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O nosso lado social

História de: Claudia de Faria Santiago
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/05/2020

Sinopse

Em seu depoimento, Cláudia nos conta sobre o seu trabalho na Philips e os programas corporativos que existem na empresa. Explica também sobre o programa de voluntariado e sobre o processo de capacitação desses voluntários. Cláudia também fala como formou sua relação com o CDI e descreve sobre sua atuação na EIC, uma escola de informática do CDI.

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História completa

P/1 – Bom dia, Claudia. Poderia começar dizendo o seu nome, data e local de nascimento, por favor?

R – Claudia de Faria Santiago. 25 de junho de 1972, Recife, Pernambuco. 

P/1 – E qual o cargo que você desempenha hoje? Em que empresa você trabalha?

R – Eu trabalho na Phillips. Eu sou coordenadora de Recursos Humanos. E dentro da área de Recursos Humanos a gente desenvolve as atividades de responsabilidade social também.

P/1 – E como se deu o contato com o CDI [Comitê para Democratização da Informática]? Como foi? Você podia contar um pouco como vocês foram procurados? Vocês procuraram?

R – Eu estou na fábrica desde 2001. Eu acredito que o contato se deu antes disso aqui, antes disso. No começo, a Phillips foi apoiadora do CDI, e ainda é. Mas a partir de 2001, além de apoiar, começamos também a desenvolver atividades junto com o CDI. Então nós temos um programa de responsabilidade social onde a gente tem a parte de voluntário empresarial; e os nossos voluntários são capacitados pelo CDI: desenvolvem atividades em comunidades carentes. Como por exemplo, o Curado. Tem uma escolinha do CDI que chama EIC [Escola de Informática e Cidadania], em uma escola lá do Curado, onde os voluntários são professores. E nós temos uma outra EIC dentro da fábrica, onde os voluntários também ensinam para funcionários e terceiros. 

P/2 – Você poderia falar um pouco sobre a atuação na responsabilidade social da Phillips Pernambuco?

R – A Phillips no Brasil existe programas corporativos, né? Então aqui em Pernambuco, nós temos vários programas. A gente cita o CDI, o Doe Vida - o CDI que é democratização da informática, né?

P/2 – Hum, hum. 

R – O Doe Vida que é de saúde, prevenção de DST e aids, gravidez não planejada. Nós temos Aprendendo com a Natureza que é na área de Meio Ambiente. Nós temos a reforma e a reestruturação pedagógica do Ginásio Pernambucano. Nós temos o IQE, que é Instituto de Qualidade do Ensino, entre outros. Esses são os principais. E para fazer alguns deles rodarem a gente usa o Programa de Voluntário Empresarial.

P/2 – Como é esse programa? Você poderia explicar um pouco?

R – Nós fizemos junto com o Recife Voluntário uma grande divulgação na fábrica do que seria ser um voluntário, para o público todo. E aí, a partir daí começaram as inscrições. Isso foi em 2001, 2002. A gente teve na época, aproximadamente 90 inscritos. A gente mantém esse número, ele fica variando entre 85 e 95. Mas na média, a gente tem 90 voluntários. Fazemos junto com a LG Phillips também. Então mais ou menos 10% do nosso número de funcionários, é voluntário. Eles são capacitados e têm a responsabilidade de ser voluntário. Depois eles escolhem em qual desses projetos querem atuar. Porque então, uma parte fica no Doe Vida, uma parte no CDI, uma parte no Aprendendo com a Natureza. A partir do momento que eles escolhem onde atuar, eles são capacitados para atuar nesses núcleos. Específico no CDI: tem as coordenadoras do CDI, as pedagogas que ensinam informática e cidadania para esses voluntários. Aí a gente tem duas EICs: uma dentro da fábrica e uma dentro da escola Edmuar. E aí os voluntários se dividem: uma parte ensina na EIC da escola, outra parte na EIC da fábrica. Os que ensinam na EIC da escola, ensinam para os estudantes de segundo grau. Quer dizer, hoje ensino médio, né? E esses estudantes, normalmente são os que estão terminando. Que além deles terem a oportunidade de discutir questões de cidadania eles têm a capacitação de informática. E ficam mais habilitados para o mercado de trabalho. Na escola está acontecendo uma coisa interessante; como a gente já está na escola há mais tempo, a gente já está desde 2000.

P/1 – Qual é a escola? 

R – Edmuar Lindo, no Curado.

P/1 – Tá, no Curado.

R – Então alguns desses estudantes que foram ensinados pelos nossos voluntários, são voluntários da própria EIC. É muito interessante esse processo na comunidade. E aí, esse ano, em 2004, a gente abriu a segunda escola dentro da fábrica. Como já tinha muitos alunos sendo voluntários, a gente conseguiu tirar alguns voluntários da escola para ensinar na EIC da fábrica. E os próprios voluntários da escola passam a dar sustentação à EIC da escola. E dentro da fábrica, esses voluntários ensinam informática e cidadania para um público que não tem acesso a computador. Por exemplo: os terceiros, o pessoal de limpeza, pessoal de refeitório e alguns operadores na linha de produção - a maioria não tem computador, então eles não têm acesso à informática porque o trabalho não exige. E então, esses operadores também podem estudar na EIC da fábrica. Acho que hoje tem mais ou menos entre 20 e 25 voluntários somando os dois, né?

P/2 – Certo.

R – Da escola e da fábrica. Que ensinam, na escola a EIC funciona direto. Desde 7 horas da manhã às 7 da noite. Os voluntários vão se revezando. A mesma coisa na fábrica: tem vários horários. Porque, como a gente tem pessoal que trabalha em horários diferentes, por exemplo, a gente tem o pessoal que trabalha de 10 às 6 da manhã, aí alguns dão aula das 6 às 8, ou às 7. E tem o pessoal que trabalha de 6 da manhã às 2 da tarde, aí dá aula à tarde. E o pessoal que trabalha de 2 da tarde às 10 da noite, aí dá aula de manhã. E o pessoal do administrativo que trabalha de 7 as 5 aí eles dão aula ou antes ou após. Então tem a EIC funcionando em vários horários no dia, várias turmas.

P/2 – Você poderia falar um pouco dessa comunidade do Curado? Qual a relação da Phillips com essa comunidade? E qual é o público final que frequenta a EIC?

R – É, a Phillips procura atuar dentro da comunidade em qual ela está inserida. então a gente está em Recife, mais especificamente, a fábrica é na região do Curado. E lá tem algumas comunidades carentes e a gente tem, como que a gente chegou na comunidade, né?

P/2 – Hum, hum.

R – Via essa escola. Que a gente já tinha o trabalho com o IQE, que é o Instituto para a Qualidade do Ensino. Nós somos financiadores do IQE. Um dos. São várias empresas que nós somos um dos. E o IQE desenvolveu com seis escolas, um trabalho onde ele forma o professor. A formação do formador. E aí a partir dessa porta de entrada cada empresa que estava financiando foi convidada a dar suporte para uma escola. então como a Gerdau escolheu uma, a Coral escolheu outra, a Phillips escolheu uma no Curado. E que é a Escola Edmuar Lindo. então a gente foi apresentado pelo IQE para essa escola, e a gente foi conhecer essa comunidade mais particularmente: quais são as carências, necessidades. E em contato com a professora, com a diretora – desculpe – a gente identificou algumas coisas que a gente podia apoiar: uma das coisas foi o pomar. Se existia a escola, existia a comunidade, e elas queriam um apoio nesse sentido. A gente tinha também o CDI, vamos dar esse apoio. Outra coisa que elas falaram, falavam muito, é que as crianças não preservavam a escola. Então, como a gente tem um programa de meio ambiente, de preservação da natureza, nada mais natural que preservar o meio ambiente. É preservar o local onde você está inserido também. Então a gente foi com o “Aprendendo com a Natureza”. E aí elas colocaram que as adolescentes tinham muito problema, meninas, meninas com 12, 13 anos apareciam grávida. Então o cuidado com a sexualidade precisava ser desenvolvido. Aí a gente levou o Doe Vida para essa escola. Isso foi 2001, 2002. A partir daí, as coisas começaram a crescer. Se você perguntar hoje, o Aprendendo com a Natureza, a gente fez uma parceria com a Prefeitura do Recife e nós estamos hoje em mais de 20 escolas. Levando em cada uma dessas 20, a gente atende mais ou menos cinco salas. Não é para 100% das salas não. E a gente está falando aí de 6 mil crianças envolvidas. Quando a gente fala do Doe Vida, a gente começou na Edmuar Lindo. Fez todas as salas de ensino médio e hoje através do IQE, que também cresceu, eram seis escolas hoje são quase 30, nós estamos em oito escolas. Aí já é uma parceria com o governo do estado. E o CDI, a gente começou com uma EIC lá, e estamos abrindo a segunda na fábrica. A ideia é que a gente consiga pelo menos junto dessas escolas do IQE, e mais duas ou três, levar uma salinha do CDI para essas escolas. Mas isso a gente ainda está começando. 

P/1 – Afora isso, quer dizer, essas escolas onde vocês atuam diretamente, quer dizer, vocês também apoiam um projeto do CDI regional, né, aqui? 

R – Isso.

P/1 – De Pernambuco. Você poderia falar um pouco desse projeto? Que é de fortalecimento do próprio CDI, né?

R – A Phillips é apoiadora de algumas instituições. Entre elas, a gente dá esse apoio para o CDI por acreditar nos valores, por acreditar nas propostas. Então a gente tem o apoio nacional que é dado ao CDI matriz. E tem uma verba que é dado aos CDIs locais, que dada ao CDI Pernambuco. 

P/1 – E o objetivo desse projeto aqui, desse apoio ao CDI de Pernambuco?

R – É que ele consiga desenvolver sua missão no estado. A gente acredita que uma forma de fazer responsabilidade social é apoiando ONGs. Porque a Phillips é especialista em produzir seus produtos, né?

P/2 – Hum, hum.

R – E as ONGs são especialistas em desenvolver o lado social. então a gente acredita nisso e a gente faz questão de apoiar. O CDI, especificamente, tem a missão de levar a informática e conceito de cidadania para populações carentes no estado inteiro. Se a gente fosse comparar o que era o CDI em 2001 e o que é o CDI em 2004 aqui em Pernambuco, que é na época que eu entrei. Eu nem sei antes disso, né?

P/2 – Hum, hum.

R – A partir do momento que eu tenho contato.

P/1 – Certo.

R – Se a gente ver o que está plantado no mapa aqui, a gente vê o progresso que foi. E estamos muito satisfeitos com essa parceria. Porque é importante você levar essas duas coisas para as comunidades. A primeira é cidadania: o que é ser cidadão, quais são direitos e quais são os deveres. Porque é muito fácil a gente só ir atrás dos direitos, então é importante ter a consciência dos deveres também. E fazer isso de uma maneira muito interessante e curiosa, que é levando informática, levando esses conceitos, esse mundo digital que às vezes está tão distante dessas pessoas. E fazendo essa outra ponte de articulação, de cadeia mesmo, com as outras empresas. Que é conseguir os computadores para doação, fazer todas as melhorias necessárias, deixar eles prontos para usar nessas comunidades. É muito interessante.

P/1 – Vocês também fazem essa captação de computadores?

R – Não, não. O CDI tem as pessoas que fazem essa capacitação. Claro que quando a gente pode articular, interferir, a gente faz. Por exemplo, a gente passa alguns contatos. Por exemplo, a Alcoa a gente ficou sabendo que queria fazer uma troca no parque. Aí a gente liga, fala com o gerente da área, gerente de RH e bota o CDI em contato. Mas não faz nenhum tipo de pressão ou decisão. Como também a gente está sabendo, a Gerdau vai ter uma troca de computadores esse ano. então tenta aliar interesses. A Gerdau apoia uma escola - assim como a gente apoia a Edmuar Lindo. Ela quer ceder computadores e quer a metodologia do CDI. então onde for possível juntar interesses a gente faz essa articulação. 

P/2 – Você falou do programa de voluntariado interno na Phillips. Esses voluntários atuam como educadores ou eles também atuam em outras áreas dentro do CDI?

R – Não.

P/2 – Assim, em outros trabalhos como manutenção?

R – Não, não. No CDI só como educadores. Agora, quando a gente precisa lá na escola, por exemplo, precisa fazer a instalação elétrica e tal. Na nossa escola. E aí a gente pode contar com o apoio dos voluntários de elétrica, eletrônica, eles dão uma força. Agora, se o CDI precisar em outra escola que não é a nossa, a gente não vai ter um voluntário para esse tipo de coisa. O nosso voluntário é para ser educador. Esse é o foco principal. 

P/2 – E sobre as escolas da fábrica, né?

R – Agora, só um minutinho.

P/2 – Pois não. 

R – A gente tem alguns apoios específicos. Ana Claudia aqui, ela é coordenadora. Não, desculpa, mudou agora. A Soraia, ela é coordenadora de EIC, ela coordena duas EICs. A gente financia, damos uma contrapartida no salário da Soraia. 

P/2 – Correto.

R – Então tem algumas coisas. Mas para os voluntários, voluntário é para ser educador. Qual era tua pergunta?

P/2 – É, sobre as EICs das fábricas. Como elas foram, você falou já da escola. O outro lado eu estou querendo pegar um pouco. Como elas foram pensadas? O público, como é o contato com esse público? A concepção?

R – Começou a ter um desejo na fábrica das pessoas que não tem contato com computador de estar inserido desse mundo. E a gente pensou algumas formas de como fazer isso. Por exemplo, a gente podia fazer através de treinamento como foi feito na própria fábrica. Mas normalmente um treinamento em uma instituição privada ele é feito em função das necessidades da própria manutenção das capacidades organizacionais. Em um nível desses de terceiros, de pessoal de limpeza, pessoal de restaurante, operadores, não é uma necessidade de a função ter essa capacitação. Então não seria por esse caminho. Via treinamento. Mas aí, a gente começou a estudar como que a gente poderia ter esse desejo atendido. E como seria, além desse desejo da informática, levar outras coisas. Outro desenvolvimento, outra forma de pensar, de questionar, de entender as coisas, entender os conceitos de ser cidadão. Como a gente tinha essa escola dentro da escola, por que não ter uma dentro da fábrica? Aí a gente, junto com o CDI, fomos estudar várias formas de fazer isso. Onde seria, como seria? Que estrutura teria que ter? Que exceções a gente teria que criar na fábrica? Quem seria esse público? Aí a gente, junto com o CDI, desenvolvemos um material de divulgação para os quadros de aviso. Convidou as pessoas que teriam interesse para essa proposta. A gente explicou que não era um curso de informática, que era uma proposta diferente. Todos os que se inscreveram foram convidados para uma palestra para entender o que era. Que ele não estava simplesmente indo para um cursinho de informática. Ele ia ter as ferramentas de informática, mas que ele ia ter outras discussões mais enriquecedoras inclusive. E a gente perguntou quem topava, aí os que toparam fizeram uma inscrição mesmo. Preencheram um formulário de inscrição. A gente fez uma reforma em uma pequena sala que a gente tem lá. A Phillips entrou com toda a estrutura de ambiente: ar-condicionado, quadro... E o CDI entrou com as máquinas. Aí a gente pediu a capacitação do CDI, eles capacitaram os voluntários. E hoje, aí tem essa coordenadora, e hoje a escolinha funciona o dia inteiro. Eu não diria 24 horas, porque a noite não funciona. Mas pelos menos de 7 da manhã às 7 da noite ela funciona. Acho que de 6 da manhã. De 6 da manhã às 7. 

P/1 – Vocês têm parcerias com outras ONGs também?

R – Temos.

P/1 – Tem alguma coisa que é diferente na parceria do CDI?

R – Cada ONG tem sua missão e tem as suas peculiaridades, né? Claro que é diferente. Deixa eu dar uns exemplos, que eu acho que fica mais fácil para entender. A gente tem a parceria com o Instituto Kaplamon, que é para fazer o Doe Vida. Que o Instituto Kaplamon é um instituto que é...

P/1 – Kapla?

R – É K-a-p-l-a-m-o-n. Kaplamon, certo? Ele é especialista em sexualidade. então ele ajuda muito a gente em desenvolver as dinâmicas, as questões que a gente vai tratar nas escolas com os adolescentes. De prevenção de DST, aids e gravidez não planejada. Acho que tem uma parceria com o La Fabre, que é o que desenvolve o aprimoramento para a natureza, que é coisas voltadas para o meio ambiente. E a gente tem essa parceria com o CDI. O que talvez seja diferente no CDI é que ele traz, talvez, questões que estão mais no dia a dia do público que ele está querendo atingir. Mas são parcerias muito parecidas com focos completamente diferentes. No CDI, a gente tem, por ser regional, a gente consegue interferir mais, talvez. A gente talvez tenta contribuir mais, porque no dia a dia por ele, por exemplo, o Instituto Kaplamon está em São Paulo. Eu tenho uma coordenadora local, mas as decisões são tomadas lá em São Paulo. A mesma coisa com o La Fabre, o que também tem coordenadora local. Mas o CDI por ter políticas locais e por ter a figura do Diego e do Marcelo, é uma relação mais próxima, quase que dia a dia. Onde com os outros, a relação é mais por avaliação, né? Não é tão direta. Não tem tanta interferência e mudanças. Que a gente está sempre aprendendo, mudando e corrigindo o tempo todo. É muito interessante. 

P/1 – Como se dá a sua participação no projeto CDI? Porque, antes de a gente entrar, o Marcelo brincou que você é quase do CDI? Quer dizer, como, em que momentos isso ocorre também?

R – A gente tem quatro esferas, vamos colocar assim. A gente tem a primeira, que é com os voluntários, a capacitação dos voluntários. O CDI tem toda a metodologia, mas ele tem o que passar. O como passar a gente de vez em quando interfere. Por exemplo, eles têm que passar a metodologia e tem uma salinha aqui para capacitar. No nosso caso, como está todos os voluntários lá na fábrica e os turnos de trabalho são alternados, a gente precisou desenvolver uma forma de ele ir capacitar lá na fábrica. Então a capacitadora vai para a fábrica e forma as turmas para capacitar os voluntários lá na fábrica. Isso, eu acho que foi uma mudança interessante, isso é a primeira esfera. Que é dos educadores. Aí nós temos a coordenadora: ela tem que coordenar e tem que funcionar o trabalho dessas duas EICs. Então ela coordena se os voluntários estão ou não estão indo, se os estudantes estão ou não estão frequentando. No caso da EIC da fábrica, a contribuição mensal que eles dão para a manutenção de comprar papel, é ela que controla. E qualquer coisa que comece, ela que pede o que a gente precisa doar. Porque a gente faz umas doações iniciais, de papel, lápis - ela que coordena tudo isso. E quando dá algum problema ela tem que vir dizer para a gente o que está acontecendo. Se a gente consegue resolver aqui nesse nível, ótimo. Se as coisas estão mais complicadas, tem o papel do Diego, do coordenador geral. Onde ele vai dizer quais são os problemas, a gente vai dizer, a gente tem os estudantes da escola, os funcionários da fábrica e os voluntários, articular. Isso tudo não é fácil. então se a gente não consegue fazer, e tem a metodologia do CDI que tem que ser respeitada o tempo inteiro. Então a gente tem que ir o tempo inteiro vendo o que é possível para que todos os três públicos se entendam e que a coisa não desanime. Então, por exemplo, tem gente que só pode dar aula às 2 horas da tarde, então tem que ter alunos nesse horário, pessoas; e a metodologia tem que ser dada nesse horário também. Então, tem um monte de articulação que é na esfera, assim, com o Diego. Coisas mais estratégicas, coisas mais, eles estão por exemplo querendo lançar um projeto novo que é o Inter Jovem. Decisões mais globais aí gente resolve com o Marcelo. Então a gente tem muita abertura de estar nessas três esferas. Que eu converso com a Soraia, não resolveu conversa com o Diego, não resolveu conversa com..., ou conversa todo mundo junto. De vez em quando, a gente tem umas reuniões que é todo mundo junto para a gente sempre ir encontrando, não adianta chegar com uma fórmula pronta. Quando a gente está trabalhando com muita gente, a gente está falando de 30 voluntários, de sei lá, mais de 100 alunos. Os coordenadores. então a gente está falando em muita gente, não tem uma fórmula pronta que vai resolver. então a gente tem que ir conversando e adaptando. É isso que ele fala, que eu falo, que às vezes eu me meto muito. [RISOS] 

P/2 – [RISOS] 

P/1 – [RISOS] Certo.

R – Mas sempre para a gente não deixar a bola cair. A energia cair. 

P/2 – E pensando na EIC da fábrica, você poderia dar exemplos de como foi desenvolvida a questão pedagógica? Você teria como mostrar, como ilustrar isso daí para a gente?

R – Quem desenvolveu a questão pedagógica a gente não interfere. Em nenhuma das ONGs. A pedagogia a gente não interfere. A gente pode ter algum tipo de interferências, quem desenvolve toda a área pedagógica é a Ana Maria. A parte dos conceitos que vão ser passados. E a parte de computação é a Ana Claudia e tem uma outra menina. Isso a gente não interfere. A gente pode interferir no seguinte, ela diz assim: “Claudia, a gente, para formar a gente precisa de 12 oficinas”. Aí eu posso dizer: “Ana Maria, não é assim”. Né?

P/2 – Hum, hum.

R – Ou então, ela pode dizer assim: “Para formar, eu preciso de 30 horas”. Aí eu vou discutir com ela: “O que é que você vai discutir na sua formação?”, “Isso, isso e isso”, “Ah, isso aqui um funcionário Phillips já vê. então você pode diminuir”. Então a gente pode ter algumas interferências em carga horária. Disponibilizar as pessoas para os treinamentos e em ordem dos treinamentos. Mas no conteúdo a gente não interfere. Exemplos práticos: quando a gente foi formar os voluntários precisou ter a primeira capacitação que, pedagógica. Que acho que ela pediu 16 horas. Aí eu falei: “Ana Maria, 16 horas é impossível; vamos fazer 3 dias de 4 horas. 12 horas”. Aí ela readequa e tal. É mais assim esse nível de interferência. Depois de formados os voluntários - capacitação, a primeira com elas - tem a capacitação, aí tem a primeira. Eles querem formar tipo assim: “Vamos dar Windows, Word, Excel, Power Point tudo de uma vez.” Aí a gente fala: “Não, vamos dar o Word, ensinar Word”. Aí depois que está todo mundo formado: “Agora vamos dar Excel, ensinar Excel”. Para ter os espaços entre a capacitação, é esse nível de interferência. Aí foi isso que a gente fez, a gente começou a capacitar, eles estão dando aulas. Aí formou as turmas da fábrica através das inscrições. Todo mundo se inscreveu. Primeiro os voluntários se inscreveram, aí qual os horários que eles estariam disponíveis para ensinar? Formou as turmas. Depois, os alunos se inscreveram naqueles horários que tinha voluntário para ensinar. Aí formou as turmas. Teve as sobras e a gente ia realocando. Começou as aulas, teve as frequências. Quem começou a faltar saiu, aqueles que estavam na sobra entraram. Fez algumas turmas extras. Conversamos com os voluntários e tal. Conseguiu de forma que atendesse o público em função dos horários que a gente tinha voluntário. E botamos sala para rodar. 

P/2 – E as ações dos alunos. Isso que, eu estou pensando um pouco na, como se trabalha a questão da cidadania dentro da fábrica ou também na escola? Quais foram os temas levantados? Quantos projetos foram desenvolvidos? Dentro da EIC, quantos alunos?

R – Isso eu não sei com detalhes.

P/2 – Certo.

R – Você tem que ver com a Soraia. Mas eu sei o seguinte: o que é que eles fazem, né?

P/2 – Hum, hum.

R – Eles veem primeiro o que está sendo divulgado no jornal. então eles debatem algumas coisas de notícia do dia a dia, como interpreta. o que está ali por trás... Eles fazem coisas ligadas a... não sei o que lá da criança e do adolescente? 

P/2 – O Estatuto.

R – O Estatuto da Criança e do Adolescente. Tem muitas coisas desse tipo de discussão. Eles discutem coisas como as questões de gênero, da mulher. O direito da mulher, por exemplo, não ser agredida e se for, quais são as consequências. Então você trabalha o homem a mulher, se alguém ali pensou em bater na mulher, vai pensar duas vezes. Que sabe que tem consequências. Se a mulher recebe agressão em casa, sabe o que procurar. Então tem a questão da criança e do adolescente, tem a questão do gênero. Tem o noticiário em si. Porque está muito esse foco.

P/1 – Vocês têm algum tipo de acompanhamento dos projetos que vocês fazem de um jeito mais formal, assim?

R – Temos. Nós temos reuniões periódicas com cada projeto, tem uma coordenadora. Então, nós, por exemplo, com o CDI, nós temos reuniões periódicas com Soraia e com Diego. Para a gente ver o que é que a gente está evoluindo bem e o que não está evoluindo bem. Com os outros núcleos a gente tem também. Depois nós temos uma reunião na fábrica. A gente discute os projetos individuais, depois a gente faz uma reunião global para saber o que é que está andando e quais são as pendências. E no final do ano - a gente fez o ano passado e deve fazer esse ano - a gente fez uma avaliação formal. Aí foi feito pelo Recife Voluntário que avalia os três lados. Avalia quem está usando o projeto, no caso os estudantes e os alunos, os voluntários e os professores. então são três avaliações e gera um relatório global. 

P/1 – E vocês tem, quer dizer, também por parte do CDI uma certa informação? Recebem relatórios?

R – Não, relatórios formais não. A gente tem muito acesso à informação quando a gente precisa. Mas tem as reuniões de coordenadores que por exemplo a coordenadora de lá da fábrica vem para trocar...

P/1 – Coordenador de EICs?

R – De EIC. Para trocar com as outras EICs. Mas aí não é uma participação específica da Phillips, nem a gente pede relatório, nada. A gente vê muito do que está, é tudo muito visual, né?

P/2 – Hum, hum.

R – A gente vê muito o que está nas paredes, o que é que eles estão trabalhando. Agora, se você me pergunta assim: “Claudia, você recebe um relatório mensal de que o CDI está em tantos, tem tantas EICs, tem tantas pessoas atendidas; cresceu 10%, conseguiu captar tantos recursos”. Não. Assim nesse nível não. Eu sei o que está acontecendo mais pelas conversas que a gente tem com o Marcelo. 

P/2 – Hum, hum. 

P/1 – Como é visto o apoio ao CDI dentro da empresa? Quer dizer, pelos funcionários? Pela...

R – A gente tem pesquisas com os funcionários, pesquisas de motivação, etc. E tem uma das perguntas: Como é que eles sentem isso? Eles se sentem orgulhosos em saber que a empresa tem esse lado social. Tem essa contribuição e tem o desenvolvimento desses projetos. Dá orgulho para o funcionário.

P/1 – De vocês, quer dizer, a atividade de responsabilidade social, isso entra na comunicação de vocês também de alguma forma?

R – Entra. Nós temos várias formas de comunicar. Nós temos via quadro de aviso. Sempre o que a gente está fazendo. Sempre fotos dos meninos dando aula. Eles se veem. Porque na fábrica eles são alunos. A gente tem revista. Tem uma revista chamada Atitude, que fala só sobre projeto social da Phillips como um todo, sempre sai.

P/1 – É da Phillips Pernambuco?

R – Não, Phillips do Brasil. Mas sai ações de todas as fábricas. A gente tem localmente, o jornalzinho interno que chama, é, ai, esqueci o nome agora. Últimas. Que aí sai coisas, sai muitas coisas entre elas umas materiazinhas de responsabilidade social. E que mais que a gente tem? Nas reuniões, que a gente tem reuniões gerais e tais, de vez em quando sempre está falando o que é que está sendo feito. Eles sabem.

P/1 – Você vê algum aspecto do trabalho do CDI que poderia ser melhorado, aprimorado? 

R – Não, eu acho que a relação é muito boa. Não, não vejo. São coisas pequenas que a gente vai resolvendo no dia a dia. Eu acho que a abrangência é muito interessante. Você ter o estado todo, muito legal.

P/1 – Esse seria o aspecto valorizado no CDI, a abrangência. 

R – Se você fosse procurar muito alguma coisa para melhorar, para não dizer que não falou nada, talvez alguns eventos onde eles reunissem empresários para divulgar mais talvez fosse interessante. Mas ao mesmo tempo, eu sei que eles fazem algumas coisas e eu sei também que não é uma coisa fácil, né? Mas, às vezes, articular com outras ONGs é interessante. Por exemplo, tem o _____, o Ação Empresarial está sempre em contato com empresas. O CDI divulgar suas ações em reuniões do Ação Empresarial pode ser uma coisa que traga...

P/1 – Retorno.

R - ...recursos, retorno. Mas não tem muito o que falar. É um trabalho muito bom, muito interessante. 

P/2 – Teria alguma coisa que você queria colocar que não foi colocado? Alguma experiência que você queria relatar? Algum aspecto?

R – Não, eu acho só que é muito legal quando você tem ONGs sérias, ONGs profissionais, competentes. Se as empresas sabem escolher essas ONGs, os projetos só têm a ser de sucesso. Porque no fundo, é o que os dois lados querem. As empresas querem desenvolver ações sociais, as ONGs também; e sabem como fazer. Então se você consegue esse casamento, que acho que a gente tem assim com o CDI, de eles poderem fazer a missão deles e a gente ver que está dando certo e contribuir para isso. Se tivesse mais ONGs e mais empresas fazendo isso, a gente com certeza teria um País melhor.

P/1 – O que é fundamental desse casamento, dessa parceria assim? Entre ONGs e empresas?

R – Eu acho que é a ONG ter muito claro qual é a missão dela e o que ela quer atingir e atingir. Mostrar esse resultado. E a empresa saber qual é essa missão e qual é esse resultado que quer ser atingido e também querer o mesmo resultado. Acho que é isso que dá um casamento certo. Se eu sei qual é a ONG que eu estou escolhendo e eu compactuo com o que ela está querendo, é o que eu estou querendo também. E eu invisto nela e ela demonstra que está atingindo aquilo que ela combinou, aqueles objetivos que a gente traçou juntos não tem como dar errado. 

P/1 – Tá certo.

R – E tem essa capacidade, essa capacidade técnica e de articulação. Que isso é muito importante. Ter profissionais sérios, profissionais competentes para poder atingir esse resultado. Senão, não consegue atingir. 

P/1 – Tá bom.

R – Ok?

P/1 – Então obrigada.

R – Obrigada também.

P/1 – Em nome do Museu da Pessoa e do CDI, obrigada pelo depoimento.

P/2 – Obrigado a você.

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