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História

O negócio que impulsionou o Itaim Bibi

História de: Francisco Sala Montserrat
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/07/2005

Sinopse

Descrição da família e da cidade de Barcelona. Estudos em um colégio para órfãos de guerra. A vinda para o Brasil e suas primeiras impressões. Trabalho em fábrica de tecidos, como mascate e sua primeira loja. O surgimento da Franita. Instalação da loja à rua João Cachoeira. O consumidor, formas de pagamento e atendimento. O bairro do Itaim-Bibi. Avaliação de seu trabalho e da sucessão em sua empresa.

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História completa

IDENTIFICAÇÃO

Meu nome é Francisco Sala Montserrat, nasci em Barcelona, na Espanha, no ano de 1931. Meu pai se chamava Francisco Sala e a minha mãe Benita Montserrat.

INFÂNCIA

A cidade de Barcelona estava crescendo e fizeram um bairro após a colina, era uma colina cheia de pinheiros. Não havia poluição, não passavam automóveis, as pessoas não tinham televisão, rádio. Vivíamos juntos. As casas eram pequenas, era um bairro pobre. Meu pai era sapateiro e minha mãe era tecelã. Então a rua era um prolongamento da nossa casa e aqueles pinheiros eram lugar muito bom para a criança desenvolver a fantasia, correr, se imaginar num cenário de faroeste ou de aventuras. A escolinha era muito boa, ficava próxima, no mesmo bairro. Os meninos que brincavam com a gente na rua eram colegas da escola. Acho que a vida naquele tempo era muito melhor. As pessoas precisavam umas das outras. Quando meu pai, à noite, chegava do serviço, jantava e saía pra rua, sentava na calçada, conversava com o pai de meu vizinho. Eu via os pais contarem adivinhações, histórias antigas de lobos e de bandidos do interior da Espanha. Em casa não tinha geladeira, em casa não tinha rádio, mas nós éramos mais felizes. Porque a vida era mais natural e minha mãe tinha mais tempo pra mim do que minha filha tem para meus netos, então acho que tive muita sorte neste aspecto.

EDUCAÇÃO

Eu me levantava mais ou menos às oito horas, a minha mãe me dava pão com manteiga e chocolate e um copo de café com leite, daí eu ia pra escola. Eu tinha uma irmãzinha com três anos a mais do que eu, e nós passávamos num lugar onde havia um cachorro e eu tinha medo do cachorro. Minha irmã passava primeiro e depois falava: "Vem, vem ele não morde." Lembro também que eu olhava a professora como se fosse um ser celestial. Ela vinha de outro bairro, mais bem vestida, tinha mais cultura do que minha mãe, que a mãe dos outros, então nós tínhamos uma consideração muito grande. Muitas vezes os meninos estavam brincando, a professora vinha passando, ela descia do ônibus pra ir até a escola, eles corriam, cumprimentavam, davam um beijo e pegavam a pasta, queriam carregar até a escola.

ESCOLHA DA PROFISSÃO

Um determinado dia minha mãe me mandou numa venda fazer uma compra. Quando eu voltei, ela olhou o troco assim e disse: "Acho que o homem se enganou", isso aconteceu quando eu tinha quatro ou cinco anos. Expliquei pra ela que a conta estava certa, ela ficou admirada, falou assim: "Que garoto inteligente, esse aí vai ser doutor". A profissão de meu pai não ganhava muito, meu avô também era sapateiro, meus tios eram sapateiros, sapateiro de consertar sapatos. Não houve nenhuma influência no sentido de seguir a mesma profissão.

EDUCAÇÃO

Quando eu tinha seis anos, abandonei a escola por causa da guerra e fomos parar na França. Ficamos dois anos lá. A Espanha estava destruída depois da guerra. Ficamos muito tempo em Barcelona e fomos para Maiorca, minha mãe me colocou num colégio interno para filhos de órfãos de guerra, porque meu pai morreu em 1936. Tanto que até hoje nunca ninguém me deu um diploma, nem de primário, nem de secundário. A coisa mais parecida com diploma que eu tenho é uma carteira de motorista. Aliás, eu estudei mais no Brasil, embora tenha chegado aqui com 20 anos. Fiz um curso de madureza. Isso me permitiu adquirir uma cultura bastante razoável, graças a que eu tenho uma memória muito boa, aprendo com uma certa facilidade.

IMIGRAÇÃO PARA O BRASIL

A Espanha teve um processo político radical, saiu de uma monarquia, tentou uma democracia, mas não conseguiu porque a democracia exige um povo politizado. E a Espanha não tinha isso. A luta de classe se tornou tão radical que culminou numa revolução que o Franco pretendia que fosse apenas um golpe de estado, que duraria 48 horas. Só que ele não contava com a resistência do sindicalismo, das esquerdas espanholas muito aguerridas. Conseguiram resistir durante três anos ao Franco. Esse processo custou um milhão de vidas de espanhóis e a ruína nacional. A Espanha ficou extremamente miserável depois de 1939, aí começou imediatamente a Segunda Guerra Mundial. O país estava pagando o dinheiro que Franco havia tomado emprestado pra comprar tanques, aviões, armas. Todo espanhol queria sair da Espanha. Como acontece hoje em Cuba. Pela fronteira da França, todos os dias, milhares de pessoas tratavam de atravessar a cordilheira dos Pirineus. Naquele momento, em 1950, 1951, o Brasil tinha um projeto de industrialização e estava admitindo imigrantes, mas com determinadas profissões. Então, minha família resolveu vir para cá. Minha mãe veio primeiro, porque só havia dinheiro para comprar uma passagem. Depois viemos eu e minha irmã. O Brasil parecia o Eldorado. Eu conhecia muito pouco o país e, geralmente, os espanhóis conhecem o México, a Argentina e os outros países onde se fala o espanhol. Eu imaginava aquelas selvas, conheci o Brasil pela Carmem Miranda. Essa era a ideia que nós tínhamos. Em 1950, quando se jogou o campeonato mundial de futebol no Brasil, eu ouvi falar de São Paulo. Até essa altura eu não sabia que tinha uma cidade que se chamava Recife, sabia que tinha uma cidade que se chamava Salvador, Rio de Janeiro, mas eu não sabia que existia uma cidade que chamava São Paulo e muito menos que eu iria ficar nela o resto da minha vida.

CORINTHIANS

Cheguei ao Brasil em 1952 e fui morar em Santo Amaro. Arranjei logo os documentos pra poder trabalhar. Aí tem que explicar porque que eu sou corintiano. O colega que me acompanhou disse: "Olha, aqui em São Paulo todos os espanhóis são corintianos", e eu falei: "E eu também." Desde 1952, no dia 29 de março, eu me tornei corintiano.

TRAJETÓRIA PROFISSIONAL

Com o documento fui trabalhar numa empresa chamada Indústria Têxtil Gabriel Calfat. Me ensinaram o serviço e eu comecei a trabalhar das seis da tarde às seis da manhã do outro dia. Eu era urdidor. Fazia o que é uma parte do tecido, metade do tecido é o urdume e a outra metade é trama. Eu achava tudo fantástico, tudo ótimo e tem uma coisa: o salário mínimo havia sido implantado naquele tempo por Getúlio Vargas. Uma pessoa que não sabia fazer nada ganhava mil e duzentos cruzeiros. Com mil e duzentos cruzeiros se comprava mil e duzentos guaranás, faça a conta hoje e veja quanto dinheiro é. Uma cerveja custava quatro cruzeiros, dava pra comprar trezentas cervejas, dava para fazer mil e duzentas viagens de ônibus, era outra coisa. Na fábrica onde eu fui trabalhar tinha muito nortista. Eles chegavam do norte e três meses depois compravam terreno parcelado no Jardim São Luís, na Vila das Belezas e começavam a construir sua própria casa. Naquele tempo, os imigrantes vinham ao Brasil pra se arrumar, não que queriam ficar ricos. Queríamos comer pão, manteiga, leite e essas coisas eram abundantes.

SÃO PAULO ANTIGA – SANTO AMARO

Santo Amaro era cidadezinha do interior. Eu adorava, nunca tinha visto aquilo. Aos domingos o trânsito na Rua Capitão Tiago Luz, lá pelas duas da tarde o DSV fechava o trânsito. As meninas iam passear pelo meio da rua e a rapaziada ficava encostada nas paredes olhando pra elas. Se alguma sorria, já sabe, tinha namoro. Eu nunca tinha visto isso na Espanha, isso era coisa de Santo Amaro. Me sentia muito bem, parecia uma cidade do interior, as pessoas se conheciam. Nós éramos convidados frequentemente para bailinhos. A receptividade das pessoas para o estrangeiro era maravilhosa, bem melhor do que para os brasileiros que vinham do norte.

IMIGRAÇÃO

Em 1950, veio muita gente da Espanha, da Itália, da Grécia, de todo lugar, da Alemanha, portugueses e eram todos muito bem recebidos. Acho muito injusto o que está acontecendo hoje. Mas a culpa é dos dirigentes do Brasil. O Brasil tem todas as condições para ter mercado de trabalho pro seus filhos, não precisa que nenhum brasileiro vá mendigar trabalho. Encontrei em Barcelona um rapaz formado em Física trabalhando de servente de pedreiro, ganhando 1200 dólares. Um rapaz que fez faculdade, com uma cultura geral extraordinária. Isso não acontecia quando Getúlio Vargas era presidente.

MUDANÇA PARA O INTERIOR

Trabalhei um ano na fábrica de tecidos e fui pra um lugar chamado Morungaba; cidadezinha muito pequena. Havia apenas uma tecelagem. O homem botou um anúncio no jornal, aqui em São Paulo, e levou gente pra lá. Ele nos colocou nos hoteizinhos da cidade e garantiu o pagamento. Antes de nós recebermos o dinheiro, pagava-se a despesa. Não sobrava dinheiro suficiente pra pagar a Viação Cometa, o ônibus custava quarenta cruzeiros. Porém eu, que sempre fui um pouco mais prevenido, tinha dois mil escondido. O dia que me deu vontade, fiz a mala.

VOLTA A SÃO PAULO

Vim pra São Paulo, fui mascate, trabalhei na companhia telefônica, trabalhei descascando batata no Hotel Esplanada. Lá aconteceu um episódio que eu acho interessante. Havia um espanhol, formado em Direito, lavando pratos. Eu descascando batata e um rapaz que era de Sergipe, analfabeto. Nós dois conversando ficamos abismados: "Rapaz, você tem que aprender a ler e a escrever. Como é que pode?" Aí, ele dizia assim: "E vocês dois que são tão sabidos e estão aqui, lavando pratos e descascando batata." Mas ele não tinha nenhuma perspectiva, não tinha oportunidade enquanto continuasse analfabeto.

TRABALHO COMO MASCATE

Eu tinha dois mil cruzeiros, gastei a passagem e o que sobrou achei uns patrícios em São Paulo que já estavam trabalhando de mascate. Me levaram pra Maria Marcolina, comprei uma colcha, duas calças de brim, uns dois lençóis, umas bugigangas. Tomei um trem e desci em Mauá. Desci e comecei a subir uma ladeirinha. Tinha uma senhora na porta de um bar com dois garotos. Eu disse: "A senhora quer comprar alguma coisa?" Eu nunca tinha feito isso, eu era meio acanhado. "Deixe ver", ela disse. Me comprou cento e vinte cruzeiros, fiquei feliz. Sempre me dei muito bem naquela parte de Mauá, Ribeirão Pires. Quando pegava o subúrbio da Central, que eu ia até Mogi das Cruzes, não me dava tão bem. Gostava mais da Santos-Jundiaí. Foi tudo aprendizado, mas eu era um pouco acanhado pra ir batendo nas portas. Fazia amizade com alguns e depois ficava só visitando os mesmos clientes sempre. Tive um problema com uma senhora que me fez umas compras. Ela disse: "O senhor me deixa isso aqui, a semana que vem eu lhe pago." A vizinha me chamou: "Ela não paga ninguém, ela é uma caloteira." Eu disse: "Minha senhora, eu me arrependi, quero levar a mercadoria." Ameacei ela com guarda-chuva, entrei, ela pegou uma tesoura, começou a gritar. Peguei o que era meu, pus na trouxa e falei: "Acho que essa profissão não vai dar pra mim."

TRAJETÓRIA NO COMÉRCIO

Fui trabalhar na companhia telefônica. Fiquei três anos lá e conheci a minha mulher, a avó dos meus netos. Depois já ganhei um pouco de dinheiro pra poder abrir algum negócio meu. Primeiro eu tive um bar na Rua Joaquim Floriano, foi quando eu comecei a entrar em contato com o bairro do Itaim e com a Rua João Cachoeira. O bar chamava Adega Bibi, vendia vinho. Foi um certo sucesso. Minha sogra, mãe da minha esposa, havia resolvido que deveria trabalhar, fazer alguma coisa, embora a casa dela estivesse bem, ganhava o suficiente. Ela tinha uma mãe doente na Espanha e o irmão escreveu uma carta pedindo ajuda. Ela achou que não deveria mexer no orçamento doméstico, nós morávamos juntos. Ela começou uma busca que culminou com a Franita. Quer dizer, primeiro ela comprou uma banca na feira, me convidou pra ir junto. Comecei a trabalhar por conta própria, que é o sonho do imigrante. Por mais que seja um bom emprego, a gente quer ser dono do seu nariz.

TRAJETÓRIA NO COMÉRCIO – FRANITA

Nossa primeira experiência comercial foi o bar, que não me agradou muito porque as pessoas entravam boazinhas, mas ficavam bêbadas e brigavam. Eu tenho um gênio meio esquentado, não tinha paciência pra esse tipo de negócio. Então, fomos à feira, trabalhamos um tempo. Ela achou que a feira ficava muito na intempérie e abriu uma lojinha na Avenida Santo Amaro, que era uma continuação da banca da feira. Uma loja simples. Parece que quando construíram a Avenida Santo Amaro o local já estava levantado, então ele ficou cortado, de um lado mais estreito e do outro mais largo. Tinha um balcãozinho de madeira que eu mesmo pintei, amarelo e preto. Horrível, mas era o que nos ocorria. Uma vitrininha muito simples, de madeirinha. Começamos a ter algumas pequenas experiências, fazíamos saias. A minha sogra, dona Dolores, teve a ideia de comprar tecidos de forrar poltrona pra fazer saia e colocar uma blusa combinando. Ficava muito bonito. Eu tirava as medidas das moças, minha mulher costurava, minha sogra vendia e nós estávamos indo bem, mas era uma moda passageira. Entre os diversos artigos que havia, tinha umas camisas duráveis, baratinhas, simples, cores firmes e vendia muito bem. Um belo dia o fabricante dessas camisas, o senhor Lago, disse que ele não poderia mais fornecer a mercadoria porque iria viajar. Era 1962, por aí. Minha sogra disse: "Ah, e agora como é que eu faço?" Ele falou: "Por que a senhora não faz as camisas?" Marcamos um dia, cheguei às oito da manhã e ele se limitou a fazer o serviço dele, mas me explicando o que estava fazendo. A oficina ficava no Pari. Resolvemos fazer uma sociedade com a sogra. Sabíamos que no início não iríamos ganhar dinheiro, então meu sogro continuou trabalhando fora. Ele trabalhava na Mercedes Benz, tinha um ótimo emprego. Nos sustentou por um ano. Procuramos um senhor pra costurar fora, o mesmo sistema que usava o senhor Lago. Tivemos muita dificuldade, porque quando íamos na 25 de Março comprávamos tecidos de primeira, que agradavam nossos olhos, agradavam nosso coração, mas as máquinas que nós tínhamos eram muito fracas, muito ruins, e a camisa não ficava boa. Passamos um tempo pastando, cometendo erros, mas aprendendo, nos preparando. Depois, compramos um tecido baratíssimo e fizemos camisas que eram vendidas a 500 cruzeiros. O metro do tecido custava 80. Gastava 1,60 metros numa camisa de manga curta e pagávamos 35 à costureira. Com essas camisas de carregação fomos nos mantendo por certo tempo, começando a obter um pequeno lucro.

MODA E CONTRACULTURA

Até que um dia aconteceu um fato extraordinário. Na década de 1960, os jovens, no mundo todo, ficaram de certa forma com raiva dos adultos, dos coroas, dos burgueses quadrados, [nas escolas] Dante Alighieri, Mackenzie, Bandeirantes. Os professores falavam dos erros que havia acontecido com os adultos na Segunda Guerra Mundial, a guerra da Coreia, a bomba de Hiroshima, a poluição do planeta, tudo isso era culpa de quem? Dos adultos, dos pais deles. As músicas, as poesias, os filmes... Essas coisas influenciaram tremendamente o pensamento dos garotos. Então, o garoto não queria se vestir como o pai. Não queria falar como o pai. Até aquele momento fazia-se uma camisa azul grande e uma pequena, pro pai e pro filho, idênticas. Houve grandes problemas, eles respondiam pros pais. Eram malcriados e eu notava isso nos clientes. Sei dizer que me chegou um garoto com uma camisa e disse assim: "O senhor é capaz de fazer uma camisa como esta?" Eu nunca fui camiseiro, mas era muito atrevido. Olhei a camisa, ela era enorme, era de enfiar pela cabeça, tinha botões que nunca havia usado antes, a gola era redondinha, a manga curta chegava um pouco pra baixo do cotovelo, e o fraldão ia quase no joelho. E o tecido? Branco e azul, xadrezinho, que até aquele momento só tinha sido usado pra fazer uniforme de empregada. Quer dizer, era mais uma maneira de agredir o pai e a mãe. Então, o importante pra Franita é que todo adolescente de São Paulo e até do Brasil queria uma camisa como aquela. O garoto foi embora, esse garoto estudava no Mackenzie. De noite, depois que fechou a loja, eu falei: "Vou copiar essa camisa." Não podia desmanchar, porque era emprestada. Fui passando para um pedaço de papel cada uma das diversas peças sem abrir, sem desdobrar, tinha que adivinhar quanto tecido tinha lá pra dentro. Fiz todo molde. Ele me trouxe um pano horroroso, era uma flanela estampada, não pegava risco. Peguei cada pedacinho de papel, prendi com alfinetes. Fiquei até a meia-noite pra cortar uma camisa, coisa que qualquer garoto que trabalha numa fábrica faz em vinte minutos. Fiz aquela camisa, no dia seguinte levei pra uma senhora mais experiente costurar e a camisa ficou pronta. O garoto chegou: "Tá pronta a camisa?" "Tá." Vestiu, se olhou no espelho, falou: "É isso mesmo, posso deixar mais tecido?" "Pode."Ele me deu dois cortes com o padrão que ele queria, branco e azul, branco e vermelho. Fiz a camisa. Ele veio buscar, trouxe dois colegas do Mackenzie. Foi uma progressão geométrica. Todo mundo no Mackenzie queria uma camisa da Franita. Eu estava vendendo camisa a 500 cruzeiros, essas daí eram 2500, mas na Rua Augusta custava 6 ou 7 mil. E também era assim: deixava o tecido e esperava 10, 15 dias pra ver a camisa. O jovem não quer esperar. De sábado tinha um baile e ele queria estar com a camisa nova. Quem não tivesse uma camisa daquelas não dançava, as meninas não saíam. As primeiras 50 não deram pra nada. Fizemos mais 200. Não deu pra nada. Em breve, ninguém levava as antigas. Como a primeira camisa que o rapaz trouxe de amostra estava escrito "Made in USA", nós chamamos ela de camisa americana. A sala de casa ganhou uma atividade incrível. Aos sábados, vinham 30, 40 clientes. A loja era pequena, entravam 10 e ficavam 30 na rua. As pessoas passavam e diziam: "O que está acontecendo aqui? É camisa de graça?" "É quase de graça." Começou um ciclo extraordinário de crescimento.

TRAJETÓRIA NO COMÉRCIO – EXPANSÃO DA LOJA

Peguei minha bicicleta e fui dar uma volta pra procurar um local, nós estávamos na Avenida Santo Amaro, 1.046 e morávamos na travessa Rua Arminda. Como eu conhecia a João Cachoeira, achei lá um imóvel. Eram 87 metros quadrados. Mas pra nós, acostumados na sala de casa, já era grande coisa. O que nos levou à rua João Cachoeira foi a falta de espaço pra costurar. Era uma rua morta, parada. Dos dois lados da rua tinha sobradinhos, muita criança brincando fora, porque na atual Juscelino Kubitschek havia um córrego e uma pontezinha de madeira. Os carros não atravessavam a rua João Cachoeira, ela era de terra. Não havia comércio nenhum. No local onde nós nos instalamos havia uma doceria, chamava Viena. O comércio do bairro estava concentrado na Joaquim Floriano. Na João Cachoeira, pra não dizer que não existia nada, tinha um barbeiro, tinha o tcheco que fazia coisas de cerâmica, chamava Pátria. Mas não era propriamente comércio, ele vendia o que produzia. Tinha um serralheiro, um barbeiro e uma venda, que chamava "Venda do Chico Preguiça". Na esquina da Joaquim Floriano, havia dois postos de gasolina. Também na esquina o senhor Moisés vendia miudezas, tecidos, zíper, essas coisas. E na outra esquina havia um indivíduo que trocava óleo de carro. Então, a Rua João Cachoeira, até aquele momento, estava adormecida. O que provocou o início da mudança foi a vinda da Franita, que era uma empresa importante. Ela tinha um público ótimo, classe média alta. Os adolescentes naquele momento podiam comprar roupa, os pais estavam bem.

CARACTERÍSTICAS DA LOJA

Inicialmente, era uma oficina de costura. Existe lá uma escola que chama Ministro Costa Manso. Os garotos passavam na frente e ficavam olhando pra dentro. Eles tinham a idade específica de nossos clientes, adolescentes. Virei uma prateleira que olhava pra dentro, pra olhar pra fora, botei um balcão de madeira e começamos a vender. Ao mesmo tempo, a Avenida Santo Amaro começou a ter proibição de estacionar. Quando começaram a multar e a proibir, nós oferecemos aos clientes a oportunidade de ir para o Itaim, na Rua João Cachoeira. Fizemos um mapinha e tudo e eles davam preferência à João Cachoeira. Nossos clientes começaram a estacionar, também com grande facilidade, não havia nada. Não havia zona azul, não havia trânsito, não havia farol no cruzamento. Eles achavam ótimo.

FORMAS DE PAGAMENTO

Era tudo pago em dinheiro. Eu não sabia o que era um cartão de crédito, basicamente. Não aceitava cartão de crédito, não tinha cheque pré-datado. O preço era muito barato e as pessoas compravam à vista. Não tínhamos nenhum incentivo às vendedoras, porque vendíamos mais depressa do que éramos capazes de produzir.

MILAGRE ECONÔMICO BRASILEIRO

Depois de 15 anos, fomos descobrir que não sabíamos vender, que aquela fase maravilhosa tinha passado e que tínhamos que aprender. Nós não vendíamos, o cliente é que comprava, o que é diferente, sabe. A verdade é eu não tinha necessidade. Aos sábados, dava uma hora e a minha sogra começava a bater palma, botar os clientes pra fora. A procura era muito maior que a oferta e nós éramos improvisadores. Estávamos lá vendo o que acontecia, era o tempo do milagre brasileiro, corria muito mais dinheiro do que hoje.

SÃO PAULO ANTIGA - ITAIM

O bairro do Itaim era uma chácara, nas plantas antigas ele ainda consta como chácara Itaim, proprietário Couto Magalhães. Fizeram o loteamento e as ruas principais ganharam os nomes dos membros da família. Tinha a Rua Bibi, tinha a Rua Joaquim Floriano, Renato Paes de Barros e a nossa rua ganhou o nome de um escravo. João Cachoeira era o escravo querido da família porque tocava violão, cantava e contava histórias, causos antigos. A rua que era do escravo foi a que mais cresceu.

DESENVOLVIMENTO DA RUA JOÃO CACHOEIRA

Com a vinda da Franita e com a grande freguesia que nós tínhamos, outros comerciantes ficaram admirados, resolveram se estabelecer perto de nós pra aproveitar aquele fluxo. A rua era barata, não se pagava ponto, não havia nada disso. Depois de algum tempo abriu bem na nossa frente uma loja que vendia calças. Uma das calças que eles vendiam chamava-se "Calhambeque". Eles patrocinavam um programa da Record, Jovem Guarda, com um jovenzinho que tinha a perna assim meio defeituosa, o Roberto Carlos. Depois veio a loja Porto Belo. O importante é que a rua tinha característica própria. Todo mundo fazia camisa moderna, direto da fábrica, barato, garantido e atualizado. Todas as lojas vinham com a mesma característica. Naquele momento, a classe média de São Paulo podia comprar na Barão de Itapetininga alguma coisa sofisticada, podia comprar carregação na José Paulino, podia comprar também carregação no Brás ou na Rua Augusta. Augusta era o comércio chique de São Paulo. O shopping Center não havia sido inventado no Brasil. A localização da João Cachoeira era excelente e ninguém havia descoberto antes como aquela rua era boa. Então, cresceu rapidamente, aqueles sobradinhos foram todos vendidos para comerciantes. De certa forma os moradores foram expulsos, mas quem tinha uma propriedade ganhou dinheiro. O movimento imobiliário foi fantástico. Chegou um ponto em que ela parou de crescer, por três motivos: fim do milagre brasileiro, construção de shopping centers, descaracterização da rua. Aqueles jovens que tinham vontade de fazer coisas novas e tal começaram a ficar mais velhos, acomodados. Alguns devem ter ganhado muito dinheiro, já não precisavam tanto. Vieram os coreanos, vieram outros tipos de comércio. As modas mudaram. Até hoje é uma boa rua de comércio, mas já foi melhor.

ORIGEM DO NOME DA LOJA

Minha esposa chamava Anita e eu chamava Francisco. Juntei o nome inteiro dela com uma sílaba do meu. Fran-Anita, Francisco e Anita.

CRISE

As mães foram apreciando as camisas e comprando também pra si mesmas, para os maridos, pros filhos menores e nós ficamos encantados. Nós tínhamos uma freguesia, que foi a que nos fez crescer, que era de adolescentes. Eles envelheceram, a camisa perdeu a importância. Nós vendíamos mais porque vendíamos para toda a família. Então, continuamos, até que caímos do cavalo. Ellus vendia muito bem, Gledsom vendia muito bem, eles vieram na nossa cola e nós havíamos envelhecido. Nosso produto tinha se tornado comum. Um belo dia fomos olhar o estoque e tinha 30 mil camisas que ninguém queria. Depois de mais de 20 anos de trabalho, Franita fez a liquidação. Camisa a preço de sanduíche, dizia a propaganda. O cara mandou fazer um pão, cortou no meio, encheu de camisas e fotografou. Chamamos uma empresa pra nos ajudar, porque realmente não sabíamos o que estava acontecendo, estávamos em sérios problemas. Essa empresa disse: "Primeira coisa que tem que fazer é distribuir as funções dentro da empresa. Tem que estimular, tem que modernizar essa loja, está horrorosa. Parece uma loja de faroeste. Essas meninas que trabalham para o senhor nem sabem quem é o chefe delas. Elas obedecem a todo mundo. " Naquele momento, comecei a me interessar seriamente por esse problema das vendas. O meu cunhado, que havia entrado com a morte do pai dele, foi cuidar de banco, pagamentos, impostos, salários. Minha esposa cuidou da costura. Eu fiquei liberado para cuidar exclusivamente de vender. Comecei a me preocupar em motivar as vendedoras, em dar comissões, que nós pagávamos só salário. Não havia nenhum motivo pra que elas tratassem de vender mais. Logo na primeira conversa com as vendedoras expliquei a situação pra elas. Só dessa conversa a venda já começou a aumentar. Hoje, eu penso que nosso atendimento é muito bom. Se a empresa tem problemas, está mais situado em outros setores, não no de vendas.

QUALIDADE DOS PRODUTOS

Nós continuamos vendendo direto da fábrica, então o preço é sempre bom. Mas não estamos sós no mercado. Hoje temos fortes concorrentes, empresas com capital maior. Mas ainda continuamos tendo um artigo de confiança. Em 30 anos, jamais vendemos gato por lebre. Uma coisa sempre conseguimos: o cliente confia na Franita, porque nunca enganamos ninguém: "Ah, uma camisa deu um defeitinho? Pois não, leve outra." Essa reposição pronta é que nos trouxe essa adesão, essa confiança.

NOVOS RUMOS

Mudamos aquela orientação de fazer uma determinada camisa e descobrir quem quer. Começamos a nos preocupar, saber que sem o cliente a empresa não funcionava. Fomos abrindo lojas em diversos pontos. Antes de colocar uma moça atrás do balcão, havia uma seleção, um treinamento. Entretanto, algumas coisas ainda não estão bem resolvidas. Nunca mais voltamos a ter um produto forte, como aquela camisa que os jovens queriam. Somos uma empresa que faz camisa, que vende ao público, mas estamos comparadas com outras do mesmo nível. Porém, houve uma coisa positiva. Os filhos foram crescendo e eu, durante muito tempo, queria que meu filho nos substituísse, mas ele fez Belas Artes, queria fazer serigrafia. Repentinamente surgiu a menina do meio, que havia estudado Enfermagem, mas ela também chegou à conclusão de que como enfermeira não teria grande sucesso. Ela disse: "Pai, eu assumo a responsabilidade por dirigir a empresa." "Vamos ver." Uma das coisas que trás problemas nas empresas familiares é essa mudança dos mais velhos para os mais jovens, e isso nós fizemos sem trauma. Ela ficou ao meu lado por um certo tempo e depois disse: "Pode deixar que eu assumo." Hoje, eu cuido de uma parte de treinamento, de implantação de um programa de qualidade total, mas os problemas mais sérios, a minha filha Rosana que resolve.

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