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O narrador de Caucaia

História de: Padre Tula (Francisco Antonio Cavalcanti de Menezes)
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Publicado em: 19/12/2014

Sinopse

Historiador, filósofo e teólogo de formação, Padre Tula foi paróco de várias igrejas de comunidades do município de Caucaia durante mais de 30 anos. Filho de pai militar, poeta e cordelista e mãe professora de piano, a infância foi permeada pela cantoria e pela poesia recitada nos saraus em casa. Desde cedo surgiu sua vocação sacerdotal, e ao mesmo tempo, a sensibilidade artística. É poeta, músico e cantor, com livros publicados e CDs gravados. Militante da Teologia da Libertação, combinava a crítica social ao pregar o evangelho. Por conta disso foi ameaçado de morte, escapou de uma emboscada. Recentemente curou-se de uma câncer. Está para publicar a história de Caucaia, por meio da história da linha férrea que passa ao lado da casa onde nasceu e vive até hoje.

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História completa

Meu nome é Francisco Antônio Cavalcante de Menezes, mais conhecido como Padre Tula. Tenho esse apelido “Tula” desde pequeno, por causa de uma cachorrinha da família chamada “Tulipa” que estava sempre perto de mim. Eu nasci na cidade de Caucaia (CE), no dia 8 de novembro de 1950, às seis horas da noite. Eu nasci na casa em que moro até hoje. Eu sempre digo que os meus pais enterraram o meu umbigo aqui nessa terra, daqui eu saio, daqui ninguém me tira.

O nome dos pais, Romeu de Castro Menezes e Maria Cavalcante de Menezes, conhecida como Jandira. Tive cinco irmãos. Era Marcelo, Pedro Paulo, Rita de Cássia, Francisco Antônio, que sou eu, e Francisca Cavalcante de Menezes, a irmã mais nova.

Meu pai era militar. Ele chegou até o posto de coronel e minha mãe era doméstica, do lar. Ele tocava violão, sanfona, piano, todos os instrumentos. Ele era músico, compositor, cantava, seresteiro. Ele tinha um grupo e chegou a montar uma rádio na cidade. Ele era um homem muito bom, amável, mas também um homem de muita energia com os filhos. Ele era um pai carinhoso, mas na hora de agir com fortaleza ele agia e a gente tinha que obedecer. A mamãe era sempre aquela criatura de uma mãe que gosta de mimar os filhos, sobretudo os mais novos. Mas não poupava a maneira de falar forte para nos trazer um legado muito importante na nossa educação. A gente deve tudo na nossa vida hoje graças a essa presença amorosa, afetiva e também de força na educação. Mamãe também tocava piano e cantava em casa, ensinou muita gente também. Nasci e cresci num ambiente musical.

Minha infância, como a de uma criança naquela época, foi uma infância muito ao lado dos pais e também da família. A gente jogava no campo feito no terreiro de casa. Jogávamos bila, cabiçulinha e futebol, a brincadeira preferida da gente.

Eu toco e canto, aprendi vendo os outros tocarem. Todos os meus irmãos tocam. Só tem três vivos, os dois primeiros morreram, os outros são compositores também, os dois, só as duas meninas que não compõem, mas elas tocam acordeão e tocam piano também.

Eu tenho 16 CDs gravados. Religioso, sertanejo, a gente vai variando no estilo. Fiz a Missa de Vaqueiro todinha ela no verso cantada.

Sou cordelista e escrevo poesia. Comecei a escrever quando papai morreu. Pra cobrir essa lacuna com a sua ausência eu tive que, com a minha espiritualidade, com a minha fé, eu tive que procurar um meio de eu me apegar e não esquecer, me conformar e ao mesmo tempo aprender a conviver com a ausência dele. Então a inspiração do que ele me ensinou, a tradição de tudo que ele deixou, o legado, eu comecei a escrever. Primeiro eu fiz um CD com músicas só em homenagem a ele.

Fiz História, Geografia e Teologia. No momento eu estou construindo a história da ferrovia que passa em Caucaia. É um cordel. Eu vou colhendo do povo daquilo que vão me dizendo eu vou construindo os versos, como se eu tivesse andando no trem. Hoje no ontem da história apontando para o futuro. Pra ver se reconstitui a ferrovia. Depois eu faço toda a linha. Então isso aí faz com que a gente vá descobrindo que um povo sem memória é um povo fadado ao fracasso sem sucesso.

Me tornei padre com certa influência do ambiente religioso que existia em casa. Mas não tive aquela definição clara: “Eu vou ser padre”. Só depois que eu fui me descobrindo. Com 16 anos, eu saí do seminário e fui fazer as universidades. Namorei, voltei de novo pro seminário, quando estava no seminário eu passei no curso de Teologia, quando estava faltando dois anos eu resolvi sair. Eu sempre tive essa ideia liberal de trabalhar nas massas, trabalhar com povo e tal. Aí eu saí do seminário e o bispo não me ordenou quando eu terminei meus estudos. Três anos depois foi que ele me ordenou padre.

Eu comecei aqui por volta de 1967, eu era seminarista ainda, acompanhava muito um padre do regional nordeste um, que ele viajava muito lá pra Crateús, pra Dom Fragoso, que era um dos baluartes dessa história das CEBs, das Comunidades Eclesiais de Base. Tinha um trabalho de ver o evangelho e a vida, de lutar pelos direitos dos trabalhadores e também eu comecei a acompanhar aquelas reuniões e comecei a gostar. Também foi na época do da grande conferência de Medellín, de Puebla, que eu lia muito, interessava-me muito e achava bem que a igreja estava caminhando o rumo certo. Acho que ela estava sendo fiel a proposta de seu fundador. Jesus Cristo deu predileção aos pobres, ele ia ao encontro das pessoas, ele queria resgatar as pessoas, tirar as pessoas excluídas das situações que estavam.

Eu me ordenei em 1979 em Caucaia, na época era uma terra onde predominava o poder político dos coronéis. Vereador mandava em igreja: “Os padres são como que marionetes”. Então naquela época eu surgi como uma opção diferente. Eu comecei a levar o evangelho contextualizando na vida. Por que você sofre? Por que você é assim? Que tipo de política nós temos aqui? Você vive assim, é oprimido, marginalizado pelo tipo de política, de situação social. Então comecei a colocar a proposta de Jesus Cristo e o evangelho e a vida dele, fazer o paralelo, a fé e a vida. Então eles começaram fazer essa reflexão comigo e o pessoal começou a acreditar uma esperança de uma nova vida. Os políticos que dominavam na época tinham raiva de mim, porque diz que eu tinha a língua grande, porque eu falava, porque não era pra fazer isso. Porque o pessoal começava a se libertar, pessoal começava a querer construir a sua identidade, a sua história. Eu comecei a pensar diferente, por causa disso eu fui ameaçado de morte umas quatro ou cinco vezes, cheguei quase a morrer. Nós começamos descentralizar o povo das igrejas dominadas para celebrar debaixo de cajueiro, nas calçadas dos grupos, pra começar a formar comunidades libertadas. A religião era o símbolo do poder, da dominação. Então nós tínhamos que libertar a religião do poder. A religião não pode ser fruto do poder. Na época, antes também, o político carregava o padre pra celebrar missa, o padre tinha que tomar café na casa do político.

Naquela época comparando aos dias de hoje, Caucaia vivia um atraso econômico, político e social muito grande. Eu como filho da terra, claro, consciente dessa realidade, não poderia ficar de forma alguma alheio a essa situação. Eu não podia compactuar com esse pensamento, inclusive nós tínhamos intelectuais em Caucaia que se excluíam de pensar, de refletir essa realidade com medo, não sei, ou então acomodados por qualquer motivo, não enfrentavam a proposta de cara. E por causa dessas minhas ideias eu tentei, comecei a refletir devagarinho com algumas pessoas, comentar com algumas religiosas, com colegas sacerdotes, com seminaristas, que era viável a gente começar a fazer um trabalho de reconhecimento e de reconstituição da nossa história para poder despertar o novo modelo de vida. Uma proposta de vida nova pra Caucaia. Então foi na época que eu comecei a me interessar pela história de Caucaia. Fui buscar desde as raízes, como foi a nossa colonização, como foi a proposta da igreja vir de Portugal com aquela empreitada de fazer valer a força do colonizador, a igreja ligada ao estado, ao poder e não poderia mais ser, em muitos cantos já havia esse aspecto de libertar o povo, a igreja tinha que ter uma proposta nessa linha. Então comecei a refletir com algumas pessoas, mais havia uma resistência muito grande.

Sobre as obras do Complexo Industrial e Portuário do Pecém, ele trouxe muito avanço. Mas a gente sabe que todo desenvolvimento, todo avanço que existe, existe uma dívida social. Por quê? Porque mexe com pessoas, mexe com estruturas, mexe com comportamento, mexe com o habitat. Pessoas que, por exemplo, viveram a vida toda, seus ancestrais, avós, bisavós, pais, mães, naquela terra, naquele quadrado, naquela casa antiga e se vê na situação de sair pra morar noutro canto. Quer dizer, há uma quebra de estrutura muito forte na sensibilidade das pessoas. É para o progresso, mas como equacionar o progresso com essas dívidas, com esses problemas? Como preparar o povo? Acredito, eu não sei, não foi muito bem preparado. Talvez tenha havido reuniões na época, tudinho, mas devia ter sido preparada uma longa caminhada, mostrar o alcance, o tamanho desta obra. Porque a tendência é aumentar, a gente sabe disso muito bem.

Eu me senti muito bem contando a minha história porque me fez pensar mais no meu passado, meu passado, na minha vida, na minha infância. A gente se sente ao mesmo tempo valorizado e esse testemunho serve para as pessoas que vão ouvir, um testemunho de alguém pode influenciar, quer queira ou não, em alguém ouvindo essas histórias. A maneira que eu falei. A minha fé, sobretudo a minha fé. O acreditar na vida, na existência de uma sociedade diferente. Sei lá, eu acho que isso foi uma oportunidade muito gratificante porque eu fui capaz de externar meus pensamentos, minhas ideias para outras pessoas ouvirem e terem assim como, não diria como manancial de conhecimento, mas como referencial de vida, uma pessoa que tem um referencial de vida. Todos nós devemos ter um referencial de vida e passar esse referencial para alguém. É uma oportunidade que teve porque a gente mergulhou lá no fundo da nossa identidade. Isso é muito bom porque, como eu dizia há pouco a você, a gente tem que ter uma identidade, tem que ter uma cara. Tem que mostrar uma personalidade, o que é, ninguém pode ser duas caras, não. A gente tem que ser muito sincero com a gente, dizer aquilo que pensa, que sente e isso eu acho importante no dia de hoje porque a gente vê que as pessoas estão muito assim, de uma hora pra outra mudam de comportamento, de cara, não é o que é. Eu acho que as raízes da gente nós temos que levar em conta. Uma vez uma pessoa me contou uma história, ele morava aqui no Ceará, aqui em Caucaia, ele foi embora pra São Paulo. Passou uns cinco anos, dez anos aí de repente ele chegou na casa do pai dele no sertão, fazendinha pequena. Eu perguntei: “Mas por que tu veio embora? Tu não tá lá tão bem?” “Não. Vim-me embora. Eu vim buscar um pouco das minhas raízes, da minha cultura que eu estava perdido. Eu estava sem identidade. Tinha identidade no meu bolso, mas eu estava sem identidade. Estava perdido naquela multidão de São Paulo e eu vim beber um pouco da minha fonte onde eu nasci, do leito mugido da vaca que eu tirava, do cheiro de curral que eu sentia, das cabras que eu corria”. Pô, achei interessante isso, aí eu escrevi uma poesia, não lembro como é. Quer dizer, aí o que isso me trouxe? A gente tem que buscar de vez em quando as nossas raízes para recompor a nossa identidade. Porque num mundo muito globalizado, doido, corre-corre, a gente acaba perdendo um pouco da identidade da gente. Então a gente tem que voltar. “O que é que eu era? Vou buscar minha história. Vou buscar minha história pra chegar e me encontrar novamente porque é que eu estou aqui”. Então acho isso aí fundamental.

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