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História

O mundo na ponta dos dedos

História de: André Rogério Graça
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/05/2004

Sinopse

André começa narrando como os pais saíram da mesma cidade pequena em Sergipe e se encontraram em São Paulo. Relata que começou a perder a visão ainda no primeiro ano do ensino fundamental e que gradualmente foi aprendendo a lidar com essa condição graças ao empenho pessoal, da família e de instituições de apoio ao deficiente visual. Apresenta como se capacitou e trabalhou como programador e posteriormente advogado no Aché Laboratórios Farmacêuticos, cargo que assume até a data da entrevista.

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História completa

P /1 – Pra começar, queria que me dissesse o seu nome completo, local e data de nascimento. 

 

R – Meu nome é André Rogério Graça, nasci em 13 julho de 1976, em São Paulo.

 

P/1 – A tua família é de São Paulo mesmo, André?

 

R – É. Minha família, originariamente é nascida no estado de Sergipe, mas o meu pai veio para o interior paulista com três anos de idade, então foi criado no interior de São Paulo, veio pra capital em 67, se não me engano. A minha mãe é de Sergipe, mas foi pro Paraná, agora a data não me lembro, mas sei que ela está em São Paulo desde 1970.

 

P/1 – O que você sabe da família do seu pai e da sua mãe lá em Sergipe?

 

R – Eu sei assim, que meus avós, todos os meus avós, paternos quanto maternos, eram da mesma cidade e se conheciam. Meus avós foram criados mais ou menos juntos, desde criança, cidade pequena, área rural. Os meu bisavós, de um lado, não me lembro qual, foram fazendeiros, grandes áreas de terra, mas depois com a seca, acho que teve, essa seca histórica que teve, acho que em 1933, ou foi em 35, prejudicou muito eles lá. Eles nessa época acabaram saindo de lá, sei que a minha avó materna se casou lá mas, em seguida, veio pro interior com o meu avô, que as atividades dele eram sempre viajando. Ele gostava de viajar, fazer comércio, sempre indo de um lado pro outro, sei que meu pai nasceu em Sergipe, numa dessas idas e vindas pra lá, mas veio, ficou lá acho que dois ou três anos, e veio pra São Paulo. Aí não voltou mais.

 

P/1 – Que cidade era em Sergipe? 

 

R – Eu acho que é Nossa Senhora da Glória, Itabaiana, e como nunca fui pra lá, não conheço muito. Eles falam nas cidades eu faço muita confusão. 

 

P/1 – Como se chamavam os pais dos seus pais, você sabe?

 

R – Do meu pai, a minha avó é Maria Marcelina e meu avô, se não me engano, é que não conheci, já é falecido, era... minha avó chamava ele de Lourival, mas ele tinha um outro nome...Agora não me lembro. 

 

P/1 – O que eles faziam lá em Sergipe?

 

R – Então, minha avó, até se casar, ela trabalhava com o pai, o meu bisavô, na roça, área rural, plantar cana, cuidar de gado, tirar leite. Naquela época, se casava muito cedo, então, minha avó se casou acho que com...20... e ela fala que já estava ficando pra titia, porque ela se casou com 25, 26 anos, que ela já era meio velha, as irmãs já tiravam com ela, falando que ela ia ficar pra titia, porque 26 anos não tinha casado... estava encalhada. 

 

P/- E ela casou com o seu avô Lourival.

 

R – Meu avô Lourival, é. 

 

P/1 – O avô Lourival fazia o que? 

 

R – Ele mexia, acho que com comércio, mas essa coisa meio caixeiro viajante, está sempre viajando, pra cima, pra baixo, tanto é que, segundo minha mãe conta, o pai dela não queria que ela casasse com ele, porque ele era, como vivia pra cima e pra baixo, ele achava que ele era homem que tinha quatro, cinco mulheres, não tinha uma vida muito...Tanto é que a minha avó casou meio brigada. Ela conta essa história. Ela ficou muitos anos sem falar com a minha bisavó, mãe dela, e depois de muitos anos ela voltou lá. Esse pessoal antigo eles têm uma facilidade pra guardar mágoa assim, eles guardam, e cria assim, vira inimigo mortal, e coisa assim que não pode cruzar a rua que... Hoje em dia é meio lenda, né. Parece história de livro. A minha avó conta e a gente dá risada. Mas sabe que ela é assim, nesse ponto ela sofreu bastante, ela ficou longe, não tinha notícia, ela estava só em São Paulo. 

 

P/1 – O que ela conta da vinda pra São Paulo?

 

R – Ah, de que ela foi muito sofrido, veio pra cá, interior, era muito sofrido. Vieram pra cá no, como é que chama aquilo. Aqueles caminhões, pau-de-arara, né, duas semanas vindo, uma coisa assim horrível, bom, naquela época era assim, não tinha, aquela época não, acho que até hoje às vezes acontece essas coisas. Mas ela disse que São Paulo é melhor. Ela nunca quis voltar pra lá, de jeito nenhum.

 

P/1 – Por outro lado, a família do teu pai morava também na mesma cidade.

 

R – Não, esse que estou falando é meu pai. A minha mãe também. Só que a minha mãe, o meu vô, ele sempre foi, do lado da minha mãe, ele sempre foi da área de comércio. Eles tinham roça e tudo, mas eles plantavam, tinha leite e tudo e ele vendia nas feiras, ele sempre gostou de vender. Meu vô tem uma lábia pra comércio, 75 anos, pouco estudo que ele tem, ó, a gente com aquela calculadora HP, a calculadora erra o troco. Ele não erra não. Dá diferença ele fala: “ó, pode refazer que está errado.” A cabeça pra... mexeu com dinheiro, então, uma beleza. Ele pode errar no troco, pro lado dele. Sempre foi assim. Época de seca também lá, eles vieram mais depois, eles vieram pro Mato Grosso, ficaram lá, depois foram pro Paraná, em fazenda no Paraná quando tinha aquela época de colheita de café, ficaram acho que três, quatro anos lá, aí resolveram vir pra São Paulo.

 

P/1 – E a tua avó ajudava o marido nesses trabalhos?

 

R – Ela cuidava da casa, minha mãe são em 12 filhos, todos eles faziam os serviços de casa, domésticos, e trabalhavam todos na roça. É esse esquema de arrendamento, né, o fazendeiro tem a fazenda, vem a família e ele arrenda uma parte e todo o mundo tem que trabalhar pra gerar o sustento. Minha mãe conta boas histórias dessa época dela no Paraná. Disse que eles passaram dificuldades, tudo, mas eles ficaram numa fazenda que eles foram bastante prósperos, era uma terra muito fértil, eles produziam muito, e tanto é que eles juntaram dinheiro e resolveram sair, da, meus tios mais velhos que mamãe, resolveram vir pra São Paulo, começar uma coisa diferente, que a roça chega uma hora que não dá mais, é um serviço braçal terrível também.

 

P/1 – O que ela conta do dia a dia dela de infância e juventude? Ela ia pra escola também, tinha muita brincadeira ali na fazenda?

 

R – Tinha. Tinha uma coisa que eles trabalhavam desde cedo, eles iam pra escola uma parte do dia. Pouco tempo também. Como todo o mundo tinha que trabalhar, o período de escola era curto. Era aprender a ler e escrever, e muitos dos meus tios fizeram o complementar aqui, quando vieram pra São Paulo.

 

P/1 – Essa viagem pra São Paulo ela te contou alguma coisa?

 

R – Não, isso ela nunca, nunca lembro de ela ter contado essa vinda pra São Paulo. Sei que eles resolveram vir, ela mais meu avô, vieram com um dos meus tios e, antes de vir ele já comprou uma casa aqui, que é aqui no Jaçanã, que nós temos até hoje, pra quando viesse todo o mundo, sem problemas de onde vai ficar, onde vai morar.

 

P/1 – E vieram todos morar nessa casa do Jaçanã. Como é essa casa?

 

R - Não é uma casa muito grande não. É um terreno grande, deve ser uns seis metros de frente por uns 50 a 60 de fundo. Mas não é uma casa muito grande não. 

 

P/1 – E os 12 filhos foram morar lá.

 

R – Ah, sim. A casa acho que tinha dois ou três quartos, era tudo assim, juntos. Aí começaram a crescer, os mais velhos começaram a casar, vai casando e saindo de dentro de casa. Já em São Paulo, minha mãe casou em 75, então meu tio mais velho ele casou um pouco antes dela, então assim, eles ficaram pouco tempo todo o mundo na mesma casa. Dois, três anos, não foi assim tanto tempo. E minha mãe conta que ela ajudava a minha avó em bastante coisa. Ela lavava boa parte da louça do almoço, ela tinha que lavar ou à noite. Aí ela veio pra cá pra São Paulo e começou a trabalhar fora. Numa fábrica de bolsas, que tinha no Jaçanã. Agora o nome...Não me recordo. Sei que ela saía, ela trabalhava o dia todo, e quando chegava à tarde, ela ia pra escola às sete horas pra fazer o curso de complementação, supletivo, mas ela falava que, antes de ir pra escola, tinha que lavar a louça. Era serviço dela. E louça pra 14 pessoas. Não é fácil. E ela também, ela falou que ela ajuda, ela tem tias que têm 30, 32 anos, minha mãe tem 46, então ela com 10, 12 anos, ela tomava conta dos meus tios, que eram crianças assim, três, quatro, bebês, ela cuidava, ela trocava, punha pra dormir, cuidava, ajudava a minha avó. Todo o mundo, as tarefas domésticas eram mais divididas entre as mulheres. Só que a minha mãe, das mulheres, ela era a mais velha. Eu tenho uma tia que é a mais velha de todas, mas ela casou bem logo. Então quando eles vieram pra São Paulo, ela já casou. Então ela não veio pra cá. Não veio pra mesma casa. Então das mulheres, minha mãe era a mais velha. Todas eram crianças. Minha mãe era, 13, 14 anos, ela tinha que ajudar a fazer todo o serviço.

 

P/1 – E teus avós aqui em São Paulo, começaram a trabalhar com o que?

 

R – Meu avô, sei que ele trabalhou no Mercadão Municipal, ele trabalhou em feira, sei que por último ele era feirante. Até uns dois ou três anos atrás ele era feirante. Vendia essas coisas de fumo de corda, que o pessoal, os antigos, gostam, pano de prato, aquele negócio, rapé, que põe pra a pessoa espirrar, acho aquilo horrível. É um pozinho assim. Ele vendia essas coisas. Aí, já com idade, uma vez ele foi atropelado e a coluna dele nunca ficou legal. Então meus tios, agora têm uma condição melhor, falaram pra ele parar, eles ajudam...

 

P/1 – Ele está vivo o teu avô?

 

R – Tá, tá vivo. Tem uma saúde boa, mas ele não vai mais pra feira. É extenuante, feira é um trabalho bastante cansativo. 

 

P/1 – Você lembra de ter ido alguma vez na feira, com o teu avô?

 

R – Não. Fui com a minha mãe, encontrei ele na feira, mas ter ido com ele, não.

 

P/1 – E a tua avó, por sua vez, fazia o que nesses primeiros anos de São Paulo?

 

R – Ela ficava em casa, fazia serviço de casa. Cuidava da turma. 

 

P/1 – E a tua mãe conta como é que foi chegar na cidade grande, como é que era a cidade naquela época?

 

R – Ah, eles estranhavam tudo. Era tudo muito grande, e ela disse que sofria muito preconceito, porque eles eram do interior, e o pessoal que era daqui, tirava sarro, explicava as coisas de forma errada, então eles iam pra algum lugar, se perdiam, porque ensinavam errado, tirava mesmo, porque existia aquele preconceito, paulistano com pessoal do interior, e do nordeste. Ela falou que isso era ruim. Eles não tinham muita amizade com o pessoal daqui, porque viu que o pessoal daqui não vinha ajudar, vinha usar de sacanagem. Então, às vezes, não tinham tanta amizade. Se bem que eles encontraram gente muito boa. Nessa rua onde minha avó mora, ela tem uns quatro ou cinco vizinhos assim que são, estão lá com eles acho que tem 30, 40 anos na rua. Pessoal antigo, eles têm ótimas amizades assim. Ajudaram muito na época que eles estão aqui, foi bem legal.

 

P/1 – E a tua mãe estudou também aqui em São Paulo.

 

R – Estudou. Ela fez ginásio.

 

P/1 – E a família do teu pai foi morar onde?

 

R – Então. Os meus avós, por se conhecerem em Sergipe, mas meu pai e minha mãe se conheceram aqui em São Paulo, apesar de serem da mesma, próximos, se conheceram aqui. Meu pai veio pro interior, cresceu no interior, de São Paulo...

 

P/1 – Você sabe em que cidade?

 

R – É Lucélia. Lucélia e Adamantina.  Aí meu pai bem cedo teve que trabalhar também, pra ajudar a minha avó, ajudar em casa, e começou a trabalhar acho que com 13, 14 anos, lá no interior. 

 

P/1 – E lá faziam o que?

 

R – Então. Meu pai começou na construção civil, naquela época era mosaico. É aqueles ladrilhos pequenininhos que põe no chão, um preto e um branco. São Paulo tem bastante. Uns têm uns desenhos do mapa de São Paulo, preto e branco assim, é o começo de colocação de revestimento. E ele começou como servente nisso. E aí foi aprendendo a fazer. Aí começou a aparecer serviço, ele foi pro Paraná, trabalhou no Paraná, ficava dois, três meses fora, e trabalhava no interior de São Paulo, e começou a aprender. Aí quando foi em 67 ele veio pra São Paulo. Falaram que tinha um serviço, dessa coisa melhor, ele já tinha conhecimento, ele veio pra São Paulo, começou.

 

P/1 – Ele veio sozinho? 

 

R – Ele veio só. Ele ficou, acho que sete, oito meses, um ano, aqui, sozinho. Aí quando ele conseguiu se acertar, essa área de construção, ele nunca foi registrado. Sempre foi autônomo. Quando ele começou a pegar algum serviço bom, que dava um bom dinheiro e que ele tinha uma seqüência de terminar um e já começar outro, já tem indicação de trabalho, aí ele arrumou uma casa aqui, aí trouxe minha avó e meus tios. 

 

P/1 – A família é grande, também?

 

  1. Não, são em cinco. 

 

P/1 – E lá no interior a sua avó trabalhava?

 

R – Trabalhava em casa, e lavava roupa pra fora, passava roupa...

 

P/1 – Ele conta alguma coisa das brincadeiras, do dia a dia lá do interior?

 

R – Ah, sim, ele falava que a escola começava a pegar muito no pé deles, que naquela época quem aprontava apanhava. E ele não era, nunca foi santo na escola. Quando chegava na hora do recreio, o que eles faziam? Ele e mais meia dúzia de moleques. Eles saíam da escola, escola do interior, saíam da escola e quem diz que voltavam pra aula. Eles iam pra beira do rio, pescar, nadar, meu pai foi criado assim. Ele conta que eles tinham um trem lá em Lucélia, e tinha uma ponte. E eles tinham o costume de quem era mais corajoso. Então eles subiam na ponte do trem assim, ele se apoiava na pilastra, embaixo do trilho do trem e ficava esperando o trem passar. Pro trem passar em baixo, e eles sentirem aquele, porque passa, balança, né, então eles falavam quem não tinha medo de subir. Ele subia, escalava aquela coisa, ficava pendurado em baixo, perigoso pra caramba. Desequilibra daquilo, era uma vez. 

 

P/1 – O trem passava por cima ou por baixo?

 

R – Por cima assim. E ficava por baixo do trilho, encostado, acho que era preso na coluna, se segurando nas colunas da ponte, pro trem passar em cima. Só pra sentir o barulho, aquele balançar, sentir aquele negócio que parece assim que vai cair. Um negócio que eu não faria nem a pau. Morro de medo de altura [risos]. Aí eles pulavam pro rio, aprontavam mil e umas. Aprontavam mesmo. 

 

P/1 – E os tios, tinha algum tio que era mais amigão do teu pai?

 

R – Meu pai é mais velho e tem bastante diferença, bastante diferença não, ele sempre foi mais arteiro. E os outros tios sempre foram mais sossegados. Então ficavam mais perto da minha mãe. Então ele tinha uma turma de amigos que eles estavam sempre juntos. Aprontavam todas. Ele falava que eles iam nas fazendas, tinha os cavalos encostados na cidade assim, o pessoal vinha da roça com o cavalo lá pra cidade, eles tinham o prazer de ir lá e soltar o cavalo. Deixar o cavalo correr, fugir. Os caras ficavam loucos com eles, né. Aprontavam de tudo assim. Ele falava que ele não era santo. Minha avó batia nele, punha de castigo, apanhava, ele era terrível. Nunca levou desaforo pra casa. E quando ele era criança rachou umas duas cabeças com tijolo.

 

P/1 – Como é que foi essa história?

 

R – Uma vez. Disse que tinha um moleque maior que ele, e o moleque era de família melhor lá, e o moleque estava sempre tirando com ele. Sempre, porque naquela época, ele falou que ter rádio, ter geladeira em casa, era coisa de rico. Só de gente rica. Então os moleques ficavam tirando com ele, falavam que, humilhando. E o moleque sempre estava aprontando coisa, sempre batia nele, e ele não tinha tempo de reagir porque sempre aparecia ou o pai ou alguém pra defender o moleque e não podia bater. Mas um dia, a oportunidade chega. O moleque arrumou confusão com ele, catou as bolinhas de gude, não teve dúvida, pegou metade de um tijolo e tumba, na cabeça do... Disse que ficou uns três dias longe de casa, porque queriam pegar ele. Foram na casa da minha avó falando que ia mandar prender meu avô, porque o moleque quase matou o moleque, rachou, a cabeça assim. Ele não era fácil. Ele falava: “Não façam isso que não dá certo.” Naquela época, o moleque infernizou tanto que um dia, a primeira coisa que ele viu no chão pra bater no moleque foi o tijolo lá. Não pensou duas vezes. Ele era terrível. A gente racha o bico, né, com essas coisas. A gente acostumado na cidade, não tem esse contato com mato, a gente fica muito preso, por mais que você vá em parque, não é a mesma coisa que viver com o pé no chão e na beira do rio.

 

P/1 – E ele conta como era essa cidade?

 

R – Ele falou que era uma cidade bem do interior, tudo de barro, não tinha asfalto nem nada, as casas de madeira, eram poucas as casas de alvenaria. Perto de rio, de córrego. Ele foi criado na beira do rio. Ele contava pra gente uma coisa que ele fazia que eu nunca acreditava que ninguém ia fazer aquilo. Um dia a gente foi num sítio que meu tio tinha que tinha cachoeira. Ele falou que comia o peixe vivo. Ele pegava o peixe pequenininho, e colocava na boca, essa lenda de marinheiro, uma coisa assim, que dá longa vida, superstição. E ele falava que pegava um peixe vivo balançando assim na água do rio e colocava na boca e engolia. Eu falei: “Ninguém faz isso.” Um dia, férias assim, ele falou: “Lembra que eu falei que comi o peixe?” Ele pegou o peixe assim, mostrou pra mim assim, estava vivo ainda o peixe. Ele pegou e engoliu.

 

P/1 – Aí você acreditou.

 

R –Acreditei. Eu não faço um negócio desse, adoro peixe, mas comer peixe vivo...não dá. Isso é coisa de criança do interior mesmo. Fazer essas coisas assim. Brincadeiras assim. Era bem legal.

 

P/1 – E é nessa época que ele trabalhava com o tal do mosaico.

 

R – Essa época ele era criança. Quando ele começou a trabalhar com o mosaico ele parou de brincar. Aí não tinha mais tempo.

 

P/1 – E o serviço que ele fazia era lá nas construções da cidade?

 

R – É, da cidade, e na região. Ele trabalhava bastante. Aí, quando ele veio pra cá, ele passou a mexer com pedra mesmo. Colocar pedra. 

 

P/1 – Mas revestindo o chão ou...

 

R – É, revestindo chão, parede.

 

P/1 – Em São Paulo ele veio morar em que lugar?

 

R – Em São Paulo, sei que primeiro ele morou no centro. Eles moravam em pensão, um grupo, era no centro da cidade, na época que o centro era habitável. Hoje em dia é complicado. Sei que ele morava próximo do Anhangabaú, Praça da Sé ali. Ele fala as ruas, mas eu não guardo.

 

P/1 – Dessa vinda pra São Paulo ele conta alguma coisa?

 

R – É, ele disse que veio de trem. O trem balançava, uma coisa assim medonha.

 

P/1 – Aquele trem lá da ponte, será que é o mesmo trem que ele pegou?

 

R – Olha, não duvido não. Acho que é esse mesmo. Ele disse que antigamente, até os anos 70, no interior ninguém andava de ônibus. Era trem, que os trens eram, tinha trem pra tudo quanto é lado, a ferrovia funcionava bem. Segundo ele conta, acho que ele veio de trem pra cá. 

 

P/1 – Chegou em que estação aqui em São Paulo? 

 

R – Não lembro.

 

P/1 - E essa chegada na cidade grande ele descreve alguma coisa?

 

R – Ele achava grande, uma cidade muito diferente do que era lá no interior. Mas ele rápido se adaptou. Meu pai é assim, ele se vira rápido. Não conhece e ele já, ele é muito fácil de fazer amizade. Conversa, chega pra um, pergunta, conversa com outro, e então é rápido. Ele já veio indicado pra serviço pra cá. Então ele já veio com o endereço certo, direitinho, e tudo. E ele disse que andava, está certo que eu ando com ele, a gente tá depois abrindo a boca, né, a língua. A gente tem carro, tudo, mas vai pro centro, ele gosta de deixar o carro no estacionamento e a gente anda. Dez, quinze minutos no centro, pega. E ele anda rápido. “Daqui a pouco pai, calma.” [risos]. “Está acabando, acabou o ar.” [risos]. Mas sabe, é esse costume do interior, porque no interior eles não tinham carro, eles não tinham, então ele disse que andava 10, 20 quilômetros todo o dia a pé. Andava de um lado pro outro na fazenda, com a molecada brincando, então eles andavam, pra ele andar três, quatro quilômetros, tranquilo. E ele falou que quando chegou em São Paulo, ele morou no centro, depois quando meu avô veio pra cá com os meus tios, eles moraram na Ponte Pequena. Ele disse que eles iam namorar, iam no cinema na Luz. No Parque de Luz ali. Disse que a Luz era o melhor lugar que tinha pra arrumar namorada, era na Luz. Todo o mundo tranquilo, não era aquela colônia como é hoje. Ele disse que ia andando a pé, serviço, ele pegava pouco ônibus. Só quando era muito longe. Mas era da Ponte Pequena, era no centro da cidade, o serviço que tinha que fazer. Ou era pra cá em Pinheiros, vinha andando. De manhã, vinha andando porque era tranquilo . 

 

P/1 – E essa casa na Ponte Pequena, você sabe como era?

 

R – Ah, era uma casa pequena. Não sei não. Eles contam, mas eu não... porque a Ponte Pequena mudou pra caramba, mudou muito, mas era baixada assim, né, depois veio o metrô, mudou um pouco ali. Conhecia tudo assim. A Vila Maria... Depois sei que, antes de casar com a minha mãe, eles moraram na Vila Maria. E ele também fala, que Domingo eles iam pra sair, pra se divertir, à noite vinha onze horas, não tinha mais ônibus, não esquentava a cabeça não. Vinha andando. Santana, Vila Maria, é longe.

 

P/1 – E onde era essa diversão?

 

R – No começo era isso. Na Luz e cinemas no centro da cidade. Pizzarias que tinha no centro, na Luz, em Santana, mas ele ia muito na cidade, no centro. Luz ele disse que era ótimo, até metade dos anos 70 assim, você ia, você andava na rua, 11 horas da noite sem medo. Porque você andava, daqui a pouco tinha viatura na, polícia, época da ditadura, né, ele disse que ninguém tinha medo. Você não tinha nenhum problema político, não tivesse nada com justiça, nada disso, se fosse uma pessoa honesta, você podia andar na rua tranqüilo, 11 e meia, meia-noite, às vezes a viatura parava e perguntava onde você estava indo. Mas se você falasse estou indo pra casa, moro em tal lugar, tudo bem, eles revistavam, não tem nada, que naquela época era difícil, você andava na rua à noite, sem medo de ser assaltado. Hoje em dia você anda de dia na rua com medo de ser assaltado.

 

P/1 – E lá na Luz o que é que é. Eles iam passear no Parque da Luz?

 

R –É, segundo eu sei, ele fala que na Luz ali tinha cinema, era um Parque mesmo, tipo Parque do Ibirapuera assim, eles iam paquerar, à noite, de domingo à tarde, sábado à noite, eles iam, e tinha cinema ali, tinha pizzaria, em volta do Parque da Luz. Isso antes de ter o metrô. O metrô é de 75 não é? 

 

P/1 – É nessa época que ele conhece a tua mãe, André?

 

R – É, ele conheceu a minha mãe aqui em São Paulo, mas ele não conheceu lá. Como os meus avós eram conhecidos, no interior, às vezes um encontrava, meus tios também andavam muito por aí pra comprar as coisas e encontravam com eles. Aí conhecia, né, sabia, conversa, conversa, mas eu sei que ele conheceu minha mãe primeiro, ele fala, no Paraná. Que ele foi passar umas férias lá, uma festa junina e conheceu minha mãe lá. Aí minha mãe contando a gente dá risada pra caramba. Que ela olhou pra cara dele e não queria nem pintado de ouro. 

 

P/1 – Por que?

 

R – Não gostava, achou ele metido. Que ele estava acostumado com a cidade, sete, oito anos em São Paulo, cidade grande, tinha outro estilo. Ele chegou lá, ela...achou que ele era metido assim, nariz em pé, tanto é que ela não queria nem pintado de ouro. Minha mãe falava que ele gostava da minha outra tia, que ele paquerava minha outra tia mais velha, e depois ela também não... Quando eles vieram pra São Paulo, meu pai encontrou eles aqui em São Paulo e tinha amizade com os meus tios, os cunhados, estavam sempre juntos, uma parte dos meus tios trabalhou com ele também, uma época, então ele conhecia. Aí se interessou pela minha mãe, começou a namorar. Minha mãe no começo não queria muito não. Eu sei que assim, nesse negócio de querer, não querer, eles ficaram namorando um ano e casaram.

 

P/1 – E eles contam o que dessa época de namoro, iam passear onde?

 

R – Namorava em casa. Tinha que namorar em casa. E minha mãe conta isso, dou risada também. Que ela conta que ela tinha uma tia que tinha ciúme dela. Então ela, antes de namorar, tinha que deixar toda a louça em ordem, tudo em ordem, não podia, se não passava da porta. Deixar toda a casa limpa, o que tinha que fazer de doméstico em ordem, não.. e a minha tia tinha ciúme dela e ela limpava e a minha tia ia lá sujava. Porque ela tinha voltar a limpar. Não tinha esse negócio da outra sujou. Tinha que limpar. Minha avó, educação rígida, não tem muita conversa. Então ela falou que muitas vezes, o namoro no portão ali de duas, três horas, diminuía pra meia hora, uma hora, porque depois também ficava tarde, que meu pai tinha que trabalhar, e minha mãe também, e meu avô chegava: “Tá na hora de dormir.”

 

P/1 – Era no portão. 

 

R – No portão, é. Eles saiam poucas vezes, minha mãe fala. Que era assim bem rígido. Meu avô controlava bem.

 

P/1 – E o casamento deles você sabe onde foi, como foi?

 

R – Acho que foi na Vila Maria. 

 

P/1 – Teve festa, teve igreja?

 

R – Teve. Teve igreja, e teve festa, meu pai fez a festa, organizaram o casamento, meu pai tinha muito conhecido. Meu pai morava numa rua, sabe, quando eles casaram meu pai já morava numa rua chamada Maquinista Trigo, que era na Vila Guilherme. E conhecia todo o mundo na rua, todos da mesma idade, então eles saíam juntos, então meu pai tinha muito amigo ali. Minhas tias, já estavam ficando adolescentes, então fizeram uma festa grande, assim. Pessoal, amigos, família, minha família não é pequena, não é uma, posso dizer que 12 filhos não é uma família pequena. Mas começa a juntar primo... Você não precisa convidar...

 

(Fim do Lado A da Fita um) 



... a gente fala hoje que na minha casa a gente faz qualquer festa de família, aniversário, ou alguém casa, não precisa convidar amigo de fora. A família enche o salão. A gente já contou dão 120 pessoas, só o lado da minha mãe. 

 

P/ - Aí a festa deles foi na rua lá então?

 

R – Não, foi no salão, mas foi com todo esse pessoal aí. Minha mãe tem o álbum lá de casamento a gente sempre, quando era criança, via. Tinha um pessoal esquisito, umas roupas, a gente gozava do meu pai, que ele, naquela época, era, eles usavam um paletó xadrezinho preto, não sei se era risca de giz aquilo, você lembra do Mário Fofoca, aquele da novela, ele usava um terno parecido, todo xadrezinho, meu pai casou com um daquele. Aquilo é muito engraçado. Aquilo parece personagem de desenho animado. Falei: “Pai, não acredito que você usou um negócio desses.” “Era moda.” Vai me desculpar, mas não dá pra usar um negócio desses. Ele tinha também um casaco, desse casaco eu lembro, era um casaco pesadão, mas parecia pele de onça. E o dele era tudo rajado, você sabe onça que tem listado assim, então, minha mãe falava que tinha uma época que ele usava cabelo comprido e usava barba. Minha mãe disse que ele parecia um presidiário [risos]. Eu chegava pra ele e dizia: “Não, você não vai usar isso. Pode tirar esse casaco. É muito feio.” A gente rachava o bico com ele. Eu me lembro desse casaco, ele tinha um ciúme, minha mãe queria dar o casaco, jogar fora, e ele não, “Guarda isso aí que eu quero”, não sei o que. Eu sei que minha mãe fez que fez, um dia, num monte de coisa que ela mandou embora, ela pôs o casaco no meio. Aí meu pai, “Cadê o casaco?” “Acho que mandei embora com aquelas coisas...” “Ah, você mandou embora? Eu não percebi.” Daí já era tarde. Ela embrulhou as coisas pra dar junto com o casaco. Vai de bom grado. Mas era estranho mesmo. 

 

P/1 – Eles se casaram e foram morar onde?

 

R – Foram morar na Vila Guilherme.

 

P/2 – Você sabe como eram o primeiros anos de casados deles? 

 

R – Teu pai trabalhava com que...

 

R – Ele sempre trabalhou com pedra. Ele colocava pedra. Ardósia, essas pedras branquinhas assim. Elas tinham nome. Miracema, essas pedras mineiras, essas pedras pra fazer revestimento.

 

P/2 – Como autônomo?

 

R – Como autônomo. Ele trabalhou com algumas firmas, mas ele sempre foi autônomo. Prestava serviço para as empresas. Firmas de depósito de material...

 

P/1 – Ele chegou a estudar aqui em São Paulo?

 

R – Fez, colegial. 

 

P/1 – E a tua mãe?

 

R – Fez ginásio. 

 

P/2 – E trabalhava também nesses primeiros anos de casada?

 

R – Não. Não. Depois que ela casou, aí, meu pai não quis que ela trabalhasse, daí ela ficou em casa. Logo também ela engravidou de mim, entre o casamento deles e eu só é um ano.

 

P/2 – Então você nasceu e estava morando ainda nessa casa que eles foram morar quando casaram. 

 

R – Sim. Dessa casa não lembro, porque acho que fiquei nessa casa, eu nasci acho que eu fiquei uns dois anos. Depois a gente mudou. 

 

P/1 – E do teu nascimento, o que eles contam?

 

R – O que eles contam? Eles contam, até hoje era é cismado, tinha uma vizinha deles que eu sempre fui cismado com ela. Ela dizia que eu parecia um ratinho quando nasci. Que era pequenininho assim, de cabelo espetado. Ela falou que eu parecia um rato. Aí fiquei meio cismado. Que rato... é um bicho meio feio, né. Meu tio, irmão da minha mãe, falava que eu parecia um preá. Um roedorzinho, parece um ratinho do mato. Também não gostava disso não. Você comparado com um roedor é meio chato, né. Meio estranho [risos]. Mas minha mãe falava que eu era muito bonito quando era bebê, assim, era gordinho, falam que criança muda quando cresce, e muda mesmo. Até os três, quatro anos, eu era bem gordinho. 

 

P/1 – E aí eles mudaram pra onde?

 

R – A gente mudou pro Jaçanã, ficou uma época no Jaçanã, e eu sei que foi até minha irmã nascer. Depois a gente voltou pra Vila Guilherme. Aí a gente ficou muitos anos nessa rua Maquinista Trigo, a gente ficou até 87, se não me engano. 

 

P/2 – Como era o nome da rua?

 

R – Maquinista Trigo. 

 

P/1 – O que você lembra dessa casa, dessa rua?

 

R – Eu não gostava da casa, achava a casa muito escura, não gostava dos vizinhos, assim, é um pessoal assim muito... era um lugar assim, como posso dizer, era um lugar que eu achava que ali a gente não ia crescer pra lugar nenhum. Era um pessoal muito... Sabe aquele pessoal que nasceu naquela rua, vai viver e morrer no lugar, e não vai melhorar em nada. Isso eu era pequenininho, criança, já achava isso.

 

P/1 – Você tem alguma boa lembrança dessa casa?

 

R – Boa lembrança? Não tenho lembranças ruins, mas também não tenho lembranças de coisas boas. Coisas marcantes não. A gente demorou pra mudar de lá, mas a gente sempre quis. É que não dava, né. A vida era assim, meu pai trabalhava, mas não sobrava, não ganhava assim...

 

P/1 – Até quantos anos você morou lá?

 

R – Treze anos. Não, 10, 11 anos que eu mudei.

 

P/1 – E você estudou lá no bairro mesmo?

 

R – Não, eu estudava em Santana, na Olavo Egídio com a Duarte de Azevedo, é um colégio chamado Buenos Aires. 

 

P/1 – Como era essa primeira escola?

 

R – Aliás, estudei nessa escola desde a primeira série, pré, até ...colegial. Eu só saí dessa escola quando entrei na faculdade. Fiz todo o período. Nessa escola, quando entrei nessa escola, eu já estava perdendo a visão. Então, a minha fase de alfabetização que foi na primeira série, fiz numa sala lá especial, uma sala de apoio, que tinha professora especializada, que dava letra ampliada, eu usava lente de aumento pra poder escrever, e ler. Aí depois, eu não tinha 100% de visão, mas tinha um pouco. Dava pra ler, dava pra acompanhar a sala comum. Aí fui pra sala comum, na segunda série, eu fui pra sala de alunos sem qualquer tipo de deficiência, e acompanhei. Fui acompanhando. Mas assim, eu estava na escola, nessa sala comum, mas tinha apoio dessa sala especializada. Qualquer coisa de material que precisasse de coisa ampliada, ajuda pra ler pra poder, qualquer dificuldade que tivesse, eu tinha essa sala que me apoiava. 

 

P/1 – Não tinha material em Braille?

 

R – Não, Braille aprendi depois. 

 

P/2 – Você ficou nessa sala especial até que série?

 

R – Eu fiquei um ano nessa sala, nem um ano. 

 

P/2 – Depois, nas salas comuns.

 

R – Comuns. Aí fui sempre sendo assistido. Mas eu estudava período normal de aula e tudo. Fui, e fiz a quarta série, enxerguei pra conseguir ler com um bom discernimento do que eu estava lendo até a sexta série, sétima série. 

 

P/1 – Foi uma perda de visão gradual?

 

R – Gradual, é. Fiz óculos mais potentes, depois usava lente de aumento, algumas coisas que eu não conseguia ler minha mãe e meu pai liam pra mim, livros, quando fui entrar no ginásio, boa parte dos livros que eu tinha que ler, mamãe que lia. Ela ditava a lição pra mim. Ela pegava, tinha o livro, ela ditava a lição e eu fazia. 

 

P/1 – Que lembrança você tem do seu dia a dia de primário. Você ia pra escola na parte da manhã, depois ia almoçar em casa, como era?

 

R – Era assim. A primeira série fiz à tarde. Não gostava. Que já perdia metade do dia. Tinha que acordar cedo pra fazer lição, e quando acabava de fazer lição não dava nem pra assistir desenho, nada, que eu adorava desenho. Quando era onze horas tinha que almoçar pra ir pra escola. Já não gostava. Quando chegava era de noite, não tinha nada que me agradasse pra fazer. Isso o primeiro ano. Na segunda série já fui pra manhã. Eu entrava às sete e meia e estudava até onze horas, era período da manhã. Aí eu gostava, porque chegava de tarde, minha mãe ia me pegar, na escola, e eu ia pra casa almoçava, descansava um pouco e tinha lição pra fazer, fazia. Aí eu ficava até, quando era quatro, cinco horas, eu estava livre. Então tinha aquela seção de desenho na TV, ficava assistindo TV, brincando, aí eu tinha até a hora que escurecia, pra brincar, e assistir televisão. Eu gostava mais. Aí sempre estudei de manhã. Daí pra frente foi sempre de manhã, eu gostava de estudar de manhã.

 

P/1 – E da escola qual é primeira lembrança que você tem. Uma professora mais marcante, a hora do recreio, tem alguma história boa da época da escola?

 

R – Ah, tenho várias. Tive professores legais na escola. Tive uma professora da sala especial, chamava Maria Helena, depois tive outra, chamada Tânia, no primário tive professoras legais, até metade do ginásio eu era um bom aluno, era aluno assim de notas bem razoáveis. Meu único problema era matemática. Nunca fui chegado em matemática não. Matemática era um negócio que...Eu não sei se era por causa da minha dificuldade de ver, então às vezes tinha coisa gráfica, ou alguma coisa que a professora explicava de uma forma muito visual, aquilo acho que me atrapalhava, então tinha dificuldade pra entender. Então, isso foi criando acho que um bloqueio, não gostava de matemática. Não gostava de matéria exata nenhuma. Pra começar, eu sempre fui questionador. Eu queria entender porque dois e dois era quatro. Dois e dois é quatro, esse negócio que é porque é, nunca gostei. Minha mãe fala que desde criança, eu perguntava as coisas ela falava: “Porque é assim.” “Não, porque é assim, não. Você tem que dar a razão.” “É que você não vai entender.” “Tenta, né. Tenta explicar.” Eu sempre fui assim. Nunca gostei de resposta pronta. “Ah, por que o azul é azul?” “Porque é azul.” Porque é azul, não. Tem que ter um fundamento. E professor de escola é sempre assim. Nem eles sabem o porquê das coisas, então eles aprendem lá que é daquele jeito, e passam a dizer que é assim. Mas se você começa a questionar por que é, o professor não responde e se irrita com você. Aí você vai criando bloqueio. 

 

P/1 – E depois você deixou de ser bom aluno? Como é que foi isso.

 

R – Não, bom aluno não, quando entrei na sétima série tive muita dificuldade com aula. Estava perdendo a visão, e foi um ano bem crítico. E eu tinha geometria na escola. E eu tinha uma professora que era terrível, ela não sabia me explicar, mas também não tinha boa vontade em me ajudar, me ferrava nas provas direto, porque ela pedia, numa prova, a parte teórica de geometria eu sabia bem. Eu era bom aluno na área de geometria. Na parte teórica, só que precisava dos desenhos. Fazer triângulos. Se você não enxerga direito, como é que você vai fazer um desenho correto. Fica meio errado. Só que ela não considerava isso. Por exemplo, eu demorava mais tempo pra fazer prova. Eu não conseguia fazer prova numa aula de 50 minutos. Eu precisava de duas aulas, três, em demorava mais tempo, e eles não queriam saber. Acabava o tempo de todo o mundo e ela tirava a minha prova. Ficava pela metade e eu não tirava nota. Reprovei esse ano. Fui reprovado neste ano. Em geometria, em ciências, que eu tinha essas duas professoras que elas assim, elas tinham boa vontade pra me ajudar, tremenda assim. Elas falavam pra minha mãe que, minha mãe era persistente, eu estava na escola porque era pra estar. Não, porque eu ia conseguir fazer alguma coisa.

 

P/1 – Que lembranças você tem da tua mãe, da época de infância. Como era dentro de casa?.

 

R – Minha mãe sempre foi muito ligada na gente, cuidava muito bem da gente, minha mãe sentava com a gente pra brincar com a gente.

 

P/1 – Do que?

 

R – De casinha, ou pra ler história, ou pra ver desenho, ela sentava com a gente. Ela fazia o serviço da casa, no período que a gente estava na escola, e quando a gente chegava, ela se dedicava a gente, a fazer lição, aí ela assistia desenho com a gente, brincava com a gente, desde pequeno. Meu pai também. Quando a gente começou a ler, a se interessar por leitura, meu pai lia. Ele chegava a noite, em casa, às vezes não, porque o serviço que ele fazia era cansativo pra caramba, mas ele sempre leu, o jornal. Minha mãe fala que acho que tem mais de 30 anos que ele lê jornal,  é religioso. Todo o dia tem que ler jornal. Então viu a reportagem de alguma coisa, ele, quando a gente começou a ter entendimento de alguma coisa assim, noções de política, ele lia pra gente as matérias. Até hoje. Ele lê alguma coisa interessante no jornal, ele separa. 

 

P/1 – Tinha passeios em família também, quando você era pequeno?

 

R – Tinha. Meu pai levava a gente, tinha um parquinho na Vila Guilherme, mas era longe de casa. A gente ia domingo à noite, ele levava a gente andando. A gente ia andando, até o parquinho. Era bem legal. Esse parquinho eu gostava bem. 

 

P/1 – Fazia o que no parquinho?

 

R – Não, esse parquinho que tem roda gigante, que tem esses brinquedos assim, esses mais antigos. Hoje em dia é tudo Playcenter, né. Hop Hari.

 

P/1 – E os teus avós, eles participaram da tua infância, você ia na casa dos teus avós, os avós iam pra tua casa...

 

R – Do lado do meu pai. Quando o meu irmão mais novo nasceu, a gente morou no Mandaqui. Era longe, de casa. E o meu pai trabalhou uma época na Barra do Una, acho que é Bertioga, ali. Era trabalho... não dava pra vir todo o dia. Ele ficava às vezes 15 dias no litoral trabalhando. Minha mãe ficava sozinha. E nessa época nasceu meu irmão. Então tinha eu, com quatro anos, tinha minha irmã com dois, e tinha o meu irmão que era recém-nascido. Então minha avó, mãe do meu pai, vinha visitar a gente no domingo, e falava assim: “Você quer ir pra casa?”, aí minha mãe, eu sempre fui ligado na minha avó e eu ia, ficava na minha avó a semana inteira. E aí quando era sábado, que meu pai vinha do litoral, ele ia visitar a minha avó e me trazia.

 

P/1 – Que lembrança você tem dessa época da casa da tua avó?

 

R – Era bem legal, porque minha avó ficava sozinha, meus tios trabalhavam, e eu ficava com ela o dia inteiro. Eu acordava de manhã, ela fazia o leite, café, eu ficava brincando no quintal, ela morava numa casa que tinha uma garagem muito grande, e tinha, de um lado e de outro, tinha pé de árvore, então a gente ficava brincando lá, eu gostava bastante.

 

P/1 – Como é que você descreveria essa tua avó?

 

R – Minha avó é uma senhora magra, ela sempre foi magra, ele tem 80 anos, mas você dá um pouco menos pra ela, que até que não está muito...envelhecida, tem uns cabelos bem compridos assim, os cabelos dela não são brancos, não, são loiros. Não são totalmente brancos não. Baixinha, assim, estatura pequena, e tem uma cara assim daquelas avós de sítio, sabe, de aspecto bem tranqüilo, bem carinhoso mesmo.

 

P/1 – Cozinhava bem?

 

 R – Ah, ela fazia uns pães muito bons. Aqueles pães caseiros, ela fazia um muito bom. Bolo, também. 

 

P/1 – E teus amiguinhos eram da escola, da rua?

 

R – Tinha amigos da vizinhança, tinha amigos na escola...

 

P/1 – Na escola você tinha um amigo especial que te ajudava durante as aulas?

 

R – Eu tive alguns. Deixa eu me lembrar deles. Eu tive um que não entrou junto comigo, entrou um pouco depois na escola. Ele também enxergava pouco. Só que ele enxergava mais do que eu. Ele tinha catarata. Ele usava óculos, então ele enxergava bem. Ele chamava Otaviano. Ele estava sempre junto com a gente, era companheiro pra todas as horas na escola. Eu tive bons amigos na escola. Tinha um pessoal meio assim, mas tinha uns amigos legais. Adolescente é que era mais complicado.

 

P/2 – Por que?

 

R – Porque você tem todo aquele conflito de adolescência, que é normal em qualquer pessoa. Aí você passa por um processo de perda de visão. Então você tem que estar se acostumando com essa nova realidade, de coisas que você não vê. Aí você quer, como todo o adolescente, você quer namorar, e as meninas não se interessavam muito. Tá certo que eu não era muito, não sou muito bonito e não era. Eu era bem mais magro, então não era assim, o preferido da mulherada não. Era difícil. Acho que também por causa da perda de visão e de não estar enxergando, nessa época eu era muito dependente. Por exemplo, eu não, hoje eu vou pra qualquer lugar só, sem problemas. Mas naquela época, não, minha mãe tinha que... Então acho que isso era motivo assim pra as meninas não se interessarem muito. Aí você via uns caras assim, completamente assim... se eu fosse mulher, esse cara era o último da lista. Eram umas coisas assim que não tinham cérebro nenhum, beleza também ...Aí você vê as meninas e você ficava chupando o dedo, você ...essa, adolescência é complicado. 

 

P/1 – Qual era a diversão na adolescência. Era baile, era ...

 

R – Baile eu fui pouco. Fui pouco. Mas era muito... nessa época eu escutava... comecei a me interessar por música. Eu tinha uma tia que gostava do RPM. E alguma coisa de Legião Urbana. Então comecei a escutar RPM. Aí passei por uma fase, musicalmente falando, uma fase sombria, porque eu gostava de música eletrônica, não diz coisa nenhuma, essas músicas de danceteria, desculpe quem goste, mas, aquele som, eu, como trabalho com computador, sei muito bem como se faz aquelas músicas. Então eu sei que aquilo não tem criatividade nenhuma. Você põe no computador, e manda mexer bit, lá e faz aquele monte de barulho. Então eu gostei de música assim. Depois comecei a gostar de rock. Foi essa fase rebelde, que eu sempre fui muito rebelde, do meu modo, muito contestador, eu nunca aceitei as coisas muito de pronto, assim, as coisas sempre têm que ter explicação. Se uma coisa não tem explicação é porque nunca ninguém procurou. Ninguém estudou pra saber. Essa a fase rebelde. Então no rock eu me encontrei assim essa válvula de escape. 

 

P/1 – Quem eram os grupos?

 

R – Os preferidos?  Olha, nessa época comecei a escutar Legião Urbana, gostava, o Renato Russo ele escreveu acho que mais de 200 músicas. Acho que umas 150, acho que ele me conhecia de algum jeito. Porque as músicas eram feitas pra mim. Assim, todas as músicas que ele escrevia, tinha alguma coisa a ver comigo. Eram fases da vida da gente, coisas que você pensa, ou coisas que você vê, e ele escrevia lá, e escrevia a música, e batia direitinho assim. Me identificava assim demais com Legião Urbana. E Titãs também. Titãs foi uma fase porra louca, né. Punk, eles escreviam umas letras, assim, bem mais punks, né. E o Legião era aquela coisa, assim, mais filosófico. 

 

P/1 – E você chegou a aprender algum instrumento musical?

 

R – Não. Arranho alguma coisa de violão, mas é pouco.

 

P/1 – Dentro de casa tinha isso de ouvir música, quando você era criança?

 

R – Tinha. Meu pai gostava muito de música. Meu pai tocava um pouco de violão, então ele estava sempre ligado, desde criança ligado à música. Meu pai sempre gostou de música. 

 

P/1 – A lembrança que você tem musical, o que você ouvia na infância?

 

R – Meu pai gostava muito de Chico Buarque, adorava, acho que até hoje, e sertanejo que eles gostavam também, mas aquele sertanejo Raiz, lá, Tonico e Tinoco, esses da roça. Que ele gostava. Bastante. Que ele é do interior, né. Então aquelas músicas que contam histórias de roça, de cowboy, do interior mesmo. Então eu ouvia e gostava. 

 

P/1 – E com os teus irmãos, como era o relacionamento? Você era o mais velho. Saía todo o mundo pra brincar junto, dividia o quarto, brigava...

 

R – Não a gente nunca foi muito de brigar. Minha mãe não deixava também. Ela sempre criou a gente na idéia do seguinte. Se tem três chocolates, não vou dar um pra cada um. Nós vamos dividir o primeiro, depois divide o segundo, depois divide o terceiro. Não era um pra cada um. Ela comprava um pacote de bolacha, comia aquele pacote, dividia entre os três. Pra depois abrir o outro. Então a gente sempre foi criado nessa idéia da divisão. De compartilhar as coisas. Então a gente dividia, brigar todo irmão briga, mas a gente brigava pouco. Era uma ou outra coisa, minha mãe não deixava brigar. Se brigasse apanhava, ou punha de castigo, então...Ela nunca quis que a gente brigasse, nunca deixou, então, a gente sempre teve uma relação legal. Sempre foi muito unido, eu sempre fui meio paizão, porque minha mãe dizia que eu era mais velho e acabava jogando a responsabilidade, que eu tinha que dar exemplo, até hoje é assim. Meu irmão precisa fazer alguma coisa e, “Ah, André, o Paulo precisa tal coisa, você não quer ver pra ele?” “Mas mãe, eu trabalho, não dá.” “Não, mas você não sei o que, você tem mais jeito.” Ah, tem mais jeito. Meu irmão também tem o mesmo jeito, mas...

 

P/1 – Eles estudavam na mesma escola que você, André?

 

R – Sim. Quando minha mãe procurou escola e deu certo, ela acabou colocando eles também na mesma escola. 

 

P/1 – E esse processo de adaptação com a perda da visão, como é que foi acontecendo?

 

R – Era assim. De épocas em épocas eu notava que numa época eu enxergava uma coisa, e noutra época eu não enxergava tão bem aquilo. Um objeto, eu tinha que ficar mais próximo pra poder ver, ou eu começava a perder detalhes, quer dizer, coisas que eu via antes, eu já não via mais a riqueza de detalhes de algumas coisas. A leitura, por exemplo, cada vez eu precisava ter ou uma ampliação de letra maior, ou tinha que arranjar uma lente de aumento mais forte. Ou tinha coisas que alguém tinha que ler pra mim. Eu lembro muito da revista “Afinal”. Não sei se vocês leram essa revista. 

 

P/1 – Não lembro. Afinal?

 

R – Ela era uma revista, meu tio assinava. Me lembro que eu só conseguia ler as manchetes. Eu adorava, tinha alguma matéria que me interessava, mas eu não conseguia ler. A letra da revista era minúscula. Eu conseguia ler a manchete e no final, tinha um quadrinho, esses de jornal, tipo Ziraldo, tipo charge, assim, eu não conseguia ler a história, mas eu conseguia ver a charge. Eu me divertia vendo os desenhos lá. Aquelas charges, que tinha algumas bem engraçadas. Os caricaturistas, eles fazem umas coisas bem… Só que eu não conseguia ler a história embaixo. Eu achava legal, queria ler, mas não conseguia. A letra era reduzida. Eu conseguia só ler a manchete das ...

 

P/2 – Mas qual a explicação pra perda da sua visão?

 

R – Eu tenho uma ...degeneração na primeira camada da retina. É a parte da retina que faz, que é responsável por infiltrar a luz. Entra a imagem, e ela tem que fazer o primeiro filtro pra poder a retina ir transformando a imagem em impulso elétrico, que é o que vai pro cérebro. O nervo óptico recebe o impulso elétrico e decodifica pro cérebro entender a imagem. A primeira camada da retina seriam dez espelhos, na retina, são dez camadas. A primeira camada ela tem uns pigmentos que fazem esse filtro inicial. Esse filtro inicial eu não consigo fazer. Vai degenerando. Conforme vai degenerando, você cada vez vê menos detalhes. Você consegue a sua resolução... imagina uma tela de computador que vai queimando. Cada vez a resolução vai caindo. Você consegue, uma hora você consegue ter uma quantidade de cores excepcional. Mas daqui a pouco já começa a ficar meio preto e branco, você vai começando a perder detalhes. Isso o que aconteceu com a minha retina. 

 

P/1 – E esse processo de adaptação, tanto teu como da tua família, teve um momento que teve uma orientação de fora?

 

R – Não. A gente procurava médicos, pra saber o que estava acontecendo. A gente não sabia o que era. A gente achava que podia ser uma série de coisas, a gente passou em vários médicos em Campinas, passou em médico na rua Angélica, passou em vários lugares. Eu não sei se eles sabiam e tinham medo de falar porque nós éramos três, e a minha mãe, por achar que a minha mãe... não sei, eles tinham medo de contar, ou então eles também não sabiam, eu sei que a gente descobriu assim, foi, explicava o que acontecia. E como acontecia, quando a gente passou na Escola Paulista de Medicina. Um médico japonês, especialista no que a gente tinha. Ele era, estava fazendo doutorado, uma coisa assim, lá no problema que a gente tinha, que é retinose. Então ele ...

 

P/1 – Você como teus irmãos.

 

R – Como meus irmãos. Então a gente passou uma manhã inteirinha fazendo exames com ele e a equipe, e no final do dia, do exame, minha mãe chegou pra ele e falou: ”Olha, eu quero saber, só que eu estou cansada, a gente passa em vários médicos, e ninguém diz nada. Eu preciso saber o que está acontecendo, pra poder saber como vou lidar.” Aí o médico chegou e falou: “Então…” explicou pra ela e explicou pra mim também, que eu já tinha 14 anos, aí ele explicou pra gente como funcionava direitinho e o que era, então a gente sabia que a gente ia perder a visão. “Não tinha nada que voltasse, que resolvesse o problema, que você ia perder.” Então, daí pra frente, toda a parte de dúvida que a gente tinha, acabou. Então a gente começou a trabalhar com o que: “Não tem jeito? Então o que a gente faz. Vamos começar a trabalhar com o que a gente tem. Você vai perder a visão, então, na medida que vamos perdendo, a gente vai buscar outras formas de você poder estudar, de fazer outras coisas. Deve ter. Não é possível que você vai perder a visão e vai ficar, não vai poder mais se desenvolver. Tem que existir alguma forma, né.” Minha mãe, perguntaram se ela tinha orientação psicológica, mas ela nunca teve. Ela fazia tudo pela intuição dela. Intuição de mãe, assim. Tanto é que quando eu ia entrar na escola, indicaram pra minha mãe me colocar num lugar chamado Padre Chico. É um colégio interno só pra deficientes visuais. Eu chamo aquilo, depois você corta, tá, eu chamo aquilo de inferno. É um inferno aquilo lá. Porque é um lugar assim. É colégio interno, de freiras, então você é educado de uma forma extremamente rígida, garotos e meninas não estudam na mesma sala, intervalo é separado, quer dizer, não existe, é uma segregação total, você fica alheio ao mundo exterior, porque todo o mundo não enxerga, então é passado pra você um mundo seu, quer dizer, um mundo que não é real, porque quem está lá dentro, porque de pesquisas a gente já fez e de amigos, quer dizer, eles criam um mundo que eles acham que todo o mundo é obrigado a fazer, a servir. O cego que sai do Padre Chico, ele sai com uma impressão assim, que a pessoa que está na rua é obrigado a ajudar ele a atravessar a rua, é obrigado a parar o ônibus, é obrigado a fazer porque ele é cego então é coitadinho...

 

P/1 – Ele não ganha autonomia?

 

R – Ela não ganha autonomia. Sem contar os problemas psicológicos que as pessoas saem de lá, porque, a partir do momento que você é separado de, você não tem contato com o sexo oposto, das duas uma. Isso minha irmã que é psicóloga fala. Das duas uma. Ou você tem uma necessidade muito grande de ter contato com o sexo oposto, aí você parte pra aquela teoria que não pode ver mulher que é uma coisa assim, complicada, ou então o cara fica, parte para o homossexualismo, porque ele está acostumado. Ele aprende que ter contato com mulher ou ter contato com homem é proibido, não pode, é pecado, vai ser castigado, então ele cria o bloqueio e acaba achando que o mesmo sexo é legal.

 

P/1 – Mas você não foi pro Padre Chico.

 

R – Não, não fui. 

 

(Fim do Lado B da Fita Um)

 

(Início do Lado A da Fita Dois)

 

P/1 – Então, retomando, André, então você não foi pro Padre Chico. Sua mãe decidiu...

 

R – Não. Não. Ela falou: “Meu filho não vai ficar em colégio interno, lá não sei quem vai cuidar, freira, vão bater, não quero. De jeito nenhum. Não vai.” Ficou procurando, aí ela foi ver as escolas que tinha na época, tinha o Caetano de Campos, que é tradicional, foi o primeiro colégio que começou a ter essas salas especiais, e que dava apoio pra quem tinha deficiência visual, pra poder estudar, aí a Secretaria de Educação, alguns anos antes, eu entrei na escola em 84, governo Montoro, começou a, por região, a ter pelo menos uma escola tinha que ter um apoio, porque, o que acontecia? Acabava a gente tendo que vir lá do Morumbi, de Santana, não sei da onde, lá pro centro da cidade onde hoje é a Secretaria da Educação, lá na República. Caetano de Campos era ali. Então, todo o mundo pro centro da cidade. Quer dizer, e a demanda começou a ficar grande.

 

P/1 – Você chegou a estudar no Caetano de Campos?

 

R – Não. Eu sei da história. Aí eu sei que o Buenos Aires, como era uma escola antiga, uma escola modelo, colocaram lá. E era perto de casa. Perto assim, era mais perto de casa. A gente andava… Eu morava na Vila Guilherme, onde tem uma avenida chamada Avenida Conceição. Quem mora na zona norte deve conhecer. Mas era um ladeirão pra descer, descer vai beleza. Em 15 minutos a gente estava na escola. Na hora do almoço, aquele calor, era 40 minutos andando. A gente ia e vinha na perna. 

 

P/1 – Sozinhos?

 

R – Não, a gente vinha com a minha mãe. Minha mãe fazia uma maratona durante o dia. Porque eu e a minha irmã, não, eu e meu irmão quando ele entrou no pré ele estudava de manhã. E minha irmã à tarde. Então, o que ela fazia? De manhã ela levava eu e meu irmão, pra escola. Aí ela voltava pra casa. Aí na hora do almoço ela vinha com a minha irmã, que minha irmã ia estudar à tarde, e aí pegava a gente e subia pro almoço. Aí quando era cinco e meia ela descia pra pegar minha irmã na escola. E voltar. 

 

P/1 – Você entrou em qual série?

 

R – Entrei na primeira.

 

P/1 – O que você lembra dessa escola? 

 

R – É uma escola grande, bem grande, os diretores eram legais, tinha uma diretora muito... depois, alguns anos depois, ela se aposentou. Dona Nilda. Até hoje, outro dia ela me ligou porque eu ia me formar, me ligou e falou, quando você se formar você liga. Desde, sempre, sempre assim, que ela se aposentou, ela tinha contato com a gente. Tinha um carinho muito grande. 

 

P/1 –É uma escola regular que tem algumas classes.



R – É assim, tinha uma sala, que a gente chama de sala de apoio, que tinha um professor com especialização em deficiência visual. Aí tinha uma outra sala em especialização em deficiência auditiva. Apoio. E tinha, junto com a Buenos Aires, tinha uma central da Aacd [Associação de Assistência à Criança Deficiente]. Então tinha a Aacd, que o pessoal era atendido, e, aos poucos, quem podia, era integrado às salas de aula. Então nas salas de aula que a gente estudava, acontecia de ter surdos-mudos, tinha eu, com deficiência visual, tinha gente que usava cadeira de rodas, mas assim, integrado com os outros alunos. Não era separado. Essas salas eram só de apoio, então por exemplo, a gente estudava de manhã. Eu precisava de algum apoio, eu ia lá à tarde. Eu chegava da escola e à tarde, tinha os horários pra gente ficar.

 

P/1 – E o material, como era?

R – No começo, eu usava caderno normal, sem problemas. Conforme eu fui perdendo a visão, eu comecei a usar caderno maior. Pautado, mas uma pauta larga assim. Era tipo caderno de desenho, mas ele tinha umas pautas. E eu escrevia com a caneta comum. Conforme eu fui perdendo a visão, aí comecei a usar esse caderno de pauta, mas com a linha reforçada, e com caneta paper mate lá, aquela de ponta porosa porque ficava escuro. Aí, quando estava na sétima, oitava série, comecei a escrever muito enrolado. Aí nem eu conseguia ler o que eu escrevia e ninguém conseguia ler pra me ajudar. Aí foi quando eu resolvi aprender Braille porque eu sabia que já estava ficando difícil escrever. Eu não ia conseguir ler, não estava enxergando pra ler, e ninguém também, tinham dificuldade pra entender a minha letra. Nem minha mãe estava conseguindo me ajudar a ler o que eu escrevia pra poder me ajudar a estudar, estava ficando complicado. 

 

P/1 – Onde você aprendeu Braille?

 

E – Aprendi lá, nessa sala de apoio. Nessa época, tinha uma professora que até hoje guardo a lembrança dela. Ela era Cláudia, da sala de apoio. Naquela época ela devia ter uns, era nova, devia ter uns 22, mas era um amor de pessoa. Tratava a gente com um carinho que era raro, em professor, naquela escola. Porque tinha uns professores lá os maiores carrascos, que eram assim ditadura mesmo. 

 

P/1 – Desculpa, eu não entendi. Você entrou lá em que série?

 

R – Na primeira série, primário. Eu vim aprender Braille quando estava terminando o ginásio. O meu processo de perda de visão foi longo. Em dois anos eu perdi a visão. Comecei perdendo com dois anos, e fui não ter mais visão pra poder ler e escrever, estudar, na oitava série. Foi em 92. 

 

P/1 – E tudo aquilo de correr nos médicos, tal, não foi desde a primeira série. Foi depois. 

 

R – Não, antes da primeira série, quando eu tinha dois, três anos, mamãe levou ao médico pela primeira vez. Os médicos deram uma série de coisas, eletroencefalograma, pra ver se era alguma coisa cerebral, fizeram um monte de exames, a gente passou até em Campinas, naquele Burnier, passou ....

 

P/1 – Mas o diagnóstico da Escola Paulista de Medicina foi quando você já estava ...

 

R – É, já estava num processo de perda, já estava com 14 anos. Isso foi em 1990.

 

P/1 – Aí você continuou na mesma escola.

 

R – Continuei. Eu nunca saí da escola. Eu tive um processo assim, a gente teve fases difíceis naquela escola. Porque a nossa grande salvação, foi a direção que a gente tinha na escola. A direção... a minha mãe tinha amizade com a diretora, então, porque por alguns professores eu tinha ficado no ginásio, não tinha terminado nada. Porque primeiro, eles não tinham preparo pra lidar comigo. E como eles não tinham preparo pra lidar comigo, em vez de eles falarem isso e tentar ajudar, não. Eles colocavam o problema em mim. Diziam que eu estava, que eu precisava de psicólogo, que estava ficando rebelde, transferiram o problema deles pra mim. E eu sabia que o problema não era meu. Sabia que alguma coisa estava esquisita ali. Fui no psicólogo uma vez. Ela mandou eu desenhar a casinha, falei: “Mas eu vim no psicólogo, não vim pra desenhar casinha.” Minha irmã hoje explica que isso aí é essencial. “Vai me desculpar, mas, vou na psicóloga pra desenhar casinha, vai me desculpar, vou embora.” Fui uma vez no psicólogo. Aí minha mãe falou, chegou na diretora e falou, que a psicóloga tinha dito que o problema não era eu. Era a direção. Os professores que estavam com problema, não eu. 

 

P/1 – E depois do Braille teve algum outro curso de adaptação, por exemplo, de locomoção.

 

R – Ah, sim. Sim. Nessa época que comecei a aprender Braille, em 1992, foi quando eu conheci a Laramara [Associação Brasileira de Assistência à Pessoa com Deficiência Visual], a primeira vez. Porque aí o que aconteceu, minha mãe, quando a gente começou a se orientar, aí sabia que tinha cursos pra mobilidade, porque eu não ia poder ficar com alguém comigo a vida toda. Eu tinha, e minha mãe já tinha visto pessoas na rua, outros deficientes que andam com bengala, e então se eles andam, deve existir alguma forma. E assim, até eu saber que eu ia perder a visão, que eu ia ficar realmente cego, eu não gostava que as pessoas falassem que eu era cego. Eu tinha uma retração com isso. Tanto é que eu tive muita rejeição pra aprender Braille. Poderia ter aprendido antes. Bem antes. Mas eu tinha uma dificuldade de aceitar isso, que eu ia ficar cego. Pra mim, quem enxergava um pouco, como eu enxergava pouco, não era cego. Só não enxergava. 

[PAUSA]

 

P/1 – Como é que você começou a frequentar o Laramara? 

 

R – Então, nessa época, quando eu passei no médico e ele explicou pra nós que a gente realmente ia perder, então a gente começou a buscar isso. Você vai ter que se virar sozinho, você vai ter que andar sozinho, vai ter que estudar pra tentar trabalhar, então você vai ter que se virar só. Então minha mãe começou a procurar isso. Então indicaram uma fundação que tem na Vila Mariana. Que é a Dorina Nowil, que é uma fundação para cegos, e ela dava esse tipo de treinamento. Que é andar na rua, se virar sozinho, ter independência, autonomia pra circular na cidade, poder estudar, sem depender, depender a gente sempre depende, pra atravessar a rua, mas exclusivamente pra andar, e pra ter certa autonomia. E minha mãe procurou o Dorina Nowil, mas estava muito cheio. Tinha uma fila grande de espera. E aí eles indicaram o Laramara, que estava começando, tinha dois professores que eram da Dorina Nowil, que tinham entrado nessa fundação, na Associação Laramara, aí minha mãe pegou o telefone e ligou, a gente passou por uma triagem, lá, na época o Instituto Laramara era só pra atender crianças, e eles estavam começando com adolescentes, então acho que fui um dos primeiros a fazer a mobilidade, fiz com a Vera Felipe, aí era como se fosse uma consulta. Toda a semana, um dia à tarde eu ia, minha mãe ia comigo, ficava esperando, e eu fazia esse treinamento. Graças a eu ser sempre muito agitado, fiz o curso rápido. Esse curso era pra ser feito em um ano e fiz em seis meses.

 

P/1 – Onde ficava o Laramara?

 

R – Ficava na Venâncio Ayres, aqui na Pompéia. Era uma casa, um sobrado. 

 

P/1 – E você foi fazer exatamente o que lá? 

 

R - Então. Esse curso de mobilidade. Então eu ia lá, essa Vera Felipe ela treinava a gente pra usar bengala, porque pra você andar com ela na rua você tem todo uma metodologia pra usar de modo que você tenha segurança, você está andando, e você tenha o máximo de informação possível pra não tropeçar, não cair, se machucar. Andar com segurança, andar com autonomia, então tem um método que você usa, que você tem que colocar a bengala aqui, tem que andar com a mão aqui, tem um jeito de você usar a bengala. E assim, a como entrar num mercado, como entrar na farmácia, pedir informação, a comprar todas as coisas que uma pessoa normal faz. Uma pessoa que não tem deficiência visual nenhuma faz. Como faz pra pegar um ônibus, eu preciso que alguém pare o ônibus pra mim, então, macetes assim de como você pedir informação pra pessoa certa. Porque a pessoa quer te ajudar mas ela quer se livrar de você. Então ela te põe no primeiro ônibus que passa. Isso acontece. Então ela ensinava. Você nunca deixar ser conduzido por criança, porque criança é irresponsável, por moleque, garoto, adolescente, que eles adoram bagunçar, brincar, então, às vezes tem aquele instinto de fazer brincadeira de mau gosto, então você tem que evitar, bêbado, perceber se a pessoa tem, pô, você atravessar com um bêbado é melhor fazer tudo sozinho, né. 

 

P/1 – Você lembra da primeira vez que você saiu sozinho pra rua?

 

R – Lembro. A gente primeiro fez o reconhecimento dos quarteirões em volta do Laramara, Ela fazia assim. Eu ia na frente e ela ia atrás, supervisionando. Então alguma coisa que estava errada ele falava: “Olha, você tem que fazer assim”, e ensinou. E depois um dia a minha mãe foi, e ela mandou a minha mãe embora, falou: “Olha, a senhora vai pra casa e o André vai pra casa sozinho.” Minha mãe, gelou. “Não, espera ele em casa.” Minha mãe foi na frente. E ela falou: “Agora você vai pegar o ônibus, e eu vou te seguir, vou te acompanhar, mas até um certo local.” Eu tinha que pegar dois ônibus. Morava em Santana naquela época. Na Vila Guilherme. Então eu pegava aqui, na Venâncio Ayres pegava um ônibus que ia até o Imirim, e descia ali em frente ao Pão de Açúcar, ali da Voluntários. Lá tem um Pão de Açúcar, eu descia em frente. Nesse dia ela subiu no ônibus, só que ela passou pra trás. Eu fiquei na frente, que eu não pago passagem, ela passou pra trás e ficou esperando. Pra ver se eu descia no ponto certo. Ela falou pro cobrador, explicou, mas eu não ouvi o que ela falou com o cobrador. Aí o motorista me avisou. Falei: “Olha, vou descer em tal lugar, assim, assim.” “Tudo bem, eu aviso quando chegar lá.” Você fica apreensivo um pouco, mas pra mim ela não tinha falado que ela ia comigo, depois que ela falou que estava dentro do ônibus. Eu não sabia que ela estava me seguindo, pensei que estava sozinho. Eu e Deus. Aí desci no Pão de Açúcar, a gente tem uma dica assim, que quando o caminho é muito longo, você não pode falar pro motorista e esquecer. Você tem que estar sempre lembrando, que o motorista se concentra com o trânsito, é gente que fecha, é sobe e desce, e ele pode esquecer que você vai descer em tal lugar. Então de vez em quando, você sabe que vai levar mais ou menos tanto tempo pra chegar, quando você achar que está próximo, você pergunta pro motorista. Dá uma lembrada. Então eu fiz tudo, desci lá, e ela esperou eu pegar o ônibus pra minha casa. Que era o Penha. Ela me seguiu, pegou esse ônibus também, quando ela viu que eu desci em casa, aí ela veio. Quando eu cheguei em casa foi que ela chegou atrás e falou que tinha me seguido, que tinha ido tudo bem. Que eu estava ficando apto a andar sozinho. É que na próxima vez eu iria sozinho pro Laramara. Minha mãe não iria mais. Eu iria sozinho, e que eu tinha que relatar pra ela tudo o que tinha acontecido no caminho. Aí eu chegava lá, ela daria o treinamento e eu iria voltar sozinho. Aí já estava no final, era novembro, aí a gente fez as últimas coisas, foi quando ela me liberou.

 

P/1 – Quando você chegou em casa a tua mãe...

 

R – Ah, minha mãe finge bem. Ela estava na maior calma. Falei: “Mas como mamãe está calma assim, né”, mas depois ela falou que toda a hora olhava no relógio, Que ela sabia o tempo que ia levar. Se passasse da hora ela já ia ficar desesperada. Depois ela acostumou. Eu sempre morei em lugar fácil de chegar. Com o ônibus. Ponto de ônibus era perto de casa, eu sempre tive essa sorte. 

 

P/1 – Na tua casa também o espaço foi se adaptando?

 

R – Não. Minha mãe tem o instinto de Indiana Jones. Ela gosta de tudo no caminho. Ela gosta de mudar as coisas de lugar, ela acha que está legal. Só não mesa de centro, porque aí, também, é sacanagem. Mesinha de centro em sala é pra você rachar a canela mesmo. E eu não vou usar a bengala na minha própria casa, né. Dentro de casa é complicado. Mas ela muda as coisas de lugar, então eu chego em casa, até hoje, já chego em casa assim, prestando atenção. Porque eu sei que ela pode ter mudado de lugar, e eu vou sentar no sofá e não é sofá, pode acontecer isso. Então isso ajudou a gente a se ambientar, assim, em lugares com dificuldade de caminhar muito grande, porque se em casa, que você está acostumado, está tudo sempre mudado, você tem que se adaptar sempre em situações novas, então isso na rua, chega num mercado, num consultório, você se ambienta fácil. Rápido você se localiza. Isso ajudou muito. Isso ela fez por intuição. Ninguém mandou ela fazer isso. Ela fazia porque, gosta mesmo de mudar as coisas de lugar. Ela enjoa, ela muda. 

 

P/1 – Você continua no Laramara?

 

R – Isso em 92 pra 93. Depois saí do Laramara, continuei estudando, fiz colegial, já era integrado. E não voltei mais pro Laramara. Nesses quatro anos. Minha irmã continuou fazendo, minha irmã chegou a fase dela a fazer a  _____________,  ela foi e fez o curso, meu irmão mais novo também, e eu ia pouco no Laramara, que isso aí. Quando foi em 96, a Laramara montou um curso, acho que foi um dos mais inovadores, em São Paulo, curso de computação pra deficientes visuais, montaram uma turma de seis. Só que eles queriam adolescentes. Porque o intuito deles era fazer um curso de informática, pra capacitar jovens para o mercado de trabalho. Então dando o curso de informática, você ia ter uma ferramenta pra poder ter possibilidade de ter emprego, que é a grande necessidade de deficiente hoje é ter emprego, uma atividade remunerada, exercer uma função produtiva remunerada. Essa é a grande necessidade. Acho que de todo o mundo. Mas a gente tem a maior dificuldade. Então eles criaram esse curso. Aí eles começaram a procurar nos cadastros deles todo mundo que tinha passado adolescente e que estaria numa fase entre 17 e 18 anos. Todo mundo que estaria nessa faixa etária e que passou pelo Laramara. E nesse cadastro estava eu. Eles ligaram pra minha casa, e me chamaram pra fazer esse curso, se eu estava interessado, e foi quando entrei na faculdade. Eu estava com 18 pra 19 anos.

 

R – Você foi estudar o que?

 

R – Direito. 

 

P/1 – Como foi essa escolha do curso de direito?

 

R – Olha, eu, desde criança, o meu grande gosto tanto por literatura, quanto por filme, era coisa que tinha policial e advogado. Aqueles advogados que chegam, a coisa está perdida, o cara vira, aquelas coisas bem ficção, que na realidade não existem. As coisas estão muito ferradas, ele chega, com uma prova nova, fala, fala, e ganha a causa. O promotor, aqueles caras assim que chegam e fazem acontecer, ganham a causa e fazem justiça. Eu sempre tive esse encantamento. Aí comecei a pensar o que eu iria fazer na vida. O que eu gostava de fazer. Sempre gostei de falar muito. Conversar. Falar era a minha diversão predileta. Sempre fui muito comunicativo. Detestava exatas. Cálculo, geometria, aquilo pra mim era o fim. Nunca vi utilidade prática em matemática, a não ser fazer conta pra comprar coisas. Geometria, trigonometria, não sei, até hoje ninguém se preocupa pra que serve. Sei que serve pra alguma coisa. Então, pra mim as coisas tinham que ter função prática. “Ah, vou aprender matemática só pra calcular.” Mas, na vida prática, no dia a dia, pra que você usa. Trigonometria, geometria, física quântica, não sei das quantas, pra que você vai usar isso na sua vida diária. Eu sempre fui ligado na área de humanas. Então comecei a ver. Gostava muito de jornalismo, adorava reportagens, até hoje eu gosto, as matérias que eles fazem, mas eu queria viajar pelo mundo. Negócio de ser jornalista era ser aventureiro, andar no meio da guerra, fazer reportagens no meio do mato, essas coisas que esses caras da Globo fazem, Globo Repórter, essas coisas assim. Mas aí ficava pensando. Mas como é que eu, não enxergando, vou conseguir filmar esse pessoal, ou entrevistar o cara que está no meio da guerra lá. Sem levar bala, voltar ileso pra conseguir contar a história. Eu vi que ficava difícil, eu gostava de jornalismo. Mas ficar limitado, ser jornalista só pra escrever e ficar atrás de uma mesa, me limitou. Então comecei a ver que Direito, que eu gostava muito, e comecei a ver que Direito, o que eu preciso? Conhecer muito, ler muito, sempre gostei de ler, gostar de estudar, usar muito da palavra, da escrita. Tudo bem, em Braille, mas eu podia usar uma máquina de escrever, a partir do momento que eu tivesse alguma forma de passar pro papel, tudo bem. Então, advogado, 90% é só a sua cabeça. Como você vai passar isso para as pessoas, aí ou é oralmente, ou você dita pra alguém. Então, Direito acho que é a grande pedida. Já no primeiro colegial, segundo colegial, eu falava que queria fazer Direito. Aí prestei em algumas faculdades e entrei. 

 

P – Entrou em qual faculdade?

 

R – Fiz na FIG, Faculdades Integradas de Guarulhos. 

 

P/1 – E nesses anos de faculdade quais as lembranças mais marcantes?

 

R – Ótimas. Gostei da faculdade desde o primeiro dia. Disse: “É aqui mesmo.” Porque no primeiro ano da faculdade a gente tem aulas que explicam pra que serve Direito, na teoria, óbvio. Direito é o mecanismo que você tem pra fazer justiça. Pra corrigir aquilo que está errado. O meu intuito era defender quem, por algum motivo, tinha sido injustiçado, ou de repente, no caso do crime, cometeu um crime mas está sendo condenado de forma, está tendo um castigo muito maior do que merece. Ou então ele é inocente, mas está sendo culpado. Então, minha idéia era fazer justiça. Era conseguir defender aqueles que precisassem. Quando você está na faculdade, você é sempre idealista. Então gostei daquilo desde o começo, e muita coisa que eu gostava, política, Direito e Política tem uma relação tremenda. Tenho lembranças excelentes, tive professores ótimos, eu tinha bom relacionamento com professor, muito bom. Nunca tive problema com professor na faculdade. A FIG me abriu as portas, nunca tiveram nenhum tipo de preconceito comigo, sempre procuraram me ajudar...

 

R – Como era, prova oral?

 

R – Era, eu fazia a prova em Braille, tinha uma secretária lá na faculdade, o dia que tinha prova eu ia pra sala dela, o professor passava as questões, ela ditava pra mim eu copiava em Braille as questões, eu respondia depois ditava pra ela, e ela copiava numa folha. E assim, o tempo que eu tinha pra fazer a prova, era o de duas turmas. O período de aula da faculdade eu tinha pra fazer prova. Eu tinha folga pra fazer. Ninguém ficava no meu pé porque acabou, alguma vez eu passei do horário, o professor me fazia ficar tranquilo, então tive uma receptividade na faculdade, assim, excepcional. 

 

P/1 – E no dia a dia as tuas anotações eram em Braille? Os livros eram em Braille?

 

R – Em Braille. Livro, alguma coisa minha mãe lia, mas aí já começou a ficar difícil, porque era uma terminologia complicada, meu pai lia alguma coisa, aí comecei a fazer informática, tive acesso ao computador, então alguma coisa que eu conseguia em disquete comecei a ler, alguma coisa em Braille, então ...Tive ótimos amigos na faculdade. Que me ajudaram muito. 

 

P/1 – E da parte de diversão, teve alguma festa, alguma viagem. Uma cervejinha. Como é que funcionava? 

 

R – Na Faculdade? Eu não gostava de cabular aula, mas uns dias que tinham uns professores assim, sociologia, por exemplo, ficar falando de sociologia é um negócio que eu não, não sou muito chegado não. Então a aula de sociologia a gente cabulava. Porque a matéria era fácil. Depois você pegava com alguém, fazia a prova e estava tudo bem. O professor também não era exigente. Sexta-feira, a gente... Eu estudava boa parte no período da manhã, a gente ficava no barzinho lá, até meio dia. Ou na cantina, batendo papo, tomando café, aí ficava lá. Mas eu nunca fui muito de cabular aula não. Quando mudei pra noite eu fazia alguns.

 

P/1 – E nessa mesma época você continuou o curso de informática?

 

R – É. Foi assim. Em 96 eu entrei na faculdade. Aí no segundo semestre entre junho e julho, ligaram pra mim oferecendo esse curso. Começou em agosto. Aí minha vida começou a ficar puxada, porque de manhã eu ia pra faculdade, e à tarde eu ia pro curso de informática, era um curso longo. Começava às duas, ia até às oito da noite. Esse curso de informática, como tinha o intuito de preparação para o trabalho, eles tinham outros cursos. Tinham comunicação, português, redação, inglês técnico também, junto com informática, então tinha uma carga horária maiorzinha. 

 

P/1 – E o computador é adaptado? De que forma, era em Braille?

 

R – Não. Existem programas que você instala, no micro, e através da caixa de som multimídia ele vai falando pra você. Você vai digitando e ele vai falando letra por letra, acento, você vai digitando ele vai falando. Depois, quando você quer ler, você tem lá os comandos que você aperta e vai lendo linha por linha, palavra por palavra, você vai lendo os textos. Isso, os primórdios. Depois foi se aperfeiçoando pro Windows, a gente consegue navegar na Internet, consegue mandar e-mail, consegue mexer com planilha de cálculo, digamos que 90% do que um usuário comum faz na máquina, a gente faz. Só não a parte de desenho que é mais complicado. Mas a parte que um usuário comum precisa, a gente consegue. Até programação, mexer com sistema, a gente usava ... O período que trabalhei no Aché, e o curso de informática que eu fiz pra programação a gente usava sistema de voz. Eu programava, ouvindo o que estou programando. Depois testava o programa, e testando o programa eu conseguia saber onde estava dando erro, o que tinha que mudar. 

 

P/1 – Você falou do Aché. Como foi o teu primeiro emprego.

 

R – Então. Aí, terminei o curso em 1996. Desse curso eles separaram algumas pessoas que tinham tido maior destaque pra fazer um curso avançado. De informática. Foi em 1997. Era o curso de um ano, toda a noite, e a gente ia ter nesse curso lógica, era o resumo de um curso de análise de sistemas. Então a gente tinha algumas disciplinas de sistemas, teoria de administração, que a gente precisa pra análise, um curso de lógica, matemática, foi aí que comecei a gostar de matemática um pouco mais, aí já tinha uma professora, Regina, eu lembro, acho que ela era já preparada, que ela conseguia explicar matemática, a parte gráfica de matemática, de uma forma que a gente conseguia entender. Abstrair, e até entender. Eu entendi. Acho que todo o mundo aqui viu matriz. Eu consegui aprender o que era matriz com ela. Ginásio e colegial passei assim, matemática na marra, porque matriz nunca tinha entendido como é que era aquelas tabelas. Ela conseguia explicar de uma forma que a gente abstraía ...Quer dizer, a gente precisa muito dessas coisas pra informática. Matemática, e informática são coisas assim, uma não vive sem a outra. E ela ensinava de uma forma muito legal. Então eu fazia esse curso toda a noite. 

 

(Fim do Lado A da Fita Dois)

 

(Início do Lado B da Fita Dois)

 

E tinha a parte de programação, uma aula voltada pra programação em si. A gente aprendia a fazer programas. Quando foi no final de 97, o Seu Vitor, junto com os coordenadores do Laramara, resolveram fazer uma seleção. O que aconteceu? O Seu Vitor, começava a fazer as palestras e falar nas empresas pra contratar deficientes, que deficiente era capaz, enfim, fazer a propaganda. Aí chegavam pra ele e perguntavam: “Mas e você, na sua empresa, você tem algum deficiente visual?” Aí ele ficava assim, “Não tenho, né”, aquela coisa de você manda a gente fazer e você não faz? Bem aquilo, em casa de ferreiro espeto é de pau. Aí ele começou a querer, e começou a conversar no Aché também uma forma de ter alguém, aí ele fez uma seleção velada, porque a idéia deles era fazer uma seleção, ele só ia contratar, ia inicialmente ter uma pessoa, então, o que ele queria. Pediu pra que fizesse a seleção, ele já conhecia todo o mundo. Seu Vitor sempre foi assim, muito sociável. Então ele aparecia lá no meio do curso, à tarde, ele entrava lá na sala, conversava com a gente, brincava com a gente, a gente estava comendo lanche ele pedia lanche, sempre bem descontraído. Pessoas na posição dele, empresário, empresa grande, é difícil, geralmente eles são mais, assim, distantes. E ele era assim, e a gente estranhava um pouco, ele era muito sociável, brincalhão com todo o mundo. Então ele conhecia, algumas pessoas ele já tinha, assim, se interessado, pelo jeito... uma das pessoas era eu. Ele falava que, os coordenadores me disseram depois, ele achava que eu era muito comunicativo, falava bem, tinha uma apresentação boa. Além da parte técnica, eu tinha uma apresentação boa. Sempre gostei de falar, né, então...E eu era briguento lá no Laramara, o coordenador tinha um medo de mim, assim, de eu chegar pra ele e reclamar deles. Porque, assim, tudo o que eu via de errado, que eu não concordava, eu brigava. Os outros não... “Vamos deixar.” Deixar assim mesmo não. Se a gente não critica, não melhora. Mas eu sempre critiquei. Não queria ser turrão. Eu criticava apontando a solução. Olha, eu acho que está errado isso aqui, a gente poderia fazer de outra forma. Eu nunca tive medo de chegar e falar que estava errado, nem de levar um não. Então eu não tinha medo de chegar e brigar. E reclamar. Os outros já tinham um pouco. Então, nesse ponto, eu era comunicativo, eu conversava com você ou com o seu Vitor da mesma forma. Apesar do Seu Vitor, aí você corta, né, apesar do Seu Vitor conseguir travar a gente quando ele começa a falar, ele consegue, assim, tomar toda a atenção. Você pensa dez coisas pra falar, você consegue falar duas. Ele tem um magnetismo, assim, que é... Não que ele não deixe você falar, ele deixa, mas você... ele é hipnotizante. Mas mesmo assim, ele chegava na sala e perguntava e eu falava as coisas, conversava com ele...

 

P/1 – Você acabou indo pro Aché?

 

R – Isso. Ele fez essa seleção. Dessa seleção de nível técnico, e nesse nível até tinha uma pessoa mais qualificada do que eu, que tinha sido melhor, que era meu irmão, que fez o curso comigo. Só que o meu irmão, na época, eu estava com 21 anos, eu era maior, pra trabalhar. E meu irmão tinha 17, e não ia poder. Então tinha isso também. Mas o meu irmão, em nível técnico, pra área de informática, meu irmão dá uma rasteira em mim. Até hoje. Ele dá uma rasteira em mim duas vezes, quando ele está pensando 20 eu só penso em dois ainda. Só que tem essa parte do interpessoal. Eu sempre fui comunicativo, tinha boa relação com todo o mundo, era desinibido, então, dentre esses, ele achou que eu poderia ser a pessoa mais indicada pra estar testando lá o Aché, uma espécie de cobaia, assim. Ele quis alguém bem, assim, pra poder depois abrir. Porque se você coloca uma pessoa tecnicamente boa, mas ela tem uma dificuldade de relacionamento, você se retrai, o seu desenvolvimento se prejudica. Às vezes você não tem um conhecimento técnico bom, mas você tem uma facilidade de se relacionar e ter alguém que ensina e pedir, isso, aquilo, você melhora. Isso é comprovado. Então me colocou, entrei na área de informática.

 

P/1 – Fazendo o que, exatamente?

 

R – Programação. Entrei como estagiário da área de programação. 

 

P/1 – Quando foi?

 

R – Em 98. Abril de 98.

 

P/1 – Você lembra do teu primeiro dia de trabalho lá no Aché?

 

R – Lembro. Eu fui contratado, como eu estudava de manhã, eu me propus a mudar para o período da noite, eles não quiseram. Aí eu trabalhava meio período, como estagiário. Da uma às cinco. Aí nesse dia eu fui lá de manhã, aí fiz integração. Aí a Elaine, acho que vocês não conheceram ela. A Elaine Ribeiro, que trabalhou até o ano passado no Aché – hoje ela não está mais lá – foi ela que fez a entrevista comigo e a integração. Então, no meu primeiro dia eu nem trabalhei direito, fiz integração, ela me mostrou o Aché todo, me apresentou pra todo o mundo, aí comecei a conhecer as pessoas, no primeiro dia também teve um problema com o meu computador, que eles tinham que instalar os programas no computador, pra eu poder trabalhar, o primeiro dia foi assim, bem descontraído. Almocei lá, conheci o pessoal do refeitório, pessoal bem legal. Comecei a trabalhar no segundo dia, que foi assim, tinha uma funcionária, a Conchita, que ela me ajudou pra caramba, gente fina a Conchita, e ela começou a me passar os programas, algumas coisas, e comecei a mexer com algumas coisas dos programas da área de DP. Folha, coisas simples que ela tinha que fazer manutenção ela passou pra mim, ia me explicando, ia fazendo manutenção do que estava errado, foi me orientando, me ajudou. Depois de um ano fiz um outro curso, que o Aché pagou, uma outra área de programação lá, aí comecei a desenvolver um sistema pra biblioteca. De cadastro lá de livros, de empréstimos, fazendo uma outra linguagem. Aí quem me ajudava muito, me dava muita dica, porque você faz curso, mas não aprende tudo. Sempre fica um macete que, na hora que você vai mexer com o programa,você precisa. Aí a Cristiane, que está numa das fotos que eu trouxe, uma morena, ela me ajudou pra caramba. A gente brigava, como a gente fechava o pau. A gente não concordava. Pra começar ela é petista. Ferrenha. Eu sou de esquerda mas nem tanto. Em política a gente fechava o pau. E em outras coisas mais. A gente brigava. A turma falava que qualquer hora a gente na saída no tapa. Mas não era isso. Sempre fomos muito amigos, saía junto, amizade muito legal. Mas a gente fechava o pau, a turma às vezes parava pra ver a gente brigar, discutir, a gente discutindo pontos de vista, o pessoal parava. Tinha um amigo nosso lá que faleceu já, o Chicão, ele falou assim: “Eu vou fazer uma aposta, vocês vão brigar e vou ganhar uma grana com vocês. Vocês brigam o tempo todo.” A gente brigava o tempo todo mas estava sempre junto. E hoje, depois de oito meses que eu saí do sistema, ela ainda é assim, uma das grandes amizades que ficou de lá, do departamento. 

 

P/1 – Mudando um pouco, André, nos primeiros dias de Aché, ainda qual foi a tua primeira impressão da empresa?

 

R – A primeira impressão que eu tive, uma empresa muito grande, maior do que eu imaginava, não com relação às dimensões físicas, mas como posicionamento no mercado, assim. Falavam que o Aché era uma empresa grande, mas quando entrei no Aché eu comecei a perceber que o Aché não era grande, o Aché era uma das maiores do país, pelo complexo administrativo, pela estrutura interna, e quando entrei, o Aché estava no auge de vendas, eu via reportagem direto. E via, assim, que o Recursos Humanos do Aché era excepcional. Eu achei que entrando lá no Aché eu ia ter dificuldade em algumas coisas. Mas a minha ambientação com todo o mundo foi muito melhor do que eu imaginava. 

 

P/1 – Você sentiu alguma adaptação, por parte da empresa? Porque afinal era a primeira vez que eles estavam recebendo um funcionário...

 

R – Não, eles se preocupavam em saber se eu estava indo bem, se precisava de alguma coisa em equipamento, se precisava de alguma coisa que melhorasse a adaptação. Mas não, eles me deram um equipamento legal, com isso eu resolvia bem, eu tive uma sorte muito boa de cair com uma equipe de gente legal pra caramba, com essa minha amiga Cris, a Conchita, todo o pessoal que trabalha lá comigo, eles, desde o começo, claro, não conhecem, não estão acostumados, eles tiveram aquela proteção, aquele receio inicial. Mas a gente quebrou rápido. Então, assim, tudo o que eu precisava do pessoal pra me ajudar, me dar a dica, o pessoal tinha uma boa vontade muito grande em me ajudar. Em me ensinar, então não tive problema nenhum. Caí numa equipe assim...

 

P/1 – E teve alguma adaptação de equipamento, de material? 

 

R – Não, de equipamento, porque eu precisava de um computador que tivesse esse programa, eu precisava desse programa pra poder falar, pra poder trabalhar. Então, foi a única adaptação que eles fizeram. Mas de local, não precisou adaptar local nenhum. Lá no Aché, acho que vocês já viram, tem as baias, alguns departamentos são divididos por bancadas, mesas de um lado e do outro, o Sistemas é assim. Mas eu fiquei numa posição, na época, de frente pro gerente mas ficava fácil de sair, entrar, então não precisava de ninguém. Se queria tomar um café, queria ir até o banheiro, não precisava que ninguém me ajudasse. Me colocaram numa mesa, quer dizer, que e minha acessibilidade era muito tranquila. A única adaptação que eles fizeram acho que foi isso. Foi me colocar numa mesa que fosse fácil de sair.

 

P/1 – E o pessoal você sentiu que ele foi preparado, teve algum tipo de...

 

R – Não. O pessoal de Recursos Humanos, acredito que sim. E claro, o gerente da minha área foi chamado, e foi falado com ele, assim, assim, e ele aceitou. Esse meu gerente foi muito legal também, ele sempre foi muito tranquilo comigo, nunca exigiu demais, de mim, e nem nunca exigiu de menos, “Não vou exigir dele porque ele não enxerga então não vai ser capaz.” Ele me deixava um pouco à vontade. Eu dizia: “Isso eu tenho condições de fazer”, então ele pedia, cursos, outras coisas, ele sempre foi muito legal. 

 

P/1 – O passo seguinte do teu trabalho lá dentro qual foi André?

 

R – Aí eu fiquei três anos na informática. Terminei Direito, não fiz estágio, porque não dava, não tinha campo pra estagiário lá, eu queria fazer estágio, aí no quarto ano eu mudei pra noite. E aí trabalhava período integral, no sistema, de manhã e à tarde, e à noite ia pra faculdade. Eu fiz algumas coisas na faculdade. Ah, meu gerente era legal, porque eu tinha que assistir audiência pra entregar pra faculdade. Tinha os relatórios que tinha que fazer. Eu tinha que assistir algumas audiências, então tinha que sair. Audiências vão até sete da noite. Não tem... Ele me deixava sair, na hora do almoço pra fazer essas audiências, e nunca contestou se eu realmente estava fazendo audiência ou não, eu é que mostrava a documentação, porque achava que seria correto. Ele sempre me autorizava e nunca tive problema. O que você ia me perguntar?

 

P/1 – Você saiu dessa área pra assumir o que?

 

R – Aí em 2000 terminei a faculdade. Quando foi o ano passado, 2001, eu estava no Sistemas, boa parte do ano, aí entrei no cursinho pra prestar exame da OAB. Eu queria mudar pro jurídico, mas sabia que depois que eu terminei a faculdade não ia conseguir ser estagiário, porque estagiário é o que faz faculdade. Então pra eu conseguir tentar alguma coisa no jurídico, eu tinha que ter OAB. Tinha que ir como advogado, e como advogado, você precisa da OAB. Aí entrei no cursinho pra fazer o exame, passei. Dei uma sorte, passei na primeira vez. O pessoal realmente tenta três, quatro vezes. Fiz o exame de maio, no ano passado. Aí quando tirei a carteira, comecei a falar, conversar com o pessoal do Recursos Humanos, conversar com o pessoal do jurídico, que eu queria, se tinha possibilidade de mudar, que eu já tinha tirado OAB e tudo, aí nessa fase, trocou o advogado, saiu um trabalhista e entrou a Vera Márcia. Aí eu sabia dessa vaga. Aí fui, tentei, e até hoje, eu e o Júlio, a gente dá risada disso, porque ele falava que eu queria, recém -formado, queria advogado sênior. Na área trabalhista que é extremamente pesada. Mas o meu intuito não era a vaga da Vera Márcia. Comecei a assuntar pra ver se não ia ter resistência. Porque você pedir pra mudar de departamento, e chegar lá você pega um gerente que não está afim de te ajudar, você não vai conseguir ficar seis meses na vaga. Você ia estar lá porque pediram, porque você conseguiu e forçou um pouco a barra, mas você não ia conseguir trabalhar porque o gerente não está te engolindo. Isso não é legal. Então eu sondei. E vi que teria a oportunidade de outra vaga pra advogado júnior, trainee, que foi o que aconteceu. Aí conversei com ele, comecei a fuçar, conversei com o diretor nosso que era o Toninho, com um e com outro pra ver a possibilidade de trocar de departamento. Cheguei até mesmo a conversar com o Seu Vitor com relação a isso. De trocar de departamento. Aí, o departamento jurídico, ele é enxuto, então, um a mais que estava entrando não ia inchar o departamento. Aí eu fui muito bem recebido no jurídico. O meu chefe foi muito receptivo comigo, ele só tinha o receio de, como é que eu ia fazer, então, eu expliquei que precisava de tal equipamento, que seria feito assim, assim, então ele me ajuda. Ele, e agora que entrou a Márcia, boa parte do serviço que eu faço, ela que me passa. Eu sou advogado trainee.

 

P /1 – Quando é que você assume essa posição?

 

R – Eu assumi isso em agosto. Foi quando eu mudei. 

 

P/1 – E hoje, como é o seu dia a dia de trabalho.

 

R – Meu turno de trabalho começa às oito, termina às cinco, mas devido à quantidade de trabalho que temos no jurídico, lá é puxado, a gente não tem muito controle de horário, a gente não tem um trabalho assim rotineiro, como o pessoal de produção, de fábrica, que tem aquilo, trabalhar das oito às cinco, a gente não. A gente trabalha com a cabeça, e tem muito trabalho. Eu geralmente chego no Aché às sete horas, e trabalho até às cinco, às vezes fico até mais...Como eu sou advogado trainee, que é, entre aspas, um estagiário, a única diferença é que ele tem carteira da OAB, então ele é um advogado. O estagiário não pode assinar nada. Eu assino, posso assinar, posso fazer audiência, posso ir no fórum e retirar algum documento que precisa de carteira de OAB, eu posso, eu sou advogado do Aché. Só que como eu estou aprendendo, sou novo, conheço pouco, então fico assessorando. Então o Júlio, por exemplo, ele também advoga. E chega muita coisa pra ele fazer. E coisas mais simples que dá pra eu fazer, que eu já tenho conhecimento, e que ele pode me ensinar rápido, ele passa pra eu fazer a parte jurídica da empresa e eu vou fazendo. Eu passo pra ele, ele supervisiona, corrige, olha, isso aqui, acho que a melhor forma de fazer é tal, você estuda tal coisa, ele pede pra fazer pesquisa...

 

P/1 – São causas trabalhistas?

 

R- Não. De tudo. Tanto trabalhista quanto civil. O Júlio mexe com civil. Então chega pra mim, ele fala: “Olha, isso aqui acho que é tal coisa. Então dá uma pesquisada e vê o que você acha e escreve pra mim.” A gente no Aché, além da parte de fórum, de ação, a gente tem muita consultoria. O que é consultoria? Por exemplo, um pessoal da área de produção. Eles precisam adquirir um produto, uma matéria prima. Mas vão fazer um contrato com uma empresa de fora. Então, o que eles fazem? Antes de fazer o contrato, eles passam pra gente, perguntando se aquele contrato está em ordem, se tem alguma cláusula que precisa tirar alguma dúvida, se aquilo está correto, alguma dúvida em relação ao meio ambiente. Por exemplo, segurança no trabalho, esse tipo de coisa. Que tem que ter proteção. Então eles mandam pra gente, eles estão com dúvida se aquilo realmente é legal, se é legal o que o fiscal está pedindo, está correto, quais os mecanismos que a gente pode utilizar. E eu faço a pesquisa, dou o parecer. Pesquiso as leis, pesquiso decisão de tribunal, e escrevo a minha opinião. Aí ou a Márcia ou o Júlio, dependendo da área de direito que é, eles lêem, corrigem e falam: “Tá legal, é isso mesmo. Pode mandar.” Aí a gente assina, e manda.

 

P/1 – É basicamente um trabalho interno. 

 

R – Até o ano passado era interno. Agora, voltei das férias, tem externo também. Agora estou fazendo audiências também. Estou defendendo o Aché também, em algumas,  trabalhistas. Teve um dia uma ação do Procon, que era pro Júlio ter ido, que é área dele, ele não pode ir então falou pra mim que fizesse, pra eu ir aprendendo, me deu toda a orientação de como fazia, o que era pra fazer, a gente fez a defesa, tudo, e eu fui, fiz, como advogado do Aché, defendendo o Aché nessa questão. No outro dia teve a trabalhista. A Márcia também era pra ela ir, não deu, ela me orientou. E falou, quero que você faça, que você também vai aprender, vou te explicar como é que tem que fazer, você vai lá e faz. Fui, graças a Deus deu tudo certo.

 

P/ 1 – Mas na tua trajetória, pra você teve algum momento mais marcante, foi a tua formatura, foi a carteirinha da OAB, a primeira audiência?



R – Esses três pontos que você falou foram importantes. Primeiro a formatura. Quando a gente está na faculdade a gente acha que formatura é muito mais pompa, aquela tradição de formatura. Mas a emoção de saber que se formou, principalmente no curso de Direito, aquela emoção de você estar recebendo o diploma e saber que dali você tem uma profissão, reconhecida, em nível superior, é uma emoção muito ...uma coisa que você não esquece mais. 

 

P/1 – Teve cerimônia, baile?

 

R – Teve cerimônia, colação de grau, teve baile de formatura, são coisas que você não esquece mais. 

 

P/1 – Tem algum detalhe da cerimônia, da festa, que você queira explicar?

 

R – Sim. Na colação de grau, que foi no Expo Center Norte, eu vi na fita depois, que na hora não vi, não consegui escutar. Como eu fui, na minha turma, o único deficiente visual, de 700 alunos, ano 2000, então quando fui receber o diploma, a turma me aplaudiu de pé, gritavam o meu nome, eu ouvia, mas só vi depois na fita. Dava um arrepio assim que...Você vê que as pessoas admiram você. Porque você tem uma limitação, uma coisa que dificulta, e as pessoas admiram isso. Às vezes você acha estranho, porque me considero uma pessoa igual a qualquer outra. Mas vejo que não é. Que as pessoas admiram. Que você tem uma limitação e você não para. Fui aplaudido de pé por colegas, que são advogados tanto quanto eu, iguais a mim, e você, e os professores também, você sente, assim, uma emoção que é...  indescritível. 

 

P/1 – E teus pais devem ter participado também desse momento.

 

R – Ah, sim. Com certeza. Meu pai, minha mãe, até hoje eles falam, assim, que … Sou o primeiro filho que se forma. E meu pai queria ter sido engenheiro, minha mãe queria ter feito medicina também, não... a vida não deu, então, eles sempre incentivaram a gente a estudar. E o primeiro que se forma é uma realização deles também. Que boa parte da faculdade que eu fiz meu pai lia texto pra mim, minha mãe me ajudava, então é uma formatura dela também. Deles também. Eles se sentem orgulhosos. Formatura é um negócio que quem não fez, faça, porque você não esquece mais.

 

P/1 – Depois teve a carteirinha da OAB.

 

R – É, o exame da OAB foi muito interessante. Porque o exame da OAB é em duas fases. Tem uma primeira fase que são testes de múltipla escolha, são 100 questões. Você precisa acertar pelo menos 46 pontos, pra poder passar pra Segunda fase. Nessa primeira fase cai tudo, cinco anos. É terrível, quatro horas de prova, assim, desgastante. Eu fiz a prova e achava que estava difícil, fiquei naquela. Se eu fizer 46 está bom demais. Aí no dia que saiu o resultado, eu tinha ficado por dois pontos. Mas justamente as questões que errei eram questões, assim, totalmente duvidosas. Todo mundo reclamou que, aquilo, cada um respondeu de uma forma e todo o mundo errou. Aí a OAB reviu a prova, e realmente as duas questões que eu tinha errado, realmente eram de dupla interpretação. A resposta era dúbia. E eles anularam as questões. Não fiquei por dois pontos. Fiquei por um ponto, que é mais chato ainda. “Puta, que sacanagem. Uma questão.” Aí eles anularam duas questões. Aí passei, eu e mais um monte de gente, que conseguiu ser aprovado pra segunda fase com um ponto a mais. Fiz 47. Justamente as duas questões, que eu também já tinha achado esquisitas, respondi da forma que eu tinha entendido, mas uma questão enorme, gigantesca, aquelas questões de exame, que é pra ferrar aluno mesmo, enorme, que você já está de saco cheio de prova, quatro horas daquilo é maçante, você lê, lê, lê, já está com o cérebro fervendo, responde qualquer coisa, mas responde qualquer coisa porque a questão era dúbia. Então eles anularam. Aí meu amigo da faculdade ligou e eu disse: “Não passei.” Ia fazer outro exame. Eu já estava consciente que todo mundo presta dois, três exames e pra mim, não passar, não ia ser a exceção da regra também. Falei: “Ah, vou fazer outro exame, né.” Ele falou: “Não, você não sabe, e se eles anularem as questões. Não entendo você é tão pra cima, você está nessa?” E ficou na minha orelha, encheu meu saco uma semana. Aí saiu outro resultado. Eu tinha passado. Ele disse: “Eu falei pra você, eu devia te xingar.” Aí passei pra segunda fase. Que é mais tranquila. Mas eu já tinha ficado na primeira, que foi esse rolo, e você fica meio apreensivo. Quando saiu o resultado do exame falei: “Ah, que maravilha.” Olha, é outro vestibular que você passa. É igual passar na USP, na Fuvest assim, a emoção de saber que acabou, você não vai mais ter que fazer aquilo nunca mais na vida. Que a OAB você faz uma vez só. E eu sabia que aquela carteira era o passaporte do que eu fazia, informática, pra área em que eu tinha me formado. É com essa carteira que vou conseguir, é a arma que eu preciso pra mudar de departamento. Não posso ser estagiário. E mesmo que no Aché eu não consiga mudar, eu vou fazer paralelo. Tendo carteira, posso ser advogado depois do horário, fazer coisas paralelas. 

 

P/1 – Mas deu certo no Aché.

 

R – Deu certo. 

 

P/1 – E depois teve a primeira audiência. Foi legal?

 

R – A primeira audiência foi no ano passado. Tinha até um outro advogado. Eu tinha que defender uma coisa simples pra caramba. Chegou na hora fiquei tão nervoso que não conseguia falar. Tudo o que eu ia falar estava escrito, tudo bem. A juíza ia analisar depois. Só que, se eu tivesse falado, ela teria resolvido aquilo na hora, e a gente já teria o resultado pro nosso lado na hora. E eu, travei, e não falava. Eu tinha ajudado a fazer a defesa, tinha escrito a defesa junto com a Márcia, eu redigi depois ela corrigiu. Fizemos juntos. Levei. Mas eu tinha que falar. Tremia feito uma vara verde, não conseguia falar nada. Falei tudo enrolado, saí da audiência como se tivesse tirado o World Trade Center das minhas costas. Eram aqueles escombros nas minhas costas. Nunca mais. Não quero audiência de jeito nenhum. Voltei pro Aché e perguntaram como tinha ido. Falei: “Olha, a defesa escrita foi ótima. Mas a oral, foi mais ou menos. Fiquei nervoso, não consegui falar.” “Pô, você não conseguiu falar?” Falei: “Não.” Estava escrito e tudo bem, vai, a primeira é assim mesmo. Aí, essa semana passada fui numa outra, parecida, só que aí, não sei, acho que é esse negócio, na outra , tinha um advogado da outra empresa que estava junto comigo. Então, sabe quando você fica naquilo, “Ah, se eu não conseguir falar o outro advogado fala, está tudo bem.” Então, você fica nervoso e...Dessa vez não. Fui sozinho. Era eu, contra o outro advogado da outra parte lá. Quer dizer, se eu errar, o Aché vai dançar, e vou dançar por consequência. Vou me queimar aqui. Então fica aquele negócio. Fiquei nervoso, mas chegou na hora, essa última agora, que consegui falar tudo o que eu precisava, e consegui fazer, acredito que vamos ter um resultado bom. Bastante positivo. Então, quer dizer, a primeira foi aquela coisa horrível, depois já foi melhor. A primeira audiência é que nem aquela história. A primeira vez a gente não esquece. E não esquece mesmo. 

 

P/1 – Nesse meio tempo é o tempo que a tua irmã também começa a trabalhar na empresa? Como é que foi a entrada dela aqui?

 

R – A Cláudia foi assim. 

 

(Final do Lado B da Fita Dois)

 

(Início do Lado A da Fita Três) 

 

... A Cláudia foi bem interessante, porque eu de certa forma fui pro Aché por indicação. Não deixa de ser uma indicação, porque você vem do Laramara, e o Seu Vitor escolheu lá, e você veio por indicação. Minha irmã, não. Ela passou por processo seletivo, normal, tranquilo, como todo o mundo. Ela em meados de 2000, quando ela foi pro quarto ano, o Aché abriu uma vaga pra estagiário de Psicologia. E um monte de gente. Abriu, falei: “Cláudia, eu levo o seu currículo, não tem problema nenhum.” O Aché faz esse tipo de coisa, eles abrem vaga e pedem pro pessoal levar os currículos, e põe o seu nome, “Eu indiquei fulana de tal.” O funcionário tem que pôr o nome dele pra eles saberem quem indicou. Isso é regra do Aché. Ela foi, e fez. O currículo dela não era assim bom, porque ela não tinha feito estágio em lugar nenhum. Só que ela tinha uma faculdade muito boa, que era a São Marcos, uma das melhores em psicologia. E eles separaram, fizeram uma triagem de 30 candidatos pra vaga. E gente que estudava na PUC, faculdades de Guarulhos, e ela na São Marcos, acho. Fizeram a seleção. E começaram a fazer entrevistas. Fizeram várias. E ela foi passando. Tiveram as dinâmicas e ela foi passando. De 30, ficaram 10, de 10 ficaram cinco, e sempre ela foi ficando entre as selecionadas. Aí ficaram três, ela fez entrevista, a última, quando ela fez entrevista, segundo ela, uma resposta que ela deu para uma pergunta já pra pegar, fizeram uma pergunta que ela disse que era uma pergunta que hoje ela utiliza pra pegar o candidato, que na hora ela pegou que era uma pergunta pra desequilibrar mesmo, pra ver se o candidato era equilibrado, ou estava de acordo com o que eles queriam, ela deu uma resposta, assim, plenamente satisfatória. E ela ficou com a vaga. A Cláudia, ela conseguiu a vaga mesmo. Por mérito, única e exclusivamente dela, porque ela disputou processo seletivo com 30 pessoas que não tinham nenhum tipo de deficiência. Isso que é legal no Aché.  O que o Aché faz. Ele não abriu a vaga pra um deficiente. Ele abriu a vaga pra uma pessoa. E eles consideraram a minha irmã como uma pessoa como outra qualquer. Sem deficiência nenhuma. Eles avaliaram ela da forma... Nesse ponto, é isso a minha influência. Como eles já me tinham lá, e eles sabiam que era viável, era possível, era só ter o equipamento, as condições certas, que daria...Então eles não tiveram medo em levar a seleção dela adiante, e ver se ela realmente, claro, se ela não tivesse passado na entrevista, eles não teriam ficado com ela. Mas como ela passou, então ela foi admitida pra ser estagiária. 

 

P/1 – Isso foi quando?

 

R – Isso foi em 2000. Metade de 2000. 

 

P/1 – E hoje quantos são os funcionários com deficiência na empresa?

 

R – Deixa eu ver se eu lembro. Eu, a Cláudia, tem acho que quatro ou cinco deficientes auditivos no restaurante, no refeitório lá, e tem um, se não me engano, que tem deficiência na perna, que trabalha no controle ou na produção. Não tenho certeza. 

 

P/1 – Mas a empresa está firmando essa política dela? 

 

R – Tá. Tá. A política do Recursos Humanos, e a Cláudia Boccalini já falou isso, e eu concordo com ela, qual é a idéia do Aché. Não é cumprir cota, porque existe uma lei que tem que cumprir cota. Mas alguma empresas estão cumprindo cota. Não estão colocando, contratando pra desenvolver. Esse é o nosso medo. É de cumprir cota e deixar a pessoa encostada. A pessoa vai ficar lá. Então como tem que cumprir cota, fica lá naquela mesma função, a vida inteira. Isso não é o que a gente quer. A gente quer uma oportunidade pra crescer e se desenvolver, ter promoção como qualquer outro profissional que quer e vai ter as mesmas oportunidades. E o Aché é isso, ele abre a vaga, se candidatarem à vaga três deficientes, e um desses na seleção eles sacarem além dos outros, se tiverem perfil pra vaga, eles vão contratar. Vão absorver isso. E isso é muito legal, porque eles colocam você na posição de igualdade com os outros. Se você tem um quê a mais, que você realmente tem que ter, como qualquer candidato pra disputar uma vaga, sempre tem uma coisa a mais pra poder ficar na vaga, ele vai ficar na vaga. Isso acho legal, essa política acho boa.

 

R – Aí, finalizando, queria te perguntar sobre o futuro. Que sonho você tem, André?

 

R – Que sonho? Que eu tenho? Meu sonho é de crescimento constante. Sou ávido por conhecimento. Pra mim, tudo que eu aprendi ainda é pouco. Eu nunca vou cansar de aprender. Tudo. Gosto de conhecimentos gerais. Não só Direito. Quero sempre aprender. Acho que nunca vou parar de estudar. Esse ano já vou me inscrever em cursos, quero me especializar, quero estar sempre aprendendo, crescimento. Claro, quero dentro do Aché crescer. Como pessoa, como...se for nesse ritmo, e a política continuar como é, acredito que eu vá ter muitos bons frutos, vou estar ajudando muito a empresa, que é meu intuito como profissional, e estar me desenvolvendo, me destacando, como pessoa e como profissional. Quero ser um bom profissional. Profissional que as pessoas me respeitem pelo conhecimento que eu tenho, pelo profissional que eu sou. Eu tenho o meu valor, conhecimento respeitável. Estou no começo ainda. O caminho é longo. Mas eu sei que, enquanto eu tiver força e Deus estiver comigo, quiser, estou aprendendo. Posso estar com 90 anos, vou estar aprendendo. Esse que é o meu sonho de futuro. É ter uma vida cada vez melhor, todo mundo gosta de conforto. Então quero ter uma boa condição de vida, casar, ter filhos, ter uma boa condição de vida pro futuro, mas estar sempre aprendendo. O dia que eu cansar de aprender, a vida não vai fazer mais sentido. Acho que é isso.

 

P/1 – Tá, e por último queria perguntar o que você achou de ter contado um pouco da tua história hoje?

 

R – Ah, achei legal, achei interessante. Esse trabalho de vocês, geralmente todo o museu é pra colocar coisas antigas, peças, objetos, que fizeram parte de uma civilização, ou da história. Vocês contam a história das pessoas. Que é o que faz sentido no planeta, é o que transforma, histórias de empresas e de vida. De certa forma, eu contribuo pra história do Aché de alguma forma. Primeiro deficiente, isso conta pra história, é um divisor de águas também.  Então acho legal a empresa e vocês fazerem esse tipo de trabalho de colher depoimentos e montar uma história, que o que faz uma empresa, o que faz um país, são as pessoas. Não é sistema, não é matéria. É a pessoa, o conhecimento de cada um. A experiência de vida que eu tenho fora, eu levo pro Aché de certa forma. Meu modo de ser, fora e dentro do Aché, é o mesmo. Não tem como ser diferente. As coisas que você busca fora você traz pra dentro da empresa. Não tem jeito. Ou pouco ou muito, mas você traz. Isso é legal. Gostei bastante de participar. Gostei mesmo.

 

P/1 – Obrigada pela participação, a gente ficou bem satisfeita também.

 

P/2 – Com certeza.

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