech e no Viveiro Inovação Social.

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História completa

Nasci em Ribeirão Preto em 1981. Meu pai é Pedro Batista de Mendonça, nasceu em Sacramento, Minas Gerais. A origem da família do meu pai é mineira. Os meus avós eram da zona rural e trabalhavam em fazenda. O meu pai era vendedor de livros, mas antes ele vendia ovos de galinha e algumas coisas que eram do sítio, em cima do cavalo, lá em Minas. Quando ele fica jovem migra pra Ribeirão Preto, onde conhece a minha mãe. Eu perdi meu pai quando eu tinha 15 anos. Ele ficava 15 dias fora, viajava, ele voltava a cada 15 dias pra Ribeirão, quando tinha férias eu viajava com ele. A gente pegava o fusquinha e a Belina dele ali e viajava pelo interior de Minas, interior de São Paulo, fazendo exposições de coleções de livros didáticos, de história infantil, de enciclopédias, levando isso pra professores nos diferentes colégios dessas cidades. A aventura mais deliciosa que eu tinha quando meu pai voltava dessas viagens de venda dos livros eram as coleções novas que ele trazia e aí tinha aquela novidade de abrir as caixas com as novas coleções, os novos livrinhos, os novos joguinhos que vinham junto nesses kits e tudo o mais. E descobrir pra mim aquele mundo encantado, a literatura, foi muito, muito gratificante. Em casa tinha estantes e estantes de livros, meu pai por ter acesso a essas coleções e a minha mãe por querer nos promover a educação, era muito encantador esse mundo, pra além das balinhas que ele trazia quando ele voltava.

Minha mãe é Teresa Calligioni de Mendonça. Nasceu em Cravinhos, interior de São Paulo. Meu avô era italiano, migrou aos três anos pro Brasil e uma parte da família foi para o Sul, pro Paraná, e outra parte veio pra São Paulo. Era uma família que veio pra trabalhar na lavoura de café. Meu avô conheceu a minha avó também nesse contexto, que era descendente de negros, escravos, então Atílio Calligioni com Mariana de Moura tiveram minha mãe. A minha mãe perdeu a mãe aos nove anos o pai aos 15. Depois que ela perde a mãe e o pai ela sai de casa e foge pra Ribeirão Preto e vai trabalhar como empregada doméstica numa casa, em que ela conhece uma tia minha, irmã do meu pai, que era cozinheira dessa casa, uma família de imigrantes árabes. Ela estabelece uma relação muito próxima com a filha dessa família, que era a Márcia. Apesar dessa diferença de classe social existia uma proximidade muito grande também pela idade, pelos sonhos, pelos anseios da minha mãe, da Márcia e da minha tia Abadia. Minha mãe conhece meu pai através da minha tia, eles se casaram no começo da década de 1970.

Um primeiro projeto que eu comecei a interagir com reciclagem, chamava Lixo Útil, e eu lembro de ter ido com o colégio visitar a primeira usina lá em Ribeirão Preto de segregação e triagem de materiais recicláveis. Você ligava num número, separava os sacos todos em casa de materiais recicláveis, e o caminhão da prefeitura fazia coleta só nas casas que solicitavam esse serviço. Isso deve ter sido em 1993, por aí. Pro lado dos orgânicos eu lembro que a gente separava, deixava numa lata, que às vezes até criava alguns bigatos, era uma coisa meio nojenta e dava isso pro cara que criava porcos. Aos 13 anos eu peguei um produto de uma marca de cosmético que tinha lá no banheiro de casa e falei: “Mas eu nunca vi isso no supermercado, como será que isso é vendido?”. Eu olhei atrás e tinha um 0800. Eu liguei e perguntei qual era a história daquela marca, me contaram e eu falei: “Quero agendar uma visita da promotora de vendas aqui na minha casa porque eu quero que a minha mãe seja consultora”. E não contei pra minha mãe e falei pra ela assim: “Mãe, eu preciso de um xerox do seu RG e do seu CPF pra levar na escola porque tem uma viagem lá que a gente vai fazer e eu preciso levar esses documentos”. E marquei uma visita da promotora e minha mãe falou assim: “Quê? Vender? Eu não quero vender nada”. Eu falei: “Não mãe, eu só quero que a senhora faça o cadastro porque eu não posso, eu sou menor de idade”. Convenci ela. Eu lembro da minha ansiedade, eu ficava lá esperando a Kombi que ia fazer a entrega do primeiro pedido chegar. Foi uma emoção muito grande o dia que chegou essa primeira caixa, a gente abriu e eu fui entregar os produtos da Natura pros nossos clientes. Minha mãe segue até hoje como consultora Natura.

 

Eu fiz o cursinho junto com o terceiro colegial, o meu cunhado é químico, a minha irmã é bióloga e eles me estimulavam muito pra passar no vestibular. Eu queria fazer Zootecnia, porque naquela época a questão da inseminação artificial de bovinos estava chegando no Brasil e eu queria trabalhar com isso. E prestei Zootecnia no terceiro colegial. Junto com o colegial eu peguei bem aquela época que separou o curso técnico do colegial, mas eu fazia colegial no Mousinho e curso técnico em Telecomunicações no colégio que a gente chamava de Industrial, lá em Ribeirão. Como eu não passei em Zootecnia no terceiro colegial, no segundo ano eu tinha um seguro, podia fazer o cursinho gratuitamente e aí prestei Farmácia Bioquímica porque tinha um leque mais amplo. Eu optei por fazer Farmácia na USP de Ribeirão e passei. Em 2000 eu entrei na faculdade. Eu era muito novo e não sabia ainda o que eu queria, e ainda não sei, acho que o de mais legal que tem é a gente ser empoderado pra poder mudar a qualquer hora, a riqueza de conhecimentos, de coisas pra fazer, de desafios que o mundo tem é tão grande que eu nunca me prendi muito a isto, tanto é que eu me formei em Farmácia Bioquímica na USP de Ribeirão Preto, mas hoje eu trabalho com Gestão de Resíduos.

 

Quando eu entro na Faculdade de Farmácia eu tive que fazer um projeto de bolsa trabalho pra conseguir ter uma renda pra me manter ali. Eu entrei num projeto com a comunidade de uma favela que era do lado da USP de Ribeirão. E esse processo culminou em que eu tinha que desenvolver um xampu pra todas as crianças pra elas valorizarem aquele conhecimento que a gente tinha levado ao longo de um ano pra elas. E eu acabei entrando em contato com o mundo da cosmética de novo, com a professora de Cosmetologia na faculdade. E isso quase num retorno à Natura, eu venho fazer estágio na Natura depois que eu me formo. Depois fiquei dois anos e meio trabalhando no Laboratório de Cosmetologia e resolvi mudar e fazer um estágio na área de Administração de Serviços de Saúde, para avaliar a qualidade da atenção do serviço farmacêutico no Sistema Público de Saúde de Ribeirão Preto. Só que eu fiquei seis meses escrevendo esse projeto, trabalhando com a professora Vânia com esse objetivo e o processo seletivo da Natura foi aberto e eu me inscrevi, porque era uma empresa que tinha um conceito novo: a sustentabilidade. E em 2004 eu venho pra São Paulo para trabalhar na área de pesquisa e desenvolvimento da Natura, como estagiário pesquisador. Fiquei três anos no laboratório fazendo isso e também entrei nos projetos mais de sustentabilidade, que era trocar as matérias prima de origem não renovável por matérias primas de origem renovável.

 

Eu saio do laboratório e sou convidado a fazer um trabalho pra trabalhar com embalagens recicladas dentro da Natura, na construção de relações, com a cadeia de materiais recicláveis. Estava tudo muito incipiente e a gente começou um processo de homologação, de desenvolver uma ferramenta para diagnosticar as cooperativas, pra avaliar indicadores, para construir um relacionamento pautado em parâmetros, em métricas racionais para além das questões políticas, as questões emocionais, as questões psicológicas que estão envolvidas nesse tema também. A gente falou: “A gente pode fazer uma embalagem reciclada, desde que a gente tenha garantia de origem e uma relação com os fornecedores de matéria prima da Amazônia. A gente começa esse processo de relacionamento com cooperativas, que hoje é a base de todo o trabalho que eu desenvolvo na Giral. Eu ganhei um orçamento pra viajar o Brasil inteiro e conhecer a realidade de norte a sul, de leste a oeste do Brasil relacionado a gestão de lixo, não era só a questão da embalagem, mas como essa embalagem termina, o ciclo de vida dela, o desafio do lixo, o desafio da gestão de resíduos e o desafio da indústria de reciclagem. Foi um mundo novo conhecer as cooperativas, catadores, o movimento social e as fundações internacionais que apoiavam a estruturação dessa causa.

 

Eu vivi muito esse processo de uma lei que estava lá parada há muitos anos no Congresso, eu vivi esse movimento, que o Movimento Nacional de Catadores promoveu junto com o Planalto e o Congresso, de tirar a lei da gaveta, resgatar, e de fato amadurecer e criar um marco pro Brasil na questão dos resíduos. E é um marco legal que fala muito da inclusão social, do papel do catador, de como os catadores também já vinham se incluindo na cadeia de reciclagem, mas que precisavam de reconhecimento. Vem daí uma percepção de um novo mercado e de novos trabalhadores, de novas empresas em um modelo econômico mais solidário que é o cooperativismo. Hoje o papel dessas organizações e o papel desses trabalhadores tem que ser reconhecido e tem muito a se fazer ainda em termos de política, de conhecimento, pra que de fato a gente tenha um modelo justo e eficiente.

 

Temos que desconstruir a cultura que vem do lixão e criar espaços de convivência, cooperativos, que de fato pensam o coletivo. Enquanto tem uma pessoa trabalhando no lixão, que está trabalhando por ela, como indivíduo, ou um cara catando material na rua com a sua carroça, trazer isso pro campo de uma cooperativa que é o extremo oposto, que é o coletivo que está em questão, que são os valores coletivos, os processos coletivos que estão aqui é uma mudança que leva tempo, precisa de muita informação, de muito processo de relacionamento, de muita facilitação. Senão a gente vai perder o bonde da história e não vai conseguir se consolidar de fato e aproveitar as oportunidades que esse mercado que está emergindo a partir da Política Nacional de Resíduos Sólidos se consolide com a participação das cooperativas de catadores. Muita coisa vem mudando desde essa percepção de autoestima do catador, que hoje é uma categoria reconhecida no Código Brasileiro de Ocupações, das cooperativas.

A reciclagem mudou e vem mudando a minha vida em vários aspectos, a minha maneira de olhar o mundo, é uma área que me encanta, me engaja, é o novo o tempo todo. Hoje eu trabalho na Giral Viveiro de Projetos, na New Hope Ecotech e no Viveiro Inovação Social. A Giral é focada na área de educação, tecnologias inovadoras pra gestão e educação na área de projetos sociais, socioambientais, tanto na área de resíduos como de geração de renda, Amazônia, desenvolvimento local, estamos focando muito nesse processo de que metodologias, mecanismos inovadores que a gente utiliza pra fortalecer o ecossistema de empreendimentos sociais. O Viveiro é o espaço que administra tudo isso, a gente acabou de criar um laboratório de inovação social onde essas organizações convivem ali. E a New Hope está trazendo tecnologia pra área de gestão de resíduos, tecnologia e big data, a internet das coisas, pra área de gestão de resíduos, a gente acaba nas interações, nas aproximações que a gente vai tendo, criando novas organizações que vão ficando especializadas em frentes distintas, diferentes em torno do mesmo tema, que é a gestão de resíduos. O meu maior desafio pra além do sonho é conseguir provar que é possível que uma cooperativa participe e desenhe um novo modelo de gestão e gerenciamento de resíduos no Brasil e no mundo.

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