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História

O meu trabalho me conforta

História de: Carolina Ignarra
Autor:
Publicado em: 19/01/2021

Sinopse

Carolina narra sua trajetória, vivida em sua maior parte na Zona Norte. Aos 21 anos sofreu um acidente de moto que a deixou paraplégica. Depois de um período de reabilitação e adaptação, passou a trabalhar como consultora de inclusão e se tornou uma das fundadoras da Talento Incluir. Carolina também fala sobre seu desejo de ser mãe e sobre sua relação de amor com o trabalho. Por conta da sua atuação, Carolina foi reconhecida pela revista Forbes uma das mulheres mais poderosas do país em 2020.

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História completa

A profissão nunca pode ser escolhida por ambição e sim por talento. Se você vai fazer algo em que você não se identifica, só pensando que é uma carreira que tem espaço no mercado, não vai ser bom, você não vai ser o melhor, e se você não for o melhor, também não vai ganhar bem, seja a profissão que for. Meu pai sempre falou isso pra gente e é isso que eu falo para minha filha, eu tive muito estímulo da família para fazer uma escolha para trabalhar com prazer. A vida já é difícil, aí você vai fazer uma escolha que já vai deixar ela mais difícil ainda, então a gente tinha essas conversas sobre essas questões de ir buscar algo que fizesse a gente, de fato, feliz e tivesse de acordo com a nossa vontade de trabalhar, de entregar e de talento mesmo.

De vez em quando minha irmã me emprestava a moto. Meus pais falavam assim: “Não pega moto, é perigoso, de noite”. Para minha irmã ir trabalhar também, era o mesmo discurso, mas naquele lance: “Se você usar pode cair, e se você ficar com deficiência, você vai assumir”, então era uma coisa que já era conversa para gente, sabe? E quando aconteceu o acidente, foi isso que veio na minha cabeça, vinha o discurso deles na minha cabeça toda hora. Acho que por esse fortalecimento que eles nos deram durante toda a vida que eu me senti responsável. Então aconteceu o que os meus pais me avisaram que podia acontecer e eu tenho que assumir, então foi racional, foi desse jeito.

Eu tenho boas recordações do hospital, era um ambiente gostoso, as pessoas iam me visitar. Eu recebi em vida todos aqueles reconhecimentos que a pessoa recebe depois que morre, então os meus alunos iam lá falar o quanto eu era importante para eles, todos os grupos de amigos que eu fiz na vida inteira estavam ali, presentes, participativos. E foi um momento de boas recordações mesmo, a família se uniu muito. Foi um momento de boas recordações, de verdade, eu não lembro nem da dor que eu sentia. Eu lembro de coisa boa, de muita gente indo lá, muito carinho, muito abraço, foi bem bonito esse momento da vida.

Eu não precisei ser avisada da lesão, eu percebi. Então quando eu não mexia mais as pernas, eu já sabia que eu estava paraplégica, para mim estava muito claro o que estava acontecendo comigo. Mas teve um momento em que a família se reuniu com o médico para contar o que tinha acontecido, aí meu pai contou e eu fiquei: “Ah, tá bom”. Aí ele: “Você não vai chorar?”. Eu falei: “Pai, eu já sabia. Vocês só estão confirmando o que eu já estava percebendo, mas está tudo bem. Vamos ver como a gente consegue viver melhor da forma que a gente está agora”. E aí a gente ficou todo mundo sempre juntos.

Até que eu fui para Brasília, fiquei um mês lá, no Hospital Sarah Kubitschek, que faz reabilitação. É o melhor lugar do Brasil e da América-Latina de reabilitação do aparelho locomotor. Quando eu cheguei no Sarah eu chorei o dia inteiro. Foi o único dia que eu chorei, porque eu via gente com deficiência passar e eu não conseguia nem sentar sozinha ainda, eu ficava deitada vendo as coisas acontecerem, nossa, eu chorei muito, foi o dia que a ficha caiu. Mas aí depois passou.

Quando eu voltei para casa, estava empregada, porque a minha gestora bateu na porta da minha casa e falou: “Vamos voltar, eu tenho espaço para você”, e aí desenhou esse processo de eu voltar montando aulas, escrevendo artigos de saúde. Com o trabalho eu me senti uma pessoa igual às outras, igual antes, não mudou para mim, sabe? Mudou a minha condição, mas eu tinha a minha independência financeira, eu tinha o reconhecimento que me fazia eu me sentir capaz.

Eu não sou triste por ter deficiência, eu acho que eu sou triste por ter dor, obviamente, é muito triste viver com dor todos os dias. Vira e mexe eu tenho umas conversinhas com Deus para entender porque eu tenho que passar por isso, mas a deficiência me trouxe muita coisa boa. Eu acho que é uma demagogia dizer que eu queria ter deficiência, se eu pudesse escolher eu não queria ter, mas eu queria ser quem eu sou sem deficiência, sabe? Ser quem eu sou hoje, aprender o que eu aprendi, me desenvolver do jeito que eu me desenvolvi, e andando. Seria maravilhoso, mas não dá para ter tudo, então eu acho que eu só tenho benefícios assim, eu perdi muito menos do que eu ganhei. E eu acho que o meu trabalho também, eu comecei trabalhando com ginástica laboral, mas rapidinho, uns três anos depois do acidente já comecei a trabalhar com inclusão, e o hoje, o meu trabalho me conforta, ele me explica porque eu tenho deficiência nessa existência.

Logo que eu comecei a ir dar aula nas empresas, as empresas queriam me contratar. Por causa da lei de cotas as empresas viam uma pessoa com deficiência meio independente, bem humorada, eles já faziam propostas de trabalho para mim. Quando eu descobri que a lei de cotas existia, no começo eu fiquei ofendida, e olhando só para o meu umbigo, uma história de uma pessoa com deficiência cheia de privilégios, entendi que a lei vinha para paternalizar a gente, que a gente não precisava disso. Mas depois eu comecei a olhar e conhcer melhor a população com deficiência e rapidinho eu entendi que a lei de cotas é muito mais do que essencial, que ela não foi feita para mim, nem para os meus amigos, mas que a maioria da população com deficiência é excluída estruturalmente falando, então falta tudo. Tem umas coisas muito tristes que acontece na vida da pessoa com deficiência no nosso país, não só com pessoa com deficiência física, qualquer uma, cego, surdo, pessoa com deficiência intelectual, qualquer uma.

Eu percebi que tinha um ramo bom para investir. Aí a minha melhor amiga, Juliana, da época do colégio, foi comigo fazer uma palestra. A gente conversou e viu que ainda tinha muito sinergia, e juntou as duas e formamos a Talento Incluir. Ela trabalhava em um banco até 2017, então eu toquei o negócio com o apoio do pai dela. Eu passei os anos mais desafiadores da minha vida. Ao mesmo tempo que o meu trabalho me dá esse conforto e eu amo fazer o que eu faço, porque eu vejo o impacto social muito de perto, eu vejo a vida das pessoas sendo transformadas de um jeito maravilhoso... Foi muito impactante trabalhar sem ela esses anos todos, eu quase desisti. É muito difícil empreender no Brasil, é muito difícil um negócio ser rentável, apesar de ser muito fácil vender o que eu faço, toda empresa quer. Fui pioneira, então não tinha concorrente, mas é difícil manter o negócio, envolver pessoas, engajar pessoas, contratar, demitir. Eu não gosto de ser empresária, eu prefiro ser consultora de inclusão, mas eu já assumi esse desafio, então também a minha vida nunca foi fácil, se eu fosse ficar só na parte fácil da vida eu ia enjoar.

No começo desse ano eu fui reconhecida pela Forbes como uma das vinte mulheres mais poderosas do Brasil, esse reconhecimento é o mais emblemático que eu ganhei e que representa muita coisa, representa uma população, tem uma galera com deficiência que vai me ver ali e vai acreditar que pode, então eu sei o peso que esse reconhecimento traz.

Para mim maternidade era uma coisa certa, eu amo criança, sabia que ia ser mãe. Eu tinha 22 anos na época do acidente e eu só queria saber sobre maternidade. Lembro que o médico do Hospital Sarah Kubitschek queria me dizer o que era uma lesão medular e eu só queria saber sobre maternidade. E aí o médico me explicou que eu podia ser mãe, mas que precisava pensar numa maternidade mais adiantada, porque depois dos trinta eu poderia ter dificuldades, como qualquer outra mulher, mas para mulher cadeirante tem alguns agravantes somados aí.

Eu não tinha referência, não sabia se eu ia conseguir pegar a minha filha no berço, não sabia se eu ia conseguir pegar ela do chão, então eu falei: “Mãe, eu vou precisar de você, preciso ficar aqui, até a minha filha andar”, e lógico que meus pais toparam, só que ela não sabia que ia ser tão rápido. No primeiro mês de tentativa eu engravidei.

Quando minha filha era pequena eu passei por algumas provações de que ela, de fato, se inspira em mim. Uma vez, ela tinha uns quatro anos e perguntaram: “O que você quer ser quando crescer?”, ela falou: “Cadeirante” (risos). Quando veio a Forbes, ela voltou da escola, antes da pandemia, me contando que o professor perguntou o que ela queria ser quando crescesse e ela respondeu que não sabia a profissão, são sabia qual seria a faculdade, mas que ela queria ter uma profissão que inspirasse pessoas assim como a mãe dela. Esse é o maior reconhecimento, fazer uma coisa que impacta no dia-a-dia de muita gente. Acho que meu maior sonho era ser uma pessoa que é referência para a minha filha, ser a mãe que ela vai agradecer a vida inteira por ter.

A maternidade traz para mim o poder de ser mulher, eu acho que a deficiência me fez questionar se eu poderia continuar sonhando… Eu acho que a concretização desse sonho tem a ver com ser mulher, eu me senti tão mulher quanto antes, a maternidade me trouxe isso.

Ser uma empresária, uma empreendedora é muito realizador, é maravilhoso. Quando eu penso que eu não tinha planos do que eu seria no futuro, quando eu era criança... E se tivesse eu teria errado, porque o que eu faço hoje não existia quando eu era criança, é uma profissão que eu meio que fiz acontecer, não sozinha, lógico, tem outros movimentos no mercado fazendo, mas eu não tinha: “Vou ser uma consultora de inclusão”. Não existia isso. É muito gratificante a gente ter o poder de escolher o que vai fazer profissionalmente.

Para mim trabalho não é castigo, é prazer, é dedicação. Eu percebo que eu sou levada a sério, as coisas que eu falo tem relevância, então é isso que me alimenta. Eu não me vejo fazendo outra coisa, não me vejo trabalhando em negócio de outra pessoa. Eu fui muito dedicada como funcionária, mas é muito mais gratificante fazer tudo isso por um negócio que é meu. Não é pelo dinheiro, é pelo quanto é maravilhoso você ter autonomia no trabalho, relevância, e saber também que você emprega pessoas é muito legal.

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