Busca avançada



Criar

História

O meu sonho era ser o que eu sou hoje

História de: Tereza Ferreira da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/10/2015

Sinopse

Tereza Ferreira da Silva nasceu em Natividade, Tocantins, filha de pais baianos que migraram em busca de uma vida melhor. Desde muito jovem decidiu que não queria se casar para não repetir o padrão de vida dos pais, e aos 14 anos, quando seu pai lhe arranjou um noivo, decidiu fugir de casa para perseguir o desejo de ser independente. Foi em Brasília que encontrou sua vocação para a liderança comunitária e dedicou a vida à luta pelo desenvolvimento da Fercal, tornando-se referência e assumindo um papel importante na interlocução com o Governo Federal, seja na presidência da associação comunitária, seja em cargos que ocupou no Conselho da Mulher e no Conselho em Defesa do Negro.

Tags

História completa

Nasci em Natividade (antes era Goiás, agora é Tocantins) no dia 15 de outubro de 1951. Meu pai e a minha mãe eram baianos; eles já são falecidos. Na Bahia a vida era muito difícil. Eles vieram para Goiás, na época, para tocar a vida. Aí, chegaram em Natividade, já tinham um filho, meu irmão mais velho, e em seguida eu nasci. Passamos seis anos em Natividade, depois fomos para Porto Nacional. A lembrança que eu tenho do meu pai é de uma pessoa muito rígida pela vida que ele levou. Da minha mãe eu tenho muita lembrança. Minha mãe foi muito sofrida, teve um casamento muito ruim, tanto é que a minha decisão de não casar foi por ter acompanhado essa vida que a minha mãe tinha. E aí eu saí de casa muito cedo, justamente para não conviver com essa situação que ela vivia. Toda vida fui muito decidida, meio compenetrada... Eu tô calada, mas eu tô pensando o que eu quero da minha vida, e foi assim que eu segui a vida inteira.

Eu fugi de casa, porque eu estudava e o meu pai, um dia, arrumou um noivo para mim. Eu tinha 14 anos, meu pai queria me casar. Aí, eu falei: “Eu não quero casar, eu quero estudar, meu sonho é outro”. O meu sonho era ser o que eu sou hoje. Eu conversei com umas colegas minhas, que a mãe delas tinha hotel, e elas falaram: “Vamos morar com a gente, minha mãe vai gostar que você vai ajudar a gente a servir mesa”. Aí, cheguei para minha mãe: “Olha, eu vou fugir de casa, a senhora sabe para onde eu vou, mas fala pro meu pai que você não sabe”. Quando ele chegou, nossa... ele mandou ela na hora me buscar. Ela chegou, eu falei: “Não, eu queria estar aqui”. Pra dona Hilda, que é minha segunda mãe, me adotou como filha, não no registro, mas no amor, e toda formação que eu tenho eu devo muito a ela, eu falei: “Dona Hilda, se eles vierem me buscar na marra, a senhora deixa eu ir?”. Ela falou: “Não, minha filha, você só vai se você quiser”. Eu falei pra mãe: “Então pronto, eu não vou não”. Aí fiquei.

Eu cheguei em Brasília em 1971 com um malotinho, daqueles malotinhos duros. Não conhecia Brasília, mas eu vim assim, determinada. Tanto é que o meu pai, quando soube que eu vinha para Brasília, falou: “Deixa ela ir para lá, porque ela vai virar…”. Eu cheguei e falei para ele: “Um dia, o senhor vai querer se orgulhar de mim e não vai poder”. Mas essas palavras dele foram assim, cruciais, talvez para eu ser o que eu sou hoje, porque quando eu via que eu estava perdendo aquela trilha, eu lembrava das palavras dele, eu pensava: “Eu não vou dar esse gostinho para o meu pai, porque ele disse que eu vou virar isso, e não é isso que eu vou virar, eu quero ser alguém na vida”. Quando cheguei, a minha sensação foi assim: “Eu vim para cá para ir à luta e eu vou à luta”.

Eu conheci o pai do meu filho na casa de uma amiga. Ele foi motorista particular da família Ermírio de Moraes, do velho Ermírio – ele dirigia pra ele. Ele morava lá no Plano e trabalhava aqui na fábrica, logo no início. E foi assim que a gente se conheceu e também foi um dos motivos de eu vir morar aqui na Fercal, porque quando eu saí da livraria, fui trabalhar numa empresa de material de construção que era de propriedade do dono da Mundo das Tintas e isso aqui era tudo dele, essa área. Eu trabalhei cinco anos e meio lá e, quando saí, falei para ele [meu chefe]: “Seu Vicente, eu não quero dinheiro, eu quero um pedaço de terra lá na Fercal, porque lá parece muito com Natividade, a cidade que eu nasci”. E ele falou: “Então tá bom, pede ao Gerson para medir”. Aí ele mediu. Mediu 800 metros, e ele: “Não, mede 3 mil metros lá para ela, que ela foi uma boa funcionária”. Então essa área aqui tudo era de minha propriedade. Eu fiz essa vila, fui vendendo, são todos vizinhos muito bons. Eu vim pra cá, construí um barraquinho bem ruinzinho, mas era meu. Assim que eu vim pra cá, eu comecei a trabalhar pela comunidade.

Eu entrei no GDF (Governo do Distrito Federal) trabalhando na Proflora, uma empresa de economia mista de reflorestamento aqui de Brasília. Eu era chefe de turma. Depois, quando Roriz chegou em Brasília, na época a gente discutia, discutia, e não conseguia êxito, e quando ele chegou, foi o primeiro fechamento de pista aqui na Fercal. Na mesma semana, nós tivemos o fechamento na frente do Buriti, que me colocaram presidente da Associação dos Servidores da Proflora. A gente começou a fazer esse movimento em cima dele. Fechamos aqui numa segunda-feira, deu Jornal Nacional, deu Fantástico, e lá foi numa sexta-feira. Quando a gente fechou aqui, ele pediu para vir na Fercal. Nós reivindicávamos tudo, porque nós não tínhamos nada: água, luz, telefone, segurança, escola boa… Isso na segunda-feira à tarde, que o fechamento foi de manhã. Quando foi terça-feira já estavam aí, poste chegando, perfuração de poço artesiano, porque o povo bebia água do córrego. E a gente nessa corrida toda... logo veio telefone, veio um monte de coisa.

E depois da Proflora, eu fui para o Conselho da Mulher. Aí tive essa progressão maior, porque através do Conselho da Mulher é que eu fui conhecer muita gente que me incentivava. Eu não me reunia com o governador sozinha, o órgão que eu trabalhava era vinculado ao gabinete dele. Eu tinha mais facilidade em marcar com ele, então eu levava o pastor, levava as lideranças, levava o jovem, levava a dona de casa, levava todos os segmentos, o do futebol. E aí ele criou uma pasta no gabinete dele para atender as coisas específicas da Fercal. Naquele momento, a gente pensou: “Um dia nós vamos virar cidade e a gente vai ter realmente onde reivindicar as coisas”. E o Conselho em Defesa do Negro, também: a gente pegou do zero, fez um trabalho, capacitação, várias conferências, e uma delas foi para criar a Secretaria da Diversidade Racial que hoje temos.

Eu tive o privilégio de ser “a Tereza da Fercal” por conta de toda essa luta, mas eu sou essa mulher dona de casa, tranquila, amiga, que gosta de rir. Eu sou avó, minha neta é minha companheira, e é isso, a vida com a família… Então a vida é boa demais, eu não canso de dizer, tudo eu devo à luta pela Fercal. Hoje, sou uma mulher aposentada, mas eu acho que a vida não encerrou só porque aposentei, não. Eu ainda tenho muita coisa pra fazer e, enquanto eu tiver vida, eu vou fazer.

Tudo o que eu vivi na vida foi fruto de um sonho. Quando eu era menininha lá, aquela menina que brincava montada em cima dos bodes que via aqueles aviões, só a fumacinha passar, eu dizia: “Um dia eu vou andar num avião daquele”. E quando eu fui para o hotel, que a gente recebia muita gente de delegação de avião e tal, eu dizia: “Eu vou ser uma dessas pessoas, um dia”. Nesse hotel ficava muita gente do Projeto Rondon, que eu via aquele trabalho que eles faziam com as pessoas das periferias das cidades, eu dizia: “Um dia eu quero ser igual a eles, eu quero fazer o que eles fazem”. E foi assim, eu tenho um sonho e não vou sair dele, então eu não fui fissurada por causa desse sonho, eu conquistei ele, assim, devagar, mas não tão lento, porque a vida é passageira.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+