Busca avançada



Criar

História

"O meu objetivo é ter desafios novos"

História de: Antônio Carlos Varella
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/05/2020

Sinopse

Fala sobre a infância na Tijuca, na cidade do Rio de Janeiro. Formou-se em Engenharia. Comenta seu trabalho na Vale, em diversas áreas e subsidiárias, e sobre a privatização. É casado.

Tags

História completa

  1.  

 

P/1 - Carlos, você prefere....

 

R - Varella.

 

P/1 - Varella, né? Varella, eu vou pedir para você falar seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R - Meu nome é Antônio Carlos Varella. Eu nasci no Rio de Janeiro, na Tijuca. Data: 12/04/1961. Tenho quarenta anos.

 

P/1 - Não é carioca da gema? (risos)

 

R - Não, da gema [é] quando nasce no Estácio, essas coisas. Mas carioca da Tijuca, que é um lugar bem específico.  

 

P/1 - Tijuca é bacana. E seus pais são cariocas?

 

R - Também são cariocas. A minha família, na verdade, é portuguesa. Dos quatro avós, eu tenho três portugueses.

 

P/1 - É mesmo?

 

R - É, e um que é brasileiro... Foi brasileiro, mas foi criado em Portugal, praticamente. Origem bem portuguesa mesmo, mas meus pais já são nascidos no Brasil. 

 

P/1 - E por que eles vieram para o Brasil, você sabe?

 

R - Ah, eu acho que, naqueles tempos, em busca de uma vida melhor. Todo mundo de aldeia, né? Pessoal de aldeia, com muitas dificuldades, muita pobreza. Teve uma grande imigração para o Brasil e eles vieram. Apesar de serem duas famílias diferentes, vieram mais ou menos na mesma época. Eles eram da mesma região de Portugal, na região do Porto ali, naquela área, vieram para o Brasil ao mesmo tempo e os meus pais acabaram se conhecendo no Brasil. A família deles é do Jacaré, ali na Riachuelo, aqui no Rio também.

 

P/1 - A de ambos vieram aqui para o Rio?

 

R - Ambos vieram para o Rio, se conheceram no Jacaré, casaram. E depois...

 

P/1 - Você sabe um pouco como eles se conheceram?

 

R - Na mesma rua, vizinhos de rua. Eles eram assim...

 

P/1 - Nossa, que coincidência! Vieram de lá...

 

R - Moravam a três quadras. Vieram de Portugal as famílias, conheceram-se assim, na rua. E acho, que eu saiba, namoraram muito cedo, [com] doze, treze anos de idade, sei lá, e aí casaram e foram felizes. Depois mudaram para Tijuca, foi quando eu nasci, aí a família passou a ser tijucana. Eu e meu irmão, que é mais novo, pegamos a fase tijucana, não pegamos aquela fase do Jacaré.

 

P/1 - Você tem quantos irmãos? Você e mais um?

 

R - Tenho um irmão.  

 

P/1 - E aí vocês nasceram já numa casa na Barra da Tijuca... 

 

R - Na Barra não.

 

P/1 - Na Barra não, na Tijuca.

 

R - Em um apartamento na Tijuca.

 

P/1 - Você lembra um pouco como era lá? 

 

R - Eu acho até que, se eu não me engano… Eu não tenho certeza, mas acho que quando fui para a Tijuca eu tinha uns três meses. Tinha meses de idade, três meses ou quatro. Eu acho que eu ainda nasci morando no Jacaré, mas bebezinho, [com] meses eu fui para a Tijuca.

 

P/1 - Você morou até quantos anos na Tijuca?

 

R - Eu morei até vinte e poucos anos.

 

P/1 - Ah, que legal.

 

R - Eu sou tijucano mesmo. 

 

P/2 - Seus pais faziam o quê? Qual era a atividade deles?

 

R - Meu pai, ele... Na verdade, a família do meu avô por parte de pai tinha uma fábrica de cerveja. Faziam cerveja lá no Jacaré, [na] mesma região onde eles moravam. Cervejeiros mesmo. Meu pai trabalhou nessa fábrica muito tempo também. Depois, veio aquela coisa da Brahma e Antarctica engolirem elas todas, né? Uma cerveja que vendia bem, até mais no subúrbio. Chamava-se Ultramarina.

 

P/1 - Ultramarina?

 

R - É. Tudo a ver - Portugal, Brasil, ultramar, né?

 

P/1 - E ele fazia onde essa cerveja? 

 

R - Lá no Jacaré mesmo, perto de onde eles moravam na época.

 

P/1 - Tinha um galpão?

 

R - Era um galpão, uma fábrica mesmo. É que, hoje em dia, a gente pensa logo naquela fábrica enorme, Brahma, Antarctica, mas existiam naquela época muitas fábricas, muitas cervejas menores. Tinha uma chamada Princesa que era muito famosa, lá o pessoal gostava. Cerveja preta, aquelas fortes; o pessoal tomava Caracu com ovo, aquela coisa bem de português mesmo.

 

P/2 - Você chegou a conhecer esse galpão...

 

R - Conhecia o galpão. Tomei muita cerveja, guaraná. (risos) Eu crescia no meio dos tanques... Exagero, mas conheci bem.

 

P/1 - Como é o processo de fabricação, você sabe?

 

R - Eu não sei bem, mas eu sei que tem cevada, lúpulo, tem o controle da água, tem todo... Eu não sei bem como que é o processo, mas eu lembro que ia seguindo os tanques, vendo as garrafinhas… Eu achei legal aquilo. Se bem que quando eu era novo, eu era bem novinho quando venderam a fábrica. Devia ter... Não sei, dez anos de idade... Memória bem antiga da infância mesmo.

 

P/1 - Vocês brincavam lá dentro do galpão?

 

R - Brincar eu não diria, mas visitava, olhava. E depois, que eu saiba, veio aquela questão de Brahma e Antarctica vendendo refrigerante juntos. Cervejarias menores foram desaparecendo, compradas ou fechadas pelas maiores. Isso tem bastante tempo. 

Eu não sei a idade, mas eu devia ter uns dez anos de idade quando a cerveja saiu da nossa vida. Aí ele passou a ser representante comercial, vendendo parte de malhas, importação, exportação.

 

P/1 - O que de malhas?

 

R - Primeiro, ele trabalhou em malhas. Depois teve um posto garagem. E depois passou a fazer representação de vendas de importação e exportação de vários produtos plásticos, coisas do gênero. Mas o que ficou mais marcado na memória antiga de infância foi realmente a cerveja.

 

P/1 - E você tem lembranças da Tijuca? Como era a Tijuca?

 

R - Tenho. A Tijuca mudou demais. Ela deu uma piorada em termos de segurança, mas o morador da Tijuca tem até um estigma aqui no Rio de Janeiro. O pessoal brinca: “Pô, o cara é da Tijuca, tal” porque... Até por ser muito residencial, geralmente, [são] famílias portuguesas antigas ou mais tradicionais. Mas em princípio [era] muita brincadeira de rua, jogando bola, piques e bolinha de gude, do tempo que isso era possível. 

Eu estudei em colégio primário público, na Tijuca também. A memória de Tijuca da época _______ era bem residencial mesmo. Tinha um cinema de domingo, tinha o almoço de domingo com a família, bolinha de gude, futebol o tempo todo, muitos coleguinhas. A Tijuca, hoje em dia, foi piorando com a questão de segurança - muito morro perto, bala perdida. Perdeu um pouquinho essa coisa mais residencial. Até o bairro que eu morro hoje, o Leblon, mal comparando, tem um pouquinho daquele tempo, que é a coisa mais residencial - totalmente diferente, é óbvio, mas tem aquela coisa de residência, de famílias, o pessoal andando na rua, vai a pé para a padaria. Diferente de uma Barra da Tijuca ou de outros bairros, que você faz tudo de carro. 

 

P/2 - Vocês moravam em apartamento na Tijuca?

 

R - Apartamento. Na cobertura.

 

P/2 - Como era?

 

R - Os meus pais moram lá até hoje. É uma cobertura com terraço legal. Até hoje curto muito quando volto lá, as lembranças. Tinha muito lanchinho de domingo no terraço, uma coisa bacana. E o apartamento, o edifício, é em frente a uma pracinha; chama-se Praça Xavier de Brito, conhecida como a Praça dos Cavalinhos na Tijuca porque até hoje tem uma charretinha e cavalinhas que dão volta em torno. Tinha os bodes na época, as crianças... O pessoal da Tijuca e até de outros bairros vão na pracinha para passear com as crianças de cavalinho, de bodinho. Na esquina tem o Rei do Bacalhau. Os pais ficam tomando chope e comendo bolinho de bacalhau e as crianças ficam passeando nos seus cavalinhos.

 

P/1 - Que ótimo. (risos)

 

R - Bem legal.

 

P/2 - Mas vai administrando esse...

 

R - Então, jogava... A minha vida era na praça; jogava bola, bolinha de gude, conhecia as pessoas, tudo na pracinha ali do lado. Apesar de ser um lugar bem residencial com edifício, tinha um verde assim, perto. Isso foi muito legal.

 

P/2 - Você tinha programas familiares? O seu pai... Sair e final de semana...

 

R - Tinha, tinha. Tipo de família portuguesa que mora na Tijuca: muito almoço de domingo, de sair com a família, marcar um almoção com a família. Quando os avós eram vivos, tinha muita coisa de ficar junto. E tinha também um sítio em Teresópolis que eu passei muitas férias lá. Eram sítios lá na... Como é o nome do lugar? Albuquerque. Era [a] uns trinta minutos do centro de Teresópolis e aí tinha também campo de futebol... Eu curti muito a parte de sítio, árvores, bichos e tudo nas férias, a gente ia para lá.

 

P/2 - E dentro de casa, como era essa... O pai, a mãe, quem tinha mais autoridade dentro de casa?

 

R - (risos) Boa pergunta. Acho que a mãe tinha mais autoridade. O meu pai é mais expansivo. A minha mãe é mais quieta, mas na autoridade prevalece a opinião dela sim. Mas sempre foi uma relação bem harmônica. Eu tive uma base familiar muito forte, muito legal, de harmonia de coisa de família... Foi uma base importante para quando você sai para o mundo, ter aquela base lá atrás e usar isso para o futuro.

 

P/1 - Tinha educação religiosa, os seus pais são religiosos?

 

R - Não, não muito. Tem aquela coisa na época, Apostólica Romana Católica, mas não tive aqueles catecismos rígidos, não.

 

P/1 - Política, algum tipo de formação política?

 

R - Muito pouco. Eu passei a época da ditadura meio sem saber das coisas. Eles não eram ligados, eu era novinho também, então eu não senti na pele... Provavelmente, outros depoimentos devem ter tido histórias aí, sempre tem alguém conhecido que vivenciou aquela época. Eu não vivenciei demais, não. Estava lá, na época, na Tijuca e tinha até ali perto da onde eu morava aquele quartel da PM que depois ficou famoso porque era o lugar onde torturavam, onde faziam não sei o quê, mas a gente ali não tinha muita notícia. Na verdade, coincidentemente, esse quartel era ao lado da fábrica da Brahma. Falando em cerveja, né? Ali na Tijuca também. Hoje, acho que está até tombado, não sei, que fim levou aquilo. E depois a gente ouvia as histórias. Era para lá que levavam os presos... Sei lá, a gente ouvia as histórias, mas anos depois. Na época, eu não me lembro [de] nada muito específico. Era novinho também, criança.

 

P/2 - Com o seu irmão, a relação com o seu irmão?

 

R - Muito boa com ele. Ele é mais novo do que eu, sete anos. E nasceu em 1968. Foi uma relação muito boa, apesar da diferença de idade. Quando você é novinho, ainda é o bebezinho. Depois que você cresce e parte para a vida adulta fica uma relação de igual para igual, muito harmônica também. 

Eu tinha muita harmonia em casa. É uma sorte, né? Porque o comum é ter sempre um irmão, um pai, uma mãe, problemas. Eu não tive grandes problemas na infância. Os existentes foram bem resolvidos e até hoje somos grandes amigos. Ele, hoje, é promotor público.

 

P/1 - E a sua entrada na escola? Você entrou com quantos anos?

 

R - Eu entrei bem novinho. O meu primeiro ano primário foi feito na Escola Pernambuco em Maria da Graça. A minha mãe era professora primária e dava aula lá. Ela acabou o primeiro ano primário, me levou para lá, que é onde ela dava aula, eu fiquei junto com ela. O slogan era: “Escola Pernambuco, entra burro e sai maluco.” (risos) Esse slogan se cumpriu, né? Deixei a minha burrice lá e parti para a maluquice, né? 

Era uma escola primária muito legal, com verde também. Eu tive uma sorte de ter verde na minha criação. Pracinha, escola, isso é legal. 

Isso foi só o primeiro ano primário, eu lembro da escola vagamente. No segundo ano eu fui para uma escola pública, ali na pracinha mesmo. Eu morava em um canto da pracinha, atravessava a praça de mochilinha e ia estudar na escola pública do outro lado, chamada Soares Pereira. Então, estudei... Quantos anos eu não sei, cinco, seis anos. Com que ano que a gente entra na escola? Eu não me lembro. Uns seis anos...

 

P/1 - Seis, sete. 

 

R - Provavelmente. Fiz o primeiro ano lá, depois eu voltei... 

 

P/1 - Hoje entra com um, né? (risos)

 

R - Hoje entra com um, nadando já, falando inglês. (risos)

 

P/1 - É. Com dois anos, natação...

 

R - Jogando basquete.

 

P/1 - Balé.

 

R - Naquele tempo não, era uma coisa mais conservadora. Mas eu lembro, eu fiquei lá assim, desde esse tempo, até a oitava série. A minha educação foi toda em escola pública até a oitava série. O curso primário e o antigo ginásio foi nessa escolinha pública. Era um colégio... Era uma escola chamada Soares Pereira, ao lado de um colégio chamado Lorenzo Filho. Um era o primário e o outro era o ginásio, mas era o mesmo complexo estudantil. Fiz a minha formação toda lá, uma escolinha muito boa.

 

P/1 - Você tem alguma lembrança que te marcou? Uma professora, uma matéria, um episódio?

 

R - Eu... Olha, lembrança tem muitas, mas a mais marcante é uma lembrança que acabou virando recente. Uma coleguinha minha de lá - eu nem tinha grande contato, era uma coleguinha -, eu [a] reencontrei vinte e tantos anos depois e acabei casando com ela, então foi a lembrança mais marcante.  

 

P/1 - É mesmo?

 

R - É. Era uma menina [com] quem estudei lá, junto com os coleguinhas. Lembrava dela vagamente, como outras na infância, e reencontrei uns três anos atrás... Lembrou que foi do mesmo colégio. Acabamos casando.

 

P/1 - Onde vocês se encontraram?

 

R - A gente se encontrou numa exposição. Ela é artista plástica e eu fui ver a exposição dela, aí descobrimos que tínhamos estudados juntos...

 

P/1 - Mas você sabia que era ela?

 

R - Eu tinha uma vaga ideia do nome assim, mas não tinha certeza. Lembrava que tinha estudado com alguém parecido com o nome, mas conversando a gente acabou vendo que foi da mesma época, da mesma escola, morava na Tijuca também. E aí deu em casamento. Literalmente, vinte e tantos anos sem se ver, 23 ou 24 anos sem se ver. E nem éramos grandes amigos na época. Eu era quieto, eu era uma criança quieta; não era dado a grandes conversas. Depois, com o tempo, eu fui amalucando, como diz a Escola Pernambuco. (risos)

 

P/1 - Teve uma base boa lá.

 

R - Eu não era de falar muito, era mais de observar. Mas foi legal. Nós nos reencontramos e casamos, estamos felizes. 

Foi a lembrança mais marcante. O resto, eu tinha lembrança muito de... Eu lembro de umas brigas de colégio na época. O Pedro II, que é um colégio próximo [de] lá. De vez em quando tinha umas conversas que eles iam invadir o nosso colégio... Rivalidade, mas uma coisa até romântica, nada comparada com as gangues de hoje. !O Pedro II vem aí! Vai ter briga!” Aí o pessoal dispensava, já saía mais cedo. Eu achava que devia ser boato da galera... Das crianças lá, para sair mais cedo. (risos) Mas mesmo as brigas, eu lembro de gente com ovo e farinha. Ninguém nunca machucado, que eu me lembre. 

Tinha umas excursões legais... Às vezes, aulas de música, ia ver uns concertos. Eu lembro de ir ao museu com o colégio. Era um tempo bom, talvez o último tempo que a escola pública era fantástica. Eu vi museu, fui a concerto, mas tudo isso em uma escola pública. 

Hoje em dia, até recentemente, uns anos atrás, eu fui à escola para dar uma olhadinha, [a] quantas andava lá, e está muito caída. Caída mesmo, baixou bem o nível. Hoje em dia, o pessoal escolhe escola particular naturalmente, escola pública é... Pelo menos [a] classe média mesmo da Tijuca vai para a escola particular hoje em dia. Naquele tempo, escola particular era ruim. A boa era pública.

 

P/2 - E você praticava esportes?

 

R - Eu jogava bola. Péssimo jogador, horrível, mas joguei bola [durante] anos, anos. (risos) Durante vinte anos eu joguei futebol, um beque dos piores. Eu acho que pior que o Felipão... (risos) O resto era brincadeira, pique... Futebol, eu adorava. Mesmo quando ia para o sítio, jogava bola o tempo todo. Era uma coisa assim, uma paixão mesmo. Infelizmente, eu era muito ruim. Se eu fosse menos ruim, de repente, podia até seguir uma carreira por esse lado. 

Depois, mais velho, joguei squash muitos anos, mas depois torci o pé e fiquei inutilizado para o squash. Hoje, [eu] caminho.

 

P/1 - Você torce... Assiste muito futebol?

 

R - Assisto. Adoro futebol, sou Flamengo doente, uma coisa, rubro-negro de coração. Eu quero ver até o trabalho de vocês, Museu do Flamengo.

 

P/1 - Quando que...

 

R - Desde menino.

 

P/1 - Por que você virou flamenguista?

 

R - Não sei. A minha família inteira é vascaína, todo mundo Vasco. Eu fui para o campo, a primeira vez, no Maracanã... Sei lá, [com] cinco, seis anos de idade. Eu era muito novo quando fui e junto com um monte de vascaíno, vendo o jogo do Vasco e virei Flamengo. Não sei se o Vasco perdeu, eu não me lembro a origem, não. Eu acho que era uma coisa de coração. 

Eu fui um marco na família. Era todo mundo Vasco; eu nasci, virei Flamengo, o resto veio todo para o Flamengo. Eu tinha um poder de persuasão bom. Os portugueses, geralmente, tem aquela coisa [de] português ser vascaíno, mas não sei como é que eu virei. Quando eu comecei a ir, muito novinho, [aos] seis anos… Acho que fui a um ou dois jogos do Flamengo, que estava mal na época, perdeu, mas eu gostei do negócio de raça - o Flamengo tem garra, tem raça. Eu lembro do Flamengo perder um jogo de goleada do Bangu, mas um centroavante chamado Almir enfiou a cabeça na lama e brigou com todo mundo, deu uma corrida. Eu gostei daquela coisa. Eu acho que foi, mais ou menos, a garra do Flamengo.

 

P/2 - Tem algum jogo antológico que você lembre? Que você tenha ido assistir?

 

R - Um deles foi esse, que o Almir - era o Pernambuquinho, que chamavam - pegou um cruzamento, ele enfiou a cabeça na lama. [Ao] invés de chutar com o pé, estava o campo enlameado, ele fez o gol com a cara na lama assim, enfiada. Foi um gol histórico. Depois teve a fase do Zico, tem vários jogos antológicos; aí foi título em cima de título. Foi uma época legal. 

Até hoje, eu gosto muito. Vejo sempre futebol. Decepcionado com a seleção, mas o Flamengo está sempre no coração.

 

P/1 - E na sua casa? Esses costumes, ou comida, ou algum hábito português que tenha passado com os seus avós?

 

R - Muitos. A ceia de Natal tem de ter o bacalhau. Comi muito bacalhau na vida. Almoço de domingo, quando tinha um aniversário, no dia das mães, sempre aquela coisa de juntar a família com alimentação portuguesa, bolinho de bacalhau. Eu comi tudo que você pode imaginar de português. Agora tem que segurar o colesterol, porque era bolinho de bacalhau, muita fritura, mas muito bom. A comida sempre foi em qualquer lugar do mundo, mas em Portugal, muito aquela coisa de juntar a família, então tinha sempre os eventos dominicais, aniversários. Bacalhau, carnes assadas... A minha avó cozinhava muito bem. Depois, tinha doces, rabanadas... Enfim, tenho muitas lembranças disso, muitas lembranças legais.

 

P/1 - E a sua adolescência, como foi?

 

R - A minha adolescência foi tranquila. Eu fiquei estudando naquele colégio público que eu falei. Eu conheci o pessoal da rua ali, do prédio. As minhas amizades eram todas da rua, do colégio e depois, mais tarde, fui para o Colégio Impacto para fazer o chamado pré... Primeiro e segundo ano pré-vestibular, que também era na Tijuca. Mas a minha vida era na Tijuca mesmo. Eu fiz o Impacto na Tijuca, fazia Cultura Inglesa na época também. Comecei cedo o curso de inglês. Então, a minha adolescência foi muito colégio, curso de inglês e as amizades do colégio, da rua... Vida de rua mesmo, coisa que hoje em dia está mais difícil. Não tinha aquele negócio de shopping, então as amizades eram vizinhos mesmo - vizinhos de edifício, vizinhos de rua e colegas de curso. Mas eu tenho boas lembranças, foi legal. 

Não tenho nenhuma lembrança específica. Não me lembro de grandes crises, aquela coisa adolescente, aquele pipocar de espinha. Não tive grandes crises, não. Foi uma adolescência comum.

 

P/1 - Pipocar espinha é ótimo.

 

R - É que tem pessoas que a adolescência é muito marcante, né? A minha não foi. Não tinha aquela coisa do rebelde sem causa, nem excessos. Tinha questionamento, claro, mas eu lembro de uma adolescência comum, não teve grandes questionamentos, “eu vou sair de casa”. Tinha aquela harmonia em casa. Estudava, tinha as pessoas legais que eu conhecia. Foi uma adolescência relativamente comum. Não teve grandes...

 

P/1 - E as paqueras?

 

R - Paqueras de rua também. Nada muito assim, não tive aquela coisa do “grande amor da vida.” Acabou que o grande amor da vida era daquele tempo, mas eu não sabia. Eu ia saber depois, né? Mas muita paquerinha de colégio também, de rua. Também nada muito... 

Os meus pais se conheceram com doze anos de idade e casaram, ficaram juntos o resto da vida. Eu não, tive muita paquera. Eu só vim casar mais tarde assim...

 

P/1 - Você lembra da sua primeira namorada?

 

R - Ah, menina de rua mesmo, uma vizinha. Uma menina de rua - menina de rua parece aquela coisa de “meninos de rua”. Menina da rua lá, mas nada muito marcante também. Não foi o grande amor da vida, não. 

A criança sempre tem aquela coisa do professor. Eu tinha sempre umas professoras que olhavam o colégio, mas não foi uma coisa que marcou no futuro. E a minha atual esposa, na realidade, não foi uma paquera do passado. Foi uma coleguinha. A gente, até hoje, acha que devia rolar um clima, pelo menos, mas não rolou. Não que a gente lembrasse.  

 

P/2 - Trocar lancheira...

 

R - Trocar lancheira, eu dava cola. A gente tenta lembrar um pouquinho, puxar do passado, mas não lembra de grandes fatos. Devia ter um clima implícito ali, que mais tarde aflorou. 

 

P/2 - Mas vocês tinham... Que tipo de programa que se fazia entre vocês adolescentes? Quer dizer, tinha baile...

 

R - Tinha, a gente tinha, entre os meninos ia ao Maracanã. Pô, eu passei a vida no Maracanã e tinha uns bailes. Na época, tinha o Montanha Clube, que era um clube ali na Tijuca também. Geralmente [no] domingo, depois do Maracanã, o pessoal ia para o Montanha. 

Tinha um clube chamado Country Club também, que tinha também uma dancinha...

 

P/1 - Onde era esse clube? Na Tijuca?

 

R - É, na Rua Uruguai. A gente era sócio lá. Eu até esqueci do clube. Eu também tinha... Era sócio lá. Então, nessa parte de criança, infância, adolescência foi muito lá. Piscina, aulas de natação, festinha aqui, ali. Coisa bem [de] tijucano. 

O tijucano é muito gregário, eu acho. Talvez porque tem muitos portugueses. Eu, por exemplo, morei em Nova York um tempo e é o inverso da Tijuca. Ninguém conhece ninguém. O teu vizinho de porta mora há cinquenta anos do seu lado, você nunca falou com ele; uma coisa “cada um na sua e faz o que quiser.” Na Tijuca, ao contrário, era aquela coisa muito gregária, tanto na família, quanto nas amizades, nas paqueras que sejam. Enfim, em tudo você tinha uma coisa gregária. 

A parte do clube tinha muita festinha, mas eu também não gostava muito. Ia, mas nunca fui muito de festinha. Gostava mais era do futebol, da conversa. Na época, não era uma cervejinha, mas era um refrigerante, mais do que aquela coisa mais [de] baile. Eu nunca gostei de carnaval, essa coisa mais confusa. Eu prefiro ir ficar na minha, quieto. Gostava mais de uma conversa. Enfim...

 

P/1 - Existia alguma expectativa na sua família para que você seguisse alguma carreira?

 

R - Expectativa? Não vou chamar de expectativa, mas tinha uma tendência achar que eu faria Direito porque eu tenho um tio meu, irmão do meu pai, que era advogado... É advogado, um defensor público, e fez uma carreira muito boa. E ele fez o... Eu, como não tinha assim, uma... Voltando um pouquinho no tempo, eu nunca tive uma carreira óbvia. Tem gente que quer ser cantor e o outro quer ser engenheiro. Eu nunca gostei muito de uma coisa específica. Eu gostava de tudo. Gostava de escrever para burro, mas era bom de fazer conta. 

Eu nunca fui muito aquele engenheiro típico, né? E se eu fosse fazer Direito, tinha o escritório dele, quer dizer, era uma coisa mais simples. Teve umas conversas, mas acabou que... A matemática prevaleceu. Eu era bom aluno de matemática, gostava e acabei fazendo Engenharia que, na verdade, não era bem o que eu queria. Depois, olhando no tempo, eu não ia conseguir, hoje, trabalhar em obra, cálculo estrutural, essas coisas que eu estudei. Um horror. Eu não tenho nada a ver com isso. Hoje eu enxergo isso, mas antigamente eu não enxergava. Era muito a coisa: “é bom de matemática, faz Engenharia ou faz Economia.” Eu fui parar na Engenharia por aí, mas, nas verdade, eu nunca gostei do curso, aquela coisa de... 

Estamos falando antes da conversa aqui, que o engenheiro só fala de trabalho. Eu sempre gostei de arte para caramba. Acabei casando com uma artista plástica. Adorava teatro, futebol. O engenheiro típico é muito voltado para as Ciências Exatas, eu não me enquadrava muito nisso. Mas fui fazendo o curso, fui descobrindo isso depois. 

Acabou que eu me especializei em transporte, que é uma coisa menos Engenharia, menos obra; eu cheguei a trabalhar em obra um tempo, mas achei complicado. Foi uma experiência ótima, mas... Pô, desisti no dia que eu mandei o camarada fazer uma garagem [e] ele fez uma garagem que não passava um carro. (risos) Foi o evento que eu larguei... Saí de manhã da obra [e disse:] “Faz uma garagem bonitinha.” Não passava um carro. Depois disso, falei: “Ou eu dou um grande esporro nesse cara ou eu desisto. Isso não é o meu negócio.” Acabou que eu fiz o curso de Engenharia, [me] formei e entrei na Vale por causa da coisa de transporte;  formei em Transportes, entrei na Vale e aí larguei a coisa da obra.

 

P/1 - Você fez na UFRJ?

 

R - Fiz na UERJ.

 

P/1 - UERJ.

 

R - Ali também na Tijuca, perto do Maracanã.

 

P/1 - Prestou o vestibular e entrou?

 

R - Prestei, fui superbem colocado lá. É onde eu queria ir, porque também era lá perto de casa. A minha vida, na época, era toda na Tijuca e a UERJ era do mesmo nível da UFRJ, só que pertinho lá de casa. Acabei optando pela UERJ, primeira opção, passei e fiz. Entrei na Engenharia, mas foi um curso assim, que eu achei... Adorei as amizades que eu fiz. Eu tenho amigos até hoje, mas o curso em si, aquela base científica, eu odiava aquilo. Eu não gostava não. Foi o último ______ da minha carreira.

 

P/1 - Teve um professor, alguma coisa assim, que te animava?

 

R - Não tinha nada que me animasse, a não ser as pessoas. Eu não sou um engenheiro típico. Se eu tivesse trabalhando em obra até hoje, eu seria profundamente infeliz. Foi uma excelente experiência, mas não é uma coisa que eu gostaria de fazer o resto da vida. E o curso de Engenharia tem dois anos que são uma coisa horrorosa, que é o curso básico. Eles dizem que é a base científica do resto do curso, então é álgebra linear, umas matérias. Eu sempre fui um bom aluno, ia bem, mas realmente não era uma coisa que eu me apaixonasse pelo que fazia. Foi legal que, depois que formei, entrei logo de estagiário na Vale e fui para o outro lado. Eu fui para a parte de exportação, fazer trading, parte de transportes e eu, sem querer, acabei saindo daquela coisa de engenharia padrão, tradicional, que é obra, cálculos... Enfim.

 

P/1 - Mas você fez Engenharia de Transportes?

 

R - Eu fiz Engenharia Civil e [me] especializei em Transportes. Eu trabalhei, talvez, uns dois anos com obra.

 

P/1 - Mas você se especializou em Transportes depois que estava na Vale ou antes?

 

R - Não, na faculdade ainda, antes de ir para a Vale. Depois, acabei entrando como estagiário na Vale e virei funcionário com a coisa de navio, de fretamento de navio. Tem a ver com a coisa de transportes.

 

P/1 - A Vale foi o seu primeiro emprego?

 

R - O meu primeiro emprego, desde estagiário. 

 

P/2 - Como foi esse estágio? Como é que ele surgiu?

 

R - Eu... Bom, isso... Em 1983, que eu estava ainda fazendo faculdade... Você sabe que eu nem me lembro? Eu mandei a minha ficha de estagiário e o meu pai tinha um conhecido, eu não me lembro nem quem era. Um conhecido, não era... Não foi assim, grandes pistolões, não. Mandei a minha ficha, tinha um conhecido e estava precisando de um estagiário em uma área meio nova que era a área de não ferrosos, que a Vale sempre foi minério de ferro. E não-ferrosos tinha alumínio, tinha... Celulose foi depois, mas tinha titânio, tinha manganês mesmo. 

Quando entrei, eu era estagiário de oito pessoas. Tinha oito chefes, cada um num produto; eu fiquei doidinho. (risos) Mas foi ótimo. Era titânio, alumínio e manganês. Fazia uns gráficos, era um monte de gente. Era uma superintendência de não-ferrosos. Não é o core da Vale, vamos dizer; não era na época, mas foi uma experiência legal. Eu conheci muita coisa, fora minério de ferro na Vale, muito rápido porque tinha oito chefes. Fiquei de estagiário e depois a área de manganês começou a desenvolver lá. A gente acabou até emendando para a Vale lá...

 

P/1 - Você tinha alguma imagem da Vale do Rio Doce, algum desejo...

 

R - Conhecia não, conhecia muito pouco. Eu conheci entrando. Eu tinha a imagem que era uma empresa grande. Na época, a Petrobrás, a Vale estatal eram empresas superconceituadas, mas nunca tive nenhum sonho de ir para uma Petrobrás, para uma Vale - muito pelo contrário, eu não sabia muito bem por onde é que eu estava indo porque eu fiz Engenharia, estava caminhando para as obras. Não gostava, então falei: “Pô, não sei como é que vai ser não.” (risos) Aí pintou a Vale. 

Não foi uma carreira muito planejada. Tem gente que faz o curso de Direito, entra no escritório, faz o concurso, planeja. Eu, realmente, não planejei porcaria nenhuma. Eu fiz a Engenharia pelo lance da matemática, mas sempre li muito. Eu acho que devia até ir mais para a área de Humanas. Se você pensar em formação, eu gostava muito de ler, escrevia bem. A Engenharia foi meio atípica na minha vida e acabou que foi dar na Vale, que foi muito legal porque não é uma empresa de engenharia típica, apesar de estar cheia de engenheiros. Vocês devem ter entrevistados uns mil, mas a parte que eu entrei, que era de transportes, navio, acabou virando para a parte [de] trading, comercial, exportação. Foi um caminho diferente que não... Eu não tinha uma formação específica disso, mas acabei aprendendo e foi muito legal. Eu gostei.

 

P/1 - Você fez quanto tempo de estágio?

 

R - Eu fiz um ano e pouco de estágio. E aí, depois... Eu estava falando isso, a área de manganês começou a desenvolver. Quando era estagiário, a gente fazia transporte de manganês de Carajás de caminhão para o porto. Não tinha ferrovia ainda, a ferrovia foi inaugurada em 1985. Eu lembro de mandar caminhão, como estagiário ainda, mandar caminhão de manganês. O caminhão atolava, era uma coisa de louco. 

Depois, em 1985, quando eu entrei na Vale, entrei para a parte de vendas e transportes de manganês mesmo. O manganês começou a desenvolver. A minha entrada foi essa. Um dos meus oito chefes, lá na época de estagiário, era de manganês. Tinha alumínio... Entrei de manganês. Trabalhei um ano e pouco de manganês, depois fui para a área de alumínio. Eu fiquei muitos anos, mas a entrada foi assim: Engenharia, transporte, trading, exportação. E por aí foi.

 

P/1 - Como era essa coisa do manganês - o mercado, como é que fazia a venda?

 

R - A gente, na verdade, começou a vender manganês naquela época, [em] 1985. Foi uma das primeiras vendas. Eram produtores de ferroliga que tinham umas empresas em São Paulo, tinha uns três ou quatro clientes em São Paulo. Mas [era] muito atípico em termos de Vale do Rio Doce, porque a Vale do Rio Doce é minério, uma grande quantidade, tonelagem. Às vezes, a gente botava em quilos a quantidade, aí o pessoal da Vale nem... “Pô, o pessoal lá está vendendo quilos. Aqui são milhões de toneladas.” (risos) 

Isso tem um lado bom e o ruim. Eu trabalhei... A minha vida na Vale foi manganês, alumínio, celulose. O lado bom é que eu aprendi coisas incríveis, inclusive, trabalhando com empresas que tem sócios. Mas mesmo em tempo de estatal eu trabalhei em empresa quase privada, porque tinha sócios. E o lado menos bom é que o pessoal da Vale de minério sempre tem aquela coisa de minério, muita quantidade, essas porcarias aí. “São só cinco milhões de dólares.” Minério sempre teve peso muito grande, mas foi um aprendizado superlegal para mim, conheci outras coisas. 

O manganês, na época, a gente começou a vender e tinha, na época… Eu lembro de uma operação que era uma coisa inédita. A gente trazia, já com a ferrovia, manganês de trem para São Luís; botava num navio, trazia para São Paulo, levava para Santos, onde moía o manganês. Era um manganês bom para fabricação de pilha. 

Era uma operação inédita na Vale porque a Vale pegava minério, botava no pátio, exportava para o mundo todo - logística mesmo. Hoje, está na moda falar em logística. Naquele tempo não era nem tão valorizado assim, mas a gente tinha que fazer a ferrovia até... Eram navios pequenos, trazia para Santos; em Santos fazia a moagem e ensacava. Era um produto que tinha uma quantidade pequena de manganês. Era bióxido de manganês, para pilha na época. E foi uma operação que foi indo bem. Além disso, tinha um manganês, dito granulado, que já era mais parecido com minério porque era a granel, mas em quantidades muito menores. Os navios eram menores, que dizer, não tinham nada a ver com os navios [com] que a Vale transportava minério de ferro. O trem não, era praticamente a mesma coisa porque era minério, mas [em] quantidade pequena.

 

P/2 - Eram vocês que contratavam esses navios?

 

R - Isso. Eu entrei na Vale assim, nesse negócio de contratar o navio para fazer essa fofoca toda, de levar para cima, para baixo, mói, tal. Entrei no meio dessa história. No meio dessa história, comecei a fazer vendas também. Foi daí que eu passei para a parte mais de trading, exportação, mas eu entrei nessa logística de transporte, que é a minha formação. Acabou que eu fui para outro caminho, mas é a minha formação.

 

P/1 - Mas como você foi participar? Você foi convidado? Você tinha algum destaque? Como é que você foi fazer essa... Parar em vendas?

 

R - Foi quase que natural porque eu estava me destacando na área. Eu estava fretando navios e acho que a coisa mais nobre era a parte das vendas. Comecei a conhecer os clientes, vender e comecei a trabalhar muito com exportação, porque  [a Vale] começou a desenvolver a exportação de manganês. E nesse ínterim… Eu estou falando isso tudo, mas foi em um espaço de tempo não muito longo - um ano, um ano e pouco. Logo depois, eu fui para o alumínio, que também era uma das áreas que eu tinha lá atrás estagiado. 

Em alumínio, já comecei a realmente... Era um antigo chefe que eu tinha no manganês que foi para o alumínio, me levou junto. O Quitela que me deu muita força no início da carreira e aí... O Quitela Filho - tem o Quitela pai que era diretor. Ele foi para o alumínio, eu fui trabalhar lá junto com ele. Comecei a entrar em vendas direto, já com a parte mais de trading mesmo, que acabou sendo o meu caminho na maior parte do tempo na Vale.

 

P/2 - Conte um pouquinho essa coisa da venda de minério. Como é esse processo de negociação e de vendas disso?

 

R - Do minério eu nunca participei, participei de manganês e alumínio. Foi uma experiência bem diferente porque o minério de ferro - eu não tenho experiência de venda nesse produto - é uma vez por ano que você senta, negocia até a morte, fecha o preço e resolve. Essa é a experiência que a Vale tem há muitos anos, de negociações de preços anuais, de preços que têm uma variação muito pequena.



P/1 - Você senta uma vez no ano para fazer isso?

 

R - É, senta uma vez, resolve o preço do ano. Essa experiência é da Vale minério, acho que isso tende a mudar. Cada vez o mundo está mais moderno em investimentos de _________, outras coisas. O minério ainda tem uma coisa um pouco antiga nessas negociações, de um preço por ano. A coisa, hoje em dia, acho que é mais volátil, mesmo com produto de minério de ferro, que é um produto que tem uma quantidade enorme fixa. Mas a minha experiência foi toda no manganês, que era uma... É um minério assim, mas era um produto... De pilha era em sacos, então o preço [era] muito mais negociado, em vários momentos no ano. E depois, aí sim, o alumínio que foi a minha maior experiência, que é um produto que é uma commodity, quer dizer, o preço varia em um dia. A bolsa subiu ou desceu. A minha experiência comercial, na maior parte do tempo, foi com alumínio, com o preço muito volátil, bolsa de Londres, entendeu? É uma coisa que também na Vale não era uma coisa comum - aquela coisa de negociar o preço uma vez por ano, no alumínio uma vez por dia. Você faz negócio e o preço cai, tem que fazer regra. 

Isso foi já o quê? 1987, talvez. Fui para a Valesul Alumínio, sociedade da Vale com a Billiton. Aí eu comecei realmente a exportar muito alumínio, principalmente para os Estados Unidos.

 

P/2 - Nesse período inicial, você trabalhava com qual alumínio? Que vem da Albrás?

 

R - Eu trabalhava nesse período inicial com alumínio, principalmente, da Valesul. A Albrás também, mas principalmente a Valesul, tanto que eu fui trabalhar na Valesul. Durante três anos, eu trabalhei na própria Valesul, exportando alumínio. Exportando e vendendo no mercado interno alumínio da Valesul.

 

P/1 - Como era na direção geral da Vale, nesse momento - quer dizer, o que se priorizava e apostava nessa.. Nos não-ferrosos? 

 

R - Naquela época, eu lembro que... Quando eu entrei, era minério de ferro só. Segundo minério de ferro, terceiro minério de ferro, quarto espaço vago, branco, branco, décimo oitavo era o alumínio e o manganês. Meio que [foi] assim que começou. Mas foi a mesma época que a Vale começou a diversificar e, aos poucos, foi começando a focar um pouquinho mais nesse negócio. Não é um negócio até hoje, não é do porte do minério, mas [era] um negócio que a Vale tinha vantagens competitivas enormes. No caso do alumínio tinha a questão da energia, tinha reservas de bauxita imensas. A gente viu que o negócio tinha um potencial grande, aí começou a desenvolver. 

O manganês já era minério na mesma região de Carajás, então [era] um produto mais natural de sair porque já estava lá o Complexo de Carajás. O alumínio não. Teve que investir em smell, que era da Albrás, Valesul, mas aos poucos foi ganhando força. E depois, celulose foi mais ou menos no mesmo tempo. O Brasil tinha grandes vantagens competitivas; tem florestas de crescimento rápido, tecnologia florestal. Alumínio e celulose foram duas diversificações naturais. 

Na época, estudava-se outros produtos. Tinha um projeto de titânio que acabou não caminhando, não indo em frente. Eu acho que os principais não-ferrosos, não core, na época, eram o alumínio e a celulose. Hoje, a celulose está em processo de venda. O alumínio está sendo focado, até porque tem a bauxita, que é um minério que tem enormes reservas e o Brasil tem um custo mais barato. Tem a alumina, tem o alumínio. Acabou que a Vale entrou direto nesse processo.

 

P/2 - No dia a dia... Quer dizer, você vai contratar... Se fosse contratar a ferrovia, como é que ficava isso na relação com minério de ferro? Tinha boicote interno, se não você vai ficar para último da fila.

 

R - Não era um boicote, mas uma falta de prioridade sim. Eu lembro de alguns estudos do Assináglio... Enfim, para fazer transporte de alumínio, transporte de manganês e não estão errados. Uma transporta trezentas mil toneladas de minério e aí vem um chato: “Vem cá, tem um aluminiozinho aqui, pequeno...” “Pô, mas só são três milhões.” Na época, a gente meio que começou esse negócio, teve que desbravar umas resistências internas. Não vou chamar de boicote de forma nenhuma, mas que havia umas resistências, havia, por ser um negócio, na época, pequeno em relação ao todo. Depois, com a Vale-Sul, Albrás, que são projetos de um bilhão de dólares da Cenibra, um bilhão não sei onde, aí começou a ganhar peso - um peso ainda, até hoje, pequeno dentro da receita total da Vale, mas com um caminho próprio, com uma prioridade própria, com uma equipe própria. Foi melhorando. Na época, tinha uma resistência assim em coisas menores na Vale.

 

P/2 - E a carteira de clientes, ela foi se ampliando? Como foi isso?

 

R - No caso do alumínio, foi uma coisa… Bem, como é que eu vou dizer, no varejo, porque a gente fazia vendas principalmente para os Estados Unidos, na época - pelo menos a Valesul, que era onde eu estava na época. A Valesul tinha uns produtos específicos de billets de alumínio, umas ligas de alumínio que vendia para diferentes clientes nos Estados Unidos, então o que a gente tinha na época? Tinha um escritório, ainda tem até hoje, em Nova York, na ________ América; eles recebiam lá o alumínio no navio e revendiam pedacinho a pedacinho, porção por porção para os clientes. [Um processo] também muito diferente do minério de ferro. Você enche o navio e manda para o cliente, né? O trabalho americano era bem picadinho. A gente tinha que fazer... Tinha alguns contratos maiores, nós botávamos para o navio, sei lá, mil toneladas; chegava lá nos Estados Unidos, o cara botava no armazém, ia vendendo vinte toneladas para um, cem toneladas para outro, quinhentas toneladas para outro. Um trabalho bem no varejo, bem formiguinha mesmo. 

Eu vim a conhecer os clientes depois, quando eu fui trabalhar lá. Até por estar trabalhando nisso, exportando para lá, eu acabei indo trabalhar lá, importando isso e trabalhando no varejo, vendendo no varejo. Totalmente diferente isso do minério de ferro. Totalmente diferente até mesmo do alumínio primário, que você também põe no navio em grande quantidade e vende. Como eram ligas especiais e billets, você tinha que ir lá, pega o avião, aluga o carro, vai ao cliente, conversa com o cara lá no interior, vende uma quantidade pequena. 

Hoje em dia até está... Acho que nem sei se tem mais essas vendas de billets. Hoje em dia, que eu saiba, é mais o alumínio primário, ou ligas, uma coisa maior. 

 

P/1 - Que função especificamente você assumiu na Valesul?

 

R - Na Valesul era assistente de vendas. Trabalhava na parte comercial e também sempre um pouquinho no transporte, na venda, logística. Eu fiquei lá até 1989. Depois, a Valesul mudou o sistema. Fizeram um tolling agreement com a Billiton. Antes, a Valesul era empresa plena, depois ficou... Os dois acionistas comprando as matérias-primas e revendendo, deu uma mudada, mas neste período eu fui para os Estados Unidos. 

 

P/2 - Esta entrada nos Estados Unidos, quer dizer, do alumínio, tinha alguma dificuldade? Os Estados Unidos colocava alguma barreira para esse alumínio? Não, ao contrário?

 

R - Não, não tinha dificuldade. Estes clientes nossos lá, eles... Na verdade, os principais clientes eram para fazer perfis: existiam os ______ de alumínios e para fazer roda, liga-leve. Roda de alumínio, grandes montadoras, GM. Essas empresas tinham fundições, compravam esse alumínio e precisavam da matéria-prima mesmo. O alumínio, como commodity, sempre foi muito de fácil circulação no mundo todo, como a celulose é, mas o nosso era específico por causa da necessidade de certos elementos químicos naquele produto, de liga para fazer aquele tipo de roda. 

Sempre teve dificuldade, mas não diria barreira. Chegar nos Estados Unidos, o Brasil… O cara tem aquela imagem que vai chegar lá, vai vender, não vai entregar e vai sumir, então o discurso sempre quando você chega no cliente é: “We are here to stay.” “Nós estamos aqui, é uma empresa grande.”  Aí leva o balanço da Vale, mostra o quanto ela fatura, porque o cara lá no interior de Indiana, sei lá onde, que vai receber um brasileiro, um venezuelano, sempre tem aquele preconceito do “esse cara vem aqui, vai me vender, eu vou pagar, não vai me entregar e nunca mais vai aparecer aqui.” 

Isso não deixa de ser uma barreira. Você tinha que ter um convencimento que era uma empresa sólida. Por trás da venda pequena de alumínio tinha uma empresa de bilhões de dólares no Brasil, a maior mineradora do mundo. 

Essa era a barreira, então você tinha que ir ganhando a confiança do camarada, desenvolver isso. 

 

P/1 - Você tinha, nessa época… Você gostava de estar nesse lugar, pensava em trabalhar com minério?

 

R - Eu gostava, gostava muito. Na verdade, o tempo em que eu trabalhei na Valesul foi muito legal porque a Vale, até 1987, era estatal. Tinha uma coisa meio pesada de estatal que eu participava porque tinha umas áreas comuns, corporativas, mas indo para a Valesul, que tinha sócios privados, uma administração diferente. No fundo, foi uma experiência privada para mim, uma experiência na iniciativa privada dentro da Vale do Rio Doce, por incrível que pareça. 

Isso foi muito útil para mim depois da privatização. Para todos nós que estamos há alguns anos lá na Vale depois da privatização foi uma mudança grande, de cultura, de tudo. Nessa minha experiência em diferentes empresas, quer dizer, Valesul e lá fora, nos Estados Unidos também, eu nunca tive demais aquele peso da estatal em cima de mim. As minhas experiências foram sempre com outros produtos. Eu conhecia bem o minério e as pessoas, até com as funções em comum, corporativas, mas não tinha experiência de poder decidir, fazer rápido. Não aquela coisa que decide, tem que ter oito hierarquias até fazer. A minha experiência foi bem mais tranquila nesse aspecto. Foi uma experiência útil para hoje, pós-privatização. 

 

P/1 - E tinha algum projeto, alguma política ambiental paralelamente a esse... Ao alumínio, a madeira... Celulose?

 

R - A política ambiental... A política ambiental surgiu muito naturalmente, provavelmente com o desenvolvimento das preocupações ambientais no mundo, mas muito ligado à celulose pelo fato… Pelo link com a floresta, porque você para ter floresta você tem aquela coisa: “Vai cortar as florestas nativas? Pelo amor de Deus!” E a gente… Tanto que todas as vendas, todos os contatos… A celulose é feita de floresta 100% plantada, eucalipto que você... No fundo você adquiriu terrenos que não tinha nada em cima, plantou, deixou crescer sete anos, cortou - e depois planta de novo, deixa rebrotar. Essa coisa ambiental, quando você vende, principalmente para o exterior, tem que ter muita preocupação em deixar claro que não está se cortando uma árvore nativa e sim árvores plantadas. 

 

P/1 - Quando você entrou nesse mercado já estava dada essa questão? 

 

R - Já, já. 

 

P/1 - Ou você sentiu que isso cresceu lá?

 

R - Já tinha essa preocupação, mas ao longo do tempo aumentou muito. Ao longo dos últimos, sei lá, dez, quinze anos, aumentou muito essa consciência. A Vale sempre foi uma empresa muito à frente do tempo nesta parte ambiental, sempre cuidou muito disso. Preocupação antiga, desde o doutor Eliezer, mas no caso da celulose essa questão é mais séria porque se você não tiver isso não vende. Não é o meio ambiente por causa dos passarinhos. Tem que proteger os passarinhos, mas no caso da celulose, que lida com floresta, se não tiver essa preocupação você não vende, fica economicamente inviável. Quem faz celulose cortando a árvore nativa, se ocorrer isso no Brasil não vende.

 

P/1 - Como é que a Vale faz?

 

R - A Vale planta 100% das árvores. Florestas renováveis, 100% plantadas, ao contrário de outros países que são rivais nossos, tipo a Indonésia, que corta árvore nativa para vender. Ao longo do tempo, eles vão sofrer as dificuldades desse tipo de coisa. 

 

P/2 - Voltando um pouquinho para a Valesul, em relação a... Há uma certa polêmica em torno da Valesul. Não sei se quando você entrou isso existia ou não...

 

R - Qual polêmica?

 

P/2 - Em torno de construir a Valesul no Rio de Janeiro. Ainda na época da construção isso ainda tinha algum resquício...

 

R - Eu ouvi a história. Eu, quando entrei, já estava construída, mas ouvi a história da polêmica da localização. É muito em função da energia disponível, enfim, o alumínio é eletrointensivo mesmo e hoje está aí nas manchetes com o racionamento, como é que vai fazer. Qualquer corte na área do alumínio tem um impacto enorme. 

Eu ouvia falar das polêmicas, mas quando entrei já estava funcionando direitinho.

 

P/2 - A logística já tinha sido toda pensada.

 

R - Já, tudo tranquilo. Depois eu lembro, quando saí do alumínio é que eu acompanhei a Valesul adquirindo hidroelétricas ou participação em hidroelétricas para ter sua energia própria. No meu tempo não tinha. Depois, foi comprando algumas fontes de energia para ter essa garantia. A energia também foi se agravando com o tempo, até chegar no limite hoje, que está racionando tudo. 

 

P/2 - E o convite para os Estados Unidos, como foi?

 

R - O convite foi quase que uma decorrência do meu trabalho no Brasil, exportando o alumínio. Na época, o gerente da área, o Luiz Fucs - ele hoje está até na Embraer em Singapura, ele era a minha contrapartida lá. A gente exportava e ele importava. Ele estava precisando de alguém para ajudá-lo, me convidou e eu fui ajudá-lo lá. Isso foi em 1989, fazendo a outra ponta. Aqui eu fazia toda a logística e as vendas para os Estados Unidos e lá recebia o alumínio e fazia a distribuição e as vendas.

Ele me convidou para ajudá-lo lá, eu fui, só que tipo um mês depois que eu fui, ele foi convidado para ir para Bruxelas, aí eu fiquei sozinho lá. Assumi lá e foi um baque mesmo. Foi no peito e na raça. Eu ia para lá para ajudá-lo a fazer uma transição, e a saída dele foi muito rápida. Foi um mês depois o convite lá para Bruxelas e aí eu fiquei com a bola toda lá, tive que me virar. 

Foi ótimo. Eu acho que a gente aprende assim mesmo, trabalhando. Não tive muita transição, não. A minha transição foi de algumas horas, que eu já comecei... Quando eu cheguei, eu já sabia que estava saindo, [foi] “se vira aí, meu irmão, e vamos nessa.”

 

P/1 - Mas lá, basicamente, você se dedicava a quê? A parte comercial?

 

R - A parte comercial. Comercial e logística, porque a gente recebia o alumínio, estocava nos Estados Unidos e a nossa função lá era pegar o alumínio, vender e entregar. Para isso, você tinha que ir em cada cliente. Tinha que fazer o sistema de transporte também, contratar trem, caminhão, entregar para os diferentes clientes numa venda bem… Aquela venda varejo que eu estava falando, um pouquinho para cada um. 

 

P/1 - E você fez alguma especialização lá, em função de estar indo mais para essa área?

 

R - Eu fiz alguns cursos lá, mas nenhum curso assim. Eu não fiz um MBA, essas coisas, mas eu fiz vários cursos na New York University, que era ali perto do trabalho. Fazia de noite alguns cursos na parte mais financeira e contábil, porque eu não tinha uma formação grande nisso. Era só a formação do curso de Engenharia. Eu dei uma desenvolvida nisso, a parte de International Business, que é uma coisa que eu estava envolvido. Eu fiz um curso específico disso. A parte de trading de commodities, eu também fiz um curso disso. Quer dizer, alguns cursos pontuais, dando uma complementada na minha formação do que eu estava fazendo lá, mas a maior parte das atividades foi no peito mesmo. 

Eu fui fazendo... No início, eu falava inglês de Cultura Inglesa, mas é diferente chegar lá no inglês de black american. Eu chegava: “Rararara.” Você não entendia nada. Por mais que você tenha uma formação em inglês, chegando lá, ao vivo e a cores, é bem diferente. Ainda mais à trabalho, que qualquer besteira que você faz no telefone, não entendeu direito, dá um problema na entrega, na venda... Sei lá. Isso foi um desafio para mim, para ficar prestando atenção para não perder palavras, mas depois, com o tempo, eu fui pegando rápido, desenvolvi bem o inglês e a coisa ficou natural. 

No início é que ficou mais difícil, evidentemente, mas eu me adaptei muito rápido a Nova York. Nova York é uma cidade fantástica e, para mim, foi até uma surpresa, porque eu fui tijucano a vida inteira que é aquela coisa [de] família que eu estava descrevendo. Jogado em Nova York, sem chefe, solteiro na época... Ou você vai em frente ou para e volta para trás. Eu fui em frente legal. Acho que eu me adaptei superbem, adoro Nova York, adorei na época. Depois que você começa a trabalhar e a língua fica mais fluente, a cidade tem mil encantos, eu achei o máximo. Gostei muito... Eu [me] adaptei bem rápido, na minha opinião.

 

P/1 - E em termos de vendas, você ficou quanto tempo lá?

 

R - Olha, eu fiquei, na verdade em Nova York cinco anos. Só que no segundo ou terceiro ano... Dois anos e meio depois que eu estava nisso, a Vale resolveu retomar a comercialização de celulose, assim que eu entrei na celulose, que é o que eu faço até hoje, nos últimos anos. Porque a Vale tinha... A Cenibra, né? Tinha uma participação da Cenibra com o japonês e as vendas da celulose da Cenibra nos Estados Unidos eram feitas através de uma empresa japonesa de outro sócio. E a Vale resolveu que quem tinha que fazer era a Vale, porque tem uma comissão de agenciamento. A Vale abria mão para o sócio de receitas que eram originalmente da Vale, então em 1991 resolveu-se criar a área de celulose no escritório, [para]  começar a venda de celulose nos Estados Unidos através da Vale. E eu já estava com uma equipe montada com alumínio. 

As vendas de alumínio também deram uma caída na época, o preço estava ruim,  mas ao invés de criar uma outra área com outra pessoa vinda do Brasil, juntaram na minha e eu fiquei com alumínio e celulose. Então, em celulose, a gente realmente criou o sistema todo, desenvolveu as vendas. Tinha já alguns clientes tradicionais, a gente deu uma desenvolvida e montou um esquema todo de venda de celulose. Praticamente [por] dois anos e meio, três anos, eu fiquei nos Estados Unidos, vendendo principalmente celulose e um pouco de alumínio.

 

P/1 - Quem eram esses clientes tradicionais?

 

R - No caso de celulose, os dois principais eram Proctor & Gamble e Kimberly & Clark, dois enormes fabricantes de _______: papel sanitário, papel toalha, essas coisas. Clientes gigantescos. A Cenibra, até hoje, vende muito para esses clientes grandes. 

No fundo, foi isso aí. Eu passei para a celulose; como tinha uma equipe montada de vendas trabalhando nesse alumínio, a celulose meio que se acoplou, apesar que as vendas são diferentes, o sistema é diferente, preços diferentes - é bem diferente. No fundo, não tem muita coisa a ver uma com a outra, mas acabei ficando com os dois.

 

P/1 - Você tem número de vendas nesse período? Quer dizer, quanto era no começo, quanto foi...

 

R - Não tenho de cabeça, mas eu acho que a gente vendia, sei lá, uns cem milhões de dólares por ano, por aí. Cinquenta a cem milhões de dólares por ano passou a vender. Clientes grandes.

 

P/2 - Tinha uma forma de negociar com americanos, quer dizer, que é um...

 

R - Tinha. No caso do alumínio, o preço é baseado em bolsa. Tem a base da bolsa e você, em cima daquela base, tem um prêmio ou um desconto e negocia individualmente mesmo, por venda, no caso do alumínio na época. Era um alumínio ligado, um alumínio especial; não era o alumínio primário. 

No caso da celulose, é um produto... Celulose de eucalipto - um produto que só recentemente que tem uma bolsa, foi em 1997, 1998, sei lá - a negociação era mensal, por cliente. Todo mês, você tem que negociar o preço. Existe uma tendência de mercado, existem preços de listas ______, mas você negocia com cada cliente todo mês. Eventualmente, nos últimos tempos, tem umas negociações trimestrais. No tempo que eu estava lá, era sempre mensal a negociação. De novo, não é como minério de ferro que era anual, uma vez. [Havia] grandes oscilações de preço. Subiu o preço, tudo está ótimo; abaixou o preço, tudo está péssimo, então o segredo era conseguir manter um equilíbrio nessas altas e nessas baixas de mercado.

 

P/2 - E os compradores de celuloses já eram grandes empresas?

 

R - Enormes.

 

P/2 - Maiores do que as empresas de alumínio?

 

R - Exatamente. Na realidade, esse fato é a origem de uma série de coisas que foram acontecendo na indústria de celulose no Brasil - até a nossa decisão de vender, porque os compradores de celulose internacionais são imensos, são companhias grandes. O mercado de celulose e papel é muito pulverizado, mas existem grandes empresas compradoras que se concentraram. E nós, produtores, estamos muito pulverizados até hoje. Especialmente o Brasil, que é o país que tem o menor custo do mundo, as melhores florestas, as melhores condições, as melhores tecnologias, tem tudo, mas tem várias empresas. Tem empresa familiar, tem a Vale do Rio Doce, que tinha sócio brasileiro, sócio japonês e tem grupo... A Aracruz, que tem três sócios. Todos os grandes produtores brasileiros são pulverizados, então a ideia do próprio governo dando apoio é de fazer uma concentração disso, de alguma forma, consolidar. 

A Vale, quando privatizou, tinha o plano de consolidar as empresas, fazer uma fusão da Bahia Sul com a Cenibra e negociar com uma terceira. Esse era o plano da Vale privada, só que a gente parou no japonês, que não queria fundir com ninguém. Queria ficar sozinho na Cenibra, não queria fazer fusão, não queria consolidação. 

A coisa foi evoluindo até uma decisão de venda. Naquela linha, se a Vale não pode ser a melhor do mundo nesse negócio, não vai poder desenvolver, não vai poder crescer para a consolidação, então é melhor sair. Estamos saindo. A Bahia Sul foi vendida e a Cenibra está sendo vendida, exatamente para o grupo japonês que não queria fundir, não queria associar, não queria consolidar. Vai comprar, fica sozinho até o dia que ele achar que tem que crescer. Mas aí é opção dele.

 

P/2 - Porque o mercado de celulose hoje, a balança do preço tende para o comprador? Eles estão muito mais organizados, não?

 

R - Eu não diria que o preço... A velha história, o preço é a oferta e demanda. Mas eu diria que o comprador tem um poder de barganha maior que o vendedor. Não é aquela coisa clara que tem mercados que [para] o comprador o preço prevalece. Ele impõe, está acabado. Não é assim, mas numa negociação...

 

P/1 - Tem uma produção pulverizada...

 

R - Na negociação, o poder de barganha fica para o... Com a vantagem para o comprador e não para vendedor. Eu estou falando assim porque no alumínio antigamente, [na] década de 70, 80, tinha o preço de lista que os grandes produtores - eram sete, sei lá - definiam o preço; era aquilo mesmo, você [que] se virasse. Era o preço definido unilateralmente. 

A celulose não é assim. É o mercado; oferta, demanda, preço alto, preço baixo, mas numa negociação você realmente tem um peso maior do lado do comprador do que do lado do vendedor. Daí a ideia de consolidar, tanto que na venda da Cenibra, quem ganhou o leilão que a Vale fez foi o Grupo Aracruz e o Grupo Votorantim juntos. Provavelmente, depois dessa compra, eles iriam fazer uma consolidação posterior, crescer, só que o japonês tem o direito de exercício de preferência pelo acordo e exerceu.

 

P/1 - Por quanto foi vendido?

 

R - 670.5 milhões de dólares. E a Bahia Sul, 320 milhões, né? Quase um bilhão, com a venda desses ativos.

 

P/1 - Como é que fica essa diretoria agora?

 

R - Vai acabar. Na realidade, nós temos quatro ativos: Bahia Sul, Cenibra, Florestas Rio Doce e Celmar. As duas maiores, a Bahia Sul já foi vendida e paga, acabou. A Cenibra foi vendida, mas ainda falta o fechamento, o pagamento, troca de ações. E está agora no processo de Florestas e Celmar, que eu acredito que vai durar mais uns dois meses, aí a diretoria perde a função, na verdade. A diretoria existe para fazer a gestão dos quatro ativos; sendo vendidos os quatro ativos, não tem motivo para ter diretoria.

 

P/1 - Entendi.

 

P/2 - O senhor ficou nos Estados Unidos _______. Como é que foi esse retorno para o Brasil? Em que momento isso aconteceu?

 

R - Bom, eu voltei em 1994 e fui para lá com o alumínio. Do alumínio encaixou a celulose e da celulose eu acabei voltando para o Brasil como superintendente de produtos florestais, porque eu fiquei lá vendendo a celulose uns dois, três anos. 

Em 1994 houve uma troca aqui das pessoas e eu acabei assumindo... Eu fui convidado para ser superintendente de produtos florestais que, depois em 1997, virou uma diretoria de celulose e papel. Mas é função parecida, o principal foco é gestão dos ativos florestais. Na época que eu vim, em 1994, [era para o] desenvolvimento de alguns projetos que acabaram não saindo - mais de madeira, mas aí voltou um pouquinho aquela coisa do passado. O minério de ferro é enorme, de celulose é pequeno perto do minério de ferro; madeira é pequeno perto da celulose, aí desenvolver projetos de madeira acabou ficando uma coisa parecida com o desenvolver celulose lá atrás. Ficou pequeno até para a celulose. Acabou que não foi muito em frente e até a decisão da venda [aconteceu] aí. Mas a principal função era administração e gestão dessas empresas, e tanto Cenibra quanto Bahia Sul [eram] empresas enormes e, na verdade, com muitas dificuldades. 

A Bahia Sul começou a produzir num momento de baixa de mercado. Teve enormes dificuldades nos seus primeiros anos e a Vale teve que comparecer como acionista, para dar um aporte de recursos quando necessário. O endividamento [era] muito alto e aí teve a privatização em 1997. A área toda devia valer, na época, uns duzentos milhões de dólares, na avaliação de quem comprou a Vale. E de 1997 para 2000, 2001, isso virou um bilhão, tomadas as ações imensas de... No caso da Bahia Sul, reestruturação financeira. No caso da Cenibra, reestruturação operacional, custos.

 

P/1 - Foi isso que mudou... O que mudou basicamente, ___________ com a privatização?

 

R - Olha, no caso da celulose, mudou tudo porque a Bahia Sul tinha problemas sérios financeiros e a Cenibra tinha problemas sérios administrativos, operacionais. O foco quando privatizou foi realmente resolver os problemas financeiros da Bahia Sul e baixar os custos da Cenibra. E isso foi feito com uma alegação de valor estúpida, né? Foi em três anos, duzentos milhões viraram um bilhão. 

Eu me lembro que na época da privatização existia uma pressão enorme para que se vendesse a área. Vender a Vale fatiado, tinha interessados. Mesmo os interessados agora estavam interessados na época. Para eles era muito melhor comprar na época, era muito baratinho. A empresa não estava bem, mas a opção da companhia foi desenvolver, melhorar as empresas, agregar valor e aí decidir se quer vender ou não. Decidiu que quer vender, mas no momento que as empresas estão em ótimo nível, né? Mudou muita coisa. 

A Cenibra e a Florestas tinha também uma... Como é que eu vou dizer? Uma marca grande dos tempos de estatal. Tinha algumas indicações políticas, a Floresta tinha sete conselheiros; não precisava, mas tinha. Então era político, não sei o quê. Não que isso seja exclusivamente responsável pela empresa não estar bem, mas com impacto. Privatizou empresas que existiam subsidiárias acabaram, conselhos necessários acabaram; escritórios necessários acabaram. A Cenibra tinha um escritório de cento e tantas pessoas em Belo Horizonte; virou dez, quinze. Funcionou muito melhor. Quer dizer, houve realocação de pessoas, desligamentos, mas havia um pouco essa coisa de estatal nessas empresas.

 

P/2 - Esse processo, quer dizer... Em relação à reestruturação no setor pós-privatização, como é que isso foi feito levando em conta os sócios? Quer dizer, nessa relação com os japoneses, _______.

 

R - Na realidade, a Vale fez um belo plano, e esse plano foi conversado com o sócio. No caso da Cenibra, o sócio japonês não atrapalhou, vamos dizer assim, porque era para reduzir custo. Reduzir custo é em benefício da empresa, portanto para os dois sócios, então eles deram força. Na verdade, a iniciativa foi toda da Vale, mas o japonês não atrapalhou, deu força. Os custos foram reduzidos. 

No caso da Bahia Sul foi diferente porque era uma reestruturação financeira, endividamento muito alto. Geração de caixa e endividamento era onze para um, passou a ser dois para um. Quer dizer, é também interesse da Suzano fazer essa reestruturação. E no caso da Bahia Sul, aí sim, uma colaboração foi em conjunto mesmo. Houve muitas negociações com Suzano, Vale, com o próprio BNDES, que é o credor principal. Foi feito em grupo mesmo, para melhorar o perfil do endividamento da empresa. No caso da Cenibra que foi mais custos operacional, administrativo, custo de madeira. Aí o japonês consentiu. A Vale tomou iniciativa, o japonês consentiu.

 

P/2 - E a própria Vale é que liderou o processo...

 

R - A equipe que fez isso. Sem dúvida. A equipe lá é bem unida; teve uma reduzida grande depois da privatização, também. De 1997 para cá, a gente trabalha com dez, doze pessoas - agora tem até menos, mas o grupo [é] bem unido. E apesar de ser duas empresas grandes, Bahia Sul, Cenibra, eu acho que o trabalho foi muito bem feito. Os números mostram isso. Uma venda excepcional, comparando com os valores da época da privatização e, antes disso, pior ainda.

 

P/2 - E Celmar e na Florestas, esse processo está acontecendo?

 

R - Está. Na Florestas, a empresa tinha... Tem uma área em São Mateus, Espírito Santo, muito importante para qualquer empresa de celulose, que é uma madeira prontinha para cortar. Trinta mil hectares, mais ou menos, prontos. E valiosos. E tinha muita coisa em Minas Gerais que não era ligada à produção de celulose. Eram umas áreas de pinus e uma área de eucalipto mesmo, que fazia carvão. Grandes áreas no Jequitinhonha, distantes, isso tudo foi vendido ao longo dos últimos três anos. Quer dizer, as coisas que não estavam vinculadas à celulose já foram vendidas e vinculadas à celulose vão ser vendidas agora. 

A Celmar é um projeto excelente. Uma grande oportunidade para quem quer fazer um projeto de celulose no mundo porque é uma...

 

P/1 - Como é que você avalia essa decisão da empresa?

 

R - Eu acho que é um direito do acionista focar nas áreas de maior interesse. Eu acho que a Vale tem uma vocação natural de mineração, logística, então eu vejo a decisão como muito natural. Claro, para quem trabalha na área dá até uma certa pena. Um trabalho que a pessoa desenvolveu, a equipe, né? Mas eu acho que o fato da empresa ser privada e todo mundo ter consciência dos planos estratégicos, da necessidade de estratégia da companhia, isso foi recebido, eu acho, com tranquilidade. Claro, em nível pessoal, as pessoas todas estão trabalhando naquilo, o que vai acontecer? É um processo duro. Está trabalhando numa coisa, está vendendo, dá uma certa...

 

P/1 - Estas pessoas, incluindo você, como está essa perspectiva?

 

R - Existe uma busca de recolocação. Eu trabalhava com dez, doze pessoas; hoje estou com quatro só, porque foi reduzindo o trabalho da área mesmo...

 

P/1 - Quer dizer, eles realocaram dentro da Vale?

 

R - Dentro da Vale. Sobramos eu e mais outras pessoas que estamos lá ainda, devemos ter solução em breve. Claro que é um processo duro, porque é uma atividade que se desenvolve com amor, com aquela coisa de fazer o melhor. E, de repente, vendeu! Poxa! Mas eu acho que essa é uma coisa até boa para a Vale, porque a Vale não pode ficar colecionando negócios; compra, compra, faz projeto. Hoje, é uma empresa privada. Compra projeto, vende. Compra empresa, vende empresa. Acho que é um processo natural que tinha que começar por alguém, é que nós fomos os pioneiros. Sempre se sofre um pouquinho com o pioneirismo. A primeira área grande a ser vendida na Vale. 

Não é um processo simples, mas eu acho que [traz] muito aprendizado, muito bom. Não só para novas atividades dentro da Vale, como para cada um dos profissionais envolvidos no futuro em outras empresas, um aprendizado muito bom. Não é uma coisa tranquila, fácil, mas eu acho que a equipe se uniu muito. Muitos já estão realocados em outras áreas na Vale. Uma competência extrema de toda a equipe em todo esse processo, com resultados excelentes, então acho que vale o aprendizado. Muita dificuldade, mas vale o aprendizado. 

Seu Marco estava falando, é um projeto excepcional para quem quer fazer o projeto de celulose, que custa um bilhão de dólares. O problema todo, hoje, é que existe uma floresta, foi feita para fazer um projeto; não tem o projeto, ainda mais com essa decisão de saída. Para quem comprar, quem quiser desenvolver um projeto vai estar em excelentes condições, porque teve pesquisa florestal de vários anos na região de Carajás, ao longo da ferrovia. Teve dinheiro investido em pesquisa para escolher as melhores espécies florestais, as melhores árvores, melhores tipos. Só que se ninguém quiser fazer o projeto agora, o mercado nem está muito bom, aí realmente tem que comprar para guardar a melhor solução dos trinta mil hectares existentes. Tanto a Celmar quanto a Floresta estão nesse processo agora.

 

P/2 - O que eu ia te perguntar em relação a privatização: você especificamente viveu essa privatização pessoalmente, não é? 

 

R - É. Eu acho que todo mundo que estava na Vale nessa época viveu intensamente, porque eu acho que foi um marco na empresa. A cultura estatal que... Fala-se muito mal da cultura estatal; eu acho que a cultura estatal tem coisas boas também, muitas coisas ruins. Tudo na vida [tem] o lado bom e o lado ruim. E a privatização veio num momento que eu acho que foi perfeito, tinha que privatizar mesmo. Eu acho que quem na Vale tinha consciência de que a privatização era necessária, realmente teve que lidar com o processo numa boa. 

[Houve] muitas dificuldades, porque depois que o novo grupo assumiu teve muita... Aquela coisa de fofoca, quem fica, quem sai. Muitos executivos saíram, muitos ficaram. Reestruturação de área, extinção de outras. Foi um processo duro, como qualquer reestruturação. Eu, pessoalmente, estava numa área de celulose com um número de pessoas; tive que reduzí-la, mas a atividade continua a mesma. Outras áreas não. Algumas áreas tiveram atividade reduzida e praticamente eliminadas. Foi uma dificuldade normal de reestruturar, racionalizar, reduzir quadro, cortar custo. O foco foi muito de corte de custos nessa época da privatização. 

Depois teve a questão dos sócios. Havia um conflito - CSN [Companhia Siderúrgica Nacional], Previ, Bradesco - ao longo do tempo, que acabou sendo resolvido recentemente, com o descruzamento. Todo mundo que estava na época lá viveu isso, mergulhou de cabeça nesse processo porque não tinha como fugir dele.

 

P/1 - Essa sua vivência, fale um pouco... Tem aquela foto que você mostrou que vocês foram para o Japão. Você lembra desse dia?

 

R - Lembro, lembro.

 

P/1 - O que aconteceu? O que foi esse dia? 

 

R - Esse dia foi, na verdade… O Jório tinha acabado de assumir a presidência e ele foi para o Japão... Eu acho que foi isso. Conhecer lá os clientes, se apresentar. Não sei se foi a primeira ou a segunda viagem dele, acho que foi a primeira. E nós tínhamos na área de celulose uma negociação com os nossos sócios japoneses na Cenibra. Depois que privatizou, a gente passou praticamente três anos negociando com eles uma possível fusão, para depois consolidar ou então alguma outra alternativa de crescimento. A Vale, depois de privatizada, não decidiu vender a celulose, decidiu agregar valor, e aí a gente estava buscando crescimento. Teve várias reuniões no Japão sobre isso e essa foi uma delas. 

Finalmente, o sócio não quis mesmo se mexer, ficou parado, niponicamente. Não fez a fusão com a Bahia Açúcar, a nossa intenção, e aí acabou a decisão de venda acontecendo. Mas teve várias negociações nesse período desses três anos e aquela foi uma delas. 

A gente foi viajar para mais uma conversa com eles, tentando algum acordo, algum acerto de crescimento conjunto. A gente não queria eliminá-los, queria que eles crescessem juntos, mas acabou que isso não foi... Não teve um final feliz na fusão, mas também não deu uma confusão. Foi legal, _________, eles compraram e foi um bom negócio para a Vale, está sendo. 

 

P/2 - Por que você imagina que os japoneses não quiseram essa saída de fusão?

 

R - Eu acho que o japonês entrou na Cenibra, há vinte e tantos anos, com o objetivo muito claro de ter celulose disponível para suprir os papeleiros. _______, na verdade, é uma associação de papeleiro japonês com uma trading e um órgão do governo, então eles compram a celulose a um preço de mercado, com desconto negociado, e usam a celulose para fazer o papel deles. Esse objetivo foi desde o início o que eles tinham e até hoje o que eles têm. Nesse aspecto, eles são super... Como é que se chama?

 

P/2 - Estáveis.

 

R - Estáveis, isso. Eles tinham um objetivo, continuam com ele e o que a gente tentou provar para eles é que fazendo uma fusão, uma consolidação, um crescendo, havia uma chance de agregar valor para eles, como acionistas. Só que o foco deles, eu acho que não é _____ acionista, agregação de valor. O foco é ter celulose de excelente qualidade, naquela quantidade específica, a um preço de mercado com desconto. Se o objetivo é esse, realmente, para agregarem valor, a gente fala: “Você vai perder tantos milhões de dólares de agregação de valor.” “Não quero agregar valor. Quero ficar quieto porque se eu fizer isso, eu posso agregar valor, mas tem um risco ali porque eu não conheço a Bahia Sul, não conheço a Suzano.” A linha deles foi simplesmente evitar riscos, manter os acordos existentes porque tem umas cláusulas muito antigas, algumas favoráveis a eles. 

Para eles, o status quo estava bom. Para nós, o status quo não estava bom, então... Eu não vou chamar de conflito, mas certamente [havia] uma divergência de visão que os levou a não concordar com nada que a gente propôs. A gente propôs várias coisas, várias alternativas, eles não concordaram. Então, a Vale, _____, de repente, ficou com dois ativos excepcionais com valor altíssimo, bem agregado e muito bom, com sócios japoneses que não queriam fazer absolutamente nada do que a gente propôs. Então vamos vender. Não ia conseguir crescer para ser o primeiro, para ser o melhor, para ser o _________, então [era] melhor vender. Primeiro as damas ou primeiro os cavalheiros?

 

P/1 - Por que só interessava para a Vale ser o ________?

 

R - A Vale, eu acho que tem que ser grande em qualquer mercado...

 

P/1 - De todos, você acha? 

 

R - É, eu acho que sim.

 

P/1 - Se não for _______ não interessa financeiramente.

 

R - Ela não é uma empresa que tenha negócios pequenininhos, sendo o décimo oitavo de qualquer mercado. Ela tem que ser grande.

 

P/1 - Não vale a pena se não tem...

 

R - Eu acho que mineração logística é a clara vocação da Vale. A celulose, se a gente conseguisse ter uma posição de realmente grande destaque no mundo, valia a pena investir pelas vantagens competitivas do Brasil e, especificamente, da Vale que tem a Floresta, a tecnologia, as pessoas. Mas na medida que ia ser mais um pulverizado ali, eu acho que, olhando para a empresa no futuro, não é isso que ela quer. Ela quer ser grande, ser boa e ser muito importante em todos os mercados que ela atua, pelo menos eu vejo assim. Eu acho que é isso que levou os acionistas a decidirem pela venda da área.  

 

P/2 - Você comentou do governo, quer dizer, do governo também pensar em um projeto de juntar os produtores...

 

R - O BNDES apoia isso.

 

P/2 - Como era essa... O BNDES tem reuniões? Como é que isso se coloca?

 

R - Isso, na verdade, foi muito... Teve reuniões, mas saiu até em jornal o BNDES incentivando a área de celulose, petroquímica e siderurgia. Eles têm estudo de mercado, como todos temos, vendo que são mercados onde os brasileiros ainda estão muito pulverizados. Tem vantagem competitiva, mas estão pulverizados e do outro lado tem grandes empresas, então havia esse incentivo. O que precisasse do governo ou do BNDES, mecanismos para viabilizar eventuais fusões - não que o BNDES vá escolher quem casa com quem, mas havendo um negócio, estavam prontos para ajudar. 

A gente acha que se o japonês concordasse com a fusão Bahia Sul a gente podia, de repente, fundir com o apoio dele, depois juntar com outro e ser uma empresa realmente de grande porte, maior do que é atualmente. Elas são empresas de grande porte, mas isoladas, então teve reuniões, teve até muita notícia na imprensa na época de apoio do governo... Que o Brasil fosse global player realmente em todos os setores. Eu, agora, não sei como vai ficar isso, com o japonês exercendo o direito de preferência, porque a Cenibra está fora do quadro. O japonês... A não ser que o japonês venha a conversar com algum ou outro e fazer alguma fusão, alguma coisa no futuro, mas aí já vai ser problema do japonês. Não será mais problema nosso, nosso Vale, né? 

 

P/2 - Quantas vezes ao Japão nesse período...

 

R - Não sei. São meia dúzia, dez, por aí.

 

P/2 - E como é essa negociação com o japonês?

 

R - Sempre dura, sempre muito demorada. Até por ter trabalhado muitos anos em alumínio, a gente tinha sócio japonês. E agora em celulose, eu sou como muitos na Vale, quase um expert em japonês. Tem muita gente assim, que lida muito com japonês e é peculiar; o japonês demora demais até tomar uma decisão. Isso é conhecido. Depois que toma e assina é rápido, cumpre. Tem o lado bom e o lado ruim do japonês.

 

P/1 - Aconteceu algum caso assim, nessas suas idas ao Japão?

 

R - Sempre tem uns ‘causos’, mas não estou lembrado de cabeça não. Eu não tive nenhuma grande gafe. Talvez por ser tão avisado pelo pessoal da Vale das gafes antigas, né? Não o tem...

 

P/2 - Tem o folclore interno dos causos da...

 

R - É, sempre tem. No Japão, o cara chega lá e alguma gafe cometida, quem está a mais tempo na Vale vai aprendendo... Pelo menos aprende com a gafe dos outros. Eu, pessoalmente, não tive nenhuma grande gafe. 

São sempre duras essas viagens porque a viagem é muito longa. Isso vale para todo mundo que está lá, minério de ferro também. Com fuso horário, reuniões de manhã e de tarde. Depois, de noite, tem o jantar. Tem todo um ritual nipônico nessas conversas que é estafante mesmo. E às vezes, há reuniões que são com tradução simultânea - o cara fala em japonês, o outro fala em português. Às vezes, reuniões de dez minutos demoram dez horas, [havia] muito detalhe. É o jeito do japonês fazer negócio e quem não tem paciência para lidar com isso vai fazer outra coisa. Tem que ter paciência e eles são muito firmes. Depois que toma a decisão [são] cumpridores, leais, né? O processo é que é difícil, sempre muito lento; isso eles mesmos falam, eu não estou falando nenhuma novidade. Eles são muito lentos. Avaliam tudo e detalhe, então...

 

P/1 - São orientais.

 

R - Orientais. Niponicamente pacientes.

 

P/2 - Dentro da Vale, como é que muda? ________ superintendência, depois a diretoria que é estatal, privatizada. Essa relação com a presidência executiva e com o conselho, quer dizer, mudou esse tipo de relação, ________ conselho?

 

R - Mudou radicalmente.  No tempo de estatal, o conselho eram indicações políticas ou empresariais, que seja, mas a gente não tinha um grande contato direto com o conselho, como órgão máximo da empresa. A diretoria tinha mais liberdade para propor as coisas. Apesar da aprovação formal do estatuto ser do conselho, a participação era muito menor, né? Era muito mais aquela coisa do governo, em grandes decisões, ter que participar. Mil burocracias e necessidades de aprovações para colher simples, às vezes. Umas chatices de estatais. 

Agora, depois de privado, o conselho passou a ser o órgão do dono. Tem dono, tem acionista. Durante um tempo, até com conflitos, divergências de exposição. Agora, menos. Mas a participação do conselho no dia a dia da empresa aumentou demais. Até está em estudo agora uma governança corporativa para regular as relações [entre] conselho, diretoria executiva, níveis hierárquicos da empresa, para que isso flua bem no processo de decisão. 

A gente teve um baque grande na privatização. Tem um conselho existente, mas que não passava [no] dia a dia. Um conselho novo de acionistas que participavam [de] extremamente todas, até por ser novo, quer conhecer. Eu acho que agora a tendência é normalizar e ter um conselho fazendo papel de conselho mesmo, diretoria. Acho que estou otimista, que tende a ter uma harmonia melhor nisso. Eu acho que é um processo natural mesmo. A privatização não foi transição. Puft! Era um conselho de um jeito, passou a ser de outro.

 

P/2 - Essas divergências dentro do conselho, esse arranjo interno, na verdade, do conselho, isso refletia...

 

R - Sempre reflete posições...

 

P/2 - Confusão interna...

 

R - A parte de siderúrgica, que um é a favor, o outro é contra. Isso reflete, eu acho, na vida de todo mundo na empresa. E acho que esse descruzamento foi muito bem vindo. Não cabe ao funcionário torcer quem vai ser o controlador, o sócio, isso acontece. Mas eu acho que cabe a ele esperar que seja uma visão clara, com foco estratégico de um dono ou de um grupo claro, com uma visão de longo prazo. 

O descruzamento foi bem vindo, eu acho, para os funcionários da Vale, independente de quem ficou, quem saiu. Eu acho que não tem que dar o mérito de quem é o acionista, quem é o grupo controlador, mas que o acionista quer o bem da empresa a longo prazo, com uma visão clara e numa direção única. Para isso foi importante sim, mas não é legal ter diferentes visões... Diferentes visões sempre tem e para isso existem discussões e consensos, mas na medida que você é sócio da Vale e é sócio de uma outra empresa, o outro também... Aí o que é bom para a Vale é ruim para aquela empresa, fica um pouco complicado. Eu acho que com os descruzamentos isso tende a melhorar bem.

 

P/2 - E as suas perspectivas na Vale, quer dizer, quais são...

 

R - Na verdade, eu não sei. A gente vai acabando essa venda de celulose. A missão dos últimos dois, três anos foi vender a área, estou com essa missão para completar. E depois, vamos aguardar. A expectativa é de uma recolocação interna, pelo menos é o que está acontecendo com as pessoas que trabalham comigo. Já tem muita gente em outras áreas, pessoas de muita competência...

 

P/1 - Quem é a sua interlocução nesse processo?

 

R - O meu chefe...

 

P/1 - O cotidiano.

 

R - Vamos dizer, é o diretor de participações. O diretor de participações é responsável por alumínio, celulose e não-ferrosos também, está acumulando. Ele, que é o diretor executivo Luiz Paulo, [é] responsável por essas áreas e tem o conselho acima disso. Acima da diretoria executiva.

 

P/1 - E como é o seu cotidiano fora da Vale? Você é casado, tem filhos?

 

R - Sou casado, não tenho filhos, moro no Leblon. Muito satisfeito, depois de anos na Tijuca. Depois dos Estados Unidos, acabei voltando para o Leblon, que é um lugar ótimo, né? Eu faço caminhadas, tenho uma vida até caseira. Eu e a minha esposa...

 

P/1 - Ler.

 

R - Eu leio bastante. Esporte, só caminhada e bicicleta, mais nada. Larguei o squash, futebol. E gosto muito de arte, até por minha esposa ser artista. Vou para o teatro, cinema...

 

P/1 - Plástica?

 

R - Artista plástica. 

É uma vida bem tranquila. Muita cultura, muito livro, caminhadas e bicicletas e trabalho.

 

P/1 - Varella, pensando na sua trajetória de vida, se você tivesse que mudar alguma coisa, você mudaria?

 

R - Talvez não fizesse Engenharia. Todo mundo fala: “Eu faria igualzinho.” Eu acho que se voltasse no tempo não faria Engenharia. Foi uma época de faculdade que eu fui bem, fiz amigos, mas não é o que eu queria fazer. Se eu não fizesse Engenharia, ia para um lado totalmente diferente, que eu não sei qual é. Podia ser melhor ou pior. Não sei, mas acho que não faria Engenharia. 

A Engenharia tem aquela coisa que ela marca da obra, do cálculo; eu não gostaria de trabalhar nisso. Quando eu comecei a fazer, era para isso que eu estava pensando que ia trabalhar. Acabou que foi dar na Vale do Rio Doce com mil outras atividades legais, mas se eu tivesse que fazer de novo, talvez não fizesse. Não sei o que eu faria - talvez até Direito, que era ideia da família. Eu acho que não fiz também [porque pensei]: “Pô, fazer Direito? Vocês querem que eu faça, eu não vou fazer.” É muito fácil, quem tem um escritório... Sem dificuldades, você não consegue as coisas.

 

P/1 - E quais são os seus sonhos?

 

R - Os meus sonhos? Boa! Eu tenho muitos sonhos. O meu sonho imediato é ter um filho. a gente está querendo ter filho - planejando, pelo menos. 

Eu não tenho grandes sonhos, não. Eu acho que os sonhos da gente... Não é legal ter sonhos enormes. Tem gente que quer ser presidente da república, quer ser aquilo. Eu tenho sonhos menores. Eu tenho sonhos de ter um filho, continuar legal com a minha família, estar legal comigo mesmo, equilibrado. A coisa mais difícil nessa vida de executivo é conseguir se manter equilibrado. Quem consegue, é o segredo do sucesso, porque é muita pressão o tempo todo. Se você deixar, você está das oito às vinte [horas] pressionado, mil problemas. E se você realmente esquecer que tem o outro lado - família, lazer - você pira, né? E daí os infartos, derrames e tudo que o pessoal tem. 

Acho que o sonho é conseguir manter... Poxa, [me] manter equilibrado no meio desse turbilhão que é vida de empresa, com um lance familiar legal. Ela tem muita ligação com a minha família, pai e mãe [se dão] muito bem com a minha mulher.

Gosto de coisas supersimples, eu sou muito caseiro. Eu gosto de comida simples. Essas coisas até de viagem a trabalho… Às vezes, você come muitas coisas chiques; eu prefiro um feijãozinho com arroz, carne moída, não essa coisa da... Vamos dizer assim, mais refinada, de grandes voos executivos para ter esse refinamento. Eu não tenho esse sonho, não. O meu sonho é curtir as coisas simples com saúde, fazer uma família legal e trabalhar o melhor que a gente puder, porque a gente, um dia, está aqui, outro dia está ali. 

A minha vida tem sido toda na Vale, mas a Vale, na verdade, tem várias empresas. Eu consegui... Eu acho que foi o grande mérito para a minha carreira, sorte ou sei lá o que, de conseguir dentro de uma empresa só ter mil experiências diferentes. No exterior, numa empresa quase privada como a _______ Sul, estatal privatizada. Porque se ficasse na Vale numa área que você entra e fica trinta anos... Não que... Poxa, tem muita gente assim, legal, mas eu gosto muito de coisas novas, coisas diferentes. Para mim, não ia ser muito legal, pessoalmente, ficar fazendo a mesma coisa muito tempo. Independente das hierarquias. 

Às vezes, o cara faz a mesma coisa, vai crescendo hierarquicamente, mas com certeza o meu objetivo não é crescer hierarquicamente; é ter desafios novos, diferentes. O crescimento hierárquico vem com naturalidade ou não vem, o importante é que você está feliz com o que você está fazendo. Se você é diretor, superintendente, gerente, [office] boy. Para mim, eu acho que não faz a menor diferença. Querer ser um cara do nível hierárquico alto, insatisfeito com que faz, não adianta. Aí vem o desequilíbrio, isso tem que evitar, né? 

 

P/1 - O que você acha desse projeto Vale Memória e estar dando esse depoimento?

 

R - Ah, muito legal. Essa coisa do Vale Memória, não o projeto, mas a memória da Vale é muito falada [por] muitos anos internamente na companhia, é aquela coisa não formal. As histórias, todo mundo vive falando: “Ah, história da ferrovia dá um livro. As histórias do doutor Eliezer dão uma enciclopédia.” E realmente sem o projeto sistematizado, que a gente estava falando antes, se você não sistematizar, isso se perde mesmo. Depois da privatização, até pela idade das pessoas, muitas se aposentaram e muitas pessoas saíram, né? E se não sistematizar nada, isso vai se perder. 

Tem histórias fantásticas histórias de surgimento de grandes projetos. Vocês devem ter entrevistado várias pessoas que falam de projetos que começaram meio por acaso, um esforço pessoal de uma pessoa: “Pô, pagou de helicóptero em Carajás e achou lá um negócio.” Isso tudo vai se perdendo, vai de geração em geração, até o momento que acaba aquela passagem de informação. Então eu acho que esse esforço desse projeto, que mostra realmente, que põe no papel ou bota no computador ou virtual, as coisas que são faladas e que estão na memória de cada um, certamente vai servir para gerações que vem por aí, para saber o que foi a Vale, como é que surgiu. 

É horrível você trabalhar num lugar sem saber o contexto daquele lugar. Você entra num lugar: “Tu fazia isso, faz aquilo.” O legal é saber o que... Onde surgiu aquilo. O trabalho... Eu cito muito jogador de futebol que sempre quando pergunta, ele fala que “eu sou profissional, sou profissional.” Isso é uma frase comum de executivo, jogador de futebol. Eu acho que todo mundo é profissional, mas se você não tiver um lado amador, eu acho que você não vai bem na empresa, com você e com as pessoas da empresa - essa coisa que na Vale chama-se muito “vestir a camisa”, mas é o lado amador. Às vezes, não é o melhor profissional, o dinheiro, mas você gosta daquilo. Você conhece como foi criado aquilo, tem um carinho pelo projeto.

Isso até hoje, para nós, é um problema porque estão vendendo a área. A equipe toda tem um carinho pela Cenibra, pela Bahia Sul e é natural que tenha, mas esse lado amador de gostar do que está fazendo, de estar trabalhando numa equipe, isso é importante não só para o empregado, para o trabalhador, mas também para a empresa. A empresa que pensa que os negócios vão sozinhos, né? São as pessoas que fazem a empresa e as pessoas que vão trabalhar na empresa têm que saber como é que surgiu aquilo tudo, o esforço de cada um; tem que ter um certo carinho, tem que ter um lado amador. Eu acho que essa coisa do profissional é muito importante, mas se você não tiver um mínimo de amador na história, de gostar do que faz, o projeto fica xoxo, não desenvolve as coisas.  

 

P/1 - Bom, foi ótimo.

 

R - C'est fini. (risos)

 

P/2 - Tem mais alguma coisa que você gostaria de falar?

 

R - Não, só um elogio a todos, porque realmente esse projeto é bacana. Todo mundo lá fica doido para ver o resultado disso. Eu não sabia que ia sair livro, que bom que vai sair. (risos) Quero um livro para mim, porque... Área de papel, mesmo já tendo vendido, fica o carinho pela área, não tenha dúvida. 

Está bom? Obrigado a vocês.  

 

P/1 - Obrigada.

 

R - Obrigado, gente. 



Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | [email protected]
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+