Busca avançada



Criar

História

"O meu negócio é limpar"

História de: Ângela Maria Pereira da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/10/2021

Sinopse

Comida à lenha de sua avó em Recife. Primeira infância em Jaboatão dos Guararapes, Recife. Viagens de ida e volta entre Recife e São Paulo. Mudança para São Paulo. Pequeno período morando em Santos Dumont, Guarulhos. Mudança para Comunidade Zaki Narchi, Zona Norte de São Paulo. Adolescência no farol e puxando carroça. Casamento, relacionamento abusivo, gravidez, 3 filhos e separação. Trabalho registrado. Trabalho como gari. Construção do barraco com o esposo. Desafios de morar na Zaki Narchi. Incêndios. Pandemia. Sonhos.

Tags

História completa

P/1 – Ângela, antes de tudo, eu quero te agradecer por ter aceitado o convite e, pra começar, eu gostaria que você se apresentasse, dizendo seu nome completo, data e local de nascimento. 

 

R – Olá, bom dia! Meu nome é Ângela Maria Pereira da Silva, tenho quarenta anos, moro na Avenida Zaki Narchi, fui para lá com doze anos de idade.  

 

P/1 – Que data você nasceu? 

 

R – 23 de novembro de 1980. 

 

P/1 – E onde? Em que cidade? 

 

R – Recife, Pernambuco. 

 

P/1 – E quais os nomes dos seus pais? 

 

R – É Maria José da Silva e Joilson Pereira da Silva. 

 

P/1 – E o que eles faziam?

 

R – A minha mãe sempre trabalhou pra ela mesma (risos). Ela faz cortina, pano de prato, fez até chinelo, já, pra nos criar. Meu pai é mecânico, mas são separados, hoje.  

 

P/1 – E como você os descreveria? 

 

R – Minha mãe é uma pessoa maravilhosa. Nossa, mulher guerreira, maravilhosa. Do pai eu não tenho muito o que falar, não (risos). Mas da minha mãe, sim. 

 

P/1 – E você sabe como eles se conheceram? 

 

R – Na infância dela. Ela tinha dezesseis anos quando ela foi morar com ele. Aos dezesseis anos. 

 

P/1 – Mas você sabe como eles se encontraram?

 

R – Não. 

 

P/1 – Não?

 

R – Nunca ela contou muito a história dela, não. Só sei que eles moraram quando ela tinha dezesseis anos. 

 

P/1 – E você tem irmãos? 

 

R – Tenho. Ana Paula, de 41 anos; o Rafael, 34 anos; e a caçulinha, que é a Inoã, tem trinta anos. 

 

P/1 – E você está em que escala? Você é a mais velha, a mais nova... 

 

R – A mais velha tem 41, eu tenho quarenta.

 

P/1 - E como é a sua relação com seus pais? 

 

R – É maravilhosa, com a minha mãe. Meu pai não mora aqui, mora em Recife. 

 

P/1 – E com seus irmãos? 

 

R – Maravilhoso, graças a Deus. 

 

P/1 – O que vocês gostam de fazer juntos? 

R – Assim, cada qual tem sua vida. São todos casados, então cada qual tem sua vida e nós não... aliás, nós não nos vemos muito, é de casa pro trabalho, tem sua vida, mas moram todos na comunidade. 

 

P/1 – Todos os seus irmãos? 

 

R – Todos os meus irmãos e minha mãe. Só não mora meu pai.  

 

P/1 – E, Ângela, você chegou a conhecer os seus avós?

 

R – Eu conheci a mãe da minha mãe. E a mãe do meu pai. 

 

P/1 – Qual é o nome dela? 

 

R – O nome da minha mãe é Regina Ferreira da Silva. 

 

P/1 – E a do seu pai? 

 

R – Do meu pai é Adalgisa Pereira da Silva.

 

P/1 – Você não me contou ainda das suas avós. Vocês faziam alguma atividade juntas?

 

R – Não.  

 

P/1 – Você só as conheceu?

 

R- Isso.

 

P/1 – E, Ângela, me conta uma coisa: lá em Recife vocês tinham algum costume familiar, seja prato, algum cheiro de infância? Você se lembra de alguma comida específica, que te lembra a infância? 

 

R – (Risos) Quando minha avó cozinhava à lenha. Ô comida boa! (risos)

 

P/1 – Como que era?

 

R – A minha vó por parte da minha mãe. Era uma comida muito boa. O frango. O povo, no Norte, chama galinha. É muito gostoso. Ela fazia à lenha. Feijão, principalmente. Que delícia! Hoje eu não sinto esse cheiro por aqui. 

 

P/1 – E em que momentos ela fazia?

 

R – Quando eu tinha uns dez anos.    

 

P/1 – Mas era em alguma data comemorativa?

 

R – Não, não, não.

 

P/1 – Era um dia comum? 

 

R – Isso. 

 

P/1 – E, Ângela, você sabe a história do seu nascimento? 

 

R – Não sei. 

 

P/1 – Sua mãe nunca comentou?

 

R – Não, não. A infância da minha mãe foi muito ruim. Ela, aos sete anos, cuidava de nove irmãos. É o que ela fala pra nós. Aos sete anos ela já cuidava dos irmãos, a minha avó criou os filhos só. 

 

P/1 – Lá em Recife?  

 

R – Em Recife. É a história que ela conta, assim. Ela até se queimou, foi cozinhar na lenha, minha mãe, com sete anos de idade, que elas cozinhavam à lenha, né? 

 

P/1 – E você chegou a cozinhar junto com ela?

 

R – Não, não, não, não. Minha mãe, na minha época, tinha fogão. Mas na época dela era  à lenha. Aí, quando nós íamos pra casa da minha avó, ela cozinhava à lenha, muito bom. 

 

P/1 – E, Ângela, você sabe como seu nome foi escolhido?

 

R – Foi meu pai, a cantora Ângela Maria (risos). Meu pai que ‘ponhou’. 

 

P/1 – E você lembra da sua casa de infância?

 

R – Lembro.

 

P/1 – Como que era? 

 

R - Um barraquinho pequeno, na estrada (risos). Um barraquinho bem pequeno. Eu e meus irmãos dormíamos no chão, num colchão de casal, no chão. 

 

P/1 – Na estrada? 

 

R – Uma casinha, assim, lá no final e tinha uma estrada e, naquela estrada, tinha a casinha da minha mãe, no meio. Isso aí eu lembro. 

 

P/1 – E tinha vizinhos?

 

R – Tinha. 

 

P/1 – E do que vocês gostavam de brincar?

 

R - Naquela época era uma infância tão boa, né? Hoje não tem isso. Nós brincávamos de corda, pular corda, de se esconder, academia, pular academia. Hoje não existe mais essas brincadeiras. Hoje o povo quer celular, computador. Nessa época não existia. Na minha época eu nunca nem sabia o que era um celular. Nós brincávamos de academia, pulando. Amarelinha, que o povo chama, aqui. 

 

P/2 – E onde que era, em que cidade?

 

R – Recife. Em Jaboatão dos Guararapes. Aos doze anos minha mãe veio pra cá, mas ficava nessa ida e vinda, ida e vinda. Na Zaki Narchi, onde eu moro mesmo, agora, eu morei aos quatorze anos. Quando eu tinha doze anos eu morava em Santos Dumont, Guarulhos. Dos doze anos pra cá eu vim pra Zaki Narchi. 

 

P/1 – Mas ainda em Recife, o que você mais gostava de fazer lá? 

 

R – Pra falar a verdade, eu não gosto de Recife, não (risos). Acho que lá as coisas são mais difíceis. Então, eu gosto muito de São Paulo. Não falando da minha terra, é maravilhosa, linda, mas eu digo que eu vou morrer por aqui mesmo, porque São Paulo é muito diferente de Recife. Não tem muitas ajudas. Aqui tem muitas ajudas, em São Paulo. São Paulo é uma mãe. Eu digo pro povo que São Paulo é uma mãe. 

 

P/1 – E, Ângela, você chegou a ir na escola, lá em Recife?

 

R – Cheguei. 

 

P/1 – Qual a sua primeira lembrança da escola? 

 

R – Olha, eu não tenho lembrança, não, que a vida da minha mãe era viajar Recife/São Paulo, Recife/São Paulo, não tinha paradeiro, então eu não tenho infância boa, assim. 

 

P/2 – E você ia junto, nas viagens?

 

R – Sim. Aí chegou uma época, aos 18 anos, eu parei. Elas foram pra Recife e eu fiquei por aqui mesmo, na casa de um tio, aqui na Zaki Narchi mesmo. E não saí mais (risos). Pretendo morrer por aqui mesmo. 

 

P/1 – E você lembra de alguma viagem que tenha te marcado?

 

R – Quando meu pai... a gente viajava muito de ônibus Itapemirim e ele cantava música de Zezé di Camargo, antiga, só que agora fugiu da mente. Desde quando eu ouço essa música, aí eu lembro das viagens. 

 

P/1 – Junto com seus irmãos?

 

R – Isso, com meus irmãos todos. 

 

P/1 – E como foi a vinda pra São Paulo?

 

R – Pra mim foi uma maravilha! Eu gosto muito de São Paulo. Nossa, eu amo esse lugar! Meus três filhos são todos daqui. Eu amo São Paulo. 

 

P/1 – E você lembra da viagem?

 

P/2 – Da primeira. 

 

R – Da primeira eu não lembro, não, que era muitas idas e vindas, ô vidinha, meu Deus! Era cigano, pareciam ciganos, meu pai e minha mãe. 

 

P/1 – E quando vocês chegaram, qual foi a sua primeira impressão?

 

R – Quando eu logo cheguei aqui já grande, com doze anos, eu morei em Santos Dumont. Eu lembro que o chão era de barro, minha mãe ia lá pra um lixão que tinha em Santos Dumont, pra pegar madeira, pra esquentar água, pra tomar banho. Eu lembro dessa infância. E ela trabalhava numa padaria, pra nos ajudar e nós ficávamos cuidando dos irmãos, um cuidando do outro. 

 

P/1 – Que outras lembranças você tem, dessa época?  

 

R – Lembrança assim, quando eu era adolescente? Eu lembro de estar brincando nos barros, nos barrancos lá do Santos Dumont. Eu lembro dessa infância, assim.

 

P/1 – Como foi essa mudança pra Zaki Narchi? 

 

R – Eu gosto muito da Zaki Narchi, pra se morar. Tem uns probleminhas, mas vida de comunidade é assim mesmo. O que estraga ali na comunidade é negócio de fogo, a gente não tem paz. Só esse ano pegou fogo três vezes. Só esse ano. Então, o que desanima é isso: o barraco pega fogo, corre pra lá, corre pra cá. O que desanima é isso, somente. Mas Zaki Narchi eu amo, é um lugar muito bom de se morar. Tem muitas doações, as pessoas ajudam. 

 

P/1 – E você lembra da primeira vez que você chegou lá?

 

R – Quando eu cheguei na Zaki Narchi, eu lembro que eu tinha os meus doze anos. Minha infância eu pedia no farol, não vou mentir, pegava as coisas na feira, quando terminava, eles davam muita fruta, verdura, essas coisas. Não jogava no chão, não. Eles davam da banca, mesmo, quando era o final de feira. Ô tempo bom! (risos) Quando era o final de feira, eles diziam: “Pode pegar”. Nós enchíamos o carrinho, subíamos aquele morro numa animação (risos). Era uma infância boa, não tem o que dizer que foi ruim. Não foi ruim, não. Pra mim, a Zaki Narchi foi boa demais. Agora mudou muito, né? De primeiro já foi melhor, agora…

 

P/1 – Como era essa época, pra você, Ângela? Você estava contando da feira, do farol. Eu queria saber mais, se você puder contar um pouquinho, como era isso, pra você. 

R – Pra mim era muito bom. Era maravilhoso, nossa! Ainda eu digo até hoje. Eita, agora, hoje em dia, não tem mais feira assim, como antigamente, com meus doze anos, quatorze, não tem mais. Quando acabava o final da feira, eles diziam: “Pode pegar as coisas”. Eu vinha com o carrinho lotado, mas chegava em casa numa felicidade tão grande! Muito bom! Já ganhei muita coisa no farol. Moro ali, mas graças a Deus, nunca roubei nada de ninguém, não precisei. Já me ofereceram droga, nunca quis, graças a Deus! 

 

P/2 – Ângela, e como era sua adolescência, lá na Zaki Narchi?

 

R – Muito boa. Muito boa, mesmo.

 

P/2 – E você morava com quem, lá?

 

R – Minha mãe. 

 

P/2 – E seus irmãos também? 

 

R – Isso. 

 

P/1 – O que vocês gostavam de fazer, na adolescência? 

 

R – Na adolescência eu vivi mais assim, em farol, pedindo dinheiro. Ganhava roupa. Inclusive, eu já puxei carroça. Criei meus filhos na carroça. Com uma tia minha, ela está na carroça até hoje. O tempo que tenho meu filho, meu filho tem 21 anos, tem minha tia na carroça, até hoje. É bem conhecida no Jardim São Paulo, ela me ajudou muito a criar meus filhos. Roupa, essas coisas, eu não comprava, se eu falar que eu comprava, eu estou mentindo, ganhava tudo e coisa boa, viu? Coisas muito boas. 

 

P/1 – E como era o dia a dia de vocês? 

 

R – Nós na infância ou... 

 

P/1 – Nessa época. 

 

R - Muito boa.   

 

P/1 – Como que era? 

 

R – Maravilhoso. Minha mãe nunca deixou faltar nada, graças a Deus. Uma pessoa que disser que passa fome aqui em São Paulo, é meio complicado. Eu, graças a Deus, só tenho coisas boas. 

 

P/1 – E, na juventude, você pensava o que você queria fazer, quando você crescesse? 

 

R – Pra falar a verdade, eu nunca pensei (risos). Pra falar a verdade, eu nunca... tem gente que tem um sonho: “Vou ser doutor”. O meu negócio é limpar a casa. Eu amava, amo até hoje, limpar a casa, varrer. Inclusive, quando eu estou varrendo a rua lá, antes de eu entrar pra ser gari, eu falei: “Um dia eu vou ser gari, que eu amo varrer”. Eu gosto demais, demais, demais mesmo de varrer, arear panela. Esse é o meu dom (risos). Gosto muito de fazer essas coisas. Amo de paixão. Passar roupa, gosto demais.

 

P/1 - E, Ângela, em São Paulo você chegou a estudar, você foi pra escola?

 

R – Eu estou estudando.

 

P/1 – Está estudando agora? 

 

R – É. Isso, pela firma, eles dão oportunidade, aí eu estou estudando, fazendo a oitava série. Eu perdi até uma prova desse tal de EJA. Eu perdi, porque meu filho estava preso, então eu não estava com cabeça pra estudar. Aí disse: “No outro ano você faz”. Mas eu estou estudando, sim, pela firma. Que eles dão oportunidade, pra gente não ficar só naquilo, varrendo rua, mas eles dão oportunidade. Inclusive, eles até pediram pra eu tirar habilitação e comprar uma moto, pra ser fiscal de ecoponto. Aí eu estou fazendo um esforço pra eu comprar uma moto pra mim. 

 

P/1 – E me conta quando você se tornou mãe?

 

R – Eu tinha uns dezenove anos.

 

P/1 – E como foi?

 

R – Aos dezesseis eu conheci o pai dos meus filhos, o meu primeiro esposo. Aos dezesseis anos eu o conheci, fui morar junto, lá nas casas dos outros. Já passei por muitas coisas, aqui na Zaki Narchi: já morei em casa de filho, já morei de aluguel, já morei em barraco, voltei de novo. Meu casamento não foi nada bom. Começou ruim e terminou ruim, senão eu estava com ele até hoje. O pai dos meus filhos começou a me bater, mas como eu gostava dele, aos dezesseis anos eu fui morar com ele, mas aos dezesseis anos eu já comecei a levar uns pancadões. Aí depois eu vim acordar pra vida, depois que eu tive meus três filhos. Quando eu tive os meus três filhos, acordei pra vida, aí não o quis mais, o mandei embora, não pensei, não, mas tive que passar pela Justiça, pra tirá-lo de dentro do barraco, ele não queria sair, eu não quis mais, não aguentei, demorei com ele uns dez anos ainda, ainda aguentei. Depois que ele foi falar pra minha mãe: “Eu vou por dez filhos nela”, eu acordei pra vida, me operei. Meus três filhos são do primeiro casamento. Aí eu me operei e não o quis mais, não. 2011 ele pediu volta, eu também não quis e hoje em dia, graças a Deus, sou casada, bem-casada, arrumei uma pessoa maravilhosa, é bem melhor pros meus filhos, do que o próprio pai. Criei meus filhos sozinha, porque ele não manda pensão, aí eu desisti, ainda corri atrás, não consegui e desisti e estão todos aí, grandes, aí. Graças a Deus, minha mãe me ajudou muito, muito mesmo. Se não fosse minha mãe, tinha passado uns bocados. Mas minha mãe é uma mulher da hora, viu? Guerreira, me ajudou muito. Na Zaki Narchi, é como eu disse: a pessoa dizer que mora num lugar daquele e passa fome, é mentira, porque é um lugar que tem muitas doações, cesta básica, marmita, marmitex, todos os dias chega marmita na Zaki Narchi. Então, é uma mãe. Muitas pessoas ajudam muito, dão roupa, cobertor. Mas meu casamento não foi nada bom, não. Começou ruim e terminou ruim. 

 

P/1 – Como você o conheceu? 

 

R – Eu o conheci dentro da minha própria casa (risos). O namorado da minha irmã o levou. Amor à primeira vista (risos). Me apaixonei pelo negão (risos). O pai dos meus filhos eu conheci através do meu cunhado. O namorado da minha irmã o levou lá na casa da minha mãe. 

 

P/1 – E como foi sua primeira gravidez? 

 

R – Uma maravilha! O primeiro amor é uma maravilha, foi ótimo. Todas as minhas gravidezes foram ótimas. Todas, graças a Deus!

 

P/1 – E como foi se tornar mãe? Quando nasceu. 

 

R – Eu me emociono de todos (risos). O Eduardo é o que tem 21 aninhos hoje, está me dando uns trabalhos aí (risos). Mas, enfim, é meu filho, é o mundo, é coração, foi meu primeiro amor, um menino maravilhoso. Quando ele tinha cinco aninhos de idade, ele falou que ia ser polícia. Mas, quando cresceu, deu trabalho. Muito trabalho, dá até hoje. Desde os onze anos de idade que meu filho me dá trabalho. Hoje ele tem 21. Inclusive, quando você marcou a entrevista, segunda-feira era pra eu levá-lo. Cinco horas da manhã eu já estava ativa, pra ir, ele: “Eu vou, eu vou”. Eu disse: “Cumpre, meu filho”. Faltavam só oito meses pra cumprir e ele se escondeu. Não voltou. Oito meses só pra ele cumprir e ele não cumpriu. Está aí, na rua. O coração de mãe fica como, né? Eu não durmo mais, não. A minha filha falou: “Daqui a pouco...”, que ele falou que ia cumprir, paguei advogado, fiz correria. Inclusive as minhas férias, o salário, ainda fiz um empréstimo, foi tudo dinheiro jogado fora, paguei advogado, ele pegou cinco anos e seis meses. ‘Ponhei’ um advogado que eu não aguentava ficar sem ver meu filho cinco anos e seis meses, aí conseguiu botá-lo numa aberta, ele fez isso. Teve uma chance maravilhosa e jogou fora. Agora, se a polícia pegar, vai cumprir mais. Hoje mesmo ele já correu da polícia. É complicado pra mim. 

P/2 – Como fica o coração de mãe? 

 

R – Não durmo, não. Não durmo nada. Eu durmo com o portão aberto, porque já penso dele correr, alguém me chamar. Já durmo até de roupa, viu? Meu marido diz: “Essa mulher dorme toda apertada”. Eu digo: “Pra ter um filho que nem o meu, tem que dormir preparada”. Eu durmo já de roupa, preparada, porque qualquer coisa que acontecer com ele, eu sei que vai guardar, livrar é Deus, mas a gente, mãe, é muito ruim. Eu não sei, mãe é muito boba (risos).     

 

P/2 - E qual é o nome dos seus outros filhos?  

 

R – A do meio é Elisângela Pereira Alves da Silva, a caçulinha é Elizabete Pereira Alves da Silva. E o Eduardo é Eduardo Pereira Alves da Silva. 

 

P/1 – Como foi a infância dos seus filhos? 

 

R – Eu que os criei, né? Às vezes meu filho Eduardo passa umas coisas na minha cara: “Você fez isso, fez aquilo”. Eu criei da minha forma. Da minha maneira, como eu pude fazer por eles, né? Pra mim não foi ruim, porque eu sempre trabalhei, graças a Deus, minha mãe também sempre me ajudou. Então, graças a Deus, pra mim foi maravilha. Assim, é difícil criar três filhos sem pai, porque quando eu separei, meus filhos eram todos pequenos, todos pequenininhos, mas foi eu que não o quis mais. Não foi ele que me deixou, foi eu que o deixei, eu que não quis mais. Não deu, não deu. Mas, graças a Deus, fome ninguém passou, não. Criei tudo ali, na Zaki Narchi. Nasceram os três no Mandaqui. 

 

P/2 – Você se lembra do seu primeiro emprego?

 

R – Meu primeiro emprego registrado foi no Iprem, ali, de frente aos prédios, na Zaki Narchi. Trabalhava de limpeza. 

 

P/1 – Como era essa época?

 

R – Essa época, pra mim, era boa. Eu já estava só cuidando deles. Foi uma época boa. 

 

P/1 – E o que você fazia?

 

R – No trabalho? 

 

P/1 – É. 

 

R – Eu limpava. Era a faxineira das salas. Mas eu morava do lado, o alojamento, na época. Era um pulo: trabalho, casa. E meus filhos ficavam na creche, lá dentro mesmo, no Iprem. No trabalho tinha creche, eles mesmos ficavam lá, na creche. 

 

P/1 – E antes desse trabalho registrado?

 

R – Puxava carroça, lá pra banda do Jardim São Paulo, Santana. Nós ganhávamos de tudo, também: móveis, roupas, de tudo. Nunca comprei nada, tudo ganhado. Mas puxar carroça não é muito bom, não. Subir ladeira (risos). Não é muito bom, não, mas melhor do que roubar, né?

 

P/2 – E como era seu dia a dia, quando puxava carroça?

 

R – Cansativo. É muito cansativo. Hoje em dia eu tenho as consequências: as pernas cheias de varizes. Cada varizes horrível! Inclusive eu fui no médico essa semana, da firma, eles mandaram pra eu secar, fazer secagem, mas eu tenho uma preguiça de ir pra médico, você acredita? Ainda não quero ir. E eles pegam no meu pé, pra eu operar. E ainda não me interessei, não (risos). Vou ver daqui pro dia antes de eu voltar, porque dia onze eu estou de volta à lida, se Deus quiser! 

 

P/1 – E, Ângela, quais eram os maiores desafios nesse momento que você puxava carroça?

 

R – O perigo na rua, né? É muito perigoso. Uns respeitam, outros não. Bom não é, não. Eu não vou falar que puxar carroça é bom, que não é, não, (risos) mas é bem melhor do que roubar, né? Ganhei muitas coisas boas também, na rua. 

 

P/1 – Você sentia discriminação?

 

R – Tem muitos carroceiros que são zoados. Então, pra polícia, são todos iguais. Tenho quarenta anos, nunca bebi, nunca fumei, nunca usei nenhum tipo de droga, graças a Deus! Não sei o que é isso, graças ao bom Deus! Oferecer, oportunidade não faltou. Tenho três filhos, já o Eduardo usa droga, a do meio começou a usar, eu falei: “Não está vendo o exemplo do seu irmão?” Ela parou, graças a Deus. Eu pensei que ela ia aprofundar, mas graças a Deus ela parou, a do meio. Falei: “Já não basta seu irmão, que me dá trabalho?” Aí ela parou, graças a Deus! 

 

P/1 – E você lembra de alguma história marcante, quando você estava puxando carroça? 

 

R – Quando eu ganhei um berço pro meu filho, quando eu estava grávida. Nossa, fiquei tão feliz! Um berço lindo! Inclusive, hoje esse homem morreu, mas era um homem que tinha dinheiro, era o motorista de Zezé di Camargo e Luciano. Morava lá em Jardim São Paulo e me deu tudo: roupa, coisas boas, mesmo. Coisa boa. 

 

P/2 – E você puxava carroça grávida?

 

R – Puxava. Ô, é bom, que ganhava as coisas! (risos) Mas eu não puxava só, não, tá? Com uma tia, que até hoje ela puxa. Até hoje é o ramo dela. Ela mora nos predinhos, na Zaki Narchi.

 

P/1 – E me conta, pra eu entender melhor: depois da carroça, você foi pro escritório?

 

R – Pro Iprem. Trabalhar, né, que você está falando?

 

P/1 – É. 

 

R – Trabalhar no Iprem, de limpeza. 

 

P/1 – E depois? 

 

R – Aí, depois de lá acabou o contrato da Arco Olímpico, aí eu fui pra Paineiras. Eu trabalhei numa escola, em Santana, de limpeza também. Trabalhei de copeira...

 

P/1 – E era bom? Como que era?

 

R – É um trabalho digno, né? Trabalhei de copeira. O melhor trabalho, que eu gostei, foi ser gari, porque meu sonho sempre era ser gari e eu não conseguia vaga. Aí eu dormi três dias, pra conseguir essa vaga de gari, na porta da empresa e estava demorando pra me chamar, eu fiz uma carta de próprio punho. Me ligaram, pra eu ser copeira, num evento que ia ter. Aí eu falei pra mulher: “Eu ainda não queria ser copeira, eu quero ser gari”, aí a mulher viu minha carta, a diretora e disse: “Então, vamos deixar a copa pra lá, ela quer ser gari. Eu vou conseguir isso pra você”. E eu consegui. Essa carta minha eu não sei onde chegou, que me chamaram depois de três meses, pra ser gari. 

 

P/1 – Você lembra o que você escreveu nessa carta? 

 

R – É assim... eu tenho a carta, até hoje, guardada. Eu escrevi do meu próprio punho: “Sou Ângela Maria Pereira da Silva, tenho tantos anos, tenho filhos” - eu era mãe solteira – “preciso desse emprego, meu sonho é ser varredora...”, saí escrevendo e essa carta não sei onde foi parar, não, que eles me chamaram.

 

P/1 – E, Ângela, como foi construir o seu barraco?

 

R – Eu mesma fiz meu barraco. Eu e meu esposo. Fomos pegando madeira, juntando madeira. Na época não estava em epidemia, aí tinha muitos eventos de feiras. Aí, um caminhoneiro largava lá na rua, pra gente. A gente pedia e eles largavam lá, nós fomos... todo mundo construiu barraco com essas madeiras de evento. Ajudou muito. Deu uma parada agora, voltou às madeiras. Aí construímos, eu e meu esposo. 

 

P/2 – Então, esse barraco é novo?

 

R – Não é novo. Só ali na frente, agora, no momento, onde eu estou agora, na Zaki Narchi, tenho três anos, mas a favela já vim de novo. Quer falar a verdade, eu ganhei um apartamento dali, tá? E dali eu vendi e comprei uma casa em Guarulhos.

 

P/2 – Então, você estava contando que você vendeu sua casa em Guarulhos e preferiu voltar. Por que preferiu voltar?

 

R – Porque Guarulhos é difícil. Muito difícil. Pra trabalho, pra tudo. Aí eu voltei pra Zaki Narchi. Aí tô lá. Ver o que vai ser da gente (risos). Se eles vão tirar, o que vai fazer.

 

P/2 – Você gosta de viver lá? 

R – Assim, eu gosto da comunidade, que é próxima a tudo, ao meu trabalho, às escolas, tudo, mas é muito difícil conviver ali. Por causa, mais, do fogo. A gente não dorme em paz. Quando não é fogo, é cano quebrado (risos). Quando não é cano quebrado, o fio está pegando fogo. É muito agoniado. Bom, bom, morar em barraco, não é. Agora, se fosse tudo feito de alvenaria, bem-organizado, ia ser um lugar maravilhoso. Me arrependi muito, eu fiz cagada, desculpa a palavra, (risos) mas eu dei essas burradas, ter vendido o apartamento, porque eu ganhei meu primeiro apartamento de lá, vendi, comprei uma casa em Guarulhos, onde eu pensei que ia ser bom pra mim, mas também não foi, foi muito difícil, eu voltei pra Zaki, de volta.

 

P/2 – O apartamento que você tinha ganhado, era no Cingapura?

 

R – O meu, que eu ganhei, foi no Jaraguá. Mas foi dali, da favela. A assistente social deu pra nós. Dali, antes de eu ir pro apartamento, eu fui pro alojamento, ali na Fupe, de frente a Zaki Narchi. Morei sete anos na Fupe, no alojamento da prefeitura, pra depois ele dar os apartamentos. Mas eu me arrependi muito. Aí voltei tudo, comecei tudo do zero, tudo de novo. Foi uma burrada que eu fiz.

 

P/1 – Era isso que eu queria te perguntar, entender melhor: desde o momento que você chegou lá, quais foram as moradias que você viveu? 

 

R – Como assim? 

 

P/1 – Por exemplo: você chegou na comunidade e fez um barraco. E aí, depois, pra que outros lugares você foi? 

 

R – Ó, quando eu cheguei na Zaki Narchi, eu fui pra um alojamento que tinha em cima, no morro. Não sei se você chegou a saber disso, lá onde são os barracos hoje, já foi alojamento também, na minha infância, ali. Tinha água encanada, chuveiro, tudo. Depois minha mãe passou pros apartamentos na Zaki Narchi. E daí, depois que eu cresci, a gente cresceu, meus irmãos, cada um voltou pra favela de volta, porque ali nunca para, eles tiram, volta, tiram, volta, que não é a primeira saída dali do morro. Tanto é que você vê: lá tem apartamento e ainda tem a favela, de volta. Porque enquanto eles não fizerem alguma coisa ali, o povo vai continuar invadindo. Eu comprei um terreno por quatro mil. Aí fiz o barraco. O barraco é do tamanho de um ovo. Meu barraco cabe dentro dessa sala (risos). O dia que você quiser ir lá, você vai ver. Pra um passar, tem que esperar um passar, pro outro passar. 

 

P/1 – Entendi. E há quanto tempo você está no barraco, três anos? 

 

R – Ali na frente, agora, depois de velha, três anos, ali na frente. Minha vida toda foi morar ali no meio do morro, agora eu estou na frente, onde passam os carros, na avenida. Três anos, aquele barraco meu. Só que tem mais tempo, tá? Que eu passei pra aluguel, morei de aluguel ali no barraco, que as pessoas alugam. Aí, depois, eu digo, falei pro meu marido: “Vamos comprar um terreno?” É da prefeitura, mas nós compramos na mão de segundo, entendeu? 

 

P/1 – E nesse tempo todo, qual foi o momento de mais dificuldade? 

 

R – Agora, nesse momento, esse ano, o fogo. Corre pra lá, fogo; corre pra cá. Uma agonia. Esse ano não foi muito bom, não, pegou fogo umas três vezes. Não estou gostando, está muito ruim. Graças a Deus, não chegou no meu, não, mas chegou no do pessoal, né? 

 

P/1 – Me fala uma coisa, você já chegou a participar de alguma atividade da associação? 

 

R – Nunca. Não. Nenhuma, nenhuma, nenhuma. 

 

P/1 – Mas eles oferecem marmita, chega pra você? 

 

R – Marmita todos os dias, na Casa Amarela. Todos os dias. Deu uma parada, mas foi muito pouco tempo. Muito pouco. Voltou de novo. Todos os dias tem marmita. Todos os dias. Quando é na Casa Amarela, é na rua mesmo, que os carros passam, dando. Todos os dias tem. 

 

P/1 – E seus filhos, já se beneficiaram, de alguma forma, de algum projeto?

 

R – Ó, tempo de época de Páscoa eles dão pras criançadas. Natal, cesta básica, cesta de Natal. Eu não estou muito envolvida, porque minha vida é muito corrida, mas que eles dão pro pessoal, dão sim. Chega marmita e mais marmita, cesta básica, roupa, bastante roupa, cobertor, muita coisa ali, na Casinha Amarela. Eu não vou dizer que eu pego de tudo que chega, porque eu não estou a par de tudo. Mas chega, sim. 

 

P/2 – E você comentou que eles tiram as pessoas. Quem tira?

 

R – Ó, assim: tem uns povos da comunidade lá que chegam as coisas pra eles, lá. Não chegam muitas coisas, assim, pra mim, eu estou falando de mim, não chega, porque eu estou trabalhando. Mas minha cunhada sempre fala: “Ângela, teve doação hoje”. A minha cunhada está parada, meu irmão, moram lá no morro e sempre falam: “Chegou cesta básica, chegou isso, chegou aquilo”. Pra mim não vai chegar, mesmo, porque eu nunca estou ali, na rua. Hoje eu estou, porque eu estou de férias. Mas eu não tenho tempo pra estar correndo atrás, mas todo mundo sabe onde eu moro. 

 

P/2 – Ângela, eu ia perguntar quando você estava falando dos barracos, que tiram. É a prefeitura?

 

R – É a prefeitura, porque ali é da prefeitura. Aquele terreno é da prefeitura.    

 

P/2 – E daí eles tiram?

 

R – É, mas eles não deixam ninguém na rua, não. Quando não dá apartamento... a pessoa escolhe: apartamento ou a verba. Como tem muito usuário, então pega mais a verba. Mas eles não deixam ninguém na rua, não. Nunca deixou. Nunca, nunca desamparou ninguém, não. Tem que falar a verdade, né? Que a pessoa diz: “Nunca ganhei, não”. A pessoa escolhe: se você quer a verba, se você quer uma moradia. A maioria pede verba, porque são muitos usuários na favela. Tem mais usuário que família. Isso estraga até para nós, na hora de ganhar. 

 

P/1 – E comparando a sua vivência na comunidade na infância e hoje em dia... 

 

R – Na infância era melhor. Bem melhor. 

 

P/1 – Por quê? 

 

R – Eu acho que é porque eu não entendia de droga, né? Eu tenho um filho nas drogas. A minha infância foi bem melhor. Hoje eu vejo só menino roubando e fumando, então é uma infância horrível agora, de agora, do século XXI, horrível. Muito horrível. Quem mora lá dentro é quem sabe, né? Não vejo nada bom, não. Menino novo... 

 

P/1 – E você consegue perceber algumas transformações na comunidade, pensando em luz, em água encanada... 

 

R – Ó, é uma guerra. Essa semana, mesmo, o povo do morro ficou sem água. É muito ruim. Não está nada bom, não. Agora, no momento, não está nada bom, não. Uma hora tem água, uma hora não tem. Também é uns povos assim, tudo assim, sossegados, não querem gastar, não querem comprar um cano, querem tudo doado, também. Também não é assim. O povo quer tudo fácil. Não compra um fio grosso. Aí, aquele fio fino pega fogo. Pega fogo, mesmo. Então, eles não querem melhorias. Tem que fazer um esforço, também. Comprar um fio grosso, um cano bom. Esses dias teve falta de água, sim, lá. 

 

P/2 – E como é a relação dos moradores do entorno, dos moradores da Zaki Narchi com o entorno, assim, com as outras pessoas que vivem por perto, mas não vivem na comunidade?

R – Aqui em frente é o morro e aqui em frente é casa própria. Se dão tudo bem. Aqui, de frente, assim, não sei se você percebeu, lá, do lado de cá é casa própria e do lado de cá é invasão. O morro onde eu estou é invasão.

 

P/1 – E o Parque da Juventude?

 

R – Uma maravilha! Uma coisa muito boa. 

 

P/1 – Como foi?   

 

R – Eu vi quando eles... eu morava ali atrás, meu menino era bem pequenininho. Foi muito bom esse Parque da Juventude. Foi uma maravilha! Muito bom, muito bom mesmo. Muito bom. 

 

P/1 – E quais foram os momentos mais marcantes, pensando em toda sua trajetória na Zaki, que momento você considera o mais marcante?

 

R – Quando eu ganhei o apartamento.

 

P/1 – Como foi?   

 

R – Foi muito bom, muito linda a entrega da chave, né? O momento melhor, mesmo, que eu vivi, foi do apartamento. Eu ganhei o apartamento no Jaraguá, eu vendi, comprei a casa em Guarulhos e voltei pra Zaki de novo. Fiz uma burrada. 

P/1 – Você chegou a dormir lá, passar um tempinho? 

 

R – Eu fiquei ainda sete anos, no apartamento. Mas eu me arrependi de ter vendido, viu? Voltei pra trás, comecei do zero. Foi uma burrada. 

 

P/2 – E como era morar no Jaraguá?

 

R - Muito bom. Eu trabalhava em Santana, na época. O ônibus era um pulo, um ônibus só. Aí eu fiz essa cagada, não sei por que, mas eu fiz (risos). Me arrependi muito. Uns apartamentos bonitos que eles entregam, eu fiz essa burrice. 

 

P/2 – Você era casada? 

 

R – Já tinha meus filhos, já. Já era casada, quando morava com o pai dos meus filhos. Já era casada, mas eu fiz essa burrice aí. 

 

P/1 – E como você conheceu seu segundo marido?

 

R – No trabalho. Numa entrevista de trabalho. Amor à primeira vista (risos). Foi meu segundo esposo, que seja até a morte, né? Que Deus nos separe. Que seja a morte. Mas uma pessoa maravilhosa que eu vivo hoje. Não é pai dos meus filhos, mas parece ser pai deles. Melhor que o pai.

 

P/2 – E qual o nome dele?    

  

R – É Alexandre Manoel da Silva. Ele é gari também. É uma pessoa maravilhosa.

 

P/1 – E como foi se juntar a ele?   

 

R – Quando nós fizemos a entrevista de emprego, que foi pra entrar na Paineiras, ele olhou pra mim, eu olhei pra ele, ele disse que se apaixonou e até hoje nós, graças a Deus, estamos juntos. Mas é uma pessoa maravilhosa! Maravilhosa, mesmo.

 

P/1 – E como é o dia a dia de vocês? 

 

R – É assim: ele, agora, no momento, está nervoso, porque meu filho não voltou, aí ele vê que eu não durmo, a minha porta eu já durmo com ela aberta, o portão só encostado, porque eu vejo um barulho, até a pisada da polícia eu já conheço. Quando é a moto da polícia, o carro da polícia, eu já conheço. Quando é uma pessoa normal, eu já sei, mesmo eu não vendo, eu falo: “É a polícia passando”. Levanto e é a polícia, mesmo. É aquele instinto, eu digo: “Vai pegar meu filho”. É mais complicado. Ele sofre junto. Ele não é pai, mas sofre junto, por causa de mim. Que ele me ama muito, é uma pessoa maravilhosa, ele diz: “Pronto, tu agora não dorme”. Não durmo mesmo, não. Não durmo mesmo. 

 

P/1 – E, Ângela, você já sofreu algum tipo de preconceito por morar na Zachi, ou pensando em pessoas fora da comunidade, em emprego?

 

R – A última vez que pegou fogo, o meu encarregado mandou um áudio pro fiscal. Três horas da madrugada, quando pegou fogo a favela, eu falei pro meu fiscal, André: “Eu não vou trabalhar hoje, que minhas coisas estão na rua”. Porque aí, quando pega fogo, se dá tempo pra nós pegarmos as coisas... minhas coisas já são embaladas. O dia que você for na minha casa, você vai ver. Já é tudo em sacola, empacotado, porque já penso no fogo, já joga as coisas pra fora. Três horas da madrugada eu liguei pro meu fiscal, disse: “Eu não vou trabalhar no dia seguinte, porque eu vou organizar meu barraco, que eu baguncei tudo, ‘ponhando’ as coisas pra fora, que pegou fogo a favela” e o encarregado se chama André também. Ele pegou e falou no áudio: “Põe falta nela, porque essa favela que ela mora só vive pegando fogo”. Isso aí me magoou muito. Isso aí doeu lá na alma. Eu ia passar pra frente, no escritório, eu ia lá pro escritório e isso aí não gostei. Só que eu sou uma pessoa da paz, eu digo: “Vou deixar pra lá”, mas eu ia no escritório, que não era pra ele falar assim. Eu tenho dois anos e um mês de gari, não tenho uma falta e um atraso. Na hora que eu precisei, ele falou isso. Então, isso me magoou na alma, mesmo. Até hoje eu não esqueço. Eu ia passar pra frente, mas eu sou da paz, não gosto de confusão, mas eu não gostei. “Essa mulher, onde ela mora, só vive pegando fogo. Põe falta”. Aí eu falei pro meu fiscal: “Põe falta, que eu vou pôr um advogado. Pode pôr falta, que eu tenho prova que a favela pegou fogo e vocês estão me discriminando. Pode pôr”. Ele: “Não, Ângela, nem vai...” “Eu quero que põe, porque eu vou correr atrás e vou processar vocês, que a gente não tem culpa que favela pega fogo”. Ele falou: “Essa mulher morando na favela que só vive pegando fogo. É todo dia um fogo?” Isso aí me magoou muito. Eu não passei pra frente, pra não prejudicar ninguém, mas na hora me deu vontade, mas como ele não ‘ponhou’ a falta, eu fiquei na minha, mas não gostei. 

P/1 – E, Ângela, não só em dias de incêndio, mas eu imagino que a comunidade se ajuda, as pessoas, elas mesmas vão se ajudando. Como é isso? Existe um trabalho em equipe, coletivo? 

 

R – Ó, agora, no momento, ali no morro, no meu ver, tinha que ter um líder pra organizar, mas não tem. Ali no morro, tá? Não estou falando da Casinha Amarela, não, que eles estão sempre... é ali no morro. Deveria ter uma pessoa pra cuidar dali, que é muito bagunçado. Se você for lá um dia, dentro da favela, você vai ver. São uns becos muito estreitos, muito estreitos. Os fios são baixos, são fios descascados. Eu tenho uma filha que é tão alta, que eu já disse que eu vou lá isolar que, quando ela passa, ela tem que baixar a cabeça, que ela é muito alta e os fios são muito baixos. Está muito desorganizado. Não é muito bom, não. 

 

P/2 – E a Casinha Amarela não chega lá?

 

R – Ó, a Casinha Amarela, quando é assim: Natal, Páscoa, eles passam nas casas, pra pegar o nome. Data comemorativa. Mas não passam em todos os barracos, enfim. 

 

P/2 – Não, mas a organização do morro é diferente de lá da frente?

 

R – Isso. Isso mesmo. Eu não sei como vai funcionar aquilo, que está uma bagunça, muito bagunçado. Muito bagunçado, mesmo. Inclusive, essa última vez que pegou fogo, começou no barraco do meu primo e ele se queimou. Ele drogado, drogado, não achou a chave da porta, do cadeado, pra abrir o cadeado, ele teve que pular pelo telhado. Como os barracos são malfeitos, baixos, no móvel ele subiu e pulou pelo telhado, mas ele saiu queimado. Graças a Deus não morreu. Disse que viu a morte. Ele disse que estava dormindo e viu uma quentura nos pés, pensou que estava sonhando, ele disse que quando abriu o olho, o fogo já estava dentro do barraco dele. Essa última vez, agora. 

 

P/2 – E quando começa, como é? 

 

R – Dá um desespero! Uma agonia na alma. Misericórdia! É muita luz, é muito ruim, uma correria, uma gritaria, gente correndo com botijão, pega menino, uma correria, é horrível. 

 

P/2 – O pessoal sai avisando? 

 

R – Sai. Oxi, alarmando. Eu sou a mais escandalosa (risos). Pra gritar, quando é fogo, misericórdia! Nós saímos alarmando, um ao outro. Essa última vez foi às três horas da madrugada. Parece que eu sinto. A minha mente já é perturbada. Eu não durmo. Já não durmo preocupada com o filho. Meu filho estava preso, quando pegou fogo a última vez. Mas, mesmo assim, é preocupação de tudo quanto é lado: quando não é fogo, é filho preso, é menino em rua. Mesmo assim, aí eu não consigo dormir, eu tenho uma insônia terrível, depois que eu estou morando ali na Zaki Narchi. Eu moro em frente de dois bares. É barulho, é muito agitado. Eu não sei se você percebeu que ali é muito agitado. Ali, de dia e de noite, você não sabe quem é a noite e quem é o dia. Parece uma Cracolândia. Que eu trabalhei na Cracolândia, né? É muita agitação, movimento. Pronto, o movimento da Cracolândia, pra onde eu moro, não muda nada, não. Por causa das drogas, os usuários de drogas. 

 

P/1 – Se você quiser falar um pouquinho sobre isso. Você disse que _______ próximo. Como é essa relação com as drogas? 

 

R – Ah, é tão triste! Como eu tenho um filho já nas drogas, a gente sente as dores de todos os filhos: meninos pequenos, tem uns adolescentes muito novos lá, que saem pra roubar, é uma correria, vem polícia, vem mãe e é uma gritaria. As vítimas chegam na favela desesperadas, dá uma dó e a gente não pode fazer nada. Fazer o quê? 

 

P/2 – E como foi o trabalho, lá na Cracolândia?

 

R – Não gostei, não. Pensei que eu ia entrar em depressão. Eu fiquei uma semana chorando, eu digo: “Meu Deus, não vou aguentar trabalhar nesse lugar, não”. Fiquei um ano e seis meses na Cracolândia. É horrível! Você vê uma mãe atrás de um filho ali, nas drogas. E, na época, meu filho preso. Vixi, eu chorava tanto! Eu digo: “Meu Deus, vou enlouquecer nesse lugar”. É muito triste. Muita gente nova, bonita, ali dentro. 

 

P/1 – Qual era o seu trabalho?

 

R – Varrer. Não é pouco, não, o trampo ali, viu? É pesado, pesado, muito pesado. E perigoso também. Muito perigoso. A gente tinha que entrar com escolta. Não pode entrar, nós não entrávamos sós. É com escolta, pra limpar. Só que eles são assim: eles respeitam os garis, viu? Respeitam muito, mas nós temos que entrar com escolta, pra tirá-los do lugar, pra limpar. Uns gostavam, outros não gostavam. Tem uns que nos chamavam de Arrastão: “Lá vem o Arrastão”. Eu ouvia aquilo, eu digo: “Meu Deus!” Mas é difícil trabalhar ali dentro, viu? Muito difícil. Já vi um rapaz morrer na minha frente. Morrer, mesmo, assim, nos meus pés. Eu digo: “Meu Deus!” Eu me pus no lugar de uma mãe. Morrer, mesmo, e eu não poder fazer nada. Morreu, mesmo, na hora, assim, nos meus pés. Um choque que ele levou. E as polícias também não fizeram nada. Fazer o quê? É a vida deles, que eles escolheram. Morreu assim, na hora. Até eu pensei que eu não ia suportar, não, trabalhar ali, mas graças a Deus, Deus me tirou dali, agora eu estou na Armênia, no ecoponto. Graças a Deus! Marca placa de carro, né? Entrada e saída. Mas graças a Deus eu estou lá, por enquanto, no ecoponto, agora.      

 

P/2 – E foi só nesses dois lugares que você trabalhou?

 

R – É. Depois de gari, foram esses dois lugares, só. Que eu só tenho dois anos e meio lá, então foram esses dois lugares que eu trabalhei.

 

P/1 – E você falou que quando era mais nova, sempre gostou de fazer isso e pensava em trabalhar. Como foi realizar isso?

 

R – Ô, fiquei tão feliz! Pense numa pessoa que pulava (risos). Fiquei muito feliz. Até hoje eu varro a rua todinha, onde eu moro. O povo diz: “Essa mulher não para, não”. É que eu gosto de varrer, mesmo. Eu gosto, amo. É minha paixão. No ecoponto, o meu fiscal, quando vai, diz: “Essa mulher não para, não”. Quando param os carros, que saem, eu já vou varrer, capinar, eu gosto demais. Mandei uns vídeos pra vocês, não foi? Mandei umas fotos. É ali o meu trabalho, mas eu amo.

 

P/1 – Como você se sente? 

 

R – Eu me sinto muito bem, feliz. É um trabalho digno. Eu amo. Amo de paixão. Pretendo me aposentar. E não viver só nessa função, crescer, que lá eles dão oportunidade pra ser motorista, trabalhar no RH. Inclusive eu estou estudando lá mesmo, na empresa. 

 

P/2 – E as pessoas no entorno respeitam vocês?

 

R – Respeitam. Muitas pessoas dão valor aos garis. Muitos. A gente recebe elogios. Tem muitas pessoas que reconhecem, graças a Deus. 

 

P/1 – Você consegue lembrar de algum dia marcante de trabalho?

 

R – Quando eu achei cinquenta reais, no primeiro dia de trabalho. Nunca tinha trabalhado de gari, falei pro meu parceiro: “Pega esse papel que está enrolado”. E ele : “Mas...”. Eu digo: “Pegue logo, que isso aí é dinheiro”. Quando eu abri era cinquenta reais, mas eu fiquei numa felicidade (risos). No terceiro dia achei cinco ‘conto’. Depois de um mês, achei mais cinco ‘conto’. Até então não achei mais dinheiro. Agora tem um gari que passou no repórter. Teve um assalto e jogaram dentro do carrinho do gari. Vocês viram no repórter? Passou no repórter, foi no Centro de São Paulo. Aí o gari foi, viu a polícia e entregou o dinheiro. Me desculpe, mas eu não entregava, não, que eu não roubei. Jogaram dentro... (risos) eu digo: “Recebeu a bênção e jogou fora”. O ladrão, pra despistar da polícia, jogou dentro do carrinho. Aí tu vê a honestidade. Eu falo assim, mas às vezes até... que eu tenho um coração maravilhoso, não consigo ser mau com ninguém, não, mas esse aí passou no repórter, só que eles não estão mais, hoje, na empresa. Passou no repórter e tudo essa história aí do gari, que devolveu o dinheiro pra polícia. 

 

P/1 – E, Ângela, como foi voltar pros estudos?

 

R – Ó, falar a verdade, não gosto de estudar, não, viu? Não vou mentir. É que não entra nada, eu sou ruim pra aprender as coisas, eu sou muito ruim. Eu não vou dizer que estou gostando, porque é a minha cabeça, eu não consigo estudar, mas eu quero crescer, então tenho que fazer esforço. Ninguém nasceu aprendendo, já sabendo. Mas pra mim está sendo divertimento, mas depois de velha, estudar, né? (risos) 

 

P/1 – Mas é presencial ou é virtual? 

 

R – Não, é presencial agora. É normal, mesmo. É uma escola, mesmo. Prefeitura e tudo. Dá caderno e tudo. É uma escola de verdade. 

 

P/1 – E aí, depois do trabalho que você vai?

 

R – Não, é na hora do trabalho. Pronto: eu pego uma e quarenta, onze horas eu tenho que ir. Vai onze horas, aí uma hora em ponto volta pro trabalho. Mas está bom, muito bom. 

 

P/1 – E no trabalho, tem amigos?  

 

R – Ô. Eu sou tão querida no trabalho, graças a Deus! No escritório, todos me amam, assistente social, todos gostam de mim. Eu faço amizade, brinco com colega trabalhando. Nos primeiros tempos, quando eu comecei a trabalhar, a mulher me chamou pro pau. Pensa numa pessoa nervosa que fiquei. Mas eu disse: “Eu preciso do meu trabalho, estou aqui pra trabalhar”. Quem saiu foi ela e eu fiquei. Trabalho é lugar de trabalhar, não arrumar confusão. E estou lá, até hoje.

 

P/1 – O que aconteceu?

 

R – Ela queria ser mãe de todos, né? Uma vez ela puxou o cabelo de uma senhora, eu já fiquei nervosa porque ela puxou o cabelo de uma senhora de idade, de ser mãe nossa... Enfim, não deu nada. Outro dia ela chamou outra pro pau, não deu nada. E chamou eu, quem é o errado? Essa pessoa já brigou três vezes. A errada é ela, né? No fim, que a última foi eu, ela foi mandada embora. Muito briguenta. Gente que não está pra trabalhar, está pra brigar. Por nada, hein! Aí, hoje não está na empresa, graças a Deus! Não está pra trabalhar, está pra arrumar confusão. Mas no fim eu amo meus colegas de trabalho. Quando eu vou no escritório e quando eu vou lá na Barão, na Cracolândia, o alojamento nosso, que hoje eu já não estou mais lá, estou na Armênia, mas quando eu vou lá, me abraçam, faz uma alegria. Engraçado, eu gosto muito dos meus amigos de trabalho. São umas pessoas maravilhosas, graças a Deus! 

 

P/2 – Ângela, você falou que você tem um neto, né?

 

R – Tenho. Um netinho, de cinco anos. 

 

P/2 – Como que foi se tornar avó?

 

R – Pra mim foi... tem gente que fica desesperado, né? Pra mim é uma felicidade meu neto, inclusive ele estava comigo. Eu o levei domingo pra casa dele, que ele mora com a mãe. É que ela nunca morou com meu filho. Aos quatorze anos eles ficaram namorando e daí nasceu o Pedro Henrique, um menino maravilhoso, lindo. Quer morar comigo, mas a mãe não quer dar, não. Mas ele falou que vai morar comigo: “Quero morar com a minha vó”. Ele é muito lindo, meu neto. Puxou a cor da mãe e a cara do pai. É loirinho, meu filho é moreno, puxou a cor da mãe. Mas é um menino maravilhoso. 

 

P/2 – E quanto anos ele tem?

 

R – Cinco aninhos. Um menino muito bom. 

 

P/1 – E como é a relação com as suas filhas? 

 

R – Com ele?  

 

P/1 – Você com elas. 

 

R – São três, cada um, um filho diferente. A do meio é meio invocada, rebelde. A do meio, que passou a usar droga. Mas graças a Deus, ela saiu mesmo. Pensei que ela ia me dar trabalho, mas graças a Deus ela saiu. De três filhos, cada um é de uma qualidade diferente. A do meio é muito invocada, a caçulinha é apegada a mim. Se você puxar no meu Face, você só vê foto dela comigo, parece que eu só tenho ela. Mas é porque ela é mais apegada a mim. Mas a minha relação com os meus filhos é maravilhosa. Só o de 21 anos que é um ótimo filho pra mim, mas ele não é bom pra ele mesmo, então tira a minha paz, entendeu? 

 

P/1 – E me fala uma coisa: você enxerga pontos positivos, assim, por morar na comunidade, com outras pessoas junto?

 

R – Como assim? 

 

P/1 – Tem coisas boas ali?

 

R – Tem muita gente de família, mas quando a polícia vai lá, pra eles é tudo igual. Eu digo porque eu vejo. Logo essa última vez que pegou fogo, eles nos trataram muito mal. Parece mentira, né? Tem polícias boas, né, gente? Tem os ruins também. Mas eles nos trataram muito mal. O povo fica no desespero de fogo e eles querem acalmar ali. Atacaram foi bomba, gás de pimenta. Isso eu achei tão feio. Era três horas da madrugada, eles já chegaram atacando bomba. Mas eu entendi que é pra gente não querer ir pegar as coisas. Aí parte pra essa parte da ignorância. Porque as pessoas querem ir pegar as coisas que têm, né? Pra mim, o que me serve dentro do barraco são as minhas roupas e meus documentos. Mas, como eu moro na frente, eu já corro e já vou jogando tudo pra rua. É uma agonia danada! Mas eu vejo discriminação, sim. Pra polícia, é tudo bandido. Tem que falar a verdade, né? Pra eles é tudo uma coisa só. Mas tem muita gente de família em favela, viu? Tem muita gente de família, que trabalha. Minha irmã, mesmo, se formou. Ela cuida de criança em creche, foi criada na favela. Minha mãe teve quatro filhos, foi a única que se formou. A pessoa critica muito, mas tem gente... eu tenho um sobrinho, que é o filho da minha filha... da minha irmã mais velha, quer ser doutor, mora em favela. É um menino que é criado dentro de casa. De casa pro trabalho, da escola, de curso e é um menino de favela. Você vê e nem parece que mora em favela. As pessoas discriminam, sim. Se a pessoa disser que não, discrimina, acham que todos são iguais, mas não é assim, não. Tem muita gente de bem. Tenho uma sobrinha de dezessete anos que quer ser enfermeira. O meu sobrinho mais velho quer ser doutor. Eu tenho um sobrinho que já bate bola, quer ser jogador. O namorado da minha sobrinha é goleiro. Então, tem pessoas boas também em favela, mas tem discriminação, sim. Muito, não é pouco, não. Ainda mais ali, a Zaki Narchi, é bem falada, por causa dos erros, todos pagam, né? É assim. 

 

P/1 – Se você pudesse mudar alguma coisa, o que você mudaria? 

 

R – Ah, eu ia mudar tanta coisa! (risos) Queria muito, queria eu, ia mudar muita coisa.

 

P/1 – O que é?

 

R – Tem muita coisa ruim ali, de se resolver. É mais parte da bandidagem. Muita coisa errada. Muito, não é pouco, não. Se eu pudesse, eu mudaria isso aí, de droga. Mas não pode. Se eu pudesse, eu mudaria isso. Gente que vem de fora e é assaltada dentro da favela. Entraram dentro da casa da minha filha, que eu tenho meus filhos todinhos, cada um tem um barraco, porque o meu é muito pequeno. O dia que você for lá, você vai ver. Então, eu comprei um terreno pra cada um. Cada um tem seu barraco, mas são todos encostados no meu. Não é nada distante, são todos um junto do outro. Só é individual, sabe? Entraram na casa da minha filha, roubaram a TV dela. Então, é uma favela que não tem disciplina. Não tem, mesmo. E, graças a Deus, na minha casa não tem nada roubado, é tudo do suor, meu e do meu esposo. Graças a Deus! Meu filho está na vida errada, mas foi ele que escolheu, mas na minha casa, graças a Deus, não entra nada errado. Se eu pudesse mudar, eu mudaria essas coisas aí de droga, mas infelizmente não posso. A saidinha, agora, lá na rua, esperando meu filho, agoniada, eu vi as agonias das mães, porque tem o DP lá, o povo todo agoniado, as mães gritando com os filhos, gente que não é dali. E aquilo me emocionou muito, as mães, que eu também estava no mesmo barco. E as mães: “Vai logo”. Gente correndo, pra não pegar o ônibus atrasado. Aquilo ali magoa muito. Eles vindo pra boca comprar droga. Que de vez em quando é em frente à minha casa. Pra ir pra cadeia, passaram lá pra comprar droga. Aquilo ali é tão triste! Mas infelizmente é assim. De vez em quando o ponto de droga é em frente à minha casa. Eles mudam, pra polícia não... agora está mais de frente à minha casa. Em vez de melhorar, piorou. Eu moro na rua, de frente à rua. Hoje mesmo a polícia ia pegar meu filho e ele está fugitivo, porque não foi, está fugitivo agora. Fazer o quê? Ele escolheu, né? Deus dá livre arbítrio pra cada um. Está aí, escolher o bem ou o mal. Eu escolhi o bem, graças a Deus! Ensino pros outros escolher o bem, né? Isso aí.

 

P/2 – Ângela, agora você está de férias, né? O que você gosta de fazer no dia a dia?

 

R – Isso. Mexer com água (risos), lavar roupa, passar roupa, arear panela. Eita, que eu gosto demais! Amo cuidar de casa! Mas meus filhos não puxaram a mim, não. Tenho três, nenhum puxou a mim. Assim, de gostar de cuidar de casa, nenhum dos três. A que tem dezessete anos, vai fazer dezoito agora, dia 28 de setembro, mora também com um rapaz. A de dezesseis, menina, a caçula, não sei se viu na foto as minhas filhas, eu mandei pra vocês. São bonitas, não são? 

 

P/1 – São.

 

R – A de dezesseis anos namora um menino, o menino está preso. A vida que cada um escolhe. Eu ensinei tudo certinho, mas eles deram pro lado errado, o que eu posso fazer? Eu mandei as fotos pra ela, dos meus filhos, meus três filhos. A caçulinha é a minha cara, né? Uma menina linda, maravilhosa. Desistiu de estudar e agora quer estudar de volta: “Vá, mamãe, me põe...”, eu digo: “De novo? Estou cansada de ir atrás de escola pra vocês e vocês desistirem”, mas dizem que agora elas querem, as duas. Vão voltar a estudar. Umas meninas tão bonitas, inteligentes, mas ao mesmo tempo são burras, escolhem umas coisas tudo errado. Mas dizem elas que querem estudar. Vou tentar mais uma vez, mas já estava desistindo, mas eu vou tentar. Ela: “Por favor, acredite em mim, eu vou mudar”. Então eu vou, antes de voltar, fazer a matrícula das duas.

 

P/1 – Vocês conversam bastante?

 

R – A pequena, a caçulinha conversa muito comigo. A do meio é muito invocada. Muito invocada, mesmo. A caçulinha é mais dada. Conversa muito comigo. Aí, quando eu estou triste, ela fica triste. Segunda-feira mesmo as duas ficaram todas tristes, porque meu menino não voltou. E elas sabem que eu fico perturbada. Então, elas ficaram tudo tristes. Ficaram tudo chorando, perturbadas. Até me responderam. “Por que vocês estão me respondendo?” “Porque você passa a mão”. Eu digo: “Não vou odiá-lo, ele é meu filho”. Elas queriam que eu batesse, eu digo: “Não vai mudar nada” “E você passa a mão”. Eu digo: “Não, a minha parte eu fiz, de querer levá-lo, ele não quis ir”. Elas ficaram tudo nervosas: “Agora que você não vai dormir, mesmo”. Eu digo: “Eu vou fazer o quê?” Elas ficam nervosas, mas por mim. Vou fazer o quê? Eu mesma não escolhi essa vida pra mim, de usar droga. Graças a Deus, não. Tenho quarenta anos, nunca bebi, nunca fumei e meu esposo nunca tocou numa bebida, nunca fumou, é de poucos amigos, não tem amizade com ninguém. Tem gente que diz: “Tu tem marido?” Eu digo: “Tenho”. Que ele é muito quieto, meu esposo, mas uma pessoa maravilhosa. Uma pessoa ótima. 

 

P/1 – E você mantém contato com seus irmãos e com a sua mãe? 

 

R – Nós moramos tudo na mesma comunidade. Na casa da minha mãe, ela operou do coração já faz três anos e ela não é a mesma pessoa. As veias, todas, entupiram. Desde os onze anos de idade que ela fuma cigarro. Entupiu as veias dela, todinhas. Passou por uma cirurgia, está pra passar por outra, disse que não vai. Ela tem quatro filhos, nós todinhos demos conselho a ela pra não ir, também, porque ela não vai aguentar. Aguenta, não, minha mãe está com 58 anos, parece que tem sessenta. Acabou a mulher. E ela disse que não vai, não, que vai morrer em casa, mesmo. Entupiu de novo as veias da mãe. Voltou a entupir de novo. Mora tudo perto, mora ali nos predinhos da Zaki Narchi, a minha irmã mais velha, a minha mãe. Mora tudo no prédio. Duas moram no prédio, que são quatro filhos que ela tem. E dois no morro, que sou eu e meu irmão. É usuário, meu irmão. É um perturbado, também. Usa droga. Aí acaba mais ainda com a saúde dela. Ver um neto nas drogas e ver um filho, é pra matar. Isso aí. 

 

P/2 – E quais são seus sonhos, seus maiores sonhos?

 

R – Ter minha casa própria. Pra mim é difícil ter uma casa, mas um dia eu acredito que vou ter. É ter uma casa, de verdade. De verdade, mesmo. Ter uma casa. Nossa, eu amo limpeza! Nossa, eu olho assim pro barraco, digo pro meu marido: “Que saudade do meu apartamento! O que foi que eu fiz?” Quando o povo entrava no meu apartamento, cheirava limpeza. Barraco, por mais que você limpa, não é como uma casa, não. Mas não é, mesmo. É rato, é barata. Mesmo que você limpe de manhã. Ainda mais ali, é muito lixo. A gente mora em cima do lixo, você sabe, né? Aquele morro ali é cheio de lixo. Quando eu fui casar... ali não é pra ninguém morar, é porque a gente não tem mesmo pra onde voltar. Mas ali é lixo. Inclusive, o dia que você for lá, você vai ver: tem um barraco caindo por cima do da minha filha. Eu quero ver por onde ela vai passar. Eu estou aqui estudando, pra tirá-la pelo telhado, porque o dia que acontecer... está caindo, já. É morro, né? No dia que você for lá, você vai ver, o barraco do homem está caindo por cima do dela. Só peço que não caia em cima dela. Mas uma hora vai cair, está caindo mesmo. 

 

P/1 – Ângela, qual a importância das doações na sua vida, assim? 

 

R – As doações que eles dão?

 

P/1 – É. O que importa, isso? 

 

R – Importa muito. Tem muita gente desempregada, ali dentro. Muito, muito, muito, muito. Muita gente desempregada. Pra mim importa muito. Apesar que nem tudo chega na minha casa, mas pra mim importa, porque ajuda muita gente. Tem muita gente parado, né? Pelo menos eu e meu esposo trabalhamos. E quem não trabalha? Tem muitos que trabalham também, tá? Mas tem muitos, muitos desempregados. Depois que eu entrei na empresa, arrumei serviço pra cinco. Os cinco desistiram. Então, a pessoa não quer, né? Tem gente que chegou na fila, desistiu. Pessoas que imploraram tanto, levei currículo, fiz a maior correria, botei minha matrícula no currículo da pessoa, chegou na hora, a pessoa não quis. Desses cinco, ficou um e ainda está dando trabalho! Tem gente que não quer trabalhar. Minha mãe dizia uma coisa: “Trabalho não é pra todos. Nem todo mundo quer trabalhar, às vezes”. A realidade da vida é essa. E ali tem uns folgadinhos. Eu digo porque eu moro ali e eu vejo. Eu digo: “Mais uma vez eu vou levar currículo de vocês. Agora, aí, são vocês que vão ver se vão ficar, se vão permanecer”. Porque a pessoa vai pro trabalho, quer fazer o que quer. A gente tem que obedecer as ordens. Não chegar atrasado, não faltar. Mas a pessoa quer ir trabalhar e quer faltar. Tem um lá que mais faltava do que trabalhava. Arrumei pra ele, com um monte de filhos, sete filhos, não ficou, foi mandado embora, porque mais faltava do que trabalhava. A realidade da vida é essa. Tem muitas pessoas folgadas também. Vou falar a realidade, né? Muitas pessoas... doação, roupa, cesta básica, marmita todos os dias, café da manhã, quem vai querer trabalhar? Tem que falar a verdade. Tem muitas pessoas folgadas também. Muita gente de bem, mas tem muitos folgados também. “Tem quem dê, então não vou trabalhar”. A realidade é essa. Dando ou não dando, eu quero trabalhar. Quero ter do meu. Isso aí. Mas que é uma favela bem ajudada, é sim. Não vou falar que não é, que é. Se eu falar que não é, eu estou mentindo. É uma favela bem ajudada. Mas muitas pessoas não reconhecem e não dão valor.

 

P/1 – E como a pandemia impactou a vida de vocês?

 

R - Ó, essa pandemia atrapalhou a vida de muita gente. Da minha não atrapalhou, não, porque gari não parou. Mas muitas pessoas pararam. Minha irmã parou. Trabalha em creche, parou. A minha irmã, a outra, trabalha em museu, operando as câmeras, cuidando das câmeras, parou também, voltou agora. Então, a vida desses aí parou. A minha, não, porque gari não parou, mas outras pessoas pararam. Minhas duas irmãs pararam, voltaram agora. Mas graças a Deus eu estou empregada também. 

 

P/2 – E lá na Zaki Narchi, como que foi?

 

R – Nessa epidemia aí, eles deram muitas doações. Ajudaram muito. Foi muita cesta básica que foi chegando. Muito, muito, muito. Ninguém ficou desamparado, não. Até água mineral chegou pra esse povo. Na epidemia. Chegou muita doação de cesta básica, roupa, até água mineral. Chegou muita coisa. Não vamos dizer que não chegou, que chegou. Chega até hoje. Até hoje chega. As pessoas que também não reconhecem e não agradecem. É isso aí.

 

P/1 – E o que a comunidade representa na sua história?

 

R – Como assim?

  

P/1 – Qual é a importância... pensando em toda sua trajetória lá, o que ela representa pra você? Qual é a importância dela na sua vida? A comunidade. 

 

R – Como é que eu posso responder? Que eu não estou sabendo responder essa pergunta.

 

P/1 – Você ficou muito, você está há muito tempo lá, né? 

 

R – Isso.

 

P/1 – O que todos esses anos impactaram, influenciam na sua vida? Pensando na sua história. Dede quando você chegou em São Paulo, você entrou na comunidade, não foi?

 

R – Isso.

 

P/1 – A sua história está muito entrelaçada…

 

R – Quando eu cheguei lá não tinha nem prédio ainda, era barraco.

 

P/1 – Mudou muita coisa?

 

R – Mudou. Ali, quando eu cheguei ali, eram os barracos compridos, no lugar daqueles prédios, uns barracos mais feios do que o outro, um por cima do outro. Mudou muito a Zaki Narchi, em materiais, mudou muito. Enfim, todo Cingapura tem uma favela do lado, não sei por quê. Fizeram barraco de novo e eu estou nele também, né? Mas fica feio, né, uns predinhos e o barraco do lado. Fica muito feio. Eu acho. 

 

P/2 – E muito da sua vida foi lá, né?

 

R – Foi lá. Inclusive, meus filhos foram criados todos lá. E estão lá até hoje. Nasceram no Mandaqui, os três.

 

P/1 – E quais são as coisas mais importantes pra você, hoje?  

 

R – Em questão de quê? 

 

P/2 – Sua vida.

 

P/1 – Na vida, pensando na sua vida. Pessoas, o que é mais importante pra você?

 

R – O que é mais importante pra mim é minha família: esposo e filhos. É muito importante. Muito, mesmo. Materiais, meu sonho é uma casa. É um sonho, meu Deus! (risos) Eu tenho um sonho, de ter uma casa, se Deus quiser. Se eu não morrer, daqui pra lá, mas um dia vou realizar.

 

P/1 – Ângela, tem alguma coisa, alguma história, alguma pessoa, pra você, caso você queira contar alguma coisa que a gente não tenha te perguntado, ou alguma passagem, algum momento da sua vida... 

 

R – De pessoas que eu já vi morrer, né? A polícia deu um tiro. Foi o ano passado, em 2019. Um rapaz muito lindo. A polícia o matou. Na nossa frente, assim.

 

P/1 – Lá?

 

R – Lá. Depois que meu filho foi preso, morreram muitas pessoas. Um tiro certeiro, um tiro que a polícia deu aqui, ele morreu. Isso aí é triste.  

 

P/2 – Foi na sua frente?

 

R – Oxi, lá na rua todo mundo viu. Todo mundo. Um menino lindo, lindo. Não era dali, foi que ele conheceu uma menina lá.

 

P/2 – Dá medo?

 

R – Ô. Depois aconteceram outras coisas, aconteceu muita coisa lá.

 

(Trecho retirado a pedido do entrevistado)

Isso aí é a realidade da vida de favela. Enfim, é isso aí. Também tem uns que não respeitam a polícia. Não vamos só falar... tem uns que não respeitam. A polícia, às vezes, chega com ignorância, porque favelado é ignorante, tá? É muito ignorante. Muito, muito. Tem as polícias boas, tem os ruins. Então ela já chega dando tiro de borracha, chega mesmo. Vai fazer o quê? A polícia quebrou uma bicicleta em cima do corpo do meu filho. A bicicleta do meu esposo, a polícia pegou e... porque meu filho é usuário, mesmo e meu filho vendia droga. A polícia pegou e quebrou a bicicleta do meu esposo no corpo do meu filho, meu filho ficou todo torto, machucado. Tem alguns polícias que eu oro pra Deus abençoar, livrá-lo, mas tem umas que eu não gosto. Tem umas que são boas, trabalham com amor, mas tem umas que são, também, pilantras. Em favela o que acontece é isso, gente. Pra eles, nós somos tudo ‘nóia’. A realidade da vida é essa. Vai dizer que é trabalhador, pra tu ver que não leva um tabefe no meio da orelha. É isso que acontece em favela.

 

P/1 – E questão de segurança?

 

R – Nenhuma. Pra mim, nenhuma. Nenhuma, nenhuma, nenhuma. Principalmente ali, é muito falada, essa favela. Pra mim, não tem nenhuma segurança. Pra mim, não. Tanto faz ter um tiroteio e pegar em nós. Tanto faz. Também os caras, os moleques, em vez de respeitar, não respeita, joga pedra, a polícia mete tiro de borracha, mesmo. Fazer o quê? Aí não tem nada a ver um trabalhador. Eu garanto pra você que um trabalhador morre e bandido não morre, não. Dentro de favela é mais fácil um trabalhador passar, levar um tiro. Um só, certeiro, ele morre. Bandido leva trinta e não vai morrer. A realidade da vida é essa, que acontece. É isso aí. Eu estou cansada de morar ali, não vou mentir. Moro porque preciso. Não é discriminando o lugar, não. É que eu estou cansada. É barulho, é agitação. É muito agitado. Você pode ir lá três horas da madrugada e parece de dia. É muito agitado. Eu estou cansada. Tem hora que parece que eu vou enlouquecer. É barulho de som, de carro, de menino, é uma ‘brigaiada’, minha gente! (risos) Estou muito cansada. Tem hora que você está me vendo, assim, eu estou com o rosto horrível, estou muito cansada, muito cansada dali. Tem hora que meu marido olha pra mim, assim, ele diz: “Ângela, está acabada” “Estou, de favela, de tudo”. Ai junta tudo: problema de filho, favela, falta água, falta energia. Isso aí acaba com a gente. É horrível. Estou cansada de morar em favela. Eu estou. Se dizer que é bom, não é. Estou muito cansada. Moro porque preciso, mesmo. Prefiro morar ali do que pagar aluguel. Mas a paz vale tanto. Mas como eu tenho três filhos, eu dou de comer a todos, nenhum trabalha, ainda genro! Aí chegou genro, neto, tudo sou eu. Então, eu opto pela favela e não pelo aluguel. Mas a paz vale tanto. A paz não se compra. Mas paz eu não tenho, não. Vou falar pra você que eu tenho paz morando ali, não tenho, não. Ontem estava uma ventania, eu digo: “Meu Deus, segura essas telhas” (risos). Deu uma ventania ontem, eu digo: “Meu Deus!” Uma ventania danada. Tem umas telhas que voaram. A minha ficou, está lá, graças a Deus. Isso aí.

 

P/1 – E hoje você acordou às cinco da manhã?

 

R – Às cinco da manhã. Meu esposo sai todo dia cinco horas da manhã. Todos os dias. Mas hoje eu dei um pulo, eu digo: “Não, que eu tenho entrevista. Vou ficar de pé”. E estou pra lá, estou pra cá, cadê o Aquiles? Aí ele foi me pegar, umas oito e pouco, eu acho, que era. Mas eu já estava na ativa, já. Tem que ter compromisso.

 

P/1 – E como foi, pra você, ter contado um pouquinho da sua história pra gente?

 

R – Uma maravilha! Espero que você vá lá conhecer. Quero que ela conheça, porque só a gente falando, é bom ver a realidade. Eu quero que você veja a realidade que é dentro de uma favela. A realidade não é boa, não. Mas é bom a pessoa ver. Só a gente falando, assim... é bom ver com os olhos. Pra você ver a realidade, é horrível. Pra mim não é bom, não. Tem gente que diz: “Eu amo favela”. Eu não. Nasci e me criei em favela, mas não amo favela, não. Se eu pudesse, teria uma casa. Morar numa favela, pra não ter paz. Eu não tenho paz. Quem tem seus filhos, que não usam droga, tem paz, mas uma pessoa que tem filho que usa droga, não tem paz. Filho que usa droga, como é que você vai ter paz? Eu não tenho, nenhuma. Estou aqui, mas quando chegar em casa, já vou procurá-lo. Já é ‘de maior’, mas eu sou mãe. Ele pode ter cinquenta anos, eu vou ser a mãe dele. É isso aí.

 

P/1 – Ângela, muito obrigada!

 

P/2 – Muito obrigada!

 

R – Obrigada vocês!

 

P/1 – Por ter contado, pela sua disponibilidade. Muito bom te ouvir!

 

R – Obrigada! 

 

P/1 – Se você quiser e tiver um tempinho, a gente pode ver as suas fotos, que você me mandou.

     

P/2 – Ela mandou?

 

R – Mandei.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+