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História

"O militar é formado para do combate"

História de: Sebastião Curió Rodrigues de Moura
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/10/2015

Sinopse

Nascido em 1934 em Minas Gerais, Sebastião Curió se formou como aspirante a oficial pela escola militar, inspirado pelos filmes de ambientação em guerra durante a infância. Já durante o regime militar no Brasil, Curió se torna uma forte peça no governo, sendo responsável por comandar atividades no Serviço Nacional de Inteligência. Entre seus feitos mais conhecidos estão comando à repressão da Guerrilha do Araguaia, nos anos 1970, e a pacificação dos garimpos de Serra Pelada, nos anos 1980. Contrariando a própria visão de que o militar não deve servir à política, torna se deputado ainda nos anos 1980 e, posteriormente, prefeito de Curionópolis, cidade do Pará batizada com seu nome.

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História completa

P/1 - Qual é seu nome completo, local e data de nascimento?

 

R - Sebastião Curió Rodrigues de Moura, nascido em Minas Gerais, em São Sebastião do Paraíso, oito de dezembro de 1934.

 

P/1 - Seus pais são de lá também, Curió?

 

R - Meus pais também são de lá. Heitor Rodrigues Pimenta e Antonia Pimenta de Moura.

 

P/1 - Seu pai e sua mãe nasceram lá?

 

R - Todos em São Sebastião. 

 

P/1 - Avós?

 

R - Quase que toda a família do meu pai e da minha mãe, são todos de São Sebastião.

 

P/1 - E qual era a atividade do seu pai? O que ele fazia?

 

R - Meu pai era um barbeiro num salãozinho muito modesto, muito humilde, minha mãe tinha uma pensãozinha para estudantes, e eu fui engraxate, engraxava na rua.

 

P/1 - E você tem irmãos?

 

R - Somos em cinco, cinco irmãos. Tem um homem e três mulheres.

 

P/1 - Você é o do meio ou o mais velho? Como é que é?

 

R - Sou o segundo.

 

P/1 - Você é o segundinho. (riso)

 

R - Segundo mais velho. (riso)

 

P/1 - E como é que era essa cidade?

 

R - São Sebastião é uma cidade típica interiorana de Minas, muito gostosa, muito pacata. As famílias quase que todas com vínculos com laços, como é o caso da minha com a da minha esposa. Então são conhecidos, são parentes. É uma cidade muito alegre. O mineiro ele é muito desconfiado, mais muito hospitaleiro, então é uma cidade muito gostosa. Vive mais à base do café. A base da economia é o café.

 

P/1 - Como é que era sua casa?

 

R - Minha casa, eu poderia dizer que era um barraco, como se diz aqui hoje. Um barraco com um quintal grande. Inclusive, as instalações sanitárias eram como naquela época no fundo do quintal, um barracozinho lá. Não havia instalações sanitárias dentro de casa. Então eu fui criado muito humildemente, mas tem grandes recordações, meu pai me passou grandes ensinamentos.

 

P/1 - Como que era seu pai? A característica dele?

 

R - Meu pai era um homem modesto, simples, mas muito inteligente. Ele, como eu disse a profissão, era um simples barbeiro, mas ele lia muito. Naquela ocasião tinha o jornal O Estado de São Paulo, era quinzenal, e eu me lembro. Eu bem garoto e meu pai recebia, era um pacote bem volumoso. Ele lia tudo aquilo e comentava tudo, era Getulista roxo, fanático. E dava grandes conselhos! Então, por exemplo, ele chamava todos os filhos por apelido, e eu me chamava de “moleque”. Eu acho que não há nenhuma relação que alguma coisa mal feita que eu tenha, algum procedimento errado. Até porque eu sempre fui o primeiro de escola, primeiro de turma por onde eu passei. Mas, por exemplo, alguns conselhos dele inteligentes que eu guardo até hoje, sabe? Ele batia na cabeça e dizia: "Olha, moleque: laranjeira carregada no meio da estrada, ou é azeda ou tem marimbondo no pé." Quer dizer, é um ensinamento inteligente. Qualquer coisa que passe na vida, desconfie. Ele dizia outras, por exemplo: "O muro é o local dos oportunistas e dos covardes, tenha sempre uma posição definida." Então são coisas que eu guardo muito como lembranças do meu pai.

 

P/1 - Ele era severo?

 

R - Como?

 

P/1 - Quem exercia a autoridade na sua casa era o seu pai ou sua mãe?

 

R - Naquela época era o homem, sem dúvida nenhuma. Era quem falava e todos obedeciam no meu tempo de garoto. Mas meu pai era mais ponderado, ele ouvia mais. Minha mãe também era muito inteligente, mas era mais energética. Minha mãe dava umas palmadas boas nos filhos. Ele, não. Ele nunca batia. Naquela época dizia bater. É lógico, é condenável. Hoje, não. Na educação moderna não admitimos isso, mas eu acho que algumas palmadinhas que eu levei da minha mãe não foram em vão, não. O efeito foi bom.

 

P/1 - E você lembra das suas brincadeiras de infância, como é que eram?

 

R - A minha infância foi uma infância tipicamente interiorana, né? Como se diz, em cidadezinha pequena. E naquela época não se tinha grandes opções. Por exemplo, não existia televisão. Só tinha um cineminha na cidade, que aos domingos se ia ao cinema com a namorada ou pra arrumar namorada, era chamado de matinê, começava às catorze horas e era a distração de final de semana. E na minha cidade tinha uma pracinha que existe até hoje, onde os rapazes caminhavam num sentido e as moças num outro sentido, então ali é que, se diz hoje, era o local da paquera. Pois é. Mas uma paquera muito discreta, muito policiada pelas famílias claro. Eu, por exemplo, comecei a namorar minha mulher quando eu tinha 12 anos.

 

P/1 - Sua atual mulher?

 

R - Atual mulher. Estamos casados a 42 anos. Mas era um namoro assim só de, inicialmente, de flertar, de olhar. E quando se segurava na mão é porque você estava noivo. E a vida de garoto... Como todo menino, eu gostava muito de caçar com aquelas baladeiras, fazia aquelas baladeiras e saia, né?

 

P/1 - Você caçava o quê?

 

R - Eu não desconfiava nunca que eu seria futuramente um passarinho, com nome de “Curió”. E matei alguns passarinhos, lamentavelmente, mas era coisa de menino, coisa de garoto. Então era distração durante o dia. No final de semana, no domingo, ia à matinê, como já relatei. E nadar. Eu praticava muito esporte, fui muito esportista desde garoto. Futuramente, já adulto, eu continuei praticando esportes e, por incrível que pareça, eu até hoje faço o meu cooper bem feito de manhã, faço a minha musculação. Eu disse a minha data de nascimento. Pode até pensar que estou exagerando um pouco, mas faço diariamente a minha musculação. E eu não gosto de espelho, eu não coloco espelho na minha casa, porque eu não olhando no espelho eu tenho trinta anos, se eu olhar eu me lembro da idade, até porque a idade está na cabeça. E como garoto, a mesma coisa, era um garoto normal, namorador, como era a distração naquela época. Como eu disse, não tinha opções, era matinê, namorada e nadar numa lagoa, porque não se pensava em piscina.

 

P/1 - Você namorava muito?

 

R - Olha, por incrível que pareça eu namorei as três meninas mais bonitas da minha terra.

 

P/1 - Não... Com quantos anos, se com doze você tava com a mulher?

 

R - Com doze, treze anos, por incrível que pareça. E me casei muito bem, tenho cinco filhos, cinco netos, eu tô me antecipando às suas perguntas.

 

P/1 - Com quantos anos você entrou na escola?

 

R - Na escola? Eu fui pra escola com seis anos. Aliás, prematuro, porque só se podia ingressar no... Naquela época se chamava curso primário, com sete anos. Mas eu sempre fui muito dedicado e não admitia nunca o segundo lugar. Eu tenho um primo que é hoje o Ministro do Superior Tribunal do Trabalho, Wagner Pimenta, nós estudamos juntos, e disputávamos o primeiro lugar. Eu não admitia nunca perder, sempre fui muito persistente nos estudos e muito dedicado. Fui moleque, fui garoto como os outros, sem cometer coisas absurdas. Por exemplo, naquela época não existia nem fumo, nem cigarro. Acho até mesmo que eu nunca fumei, até hoje eu não sei o gosto de um cigarro, que isso era herança da época. E pra dizer então drogas, que não existiam, não se falava nisso. Um tempo mais difícil mas deixa saudades, muito bom.

 

P/1 - E com quantos anos você começou a trabalhar?

 

R - Eu comecei trabalhar, como eu disse, há pouco. Meu primeiro trabalho realmente foi de engraxate. Como eu via meus pais, que lutavam com muita dificuldade, eu fiz uma caixinha de engraxate. E tinha perto da minha casa um cidadão que se chamava Emílio Curador. Curadores eram aqueles homens que benziam, curavam... Então o nome dele era Emílio Curador, e ali ficava muita gente, ficava bastante gente na fila aguardando a vez da consulta ou, por que não dizer, do milagre, não é? E eu aproveitava aquele povo todo ali, ia com a minha caixinha e ganhava meus trocados. E esse foi realmente meu primeiro trabalho. Agora, trabalho mesmo, oficialmente foi aos quinze para dezesseis anos, que eu terminei hoje o que seria o primeiro grau. Naquela época se chamava de ginasial, depois vem o científico, que hoje é o segundo grau. Eu terminei o primeiro grau e meu pai me disse: "Moleque, arrumei um emprego pra você no Banco do Brasil." Naquela época as melhores coisas eram ir ou pro Banco do Brasil, ser militar, médico ou fazendeiro. O fazendeiro tinha que nascer fazendeiro. O médico, o militar, e o Banco do Brasil se conseguia pela capacidade. Ou o Banco através de política. E, como eu disse, eu era bastante aplicado nos estudos. Mas havia a influência da Segunda Guerra Mundial, então não tinha televisão, mas nós víamos as matinês, como eu disse, no cinema e aqueles filmes ou jornais dos pracinhas da Segunda Guerra. Eu me entusiasmei muito com aquilo, eu achava que era uma coisa linda. Não a guerra, porque a guerra é horrível. A guerra, lamentavelmente, é um tumor maligno que o mundo enfrenta através dos tempos. Eu acho que enquanto existir o mundo, haverá guerra. É muito difícil os homens se entenderem pelo diálogo, lamentavelmente. Mas o que eu via é que aquela atividade militar, a guerra, ela casava muito com a minha disponibilidade física, a minha tendência física. E eu tinha um primo que foi pra Itália como pracinha e voltou sargento graduado. Nós fomos recebê-lo na estação da estrada de ferro, era a Companhia Mogiana de Estrada de Ferro. O povo todo carregando, fardado, cheio de medalhas, e aquela manifestação, aquela euforia, aquele entusiasmo do povo por ter terminado a Segunda Guerra Mundial, que graças a Deus terminou como terminou. E aquilo teve uma influência muito grande. Quando meu pai me disse: “Arrumei um emprego pra você no Banco do Brasil.” Eu abaixei a cabeça. Naquela ocasião, responder pro pai ou discordar do pai era raríssimo, mas eu disse a ele que eu queria continuar meus estudos, e ele me disse até num tom de voz meio contundente.

 

P/1 - Você não queria o banco de jeito nenhum?

 

R - Não, eu disse que eu queria ser militar, e que eu queria continuar meus estudos. E ele me disse: “Mas como? De que jeito? Aqui não tem, eu não posso. não tem quem lhe pagar os estudos." Eu disse: "O senhor deixa que eu vou conseguir. Se o senhor me der a sua permissão e a sua benção, eu vou sair." E saí. Saí com uma malinha, naquela ocasião, umas malinhas de papelão. A mãe colocava uma capa de pano para não sujar o papelão de poeira. E eu saí com a malinha e fui pra Ribeirão Preto. Foi aí que surgiu meu primeiro emprego, eu dei muita volta pra lhe responder. Cheguei em Ribeirão, fui pra uma pensãozinha e fui procurar emprego. Consegui no Diário de Notícias de Ribeirão Preto, o jornal era dos padres, eram padres católicos e estranharam muito pela idade. Me perguntaram o que eu sabia fazer e eu disse: "Eu sou bom de português, eu posso ser útil." Então me colocaram como revisor. O repórter apresentava a matéria e essa matéria ia pro linotipo, aquilo que se montava letra por letra. No linotipo o revisor corrigia, fazia a revisão da matéria escrita do redator, e o repórter com a montagem do linotipo. Eu me atrevi até a corrigir mais alguns erros de português que criavam atritos com os repórteres, mas me dava bem com os padres. Então foi meu primeiro emprego, eu trabalhava da oito da noite às três da manhã e estudava durante o dia.

 

P/1 - O quê você tava estudando?

 

R - Me preparando para prestar o concurso, o vestibular pra Academia Militar das Agulhas Negras. Prestei o concurso, terminei o segundo grau no Colégio Militar de Fortaleza e fui pro Agulhas Negras por mérito. Não prestei o concurso. Pela classificação do Colégio Militar, assim foi o início da minha carreira.

 

P/1 - E como é que foi lá, como foi esse ingresso?

 

R - Muito bom. Fui pra Fortaleza, fiz o colégio militar em três anos. Tive lá também a minha namoradinha. Eu falo muito em namorada, né? (riso)

 

P/1 - Mais você já não estava com a atual? 

 

R - Hein?

 

P/1 - Você tava com a atual e com essa?

 

R - Na ocasião nós havíamos terminado e depois voltamos. É uma boa pergunta, porque ela vai assistir isso aí, ou poderá assistir. Mas...

 

P/1 - A gente edita. (riso)

 

R - Eu fui pra Fortaleza, fiz o que correspondia ao segundo grau, o colégio militar, e fui pro Agulhas Negras. Então, até hoje, eu tenho gratas recordações de Fortaleza. Estive lá agora, recentemente, comemoramos 45 anos de formados no colégio militar. Conseguimos reunir 62 coronéis e generais, no dia doze de outubro do ano passado.

 

P/1 - Que ano que você entrou?

 

R - Em 1953. Nossa Senhora!

 

P/1 - Como é que era o cotidiano do curso? O que você aprendia?

 

R - A carreira militar é cheia de sacrifícios, como outro curso qualquer.

 

P/1 - Até pensando nesse pós-Guerra.

 

R - É, foi logo após a guerra. E havia muito aquela influência, quer dizer, pós-Guerra. Alguns anos depois... Mas havia muita influência, ainda, dos efeitos da Segunda Guerra Mundial, e havia muita influência dos ensinamentos da tecnologia francesa e americana no curso. Então se mestrava os ensinamentos, a doutrina militar, a estratégia francesa e americana. Mas foi muito bom, um curso muito bom, não me arrependo. Se eu voltasse aos meus quinze anos, eu retornaria novamente para a carreira militar, com certeza. (emoção)

 

P/1 - Fala um pouco dessas estratégias.

 

(pausa) (emoção)

 

R - Do quê?

 

P/1 - Dessas que estavam em voga. O que você aprendia efetivamente nessas estratégias?

 

R - Não, não há grandes...

 

(pausa)

 

R - Eu falava numa diferença de ensinamento, que havia uma influência da doutrina militar francesa e americana, então é lógico que se puxava-se mais para a americana porque havia uma influência americana muito grande. Não só pelo convívio e a parceria das nossas tropas na Itália com as tropas americanas, até pelo tipo de armamento, o tipo de uniforme... Havia uma influência muito grande americana na doutrina, no ensinamento, tanto no Colégio Militar quanto na Academia. Quer dizer, a Academia já era a Universidade Militar, onde eu me formei no dia dezenove de dezembro de 1958.

 

P/1 - E o que era, em linhas gerais, essa doutrina americana?

 

R - Não, a doutrina era a tática militar, tática de guerra, de ensinamento, a modalidade de combate. Porque lógico que o médico é formado para curar e o advogado para defender. O militar é formado para a guerra, ele não pode fugir disso. O militar é formado para matar ou para morrer, quem fugir disso está mentindo. Como eu dei o exemplo do médico, que é formado para curar, para salvar vidas, e o advogado pra defender, o militar é formado... É lógico que aí vem o que está implícito, o que está escrito, está claro na nossa Constituição: que o dever das Forças Armadas é a defesa da nossa soberania, das nossas instituições, da coisa pátria. Mas o militar é formado pra isso, então nunca desconheci. E você tem que evitar nas suas funções, nas suas missões, o combate. Você tem que optar pelo diálogo, eu sempre fiz isso. Vê que nesse sul do Pará e no Brasil todo até a própria imprensa sempre me chamava de bombeiro. A alguns conflitos sociais, conflitos sérios, eu ia primeiro com o diálogo, então eu quero fazer uma comparação para que não fique assim muito contundente. Dizer que o militar é formado pra matar ou pra morrer mas, na essência da profissão, é formado pra guerra. O que é a guerra? A guerra é o combate, o combate é uma agressão física de homens contra homens, e uns morrem outros sobrevivem.

 

P/1 - Curió, nesse período da Academia você fazia treinamento fora? Em que lugares você fez treinamentos?

 

R - Fazia. A Academia Militar tinha duas partes bem distintas: a formação intelectual, em que nós tínhamos todas as matérias que praticamente se estudam em outras faculdades, como química, física, trigonometria, álgebra, direito penal militar, direito constitucional, direito internacional, história, geografia, todas as matérias de muitas faculdades nós tínhamos; e a outra é a formação militar. A formação militar, sim, eram matérias do currículo militar. Então eram duas partes distintas, a intelectual e a militar. Na militar as matérias todas relacionadas com a formação profissional em si, especificamente profissional. Então era formado para o combate, todas as matérias. Quer dizer... E participava de manobras, de treinamentos e tudo o que é possível e imaginável.

 

P/1 - Teve algum professor, um mestre que tenha te marcado nessa época de academia?

 

R - Tem, tem grandes professores. E como grandes companheiros, grandes colegas, como professor eu tenho hoje o coronel da reserva, o Gonzaga, Luis Gonzaga, um grande... Era tenente na época, um homem que nos transmitiu não só ensinamentos militares, mas ensinamentos morais. Porque o mestre, o professor, ele é, acima de tudo, um orientador moral. Eu já disse que a criança, o adolescente… Não é o caso no meio militar. No meio civil chamam o mestre, professor, de tio, de tia. É uma expressão de carinho e de respeito. Se espelha no mestre e no professor. Então eu tive grandes mestres e grandes professores, não só estrategistas, como estrategistas militares e morais, no campo moral.

 

P/1 - Só voltando um pouquinho. Você disse que você assistia aqueles filmes de guerra e isso te dava uma vontade de ser militar. Você lembra um pouco de quais filmes eram esses que você assistia? O nome de algum?

 

R - Me lembro, me lembro. O que mais me marcou na época eram os noticiários, eram os pracinhas brasileiros no campo de batalha na Itália. Então passava o combate Monte Castelo, Montese, os pracinhas combatendo. Então aquilo despertava em mim não só um sentimento pátrio, um sentimento nacionalista, uma vontade de lutar pela pátria. Eu via na carreira militar, que hoje eu vejo de uma maneira até um pouco diferente, e dou exemplo. Me perguntaram há poucos dias se eu hasteava a bandeira todas as manhãs aqui. “Eu hasteio” A imprensa: “Todas as manhãs você hasteia a bandeira. E isso é pra lembrar os tempos de caserna?" Me perguntou um jornalista, e eu respondi: "Não, hastear a bandeira não é privilégio de um homem fardado, é um dever cívico." Então eu vejo hoje como naquela época, eu adolescente, eu via na carreira militar a maneira mais próxima, mais imediata de defender a pátria, de lutar. Era esse o objetivo, até pelo próprio desenrolar da guerra, não é? Porque nós ouvíamos aquilo, aquela tirania nazista, o mundo lutando contra o nazismo, o fascismo, e aquilo me despertava um sentimento de dever de lutar. e Eu via naquilo a carreira que eu queria. Dizendo que hoje eu entendo que qualquer profissão, seja ela militar ou civil, é um lutador e um defensor da pátria, basta que tenha caráter que tenha dignidade e exerça bem a sua profissão. Esse é meu pensamento hoje. Mas se voltasse aos quinze anos, voltaria para a carreira militar.

 

P/1 - Ô, Curió, e quando você saiu da academia?

 

R - Como?

 

P/1 - Quando você se formou em 1958, para onde você foi? Como foi a sua carreira? Você se formou em 1958, né? Você falou...

 

R - É, em 1958. Eu saí e me formei a Aspirante a Oficial, porque na Academia é como uma faculdade de medicina, em termos de comparação. Então existe a Escola de Enfermagem, onde se formam os enfermeiros, que no Exército são Sargentos graduados. Na Academia formam os oficiais, que na medicina se corresponderiam aos médicos formados. E eu saí Aspirante a Oficial, que era o médico estagiário, então era Aspirante a Tenente. Tinha seis meses de estágio para ser promovido a tenente. E foi bonita a formatura com a presença da minha mãe, que eu perdi a um ano, com 88 anos, e com a minha atual mulher, aliás, a única. Foi bonita, formatura bonita.

 

P/1 - Onde foi?

 

R - Em Resende, Estado do Rio.

 

P/1 - E que autoridades participaram dela?

 

R - Muitas autoridades, o Presidente da República...

 

P/1 - Que na época, em 1958...?

 

R - Era o Juscelino. É como toda formatura. Quem está fazendo medicina, quando termina um curso naquela euforia, naquele entusiasmo, direito, engenharia, jornalismo, qualquer profissão.

 

P/1 - E ai? Como é que ficou sua família, seu pai sua mãe, quando você ingressou, escolheu a carreira militar? O que eles achavam?

 

R - Minha mãe tinha muito medo, ficava muito apreensiva ainda. Eu diria por reflexos da Segunda Guerra Mundial, então ela pensava que eu a qualquer momento poderia ser alocado para um campo de batalha, para uma luta qualquer, ou coisa qualquer parecida. Meu pai, não, meu pai passou a gostar. E a minha mãe, posteriormente, passou a adorar, porque minha mãe viu que não era nada daquilo que ela pensava. Até pela minha própria atividade militar após a formatura, ela passou a admirar muito, a gostar. Foi muito bom, formatura muito boa.

 

P/1 - E quando você estava na faculdade, qual era a sua aspiração? Você queria fazer exatamente o quê dentro da carreira?

 

R - Na academia? Me formar e seguir a carreira. Que logo a aspiração de todo formando na Academia Militar é chegar a general, que é o posto máximo. Essa é a aspiração de todos, chegar a general, ao que eu não cheguei por cavacos do ofício, força das circunstâncias. Eu posso até explicar depois.

 

P/1 - Pode falar agora, se você quiser, a gente não...

 

R - É, mais eu vou responder mais especificamente.

 

P/1 - Tá.

 

R - Então a aspiração era me formar. E a minha era me casar também porque eu já estava com 21 pra 22 anos, e achava naquela época que já tava ficando meio vovô.Naquela época se casava novo e eu namorava a minha mulher. Tanto que teve uma influência muito grande a escolha do quartel, porque havia uma escolha quando formado para escolher o quartel onde servir, onde trabalhar. E eu escolhi o mais perto, o mais próximo por classificação, por mérito. Você escolhia por classificação, então pegava a lista de classificação intelectual. E o primeiro escolhia, o segundo, o terceiro... E eu escolhi o mais próximo da minha cidade de Minas, que foi Lins, interior de São Paulo. Fui servir em Lins, fui como Aspirante para Lins. Em Lins eu consegui autorização para me casar, tinha que ter autorização naquela época, e me casei em dois de maio de 1959. Então, nas duas aspirações, me formar numa boa classificação, ir pra um bom quartel e me casar, esses dois pensamentos.

 

P/1 - E como é que foi em Lins? Como é que era esse quartel?

 

R - Foi muito bom. Era um quartel de interior, uma cidade pequena, bem interiorana, muito bom. Um ambiente muito bom, bons companheiros... Nós fomos em dois, eu e mais um colega de turma, de formatura. E tive muitas missões pro interior do estado, cumpri varias missões. Então ali comecei a minha carreira, e de Lins.

 

P/1 - Que missões eram essas?

 

R - Como?

 

P/1 - Quais eram essas missões?

 

R - Não. Por exemplo, tinha um em Avanhandava. Era uma fazenda, fazenda de propriedade da união, e ela estava invadida. Você vê que naquela época tinha invasão. Ela estava invadida. Mas, por incrível que pareça, invadida não por sem-terras, invadida por grileiros de terras, grandes proprietários. E foi a primeira missão que eu recebi para me deslocar com tropa, para fazer a limpeza na fazenda, retirar os invasores. Eu tinha o quê? Tinha 23 anos. Me lembro até de um dos grandes invasores, cujo nome é famoso, Geremia Lunardelli. Nome famoso, era um dos grileiros daquela ocasião.

 

P/1 - E como é que funcionou essa missão?

 

R - Eu sou muito franco, muito direto na minhas missões. Às vezes, aqui na Prefeitura me chamam até de mão de ferro. São muito… Eu cumpro muito a lei e procuro fazer tudo antes pelo diálogo. Eu cheguei lá e disse que a ordem era para se retirar com tudo...

 

P/1 - Falou, verbalizou...

 

R - E dei prazo.

 

P/1 - Chegou assim, falando.

 

R - Tem prazo para se retirar. Aí mexeu com advogados e tudo mais. Mas eu cumpri o prazo, cumpri o prazo e retirei todo mundo. Felizmente, não houve um tiro.

 

P/1 - Foi só no...

 

R - É, foi só na presença da força.

 

P/1 - Quer dizer... Você chegou lá com exército.

 

R - É, com tropa. Cheguei lá com aproximadamente cem homens.

 

P/1 - Todos armados, apontando armas?

 

R - Todos muito bem armados.

 

P/1 - Quais armas eram, você se lembra?

 

R - Me lembro, pô. Naquela época era ainda o fuzil alemão sete milímetros, que hoje é completamente arcaico, era uma arma de repetição. E hoje o exército usa o FAL, que é de fabricação belga. Mas o FAL, hoje, é praticamente semelhante ao AR-15. O tão falado AR-15, que o tráfico usa tão bem nos assaltos aí, são usados nas grandes capitais. Mas naquela época era esse o armamento. E as metralhadoras, que tinham muita diferença à de hoje, metralhadoras leves, metralhadoras pesadas... Eram tipos de armamento, hoje é mais sofisticado um pouco.

 

P/1 - Quer dizer, aí você teve essa primeira missão em Lins. Depois você ficou em Lins em quanto tempo?

 

R - Não, eu fiquei em Lins... Eu fui convidado pra ir pra fronteira do Brasil com a Argentina, e fui a convite. Porque, normalmente, naquela época estava certo de que ir fronteira era quase que castigo. E, por incrível que pareça, eu fui convidado. Fui pra Francisco Beltrão, no Paraná, como Segundo Tenente. O que é a hierarquia, não é?

 

P/1 - Você foi promovido, daí?

 

R - É, eu já tinha deixado o estágio, já estava aprovado no estágio.

 

P/1 - Estava já como Tenente?

 

R - Estava, já passei a ter estabilidade. É porque se dizia que o aspirante não tinha fé pública, estabilidade, passava seis meses estagiando. E eu fui para a fronteira como Segundo Tenente, já casado e com... Isso foi em 1961. E fui servir em Francisco Beltrão, fronteira com a Argentina, estive em grandes experiências. Por exemplo, houve naquela época um episódio de João Goulart, a volta do Jango, posição tomada pelo comandante ministro da guerra. Na época não era ministro do exército, hoje é comandante do exército. Naquela época era ministro da guerra.

 

P/1 - Ministro da guerra.

 

R - E era Marechal Odílio Denys, um grande general não só no tamanho no porte físico, mas também um respeitado, falado, um grande general. E o exército se posicionou contra a posse do Jango, que houve aquele episódio todo, a renúncia do Jânio... Eu estava na fronteira como tenente, e o terceiro exército lá no Rio Grande do Sul, que tinha uma influência muito grande do Brizola, se posicionou favorável à posse do João Goulart. E foi aquele episódio nacional, uma coisa lamentável...

 

P/1 - Você era a favor do Jango?

 

R - Não, eu fui contra posse do João Goulart mas por um caso pessoal. Nessa época eu estava nesta localidade, eu fui voluntariamente porque eu tinha muita curiosidade, eu sempre foi muito... Eu nunca fui de ficar muito ocioso, sabe? Eu sempre gostei muito de atividade. Como o médico que faz opção por cirurgia, fica até tarde no hospital operando, em atividade. Eu era militar, eu quero conhecer, eu quero sair, eu quero aprender, eu quero ver atividade. Aquela parte de fronteira me atraía porque era uma coisa diferente, e eu estava lá. E o comandante era um capitão... Exatamente o que o meu pai me ensinou: que o muro, eu disse há pouco, é o lugar dos oportunistas e dos covardes. O capitão era um oportunista e um covarde, porque ele estava em cima do muro, ele ouvia o pronunciamento do ministro da guerra e dizia assim: "O ministro está forte. E o exército, nós vamos ficar com o ministro." Daqui a pouco o Brizola falava e o comandante do terceiro exército: "Não, a legalidade..." Na época… "Está forte, nós vamos ficar com a legalidade." Eu dei um soco na mesa e disse: "Olha, capitão, um homem tem que ter posição definida, a minha posição é esta, estou com o ministro da guerra." Porque na época era o ministro, era o comandante, chefe do exército, por isso fiquei com com ele, comandante chefe do exército.

 

P/1 - E qual foi a reação? 

 

R - Em consequência disso, fui preso, saí preso porque estava no terceiro exército. Foi a única prisão que eu tive na minha carreira militar, que depois foi anulada, foi completamente anulada.

 

P/1 - Por que você era contra o Jango?

 

R - Olha, politicamente eu não tinha nada contra o Jango e até, para lhe ser franco, politicamente eu não entendia nada de posição de João Goulart. Eu fiquei do lado do comandante, o ministro da guerra. Era ministro da guerra.

 

P/1 - Mas você ficou por conta de um posicionamento hierárquico? 

 

R - É, mais por conta de um posicionamento hierárquico, por causa de um posicionamento hierárquico, exatamente. Mais nada. Não tinha nada contra o Jango, eu vou ser franco. Naquela ocasião via-se muito pouco sobre a atividade toda, não se tinha muito conhecimento, ainda mais numa fronteira sem energia elétrica e sem televisão. Não existia televisão, ainda estava num embrião. Então, politicamente, eu não tinha... Praticamente não tinha nada. Até se fosse puxar muito politicamente, como eu disse no início, meu pai era getulista roxo, não é? E por lembrança ao meu pai eu teria que ter ficado outro lado, mas foi mais por comprimento de um posicionamento hierárquico. Comandante do exército, eu estava do lado mais para forçar a oposição do comandante do capitão, porque eu me posicionando ele tinha que tomar uma posição: ou me prender ou me ignorar. Mas ele foi muito esperto, ele nem me prendeu, nem me repreendeu, ele transcreveu a minha posição para o comandante da região, pro general, e continuou em cima do muro. Por isso que eu tenho horror ao muro, diz que o homem tem que ter uma posição definida.

 

P/1 - Mas, desculpa, daí você chegou a ser preso ou não?

 

R - Fui.

 

P/1 - Por quanto tempo?

 

R - Não... Eu fui para Curitiba porque era a sede lá, do comando militar. Era da Quinta Região Militar subordinada ao Terceiro Exército. O Terceiro Exército era Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul...

 

P/1 - E aí? Isso cresceu alguma coisa em você, te reposicionou? Deu vontade de falar "agora, ao fazer tal coisa", depois desse episódio?

 

R - Se eu me arrependi?

 

P/1 - Não, desculpa. Depois desse episódio, isso que deu vontade, num novo redirecionamento. Tipo assim: "Agora vou fazer isso, a partir de tal data vai acontecer isso"?

 

R - Não, não. Eu penso muito antes de tomar minhas decisões, minhas posições. Se eu estiver errado, eu dou a mão à palmatória, não tenho vergonha nenhuma, tenho a humildade de voltar atrás. Mas quando não enxergo o erro nas minhas posições, eu sou muito persistente nas minhas decisões.

 

P/1 - Isso foi uma coisa direta sua com ele, ou você ainda tentava convencer alguns pares?

 

R - Não, não teve rebelião nenhuma, foi uma coisa direta minha. Foi mais pela atitude indecisa, leviana, e até covarde do comandante, do capitão. Eu não admitia aquilo. Ele queria se posicionar do lado que estava mais forte e eu dei a minha posição e assinei. É o que se chama no exército de “parte”, dei a minha parte me posicionando e assinei. Ele transcreveu aquilo pelo comando da região e veio ordem da região que eu me apresentasse preso em Curitiba. Ainda bem que não fui escoltado, tinha algum mérito. Foi isso que aconteceu.

 

P/1 - E depois dessa fase?

 

R - O quê?

 

P/1 - Depois dessa fase, depois desse episódio.

 

R - Não, dessa fase fui pra Ponta Grossa, Sergipe... Servi lá no regimento de infantaria algum tempo e depois foi para ser professor instrutor na Escola de Sargentos das Armas. Professor da escola que formava sargentos, a academia, a Escola Militar de Formação de Graduados. Fui professor lá, fui comandante de curso, curso de infantaria, aí já entrei na fase. Voltei após a revolução. No período da revolução eu estava em Três Corações, em Minas Gerais, e participei da revolução. Era o General Mourão, o General Guedes... Eram os dois comandantes da quarta região militar do comando em Minas, e eu fui designado ainda relativamente novo. Eu fui designado como encarregado de um inquérito, que naquela época foi instalada a CPI, Comissão de Inquéritos dirigida por um marechal, Marechal Taurino, na época da revolução. E eu fui designado a encarregado de um inquérito no sul de Minas. Até um lance interessante que, quando eu fui encarregado deste inquérito, em plena revolução, eu fui tomar reconhecimento que se passava naquela cidade sul de Minas para me deslocar para lá. E foi a DOPS de Belo Horizonte, cheguei no DOPS e tinha a uma cela enorme só com presos da minha cidade, São Sebastião do Paraíso. E o primeiro preso que eu vi foi Geraldo Borges, primo do meu pai, barbeiro também, colega de profissão do meu pai, primo-irmão. Eu olhei e disse: "Mas o que está acontecendo?" E eles choravam, eles me chamavam de Sebastião: "Sebastião, Deus lhe mandou." "Não sei, eu vou fazer justiça." Mandei deslocá-los todos para minha cidade de Minas. Quando eu cheguei na minha cidade de Minas, na praça estava naquela época o que chamavam de bate paus. Eram fazendeiros, o pessoal todo armado na praça, era a Revolução. E eu novo, né? Em 1964, trinta anos... Exatamente, trinta anos... E eu cheguei na praça, me deparei com aquele aparato paramilitar, e chegaram os presos. Isso na minha cidade mesmo. E foi nos receber na praça também o Monsenhor, o padre que me batizou, havia me batizado. O Monsenhor Mancini, até de origem italiana. E eu me deparei com aquilo tudo: o padre que me batizou, aquela tropa paramilitar, aquele clima de guerra, o sargento com o tiro de guerra, cento e tantos rapazes em forma. E me apresentaram tudo aquilo. Me deparei com aquilo. Foi a primeira vez que eu tive na minha carreira que pensar em justiça. Então, o que eu fiz? Eu nomeei um conselho da minha cidade de quinze senhores dos mais tradicionais, inclusive o Monsenhor Mancini, levei pra delegacia e disse: "Aqui está a relação dos presos, eu vou chamar um por um e os senhores vão julgar. O que os senhores condenarem, eu mando de volta pra Belo Horizonte, para o DOPS.” E foram passando.

 

P/1 - Mas porque que você chamou eles e você mesmo não…?

 

R - Como?

 

P/1 - Você não queria... Você queria fazer um conselho mesmo?

 

R - Eu queria fazer justiça, eu queria saber qual era a culpa. Então, por exemplo, tinha um carteiro que era até meio fanho, falava meio pelo nariz. E eu perguntei aos membros do conselho, antes do carteiro entrar... Antes de cada preso entrar, eu perguntava: “Qual é a culpa dele, o que ele fez?" Então, por exemplo, me disseram do carteiro: "Não... Porque ele ia ao comício do João Goulart." Dos correios regionais do Jango. "E estava sempre lá aplaudindo." Mandei soltar. Não vi crime nenhum naquilo. Então naquela época havia o seguinte, o elemento aplaudiu uma ala que se considerava de esquerda, tá preso. Eu não via culpa nenhuma naquilo. Como aqui na prefeitura, às vezes alguns companheiros meus, correligionários, me diziam: "Mas tem um adversário no governo, no município, nós temos que mandar embora." Eu disse: "Não. Tem uma enfermeira aí que se chama Angélica. Ela foi radicalmente contra mim. É a melhor enfermeira que tem no hospital, continua trabalhando.” Então, na época, eu pensava do mesmo jeito, eu quis fazer justiça e criei um conselho.

 

P/1 - Mais os que aplaudiram o Jango, você soltou logo de cara?

 

R - Como?

 

P/1 - Os que eram favoráveis ao Jango e que foram lá aplaudir.

 

R - Não, por incrível que pareça, só um voltou preso para Belo Horizonte, exatamente o primo do meu pai, o barbeiro. Por quê? Porque ele era barbeiro e presidente do Sindicato Rural, e no sindicato rural ele agitava a coisa.

 

P/1 - O que ele fazia?

 

R - A agitações eram no meio rural, mobilizando o pessoal, que naquela época era uma influência do... Lá do nordeste, de Pernambuco... Me falhou a memória.

 

P/2 - Bezerra.

 

R - Hein?

 

P/1 - Bezerra.

 

R - Pode falar.

 

P/2 - Bezerra, o líder. Não era o líder?

 

R - Não, não, era Julião.

 

P/1 - Julião...

 

R - Julião. Me lembrei, a influência do Julião, ligas camponesas... Então ele, como barbeiro do Sindicato Rural, tava errado por aí. E fazia movimentações no campo para organizar as ligas camponesas, então esse tinha que voltar. E, lamentavelmente, o primo do meu pai. A família toda se voltou contra mim porque ele voltou preso pra lá, foi o único. E o conselho o condenou, o conselho disse: "Não, esse ai tem culpa no cartório." Então foi a primeira experiência minha com massa, com povo.

 

P/1 - Mas o que era exatamente esse conselho? Pessoas da sociedade, como assim?

 

R - Pessoas de bem, da sociedade, homens que eu conhecia, tradicionalmente, pessoal mais velho, mais de idade, que eu conhecia tradicionalmente. E que a própria família minha, meus parentes todos de lá, não coloquei nenhum parente meu no conselho, coloquei pessoas...

 

P/1 - E o que foi? Vocês se reuniram em um dia num júri? O que vocês fizeram?

 

R - Foi a noite toda o conselho?

 

P/1 - É.

 

R - Começou às seis da tarde, de madrugada tava o julgamento ainda. Agora eu to dizendo isso porque era uma revolução. Era muito simples se eu chegasse: "Não, permaneçam todos presos aqui em Belo Horizonte, não quero saber." Chegar lá e mandar prender mais gente ainda. Mas, não, o caminho não é esse. O caminho não é por aí, então eu sempre fiz isso na minhas atividades aqui. Por exemplo, aqui no sul do Pará, quantas vezes eu cheguei em fazendas e localidades que tinham posseiros presos, muitos posseiros presos, e eu mandava soltar porque eram autênticos posseiros. Outras ocasiões tinham invasores que não eram posseiros, tinham que permanecer presos. Aqui na prefeitura já dispensei dois secretários e antes de ontem coloquei pra fora o fiscal da feira dos produtores rurais, coloquei na rua ontem, por justa causa. Por quê? Porque estava cobrando um real de cada banca. Foi para fora. Eu parto por aí. Eu acho que a justiça tem que ser feita. Eu, por exemplo, eu vejo... Me permita entrar nesse campo. Eu vejo um dos grandes males nesse país, o maior mal nesse país chama-se impunidade. A impunidade é o maior mal nesse país, o maior tumor maligno nesse país chama-se impunidade. Um escândalo sufoca o anterior, nós estamos agora com o escândalo do painel. Já sufocou a SUDENE [Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste] e a SUDAM [Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia], e vai passando... E assim vai indo. Cadê o Chico Lopes? O escândalo do Banco Central... Onde estão os elementos de governo que repassaram os recursos pro Lalau? O Lalau ta preso, mas e os que repassaram os recursos pro Lalau? Porque cada recurso é repassado somente após a vistoria, a fiscalização do emprego correto do primeiro recurso, se repassaram tudo. Então eu parto pra minha filosofia de vida que é por uma justiça, comprimento de ordem, comprimento de deveres. Eu acho até que nós temos leis demais. Eu fui deputado federal, aprendi um pouco a legislar. Eu acho que nós temos leis demais, nós precisamos é cumprir, cumprir as leis que existem. Já é uma maravilha.

 

P/1 - Vamos voltar.

 

R - Me desculpe, que eu sai da sua pergunta.

 

P/1 - Não, tá ótimo.

 

(pausa)

 

P/1 - Bom, voltando... Quer dizer você estava... Aí o primo do seu pai foi o único que continuou preso depois desse conselho?

 

R - É como eu disse. Quer dizer, foi um conselho, uma época de exceção. Então era revolução, nos dias da revolução. Mas eu não tenho dúvida nenhuma de que foi bom senso porque, apesar de bastante novo, eu achei que eu não tinha o direito de cometer nenhuma injustiça com ninguém e reuni esse conselho. Até por uma questão de dividir responsabilidades porque é meio pesado pegar trinta e tantas pessoas e deixar preso sem saber o porquê. Só porque aplaudiam num comício, como é o caso do carteirinho. Agora, o Geraldo Borges, que é primo do e colega de profissão do meu pai, esse lamentavelmente o conselho optou pela permanência na prisão, porque ele era presidente de um sindicato rural como barbeiro. Não era trabalhador rural, nem ruralista, nem nada, e a atividade dele era formar as ligas camponesas. Naquela época, liga camponesa era o que havia de bicho-papão no campo. Ligas camponesas que eram idealizadas pelo Julião.

 

P/1 - Formar, fazer esse tipo de conselho que você fez, era uma coisa usual ou foi uma coisa que você inovou dentro do exército?

 

R - Não, não era usual, não. Até porque não é bem uma atividade militar. O militar, como dizem, ele emprega a força para resolver um problema. Um problema de defesa nas instituições, um problema de controle de tumulto, guerra... Ele emprega a força, 98% emprega a força. Agora, eu sempre pensei assim, eu acho que primeiro você tem que ter um diálogo, você tem que saber o que está se passando. Por isso o governo me usou muito para a própria imprensa divulgava, até de bombeiro, o bombeiro número um, me deslocava para vários locais, vários lugares... Até há poucos dias eu tive um episódio que me emocionou. Nós estávamos num seminário aqui em Marabá, da AMAT, a Associação dos Municípios do Araguaia e Tocantins. Trinta e oito prefeitos reunidos aqui em Marabá, anfitrião Veloso, prefeito de Marabá, e levaram o prefeito da cidade mais progressista do Brasil, maior desenvolvimento, Lucas do Rio Verde, Mato Grosso do Sul. E o prefeito quando foi pro palco, pra tribuna, ele disse... Foi uma surpresa pra mim e pra todos, ele disse: "Eu só sou prefeito de Lucas do Rio Verde graças ao Coronel Sebastião Curió, que está sentado aí. Hoje, prefeito de Curionópolis, que fundou a minha cidade." Eu olhei pra ele e ele disse: "O senhor não se lembra porque eu era garoto. Mas eu sou filho do colono, fulano de tal, que estava lá em Ronda Alta, em Encruzilhada Natalino, o Rio Grande do Sul, para invadir a Fazenda Annoni. E o senhor mandou o meu pai com muitos outros colonos e fez um assentamento, e Lucas hoje é Lucas do Rio Verde.” Quando ele projetou a cidade, eu quase caí de costas, cidade com o maior desenvolvimento... Quer dizer, a primeira reforma agrária no Brasil, quem fez fui eu, Lucas do Rio Verde, a primeira reforma agrária do Brasil. Então, o que eu quero lhe dizer é que não é coisa típica assim, costumeira.

 

P/1 - E como é que repercutiu isso no exército? Como é que isso repercutiu na instituição na época, você fazer esse conselho, esse tipo de procedimento que você teve?

 

R - Não. Houve, de fato, alguma crítica, mas meus chefes superiores de imediato aprovaram. Houve muita crítica na minha cidade, por exemplo, à força paramilitar, que era extremamente radical, que eram os fazendeiros. Aquela turma toda que estava, até certo ponto, usando a revolução com interesses pessoais. E esses não gostaram. Eu fui muito criticado porque eles queriam que o pessoal continuasse preso, mas eu sempre agi assim. Eu tive missões em vários pontos do Brasil. ________ Paraíso. Cheguei lá, vi disputa de terra, os meeiros... Fui para lá, dialoguei, conversei e resolvi com o diálogo. E ia pra muitos lugares, Ourilândia aqui, ó... Eu praticamente fundei Ourilândia. Isso é até novidade pro povo de Ourilândia, havia uma famosa cancela e uma disputa com a Andrade Gutierrez. Lá havia o projeto Tucumã do Andrade Gutierrez, e Andrade Gutierrez não deixava ninguém passar na cancela. E eu prevendo, sabendo que o povo ia se revoltar, iria seria um conflito social de consequências gravíssimas. Eu, como encarregado da área aqui fui lá e arranquei a cancela. Avisei antes ao Andrade Gutierrez: "Olha, vou arrancar a cancela." Arranquei a cancela e o povo entrou. Na época eu fui carregado como o fundador da cidade, agora eu to dizendo isso pra justificar a minha posição. Não por vaidade. Eu acho que qualquer que seja a atividade do homem, quer seja armado ou não, ele tem que primeiro dialogar, ele tem que primeiro conversar. A não ser que você seja um militar deslocado para uma guerra e que chega no combate iminente, não há como conversar com o inimigo.

 

P/1 - Isso nós estamos falando de que ano? Essa coisa do seu primo, que ele ficou… Em que ano foi isso, 1964?

 

R - Não, quando meu primo chegou da guerra foi em 1945.

 

P/1 - Não, desculpa... O que você fez o conselho.

 

R - Ah, o conselho foi em 1964.

 

P/1 - Em 1964, do primo do seu pai?

 

R - É.

 

P/1 - E como é que estava o exército? Como é que era a instrução para a segurança nacional? O que vocês tinham nessa época?

 

R - Não, o exército cumpre a sua missão constitucional, a garantia das instituições, integridade pátria... Tem a sua função específica constitucional, o exército em si mesmo é muito afastado de política. Toda a vida que eu passei no exército era muito afastado de política, e mais preocupado com os afazeres da caserna. Então eu acho que o exército participou de uma tomada do poder, um regime de exceção e, até certo ponto, um afastamento dos poderes. Afastamento, silenciamento dos poderes legislativos. Vamos chamar de revolução branca, que eu chamo de revolução mesmo aquela em que tudo é instinto. Mas eu nunca vi o exército ser muito político. A tropa mesmo, o pessoal da caserna, são alheios a essas atividade política. Acompanham, é lógico. Acompanham, assistem jornais, acompanham os acontecimentos políticos. Mas são meios afastados da política.

 

P/2 - E o senhor ficou nessas atividades da revolução até quando?

 

R - Como?

 

P/2 - Essas atividades que o exército, no período da revolução… O senhor ficou nela até quando? Houveram outras mais?

 

R - Isso foi uma atividade política. É uma atividade na carreira grande. Depois eu fui para Brasília e fiquei catorze anos na presidência da república. Então eu passei um tempo grande no Serviço Nacional de Informações, fui oficial de gabinete da presidência da república e passei por alguns presidentes. Quer dizer...

 

P/1 - Vamos pontuar, vamos chegar lá.

 

R - O menino engraxate veio para corte. O engraxate lá de São Sebastião do Paraíso, com destino a… Isso eu nunca esperava. Veio para a corte. Passei catorze anos na presidência.

 

P/1 - Em 1964 você estava lá em... Como é o nome da cidade?

 

P/2 - Três corações.

 

R - Três corações.

 

P/1 - Três corações... E depois?

 

R - De Três Corações eu... Ah, sim... Tem um fato importante. Eu saí preso lá do quartel de Francisco Beltrão, como eu expliquei, e em 1964, após a revolução eu recebi um radiograma, que é um comunicado dentro do exército, das Forças Armadas, dizendo que eu estava nomeado comandante do Quartel de Francisco Beltrão. E fui promovido a Capitão exatamente no quartel de onde saí preso e não fui consultado. Recebi esse comunicado do general que foi comandar a região. Quando eu cheguei em casa e mostrei o radiograma pra minha mulher, ela sentou e disse assim: "Você não aceitou?" Eu digo: "Aceitei." A cidade de onde eu saí, que não tinha energia elétrica e continuava sem energia, casas todas de madeira, encostada em São Joaquim, um frio... Na época um frio de seis graus abaixo de zero. E eu disse pra ela: "Aceitei." Ela abaixou a cabeça e disse: "Tudo bem." Porque eu encarei aquilo como um ponto de honra, que estavam me mandando comandar as tropas de onde eu saí preso. Por isso eu aceitei. E se permite um lance... Aqui, encostado de Curionópolis tem... Houve lá, durante esse comando meu, um fato também de conciliação. Posso contar?

 

P/1 - Claro.

 

R - Naquela ocasião se saía próximo de um governo que foi o governo mais corrupto que passou por aqui, governo estadual, chamado Moisés Lupion. Ele vendeu praças públicas, loteou até cemitérios, fazia tudo. E ele tinha uma polícia nesse local de Francisco Beltrão de 890 homens, não tinha nem uniformes para todos os policiais, então um usava o quepe, o outro usava a calça, outro a túnica para caracterizar que era soldado da polícia. Eu cheguei pra lá com uma tropa de 250 homens e houve uma revolta em Capitão Leônidas Marques, era um povoadozinho no meio da mata, nas margens do Rio Iguaçu, que tinha umas dezesseis a vinte casas de palha e uma prefeitura, e o prefeito se chamava Otto Passos. Desculpe, a minha memória é boa, não se assuste. Se chamava Otto Passos, gordo. E houve uma revolta dos colonos, uma revolta feia. Queimaram todas as viaturas do IBRA [Instituto Brasileiro de Reforma Agrária]. Não era INCRA [Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária], era IBRA. Queimaram tudo, botaram funcionário pra fora, prenderam funcionário... Por quê? Porque foi feito um reajuste fundiário em gabinetes do Rio como roda-se uma tabuleta de jogos de roleta. Por exemplo, um dos colonos que exportava laranja para o exterior nessa mexida, ele perdeu a pequena terra dele altamente produtiva e pegou idêntico, do mesmo tamanho, de mato. Quer dizer, pra começar toda a vida novamente... E como é que eu sabia de tudo isso? Porque eu trabalhei em informações, naquela época, no meio do povo. Então, quando houve a revolta...

 

P/1 - Você trabalhou em quê?

 

R - Quando houve essa revolta em Leônidas Marques, eu desloquei a tropa para lá e a polícia deslocou a tropa toda da policia pra prender os posseiros por ordem do governador. E eu desloquei a minha tropa para não permitir as prisões, por decisão minha. Chega o tenente-coronel da polícia, a minha tropa já havia barrado hoje Cascavel, um grande centro hoje. Cascavel tinha, no máximo, trinta casas, uma rua de terra... A minha tropa barrou a entrada pra Leônidas Marques e o comandante da polícia, o tenente-coronel, veio ao capitão. Veio só escoltado pela minha tropa: “Capitão, eu estou com ordem do governador.” Eu disse: "Eu não cumpro ordem do seu governador, eu estou cumprindo ordem do meu general, e a ordem é não entrar aqui." Por quê? Eu quando cheguei com a tropa no meio dessa rua de terra, onde tinha o prefeito Otto Passos, ele me recebeu só. Eu não vi um morador. Eu pedi que chamassem os colonos e eles foram se aproximando, aproximando... Eu entrei, chegaram, subi num caixote e, com aquele gorro do exército, eu disse: "Olha, eu quero ver aqui se alguém me reconhece." E Tirei o gorro. Tinha um embaixo, o nome dele era Basílio, e ele disse: "É o vendedor de quadro de santo." Eu comi na casa dele umas três, quatro vezes, vendendo quadro de santo, e eu era o comandante-capitão da tropa do exército. Por que eu fiz isso? Para conhecer, para saber o problema que estava ocorrendo ali dentro. Quando ele disse: "É o vendedor de quadro de santo." Eu disse: "Eu estou aqui para garantir a propriedade e a vida de vocês." E foi aí que eu não permiti a entrada do coronel da polícia. Quando eu vim fazer a minha campanha aqui em Curionópolis, antes de outubro agora do ano passado, me levaram pra me apresentar a um cidadão que tem uma fazendinha. Uma fazendinha, não. Uma boa terra aqui na Serra Verde, chamado Valdomiro. Então, como em toda campanha, eu disse: "Vamos lá conhecer o Valdomiro, que é um grande correligionário nosso e tudo mais." Eu fui. Quando cheguei lá, o Valdomiro me recebeu, a família Gaúcha, e o Valdomiro com as lágrimas correndo disse pro meu correligionário que me levou lá: "Quem vai lhe apresentar o Curió sou eu." Eu fiquei olhando nele, ele disse: “Não me conhece?" Eu disse: "Não, não lhe conheço." Ele disse: "Eu sou um daqueles colonos lá de Capitão Leônidas Marques, que você não permitiu que a polícia nos massacrasse." Chorando. E eu falei: "Como o mundo é pequeno..." Valdomiro mora aqui na Serra Verde, encostadinho aqui, a uns dez quilômetros daqui. Então eu encontrei o Valdomiro dessa revolta, encontrei o prefeito de Lucas do Rio Verde. Esse aí é fruto, consequência das andanças por esse Brasil afora. Desculpe se eu falei demais.

 

(pausa)

 

P/1 - Curió, fala um pouco pra mim. O que era essa informação? Como foi esse treinamento de informação? Que outros, metaforicamente, vendedores de quadro de santo você experienciou?

 

R - Não... A informação eu diria que ela não é privilégio também de um homem fardado. Todo ser humano tem que estar bem informado, é a informação industrial. Isso aí é a cabeça de cada um e, principalmente numa função de chefia, um chefe que não está bem informado, ele está cego, mudo e surdo. Tem que estar bem informado. Por exemplo, eu, na função de prefeito da cidade, se eu não tiver informações do que está se passando... Você tem a pouco um caso de um funcionário que eu demiti ontem, que estava cobrando um real por banca na feira, isso é trabalho de informações.

 

P/1 - Mas quais são as técnicas, o que você aprendeu?

 

R - Não, eu sou formado pela Escola Nacional de Informações, eu sou formado em informações, tem o curso de analista de informações. Mas é tendência também. Por exemplo, quando eu fui investigar a situação dos posseiros, dos colonos naquela ocasião como vendedor de quadro de santo, nem se pensava no Brasil em SNI [Serviço Nacional de Informações], em nada. Isso ai foi em 1966. Não pensava em nada, não existia nada. Agora, nós temos que estar bem informados. Então as informações são essenciais. Em qualquer setor, acredito eu, qualquer setor, qualquer atividade, ela é essencial. Por exemplo, seu trabalho de historiadora, você tem que está mais bem informada do que... Não é? O serviço, o trabalho de informações tem que ser muito bem feito. É lógico que depois eu pertenci ao Quadro de Informações, ao Serviço Nacional de Informações, já como técnico em informado, mas é uma coisa nada... você tem que estar bem informado, eu penso assim.

 

P/1 - Mais aÍ você assume o quê? Um outro papel que não o seu para poder conviver com as pessoas, para entender o que está se passando naquele lugar?

 

R - É, quando você tem alguém, que você possa mandar designar alguém, é o ideal.

 

P/1 - Para um informante.

 

R - Mas quando não tem alguém e você quer confiar somente na sua observação, você tem que observar. Eu não me sinto... Porque era o comandante da tropa... Me sentir desprestigiado, absolutamente.

 

P/1 - Você mesmo gostava desfazer isso?

 

R - Fui eu mesmo.

 

P/1 - Você gostava?

 

R - Porque eu tomei uma decisão. Por exemplo, em defesa de todos aqueles colonos, uma decisão seríssima, pesada, mais tomei em cima de fatos que eu tinha certeza que estavam acontecendo. Por quê? Porque eu mesmo fui observar, tinha certeza absoluta que a razão estava com aqueles colonos. Tanto é que eu me indispus com três generais na época reformados que estavam dirigindo o IBRA, Instituto Brasileiro de Reforma Agrária, contra o qual aqueles colonos se revoltaram, era o General Jaú, o Olivério, e não me lembro do terceiro.

 

P/1 - Mas conta um pouco como é que você... Você ia de casa em casa, vendendo quadro de santo? Como é que você fez isso?

 

R - É gostoso, é bom. (riso)

 

P/1 - Conta... Como é que era a historinha? (riso)

 

R - É gostoso, chegava numa palhoça daquela, senta, pede um arroz pilado, oferece o quadro de santo, e o cidadão conversa. Você puxa conversa, como é que está sua vida, e vai abrindo. Ele vai se abrindo vai contando, vai falando e você chega. No final você monta um mosaico com todos aqueles informes, porque a informação é um processamento de todos os informes. Você não pode receber um dado e dizer que aquilo é uma informação, aquilo é um informe. Depois você colhe mais dados, mais dados e monta o seu mosaico, o seu tabuleiro. Aí você vai processar aquilo tudo conferir um com o outro, aí você vai chegar a uma decisão final que é a informação, entendeu? (riso)

 

P/1 - Entendi. 

 

R - Resumindo, a venda de quadro de santo foi uma experiência muito boa, convivi com os colonos, comi arroz pilado, comi galinhada, paguei, pagava tudo com o dinheiro do quadro de santo. Eu acho que foi um dos embriões do Serviço de Informações.

 

P/1 - Do SNI?

 

R - Sem isso tem que ter, pô, sem informações você naufraga, tem que ter boas informações.

 

P/1 - E depois dessa história você foi a qual missão?

 

R - Não minha carreira na vida militar foi boa, muito boa. Tanto é que eu lhe disse que voltaria à carreira militar.

 

P/1 - E para que ano você foi? Aí você foi trabalhar diretamente com o presidente depois disso, não?

 

R - É, lá de Francisco Beltrão de onde eu fui designado, acreditei que por mérito, por ter saído de lá preso e por ter sido vitorioso na revolução. Eu voltei, eu fui ser ajudante de ordem, secretário particular de um general, grande general, Olavo Viana Moog, irmão daquele escritor Viana Moog, lá de São Leopoldo, Rio Grande do Sul. Então ele me convidou para acompanhá-lo. O ajudante de ordem é muito íntimo do general, é secretário particular. E eu fui com ele pro Rio do Janeiro, Ministério do Exército, no Rio. Depois ele foi comandar a sexta divisão de infantaria no Rio Grande do Sul, Porto Alegre, e eu fui com ele. Depois veio comandar o Comando Militar do Planalto, Brasília, e eu vim com ele. Aí terminei o meu tempo, não tinha mais prorrogação, e aí fui pro Serviço de Informações, Brasília, e fiquei. Em Brasília fui pra presidência, fui pro SNI e cumpria muitas missões diretas para o Presidente da República.

 

P/1 - De que ano você está falando?

 

R - Hein?

 

P/1 - Em que ano é isso?

 

R - Eu fui pra Brasília em 1971 com o General Viana Moog, como ajudante de ordem dele.

 

P/1 - E como é que foi armado o esquema do Sistema de Segurança Nacional de Informação?

 

R - Não, o Sistema...

 

P/1 - Qual era a estratégia global? O que era pensado?

 

R - O SNI, eles existiam no Rio de Janeiro. Depois, nessa época aí, ele foi transferido para Brasília, foi organizado em Brasília. Nessa época foi organizado em Brasília, foram convocados para os serviços alguns experientes com curso, com com vivência no Serviço de Informações, e eu fui convidado. Na época eu fui designado não só pelo curso na Escola Nacional de Informações, mas acredito eu também que por um passado de… Como eu contei alguns fatos aí, alguns lances. Foi um passado de experiência, de vivência. Ora, vai ficando velho, vai ficando... Eu esses dias mudei o nome aqui, eu tenho um chamado “Lar dos Idosos”, que o nome certo mesmo é Centro de Convivência do Idosos. E eu cheguei lá, fui fazer uma palestra para eles e a primeira coisa que eu mudo aqui é o nome. Aí todos me olharam cabisbaixo, né? Eu disse: "Muda o nome de Centro de Convivência dos Idosos para Centro de Convivência dos Experientes." E dei uma injeção de ânimo em todo mundo que até um casamento apareceu lá dentro entre uma desquitada e um viúvo. É aquilo que eu disse anteriormente: você não olhando no espelho, trinta anos na cabeça. É o conselho que eu lhe dou, você é muito jovem, muito jovem e bonita, todas. Mas num futuro bem distante, não leve a idade em consideração. (riso)

 

P/1 - Como foi dado o treinamento de informação para o exército? A gente não pode ignorar, a gente está falando dos anos 1960, 1969, 1970...

 

R - Não, antes da criação da Escola Nacional de Informações. A Escola Nacional de Informações é um grande centro de informações, é claro, de informação. A informação era colhida e exercitada na tropa por elementos que tinham tendência para aquilo, então você observava os que tinham mais tendência e se designavam.

 

P/1 - Quem tinha tendência? Qual era o perfil? Descreve uma pessoa que tem tendência?

 

R - Uma pessoa muito esperta, de bom diálogo. Como diz o caboclo na gíria, mais “moiteiro”, mais quieto, mais observador, com facilidade de concatenar as coisas e ligar as coisas, não é? É assim antigamente. Hoje, não. Hoje, já de bastante tempo pra cá, tem a Escola Nacional, então normalmente esses elementos de informações passam ou passaram pela Escola Nacional de Informações, é o diploma. 

 

P/1 - E você teve alguma relação com as pessoas, na época, do movimento estudantil? por exemplo, esses grupos clandestinos, para descobrir quais eram esses grupos, quem eram essas pessoas...

 

R - Não, muito pouca. Eu era, de fato, do Serviço Nacional de Informações, e não posso negar que eu participei de trabalho de informações não só em área estudantil. Eu trabalhei mais na área rural.

 

P/1 - A Guerrilha do Araguaia, por exemplo?

 

R - Também. Eu sabia que você ia chegar lá.

 

P/1 - A-haaaa. (riso)

 

R - Eu estava esperando. Eu trabalhava mais na área rural aqui no sul do Pará, nas regiões todas aqui do sul do Pará, como homem de informações. E, de fato, a Guerrilha do Araguaia foi um movimento guerrilheiro, montado pelo Partido Comunista do Brasil, cujo objetivo era criar uma área livre, uma área liberada no coração da Amazônia, a serviço de potência do grupo do bloco comunista internacional, cujo mentor, o canal com a China comunista, era a Albânia, o contato deles era com a Albânia. E se formaram muitos daqueles membros da colônia do Araguaia, se formaram em guerrilha, curso de Guerrilha Latina Comunista, então foi uma guerra declarada pelo Partido Comunista do Brasil com o objetivo da tomada do Brasil pela força. E eu fui designado desde o começo como homem de informações, depois como combatente, e cumprindo uma missão constitucional,da defesa das nossas instituições, da nossa soberania, porque o objetivo era um objetivo separatista de libertação, ou coisa parecida, de um pedaço do território brasileiro. Então foi isso que aconteceu. Eu não entro em muitos detalhes porque é uma história que pode ser que até, futuramente, eu publique um livro. Eu acho que a história pertence ao povo, pertence à nação, ela não pode ir pra sepultura com ninguém, e negar que eu tenho conhecimentos, ou poucos... O que eu participei eu não nego, eu combati no Araguaia, perdi dezesseis homens meu e levei dois tiros.

 

P/1 - E vocês mataram quantos?

 

R - Olha eu não posso dizer que matamos, mas que trocamos muitos tiros. Mas uma guerra na selva é uma guerra muito feia, porque a própria selva já é um obstáculo muito grande, a própria selva lhe derruba, tem que ser muito resistente, ainda mais você sabendo que dentro da selva está o inimigo. E você não sabe a que hora, de que direção, de onde vem o tiro. É uma guerra feia, eu não aconselho a ninguém, é muito feia.

 

P/2 - Vocês conseguiram se infiltrar no movimento com informantes?

 

R - Hein?

 

P/2 - Vocês conseguiram se infiltrar no movimento guerrilheiro com algum informante?

 

R - Não, eu posso sintetizar pra você que houve um serviço de informações muito bem feito porque, se não, não seria possível localizá-los.

 

P/1 - É, de localizar dentro da floresta... 

 

R - Então houve o serviço de informações bem feito.

 

P/1 - Quer dizer, com isso vocês foram conhecendo a floresta também, foram mapeando a região?

 

R - É eu fui designado. Um dos motivos é que eu também era formado em guerra na selva, fui um dos primeiros Boinas Verdes no Brasil. Os Boinas Verdes eram aqueles americanos que combatiam no Vietnã, que nós não temos nenhuma semelhança a eles. Até porque eu não sou nada feito à atitude, muitas atitudes de muitos combatentes do Vietnã, que até por desespero combatiam drogados. Nós estamos cansados de ver em documentários e em filmes, e eu não aconselho guerra a ninguém, é muito triste, lamentável que tenha ocorrido. Mas, como eu disse no início pra vocês, o médico foi formado para salvar vidas, o advogado para defender causas, e o militar foi formado para o combate.

 

P/1 - Dentro da guerrilha...

 

R - Combate para defender as nossas instituições, a soberania da pátria.

 

P/1 - Pensando no Araguaia... Quem vocês estavam combatendo que  você destacaria? Ou a estratégia utilizada pelo Partido Comunista, vocês aprenderam alguma coisa com o inimigo, entre aspas, em termos de guerrilha?

 

R - Não, eu disse há pouco que eu fui formado pelo Centro de Instruções de Guerra na Selva, como combatente-selva, na Amazônia, Manaus. Foi a primeira turma, de 1967. Participaram comigo nesse curso muitos oficiais estrangeiros, principalmente da América Latina, foram formados lá também. E é um dos motivos para que provavelmente eu tenha sido designado para um combate desses, porque, queira ou não queira, eu era formado para aquilo, e vejo a coisa como uma missão constitucional. Agora, o Serviço de Informações, sem dúvida nenhuma, tinha muitos dados sobre o que se passava ali. E eu repito, era uma tentativa do PC do B, Partido Comunista do Brasil, de implantar no coração do Brasil uma área livre, independente. O governo e as Forças Armadas não podiam, tenho eu essa convicção até hoje, permitir nunca que isso acontecesse. Agora, sobre o Araguaia, eu possivelmente publico um livro futuramente e faço questão de passar com um modesto autógrafo meu.

 

P/1 - Ah, eu gostaria de te entrevistar para ajudar a fazer o livro. (riso)

 

R - Não vão faltar oportunidades, não. (riso)

 

P/1 - Vamos falar, então, já que a gente está com horário. A gente tem milhares de coisas pra gente conversar, de Carajás...

 

R - Da floresta, né?

 

P/1 - Pegar esse gancho da Floresta Amazônica e chegar em Serra Pelada, Carajás.

 

R - Assim, logo após a Guerrilha do Araguaia houve um domínio das Forças Armadas, conseguimos atingir o objetivo. Surgiu Serra Pelada, então foi descoberto ouro em uma grota, que até muda um pouco a versão, mas foi um colono, um vaqueiro do Genézio que tinha uma posse. Ele lavando uns utensílios dele lá, marmita ou coisa parecida, viu um objeto reluzente no fundo do córrego, e era uma pepita de ouro bastante considerável, bastante grande. O boato correu e, 

da noite pro dia, foi aquele formigueiro humano para Serra Pelada. Eu, como homem de informações, aquilo me chegou imediatamente, chegou imediatamente ao meu conhecimento. Eu era o chefe do Setor de Informações no sul do Pará, e eu fui para lá, me infiltrei, não como vendedor de quadro de santo, mas me infiltrei no meio dos garimpeiros. Por pouco tempo, porque...

 

P/1 - Como garimpeiro?

 

R - Não, me infiltrei ali como... Nem disse o que era, porque ali tinha gente de todo canto, tinha vendedores, tinha ambulante, tinha tudo ali dentro. Eu fiquei ali observando, não fiquei muito tempo porque eu seria reconhecido. E apresentei à presidência da república numa exposição feita no palácio, da qual participaram o ministro da fazenda que era o Galvêas, o presidente da Caixa que era o Gil Macieira, e vários generais, oficiais-generais da marinha, exército... Eu apresentei a sugestão de organizar o garimpo, e acharam aquilo um negócio sonhador, uma ficção, um negócio... Quando eu disse que iria organizar o garimpo, e a ideia minha vingou porque nós estávamos saindo de uma área de conflito social seríssimo, que era o sul do Pará, o Araguaia. Já havia uma extensão no Vale do Pindaré no Maranhão e nada melhor do que apoiar o povo numa empreitada daquela, com apoio de governo para descaracterizar, tirar completamente a influência do trabalho de massa. Isso aí você está ouvindo em primeira mão, ninguém nunca ouviu isso. Então o objetivo inicial do garimpo não era da organização e da intervenção no garimpo, praticamente não era nem o ouro nem o social. Era o social para que não houvesse manipulação.

 

P/1 - Como assim?

 

R - Trabalho de base, massificação, o que tinha começado a ocorrer no Araguaia e no Pindaré. Então fui muito feliz porque eu lidei com a média diária de oitenta mil homens. E os primeiros correspondentes internacionais que ali chegavam não acreditavam no que viam, porque era um formigueiro humano subindo e descendo, tudo organizado por mim. Agora você me pergunta: eu usei força? Não, nunca levei um homem fardado do exército pra lá. Lá tinha dezesseis policiais federais e, inicialmente vinte policiais militares que depois eu dispensei. E um dos correspondentes, se eu não me engano um canadense, me perguntou, que eu era formado em quê, curso de massificação, controle de mente, um monte de coisa que nem entendi. Eu disse: "Não, eu sou oficial de..." Eu tinha sido promovido a major naquela época, por isso que, até hoje, os garimpeiros me chamam de "Major”, “Major Curió", que eu fui promovido quando estava lá dentro do garimpo e deram a notícia no alto falante, os garimpeiros festejaram. E eu fui muito feliz porque eu nunca tive uma morte, um crime e, pra dizer a verdade, um roubo. Os garimpeiros vendiam, passavam com baldes de ouro, atravessavam o garimpo todo, iam na Caixa Econômica e vendiam, que tinha exclusividade, vendiam e saiam com um saco de dinheiro nas costas. Isso é público e notório, iam pros seus barracos e não tinha ladrão, ninguém roubava, não tinha ladrão nenhum, nunca houve um roubo.

 

P/2 - Como o senhor conseguiu manter ordem? Porque é meio messiânico.

 

R - É a mesma coisa me perguntam hoje em Curionópolis. Há um grande comentário em Parauapebas, Eldorado, de que acabou, não tem roubo, não tem um roubo, acabaram. A prefeita de Eldorado ainda brincou comigo e disse: "Mandou os ladrões todos para cá." E o Dudu de... A prefeita de Parauapebas e o Dudu, também de Eldorado: "Curió, você mandou os bandidos todos para cá." "Fiz nada." Eu apenas dei condições de trabalho para a polícia militar e a polícia civil aqui, dei transporte, viatura, combustível para que eles pudessem trabalhar. É obrigação do estado dar? É. Mas o estado tem dificuldade, então é um dever do governante e um direito do povo ter segurança, por isso eu faço todo empenho. Se houver um roubo... Por exemplo, aqui houve, não foi invasão, que esse fato também é bastante comentado. Não foi invasão, foi uma invasão mas não foi de sem-terra. Quer dizer, invadiram aqui uma fazenda, mataram o gado, e eu enquadrei um bando armado, formação de quadrilha e roubo de gado. Mandei as duas polícias pra lá. Quer dizer, eu solicitei que as duas polícias fossem para lá. Foram, prenderam todos.

 

P/1 - Você não tinha medo de morrer, não?

 

R - Olha, me fizeram uma pergunta num debate que eu estava num programa, Opinião Pública, quem me fez a pergunta foi a Silvia Poppovic. Eu vou dar a mesma resposta que eu dei pra ela há alguns anos. O homem que diz que não tem medo é mentiroso. Existe o que domina o medo e o que não domina o medo. O que domina é normal, o que não domina é covarde. Eu sou normal. Então já passei por situações dificílimas. Como eu disse, levei dois tiros na guerrilha, quase perdi a vida, mas o homem tem que ter determinação, é a história do muro em que eu volto a meu saudoso pai. O muro é o lugar dos oportunistas e covardes. Você tem que estar de um lado ou de outro lado. Em qualquer dos lados que você esteja, você tem que usar o bom senso, tem que usar o diálogo, bom senso. Então por isso que eu contei alguns fato da minha vida passada, que eu sempre procurei usar o bom senso, como Serra Pelada. Então, a pergunta: massificou, conseguiu como? A pergunta que ele me fez. Adquirindo credibilidade. O chefe adquire credibilidade primeiro pelo exemplo. Eu denunciei um presidente da república, o ex-presidente Collor e o PC Farias, diante todas as câmeras de televisão do Brasil. Até hoje não me chamaram de nada, nem de ladrão, nem de nada, até hoje. Então, só concluindo lá na Serra, é a credibilidade. Os garimpeiros, por exemplo, no primeiro hasteamento de bandeira compareceu pouca gente, no segundo a pista estava cheia. Quando eu coloquei a mão no peito, alguns colocavam, para cantar o hino, outros não. Aí terminou, eu não exigi que ninguém colocasse, eu apenas expliquei porque que eu estava colocando a mão no peito, que era em respeito aos nossos antepassados, às nossas tradições. No segundo dia eles mesmos, por livre e espontânea vontade foram colocando, foram aprendendo a cantar o hino, porque se você exigir sem dar exemplo você não consegue.

 

P/1 - Cantava o hino lá?

 

R - Cantava, cantava o hino todo dia.

 

P/1 - Todo dia?

 

R - Todo dia.

 

P/1 - Como era isso?

 

R - Para hastear e arriar a bandeira lá na Serra. Aqui de manhã, quando se hasteia a bandeira, aqui está cheio, que o pátio fica cheio aqui em frente a prefeitura. Nunca exigi que nenhum funcionário fosse. Todos vão, eu vou. Daqui a pouco você vai me permitir, cinco para as seis eu vou lhe convidar para arriar a bandeira. (riso)

 

P/1 - Oba.

 

R - Mas a pergunta que ele me fez é da credibilidade. Por exemplo, eu disse aos garimpeiros no dia que eu estava explicando o porquê da minha presença ali, o que eu estava fazendo. Então eu disse: “Eu vim organizar o garimpo. A partir de hoje vocês não vão pagar mais os 10%, 15% que vocês pagam pro dono da pista." Aí já foi uma festa. Eu disse: "Amanhã, estará aqui um armazém da Cobal." E tudo o que eu apresentei na reunião em Brasília, no Palácio do Planalto, aos pedidos que eu fiz. Quando eu apresentei esse projeto esse plano me perguntaram quantos meses eu precisava pra cumprí-lo. Eu disse: "Cinco dias. Eu quero que coloquem tudo lá do que eu vou pedir. Então, eu quero três búfalos, um Hércules da Força Aérea Brasileira, um Hércules com armazém da Cobal, mantimentos da Cobal.” No quinto dia eu estava inaugurando tudo, um armazém da Cobal em Serra Pelada, onde não tinha acesso via terrestre, só via aérea. O os garimpeiros passaram a pagar no arroz, que eles compravam do dono da pista a 115 cruzeiros, na época, passaram a pagar 25 cruzeiros e alguns quebradinhos no armazém da Cobal, por exemplo. Todos estavam armados, todos usavam armas, um ou dois revólveres, e no dia em que eu estava explicando: "Eu não vou desarmar ninguém." Eu disse aquilo como uma demonstração de autoridade, mas que, se eu quisesse, eu não conseguiria desarmar. Eu disse: "Eu não vou desarmar ninguém. Agora, eu quero que vocês retirem o revólver da cintura no boroca.” Boroca é aquela bolsa que eles usam. Aí ficou aquele zumzumzum e eu aguardando a resposta. Até que disseram: "Nós vamos fazer, doutor. Nós estamos acreditando no senhor." Porque no começo ninguém sabia se eu era o que eu era, ninguém sabia o caso da presidência da república. Retiraram o revólver e colocaram na boroca. E os que decidiram por isso cutucavam os outros que estavam do lado: "Tira o revólver, bota na boroca. Vamos dar apoio pro doutor, ele botou aqui a Cobal, botou isso, botou não sei o quê, médico, tudo, toda a assistência. Vamos dar apoio." E pronto. Só para compreender, ele disse: "Mas, doutor, então nós vamos viajar?" Porque só saía teco teco, era decolagem uma atrás da outra o dia todo. "E a hora que nós formos viajar, o revólver..." Porque na hora que voltar, a polícia federal toma na  barreira. Quer dizer, quando vocês viajarem, vocês recolhem o revólver aqui no meu posto de comando e, quando vocês voltarem, vocês recebem o revólver de volta. Testaram, quatro foram viajar, chegaram: "Doutor, está aqui o revólver." Eu falei pro meu auxiliar: "Bota a etiqueta." Colocou lá. Voltaram na segunda-feira: "Doutor, o revólver." "Está aqui, toma. Pronto.” Isso vai adquirindo credibilidade e essa credibilidade ninguém destrói.

 

P/1 - Em que ano foi isso?

 

R - Então, foi nisso aí que eu consegui essa força dentro do garimpo.

 

P/1 - Em que ano foi isso, 1983?

 

R - Isso aí foi em 1980.

 

P/1 - Em 1980, desculpa.

 

R - Mas, de 1980, eu desci lá no dia dois de maio de 1980.

 

P/2 - Era Figueiredo o presidente.

 

R - Oi?

 

P/1 - Figueiredo.

 

P/1 - Figueiredo era o presidente, General Figueiredo era o presidente.

 

R - Era o presidente. Ele veio aí, a maior manifestação popular que ele recebeu foi no garimpo de Serra Pelada, foi carregado e ovacionado por oitenta mil homens.

 

P/1 - E você era próximo ao Figueiredo?

 

R - Muito próximo, muito próximo.

 

P/1 - Como era o convívio com ele?

 

R - A imprensa até dizia que eu era concunhado do Figueiredo, mas não era, não. Nunca fomos concunhados.

 

P/1 - É, tinha essa história mesmo.

 

R - Nunca fomos concunhados, o presidente me admirava muito. No primeiro contato que eu tive com ele no Palácio do Planalto, ele era chefe do SNI e eu estava retornando de uma missão no Paraguai, e eu sempre fui muito imediatista e muito objetivo no cumprimento das minhas missões e nunca deixo que algum entrave ou alguma coisa em impeça, desde que esteja dentro do justo, do honesto, do decente, não é? Eu voltei do Paraguai e tinha que falar urgentemente com o chefe da SNI, que era o General Figueiredo, o presidente era o Médici. Eu cheguei na porta do Planalto e me barraram porque eu estava com uma camisa suada como essa. Eu estava chegando da missão: "Mas, não, o senhor não pode entrar." "Tá aqui meu documento." "Não, pois não, Major não sei o quê lá."

 

P/1 - Carteirada...

 

R - Não, por causa do traje: "O senhor só não vai entrar porque o senhor está com essa camisa." Aí eu olhei, ia passando o rapaz que serve o cafezinho com aquele jaleco azul, e ele com o jaleco podia entrar. Pô, e eu com a camisa não podia. Então eu disse: "Meu amigo, por favor, venha aqui." Pra quê. "Não, eu conheço o senhor." "Tira o jaleco." Peguei o jaleco dele de cafezinho, abotoei todinho e falei:  “Agora eu posso passar.” Abriu o elevador e eu entrei. “Não, mas quê isso? Não sei o quê…” Eu entrei com o jaleco, cheguei lá no gabinete do presidente de jaleco azul, ai ele caiu na risada. "Você está doido, o que foi isso aí?" Ele era muito brincalhão. Eu disse: "Não, com a minha camisa eu não podia entrar e com o jaleco era permitido. Então estou com o jaleco." Aí começou a amizade. O presidente Figueiredo, o ex-presidente era um homem muito autêntico, sabe? Até autêntico demais, muito autêntico. Eu tinha um bom relacionamento com ele, brigamos por causa de Serra Pelada uma briga feia. Eu deputado e ele presidente da república. Há espaço pra eu dizer essa…?

 

P/1 - Claro.

 

R - Serra Pelada foi organizada num artigo precário por um ano, a concessão da Companhia Vale do Rio Doce, e esse artigo precário foi sendo prorrogado. E a Vale, estatal na época. Foi sendo prorrogado porque o projeto estava surtindo efeito. Quer dizer, havia um entusiasmo, uma euforia muito grande daquela massa popular ali dentro, aquele povo todo atrás do ouro, cantando o hino nacional de manha, ovacionando o presidente da república e desviadas as suas atenções de qualquer massificação no meio da selva. Então aquilo foi crescendo e nós conseguimos. Eu consegui ir para Brasília e consegui com o presidente a prorrogação por mais um ano, e aquilo foi incomodando a Companhia Vale do Rio Doce porque ela detém todo o direito minerário, o alvará de lá. Até que eu deputado um dia apresentei um projeto de lei e tinha que apresentar o projeto de lei imediatamente, naquela tarde. Eu não tinha mais tempo e o presidente estava no Sítio Nogueira, sitio dele, Nogueira, no Rio de Janeiro. E eu liguei pro ajudante de ordem, o Major Marcon, muito amigo meu, e disse: "Marcon, avise o presidente que eu vou apresentar um projeto aqui como deputado sobre Serra Pelada, prorrogando por cinco anos, e que eu não quero fazer isso sem que ele tenha conhecimento. Você me faz isso?" "Pode deixar, Curió. Eu vou ao Sitio Nogueira, eu tenho que ir lá, e aviso o presidente." Eu dei entrada no projeto e o projeto foi aprovado em 48 horas, na câmara e no senado. Também eu desloquei para lá cinco mil garimpeiros e coloquei lá dentro do Congresso. Foi aprovado em 48 horas. Após aprovado o projeto, o presidente vetou o projeto. Ele vetou o projeto e aí eu fiquei bravo. Eu pedi para falar com ele, ele disse que não me recebia. Eu falei: “Pronto, agora embananou tudo.” Aí, o que eu fiz? Eu preparei uma revolta dos garimpeiros, foi a famosa revolta em que tomaram tudo, tomaram o Pelé em Brasília, tomaram tudo aqui e ameaçaram tomar Carajás. Mil e quinhentos homens. Foi uma confusão do outro mundo. Agora, quem organizou, quem preparou? Fui eu. Eu disse à imprensa naquela época? "Eu mandei." Não neguei, não. Já, logo o Brasil me perguntou: “O senhor está pra frente? O senhor está atrás disso?" Eu disse: "Não estou atrás, não. Estou à frente.” Muito bem. Tomaram Belém e Brasília, mais de oitenta mil homens, Pelé em Brasília. Tomaram esse eixo aqui, Curionópolis, Parauapeba... Tomaram tudo, tomaram a Ponte de Itacaiuna... E o presidente foi ao Congresso lançar um livro do pai dele, Euclides Figueiredo, e quando chegou lá, a imprensa foi em cima dele e eu olhei perto. Eu tava junto com a Abi-Ackel e o Marchezan. O Abi-Ackel era o ministro da justiça e o Marchezan era líder do governo na câmara. Estava junto. Aí o presidente chegou, imprensa foi: "Presidente, e esse negócio de Serra Pelada?" Ai ele gritou: "Isso é coisa do Curió." Falou desse jeito, aí ele chamou o Marchezan e o Abi-Ackel, e pediu pra que eu viesse retirar os garimpeiros, levar os garimpeiros para a Serra. Eu disse: "Sim, eu levo, mas eu quero que ele retire o veto do meu projeto." Aí ele prometeu retirar o veto. Eu disse: “Não acredito. Eu quero o compromisso seu e do Abi-Ackel, que se ele não retirar você renuncia ao ministério da justiça." e falei pro Marchezan: “Se ele não retirar, você renuncia a liderança.” “Renuncio tudo bem. “Então estou indo.” Peguei um avião e decolei. Só que eu marquei a decolagem para Marabá e com cinco minutos de vôo eu inverti a rota, fui pra Imperatriz no Maranhão. Também não me pergunte o porquê, porque é estratégia. (riso)

 

P/1 - Por quê? Ah, por quê? (riso)

 

R - Tava todo mundo me esperando em Marabá, eu fui pra Imperatriz, isso é pra descontrair um pouco. E quando cheguei, desobstrui. Fui colocando os garimpeiros para cá. Quando eu cheguei, quase seis  horas da tarde, na Ponte de Itacaiuna, em Marabá, o exército já estava para intervir em cima dos garimpeiros. Eu entrei no meio, mandei os garimpeiros irem passear. Quando eu cheguei um Curionópolis, aqui, estava um tiroteio ali no posto de gasolina entre garimpeiros. Uma coisa... Tiroteio grande... Eu coloquei para a Serra e quando cheguei em Parauapebas, eu desci. Eram mais 1500 garimpeiros, e quase que todos, a maioria, altos.

 

P/1 - Armados.

 

R - É, eu cheguei e eles gritaram: "Pára o carro.” Eu parei, mandei os faróis ficarem acesos e desci a pé no asfalto em direção a eles. Aí quando eles me viram foi aquela: "Papai…” E tal. Me pegaram carregando, eu disse: "Tudo bem, me bota no chão. Eu quero duas coisas. Primeiro, onde é que está o major?" Eles haviam sequestrado o major da polícia. "Eu quero o major." "Não, porque o major está bem". Eu disse: "Tragam o major." Foram lá, trouxeram o major, eu disse: "Vem cá comigo." O major... "Agora, segundo, vocês vão para a Serra." "Mas por quê, Curió?" "Terminou. Para a Serra." "Está bem." Foram todos para a Serra. Aí a Vale, três diretores da Vale estavam lá no portão e me convidaram pra jantar. Porque a preocupação da Vale eram os 1500 que estavam subindo pela mata.

 

P/1 - Quem eram esses diretores na época, você sabe?

 

R - Os 1500?

 

P/1 - Não, quem eram esses diretores?

 

R - Não me lembro. Sinceramente, eu não me lembro.

 

 (fim da fita) 

 

(continuação)

 

P/1 - Curió, conta aí, conta mais de Carajás, aí você foi jantar com esses diretores da Vale…

 

R - Jantei lá com os diretores da Vale e fui para a Serra, porque o presidente me prometeu que, ao recolher o último garimpeiro para a Serra, ele retiraria o veto. No dia seguinte na Serra - ele prometeu que retiraria o veto às quinze horas -, quando foi às quinze horas exatamente, me ligou de Brasília o General Venturini, que era o chefe do Conselho de Segurança Nacional, meu amigo. Até hoje eu me encontro com ele, me dou muito bem com ele. Ele me ligou e disse... E a imprensa no Brasil já estava toda na Serra Pelada quando ligou da presidência da república. Aquilo era não sei quantas câmeras de televisão, microfone em cima assim da... Era uma rádio, não tinha telefone. E o General me disse: “O presidente disse que não vai retirar o veto hoje porque ele está sobre pressão, e sobre pressão ele não retira o veto.” “Então diga ao presidente que eu vou tocar fogo no sul do Pará.” E desliguei a rádio e os garimpeiros já queriam queimar tudo.

 

P/1 - Tocar fogo...

 

R - Não deu um minuto, dois minutos e ele me ligou de volta: “O presidente acabou de retirar o veto.” Aí comemoramos. Foi aquela comemoração dentro da Serra. E o meu projeto transformou-se no projeto da lei 7.194, que criou a reserva garimpeira, a cooperativa, e a Vale foi indenizada em 59 milhões de dólares por aquele pedacinho. Sete milhões e 770 e poucos mil FTN por aqueles cem hectares, cem hectares dentro dos 10.000 hectares, do __________ dela, é isso aí.

 

P/1 - E você contou que voava com o Breno. Em que momentos, que situações foram essas?

 

R - Se não me falhe a memória, o Doutor Breno acidentalmente me descobriu em 1972, eu já nas minhas andanças pelo sul do Pará. E eu pousei lá umas duas vezes. Depois viajei com ele para uns garimpos de cassiterita, que era aqui perto de São Félix do Xingu, porque a Vale tinha muito interesse naqueles garimpos de cassiterita. Depois estive junto com ele em vários...

 

P/1 - Mas por que você ia com ele? Por que que vocês iam juntos?

 

R - É porque a presidência me determinou que eu o acompanhasse.

 

P/1 - Para acompanhar o Breno?

 

R - É, foi por ordem da presidência da república. Como numa ocasião surgiu um garimpo chamado Goiaba, hoje é ali perto de Redenção, perto de Xinguara, e na época não existia nem Xinguara nem ________, nenhuma das duas cidades existia. E esse garimpo era um garimpo do Goiaba, do Mamão, chamado Garimpo das Andorinhas, Serra das Andorinhas, e a Vale era detentora dos direitos de lavra. Eu fui enviado pela presidência da república para acompanhar o presidente da Docegeo, que é uma subsidiária da companhia Vale do Rio Doce. Era, não sei se é ainda. Se não me falhe a memória, era o Doutor Marcos, era um tipo alemão, bem forte. Eu voei com ele e encontramos o Breno, se não me falhe a memória também, aí perto de São Félix do Xingu. Então eu costumava voar à noite com os helicópteros, principalmente aqueles da Docegeo. Num helicóptero da Docegeo eu fui ver uma chacina, uma matança que houve na fazenda Espadilha, perto de Redenção, em que os índios Caiapós mataram uma família inteira, quase que uma fazenda toda, e não tinha ninguém pra descer lá. Determinaram que eu descesse e eu desci. O piloto da Vale do Rio Doce, que era da Docegeo, me disse claramente: "Dez segundos. Se o senhor não saltar eu decolo." E eu saltei, tinha catorze mortos, e eu fui encontrar os índios sozinho. Tem até um documentário, eu com um lenço no... Porque já estavam dois dias já da chacina, que eu tinha um bom relacionamento com os Caiapós, o cacique Sarubê Moti Bebitiara, eu convivia muito com eles aqui no Xikrin. Estranho, né? 

 

P/1 - Como era esse encontro? Como é que vocês entendiam a língua?

 

R - Tinha o Bemotí, que era o cacique de direito, mais não era o de fato. O de fato era Bebitiara, e eles me chamavam de nhambicó. Diziam assim: "Nhambicó, nhambicó." E nhambicó em caiapó é amigo. Eu tinha muito interesse nesse relacionamento com eles, e fiz um bom relacionamento bastante tempo aqui e em Redenção, que é a tribo aqui é o Xikrin, lá em São Félix do Xingu é o Cumbiquecré, e Redenção são os Gorotire. O cacique em Redenção era o Tutuí e o Canhoco, o cacique de direito, mais o de fato era o Utê, foi esse Utê, um índio novo, que matou os catuas na Fazenda Espadilha. Tem história, já dá um livro.

 

P/2 - Mais por que razão isso?

 

R - Hã?

 

P/2 - Como se deu essa história do…?

 

R - Massacre?

 

P/2 - Massacre.

 

R - Os fazendeiros tinham invadido a terra dos índios e os índios tinham chegado para questionar o capataz da fazenda, que era um senhor escuro, de pele bem escura. Ele estava morto na porta da casa, uma casinha branca, e chegaram pra questionar. Uma das senhoras, que estava sentada no sofá, tinha uma criança. Todos mortos quando eu cheguei. A bordura perto de uma geladeira, uma geladeira branca. Quando eles chegaram para questionar, a senhora ameaçou o índio com a tesoura. Essa foi a versão que eu ouvi do Canhoco e do Tutuí, os dois caciques falavam português. Eu apareci no Fantástico algumas vezes dançando a dança da lua com os Gorotires, com os Xicrins, porque os Caiapós são divididos em três tribos: o Xikrin, perto aqui de Serra Pelada; os Gorotires; lá em Redenção; e os Cumbiquecres mais lá em cima.

 

P/1 - Como que é essa dança da lua?

 

R - Braços dados e esse canto bonito. Vai pra um lado, vai pro outro.

 

P/1 - Você lembra de um pedaço desse canto?

 

R - São dois passos pra lá, dois passos pra cá, dois passos pra lá, depois vem, três passos pra lá, três passos pra cá, dançando...

 

P/1 - Você lembra do canto?

 

R - Hein.

 

P/1 - Você lembra do canto?

 

R - Não, só mais ou menos da música, né? "Oh, oh, oh, oh, oh, oh..." Aí eles vão aumentando, vão passando aquela lua alta, né?

 

P/1 - Como que era a relação da Vale com os índios?

 

R - Não sei, nunca convivi com Vale e índios, nunca convivi.

 

P/1 - E índio e garimpeiro?

 

R - Também não. Houve o problema no Garimpo de Cumaru, porque quando surgiu o Garimpo Cumaru, lá em Redenção, eu estava... Havia passado por uma cirurgia em Brasília, então me pediram na ocasião que eu orientasse como organizar o Garimpo de Cumaru. E lá tinha o problema com os índios, exatamente os Gorotires, e eu fiz uma sugestão na época, porque havia um impasse muito grande de que o garimpo estava dentro da reserva indígena. Então havia sugestões de oficiais membros da presidência da república para desconhecer a reserva indígena e outra pra mudar a demarcação da reserva indígena, que é um absurdo. E eu sugeri que se fizesse uma parceria com os índios e pagasse um percentual aos índios. Foi aceito e o garimpo funcionou perfeitamente, os garimpeiros pagavam um royalty ao Canhoco e ao Tutuí.

 

P/1 - Você andava com segurança?

 

R - Como?

 

P/1 - Seguranças. Você andava com seguranças? Te acompanhavam?

 

R - Não, na Serra Pelada não. Hoje se perguntar se eu ando com motorista, eu ando. Mas, também, eu não me preocupo, não. Várias vezes eu saí daqui sozinho. Agora, domingo retrasado… Eu sou católico, respeito todas as religiões. Eu acho que o nosso Deus é um só e a bíblia também é uma só. Mas domingo retrasado eu saí da missa católica aqui, local escuro, saí dirigindo sozinho minha caminhonete e fui embora pra casa.

 

P/1 - Aí você foi eleito deputado?

 

R - É eu recebi missão, né? A minha eleição a deputado foi praticamente uma missão, me disseram que eu tinha que ser candidato.

 

P/1 - Quem te disse?

 

R - E eu não queria ser candidato, não.

 

P/1 - Quem te disse?

 

R - Na ocasião, quem lançou a minha candidatura é um homem por quem eu tenho respeito. Foi um bom chefe que eu tive, General Milton Cruz, me chamou. O governo precisava de mim na câmara, me lançou a deputado, candidato a deputado federal através do então Senador Jarbas Passarinho. Só fui candidato três vezes. Depois eu me indispus com o Presidente Figueiredo e voltei aos bons com ele, que ele mandou chamar pra jantar com ele. E naquele impasse ele me perguntou: "Você tem alguma coisa pra dizer?" "Eu só gostaria de saber por que o senhor me deu um gelo esse tempo todo?" Ele deu ordem aos ministros de que ele não me recebesse. Aí ele me disse: "Não, porque você apresentou aquela porcaria..." Ele brincava muito, né? Era o palavreado dele. "... daquele projeto só porque é deputado, e não me deu conhecimento?" Aí eu disse: "Me chama aí o Marcon." O Marcon tava sentado lá, o ajudante de ordem dele. Ele chamou. Ele chamou o Marcon de Magro, e o Major Marcon veio, era o ajudante de ordem dele, secretário. Eu disse: "Marcon, diz ao presidente que eu liguei pra você e pedi que avisasse ele no Sítio Nogueira." Ele disse: "Presidente, eu fui lá e lhe avisei que o Curió ia entrar com o projeto." Aí ele olhou pro major e disse: "Ah, você me avisou?" "Avisei." "Então tá bom, deixa isso pra lá." Depois de três anos que eu fui colocado na geladeira, três anos como deputado, foi essa a versão. "Me avisou?" "Lhe avisei." "Ah, então tá bom, deixa isso pra lá." Mas eu tenho um grande respeito por ele, a partir daí ele foi até ao casamento da filha minha, foi padrinho. O Maluf também foi padrinho, ele disse que não dava a mão ao Maluf nesse casamento. Aí o Maluf, meu irmão... O presidente cumprimentou o Maluf. Estavam os dois no casamento da minha filha em Brasília, eu era deputado.

 

P/1 - Curió, quantos filhos você tem?

 

R - Tenho respeito pelo Paulo Maluf, que sempre me tratou muito bem.

 

P/1 - Conta um pouco... Você tem cinco filhos?

 

R - Cinco filhos.

 

P/1 - Qual a idade do mais novo, do mais velho?

 

R - O mais velho tem 42 anos.

 

P/1 - O mais novo?

 

R - Por isso é que eu não olho no espelho, eu tô muito bem, pô. Tô ótimo.

 

P/1 - E o mais novo?

 

R - O mais novo tem 23 anos.

 

P/1 - E os filhos foram nascendo ao longo dessa sua vida, trocando de missão...

 

R - A minha família é maravilhosa, me dou muito bem com os meus filhos, são três homens e duas mulheres.

 

P/1 - E toda vez que você mudava para uma missão diferente, para um lugar diferente, mudava toda a família?

 

R - Toda a família. O militar mudou, como diz o caboclo, vai atrás a família toda junta. Minha mulher nessa parte aí é espetacular, nunca reclamou.

 

P/1 - Você acompanhou o processo de privatização da Vale do Rio Doce?

 

R - Olha, o processo de privatização foi muito polêmico. Na ocasião se discutia muito a privatização, agora, eu acho que o governo não pode ser empresário. Eu sou contra governo empresário, governo com empresas, nesse ponto eu sou favorável a privatização. Eu só não entro no mérito da questão por quanto da privatização, que foi polêmico, o quanto da privatização, não entra no mérito da questão. Agora, com relação à privatização, o governo não pode ser empresário. Agora, tem um ponto a ser ressaltado no meu ponto de vista. O subsolo é uma questão muito complicada. Então, se você observar a privatização da Petrobrás e como foi a da Vale, há um fator muito importante que é o subsolo. Então, por exemplo, eu tenho o maior respeito pela Vale, nos damos muito bem, uma grande empresa de mineração, foi e continua sendo uma grande empresa. Mas se você olhar pelo aspecto do subsolo, o governo disse em muita época: "Nós não estamos privatizando o subsolo mas, sim, a superfície, os bens, a empresa." Mas o meu pensamento é o seguinte, é que a Vale tem mil e tantas concessões de lavra no Brasil, lavra e pesquisa, e essas concessões passaram todas no bonde da privatização. Então, queira ou não queira, o subsolo foi junto na privatização. Porque a Vale é privatizada, empresa, ela recebeu como herança todas as concessões, então o subsolo foi junto. Esse é o meu entender, meu ponto de vista. Agora, com a relação a privatização, isso é correto, o governo não pode ser empresário, o governo tem que administrar.

 

P/2 - Curió, voltando um pouco. Você estava aqui na floresta pela presidência, organizando garimpo, e a Vale era uma empresa estatal. Quer dizer, havia interesse na presidência também, da Vale, aqui nessa região, assim como ela tinha o direito de lavra e tudo mais. Como é que funcionava isso, você com os garimpeiros e a Vale também, de certa forma?

 

R - O meu relacionamento maior com a Vale foi antes do surgimento de Serra Pelada. Depois, com o surgimento de Serra Pelada, houve também um grande apoio da Vale através da Docegeo, ao projeto, então a Vale apoiava muito, apoiava com transporte, helicóptero. Houve um grande apoio da Docegeo, que era subsidiada da Vale. Agora, depois da primeira prorrogação do garimpo, e que eu defendi a permanência dos garimpeiros, então houve um estremecimento entre a minha conduta, a minha pessoa e a Vale, bastante compreensível. O que nunca foi dito é que eu tinha uma missão que não podia ser muito revelada, que era uma missão de massa, de povo, que eu acho que até a Vale mesmo nunca se atentou muito pra isso. Porque não se cogitava isso, eu tinha que conquistar a massa, povo, porque essa massa, povo, estava ameaçando a ordem pública no meio rural. Então, esse depoimento eu tô dando em primeira mão pra vocês. Se a Vale se atentar pra isso ela vai entender o porquê da minha... Depois que eu organizei o garimpo, que o objetivo inicial era massa, era povo, era controle, não é? Aí veio o social, aí surgiu o social, que me sensibilizou muito. Quer dizer, depois surgiram os direito que foram questionados, os garimpeiros que eu passei a entender, passei a viver aquilo. Então foram coisas que tiveram a compartimentação, foram vividas de maneiras diferentes. Quando eu vim pro garimpo, era um pensamento, depois foi outro pensamento, hoje é outro pensamento.

 

P/1 - Como é sua relação hoje com a Vale, enquanto prefeito?

 

R - Excelente, fui procurado aqui pelo Doutor Nomura, pelo Doutor José Osvaldo, que vieram aqui ao meu gabinete quando eu assumi. Eu os recebi e disse a eles, na ocasião, que eu estava recebendo a Vale de braços abertos. Até seria muito enjoado, muito burro como administrador se não fosse assim. A Vale é uma grande empresa e tem dois grandes projetos dentro do meu município. Um é o Serra Leste de Ferro, cujo potencial de ferro eu fui lá visitar com o Doutor Nomura e o José Osvaldo. É de 480 milhões de toneladas de ferro aqui, Serra Leste, encostado de Serra Pelada. E esse projeto provavelmente entra, já terminou a fase de pesquisa, e entra em funcionamento no próximo ano. É um ferro em bloco que tem menos fósforo do que o ferro de Serra Leste de Carajás. E tem o Projeto Cristalino, de ouro. Cobre aqui na divisa do município de Curionópolis com Canaã, que a própria Vale pensava... Eu ainda brinquei com o Doutor Nomura: "Pô, você tá pensando o quê?" Ele disse: "Não, Curió, lá é Canaã." Eu disse: "Canaã nada, é Curionópolis." E provei, é Curionópolis. E me dou muito bem com o prefeito de lá, o Anuar, mas é Curionópolis. Então essa aproximação com a Vale é importantíssima. Por quê? Porque a vale é uma grande empresa de minerais, sem dúvida. A Vale tem projetos dentro do meu município e eu tenho todo o interesse que esses projetos tomem o melhor caminho possível em benefício do município e do povo de Curionópolis, todo o município de Curionópolis.

 

P/1 - Você recebe quanto da Vale do Rio Doce, de rotalties?

 

R - Hein?

 

P/1 - A Vale paga quanto de royalties para...

 

R - Ainda nada.

 

P/1 - Só vai a parte do funcionamento?

 

R - Só a parte de funcionamento, só a parte de funcionamento. E o relacionamento é muito bom. Nós fomos visitar lá, eu fui com os meus vereadores, com meu vice-prefeito. Tenho recebido aqui o Doutor Nomura, o Doutor José Osvaldo, conheci lá o José Luís, almoçamos juntos, é um excelente relacionamento. A única questão que está pendente na justiça e no Congresso Nacional é aquele pedacinho, aqueles cem hectares lá dentro de Serra Pelada, aqueles eu ainda continuo defendendo na cooperativa dos garimpeiros porque eu tenho certeza que pertence aos garimpeiros.

 

P/1 - É esse o processo que você está movendo contra a Vale?

 

R - É, é um processo de vistoria judicial que nós ganhamos, vai ser feita agora. E a última votação no Congresso Nacional para anular o ato do ex-presidente Collor, que restituiu esses cem hectares à companhia Vale do Rio doce, por um ato administrativo, quando a reserva garimpeira e a cooperativa foram criados por uma lei, então foi um ato incondicional do ex-presidente Collor. Nós já derrubamos no senado a Comissão de Mina na Câmara, Comissão de Constituição de Justiça, e agora deve ser votada essa semana ou na próxima semana no Plenário da Câmara. Anulando esse ato do ex-presidente Collor os cem hectares voltam para a comunidade garimpeira, é só aquilo ali que eu brigo.

 

P/1 - E como é que fica isso? Quer dizer, quando vem o Nomura, todo esse pessoal aqui, eles não falam: "Ai, e aquilo lá Curió?"

 

R - Não, nós conversamos sobre isso. O Nomura, eu brinco muito com ele, o Nomura é muito brincalhão, eu brinco muito com ele, e eles não têm… Me disse e me afirmou o Nomura que eles não têm interesse no potencial aurífero daqui de baixo, da galeria subterrânea ali em Serra Pelada. Eles não têm, não têm interesse aurífero, mas é uma questão que está na justiça, no Congresso nacional. E a única coisa que defendo é aquilo lá, aquilo lá é sagrado.

 

P/1 - Mudando um pouco de assunto, como você conheceu o Maluf?

 

R - Eu conheci o Maluf em Brasília, quando ele foi morar no lado sul. E eu resido no lado sul há muitos anos, eu moro naquele treze no lado sul. O Maluf me convidou pra um almoço e ainda era candidato, provável candidato à presidência da república, o General Medeiros, chefe do SNI. E o Maluf me convidou pra um almoço, eu só com a minha esposa e ele com a Dona Silvia. E me pediu que se o General Medeiros não fosse candidato, que ele fosse a minha primeira opção. O General Medeiros não foi candidato e o Maluf foi a minha primeira opção. Até hoje tenho a confiança dele, e me dei bem com o Maluf durante a campanha dele. Sentei ao lado dele na votação no Colégio Eleitoral, até porque ele me pediu pra que reservasse lugar pra ele no plenário. Ainda brincou comigo: “Você é madrugador, todo milico chega cedinho. E você reserva o lugar primeiro.” Para a votação no dia da eleição com o Tancredo, eu reservei e ele sentou ao meu lado. Por surpresa, muita gente que estava na casa dele na véspera jantando, no dia seguinte votou em Tancredo Neves. Mas eu mantive meu voto. Eu levantei e disse bem alto: “Paulo Maluf!"

 

P/1 - Pensando na sua trajetória de vida, existe alguma coisa que você mudaria?

 

R - Como?

 

P/1 - Você mudaria alguma coisa na sua trajetória de vida?

 

R - Na minha trajetória?

 

P/1 - É, pensando em toda a tua história, você mudaria?

 

(pausa)

 

P/2 - Bom diante daquela pergunta inicial dos interesses da presidência da república junto ao garimpo, e por ser estatal, a presidência também tinha interesse da Vale estar tranquila.

 

P/1 - Simplificando: qual é essa relação da Vale estatal com a presidência e a sua participação?

 

R - Sei, foram duas partes distintas. Primeiro, o trabalho meu junto a Vale estatal sem a existência do garimpo de Serra pelada. Então era um relacionamento excelente, voei algumas vezes, estive no projeto, ainda não existia nada. Estive lá com o Doutor Breno, voei com o presidente da Docegeo algumas vezes, tudo por ordem da presidência da república. Fui ao Garimpo de cassiterita, fiz um levantamento muito grande junto com o diretor da Vale, então essa foi uma fase anterior ao garimpo Serra Pelada. Aliás são três fases. Depois, com a implantação do garimpo, antigo precário, a Vale nos dava todo o apoio em transporte em helicóptero e até em cobertura de... Porque eu era um homem de linha de frente, eu não mexia com dinheiro. Eu pedia, pedia mês, a Vale dava todo… Com toda a atenção, principalmente helicóptero, transporte aéreo.

 

P/1 - E tinha o interesse da Vale de segurança nacional do território, né?

 

R - Eu não sei até hoje se a Vale conhecia esse objetivo do garimpo de Serra Pelada, que era ter a massa, o povo na mão. Eu desconheço, não sei, porque eu nunca conversei sobre isso com ninguém da Vale. Agora, depois que começaram as prorrogações mais constantes do garimpo e depois que eu entrei com o meu projeto na câmara, essa que causou... Aquele que causou o meu atrito com o presidente Figueiredo. Então, sim, a Vale, eu não tenho dúvida nenhuma, passou a me ver não com bons olhos a partir daquela ocasião. Agora nós estamos na quarta fase, nessa fase de agora, eu como prefeito do município que tem projetos na Vale dentro, a Vale já se conscientizou. Eu tenho certeza de que a minha administração é séria e a minha divergência com a Vale é única e exclusivamente naquele pedacinho que se chama Serra Pelada. São cem hectares e eu disse a eles, eles sabem, e não estremeceu em hipótese alguma o nosso relacionamento. Aqui dentro é excelente, tenho a Vale como uma grande empresa de utilidade e de grandes projetos aqui para o município de Curionópolis. No que depender da minha administração aqui, ela terá todo o apoio meu aqui dentro do município.

 

P/1 - Curió, pensando um pouco na sua trajetória de vida, você mudaria alguma coisa?

 

R - Olha dizer que não mudaria eu estaria mentindo, você me pergunta com a experiência que eu tenho hoje?

 

P/1 - É, olhando com os olhos de hoje para o passado, repassando a sua vida, o que que você mudaria?

 

R - Faria algumas pequenas modificações. Por exemplo, você no começo me fez uma pergunta de por que eu fui contra a posse do João Goulart, não é? Dá a entender que eu tinha algum objetivo, então, lógico, eu lhe disse na época que não tinha, que eu até desconhecia. Eu sabia, sim, o que era o comunismo, o que não era comunismo. Eu sabia. Como hoje, por exemplo, eu sou anticomunismo. Por que eu sou anticomunista? Porque eu nasci no berço cristão e Karl Marx disse pessoalmente em um manifesto que "o Cristianismo é o ópio do povo". Se o cristianismo é o ópio do povo, eu nasci anticomunista, porque eu nasci num berço cristão. Até porque, justificando mais, eu não vi êxito do comunismo no leste europeu. Caiu todo, né? Hoje só existe Cuba, e eu não tenho dúvida nenhuma que se Fidel Castro fizesse uma eleição em Cuba hoje, livre, ele amanhã estaria fora do poder. É uma opinião minha, sou muito franco. Então, se eu mudaria alguma coisa? Mudaria... Não a minha filosofia de vida.

 

P/1 - Mas esse episódio do João Goulart, por exemplo?

 

R - Não, eu acho que é muito controvertida a renúncia do Jango. Hoje, que eu tenho mais conhecimento, muito controvertida essa renúncia do Jango. A posição na época dos ministros é muito controvertida, com a experiência que eu tenho hoje, acho que merecia uma análise muito mais profunda da coisa, muito mais profunda. É esse meu pensamento, esse é um exemplo. Então é lógico que você, com a experiência de vida que você tem que se adquire, somada ao vigor ao entusiasmo da juventude, seria o ideal pra qualquer homem, esse é meu pensamento.

 

P/1 - E de alguma outra coisa?

 

R - Não, foram missões cumpridas que, dentro da faixa etária, dentro da experiência, eu acho que não teriam grandes modificações. É lógico que com a experiência, talvez, eu sempre fui um homem de diálogo. Como eu disse anteriormente, sempre procurei conversar antes de agir com a força. Talvez pudesse estender um pouco mais o diálogo, alongar um pouco mais o diálogo em determinadas situações, talvez comportaria mais diálogo.

 

P/1 - Você tem um grande sonho? O que você pretende realizar, quais são as suas expectativas em relação ao futuro?

 

R - Entrei pela terceira vez na política e vim assumir a prefeitura de uma cidade que leva meu nome, por força do destino.

 

P/1 - Conta um pouquinho isso.

 

R - Não, Curionópolis surgiu porque em Serra Pelada não era permitida a entrada de mulheres, bebida alcoólica e jogo. Porque eu tinha uma média diária de oitenta mil homens. A mulher indiscutivelmente é a coisa mais divina, mais sagrada que existe para nós, homens. Até porque nós nascemos de uma mulher, minha mãe é uma mulher. Eu choro até hoje a perda dela. Por isso eu não permiti a entrada de mulheres na Serra, porque com oitenta mil homens, eram dez, quinze mortes por noite. Sem dúvida nenhuma foi uma das decisões minhas que me levaram ao êxito também em Serra Pelada, com um controle da disciplina da ordem e tudo mais. Não me lembro onde nós paramos, começamos.

 

P/1 - Estava falando do sonho.

 

P/3 - E da política pela quarta vez.

 

P/1 - Você tava na política já na terceira vez...

 

R - Então não podia entrar mulheres, e o acesso a Serra Pelada era só via aéreo. Aí eu pedi a construção ao presidente da república, a construção da estrada, essa estrada que liga hoje ao asfalto ali, o quilômetro dezesseis, à Serra Pelada. Com a construção da estrada, os garimpeiros vinham trazendo as famílias e eram barrados no campo dezesseis pela Polícia Federal, e as famílias vinham se alojar aqui no trinta, chamado quilômetro trinta, que até hoje muita gente chama de “Trinta” aqui Curionópolis. Foi nascendo, surgindo um povoado completamente desordenado, palhoças, casas. Eu costumava passar aqui antes do surgimento desse povoado e almoçava ou jantava ali numa bodeguinha de palha do João Mineiro, até hoje ele é vivo. Eu jantava lá e conversava muito com o João Mineiro. Às vezes a noite não tinha nada aqui, só tinha essa bodega na beira da estrada. E

quando foi crescendo muito aqui, houve uma preocupação do governo, a Vale ainda estatal, com o surgimento do povoado aqui, que poderia causar prejuízo ao projeto da companhia do Vale do Rio Doce. Houve uma determinação de cima para que esse povoado fosse desfeito, que não fosse a frente, e eu vim num helicóptero da Vale do Rio Doce, helicóptero da Docegeo e desci ali no curral da fazenda do Sebastião Davi, que fica logo ali em frente a pista, do lado de lá da pista. O João Mineiro veio ao meu encontro e muita criança, criança gritando "Curió, Curió, Curió", porque o nome é fácil, é nome de passarinho e desperta atenção, curiosidade e é fácil de gravar. Aí eu abaixei a cabeça preocupado e o velho João Mineiro me perguntou o que estava acontecendo. Eu disse que havia recebido ordem para não permitir o povoado. E ele me perguntou: "Tu vai tocar fogo neles?" Eu disse: "Não, vou organizar." Aí peguei as máquinas da Andrade Gutierrez, que tava fazendo a estrada, e mandei abrir as ruas. Fiz os loteamentos, mandei construir a primeira escola, cuja professora foi a Dona Isolda, e um primeiro posto médico. Aí nasceu o povoado e depois eu fiquei sabendo que o nome era Curiolândia, aí eu gritei que eu ainda estava vivo mas, assim mesmo, ainda batizaram de Curionópolis, daí a origem do nome.

 

P/1 - Mais aí o sonho. Por que pegou? Você tem outros sobrenomes, porque acabou pegando o Curió?

 

R - Hein?

 

P/1 - Por que acabou pegando Curió?

 

R - Apelido.

 

P/1 - É.

 

R - Essa aí, a Veja que publicou essa matéria tem anos. Eu incorporei o “Curió” ao nome em 1982 para disputar a eleição, porque não podia naquela época disputar com codinome, pseudônimo, apelido. Até a imprensa noticiou que o Lula havia me plagiado, porque ele colocou o Luís Inácio Lula alguns dias depois que eu coloquei. Só que eu coloquei no sobrenome e ele botou no prenome. E o Curió surgiu quando eu fui pro Colégio Militar de Fortaleza. Naquela época que eu disse que saí com a malinha na mão e fui embora, eu ganhava 115 não sei o quê - era cruzeiro velho, não sei o que era mais, mudou tanto - por mês de soldo no colégio militar, e ganhava cem por luta de boxe aos sábados, então eu ia pra um parque, se chamava Parque Xangai, e pegava luta lá pra ganhar cem pilas, como diz o Ratinho, cem cruzeiros. A ali no ringue lutando, meus amigos do colégio militar, da escola preparatória iam assistir com suas namoradas, e começaram: "Dá-lhe Curió! Dá-lhe Curió." Por quê? Porque em Fortaleza se colocava o curió em gaiola para brigar, porque curió é um passarinho que briga até morrer. Se colocar dois, morrem os dois na gaiola. Se não tirar, morrem os dois. E eles ficavam gritando: “Dá-lhe Curió, Curió!” E pegou o apelido, essa é a história. Mas concluindo...

 

P/1 - Tava falando do sonho.

 

R - Concluindo, o meu sonho é terminar bem esse meu mandato, reerguer a cidade que tem o meu nome. Lamentavelmente eu a peguei num caos total, nem a chave da prefeitura eu encontrei, tive que arrombar. Não é essa a prefeitura, é uma antiga. Eu acho que vocês foram lá atrás da prefeitura, é uma inadimplência total, e o meu objetivo é reerguer a cidade. E, como todo homem, terminar seus dias feliz, com a família, e contando histórias como eu estou contando aqui hoje pra vocês, não é? Porque quando se atinge uma faixa etária - não é o meu caso ainda, não olhando no espelho - aí começa a dizer: "Eu já fui bom disso, já fiz isso, já fui bom, já fiz isso." Então, futuramente, contar histórias boas e registrar aquilo que tem que ser registrado.

 

P/1 - Para terminar, Curió, o que você achou da experiência de ter dado esse depoimento para o Projeto Vale Memória?

 

R - Muito bom, até quando me disseram que era um projeto da Vale, eu fiz questão inclusive de procurá-los. Foi a primeira vez na vida que eu fui ao encontro dos jornalistas lá onde estavam, e com muita honra. Não, não é a primeira vez, eu saí de Brasília e fui dar entrevista pro Jô Soares e para o Boris Casoy. Fui a São Paulo, fui a debates no Rio também, mas assim, próximo, foi a primeira vez. Motivo, sou franco em dizer que eu conhecia possivelmente de nome a empresa de vocês, estou tendo o prazer hoje de conhecê-los pessoalmente, e com o objetivo maior que era o projeto da Vale. Só que nós extrapolamos aqui e saímos do projeto da Vale, mas é um documentário. Fico muito contente que isso daí esteja inserido nesse projeto da companhia da Vale do Rio Doce.

 

P/1 - Obrigado.

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