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História

O moço do bambu

História de: José Maria Tonetto
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/12/2004

Sinopse

José Maria Tonetto nasceu em 1939, na cidade de Sales de Oliveira, São Paulo. Descendente de imigrantes italianos que vieram fazer a vida na lavoura do café, desde pequeno ajudava no sustento da casa vendendo leite e verduras da xacára da família. Depois de trabalhar como sacristão e motorista, em 1962 começou a trabalhar na Telefônica Mário Alberto Diniz Junqueira, descruzando linhas telefônicas na rua. Após um acidente de trabalho, passou à oficina da empresa. Nesta entrevista, José Maria fala sobre seu aprendizado em trinta e oito anos de empresa e as transformações ocorridas com a administração da Companhia de Telecomunicações do Brasil Central (CTBC).

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História completa

P/1 – Bom dia, senhor Tonetto.


R – Bom dia.


P/1 – Eu queria para começar, por favor, que o senhor dissesse seu nome completo, local e data de nascimento.


R – Eu me chamo José Maria Tonetto, nasci na cidade de Sales Oliveira, dia 10 de agosto de 1939.


P/1 – O nome do seu pai e da sua mãe, por favor.


R – Meu pai chama Aquiles Tonetto e Letícia Tonetto.


P/1 – O senhor conheceu seus avós?


R – Conheci meus avós da parte da minha mãe e a minha avó da parte do meu pai. Meu avô da parte do meu pai morreu quando meu pai tinha oito anos.


P/1 – Embora o senhor tivesse conhecido somente os dois, o senhor se lembra dos nomes deles?


R – O pai do meu pai chamava-se Moisés Tonetto, minha avó chamava Pierina, ambos vieram da Itália.


P/1 – De onde, o senhor se lembra?


R – Diz que é perto da Sicília, a cidade eu não me lembro.


P/1 – O senhor dizia a época.


R – Por volta de 1890, por aí.


P/1 – E por parte da sua mãe?


R – Por parte da minha mãe, também foi na mesma época. Chamava-se Carlos Balugoli e minha avó chamava Catarina Bortollo Balugoli, também italianos vindos da mesma região. Chegando no Brasil, eles chegaram até Santa Rita do Passa Quatro, estado de São Paulo, onde meu pai nasceu.


P/1 – Seus avós, que tipo de atividade eles desenvolviam?


R – Era época do café. Essa imigração era totalmente voltada para o café. Até meu avô, que eu tinha muita intimidade com ele quando era criança, ele falava que falavam lá na Itália, a informação que o Brasil era o rei do café, que aqui acharam a mina do dinheiro, do ouro. Então eles vieram com essa cabeça, de fazer a vida.


P/1 – Qual era a atividade de seu pai?


R – Era lavrador também do café. Mexia com café.


P/1 – Ele tinha terras próprias? 


R – Não. Ele estava com essa ideia, mas não conseguiu. Conseguiu uma chacrinha bem ligada à Sales Oliveira, foi onde ele residia.


P/1 – O senhor tem ideia do motivo que o levou a sair de Passa Quatro pra Sales de Oliveira?


R – Foi o seguinte: a linha mogiana estava se desenvolvendo e vinha rumo ao norte, então a estrada de ferro naquela época tinha muita influência no café. O povo pensava no meio de transporte. Então na Alta Mogiana, que era também o forte no café. Se falava de outras aberturas de mão de obra, por causa dessa linha de Ribeirão Preto para Orlândia, São Joaquim, estava subindo aqui para o norte da Alta Mogiana. Foi por esse motivo.


P/1 – O senhor tem ideia de quando ele veio para Orlândia?


R – Meu pai veio mocinho já, porque ele nasceu em 1906, a volta de doze, treze anos que ele veio, junto com a família para fazer esse trabalho junto às lavouras de café.


P/1 – O senhor tem irmãos?


R – Nós somos em nove irmãos. Eu estou no meio, tem quatro mais velhos e quatro mais novos.


P/1 – Como era a vida na casa do senhor, quando criança?


R – A princípio a gente morava nessa chácara, bem na periferia da cidade e meu pai morava junto com a minha avó ainda. Meu tio morava junto. Eles trabalhavam junto nessa lavoura de café. Praticamente tinha uma concorrência entre um e outro. Quando meu pai tinha um filho, meu tio tinha outro filho, foi indo até a casa dos cinco filhos por aí. Nós somos de idade muito próxima. Nós morávamos juntos até um certo... aí a família cresceu muito, tanto do lado do meu tio como do lado do meu pai, foi onde eles separaram. Meu pai foi morar numa casa, até financeiramente saiu mal. Naquela época, o dinheiro tinha muito valor, mas estava muito difícil a vida. Meu pai contava que teve a crise do café, ficou tudo difícil para se viver, para se trabalhar na lavoura. Aí ele começou a trabalhar de empregado, mensalmente. O salário também era baixo. Foi aí então que meus irmãos mais velhos foram ajudar. Na época começou a aparecer trabalho na cidade, meus dois irmãos mais velhos foram aprender o ofício de carpinteiro, de marceneiro. 

Teve aquela abertura de trabalho. Foi quando eles já começaram a trabalhar e ajudar. Eu era ainda uma criança de dez anos. Eu ajudava na distribuição do leite na cidade. Minha mãe tinha umas duas vaquinhas, então a gente sempre levava umas sete ou oito garrafinhas de leite nas costas pra distribuir na cidade. E vender também o que tinha: um franguinho, um ovo, uma verdura. Então vivia nessa penúria, mas ia tocando.


P/1 – Como era essa casa lá da chácara?


R – Era feita de material, assim tijolo, barro. Era assentada a barro. Uma casa simples, telha comum. Não tinha água encanada, era na base da cisterna, nem luz não tinha chegado ainda. Depois é que meu pai voltou, ele saiu da casa, trabalhou, separou a família. Depois meu pai voltou para a casa. Porque meu tio também mudou da casa, foi para Nuporanga, aí então nós voltamos para a casa. Ele reformou a casa, colocou luz, encanou água, colocou esgoto. Tudo básico para que a gente pudesse morar tranquilo. Foi aí que a gente cresceu até casar.


P/1 – Essa casa tinha quintal?


R – Tinha, ela tinha mais ou menos uns noventa metros quadrados, tinha uns pezinhos de café e também tinha um pastinho no fundo, que meu pai tinha um animal, tinha uma horta e também tinha... antigamente se usava muito criar vaca na cocheira. Ele ia buscar alimento fora da chácara e colocava dentro dessa cocheira e tratava os animais dentro da cocheira. Era dali que tirava o leite para o sustento. Criava umas galinhas, uns porquinhos dentro dessa chácara.


P/1 – Como as obrigações eram divididas no cotidiano da casa? As crianças também tinham que fazer suas obrigações?


R – Meu pai arrumou um serviço fixo para trabalhar num terreiro de café numa fazenda, próximo da Fazenda Aurora. Minhas duas irmãs mais velhas ajudavam também em serviço rural. Esses meus irmãos já estavam aprendendo ofício na cidade, eu que era o intermediário, fazia o serviço de entrega de leite, porque sempre sobrava um pouquinho de leite, um queijo; eu é que fazia o serviço da casa. Tanto para fazer compra, levar algum material que precisasse; eu sempre estava disponível ali.


P/1 – E, era perto, a chácara?


R – Era fim de rua. Na saída para Orlândia tinha uma estrada que era a estrada Orlândia-Sales, eram uns seis quilômetros mais ou menos, mas numa estrada de terra. Então na saída tinha uma rua final, onde morria a rua era a chácara do meu pai.


P/1 – Como era a cidade nessa época?


R – Era muito pacata. Se vivia mais como família, não tinha muito a expectativa de pensar no mundo de hoje. Meu pai tinha um radinho à força, não tinha televisão, não tinha nada. Ele ficou feliz da vida quando ele conseguiu ter esse rádio porque ele gostava de futebol. Minha mãe também gostava de escutar aquelas novelinhas; novelinhas do rádio, não da televisão. Aquelas que fazia aquela barulhada no rádio, gostava, ficava ali. Eles ficavam felizes porque tinham um rádio para ouvir. Aquela vida do dia a dia, aquela vida pacata, sem muito pensar no além, não esperando muita coisa não. Sempre naquela vida.


P/1 – Como a criançada se divertia?


R – Ah, sim. Isso era muito importante porque a gente divertia nos becos de rua, jogava futebol, brincava de esconde-esconde, aquelas brincadeiras que hoje não existem mais. Eu me lembro que eu tinha um primo que começou a namorar, e a namorada dele morava perto da cidade, então ele ficava na minha casa pra ir namorar. Ele vinha de bicicleta. Ele falava: “Enquanto eu vou namorar, você pode ficar de bicicleta”. Eu ficava feliz da vida porque tinha uma bicicleta para dar umas voltinhas, andar em roda de casa, dar uma passeadinha na rua. Não via a hora que chegasse o sábado e o domingo que ele ia namorar, e enquanto ele namorava eu estava queimando na bicicleta. (risos)


P/1 – E a escola, senhor Tonetto, a primeira escola que o senhor teve?


R – Até a quarta série eu fiz em Sales de Oliveira mesmo, era grupo, não se falava nem série, primeiro, segundo até o quarto ano. No quarto ano recebia um diplominha e se falava: se quiser continuar, continua. Então eu fiz. Eu me lembro, como é diferente hoje... A gente ia na escola descalço, com a sacola atravessada assim, não tinha bolsa, não tinha nada. Calcinha curta, e... a gente falava “borná” (bornal), bagageira, uma coisa assim... Se usava muitos nomes. Minha avó era italiana, então ela falava “emborná”.  Era na simplicidade. Nunca tinha um lanche para levar. O povo mais rico, que tinha mais poder, levava lanche, não ficávamos mamando no dedo. Os pobrezinhos ficavam mamando no dedo, não tinha o lanche. Depois, com o passar do tempo, apareceu essa sopa que eles davam na escola. Então a gente ficava feliz porque ia na escola e tinha uma sopa para tomar. Hoje as crianças: “Eu não vou tomar sopa de escola”. Graças a Deus a gente tinha aquela sopa, era um fubá bem ralinho, mas era gostoso porque era uma coisa diferente. Não era uma coisa de casa.


P/1 – O senhor se lembra de alguma professora?


R – Ah sim. Eu me lembro que ela foi professora, hoje não acontece mais isso, mas ela foi minha professora por quatro anos. Ela chamava Jaci, ela era considerada a professora mais brava da escola. Eu nunca tive nada com ela, mas dizia que ela batia mesmo com régua, rachava a cabeça das crianças. Era impressionante. 


P/1 – Desculpa, ficou faltando o nome dessa escola.


R – Primeiro não era escola, se fala Grupo Escolar Capitão Getúlio Lima.


P/1 – E a Dona Jaci, vamos falar um pouquinho da Dona Jaci.


R – A Dona Jaci era muito nervosa, era uma boa professora, porque ensinava bem. O prazer dela era que os alunos desenvolvessem, aprendessem. Mas sempre tem, dentro da classe, no meio dos quarenta alunos, aqueles que levam mais no banho-maria; então esses penavam na mão dela porque ela era muito nervosa, qualquer coisinha se irritava. Ela não queria um caderno com orelha, hoje não existe mais isso. De primeiro falava: “Caderno com orelha não entra aqui”. Primeiro a tinta era na carteira. Se molhasse lá e pingasse na carteira, puxava a orelha mesmo. Era bem controlado, ela queria bem organizado e dava aula. Ela escrevia muito bem, uma das professoras que escrevia melhor na lousa, você via era uma perfeição. Ela gostava dos cadernos bem limpinhos, bem perfeitos. Usava muito o caderno de caligrafia. Ela não admitia erros nesses cadernos. Ela exigia muito.


P/1 – E quem escreveu não leu...


R – Pau come. (risos)


P/1 – Ela usava palmatória ou era só na régua e no beliscão?


R – Na régua e no beliscão mesmo.


P/1 – Depois do curso primário o senhor continuou...


R – Aí eu fui trabalhar, achei um trabalho. Enquanto isso eu fiquei em casa ajudando minha mãe, fazendo aquilo que eu já comentei. Aqueles trabalhos até uma certa idade. Eu voltei a estudar só depois de casado.


P/1 – O seu pai não teve vontade de levar o senhor para a lavoura? Para o café?


R – Sempre a gente cuidava mais era da própria chacrinha. Ele tinha um serviço fixo na fazenda, de cuidar de café, no terreirão. E nós ficávamos mais era lá na chácara mesmo.


P/1 – E quando o senhor saiu do seu curso primário e foi atrás de trabalho, o que o senhor foi fazer?


R – Então, eu fiquei um determinado tempo trabalhando na chácara, fazendo esse serviço. Quando eu completei dezoito anos, dezessete anos eu fui trabalhar de sacristão numa igreja. O padre me chamou, eu fui trabalhar. Tinha nome de sacristão porque era serviço de sacristia. Então vem desse nome. Eu fiquei três anos trabalhando.


P/1 – Em Sales de Oliveira?


R – Em Sales de Oliveira, só que era remunerado, recebia um salário. Eu fiquei feliz da vida porque foi o primeiro salário que eu recebi, não tinha salário, trabalhava pra cá pra lá, num serviço da minha mãe. Então foi meu primeiro salário, fiquei feliz da vida.


P/1 – Que padre era esse, porque ele chamou o senhor?


R – É porque meu pai era muito religioso, desde a época do meu avô que também era muito religioso. A gente ia sempre na igreja. Ele chegou na Paróquia novo e logo a gente fez uma amizade. Ele falou: “Você vem trabalhar comigo”. Aí eu fui trabalhar com ele.


P/1 – Como era o nome dele?


R – Ele chama Padre Mário. Até foi lá que eu aprendi a guiar, ser motorista, ele me ensinou. Depois eu trabalhava de motorista com ele, saía com ele. Serviço que tinha que fazer com ele. Fiquei lá três anos.


P/1 – Participava das missas?


R – Participava. Nessa época, durante a semana tinha três, quatro, cinco, seis missas. Quantas missas precisasse, era missa de sétimo dia, então a gente estava sempre ali, em atividade. 


P/1 – Trabalhava tanto no altar como na sacristia.


R – Na sacristia. Foi um tempo de experiência muito bom porque eu aprendi muita coisa. Aprendi viajar, porque a gente não viajava. O único lugar que eu viajava era com meu pai quando ele ia fazer compra em Ribeirão Preto e a gente ia de trem. Ele ia comprar farinha, ele vinha com saco de farinha, punha no trem, depois jogava na cabeça e nós morávamos perto da linha, então chegava até em casa. Eu ficava feliz também quando eu saía com ele também, comer um pão com mortandela (mortadela) e tomar um guaraná paulista era a coisa mais deliciosa, que a gente não via isso, era só no fim de ano que a gente via isso. Então não via a hora que ele me chamava para ir pra Ribeirão Preto pra ter essa mordomia.


P/1 – Como eram essas viagens para Ribeirão Preto? Quanto tempo demorava, como vocês faziam?


R – O trem demorava, chamava Maria Fumaça, naquela época. Fut, fut, fut, ia devagar, demorava duas horas. O trem saía às oito horas da manhã de Sales Oliveira, chegava por volta das dez, dez e meia em Ribeirão Preto. Era a hora que a gente estava com fome e ia comer um pão com sanduíche, com mortandela. Esse era o sanduíche.


P/1 – E aí voltava com o saco de farinha.


R – Voltava com o saco de farinha e com as compras, assim as necessidades que davam para trazer no trem, o que podia carregar. Às vezes fazia até duas viagens, deixava na estação porque não dava pra levar tudo nas costas e ia buscar novamente.


P/1 – E as viagens com o padre, como foi?


R – Mais era para Ribeirão Preto porque a Diocese nossa era Ribeirão Preto, centralizado mais em Ribeirão Preto.


P/1 – Aí o senhor ficou mais três anos com ele, depois resolveu fazer o quê?


R – Aí o padre queria que eu fosse estudar. Eu queria estudar também, mas acabou não dando certo, eu queria ir para a escola. Não sei se foi por desânimo porque tinha que viajar para Orlândia e era noite, tinha que pagar condução, eu tinha que fazer escola em Orlândia, acabou não dando certo. Depois, já fazia três anos que estava aí, eu tinha que arrumar uma profissão, dar um jeito em minha vida. Aí eu simplesmente saí. Tentei fazer várias inscrições em Ribeirão Preto, andei lá um pouco, voltei pra... não é que não conseguia, já tinha até conseguido um emprego na Antarctica, em Ribeirão Preto. Mas enquanto foi acertando os documentos, em conversa com um parente meu: “O salário que você vai ganhar na Antarctica você fica aqui comigo, eu te pago”. Aí eu comecei a trabalhar de servente de pedreiro, ele pagava o mesmo salário. Eu acabei ficando.


P/1 – Em Sales?


R – Em Orlândia. Aí eu viajava para Orlândia.


P/1 – O senhor mudou para Orlândia?


R – Não, não. Eu morava em Sales mas viajava para Orlândia. Eu morava na chácara ainda porque eu era solteiro ainda.


P/1 – Orlândia e Sales de Oliveira são cidades próximas?


R – São seis quilômetros.


P/1 – O senhor foi trabalhar com seu tio?


R – É.


P/1 – E como era esse trabalho?


R – O trabalho tinha que servir, eu era servente. O que ele pedia lá, a gente começou a construir casa. Então, o que ele pedia, a gente tinha que servir ele. “Traz tijolo, traz reboque, traz água... e era assim”. Era um servente.


P/1 – E como era essa cidade, estava crescendo muito, era bonita, como era?


R – Orlândia era assim, perto de Sales de Oliveira, apesar da estrada de ferro ter chegado primeiro em Sales de Oliveira, ela parou em Orlândia, e Orlândia desenvolveu mais. Então começou a parecer mais indústrias, mais emprego. Foi quando Orlândia foi se destacando mais. Os Junqueiras que era uma família muito forte da região, a Junqueirada que eles falavam, já foram abrindo mais campo de trabalho e foi desenvolvendo mais. Até hoje se migrou muita gente de Sales para Orlândia e trabalha muita gente de Sales em Orlândia e até hoje é assim.


P/1 – E, esse trabalho de servente de pedreiro, o senhor foi desenvolvendo até quando?


R – Aí eu trabalhei até 1962. Foi quando um primo meu me chamou também: “Olha, vai ter uma vaga na Telefônica”, seria naquela época.


P/1 – Era CTAM?


R – Não. Nessa época era do Mário Alberto Diniz Junqueira. Nem a CTAM era ainda.


P/1 – Era nova?


R – Era Telefônica Mário Alberto Diniz Junqueira. Aí como eles tinham uma amizade com o moço que trabalhava lá, ele falou: “Vai ter uma vaga lá porque está crescendo o serviço e tal”. Então nesse dia 2 de abril de 1962 eu fui começar a trabalhar e estava pensando ainda nisso hoje, quando a menina estava conversando comigo, eu estava pensando comigo: “Como as empresas são diferentes”. Aí foram me apresentar, eu cheguei no serviço de manhã, eu estava preocupado, Telefônica e tal. Chegar lá para trabalhar na Telefônica, era uma coisa diferente, não estava pensando nisso, aí o moço me apresentou, tal, tal. Sabe o que ele me apresentou? Um bambu de sete metros: “Olha aqui, o seu serviço vai ser esse”. “O que será isso?” Era de descruzar as linhas, porque era manivela, os telefones eram tudo de manivela e a cidade estava cheia daquele arranha céu, fio pra lá e fio pra cá. Ele explicou: “A rota sua é essa aqui, vai até a Comove, até a saída de Guaíra, depois nessa rua você vai pra cá, passa em frente o Brejeiro, vai até na saída da fazenda para Ribeirão Preto”. Eu tinha três, quatro lugares para ir todo dia. Pegava esse bambuzinho de sete metros, todo dia tinha linha cruzada, telefone cruzado. Porque os telefones eram à manivela e tinha fio nu, eram muito próximas umas linhas das outras. Hoje não, hoje mesmo se as linhas forem nuas, a distância é bem melhor. Ali qualquer passarinho que passava, qualquer vento que dava batia e ficava grudado.


P/1 – Daí dá linha cruzada?


R – É. Linha cruzada. Eu tinha que fazer isso todo dia, sair de manhã cedo. Eu acostumei a andar com esse bambu, virei amigo de todo mundo dentro da cidade, conheci todo mundo dentro da cidade porque eu era o moço do bambu. “Ei, meu telefone está cruzado.” Aí o moço do bambu ia lá.


P/1 – Quanto tempo o senhor ficou nessa lida de carregar bambu pela cidade? Quantas horas por dia?


R – Eu tinha sempre três rotas para fazer. Saía às sete e meia, já saía de manhã. Nessa época de orvalho, você ficava molhado até em cima porque você encontrava de tudo na rota. Eu saía da Telefônica, passava e ia até a saída de Guaíra, tinha uma rede bem alta, bem extensa que atendia todas as fazendas pro lado de Guaíra e ia até Guaíra. Pro lado de Ribeirão Preto que era uma rede muito pesada, tinha muito assinante que saía por ali, eu tinha que fazer todo dia. Na parte da manhã eu fazia um lado e na parte da tarde eu fazia a outra. Eu ia para o lado de Ribeirão e voltava, a hora que eu voltava pegava a rede que vinha de Sales e Nuporanga. Então essas três eram infalíveis, eu tinha que fazer.


P/1 – E se estivesse chovendo?


R – Dava uma escondidinha, levava guarda-chuva, tinha que levar capa. Tinha que levar. A não ser quando era chuva muito pesada, então a gente fazia serviço interno. Tinha muito serviço interno dentro da empresa. Mas essa rota tinha que ser feita. Sempre aparecia. Só se não tivesse nada. A gente fazia os testes no circuito, na lista de telefones que vinha lista de reclamação. Primeira coisa quando você chegava da rua era ir lá com as telefonistas e pegar uma lista de reclamação de assinantes: “Meu telefone está cruzando com tal...”. Mas ao mesmo tempo você tinha na cabeça, já sabia mais ou menos onde era, e num instantinho você ia.


P/1 – Quantos assinantes eram, o senhor se lembra?


R – Quando eu entrei eram quatrocentos assinantes, de um a quatrocentos. Eu cheguei a conhecer todo mundo, por nome e por número de telefone. Eu tinha decorado. Depois cresceu e foi até quinhentos. Quando o senhor Alexandrino chegou para ver a empresa, tinha quinhentos telefones. Eu conhecia todos porque praticamente a gente visitava. Aí eu fiquei de abril até março de 1963 nesse serviço. Depois eu tive um acidente. 


P/1 – Que acidente?


R – Nós estávamos puxando uns fios telefônicos para ligar uma rede em frente ao Fórum, não sei o que aconteceu porque eu já estava muito tempo em cima do poste, com cinturão, abraçado, em cima da escada. Era mais ou menos uns sete metros de altura. Já tinha puxado uma linha, já tinha amarrado, já estava na segunda linha. A gente fazia por etapas. Você trabalhar com fio nu, no meio da cidade onde tinha força, era difícil. A gente ia com bastante cuidado. Já fazia quase uma hora que estava ali, de repente, eu estava amarrando a linha, de repente o cinto abriu e eu caí em pé, fraturei os dois calcanhares. Deus me ajudou porque eu caí de pé, se eu tivesse caído de outro jeito, podia ter batido a cabeça na guia, morrido. Eu agradeço a Deus por ter nascido de novo nesse dia. Aí eu fiquei vários tempos porque eu tive que fazer duas cirurgias nos calcanhares, que fraturou, teve que fazer enxerto e tal. Fui para Ribeirão Preto, fiquei cento e três dias internado lá, fiz várias cirurgias. Depois quando eu voltei no trabalho, eu não voltei mais com esse serviço da rua, eu fiquei numa oficina. Pra mim foi bom também porque os telefones de manivelas tinham umas bobinas que queimavam com as faíscas, então tinha muito serviço. O senhor Antonio Fernandes falou: “Você vai ficar aqui, você vai começar a mexer com a parte técnica agora”. Foi onde eu aprendi a parte técnica de conhecer o telefone por dentro, o telefone de manivela. Aparentemente enquanto eu não entrava nesse serviço, eu só descruzava linha, eu era um ignorante nessa parte. Aí ele foi me ensinando com paciência. Tinha uma máquina que enrolava as bobinas, tinham os fios. Então ele explicava com bastante paciência. Pra tal bobina é fio tal, para a bobina de campainha que queimava muito, era magneto e bobina de indução. Eram as três bobinas do telefone que queimavam. Eu comecei a fazer essa parte. Como já tinha também ampliado as mesas das telefonistas, eram nove posições de telefonistas que atendiam, e tinha muito serviço de troca de pega, consertar bobinas que queimavam. Então eu fui aprendendo essa parte técnica. Tomar conta das baterias.


P/1 – Que baterias?


R – Bateria que alimentava as telefonistas. As baterias que eram vasos, a gente precisava ver o nível da água, de temperatura. Todos os dias fazer esse serviço. Então a parte interna da oficina ficou sob minha responsabilidade. Eu fui aprendendo a parte técnica ali, fui tendo conhecimento. Aí eu já tomava conta de toda a parte de mesa interurbana, que eram as mesas interurbanas e locais, eram na manivela, enfiava, o cara tocava lá, enfiava o peguinha e atendia. Muitas vezes a chapinha não caía, você tinha que ajustar, porque toda hora entra ali. Quebrava o jack, precisava trocar. Essa manutenção...


P/1 – Quebrava o quê?


R – Jack, na hora de enfiar nela.


P/1 – Era na base da chapinha?


R – Era na base da chapinha. Era impressionante como o trabalho era assim... a gente foi desenvolvendo, foi conhecendo as pessoas porque foi conversando mais, falando. Já foi ouvindo mais as pessoas por telefone, uma reclamação, as telefonistas. Parece que vai abrindo por dentro da gente, vai modificando, as coisas vão modificando. As telefonistas conheciam todos os assinantes pela voz, não precisava nem falar o nome, então a telefonista já sabia. Mesmo quando elas tocavam lá, eu já sabia a voz de todas as telefonistas, já conhecia, já sabia que estava reclamando, os assinantes também que chegavam ali e reclamavam. 

Tinha um vizinho da nossa oficina, ele chegava quase todo dia lá. Ele chegava na manivela, tocava lá: “Liga lá pra mim”. A moça já sabia que era no armazém da Casa Amiga porque todo dia ele chegava e estava tão habituado a fazer isso, ele tocava a manivela, nem falava quem era, nem pra onde ia: “Liga lá pra mim”. Já sabia que era na Casa Amiga. (risos)


P/1 – Na verdade era como se fosse uma família na telefonia.


R – Uma família, todo mundo se conhecia porque era a ligação. E a disputa também quando a cidade foi se desenvolvendo com empresas, nós tínhamos uma linha que falava interurbano via Batatais, e outra era uma empresa, a CTB, que também tinha três circuitos que chegavam até Orlândia. A disputa era muita para falar interurbano, era hora marcada. Era difícil também.


P/1 – Como era isso?


R – Era uma fila, era horário. Vamos supor, o Brejeiro falava à uma e meia, falava da uma e meia até às duas e meia. Então era só o Brejeiro que falava, em São Paulo, no Rio, onde ele quisesse ele falava, dentro desse horário. O Sacomor(?) falava em outro horário. E assim todas as empresas, a Somalvo (?) a Elmo (?), todas as empresas...


P/1 – E se o assinante quisesse falar nesse horário?


R – Era difícil, não falava. A não ser... sempre ficava um circuito, mais os circuitos bons, os que falavam bem eram para essas empresas nesses horários. Era horário marcado, mas a cidade toda já sabia. Já sabia que esses horários eram determinados. Mas o povo não... tinha menos reclamação naquela época porque o povo se entendia, tinha mais compreensão. “Agora não vou falar porque é o horário do Brejeiro.” Ele já sabia mais ou menos. “O senhor tem um pouquinho de paciência?” “Não, eu espero, eu falo depois da cinco, não tem problema.” Hoje os negos querem os direitos, se não falar na hora, a concorrência está forte.


P/1 – Esse Brejeiro que o senhor fala é do Arroz Brejeiro?


R – É do Arroz Brejeiro.


P/1 – Senhor Tonetto, e os problemas que ocorriam, além desses que o senhor relatou, quais era os outros mais frequentes?


R – As queimadas que prejudicavam muito os postes, muitas vezes as redes rurais, davam muitos problemas porque a gente tinha que atender, ir atrás porque interrompia o circuito. Não podia deixar interrompido. Os postes eram quase cem por cento de madeira e madeira chegava um certo tempo, onde tinha muita queimada dava isso. Ou então apodrecia. Hoje não, é tudo ferro e cimento, quase nem poste se vê porque a fibra é enterrada.


P/1 – O senhor fazia essa manutenção de rede também?


R – Não, aí tinha... nós éramos em três pessoas que trabalhavam, nós tínhamos um Ford Bigode, chamava de treme-treme, então a gente sempre deixava para final de semana pra dar uma geral, mas, quando a coisa era urgente, saía. Saía da condução e já dava pra dar uma mão, né. Mas sempre eram dois rapazes que davam a manutenção, depois que eu tive esse acidente então eu fiquei mais na parte mesmo de manutenção dentro da oficina.


P/1 – E como era a relação com esse Junqueira que era dono da Companhia?


R – Ele não era muito apegado não, falar que ele se entregava de corpo e alma, não. Ele não participava muito não. Se o assinante pedia uma linha, conversava com ele no boteco ou no clube: “Eu preciso uma linha telefônica”. “Não, pode deixar que eu te mando.” Chegava: “Olha, você puxa uma linha pro fulano.” Então puxava. Ele não era de muito... chegava muito tarde no escritório, a fiscalização dele mesmo, dentro do serviço, era muito pouquinha porque ele ficava muito em Ribeirão Preto. Então o espírito era completamente diferente do senhor Alexandrino.


P/1 – E quando isso começou a mudar dentro da empresa?


R – Então, quando apareceu essas informações, que existiam uns mineiros que estavam desenvolvendo uma telefonia e estava crescendo. A gente ficava: “Quem será esse mineiro?”. Falava de mineiro, mineiro. A nossa região era grande, nós tínhamos Orlândia, Sales Oliveira, Nuporanga, Morro Agudo e São Joaquim da Barra. Era tudo linha nua, manivela. Nós tínhamos que dar conta de todas essas cidades, olhar interurbanos, reclamações de assinantes. Aí quando começou a falar: “Tem uma proposta dos mineiros”. Porque já tinham dado alguma informação, já estavam interessados na empresa. Só que ele não falou abertamente, demorou um pouquinho a transação. Nesse meio tempo, os mineiros chegaram em São Joaquim; lá como a concessão era da prefeitura, tinha até terminado, a prefeitura abriu mão para que eles entrassem. Aí apareceram os mineiros em São Joaquim. Quer dizer, a gente não conhecia, mas viu que o trabalho deles era diferente, que já chegaram lá, num instantinho já puseram cabo, esticaram cabo para todo lado, fizeram buraco na rua, mudaram a empresa, pintaram, construíram. Na cabeça da gente: “Esse povo tem dinheiro mesmo, esse povo quer trabalhar”. Só que a gente não conhecia, não tinha um contato com eles, não tinha visto eles ainda. Um dia visitando lá, porque enquanto eles não ativavam a gente tinha que dar manutenção dos telefones de manivela. Eu achava engraçado esse tempo que demorou, não foi de um dia para outro – demorou uns quatro meses, cinco meses. Até arrumar o prédio, instalar a Central, fazer a rede toda. Nesse tempo: “Vocês vão ver, não vai mais precisar de bambu para descruzar a linha, vai ser tudo cabo, não vai mais ter esse problema”. Todo mundo estava satisfeito, feliz porque ia mudar, ia ter mudança. Muitos não gostam de mudança, mas a maioria, acho que noventa por cento gosta de mudança, se muda para melhor. A gente saía na rua, tinha um restaurante que a gente ia sempre almoçar: “Nossa, que coisa boa, vai mudar mesmo, quem esperava isso, chegou o telefone, como será que vai funcionar?”. “Ah, eu não sei.” Eu não sabia como ia funcionar. Eu sei que o nosso aqui, você toca a manivela, a telefonista atende lá, agora como vai ser isso aí, eu não sei não.


P/1 – E aí como foi a chegada dos mineiros lá em Orlândia?


R – Aí um belo dia apareceu o senhor Alexandrino e o doutor Luiz, apareceram lá. E o Zé Leonardo. Eles chegaram lá e falaram: “Esses aí são os mineiros”. Mas não tinham falado se eram os donos, eram os mineiros. Eu não tinha nem conversado, nem falado nada. Eles chegaram no escritório e só conversou e saíram. Aí quando foi na outra semana, o senhor Alexandrino chegou lá. A oficina onde a gente trabalhava era um porão porque a casa era no alto e embaixo era um porão. O trabalho nosso era tudo lá embaixo, dentro do porão. Chegou lá para verificar os materiais e como foi impressionante, conversou conosco, cumprimentou, tudo bem. Aí o senhor Zé Leonardo: “Como funciona isso aqui?”. A gente mostrou toda aquela coisa, para ele era esquisito o jeito que funcionava, mas funcionava. Ele lembrou de uma frase do Zé Leonardo, ele falou assim: “Impressionante, atrás disso tudo tem um grande valor, que isso aqui funciona”. E funcionava, você conseguia falar, conseguia comunicar com uma pessoa. Do jeito que era, aquele emaranhado de fio, fio para cá, cabo pra lá, então você olhava assim, para quem não estava acostumado: “Como isso pode funcionar?”. O Zé Leonardo pôs a mão na cabeça: “E isso aqui funciona, já pensou?”. Ele achou que por tudo aquilo ainda funcionava. Aí a disposição do senhor Alexandrino contar roldanas, contar isoladores, todo material que tinha, classificou tudo, ia anotando, anotando. Ele mesmo agachado ia contando e anotando. Veio ele, o Zé Leonardo e uma outra pessoa que não lembro quem era. O próprio dono chegou lá e fez esse serviço, o levantamento do material que tinha, dentro da empresa. Contou todas as cruzetas porque a gente tinha muita cruzeta de madeira. Contou tudo, levou tudo anotado fora o serviço de rua que a gente não via. Eles saíam na rua contando quantos postes tinham, quantas cruzetas, quantas linhas. Era para ele ter uma noção do valor da empresa. Em três dias eles fizeram todo esse levantamento.


P/1 – O senhor chegou a trocar ideia com ele, conversar com ele?


R – Nos primeiros dias a gente tinha um pouco de cisma, não sabia como era a coisa. Mas na segunda e na terceira vez a gente conversou muito com ele. Ele falava das ideias. Um espírito completamente diferente daquele que a gente estava acostumado a ter, que era do Mário Alberto. Tanto podia chover como não chover que não tinha problema. 


P/1 – Que lembranças o senhor traz desses primeiros contatos, dessas primeiras conversas com o senhor Alexandrino, o que ele dizia para o senhor?


R – A primeira vista que eu vi, já vi uma pessoa diferente. A pessoa que tinha vontade de ter, que tinha na mente a vontade de ter alguma coisa. Além disso, ele se entregava ao trabalho. Achei impressionante ver como ele não tinha horário, não tinha hora para chegar, não tinha hora para sair. Pra ele não tinha esse negócio de ficar olhando no relógio, hora de almoço, não tinha isso aí. Ele tinha na mente que ele já estava... Um dia conversando com ele: “Não, mas nós conseguimos fechar aqui, agora nós vamos mudar tudo isso aqui”. “Nós já estamos vendo terreno aí.” Passaram dois dias, nós já tivemos informação que já tinham comprado o terreno onde hoje é a CTBC. Um lugar perto da praça. No segundo dia já comprou ali, já botou uma placa: “Futuras instalações da CTBC”. Pôs tudo lá. E o povo: “O que vai acontecer?”. Aí a pouco já começou a construir, a mexer. Você via força de vontade. Um espírito novo, ele já como pessoa madura, já de idade estava com espírito jovem, espírito de crescimento, de abrir ideias. Um dia conversando com ele: “Vamos acabar com esses interurbanos ruins, vamos colocar tudo rede. Não demorou quinze dias, já chegou gente mexendo lá, chegando poste, chegando fio, chegando roldanas, isoladores, todo material para construir rede. Dali a pouco chegou um caminhãozinho, foi arrumando pessoal, já foi vendo as partes, já foi chegando rede de São Joaquim para Orlândia. Já foi crescendo, mudou toda a parte de Orlândia a Ribeirão Preto. Foi só crescendo. E cada dia coisas novas, coisas novas. Aí também começou a aparecer o doutor Luiz. Começou a visitar. O senhor Alexandrino não passava quinze dias sem visitar, ele sempre passava na região. Só que não tinha hora. Passava oito horas da noite, oito horas da manhã, quatro horas da manhã. Teve um dia que ele passou quatro horas da manhã em Orlândia, até teve um acidente com ele lá, estavam arrumando a estrada e ele entrou em uns tambores que estavam impedindo porque estavam arrumando a estrada. Ele roçou tudo, ele tocou o telefone para que desse uma atenção a ele, pra ver o que tinha acontecido. Até naquela época era o Toninho que trabalhava na parte de rede que foi lá socorrer ele. Foram quatro horas da manhã que ele ligou aqui. Ele não tinha horário. Você vê, um dono de empresa, às quatro horas da manhã na estrada. Você vai pensar o quê de um homem desse, uma cabeça de trabalho, uma cabeça que quer fazer aquilo que está encucado na cabeça. Que alguém já deve ter encucado na cabeça dele, ele já vinha naquela formação, com ideia de fazer alguma coisa, alguma coisa em telefonia. Ele pôs na cabeça que ele tinha que fazer telefonia e ele fez a telefonia o que é hoje.


P/1 – E o senhor, senhor Tonetto, nesse processo todo, como o senhor foi se adaptando aos novos tempos, à nova gestão?


R – Eu estava em Sales de Oliveira ainda quando começou esse processo de mudança. Sales de Oliveira foi uma das cidades, depois de São Joaquim, foi a cidade que automatizou logo. Até o Luiz Márcio que naquela época recebia o serviço, sempre acompanhou lá e tal. Aí chegou a Centralzinha para mudar o sistema lá, que era tudo de manivela. O senhor Alexandrino organizou uma sala que ia pôr o equipamento, senhor Alexandrino passou várias vezes para ver isso aí. O trabalho de pouco tempo, num instantinho ele desenvolveu. Sales de Oliveira foi a primeira cidade que conseguiu ser automática. Aí a gente acompanhou a instalação do equipamento, já foi vendo, foi percebendo assim como era a técnica da comutação, da transmissão, já estava percebendo, já estava percebendo um pouco. O menino que estava instalando já estava explicando. Aí acertou, instalou, o doutor Luiz. Eu estava ajudando na rede nessa época, junto com Pedro fazendo a rede de Sales. O doutor Luiz recebeu o telefone e começou a funcionar. Aí a gente foi vendo, Sales era menor para funcionar, pra fazer esse trabalho. Orlândia que era maior, teve que construir um prédio maior, demorou mais para ser atendido. A gente foi vendo mudança nas pessoas. Eu não tinha muito contato com seu Luiz Márcio, e ele já começou a aparecer mais lá. Era moço novo ainda. Naquela época eu era moço ainda. Mas a gente ia notando ideias novas, Luiz Márcio ia lá no serviço, conversava, explicava. A gente notava que era ideia diferente do tempo da manivela. Você via que estava se abrindo uma coisa nova na vida. Aí eu fui começando a mexer em AKD. Em Sales de Oliveira vou contar até uma historinha que aconteceu. Lá tinha os Irmãos Takahashi, dois japoneses. Os dois tinham uma empresa de transporte. Os dois trabalhavam, chegou de noite, a mulher falou: “Já tem telefone automático para você falar. Aí senhor Antônio ligou para o irmão dele, já sabia do número, cento e dez, eram os mesmos números. Então chamou. Ele falou: “Takahashi”. Ele falou de lá: “Takahashi”. A voz está indo e voltando, estava no gancho. Os dois falavam “Takahashi”. Mas isso aconteceu mesmo, não foi brincadeira não. Eu falo assim, daquilo que a pessoa sente e da mudança. Não tem mais telefone de manivela, já vai discar. 


P/1 – E o pessoal que o senhor falou que conhecia, os quatrocentos assinantes. Como isso bateu nesses assinantes, o que significou para eles?


R – A mudança eu acredito, eu senti pelos assinantes, que foi ótimo. Nós estávamos com quatrocentos, atingindo quase quinhentos assinantes. O seu Alexandrino chegou lá e colocou oitocentos telefones disponíveis. Então acabou de montar a Central, já estavam esgotados os oitocentos telefones. Já não tinha mais telefone, todo mundo se interessou por coisa nova porque o vizinho já tinha telefone automático e foi crescendo. Muitos que tinham manivela não compraram, não fizeram aquela troca, aquela permuta com o automático, ficaram... Aí a hora que soltaram os oitocentos telefones já foram...


P/1 – Então ficaram convivendo os automáticos com os de manivela?


R – Não, não. Assim que inaugurou o automático, já passou a parte um tudo para o automático, já não tinha mais atendimento. O atendimento de manivela já... porque na época deu um pouquinho de contrariedade nos assinantes, que eles tinham que entregar o aparelho de manivela para a Companhia. Isso deu muito buchicho, muita coisa, porque era coisa hereditária, de avós. Telefones antigos. “Esse aqui era do meu avô...” “Então eu vou entregar isso aqui?” “Se você não entregar, nós não podemos instalar o telefone.” Era norma, a empresa falava que tinha que receber o de manivela para poder colocar o automático. Muitos bateram o pé, não quiseram. Teve gente que foi até a justiça, não sei como ficou na justiça. Teve um pouco de revolta nesse sentido, mas aí passou essa fase. Esses telefones foram todos recolhidos, mandaram para Batatais. Em Batatais, o senhor Sebastião que mexia com isso, que reformava tudo. Não sei que fim que deu esses aparelhos, só sei que tinha muito aparelho. Em Batatais tinha aquele Museu de tanta coisarada que tinha, de tudo quanto era modelo. Ele reformava aqueles aparelhos. Eu não sei que fim que deu não.


P/1 – O senhor se lembra do sobrenome desse senhor Sebastião?


R – Sebastião de Batatais que arrumava os telefones, todo mundo conhece. Ele até já faleceu.


P/1 – E como o senhor foi acompanhando esse desenvolvimento, o senhor era treinado, recebia treinamento?


R – Aí a gente foi, apareceu um técnico de nome Leonildo, que hoje ainda está em Uberlândia, ele acompanhou essa montagem desses oitocentos telefones em Orlândia, quando apareceu a Ericsson para montar. Ele que acompanhou, ele era um técnico, ele já tinha estudado Eletrônica, já tinha um pouco de conhecimento de... aí ele acompanhou essa montagem, ele se adaptou bem, ele se desenvolveu bem, aprendeu bem. Nós trabalhamos juntos, ele me ajudou muito, me ensinou muito. Senhor Leonildo da Silva, hoje ele trabalha lá em Uberlândia. Faz uns vinte anos que ele foi para Uberlândia.


P/1 – Lá no mesmo porão?


R – Não. Onde era a Telefônica antiga de manivela, não foi ali porque a CTBC mudou, ela comprou e construiu um prédio em outra localidade, em outro local. Aí apareceu muito equipamento pequeno, AKD B64 que o Zé Roberto também instalava, ajudei, acompanhei. Aprendi, graças a Deus a trabalhar no B64, uma centralzinha de pequeno porte, mas nas localidades pequenas tinha. Depois tiramos os AKD que eram menores e pusemos o B64. Então eu acompanhei várias montagens do B64 com o Zé Roberto e o Luiz que eram os dois que montavam. Não sei se alguém já falou sobre esses homens. O José Roberto Marques, não?


P/1 – Ainda não.


R – Então, ele montava a B64. Eu acompanhei e graças a Deus eu aprendi a trabalhar com essa central de pequeno porte e eu fazia toda Sales de Oliveira, Ipuã, Ibiraci perto de Franca, as localidades onde tinham essas Centrais, Guará, Morro Agudo. Eu dava manutenção. A gente viajava de ônibus, estrada de chão. Você pegava o ônibus, ia, dava manutenção.


P/1 – Chegava a pousar fora de casa?


R – Não chegava a pousar não. Sempre ia de manhã e voltava à tarde. Só quando eu fui dar manutenção em Miguelopolis que então a gente ficou dois meses lá, a gente pousava lá.


P/1 – Dois meses?


R – Dois meses.


P/1 – Qual era o problema lá?


R – O problema era uma central velha, AGF. Estava muito crítica e não funcionava, quando a mudança de coordenador, que entrou o Fumio. Então vai lá para dar uma ajeitada, eu fiquei lá dois meses trabalhando lá, tirando defeito lá. Mas eu gostei muito dessa mudança. Depois que entrou a Empresa Rede, teve muita palestra, me adaptei tão fácil, pra mim foi... eu senti feliz de ver. Eu considero que é uma graça de Deus porque nem todo mundo aceita mudança. Eu vejo que é Deus que me ajuda, me dá forças. Eu vi também mudança nas pessoas. Pessoas que na empresa eram ranzinzas, pessoas judiavam, não pensavam como empresa, pensava em desenvolver o trabalho em cima de outras pessoas, que atrapalhou. Mas com essa mudança de Empresa Rede eu achei uma maravilha, foi uma coisa que melhor chegou na minha vida foi essa aí.  


P/1 – O senhor ficou o tempo todo em Orlândia?


R – Sempre em Orlândia. Eu sempre fiquei sediado em Orlândia e sempre trabalhando nas localidades porque nossa região, Nuporanga, Sales, Morro Agudo, Ipuã, essa região toda aqui, mesmo aqui em Franca eu já vim trabalhar na época do PABX, mas sempre fiquei sediado. Eu já recebi vários convites para trabalhar fora, mas não deu certo, deixa pra lá.


P/1 – Depois dessa primeira transição, digamos assim, do magneto para a CTBC, essa nova forma de gestão, como o senhor foi acompanhando esse desenvolvimento tecnológico que a CTBC foi trazendo? Aí já feio o DDD, o que significou para o seu trabalho.


R – Eu até pensava assim comigo: “Eu não vou conseguir”. A gente fez o segundo grau depois de casado, o estudo de Eletrônica por correspondência, um estudo mais assim. Você estava sempre dentro da comutação trabalhando, procurando desenvolver, pesquisar, perguntar e conversar. É uma área de comunicação que a gente se fala, é um probleminha, conversa. Esse diálogo, eu vou confessar que eu não sou de muita conversa, mas sempre que há necessidade, sempre que precisei procurar alguém, sempre procurei. Sempre não fiquei escondido. Eu gosto do que faço. Eu poderia ter ido para outros campos, ter partido para outras áreas dentro da companhia porque ela cresceu, ela abriu. É um leque, você poderia ir para onde você quisesse porque tinha um campo pra você ir. Eu preferi a parte técnica, é uma coisa que eu gosto. Já faz tantos anos que eu estou dentro de uma central. Eu gosto da parte que eu faço. Eu não sou uma pessoa comunicativa, dentro da empresa todo mundo me conhece… se a gente for ver mesmo, a gente não fica escondido, mas dentro do trabalho meu, enterrado ali, procurando se desenvolver. Uma coisa que me chamou dentro dessa abertura de Empresa Rede foi a respeito de cliente. Eu não tinha consciência. Apesar de no tempo da manivela, você tinha mais aquela amizade do que consciência da necessidade. Hoje eu vejo que o telefone não é amizade, é necessidade; então o cliente é exigente é porque ele precisa. Hoje eu vejo a necessidade que o cliente tem. Hoje não tem cliente ruim, o cliente reclama é porque não funciona. A gente não pensava assim antes dessa abertura. A gente pensava no cliente enjoado, cri-cri, não é, hoje eu vejo que não é isso. Os tempos de hoje é diferente. O telefone hoje é uma necessidade, não é luxo, não é nada. O que mais me impressiona é essa mudança que eu vi na pessoa do cliente, a necessidade. Eu não vejo. Eu não vejo mais ele como uma pessoa enjoada, uma pessoa ranzinza, que só quer prejudicar. Eu vejo que é uma necessidade, o cliente precisa do telefone. E a companhia precisa do cliente. A primeira coisa que eu vejo que tem que ter, tanto a empresa precisa do cliente como o cliente precisa da empresa, ele quer uma empresa que funcione. Eu vejo nisso aí uma grande abertura, muitas palestras foram dadas, a empresa é uma empresa aberta, quem quiser desenvolver dentro da empresa, a empresa está sempre aberta para todo mundo, não tem... Se eu for falar de uma pessoa que foi prejudicada pela empresa, eu não conheço ninguém. Pode ser prejudicado pelas pessoas, alguma coisa assim que a gente vê que é a pessoa, talvez ela não pense como a empresa e prejudicou alguém. Mas como cabeça de empresa eu não vi uma pessoa prejudicada nesse sentido nenhum.


P/1 – Senhor Tonetto, eu queria que o senhor dissesse um pouco também como foi que as centrais foram evoluindo com o passar do tempo, Aquela velha Central AGF é uma peça de museu. Como elas foram evoluindo e seu trabalho acompanhando isso?


R – Hoje ainda em Orlândia nós temos a RF que é uma central ultrapassada, uma central cansada. A central em Orlândia entrou em 1972, para 2001, trinta anos. Vinte e quatro horas trabalhando, não há quem aguente, to, to, to, vinte quatro horas trabalhando, trabalhando, trabalhando. Uma Central mecânica, uma central analógica. Eu vejo que é uma coisa, se não fosse uma tecnologia sueca, é um negócio pra valer mesmo. Pra aguentar trinta anos malhando, malhando, vinte e quatro horas por dia. Nós temos uma parte já digitalizada, entrou uma XE, então nós temos uma parte da cidade já digitalizada. Agora nós temos cinco mil ainda analógicos. Eu acredito que com essa evolução deva sair logo também porque os assinantes também já sabem o que é digital, o que não é, o que é analógico. Hoje o assinante sabe até mais do que pessoas dentro da empresa. Eles divulgam, eles perguntam, eles vão atrás. Que nem a parte do celular, eles sabem tanta malandragem dentro do celular, das coisas que acontecem dentro do celular, dos telefonemas, que você, que está dentro da CTBC, não sabe. Por quê? Porque procura. Então, hoje os assinantes estão pra frente mesmo, eles vão lá, precisa ser uma pessoa esclarecida. Um atendente hoje, outra coisa que eu achei impressionante: como a CTBC está preparando e continua preparando e já preparou os atendentes. A pessoa chega lá, elas são bem atendidas, mesmo que a pessoa seja um catedrático, ele sabe de muita coisa, mas ela tem um perfil que ela sabe explicar, sabe preencher e satisfazer o cliente. Não dobrar o cliente, mas com mais e mais coisas. A realidade é essa. Então eu vejo um investimento muito grande que a companhia fez em cima desses atendentes. Voltando para a parte da evolução técnica, o caminho é esse. Eu aparentemente não fiz nenhum curso de digital, não fiz ainda e não sei se vou fazer, porque eu mexo com analógico ainda. Mexe um pouco com digital, mas é o mínimo, não é muita coisa. A gente mexe, uma coisinha que eles pedem a gente vai fazendo. A gente fica na ponta, e tudo que eles mandam a gente faz, ajuda na ponta. E quando a cidade é na ponta, a gente parte para o pessoal da transmissão, eles pedem, a gente dá uma mão. Troca uma placa, faz aquilo, então a gente está dentro. Eu acredito que a CTBC logo, logo vai ser tudo digitalizado, ela vai partir para isso porque é uma necessidade, porque aparecem as facilidades. Hoje o cliente, porque vai ficar com o analógico, ele não tem nada, não tem facilidade, eu quero transferir meu telefone, não transfiro; eu quero pôr uma chamada na espera, não tenho; se eu quero pôr uma chamada de segue me segue, não tenho. Então ele sabe tudo isso aí. A CTBC não vai ficar parada com isso aí, então ela vai investir, ela está preparando o quadro. Um quadro de técnicos, dando curso. As pessoas estão fazendo cursos, está investindo muito nessa parte, acho que não vai ter problema nenhum. Agora a parte de acompanhar, sempre tem aquelas pessoas que despontam mais, você vê num grupo de dez pessoas, você vê duas ou três que vão na frente, queira ou não queira tem, um vai arrastando o outro, mas vai. Tem sempre gente que vai na frente. Se você treina dez técnicos, três, quatro, cinco vão na frente.


P/1 – O seu trabalho atual é para cuidar dessa central em Orlândia?


R – É, em Orlândia.


P/1 – E quantos terminais tem lá?


R – Cinco mil.


P/1 – E qual é o segredo de manter um aparelho funcionando mais de trinta anos tão bem assim?


P/1 – Seria a manutenção preventiva. Você está dentro da central, você está tão habituado à central, que qualquer diferença de barulho... “Opa, já está dando um defeitinho lá.” Nós temos as estatísticas, fica uma mesa de estatística, ela fica o tempo todo, a gente vai mudando de chave, vendo as falhas, e fica trabalhando em cima daquilo. Nós temos um programa de prevenção, de manutenção preventiva que é o que ajuda. Além disso tem os indicadores, existe uma área que cuida do tráfego, então eles dão os indicadores: “Olha, a sua estação está baixa nisso, está danço CO, está dando PAB”.


P/1 – O que é CO?


R – É um sinal de Ocupado, dá ocupado mas que seja um defeito dentro da central, seria um LO para você na hora do assinante, dá um tu, tu, tu, tu. A ligação chegou na central, por exemplo dá um CO2, a ligação já está chegando na central, então tem um defeito entre uma central na chegada da outra que pode ser dentro da outra.


P/1 – O que seria o CO2?


R – Seria esse sinal desse ocupado, um LO que vem para o assinante, quando ele disca dá ocupado para ele, seria um LO esse tu, tu, tu, tu. Sinal de ocupado que a gente fala. A ligação não teve o complemento, ela não chegou no destino certo. Ela foi encaminhada até um certo ponto, depois ela morreu.


P/1 – Cabe ao senhor descobrir onde está esse defeito?


R – Tem lá pelos indicadores, todo dia você entra no terminal, você vai vendo os indicadores, e pela mesa de estatística você vai vendo qual é a parte que você tem que dar manutenção, verificar, fazer teste. Além disso a gente fazia teste no circuito todo, sainte, entrante, circuitos internos, circuitos que se interligam, milhar com milhar, de entroncamento. Essa preventiva tem que fazer. O mês é totalmente cheio dentro da central. A gente diz que não tem tempo pra pensar besteira, a gente tem que trabalhar mesmo.


P/1 – E quando digitalizar essa central, o que vai significar pra esse tipo de prevenção, é mais fácil para fazer?


R – Os indicadores vão continuar. Os indicadores são os termômetros pra gente segurar esse estado de atender bem o cliente. Não vai ser diferente não. Lá em Orlândia a gente tem uma parte digitalizada, trabalha eu e o Sebastião, dificilmente eles... porque a mãe dela é aqui em Franca, nós temos os colegas desnossos, o Juninho e o Érbio, o Érbio Lucas (?), eles que são os responsáveis pela Central Mãe, então todos os comandos, a gente tem uma senha, a gente acessa, a gente tem os comandos até um certo ponto, depois a gente não acessa mais. É responsabilidade deles. Então até aquilo que a gente pode fazer, trabalha mais com facilidade, todas as facilidades a gente coloca, tira, põe. Porque mesmo nas pontas, se você tem um escritório de serviço para atender, tem um cliente que é exigente: “Eu quero que faça agora”, então você tem que atender ele. “O fulano está pedindo, eu quero que você desbloqueie o telefone dele agora.” Se está normal, tudo certinho, se ele pediu, tem que fazer na hora, você vai lá e faz. Se o atendimento é repassado para o centro de serviço, ele é demorado. O desbloqueio às vezes demora três, quatro. Para nós não é interessante deixar o cliente, se ele já pagou a conta, deixar o telefone dele bloqueado quatro horas, para nós é imediato, tem que soltar o telefone para ele gastar, para ele usar o telefone. Então nesse serviço de ponteiro que aparece. A gente não divulga muito, não quer aparecer, mas o serviço de ponteiro é muito importante, até a pessoa se deslocar, sair de Franca, ir lá. Nós temos placas com oito assinantes, às vezes dá defeito em três ou quatro assinantes dentro de uma placa. Você vai lá e troca a placa, em cinco minutos você substitui ela. Você precisaria de uma pessoa de Franca que se deslocasse até Orlândia, que gasta mais de uma hora de viagem, até ele pegar condução e tal, tal, tal, tal. Às vezes gasta mais de duas horas para atender um deslocamento.


P/1 – E o cliente tem pressa.


R – O cliente tem pressa. “Olha, meu telefone está parado.” E nós não, nós fazemos o serviço na hora. Então são as coisas que vêm ajudar. A companhia nos ajuda também, ajuda a cidade. Quanto menos reclamação tem dentro de uma cidade, mais a companhia... com as concorrentes que estão aparecendo, nós temos que cuidar, temos que selar pelo nome, não só pelo nome mais pelos clientes também. 


P/1 – O senhor acredita, ao menos em Orlândia, que exista essa identificação do cliente com a Companhia, antes só conhecia os quatrocentos, hoje são quase doze mil?


R – Fica mais difícil. Em Orlândia teve muita migração, a gente conhecia o pessoal mais antigo. Às vezes a gente vai dar uma volta com a patroa, a gente sai e vê: “Quem é esse menino?”. “Esse menino é filho de fulano de tal.” Nossa, eu conhecia muito o avô deles, mas os meninos hoje, as pessoas se casaram, mudaram. Se a gente vai conversando, dialogando vai lembrar que tem uma raiz, tem um negócio que veio. Uma, que faz muitos anos que eu estou dentro de uma central, a gente não tem mais aquele contato... “Eu vim ver o telefone, vim fazer uma visita”. A gente não tem mais isso. E dentro desses vinte e dois, vinte e três anos que estou lá dentro da central, a cidade mudou, as pessoas casaram, as famílias cresceram, muitos chegaram e muitos foram embora. “Cadê Fulano?” “Fulano foi para os EUA e tal.” “Os filhos dele formaram.” É difícil.


P/1 – O senhor está pensando em se aposentar?


R – Eu já sou aposentado.


P/1 – Ah, o senhor se aposentou já?


R – Já aposentei. Agora eu estou esperando até quando a companhia...


P/1 – O senhor se aposentou quando, senhor Tonetto?


R – Já faz três anos, recente.


P/1 – E continua trabalhando?


R – Continuo trabalhando. Logo que saiu, eles tinham brecado – que aposentado não trabalharia, aí saiu essa norma que os aposentados poderiam trabalhar, aí deu. Eu poderia ter aposentado antes, mas não consegui. Pelas informações não daria o tempo, mas quando eu completei os trinta e cinco anos, eu pedi a aposentadoria. Já faz... eu estou com trinta e oito, eu vou de três para quatro anos que aposentei.


P/1 – Senhor Tonetto, com essa sua experiência toda, desde antes da CTBC ter chegado em Orlândia, do senhor ter acompanhado todo esse processo, como que hoje o senhor enxerga o futuro da companhia, o que o senhor vê pela frente?


R – Eu acho que o futuro da companhia é um crescimento que não tem limite, a coisa não vai, quem viu a companhia como eu vi, no tempo da manivela, que veio, veio, veio, está crescendo, crescendo. É um crescimento sem limite, é uma coisa que na sua cabeça não tem uma proporção de tamanho da coisa porque hoje... a gente pensava assim: formava circuito phantom, de dois circuitos formava um, punha uma bobina lá, saía o terceiro com pouco de barulho, mas falava bem. Hoje você tem uma fibra que você fala novecentos circuitos. Dentro da cabeça é uma coisa inatingível. E ela está caminhando para isso. A companhia não tem onde brecar, não tem onde parar mais, ela está embalada, está com o gás todo. Eu vejo, principalmente nesses últimos dez anos, que foi uma mudança radical, uma coisa fantástica, que eu me adaptei tão bem, que eu gostei tanto da mudança. Quando eu falo da companhia, eu falo das pessoas. Não é aquela coisa medida, aquela coisa marcada, aquela coisa que fica naquela coisa parada. Eu falo da mudança das pessoas, as pessoas mudaram. Há pouco tempo o doutor Luiz veio visitar Orlândia, quando eu poderia pensar de sentar numa mesa e bater um papo, dialogar com o doutor Luiz, vamos bater um papo, vamos conversar, escutar o funcionário que está no rodapé. Um diretor chegar, sentar e vamos conversar. Mudou, a pessoa mudou. Eu poderia até falar, eu admiro muito o Dílson, o Dílson trabalhou comigo em Orlândia, uma pessoa...


P/1 – Dílson Dal Piazza?


R – É. Que trabalhou comigo, nós sofremos juntos andando de caminhão dentro de Orlândia, pessoa que viveu, sofreu. Hoje a gente chega, conversa, o Nelson Cascelli que pediu tanto para eu ir trabalhar em Uberlândia, trabalhar lá, pessoas que você viu que mudaram. O doutor Luiz, eu seria um mentiroso se falasse que ele não mudou. Ele era uma pessoa mais fechada. Eu não sei se ele não gostava... Mas hoje ele é uma pessoa aberta, pra ele não tem pessoa importante, ele conversa com qualquer um. “Senta na mesa aí, vamos conversar.” Como que eu podia pensar. Então é uma empresa aberta, não só a cabeça dele não, todos. Todos mudaram. Eu acho que a pessoa que não mudou, não está na empresa. Eu acredito nisso. As pessoas que não mudaram deram um jeitinho neles, mandaram pra aqui, pra lá, mas na CTBC, eu vejo assim.


P/1 – Senhor Tonetto, o senhor tem sonhos na sua vida?


R – Eu francamente gosto muito do que eu faço, gosto muito da empresa, tenho uma amizade muito grande com todo meu ramo de trabalho, toda a ramificação dos meus colegas, admiro todos, não tenho inimigo nenhum, sou aberto. Não gosto de criticar nem de desfazer. Tem pessoa que eu converso pouco, mas eu gosto de ter amizade, relação com todo mundo. Eu comentava agora no café, com a menina. Não porque eu sou de Orlândia, mas eu considero Orlândia uma cidade modelo, nessa parte, entre nós, nós somos em dez pessoas. Eu sei que conviver onde tem dez pessoas é muito mais fácil do que conviver onde tem duzentas pessoas. Mas mesmo viver em dez pessoas seria difícil. Mas eu vejo que ali nós somos em dez empregados e vivemos conversando, dialogamos, sentamos no café da manhã, todo mundo sabe o problema de todo mundo. Não o problema, coisa que fica só particular, coisa comum. Quando uma pessoa sofre, todo mundo sofre junto. A gente chega de manhã, é aquela alegria, a gente passa o dia todo junto, conversando, é aquela harmonia. Existe um negócio diferente, você se sente bem onde você trabalha, onde você está. Eu vejo assim, que o caminho é esse. O que tiver que falar, fala. Mas você não sente aquela maldade na pessoa. O que a pessoa está te falando é para o próprio bem. Quando você está conversando com diálogo, é para o próprio bem, não é para desfazer ou desmoralizar ou diminuir a pessoa. Pelo contrário, é para engrandecer a pessoa, para que a pessoa cresça. Eu sempre falo assim: “É importante que a pessoa cresça e a gente diminui, se for preciso...”.


P/1 – Beleza. Senhor Tonetto, o senhor teria alguma coisa que o senhor gostaria de dizer e que a gente não provocou o senhor a dizer?


R – Eu já falei muito da minha alegria, eu acho que não é fácil, mas é uma graça de Deus poder ficar trinta e oito anos dentro de uma companhia. Eu falava para a menina ali fora que eu tenho a carteira assinada por um serviço só, só pela companhia. Eu vejo que eu poderia ter feito muito mais, por um motivo ou por outro, por falta de conhecimento ou falta de alguma coisa, alguma coisa que faltou, eu não pude ter feito mais. Eu comentava com um colega meu de serviço, esta semana, me entristece de ver nessa minha situação. Quantas pessoas eu entristeci, ou talvez brigou, ou talvez perdeu o emprego, ou perdeu de ter ganhado dinheiro, de eu não ter dado uma manutenção melhor na empresa, no telefone dele, no número dele. Ter cuidado com carinho melhor, ter olhado melhor. Que pena que eu fui descobrir isso agora, podia ter descoberto muito, as pessoas poderiam ter falado muito, de ter esse sentimento. Casal que se separou por causa do telefone, muitas vezes poderia ter acontecido um telefonema, uma linha cruzada por falta de dedicação talvez minha. Uma dedicação melhor, de ver melhor, de ver o sentimento das pessoas. O que pode levar as pessoas a um descontentamento. Por quê? Às vezes falta de uma dedicação, ficar meia hora a mais para trabalhar. Eu nunca limitei horário, quantas e quantas noites trabalhei, não tem nem contagem. Mas não é isso, é perceber, é ver os assinantes que necessitam de uma coisa séria. Às vezes um telefonema sério que ele não pôde fazer porque se for ver no fundo pode ter uma culpa minha. Eu peço desculpas, eu já pedi a Deus que me perdoe por isso porque muitas vezes a gente faz as coisas que... sei lá por ignorância, por não saber. Falta alguma coisa. Eu agradeço a Deus por ter percebido, ter esse sentimento. Agradeço a Deus também por estar nessa companhia, de ter feito tanta amizade, não amizade interesseira, mas uma amizade que valoriza a família, valoriza muito o trabalho. Gostei muito do trabalho que a companhia faz sobre a família, principalmente sobre o valor da vida, eu gostei demais quando teve essa abertura de falar, que você tem que amar a tua vida. Tem que ter uma boa saúde, uma boa coisa para você ter disposição para atender o cliente. Tem que ser feliz por quê? Para estar com cara alegre, para você não ir com cara azeda todo dia lá na frente do povo, matando as pessoas com sua cara de azedo, essa coisa. Eu gostei demais desse trabalho de abertura que estão fazendo, essa abertura que as pessoas podem falar. Antigamente você não podia falar nada, hoje não, a companhia... você pode pôr a boca no trombone, você pode falar o que quiser, o que vier na cabeça você pode falar. Hoje, o que a pessoa pensar, ela fala. Pode ter suas consequências, mas que pode falar, pode. Não somos mais escravos, somos livres. Outra coisa que eu vejo: a companhia é tão livre que quem quiser sair da companhia, sai, não fica chorando. Ela não chora mais. Você quer sair? Sai. Você quer ficar? Fica. De primeiro quando perdia um funcionário bom, chorava, rezava até missa de sétimo dia. Hoje não, não tem esse problema. É uma companhia aberta. Eu vejo o trabalho dessas pessoas. Vocês falaram que faz dois anos que estão fazendo esse trabalho, muita gente não sabe. Quantas coisas escondidas que não aparecem, que não é visível, mas tem gente lá trabalhando, malhando, dando duro, pensando. Quando a gente tem algum interesse de trabalhar, quantas noites de sono que a gente perde pensando. Acho que é isso, a companhia mudou. Hoje você trabalha com alegria, as pessoas mudaram porque houve um trabalho que saiu de alguém, alguém que teve coragem de falar as coisas, alguém que teve coragem de falar: “Vamos fazer isso”. Trabalhar em grupo, não trabalhar sozinho. A companhia no começo trabalhava sozinha, depois ela viu que não dava. Que ela fez? Vamos trabalhar junto. Hoje é um corpo. Queira ou não queira o corpo é feito de vários membros: a orelha depende da boca, a boca depende do ouvido, da mão. Assim é a empresa, um depende do outro. O importante é dar valor a esse corpo, um corpo sadio, um corpo bonito, um corpo alegre que mostra alegria, que é liberto, não é escravo. Ela pode ter seus problemas, mas não afeta em nada. Eu vejo assim.


P/1 – Como o senhor se sentiu dando esse depoimento para nós?



R – Eu me sinto feliz de ter lembrado. Eu que sou uma pessoa que fica escondida lá em Orlândia, escondida em termos porque a gente se comunica, ali num cantinho, trabalhando todo esse tempo. Sete e meia a gente chega e fica até seis horas, todo dia. Não é que é rotina, porque pra mim o trabalho um dia é diferente do outro. Hoje está diferente do que foi ontem e eu acredito que amanhã vai ser diferente de hoje. E pra mim é diferente porque todo dia tem um negócio novo, não é rotina. Me sinto feliz, esse trabalho que vocês estão fazendo, de vocês terem lembrado da gente. Eu não sei no que poderia ajudar mais, o que vocês precisarem eu estou à disposição. Ajudar em alguma coisa que ficou para trás. A gente não consegue falar tudo o que se passa porque tem coisas boas e coisas ruins. As coisas ruins a gente vai eliminando porque quando entra alguma alegria na tua alma, no teu corpo, você esquece. Igual a mãe que está próxima a dar a luz, ela fica pensando, mas, depois que ela deu a luz, a alegria dela é tanta que nem se lembra mais do parto. Eu só tenho que agradecer de vocês terem lembrado da gente, de poder falar aquilo que a gente sempre traz no coração, meu desejo que esse trabalho continue, que essa abertura continue, que as pessoas se abram. Eu vejo muitas pessoas inteligentes dentro da companhia que podem se doar bem, doar na parte da inteligência, da abertura. Tem gente sábia dentro da companhia. Qualquer programa que tiver tem que ter pessoas que encare e que arregace a manga. Eu vejo que o espírito da companhia é de todo mundo de manga arregaçada, trabalhando, varando a noite, fica fora de casa, larga a família, se dedica de corpo e alma. Eu só peço que Deus abençoe a todos, que Deus ajude, que todo mundo tenha essa consciência, que haja uma mudança no coração de todo mundo. Se não mudar o coração não adianta, nós temos que mudar o coração. E também não adianta falar para o fulano mudar se eu não mudo. O importante é eu mudar. Se eu mudar, as pessoas mudam. As pessoas vendo a gente é outra coisa. Quando você vê o espírito de mudança, as pessoas vão ver. Aquele moço é um moço de espírito novo e liberto, ele é a alegria da companhia. Quando você uma coisa que vai mudando, eu não tenho que mudar ninguém, é a própria pessoa que tem que mudar. Eu aprendi isso também, não adianta nada jogar o fardo pesado em cima do outro, eu tenho que carregar o fardo também. Não é jogar o fardo em cima dos outros e dar risada. O caminho é esse, tem que trabalhar, pedir a ajuda de Deus. Deus em primeiro lugar, depois vem a empresa.


P/1 – Nós também estamos muito felizes de ter escutado o senhor, pode estar certo disso. Um belo depoimento, muito obrigado.

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