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História

“O meu limite é o céu”

História de: Luakam Anambé
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 26/07/2021

Sinopse

Nascimento em Viseu, no Pará, na etnia Anambé. Infância em uma fazenda, trabalhava em troca de alimentação e estadia. Vítima de abusos e de um casamento forçado. Gravidez e maternidade solo. Separação. Mudança para o Rio de Janeiro. Preconceito por ser uma mulher indígena. Trabalho com costura em diferentes confecções. Nascimento das Bonecas Anaty, homenagem a sua neta e a cultura de algumas etnias indígenas. Realização de sonhos. Pandemia. Crescimento do empreendimento. Luta pela causa indígena. Construção de um projeto social em sua cidade natal. Resgate da língua de sua etnia. Planos futuros.

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História completa

P/1 – Então, para começar, gostaria que você se apresentasse, dizendo o seu nome, local e data de nascimento.

 

R – Então, eu sou Luakam Anambé, sou do povo Anambé, do estado do Pará, a minha etnia fica nas margens do Rio Moju, município de Moju. Atualmente eu moro no Rio de Janeiro e tenho, juntamente com a minha família, a gente mora no Rio de Janeiro, mas tenho um contato muito grande com o meu povo, viajo bastante para lá, até porque a gente tem um trabalho já aqui no Rio com os indígenas da minha etnia e hoje nós temos um projeto lá, é um projeto voltado para as mães solo e adolescentes em situação de risco... eu nasci…

 

P/1 – Luakam... desculpa.

 

R – Eu nasci em trinta de julho de 1968. Estou com 53 anos e há dez anos eu moro no Rio.

 

P/1 – E qual o significado do seu nome?

 

R – É noite que brilha.

 

P/1 – E você sabe a história do seu nascimento?

 

R – Sei. Então, meu pai é filho de uma indígena, que nasceu nas margens do Rio Cajari, município de Moju, onde a aldeia existe até hoje e ela, na idade de treze anos, fugiu com um branco da aldeia, porque na época houve um confronto muito grande entre os índios Gavião e os índios Anambé, houve um massacre e eles saíram, muitos indígenas saíram e não voltaram mais e ela saiu e não voltou mais. Aí, ela junto com esse branco, que já tinha um certo conhecimento, atravessou para Belém, de Belém ela foi para região Bragantina e da região Bragantina ela chegou até às margens do Rio Piriá, que é município da minha cidade, da cidade onde eu nasci, que é uma cidade fronteira com o estado do Maranhão e lá ela ficou com esse homem, onde ela teve três filhos. E dessa união deles dois, nasceu meu pai, meu pai não foi aldeado, ele já nasceu nesse município nas margens do Rio Piriá, mas ele é filho de uma indígena, de uma Anambé. Então ele, meu pai, cresceu, logo em seguida ela morreu, e quando ela morreu, eles foram abandonados pelo pai, o pai os botou em cada uma casa e eles... o pai sumiu. Logo em seguida eles souberam também que o pai morreu e meu pai foi criado com Bento, por um senhor por nome Bento e onde esse homem dizia para ele - esse senhor que o criou – que onde ele chegasse, não era para dizer que ele era filho de uma índia, porque o povo, na época, tinha muito medo de indígena. Ele foi tirando essa imagem do indígena da cabeça do meu pai e na época estava a construção de igrejas católicas e o meu pai aprendeu uma profissão com esse senhor, é a profissão de pedreiro e cada lugar que ele chegava para fazer uma igreja, ele sempre botava isso na cabeça do meu pai. Mas o meu pai nunca esqueceu as histórias que a mãe dele contava quando viva, ele sempre teve essa história muito presente na vida dele. Quando chegou a idade de dezessete anos, o meu pai conheceu a minha mãe, numa localidade por nome Piquiateua. A minha mãe é filha de um nigeriano que veio no navio para a Bahia e, da Bahia, ele e mais quatro fugiram para o estado do Pará, porque no estado do Pará, na época, existia muita mina, hoje chamada de garimpo, e eles queriam trabalhar com ouro e eles fugiram para o estado do Pará. Chegou lá, ele conheceu minha avó também muito nova e, dessa união, ele teve seis filhos com a minha avó, onde nasceu a minha mãe. Aí, quando o meu pai completou, tinha dezessete anos, ele conheceu a minha mãe, minha mãe tinha quatorze e ele dezessete anos e eles se envolveram, eles dois não chegaram a casar, passaram a morar juntos e, dessa união do meu pai e da minha mãe, nasceram quinze filhos. Conforme a família ia crescendo, o meu pai ia se vendo numa situação muito difícil, porque ele era analfabeto, a minha mãe também. E a única profissão que ele tinha era a profissão de pedreiro e, em 1968, antes de eu nascer, meses antes de eu nascer, o prefeito da cidade de Viseu criou um projeto para fazer um prédio, para funcionar a usina elétrica na época e esse... e o meu pai foi chamado para trabalhar nessa usina, em maio de 1968 e, como a minha mãe morava na localidade de Piquiateua e era dezesseis quilômetros de Viseu para Piquiateua, o meu pai só ia final de semana, trabalhava a semana toda e ia final de semana. Como eu ia nascer em julho de 1968, meu pai preferiu arranjar uma casa e levar a nossa... a minha mãe com meus irmãos para Viseu, e na época não tinha transporte e a mudança deles foi transportada - minha mãe grávida, que eu ia nascer no mês de julho - em um carro de boi. Na época o transporte era carro de boi e toda mudança, que não era muita coisa mesmo, foi no carro de boi. E nós fomos para Viseu. Quando foi dia trinta de julho de 1968 eu nasci, na cidade de Viseu e quando eu... o meu pai trabalhou nessa usina por meses, nesse prédio dessa usina por meses e o prefeito da época gostou do trabalho dele e o deixou trabalhando pela prefeitura e a gente passou a morar em Viseu. E quando, eu lembro bem, eu acredito que eu tinha seis anos de idade, cinco anos de idade e a cidade de Viseu era bem pequena, bem pequena mesmo, que não tinha asfalto, era tudo rua de chão, a gente brincava muito naquelas ruas, minhas irmãs. Aí, na época, morreram quatro irmãos meus pequenos, aí foi uma situação muito difícil para a gente, porque na época tinha muito sarampo, tinha a varíola, e a cidade de Viseu não tinha um posto de saúde, apenas uma farmácia e essa farmacêutica, essa moça que era dona dessa farmácia, que tinha vindo para Belém e fez um curso de técnica de enfermagem e supria a necessidade na época. Mas quando chegava esse tipo de doença, não tinha jeito, morria mesmo, porque não tinha um certo socorro e morreram quatro irmãos meus pequenos na época, por sarampo e varíola e, mesmo assim, a minha mãe ficou numa situação muito difícil. Quando eu completei sete anos... eu com sete anos, a minha irmã com nove anos, a Fátima e a Maria das Dores com onze anos, a minha mãe botou a gente para trabalhar, tipo assim, até hoje isso existe muito no estado do Pará, aquela pessoa que tem mais condições pega filho daquelas pessoas que não têm condições, ah, ela vai trabalhar em troca de estudo, em troca da roupa, da comida. E, na época, tinha um fazendeiro que estava constituindo família e era o maior fazendeiro da cidade e a minha mãe lavava roupa para ele, para a família dele, aí ficou... ele viu e pediu para a gente trabalhar na casa dele e a minha mãe deixou a gente trabalhar na casa dele e a gente foi trabalhar lá, só que eu tinha uma irmã mais velha, na época ela já estava parece com dezesseis, dezessete anos, ela foi para Belém, essa minha irmã. E quando a gente passou a morar na casa desse senhor, a minha irmã que estava com onze para doze anos, tomou conta da cozinha, a outra de nove tomou conta da limpeza da casa, que a casa era muito grande e eu, com sete anos de idade, tomei conta do filho de quatro meses, ele tinha um bebê de quatro meses. Para nós era uma situação, ali, muito difícil, porque a gente conseguia se abraçar a noite. E a noite a gente já estava cansada daquela lida e era difícil, a gente se abraçava e chorava muito. Foi quando minha irmã veio, levou as minhas duas irmãs mais velhas para Belém e eu fiquei. Depois que minhas irmãs saíram dessa casa, a minha situação ficou muito difícil, porque eu sofria muita violência doméstica, porque como toda criança eu era uma criança muito levada e esse fazendeiro tinha aqueles currais grandes de gado e, quando tirava o gado de um lado para outro, ele plantava melancia, aí depois que ele tirava a melancia, ele plantava fumo, ele plantava tabaco. E na casa dele tinha o armazém, mais ou menos assim de dez metros de frente, por vinte metros de fundo, onde ele curtia aquele tabaco. Ali não tinha luz do dia, porque era para deixar mais forte o tabaco e valorizar mais. Quando eu fazia as travessuras, eles me prendiam dentro daquele armazém e aquele cheiro do tabaco me embebedava e eu dormia. Isso me deixou sequelas até hoje, que eu tenho problemas de vista muito sério, porque quando eles me tiravam de lá, eu enfrentava a claridade, quando eles abriam a porta, eu enfrentava aquela claridade e eu fui perdendo, fui tendo um certo tipo de problema de vista e eu vivi isso daí, eu sofri muita violência doméstica nessa casa, eu fui estuprada, né? E levei ao conhecimento da pessoa com quem eu morava, levei ao conhecimento da esposa dele, falei para ele, ela virou para mim e falou assim: “Se você continuar com essa conversa, eu vou lhe botar no armazém”, e eu tinha pavor desse armazém, eu tinha muito medo desse armazém, porque a gente, quando é criança, a gente fantasia muito, e eu via coisas dentro daquele armazém e não sei se eram coisas da minha cabeça, mas eu via muita coisa naquele armazém e, às vezes, eu até imaginava que eu tinha morrido naquele armazém, mas quando o sono me pegava, quando eu acordava de novo, eu dizia, eu botava a mão: “Não, eu não morri, eu estou aqui”, porque eu via muitas coisas ali dentro, eu muito criança, né? Então eu tinha pavor desse armazém e ela chegou comigo e falou para mim assim: “Se você comentar mais uma vez, se você ficar falando esse tipo de coisa, eu vou lhe botar... eu vou lhe bater, vou dar-lhe uma surra, eu vou lhe botar no armazém”. Então eu tive que parar, porque eu tinha medo daquele armazém e continuei ali naquela casa e, quando eu encontrava minha mãe, eu dizia para a minha mãe: “Eu quero ir para casa, eu quero morar com meus irmãos”, a minha mãe dizia assim: “Não, não dá para você ir, porque você me ajuda, eu não tenho condição de te botar para estudar, eu não tenho condições disso, eu não tenho condições daquilo” e eu tinha que me conformar. E isso aí me revoltava ainda muito mais. Eu me sentia, assim, muito revoltada com tudo isso, quando eu ouvia essas palavras da minha mãe, quando eu tinha que chegar naquela casa e tinha uma certa repressão de certas coisas, então aquilo ali me deixava muito triste, às vezes, eu ficava pensando: “Ué, um dia eu vou crescer e eu vou ser uma grande cantora”, eu dizia assim. Porque a gente sonha, né? Então, eu gostava muito de cantar, como até hoje eu gosto muito de cantar e, na época, aquelas músicas bonitas e eu... nossa! Eu já gostava muito, gostava de dançar, de... era minha única diversão, era dançar e cantar e eu pensava: “Um dia eu vou crescer”. A minha esperança era que um dia eu crescesse e a minha vida ia mudar. Quando chegou aos quatorze anos de idade apareceu um homem lá, esse homem tinha ido da capital ser o secretário de obra da prefeitura do município de Viseu, era um homem de 38 anos. E onde a pessoa com quem eu morava fez uma amizade muito grande com ele. E eu tinha que casar e o meu marido tinha que ser aquele homem. E foi outra situação muito difícil para mim, porque eu não tinha oportunidade de usar uma roupa nova, quando eu morava nessa casa eu não tinha uma oportunidade de usar uma roupa nova, apesar dele ser um fazendeiro, apesar dele ser um lojista, que ele tinha... era a maior loja de tecido da cidade, mas eu não tinha oportunidade de ter uma roupa nova, os meus vestidos eram feitos das pernas de calça dele, as pernas da calça dele eram cortadas e feito bermuda para eles e a esposa dele mandava fazer aqueles vestidos para mim. Hoje eu tenho livro e a autora desse livro me desenhou criança e, justamente, parece que ela sabia, ela fez justamente o modelo do vestido que eu usava antigamente, das pernas de calça dessa pessoa, que daqui a pouco vou mostrar esse livro para vocês. Então, e quando eu completei oito anos, já para completar nove anos, eu fui estuprada, nessa casa. Fui estuprada nessa casa e toda a cidade do estado do Pará tem o Círio de Nazaré, que é a maior festa que tem no estado do Pará e mês de novembro é o Círio de Nossa Senhora de Nazaré na cidade de Viseu e nós fomos para o arraial, chegou lá ela comprou - ela já tinha uma filha - um boneco, aquele Joãozinho, antigo, boneco de plástico grande, para a filha dela. Nossa, eu fiquei encantada quando eu vi aquilo. E vi uma boneca, onde me chamou muito a atenção, era uma bonequinha de plástico, mais ou menos de vinte centímetros e ela tinha uma fita no cabelo e tinha o cabelo bem negro e bem comprido, ela tinha uma fita assim, na testa. Eu cheguei com ela e falei para ela, perguntei para ela se ela podia comprar aquela boneca para mim, ela falou que não. Nossa, o meu mundo desabou na minha cabeça naquele momento, ela foi e virou para mim e disse assim: “Eu não vou comprar essa boneca para ti, porque você já tem com quem brincar, e mesmo assim você já não brinca mais com esse tipo de boneca”. Depois que eu cresci que eu fui entender porque ela me falou aquilo, porque já tinha sido estuprada na casa dela e eu tinha falado para ela, né? E na hora eu não senti nada, aí ela só disse assim e eu guardei essas palavras. E eu me afastei um pouco do camelô, olhei para trás e a boneca estava lá, eu voltei e roubei essa boneca. Roubei essa boneca e me arrependi ao mesmo tempo e devolvi a boneca, e naquele momento ali eu falei, falei até em voz alta, não para os outros ouvirem, mas em voz alta que eu mesma ouvisse: “Quando eu crescer, eu vou ser uma grande cantora, eu vou comprar uma boneca só para mim”. Tá. E daí voltei para casa, chorei muito, lembrava da boneca e de eu não poder ter aquela boneca em mãos. Aí os anos passaram, foi quando apareceu essa pessoa e eu tive que casar. Foi um casamento assim, muito difícil, por quê? Porque eu não tinha sentimento por aquela pessoa, tudo que eu tinha que fazer era forçado, eu não tinha uma chance de sentir amor, de sentir carinho, de fazer a minha própria escolha. E com essa pessoa foram quatro anos de muita dor, eu falo assim, muita dor, porque ele era uma pessoa super experiente, eu uma pessoa de quatorze anos. E uma coisa que eu acho, assim, que serviu, porque eu passei a ser uma pessoa responsável até comigo mesma. Era muita tortura, era muita humilhação, pelo fato de eu ser uma mulher indígena. Só que, na época, a gente ouvia certas coisas, mas a gente nunca levava, assim, essa palavra: discriminação, ou eu estou sofrendo bullying, a gente não via por esse outro lado. E quando eu passei a viver com essa pessoa, que eu fui ver o mundo lá fora, eu virava para cá, eu via aquela mulher sendo espancada pelo marido, eu virava para outro lado, outro espancamento e eu me perguntava: “Por que a mulher casa, ela tem que apanhar do marido? Por quê? Por que ela tem que viver tudo isso com o marido?” Acredito que não era para ser assim, eu não quero essa vida para mim. Eu não vou querer essa vida para mim, na primeira oportunidade que eu tiver, eu vou sair daqui e comecei a botar isso na cabeça: “Eu vou sair, eu vou sair, eu tenho que arranjar uma oportunidade para sair, porque não é essa vida que eu quero para mim”. Na época eu tinha estudado até a terceira série, eu já sabia escrever meu nome, eu sabia ler um livro, eu não tinha acesso a uma televisão, na época, porque não existia para nós, mas eu sabia já. Quando eu completei dezenove anos eu já tinha um casal de filhos. E ele era um homem de várias mulheres, ele me tratava como se fosse um animal, ela falava para mim mesma que eu era burra, que... aquela violência psicológica mesmo. Ele dizia que eu era um animal, que eu era burra, que eu não precisava sair, que eu não tinha que sair, aquela coisa toda. E muitas das vezes eu me conformei com aquilo, eu achava que eu era aquilo mesmo. Mas vinha aquela força dizendo: “Não, não é assim”. E quando eu completei dezenove anos, ele... eu sofri uma violência muito grande, ele me bateu muito, muito, e quase que ele me mata, então, naquele momento eu pensei: “Eu vou embora, eu vou sair” e tomei uma decisão. Ele falou para mim: “Se você sair, você não volta mais, porque se você entrar aqui, eu vou te matar” e eu saí. Eu saí, também não procurei a minha família, por quê? Eu já tinha... eu achava que eu era... eu achava que eu não... que a minha família não gostava de mim, eu achava isso, pelo fato de eu ser criada com esse povo, sofrer toda aquela situação, eu botei na cabeça, na época, que a minha família não gostava de mim, então não tinha que procurar. E eu saí de casa. Eu completei dezenove anos em julho, quando foi no mês de outubro eu saí, a minha filha que hoje está com 33 anos tinha dez meses de idade na época, e eu já tinha essa irmã que morava em Belém, e eu disse assim: “Eu vou procurar minha irmã, vou para Belém” e eu vim, peguei o meu filho, na época estava com dois anos o mais velho e a menina com dez meses e saí e fiquei grávida de dois meses quando eu saí. E eu procurei minha irmã, fui para Belém, peguei o ônibus e fui para Belém. Chegando onde minha irmã morava, ela morava na casa de uma família e a família me aceitou com as crianças e eles precisavam de alguém para ajudar minha irmã na casa e a gente passou a morar junto lá naquela casa, a minha irmã tinha um quartinho lá nos fundos e a gente passou a morar juntos. E eu grávida, nem eu mesma sabia que eu estava grávida. Talvez, se eu soubesse, eu não teria, talvez, nem saído, sei lá. E quando... aí passou, quando eu completei os nove meses, fui parir, a criança nasceu morta e eu fiquei com os dois. Foi aí que eu fui ter acesso a uma televisão. Quando eu cheguei na capital do estado do Pará eu vi televisão e o primeiro programa de televisão que eu vi foi de um grande costureiro por nome Ronaldo Ésper, em São Paulo, ele vive em São Paulo. Esse costureiro, quando eu o vi fazendo aquelas roupas de noivas, eu me apaixonei por aquilo tudo, e eu vi as pessoas dizerem assim: “Ah, eu tenho uma profissão na carteira, eu assinei a minha carteira”. Então quando eu vi o Ronaldo Ésper ali, aí eu falei para mim mesma: “Nossa, eu descobri a minha profissão, eu vou ser uma costureira, vou costurar um dia para esse homem, eu vou assinar minha carteira como costureira”. Eu tinha prazer de assistir aquele programa dele, ele falando bonito. E quando eu recebi meu primeiro salário, eu fui numa banca de revista e comprei uma revista por nome Moda Moldes. Essa revista... e eu vi um blazer vestido por Glória Pires na época, um blazer muito bonito, eu digo: “Nossa, eu vou aprender a fazer um blazer desse”. E os anos foram passando e a gente foi trabalhando e a minha filha foi crescendo e eu comecei a cortar roupa para minha filha, eu fazia shortinhos para eles, tudo costurado à mão, porque o que eu ganhava mal dava para me sustentar com eles e não tinha como pagar uma costureira e não podia comprar uma máquina de costura e eu costurava à mão. E o quartinho que a gente morava... aí depois a gente saiu da casa do patrão, alugamos um outro quartinho – a gente não tinha energia, não tinha luz elétrica e a gente usava lamparina. E à luz de lamparina, eu costurava. E foi crescendo essa vontade de me profissionalizar mais. Meus filhos foram crescendo, eu fui botando-os para estudar, aquela situação toda. A minha filha era convidada para a festinha da escola, eu fazia aqueles vestidos para ela, lindo, de mangas bufantes, todo rodado e dizia para ela assim: “Não te mexe muito, porque está todo costurado à mão e o vestido pode descosturar”. E eu fui me aperfeiçoando nisso, mas nunca tive a oportunidade de participar de um curso de corte e costura, era uma profissão que eu queria muito, mas eu nunca tive essa oportunidade. E a boneca sempre esteve presente na minha vida, eu me lembrava muito da boneca, eu nunca esqueci totalmente do meu passado, do que eu vivi. E cada hora que eu lembrava do que tinha acontecido comigo, aquilo me dava mais força para eu me reerguer, aquilo ali me dava mais força para me mostrar que eu tinha capacidade, que eu tenho capacidade, que eu sou capaz, que eu sou inteligente. E voltei à minha cidade de novo e eu vi aquela situação e eu pedi, para Nhanderu: “Eu tenho que... me dê sabedoria, que eu tenho que arranjar um jeito para abrir o olho dessas mulheres também, que a vida não é assim”. E aquilo me comovia muito. Aí, quando meus filhos, o mais velho completou sete anos de idade, os meus patrões, os nossos patrões, eles vieram para São Paulo, porque eles eram paulistas e estavam prestando serviço em Belém, a gente ficou desempregada, aí eu tive que voltar para a cidade de Viseu, onde vivia o pai dos meus filhos, eu tive que voltar para lá, aí sim, aí que eu fui procurar minha família, a minha mãe veio, conversou comigo e tal e eu tive que voltar com as crianças para lá, que já estavam grandes. E como eu não tinha emprego, eu fazia tapioquinha para vender na rua de manhã cedo e fazia pão. E a minha filha era menorzinha, eu não podia deixá-la cinco horas da manhã em casa e eu a levava comigo para vender pão, cinco horas da manhã, na rua. Eu fazia pão, fazia tapioquinha e o meu filho levava uma bandeja de tapioquinha e a minha filha levava... e eu levava o cesto de pão, a gente vendia pão. Nós passamos anos vendendo pão, até porque o pai dos meus filhos tinha uma influência muito grande dentro da prefeitura. A única que fornecia emprego na minha cidade era a prefeitura. Então, pelo fato dessa influência, a gente não tinha oportunidade, ninguém da minha família tinha oportunidade, porque ele era, tipo assim, um ditador, ele manipulava aquele pessoal, a gente não tinha oportunidade. Muitas das vezes, quando eu estava no local e ele chegava, ele fazia questão de eu me retirar dali, porque ele tinha chegado. Então tudo aquilo era uma tortura muito grande para a gente. Meu pai não pode mais trabalhar, nenhum dos meus irmãos puderam mais trabalhar, porque ele existia ali. Isso aí é uma tortura muito grande para a gente. E eu passei anos vivendo assim. E a minha mãe, os meus filhos cresceram, assim, com a idade de dez anos eu falei para a minha mãe: “Não dá mais para mim, ficar aqui, porque eu estou... a minha presença aqui prejudica todos vocês, eu vou embora”. Aí eu vim para Belém de novo, deixei meus filhos com a minha mãe, que já estavam grandes e vim para Belém trabalhar. E eu trabalhava como empregada doméstica, e quando eu saía da casa dos meus patrões, duas horas da tarde, eu passava em frente ao atelier, que o vidro era todo fumê e eu ouvia aquele barulho de máquina e eu botava a mão assim, para eu ver como era dentro, aquelas mulheres costurando e eu louca de vontade para elas me convidarem. Ah, menina, todo dia eu fazia aquilo, todo dia eu fazia aquilo: “Ah, menina, quer entrar aqui, para tu ver como é?” Eu tinha aquela maior vontade. Aí eu fui ver que lá existiam umas máquinas diferentes daquelas que eu tinha visto. E eu ficava pensando assim: “Nossa, como é para ligar uma máquina dessa?” Aí eu passei oito anos trabalhando nessa casa. Foram oito anos, praticamente, que eu passava ali e via todo dia aquela situação ali e, quando foi um dia, uma amiga me convidou e falou assim: “Você não quer trabalhar de final de semana? Você é tão apaixonada por máquina, tu trabalha de segunda a sexta, não quer ir junto comigo no final de semana?” Porque eu tenho uma amiga que ela é costureira, ela faz muita camiseta, porque o estado do Pará é muito quente e eles trabalham muito com camisetas regata e short, short de fibra, de microfibra, então ela só trabalhava com isso. Aí eu fui e falei assim para ela que eu não sabia nem ligar a máquina, porque as máquinas tinham mudado muito, eram diferentes. Quando eu cheguei lá na casa dela, era essa chinesinha, essa sequinha, verdinha. Nossa, eu fiquei... aquilo ali foi uma alegria muito grande para mim, quando eu cheguei ali e vi aquelas máquinas, aquele monte de mulher trabalhando, nossa, aí eu disse: “Meu Deus, o que eu vou fazer aqui?” Aí ela disse assim, ela me olhou, a dona me olhou e falou assim: “Você... qual é o teu signo?”, eu falei assim: “Eu sou... é leão”, eu falei para ela, aí ela ficou, assim, séria: “Comigo você trabalha, porque eu estou vendo dentro dos teus olhos que tu tem uma força de vontade muito grande”. Nossa! Eu fiquei, todo final de semana eu ia para lá, só que as meninas tinham uma meta, elas faziam, costuravam 120 camisetas no dia e eu não sabia nem ligar aquela máquina. E eu comecei como ‘arrematadeira’ e eu fui prestando atenção como era que elas ligavam aquela máquina, aí de vez em quando eu já pedia para eu pisar um pouco na máquina também. E foi assim uma coisa impressionante. Aí eu... a minha patroa me dispensou. Eu trabalhei oito anos, ela tinha que viajar, que houve um certo problema político no estado Pará entre ela e o governador do estado, porque ela era promotora, ela foi transferida para outra cidade e ela me pagou direitinho. Eu disse: “Nossa, eu já tenho outro emprego”, que era aquilo que eu queria, aquilo que eu sonhava, aí…

 

P/1 – Luakam, como você se sentia costurando?

 

R – Nossa, eu me senti a mulher mais feliz do mundo, porque a gente se sente a pessoa mais feliz do mundo quando você faz aquilo que você ama, era tudo o que eu queria na minha vida, era tudo o que eu queria na minha vida. Até hoje, cada coisa que eu faço, para mim, é uma surpresa, até hoje. Quando eu termino de fazer aquela peça, eu fico me perguntando: “Nossa, fui eu mesma?” Até hoje, nunca mudou, todo esse período aí nunca mudou. Eu amo muito, muito, muito, muito o que eu faço, porque ali eu choro, ali eu sorria, ali eu... nossa, ali é o meu conforto, no que eu faço. Então eu passei a trabalhar com ela, aí com menos de um ano ela chegou comigo e falou assim: “Luakam, eu vou mudar meu maquinário, você não quer comprar meu maquinário? Eu vejo que você é uma pessoa tão interessada”. Quando o pessoal saía... quando chegava no final do dia, que o pessoal saía, eu fazia questão de ficar, eu limpava todas as máquinas, eu olhava tudinho, eu varria o chão, deixava tudo prontinho para o outro dia e ela via essa minha dedicação, aí ela disse assim: “Você gosta tanto dessas máquinas, você não quer comprar meu maquinário?”, aí eu falei para ela: “Como que eu vou comprar, se eu não tenho dinheiro, eu não tenho dinheiro para comprar todas essas suas máquinas”, ela disse: “Não, vamos fazer o seguinte, eu te vendo e você vai trabalhando para mim e você vai me pagando”. Tá. Nossa, no mesmo dia eu arranjei um jeito de levar para casa, eu já morava em Belém, meus filhos, o meu filho mais velho já estava com quatorze anos, eu já morava em casa também, já tinha ido buscá-los na casa da minha família e eles já moravam comigo e a gente morava numa casa alugada e eu senti que, eu levando aquelas máquinas para lá, a gente ia ter um lucro melhor e a gente ia viver melhor. E eu fiz isso, levei para casa muito feliz e comecei a trabalhar com ela. Quando ela comprou o maquinário dela, foi uma máquina industrial, uma reta industrial e uma máquina muito pesada, que aquele barulho você... muito ágil: “Nossa, meu Deus o que é isso? e eu tendo que aprender a costurar nessas máquinas também, para mim foi um susto danado. E eu fiquei. Quando foi um belo dia, eu cheguei com ela e falei para ela: “Miriam, eu queria... você pode deixar eu costurar nessa máquina?”, ela falou assim: “Mas essa máquina é muito pesada, muito rápida, mas tenta” e eu sentei, aí fui botando o pé assim devagarinho, devagarinho e ela disse: “Você tem que aprender a dominar a máquina, não tem que deixar a máquina dominar você, tem que aprender a dominar a máquina”, aí eu falei assim: “Eu vou dominar essa máquina, essa máquina vai fazer o que eu quero, eu vou dominá-la” e assim foi e eu comecei a pegar nas máquinas industriais. Nossa, quando eu descobri a verdadeira utilidade daquela máquina, aí eu me encantei. Mas comecei nas minis, nas pequenininhas. E terminei de pagar, depois que terminei de pagar eu fui para casa, montei meu próprio atelier em casa e arranjei dois vendedores que já vendiam meu short e as minhas camisetas, botei o meu filho para aprender silk, a serigrafia e o meu filho já pintava as camisetas em casa e a gente ia vender na frente do Maracanã, o maior estádio do Pará. Maracanã não, Mangueirão, o maior estádio do estado do Pará, o Mangueirão. A gente já vendia no Mangueirão as nossas camisas, botava um varal os nossos shorts e a gente já vendia lá. Tá, aí foi... eu montei tudo isso, mas Belém é uma cidade muito violenta, e a minha mãe ficou muito doente na época e ela pedia muito para eu voltar para Viseu. E eu peguei todo meu maquinário de novo e voltei para Viseu, fiquei perto da minha mãe, perto da minha família. Ela tinha muito medo do meu filho, na época, se envolver com coisas erradas, porque em Belém só morava a gente. E a gente voltou para Viseu e ficamos trabalhando em Viseu, em Viseu novamente. Foi quando os anos foram passando e eu comecei a trabalhar e eu sempre fiz isso, aquele retalho que sobrava, das coisas que eu fazia, eu montava short, montava camiseta, montava o que desse para eu fazer. Quando era o final de semana, eu botava tudo aquilo dentro de uma sacola e saía eu e meu filho, a gente ia para o interior, a gente distribuía aquela roupa que eu tinha feito para certas pessoas, porque tinha mulheres que você chegava na casa, aí dizia assim para aquela criança: “Cadê a sua mãe?”, ele dizia: “Está para o igarapé, ela foi tomar banho”, quando eu chegava lá no igarapé, ela está focada dentro do rio, de cócoras, dentro do rio, porque ela tinha dois vestidos, um para ir para a cidade e outro que ela usava no dia a dia. Quando ela ia para o igarapé tomar um banho, ela lavava aquele vestido, botava para secar, ficava de cócoras dentro do rio, esperando aquele vestido secar, para poder vestir para ir para casa. E aquilo ali me doía muito, quando eu via aquilo e eu fazia blusa, fazia saia, mesmo de retalho eu procurava fazer aquela combinação, ou então eu pedia roupa usada de outras pessoas e transformava aquela roupa, quando eu via que aquela roupa ainda estava boa, eu transformava aquela roupa e a gente fazia isso. E muitas das vezes eu chegava, aquele fogo, naquele fogão de barro, estava apagado e aquela panela de boca para baixo e eu perguntava assim: “Você já almoçou?” “Não”. E eu me deparava muito com mãe solo: “Por que você está criando esse filho sozinha?” “É porque o meu marido me batia muito e eu resolvi separar”. E aquilo ali, nossa, aquilo ali me... e eu... aí eu dava um passo para trás, aí eu lembrava de mim, aí eu dizia assim: “Nossa, eu tenho que arranjar um jeito de eu ajudar essas pessoas, não sei como, mas Deus vai me mostrar uma maneira, Nhanderu vai me mostrar uma maneira de eu ajudar essas mulheres”. Eu sempre acreditei, assim, na reeducação, eu achava que o Brasil tinha que reeducar esse tipo de pessoa, ele tinha que... não... para falar a verdade, eu sou contra essa bolsa que o governo federal dá, eu sou contra essa bolsa, esse dinheiro era para investir em coisas que iam se tornar melhores na vida das pessoas. Então eu dizia assim: “Eu tenho que dar um jeito, eu sei que eu não vou resolver o mundo, mas eu vou fazer uma parcela de bem para essas pessoas, não sei como”. E eu procurava ajudar o máximo. Eu pedia na mercearia, eu ia no açougue, às vezes eu me tornava até antipática, mas eu fazia isso. E por três vezes eu cheguei na casa de mulheres e elas estavam parindo, eu fiz parto... até isso eu fiz (risos), fiz o parto, ajudei essas crianças virem ao mundo, hoje tem um com 22 anos que me chama de madrinha, outro também, aquela coisa toda. Então aquilo, para mim, era uma satisfação muito grande. Às vezes, eu dizia assim: “Ah, eu comprei...”, eu chegava na casa de alguém: “Ah, não tem”, eu comprava o pão e levava os meus dois filhos para a gente tomar café junto daquelas pessoas, para eles não ficarem sem pão e nem aquelas pessoas ficarem sem pão. Eu comprava um quilo de farinha de trigo, fazia pão e a gente ia tomar café lá, para ninguém ficar sem e aquilo ali foi me encorajando, e meus filhos crescendo, o meu filho tomou rumo diferente, diferente assim, que eu digo, assim, ele casou, passou a ter a família dele, mas a menina todo tempo morando comigo e eu disse: “Está na hora”. Meu filho já tem a família dele, e então estava na hora de eu correr atrás de certas coisas que eu sempre quis. Ele é uma pessoa responsável, está com a família dele, direitinho, está trabalhando. E o que aconteceu? Eu, há dez anos, vi que Viseu era... não dava para fazer aquilo que eu queria. Eu tinha duas opções na vida, quando eu assistia televisão, eu via programa de televisão ajudando, eu dizia assim: “Eu vou ter que ir para São Paulo, ou então Rio de Janeiro, porque é onde eu vou conseguir ajudar esse povo”. Então eu tinha umas coleguinhas de infância, que vieram da cidade de Viseu para o Rio de Janeiro muito cedo, e nós não tivemos mais contato, mas um belo dia eu encontrei o tio delas e perguntei se ele tinha contato delas, aí ele falou que sim e eu tentei entrar em contato com uma delas e consegui e falei para elas assim: “Olha, eu tenho muita vontade de sair aqui do Rio, eu só quero que você me dê noventa dias para eu ficar na sua casa, que dentro de noventa dias eu me organizo” E ela aceitou que eu viesse para a casa dela, só que eu não tinha dinheiro para pagar uma passagem de ônibus, muito menos de avião, do Rio de Janeiro... e eu esqueci de um detalhe: nós crescemos, nos tornamos pessoas diferentes, as mentes diferentes, e eu não pensei nisso e eu deixei a minha filha, que morava comigo, no estado do Pará e vim para o Rio de Janeiro. Eu fui para a BR-316 e pedi uma carona. Eu trabalhei dois meses somente, como é que eu ia fazer para sair do estado do Pará? E eu tive que me preparar durante esses dois meses, porque eu tinha que vir, né? E eu saí do estado do Pará no dia quinze de novembro de 2010, Dia da Proclamação da República, um feriado nacional e eu peguei uma carona na BR-316, com um caminhoneiro, eu viajei oito dias para chegar no Rio de Janeiro. Eu saí do estado do Pará, atravessei o Maranhão, Tocantins, Goiás, Minas Gerais, encostei em São Paulo, de São Paulo eu vim para o Rio. Cheguei no Rio de Janeiro, esta pessoa foi uma pessoa muito boa para mim, porque... a gente quando vem para o mundo, a gente tem que se preparar mesmo, tem que preparar o psicológico, tem que se preparar em tudo, né? E quando se trata desse tipo de pessoa, a gente tem que ter muito cuidado e ele foi uma pessoa que foi um verdadeiro pai para mim, um verdadeiro irmão, um verdadeiro anjo, um verdadeiro tudo, por quê? Ele me respeitou durante toda essa viagem. Um dia eu dormia na rede, outro dia dormia na caminha e assim vice-versa. Quando ele me perguntou porque eu estava saindo do estado do Pará, que eu falei para ele, ele disse para mim assim: “A partir de agora você vai ser aquela irmã que não foi criada junto comigo, eu vou lhe respeitar e quero que você me respeite também. Eu só quero que você faça um negócio comigo todo dia seis horas da tarde, é rezar o terço para Nossa Senhora de Fátima, porque eu sou uma pessoa muito bem-casada, eu sou pai de dois maravilhosos filhos e se você quiser ir para a minha casa, eu converso com a minha mulher e eu lhe levo para a minha casa, porque eu moro em Vitória do Espírito Santo”. Nossa, isso para mim foi mil maravilhas, porque... e a gente conversava muito e ele me respeitou mesmo. Eu tinha... eu estava com o negócio, assim, na cabeça, muito complicado, e quando chegamos aqui no Rio de Janeiro, ele foi me deixar na rodoviária de Campo Grande, porque essa minha amiga morava lá em Campo Grande. Eu cheguei na rodoviária de Campo Grande…

 

P/1 – Luakam, você lembra de alguma conversa que vocês tiveram, que te marcou?

 

R – Oi?

 

P/1 – Você lembra de alguma conversa que vocês tiveram, que tenha te marcado?

 

R – Lembro, lembro sim. Ele me deu muito conselho, ele me deu muito conselho, ele chegou a dizer para mim uma coisa que me marcou muito, ele falou assim para mim: “Eu quero que você me respeite, da maneira que eu vou lhe respeitar. Eu sou uma pessoa muito bem-casada, sou pai de dois maravilhosos filhos e não é questão de você ser uma mulher feia...” - ele falou para mim - “... você é uma mulher muito bonita, mas a gente tem que respeitar uns aos outros. Outra coisa que eu vou lhe dizer: nunca desista daquilo que você vai fazer, persista! Persista! Você merece coisas melhores”, ele falou para mim. E o tempo todo ele me dando conselhos. Ele era uma pessoa, na época, ele tinha 56 anos, eu estava com 42, quarenta... por aí assim, e ele me deu muito conselho nesse sentido, muito conselho mesmo nesse sentido e essas palavras foram que me marcaram muito, porque dificilmente a gente vê isso entre homem e uma mulher. Ele, todo tempo, falava assim: “Se você não se der bem no Rio de Janeiro, me liga que eu arranjo algo para você em Vitória. Se você quiser ir para a minha casa, eu converso com a minha mulher e você vai morar com a gente”, ele falava. E outra coisa que ele falou: “Nunca deixe as pessoas te jogarem para baixo, todo mundo é capaz. Não aceite críticas de ninguém, não aceite crítica de ninguém”. E quando ele veio me deixar na rodoviária de Campo Grande, ele deixou a carreta no posto de gasolina. Até hoje, eu vou ser sincera contigo, eu já conheço o Rio bem, eu já viajei várias vezes para São Paulo, para Brasília, mas eu não lembro aonde foi que ele deixou, qual foi o posto que deixou essa carreta, eu não lembro, é uma coisa que foge da mente, eu não consigo lembrar. Quando eu dei uma reportagem para o Fantástico, na Globo, eles... foi uma pergunta que eles me fizeram muito, que eles queriam ir até o posto, mas eu não lembro completamente, aquilo parece assim, que apagou na mente. Então eu cheguei na rodoviária de Campo Grande por volta de duas horas da tarde e aquilo, para mim, era tudo novo. Claro, eu uma pessoa... na época eu tinha oitenta centímetros de cabelo, a pele muito queimada e as pessoas me olhavam com uma... eu sentia que as pessoas me olhavam com uma indiferença, eu não sabia porque, mas eu sabia que eles estavam me olhando com uma certa indiferença. Foi aí que eu fui descobrir o que era o preconceito, eu fui entender o que era um preconceito. Até então eu não sabia e levava, assim, na esportiva, mas ali eu fui descobrir o que era o preconceito. As pessoas vinham, aquele monte de gente quando parava em cima de mim, eles freavam e arrodeavam e passavam, assim, me olhando fixamente no meu rosto. Nossa, aquilo ali foi me encolhendo, ia me encolhendo, mas eu me lembrava da palavra que ele tinha dito: “Não, você não tem que deixar as pessoas lhe jogar para baixo” e aquilo ali me despertava novamente. E as horas foram passando, quando chegou dez horas da noite ela não foi me buscar e aquela gente começou a esvaziar aquele local e eu me senti, assim, praticamente num beco sem saída. A única maneira que eu encontrei para me sentir mais segura foi me juntando a mendigos. Povo em situação de rua que ia chegando ali e eu me sentei ali do lado. E tinha o casal que eu vi que eles estavam bem lúcidos e eu me sentei ali, fiquei ali do lado deles, eu tive que comprar cigarros ao decorrer da noite, por quê? Eu... era a única troca que eu tinha para fazer com eles, eu sentada ali, né? E não dormi a noite toda e eu pensava comigo assim: “É, eu vou esperar até amanhã meio-dia, se eu não conseguir falar com ela, eu vou sair batendo de porta em porta, vai aparecer alguém para me ajudar, vai me olhar e vai ver que eu não sou uma pessoa má e vai me ajudar”. E assim amanheceu o dia, quando foi por volta de 10:40 da manhã, eu liguei para ela e ela me atendeu, eu falei para ela assim: “Eu estou aqui na rodoviária e eu quero saber se você vai vir me buscar, porque você não deu o endereço, se me desse o endereço eu ia até você”, ela disse: “Não, eu vou mandar a minha filha aí te buscar” e ela mandou a filha dela me buscar mesmo. Quando eu cheguei na casa dela, de primeira, logo, ela falou assim para mim: “Eu sou evangélica e para você ficar na minha casa, você vai ter que seguir a minha religião. Esqueça essa história de indígena, de índio, esquece essa história de índio e você vai seguir a minha religião”. Aí eu fui e falei para ela assim: “Tudo bem, eu posso seguir, eu posso ir com você, mas esquecer, eu não vou esquecer”, ela disse: “Então vai ficar muito difícil entre nós duas”, aí eu fui e falei para ela assim: “Oh, eu te peço que... se você deixa, pelo menos, eu ficar um mês na tua casa enquanto eu passo a conhecer, né?” E então... quando eu vivia no estado do Pará, que eu comecei a ter acesso a televisão, ver televisão, eu vi o show de Roberto Carlos e eu sempre comentava com as pessoas: “Um dia eu vou assistir um show do Roberto”. Eram duas vontades que eu tinha de ir pro Rio de Janeiro: assistir o show do Roberto Carlos e ver a Beija-Flor desfilar, ir na Marquês de Sapucaí, ver a Beija-Flor desfilar. Então eu sempre comentava isso, às vezes eu recebia críticas, tá bom! E eu cheguei no mês de novembro no Rio de Janeiro. Com quatro dias que eu cheguei no Rio de Janeiro, foi a invasão do Morro do Alemão, para mim foi uma coisa horrível porque - não só para mim, né? - cada canto que você chegava... o Rio de Janeiro já vive uma guerra, mas na época a guerra triplicou. Cada canto que você chegava você era revistada, você, principalmente, “paraíba”, como os cariocas chamam para todas as pessoas que vêm de fora, principalmente “paraíba” quando saía na rua. Aquilo ali para mim foi uma situação muito complicada. E a pessoa chegou comigo e falou assim para mim: “Se você sabe costurar, aqui nessa rua, lá em cima tem uma fábrica de moda praia, vai lá, pede um emprego”. E eu fui, eu cheguei no Rio de Janeiro no dia de terça-feira, passou quarta-feira, quando foi na quinta-feira, aí eu fui. Cheguei lá, cheguei muito cedo lá, a dona chegou por volta das onze horas da manhã e eu falei para ela, aí eu já tinha falado com a recepcionista, ela falou assim: “A dona é essa daí, fale com ela mesma”. Aí eu fui lá e falei com ela, ela ficou me olhando assim, disse: “Você é índia?” Eu disse assim: “Eu sou” “Você é de que estado?” Eu disse: “Eu sou do estado do Pará”, aí ela disse: “Índio sabe costurar?” Eu sorri e falei para ela assim: “Sabe”. Aí ela chamou a supervisora dela e falou para a supervisora dela: “Leva essa moça e faz um teste com ela”. E eu fiquei me perguntando: “Que teste? Que teste é esse? O que eu vou fazer?” Eu não sabia o que era esse teste. Aí ela saiu comigo, conversando comigo, ela foi e falou assim: “Você é índia?” Me fez a mesma pergunta, eu disse assim: “Eu sou, eu sou índia, eu sou do estado do Pará”, ela disse: “Ah, no estado do Pará o pessoal sabe muito comer açaí”, eu digo: “É, a gente come muito açaí”, ela falou assim: “As máquinas aqui são todas industriais, você sabe mexer com máquina industrial?”, eu disse: “Sei” e ela começou a falar e eu já fiquei com a... nossa, é aqui que eu vou encontrar um certo empecilho chamado preconceito, mas vamos ver. Eu cheguei lá, ela me apresentou um lote com cinquenta peças e me deu um horário para eu terminar e eu nunca tinha montado um biquíni na minha vida, nunca, eu era profissional em camiseta, em short de microfibra, mas biquíni nunca. E ela me ensinou como era para fazer, os biquínis todos embutidos, era uma fábrica de primeira linha aqui no Rio de Janeiro, é uma fábrica de primeira linha aqui no Rio e eu... nossa, eu me perdi ali completamente e ela me ensinou e eu fiquei prestando atenção, mas ela fez aquilo tão rápido e eu tentei, não consegui e ela me largou lá e foi embora: “Tal hora e tantos minutos eu venho aqui pegar”. E a costureira que estava no lado falou assim pra mim: “Você é novata?”, eu disse assim: “Eu sou”, ela disse: “Você é de onde? Você não é aqui do Rio”, eu disse: “Mesmo, não” “Você é de onde?” Eu digo: “Eu sou do Pará”, ela disse: “Olhe, eu vou te ensinar um macete, eu não posso te ensinar mais, porque aqui tem quatro câmeras, e se alguém ver eu te ensinando, vão me chamar atenção, mas é desse jeitinho” e ela me dava por debaixo da máquina, ela embutia e me dava por debaixo da máquina e aí eu fui pegando, fui pegando, fui pegando e ela disse: “Quando você terminar, você overloca toda parte da cintura e a parte da perna e corte o fio bem cortadinho” e assim eu fiz e peguei o macete rapidinho, pedi muita força a Nhanderu, pedi muita força aos encantados naquele momento ali, para me guiar e me dar paciência e eu consegui, quando ela chegou eu já tinha terminado, aí ela pegou a peça, virou pra cá, virou para cá, e disse: “Nossa, você está de parabéns, muito bom, vamos aqui”, aí ela já me tratou com outro modo. “Vamos aqui” “Então vamos”. Chegamos lá a dona falou assim: “E aí, ela fica? Dá para ela ficar?”, aí ela falou: “Nossa, olha o trabalho dela, o trabalho dela é maravilhoso, é um trabalho muito limpo e ela fez muito rápido, quando eu cheguei lá já tinha terminado”, aí a dona virou para mim e disse assim: “Segunda-feira...” - isso foi uma quinta-feira – “... sete horas da manhã, com todos os seus documentos em mãos”. Nossa, aquilo para mim... eu estou empregada no Rio de Janeiro, né? Quando foi segunda-feira cedo eu estava lá. Aí comecei a trabalhar, ela não esperou três meses para assinar minha carteira, ela assinou de primeira minha carteira, assinou de primeira e eu fiquei trabalhando lá. Quando foi no dia 22 de dezembro, que foi a gravação do show do Roberto em Copacabana e eu tinha uma colega lá dentro que era fã do Roberto também e ela me convidou, eu fiz uma amizade lá dentro, aí ela me convidou, para a gente assistir o show do Roberto. Tipo: “Nossa, meu Deus, eu não acredito nisso, será que estou...”. Eu aceitei, fui para casa dela e da casa dela a gente foi com o genro dela e a filha dela, assistir o show do Roberto. Meu Deus do céu, eu me beliscava eu mesma para ver se era verdade aquilo (risos). Foi incrível! E, no outro dia, foi até um final de semana, eu vim para a casa dela, passei o domingo na casa dela e vim à tarde para a casa dessa pessoa, com quem eu estava, e, nossa, eu disse assim: “Já foi uma”, né? E quando eu recebi o meu primeiro salário dessa fábrica, eu comprei uma passagem de avião e mandei buscar a minha filha. Comprei essa passagem de avião através dessa minha colega, comprei a passagem de avião e mandei buscar a minha filha. Quando a minha filha chegou, aí eu já pedi para a dona da fábrica para a minha filha trabalhar lá como arrematadeira. Ela já conhecia as máquinas, porque ela já me ajudava a trabalhar nas máquinas, mas como lá era um negócio mais fino, mais diferente, ela ia entrar como arrematadeira, e quando a minha filha chegou, ela foi logo trabalhar comigo, lá nessa fábrica. Com duas semanas que a gente... com três semanas que a gente estava trabalhando nessa fábrica, a gente se recusou ir para a igreja com a pessoa com quem eu morava e ela foi para a igreja. Quando ela voltou, por volta de onze horas da manhã, foi um dia de domingo, ela chegou comigo e disse assim: “Não dá mais para vocês ficarem aqui, porque o pastor falou que a minha casa está cheia de demônios e são vocês e eu não quero vocês aqui, porque vocês têm uma religião totalmente diferente, vocês cultuam outra coisa, que não presta” e aí começou a... e a gente foi para rua, a gente teve que sair e a gente ficou na Praça São Jorge e passamos o resto do dia na praça, passamos a noite e no outro dia nós não fomos trabalhar, porque a gente não tinha onde deixar as nossas coisas e, por vergonha de eu falar para essa minha amiga ou até mesmo para a dona da fábrica, por eu não saber como é que elas iam reagir, se realmente elas iam me ajudar, eu fiquei. Quando foi à tarde eu falei com o senhor da padaria e ele falou: “Aqui do lado tem uma kitnet, porque você não vai lá e conversa?” e eu disse: “Mas eu não tenho dinheiro, nós só vamos receber na quarta-feira, aí ele disse: “Não, vai e converse com ele, ele vai deixar, ele vai reparar, a senhora está na rua, a senhora não pode, vocês são duas mulheres, vocês não podem ficar na rua”. E eu fui lá, aí o rapaz falou para mim assim: “Olha, eu não tenho, a única kitnet que eu tenho está sem porta e sem janela”, aí eu virei para ele: “Mas eu boto um pano ali”, ele disse: “Não, mas não pode, vocês são duas mulheres, eu não vou arranjar uma casa para você toda aberta, vocês são duas mulheres”, eu disse: “Mas eu não durmo a noite” “Não, mas não dá, mas eu vou levar vocês na casa de uma amiga”. E a gente.... ele levou a gente na casa dessa amiga, ela tinha uma kitnet vazia, aí ela cedeu essa kitnet para nós e ela falou assim: “Até quarta-feira. Se vocês não me pagarem na quarta-feira, porque gente do norte é gente ruim, eu quero acordar e não quero ver vocês aí”. Nossa, isso para nós foi outro choque, mesmo assim a gente ficou. A gente não tinha nada, não tinha cama, não tinha nada. A gente foi, juntamos caixa de papelão, forrava o chão para dormir. Quando a gente recebeu na quarta-feira, a gente veio... foi pagar, a gente pagou dois meses e compramos... comprava comida pronta. Quando chegou - e ficamos dormindo naquele papelão - o próximo mês que a gente ia receber, uns quatro ou cinco dias antes, a semana toda que a gente tinha que ir para a fábrica, a gente não tinha mais dinheiro para comprar comida, porque a gente comprava uma quentinha no almoço e uma quentinha na janta, porque essa quentinha comia eu e ela no almoço e no jantar comia eu e ela. Aí a gente comprou um pão de forma e fazia aquele sanduíche e levava para a fábrica. Chegava lá na fábrica, na hora do almoço, aí todo mundo correndo para o refeitório e a gente pegava aquele pão “de fininho”, ia no nosso armário, ficava dentro da nossa bolsa, pegava aquele pão “de fininho”, um para mim, outro para ela e a gente pegava um copo de água e saía da fábrica, a gente ia comer aquilo lá fora, aquele era o nosso almoço e ela começava a chorar e eu tinha que mostrar para ela a fortaleza, eu tinha que mostrar para ela que eu não ia enfraquecer, eu sentia que eu não ia enfraquecer mais ela . O meu coração estava em pedaços por dentro, mas eu tinha que mostrar para ela que aquilo ia passar, eu dizia... eu disse várias vezes para ela, ela se lembra muito disso, eu dizia assim: “Isso aí é para gente dar valor no que a gente vai ter amanhã, porque é dentro desse lugar que a gente vai crescer aqui, um dia esse povo vai me respeitar, porque quando a gente chegar aonde a gente chegar, o nosso limite vai ser o céu”. Eu sempre falava isso para ela: “O nosso limite vai ser o céu” e eu a abraçava e dizia para ela: “Isso aqui vai passar, você tem que ser forte junto comigo”, mas só Deus sabia como era que eu estava por dentro. E assim a gente passou uma semana comendo aquele pão com água. E quando chegou no final do mês e a gente recebeu, a gente procurou um brechó e eu comprei uma cama, uma geladeira e um fogão. E a gente procurou uma kitnet mais barata e mudamos para lá e fomos trabalhar novamente e eu não comentava isso com ninguém, eu achava que o ser humano tem esse certo orgulho dentro dele e eu tinha aquele certo orgulho, e eu não comentava com ninguém e todo tempo eu ouvindo aquelas piadas, assim, na fábrica. O biquíni entrava aqui, quando ele saía, se desse um erro lá na ponta, alguém perguntava assim: “Nossa, está errado, um lado está maior do que o outro, quem errou? E alguém sempre apontava o dedo, levantava o dedo e dizia assim: “É, isso quem errou foi a índia, porque eu nunca ouvi dizer que índio soubesse costurar”. Então aquilo me chocava muito e eu cheguei... a minha filha trabalhava na outra sala, a supervisora da minha filha era uma ótima pessoa, aí eu cheguei com a minha filha e falei para ela assim: “Eu vou entregar o meu lugar”, aí ela disse: “Por que, mãe?, eu disse: “Porque está na hora. A vida do ser humano é cheia de etapas, então está na hora, eu não aguento mais, eu vou para casa e o que eu receber eu vou comprar duas máquinas, eu vou comprar uma overloque, vou comprar uma reta, eu vou trabalhar em casa, mas você vai ficar aqui”. “Por quê?” “Porque eu vou comprar essas máquinas e quando a gente terminar de pagar, a gente vai, você vai para casa também e... nós sempre fomos livres, então a gente tem que trabalhar com liberdade, eu quero me libertar disso daqui, eu não quero ficar presa a isso aqui”. E ela ficou muito triste com isso e eu já tinha conhecimento com as meninas, com todas as meninas que trabalhavam externas no final de semana e eu queria essa vida para mim também. Aí eu cheguei com a dona e entreguei a vaga e ela disse assim... ela me perguntou o porquê, eu falei para ela, aí ela ficou assim, disse: “Olha, eu vou pagar vocês como se eu te botasse na rua, porque você nunca faltou uma hora extra, você nunca me deu problema, você trabalha muito bem e você vai fazer o que do seu dia?”, aí eu falei assim: “Eu vou comprar duas máquinas e vou trabalhar em casa”, ela disse: “Pronto, tá feito, você vai trabalhar externo comigo”, que ela tinha costureira externa. “Como você vai comprar só essas duas máquinas, eu não quero que você faça a parte de cima, você só faz a parte debaixo, é que as suas máquinas vão permitir você fazer a parte debaixo, então você vai fazer para mim”. Tudo bem, eu aceitei numa boa. E comecei a trabalhar externo com ela. Nesse trabalho externo eu fui conhecendo outras costureiras, fui tendo conhecimento dentro do Rio de Janeiro com outras pessoas e... com quase dois anos já de Rio de Janeiro eu conheci uma pessoa, Deus botou uma pessoa na minha vida, por nome Solange. Solange trabalhava para grandes marcas do Rio de Janeiro e eu conheci Solange. Solange foi uma pessoa muito interessante na minha vida, porque a Solange me ensinou a conhecer tecido. A Solange me ensinou grandes coisas em pequenos detalhes, como diz o Roberto. Ela me ensinou a trabalhar com bons arremates, em um vestido de festa. Muitas das vezes as pessoas diziam assim: “Puxa, tu não vê que ela está te explorando? Ela te explora muito”. Não, ela não me explorava não. Eu vejo por esse lado: ela não me explorava, ela me ensinou, porque o que eu tenho, o que eu aprendi, é uma coisa que ninguém nunca vai tirar de mim, foi através dela. Então eu conheci Solange e Solange... eu comecei a fazer roupa de festa, comecei a trabalhar com tecido plano, que até então não conhecia o tecido plano, sabia que era um tecido, mas não sabia certas técnicas, certos nomes, e eu comecei a trabalhar com Solange. Eu já tinha essas duas máquinas em casa, mas eu trabalhava com ela interna, eu deixei minhas máquinas em casa e vim trabalhar interna, porque eu queria aprender. E através de Solange eu trabalhei com marcas muito famosas no Rio, como Osklen, que na época trabalhava com exportação, antes da primeira crise e uma roupa da Osklen que eu me identifiquei muito bem foi com o chemisier, que exportava para a França. Eu me profissionalizei fazendo chemisier para a Osklen. Através da Osklen costurei para uma Cantão, para uma Maria Filó, e para uma Farm. E trabalhei mais ou menos cinco a seis anos. Depois, quando veio a primeira crise, eles dispensaram as externas e começaram a trabalhar com internas. Quando eles despacharam as externas, eu já estava preparada para tocar a minha vida, independente de alguém. E a boneca ali, a boneca batendo aqui na mente e eu já tinha um certa... eu já tinha comprado várias máquinas para mim, todas industriais, máquinas pesadas, para dentro de casa e já tinha conhecido, na época, os parentes indígenas no Rio de Janeiro porque, quando o governador do estado era o Sérgio Cabral, que veio a Copa do Mundo, ele queria tirar os indígenas da Aldeia Maracanã, que hoje é chamada de Aldeia Maracanã, que é o Museu do Índio, ao lado do estádio do Maracanã, ali os índios moravam e vendiam o seu artesanato. E uma vez, eu andando em Copacabana, encontrei um parente indígena Pataxó da Bahia e através desse Pataxó, a gente se achou. Eu digo que a partir daquele momento que a gente encontrou aquele indígena, a gente se achou, porque a gente se fortaleceu. Quando a gente se encontrou com os nossos parentes indígenas, a gente se fortaleceu, a gente se sentiu mais forte. Foi na época dessa crise, eu já tive que trabalhar dentro de casa e eu fui me dedicar mais a eles também, aí já começamos a participar de certos eventos, junto com ele a gente se achou, se fortaleceu. Foi quando veio essa situação da Copa do Mundo e o Sérgio Cabral, governador do estado, queria fazer estacionamento para gringo, ali do lado do estádio do Maracanã e queria demolir o Museu do Índio e a gente foi para a rua, foi aí que eu entrei para a luta. Hoje eu sou militante, foi aí que eu entrei para a luta. A gente foi para a rua e muito spray de pimenta, muito cassetete, muita bala de borracha. E o governador não conseguiu demolir o prédio, mas tirou os indígenas de lá e jogou aqui, onde eu moro até hoje. Aqui onde eu moro é uma colônia de hansenianos, é uma colônia de Curupaiti de hansenianos. Aqui existe desde 1930, esse hospital aqui existe desde 1930. Quando a pessoa tinha lepra, que hoje é chamada de hanseníase, a família excluía e o hospital amparava e aqui eles criaram essa colônia, com várias casas. Aqui dentro, esse prédio que eu estou agora, que eu tenho um espaço, ele foi construído na época, é um prédio muito antigo, ele era o teatro, porque aquelas pessoas que já estavam melhorzinhas de saúde vinham assistir. Aqui foi o primeiro teatro de Jacarepaguá e é um prédio muito bonito aqui para trás, está em reforma agora, prédio muito antigo. E tudo isso eles tinham aqui dentro, porque eles não tinham que sair, porque a sociedade lá fora não aceitava ninguém com lepra. E aqui foi construído tudo isso, aqui é uma área muito grande. E o Sérgio Cabral não queria que gringo visse indígena na situação que vivia e jogou para cá, para dentro. Só que a doença já foi extinta em 1980, aqui todo mundo entra e sai. E jogou para cá e botou os indígenas dentro de container, os indígenas moraram aqui um ano e oito meses dentro de container. Com um ano e oito meses que os indígenas estavam aqui, foi inaugurado o Frei Caneca, que foi o primeiro presídio do Rio de Janeiro, lá na Estácio. E lá o Sérgio Cabral construiu cinco mil casas e deu um prédio de vinte apartamentos para os indígenas. Teve índio que se encantou pelos caprichos de Cabral novamente, quinhentos anos depois, se encantaram pelo capricho de Cabral e três famílias não se encantaram: foi a minha família, a família de um Apurinã do Acre e uma família de Guajajaras do Maranhão. A gente não se encantou por isso, a gente resistiu e ficamos aqui em Curupaiti, fomos amparados pela igreja católica, onde está tocando aí, né? A igreja católica se sente com uma dívida muito grande com o indígena, porque há anos eles queimaram indígena vivo. Porque a mulher não podia ensinar remédio, porque era considerada bruxa, os erveiros de antigamente eram considerados bruxos e eram queimados vivos. Então a igreja católica se sente com uma dívida muito grande para indígena, ela amparou essas três famílias e eu moro até hoje, eu sou um reflexo ainda da Aldeia Maracanã e hoje eu passo... eu sou uma das diretoras da Associação Indígena Aldeia Maracanã, a gente criou essa associação. Então e a gente conheceu esse indígena e nos reforçamos, nos achamos, nos fortalecemos e a minha filha veio a conhecer também um rapaz, ela se envolveu com esse rapaz e quando a gente conheceu esse indígena, ela estava grávida e o pai da bebê dela, quando ela estava grávida com oito meses, ele foi morto, aqui no Rio, nós o perdemos para a violência do Rio de Janeiro, ele foi morto num assalto, ele era motorista de táxi e o rapaz o assaltou e o matou. E nasceu a Anaty. Anaty nasceu em maio, dia 27 de maio e a gente já sabia que era uma menina, mas quando a Anaty nasceu, que eu vi o rosto dela, eu disse assim: “Chegou a hora, Anaty, boneca está nascendo junto contigo” e, na mesma semana que Anaty foi para casa, saiu do hospital, eu criei a Anaty, e falei assim: “Ela... eu vou fazer ela para minha neta brincar (choro), para ela não passar pelo que eu passei”. E criei Anaty, a gente fez seis Anatys para chegar nessa daqui, nós fizemos tipo um protótipo para chegar nessa daqui, eu fiz seis Anatys para chegar, eu tenho todas elas guardadas, para chegar onde chegou e a gente começou a participar de feiras indígenas. E cada feira que a minha neta ia, ela levava a boneca e as pessoas achavam muito bonita a boneca, porque era a primeira vez que estava sendo feito uma boneca indígena. E elas começaram a encomendar e eu comecei a fazer a Anaty, mas eu nunca imaginava, na minha vida, que um dia a Anaty fosse ser o carro-chefe, que ela fosse dar esta certa autonomia para nós e fosse autora de tudo isso que a gente está vivendo hoje. E Anaty, em tupi-guarani, quer dizer menina, e como a minha neta era uma menina e a gente... e aquele rosto bem, bem familiar (risos) mesmo, apesar do pai ser branco, o avô ser branco, mas ela nasceu com o rosto mesmo bem familiar, aí a gente botou Anaty e criamos Anaty, elas nasceram praticamente juntas. E eu comecei - veio a primeira crise - a fazer roupas indígenas, igual essa que eu estou vestida, com riscos indígenas. E eu levava para feira minhas bolsas e, todo tempo, quando eu conseguia umas condições, que eu podia dividir o que eu ganhava com alguém, eu voltei à minha cidade e o pouco que eu tinha eu transformava em cesta básica e comecei a distribuir, eu sabia que eu não ia poder dar todo tempo aquela cesta básica, mas aquele momento ali era crucial para mim, porque aquela pessoa ia participar daquilo dali. E eu comecei a ajudar as pessoas, aí alguém... deixava o número do meu telefone, precisou do remédio, uma ajuda para um exame, eu estou te dando e eu sempre fiz isso, sempre fiz isso e eu voltei para a minha família, já com tudo isso que eu passei na vida, eu já enxergava a minha família totalmente diferente, aquela revolta que eu tinha dentro do peito tinha acabado e tudo foi mudando. E eu fui passando a ter um conhecimento no Rio. E através dos parentes indígenas eu comecei a dar palestras nas universidades, comecei a participar, ia para o museu, o pessoal do museu me chamava muito antes dessa, da pandemia, a gente ia para o museu, aí já começou entrar um dinheiro a mais, aquela coisinha. A gente foi tendo conhecimento, aí eu fui me achando com os parentes e já fui convidada para São Paulo. Não sei se você chegou a assistir o filme Tainá. Não? Tainá é a história de uma indiazinha que passou nos anos noventa, hoje ela está uma mulher de trinta anos, é a Eunice Baía, ela mora em São Paulo, ela está grávida, está no segundo filho e a gente se encontrou, que ela é do estado do Pará, eu também sou do estado do Pará e a gente se encontrou no evento, lá no Morro do Vidigal. E a gente se encontrou ali e fizemos uma grande amizade e através dela eu cheguei, comecei a fazer parte do projeto Arte Salva, que são daqueles meninos da Malhação e nós chegamos no meio artístico, fomos chegando devagar no meio artístico, fomos tendo uma amizade totalmente diferente e através também das feiras a gente foi se achando e a minha filha disse: “Mãe, a gente não vai parar só na Anaty, né? Eu quero mais, eu vou criar mais”. E a minha filha criou, logo em seguida ela criou o Mayauê. O Mayauê é um guerreiro. Ele faz casal com a Anaty, porque os dois são da mesma etnia, são Anambé, um casal de Anambé, que é da nossa etnia. Ela criou o Mayauê e depois ela, através... conhecemos um grupo de indígenas Krahô de Tocantins, nós criamos uma Krahô, ela não está aqui porque a gente está sem nenhuma em casa, elas estão confeccionando e a gente criou essa Krahô. Logo em seguida, ela criou a Kayapó, baseada na Tuíra, e depois, passado um tempo, ela criou uma Yawalapiti de Mato Grosso, que foi através de uma amiga que nós conhecemos também e criou uma Kamayurá. Essa Kamayurá ela criou agora último, porque nós temos uma amiga por nome Yapá, que é uma Kamayurá, mora em São Paulo também a Yapá e a gente tem uma amizade tão grande com ela, que nós criamos uma Kamayurá que se chama Yapá. E a gente começou a vender, assim, muito pouco. Quando a gente começou a fazer as bonecas, a gente vendia nas feiras, mas vendia pouco, a gente tinha um estoque de trinta bonecas, esse era o nosso estoque, para nós era muito grande esse estoque. Quando foi... antes da pandemia a gente... eu sempre vendendo as bolsas, roupas com riscos indígenas e aí uma bonequinha aqui, outra ali e a gente ia tocando a nossa vida, fazia outras coisas, nossos brincos e os nossos colares e nossas coisas, que quando foi pela pandemia, a gente ouviu rumores: “Ah, a pandemia e tal, chegou em tal parte”, mas a gente nunca tinha aquela... “Ah, isso vai ficar por lá mesmo” e tal. Quando foi no mês de dezembro, eu falei para ela assim... a gente estava com dinheiro, nosso dinheiro todinho era mil reais, nós tínhamos dinheiro, e esse dinheiro todo era mil reais, eu falei para ela assim: “A gente vai fazer uma compra pra cá para a casa e a gente vai pegar o que sobrar, a gente vai investir no material, porque... para a gente não deixar a desejar”. E nós tínhamos uma feira no mês de abril. Aqui no Rio de Janeiro o indígena tem duas feiras grandes, que ele se prepara o ano todo, é mês de abril e mês de agosto. Essa feira funciona no Parque Lage, no Jardim Botânico. E toda vez que a gente ia para lá, para essa feira, a gente sempre faltava nossas coisas, a gente não vendia, porque tinha só aquele pouquinho e eu digo: “Não, mas nesse ano a gente vai investir, para a gente não ter que deixar faltar, vai ter que sobrar, não faltar”. E eu peguei o resto do dinheiro e investi, comprei todo material: “Agora nós vamos trabalhar até o mês de abril e, com as palestras, a gente vai mantendo a casa”, pensamos assim. Quando foi em março, a pandemia chegou. Nossa, foi um sufoco para todo mundo, né? A gente não tinha dinheiro, a gente não tinha como vender o nosso material, porque ninguém podia ir para a rua. Nossa, foi a situação mais difícil do Rio de Janeiro que a gente viveu, porque a gente chegou a dormir com fome, por não ter dinheiro, por não ter o que comer, e a gente chegou a dormir com fome, nós três chegamos a dormir com fome, porque a gente não tinha. No outro dia uma amiga liga para mim e falou para mim como era que estava a situação, aí eu falei para ela, ela fez uma compra online no mercado e mandou o entregador entregar em casa, nós não saímos nem na porta, que a princípio estava uma coisa muito difícil. O rapaz deixou na porta e se afastou e depois a gente foi com álcool, esterilizando, para poder pegar. E aí ela falou assim: “Vocês não têm que parar, não, vocês têm que continuar” “Mas a gente não sabe mexer na internet, como é que a gente vai vender pela internet, que a gente não sabe?” Ela disse: “Eu não sei como, mas eu vou arranjar um jeito de ensinar vocês e vocês vão ter que vender pela internet”. Tá. E a gente, nesse dia mesmo, a minha filha ficou muito triste e no outro dia a minha filha disse: “A Áurea está certa, a gente vai fazer isso” e a noite ela passou: “Olha, você faz isso, faz aquilo”, pelo telefone mesmo. E a gente... ela ensinando tudinho direitinho. Quando foi no outro dia a minha filha voltou para a mesa, para confeccionar boneca, triste, a gente muito triste com aquilo: “Não, mas a gente tem que...” e a minha filha voltou para a mesa e a minha Anaty, a Luiza, a minha neta, começou a gravar um vídeo da mãe confeccionando a boneca e pediu para ela botar na internet, no Facebook e a minha filha foi e botou. Nossa, esse vídeo viralizou e logo de primeira a gente teve uma encomenda de 172 bonecas do grupo de benzedeiras de Brasília e era só eu e a minha filha que trabalhávamos. Nossa, foi uma situação assim, a gente tinha o material para confeccionar aquelas bonecas, mas a gente não tinha mão de obra. E com a pandemia, mesmo assim, eu botei o anúncio. Foi o tempo que a gente ganhou esse espaço aqui atrás, a gente: “Não, a gente vai botar aquela pessoa lá e a gente fica para cá, né?” E as pessoas entraram em contato com a gente, e falavam assim: “O que é o trabalho? A boneca, essa boneca é como?”, aí eu falava. “Ah, vocês são indígenas, é? Ah, não, para mim não dá”. E eu recebi vários nãos, pelo fato da gente ser indígena. Quando chegava assim: “Ah, vocês são indígenas?” “Sim, nós somos indígenas” “Ah, não, para mim não vai dar”. E a gente foi se segurando, eu e a minha filha, trabalhamos muito, dormia muito pouco. Não vai encontrar mão de obra e a gente tem que partir para dentro do negócio e a gente foi fazendo. Fizemos a primeira entrega, quando foi na segunda entrega, nós conversamos com ele, para a gente entregar de duas vezes e fizemos a primeira entrega. Quando foi na segunda entrega, a gente ganhou essa reportagem do Fantástico. Chegou ao conhecimento do Fantástico o vídeo, e eles entraram em contato com a gente e a gente ganhou essa reportagem. Quando foi no dia treze de dezembro, que foi ao ar essa reportagem, nossa, foi um estouro muito grande, a gente não estava acostumado com aquele tipo de coisa, nossa! A gente viveu assim, até hoje. Hoje a gente está mais acostumado. E eu tive que recrutar pessoal do estado do Pará para cá, porque a gente não tinha como suprir as encomendas, a demanda foi tão grande, que a gente não tinha como suprir. E nós tivemos que trazer quatro pessoas do estado do Pará, depois trouxemos mais duas, porque não tinha como. E esse povo foi um cuidado muito grande. Pandemia e aquela situação toda, convivendo todo mundo ali junto. Pessoas de pensamentos diferentes. A gente tem que ser bastante diplomático, naquela situação, (risos) porque conviver com várias pessoas, já viu, a gente acostumada ali, naquele cantinho ali, de repente, pum, acontece isso, e conviver com outras pessoas é muito difícil. E, antes disso, quando eu fiz essa venda para Brasília, eu cheguei com a minha filha e falei assim: “Está na hora, eu vou para o Pará, eu vou comprar um terreno, esse dinheiro é para comprar um terreno, para eu fazer uma casa de costura, do meu projeto social. Vou fazer um projeto social. Eu tenho que - eu vim para cá em busca de objetivo não só para mim - compartilhar com aquele povo, porque sem compartilhamento a gente não chega a lugar nenhum”. E aquilo ali fica martelando, assim, dentro do peito, dentro da mente e eu fui para o estado do Pará, peguei esse dinheiro e comprei um terreno para fazer esse... a sede do projeto social. E a minha mãe ainda estava viva e a minha mãe ficou muito feliz, porque eu disse para ela assim: “Eu vou voltar e vou montar esse projeto e vou ficar aqui do seu lado”, ela já muito doente. E eu vim para o Rio, foi quando aconteceu essa reportagem, e a gente se empenhou no trabalho e eu consegui jogar para o papel. Através de uma amiga também, que ela fica, tipo assim, assessorando a gente e consegui jogar para o papel. Fomos trabalhar, criamos o nome para esse projeto e a minha mãe veio a falecer, a gente lutou muito, eu dei uma parada, porque eu tive que me dedicar a ela e ela veio a falecer no mês de janeiro já desse ano e quando... aí eu dei uma parada, porque a gente sente muito. Dei uma parada de dois a três meses e depois eu voltei na minha cidade novamente e levei o projeto e nós já temos o trabalho com esse projeto, porque além de tudo a gente já vinha fazendo esse trabalho, hoje a gente tem uma distribuição de cesta básica, a gente já tem esse trabalho lá e com a reportagem do Fantástico, reportagem do SBT, da Record e outros sites, eu fui convidada para vários lugares e, quando cheguei na minha cidade, a prefeitura do município se responsabilizou a nos doar o prédio, onde vai funcionar a casa de costura. E ela vai começar agora no final de agosto, vão começar as obras do prédio, ela vai ter a participação só no prédio, ela vai nos doar esse prédio. E a gente já está se programando para fazer algo para a gente começar a arranjar as máquinas, nós temos já três máquinas que foram doadas para nós, para o projeto. E com essa reportagem do Fantástico, uma moça por nome Nádia Alonso, de Minas Gerais, queria contar um pouco da minha história no livro e ela criou esse livro, ela criou esse livro, Luakam e a Boneca Anaty. Esse livro tem... ele conta um pouco, é uma imagem que eu gosto muito e minha neta também, porque ela me fez bebê (risos). Eu bebê. Anaty gosta muito dessa imagem. E esse livro, eu fui para minha aldeia, ele... aqui ela fez uma parte que fala a boneca pelo mundo, aonde a boneca já chegou. E o livro que for vendido na prefeitura de Moju, que pertence a minha aldeia, 10% desse livro é voltado para a aldeia, porque a gente está fazendo um projeto na aldeia também. E essas que forem vendidas em Viseu, vai ser voltado para o nosso projeto também, a prefeitura vai comprar o livro para distribuir nas escolas e vai ser voltado para o nosso projeto. Essa boneca, essa aqui é a Anaty do livro, ela é pintada à mão, o vestido que eu usava quando era criança, o modelo do vestido, quando eu era criança era esse vestido. E a minha filha a confeccionou para vender junto com o livro, a gente vende junto com o livro, porque quando a Nádia criou esse livro, mesmo sem saber o meu estilo de vestido, ela criou. Era esse vestido quando eu era criança, esse modelo de vestido que eu usava, era feito de perna de calça, era esse corte. E a gente criou também a boneca com esse vestido, para vender com o livro. Então…

 

P/1 – Luakam, como foi ver esse livro? Como você se sentiu?

 

R – Então, esse livro era uma coisa que não passava na minha cabeça. Quando a Nádia mandou o primeiro exemplar para mim eu chorei muito, porque eu fico pensando assim: eu olho para trás e vejo, eu venho de uma família tão humilde, passei muita fome na vida e sem estudo algum praticamente, chegar onde eu cheguei, né? E eu sempre falo que a gente não tem que desistir, querer é poder. Eu queria tanto, que eu estou conseguindo, eu vou me sentir mais realizada ainda quando funcionar o projeto, porque foi uma coisa que eu fui em busca e eu vou me sentir mais realizada ainda. E esse livro significa muita coisa para mim, porque eu me senti, assim, a melhor pessoa do mundo (choro), eu me senti assim, que eu tenho importância na vida de alguém. Cada boneca que a gente confecciona, só de saber que a gente vai fazer feliz uma pessoa, a gente se sente mais feliz ainda. Hoje eu penso assim: meu limite é o céu. Eu sempre falei: o meu limite é o céu. Eu sou uma pessoa muito feliz, muito feliz com todas essas realizações na minha vida. E ter a amizade que eu tenho, chegar aonde eu cheguei, fazer aquilo que eu amo, eu só tenho a agradecer a Nhanderu por todas essas oportunidades na minha vida. E a tendência, eu vejo assim, é crescer, a gente não tem que ficar marcando passo. Hoje a minha família, eu tenho um pouco de parcela também na vida deles, porque através da boneca a gente dá uma certa sustentabilidade para eles também, não só para eles, para outras pessoas. A minha filha toma conta de tudo, hoje ela trabalha em casa e toma conta de tudo, eu confecciono as roupas das bonecas e ela que monta tudo, ela pinta, ela criou esse cabelo. A cor ela criou também, porque a gente que tinge, a gente... nós... isso aqui, a matéria-prima vem do Pará para a gente, para a gente criar essa cor. Esse pano é branco, a gente compra branco, mas a gente criou a cor. A matéria-prima vem do estado do Pará, ela é uma tinta que vem de uma árvore por nome Siribeira, que fica em manguezais, a minha irmã todo mês manda uma caixinha com várias cascas dessa madeira e a gente criou essa cor, minha filha criou essa cor. E é ela que pinta, ela que faz o risco indígena. Cada etnia com o seu risco, né? E a roupinha sou eu que faço, a bolsinha sou eu que faço e as outras coisas é ela que faz. Mas isso a gente não esqueceu também das peças de roupas, a gente... eu continuo fazendo as minhas peças, minhas bolsas e que a gente passou a ter uma venda muito intensa pela internet. E a gente também passou a ajudar mais pessoas também, porque a gente tem o preço dessa boneca e a gente tira 20% desse preço para ajudar alguém. E temos nossos funcionários também, que a gente tem que pagar tudo direitinho e é isso, a gente tem que dar continuidade. Eu não sei se eu falei tudo, mas se você quiser fazer mais perguntas, a gente chega lá.

P/1 – Queria saber se você chegou a conhecer os seus avós.

 

R – Sim, sim, eu conheci a minha avó parte de mãe, materna. Parte do meu pai não conheci, não, eu conheci parte de mãe. Eu conheci meu avô, ele era um negro muito alto, ele tinha um metro e 86 de altura e a minha avó já era pequena. Eles eram umas pessoas maravilhosas, eu lembro muito bem dela, a gente sempre dormia na rede, e como a gente ia muito na casa dela e ela morava dezesseis quilômetros da cidade, na época tinha onça, e a gente ouvia o esturro da onça e a gente corria e deitava junto com ela na rede, porque o paraense dorme muito na rede, e a gente dormia. Eu me lembro muito dessa parte que a gente... e também a gente não podia ficar muito brincando, muito ao redor da casa, porque a gente era muito criança e é por causa da onça, e eles tinham muito cuidado com a gente. Até quando a gente ia para o igarapé tomar banho, a gente tinha que ir acompanhada com adulto, mas eu me lembro muito bem deles. Ele era um cara muito inteligente, o meu avô, ele sabia ler, a minha avó não sabia ler, mas ele sabia ler, né?

 

P/1 – E quem contou a história dos Anambés para você?

 

R – Então, não, meu pai, meu pai é filho de uma Anambé e ele também é um Anambé. Então, meu pai nunca deixou de nos contar certas histórias e sempre dizia que o nosso povo estava ali, porque a mãe dele falava e a gente sempre foi nos Anambés, a gente sempre foi lá, a gente sempre teve aquele contato. Eu passei uma temporada lá, porque nessas minhas idas e vindas e trabalhando para cá, eu dei um tempo, mas depois eu voltei a frequentar lá novamente.

 

P/1 – E como era a relação com os seus irmãos, nessa época?

 

R – Era meio complicada, né? Quando eu [era] criança? Porque era meio complicada, porque eles moravam com a minha mãe, eu morava lá, eu não tinha muito acesso a eles, mas quando a gente se encontrava, a gente brincava muito. Até hoje mesmo a gente tem aquele afeto muito grande um pelo outro. Quando eu chego lá a gente tem nossas reuniões de família, a gente almoça todo mundo junto.

 

P/1 – E que brincadeiras você gostava de brincar?

 

R – Então, a gente ia muito para a casa da minha avó, e lá juntava nossos primos, que moravam tudo lá perto e a gente brincava muito de ______, a gente brincava no igarapé, tomava muito banho de igarapé e às vezes a gente ia para a roça, porque os pais da gente tinham que levar a gente para roça também, porque não podia deixar a gente sozinhos em casa e a gente tinha que ir para a roça, mas era tudo aquilo, é muito gostoso, tudo muito bom. Até hoje, mesmo, quando eu chego, às vezes, lá: “Ah, vamos pescar”, a gente tinha aquela mania de pescar. Eu fui para a aldeia e a gente saiu para pescar, várias canoas, com várias pessoas e a gente saiu para pescar. Até hoje a gente faz muito isso. Tem momentos, assim, que a gente volta a ser criança. Mas eu tenho muita saudade daquele tempo, claro, né? E foram coisas muito boas que a gente viveu. Tem várias crianças hoje que não vivem mais o que a gente viveu, na época.

 

P/1 – E teve alguma comida que tenha te marcado essa época?

 

R – Então, a gente não tinha pratos e a minha tia fazia pratos de barro para a gente e a gente comia naqueles pratinhos de barro. E a comida, para a gente, era muito regrada, era muito regrada, mas aquele pouco que a gente comia, a gente comia com muita satisfação. E o meu pai sempre pescou, a minha família sempre foi pescar, caçava e a gente não era... até hoje a gente não é muito de comer carne vermelha. Eu moro aqui no Rio, mas a gente não come muita carne vermelha, a gente consome muito peixe. E eu lembro que meu pai pegava aqueles peixes grandes e, quando a gente chegava, a gente ficava muito feliz. Quando acordava de manhã e ele chegava da maré e trazia aquele peixe grande, a gente sabia que ia comer, para encher a barriga. E aquilo ali marcou muito, eu lembro muito. Às vezes, quando eu chego, quase nada mudou na casa dele até hoje, ele sempre teve aquela casinha no quintal e a nossa comida era feita naquela casinha e até hoje existe. A minha mãe morreu, mas ele está lá com 92 anos, meu pai tem 92 anos e ele sempre manteve aquilo ali e às vezes eu chego, eu paro e fico pensando assim… e olho para aquele prego, que ele botava na parede, porque quando ele chegava pendurava aquele peixe ali e a gente sabia que naquele dia a gente ia encher a barriga e ia comer bem, então foi uma coisa que marcou muito a gente. Não é só eu que penso assim, minhas irmãs também pensam.

 

P/1 – E como era a sua casa?

 

R – A nossa casa era uma casa grande, tapada de barro e coberta de palha. Ela não era dividida em quartos, ela era dividida assim: só um quarto grande, onde todo mundo dormia naquele quarto e tinha uma sala, uma cozinha e uma casinha no quintal, sempre teve uma casinha no quintal. E era tapada de barro, de pau a pique e tapada de barro, coberta de palha.

 

P/1 – E me conta uma coisa, para os Anambés, as crianças, o brincar, tem alguma simbologia?

 

R – Sim, sim. As crianças, hoje, todas as aldeias, eu acredito que em quase todas as aldeias existe a tecnologia, chegou a tecnologia. As crianças já têm uma visão totalmente diferente, hoje já querem o celular, hoje já querem. Eu vi isso, mas antes as crianças tinham que brincar dentro da aldeia, ela tinha que brincar, ela tinha que ter o horário dela, ela tinha que ter aquela... ela tinha que ser criança. Apesar de eu não ter sido aquela criança, né? Eu via antes como as crianças eram livres. Mas já tinha também aquele compromisso de ir para a roça com o pai e tinha aquele compromisso de ir para a caça com o pai, já tinha aquele compromisso de produzir alguma arte ali e até hoje eles sentam aquelas crianças e os mais velhos passam aquele artesanato para aquelas crianças, para não deixar a cultura morrer. Hoje a gente bate muito nessa parte da cultura, nós temos ainda Anambé que fala a língua, nós estamos resgatando essa língua mesmo, a qualquer custo, nós temos um professor indígena de língua dentro da escola, para não deixar essa língua morrer. Ela foi um pouco esquecida, mas agora deu uma reacendida de novo.

 

P/1 – E você chegou a ir para a escola?

 

R – Não, não cheguei a ir para essa escola. Eu vou agora, de novo, para lá, para a construção do prédio. E vou ter aula com o professor.

 

P/1 – E como você está se sentindo em relação a isso?

 

R – Nossa! Nossa eu estou me sentindo muito feliz, eu fico pensando assim: “Nossa, quando chegar aqui no Rio de Janeiro, já vou falar na língua Anambé”. (risos) Eu sou muito ansiosa e estou muito ansiosa com isso, a gente conversou, ontem mesmo a gente conversou, ele me manda algumas palavras: “Não, você tem que falar assim, tem que falar assim e quando chegar aqui a gente vai ter duas horas de aula, todo dia a gente vai ter duas horas de aula”. E eu estou muito, muito entusiasmada com isso (risos).

 

P/1 – E o que representa, para você, poder fazer parte dessa preservação mesmo, da sua cultura?

 

R – Nossa, isso representa tudo para mim porque a gente, quando não quer assumir a nossa identidade, mesmo a gente não querendo assumir a identidade, eu vejo assim: o sangue grita, tem algo dentro de ti que grita. E eu não tive muita oportunidade de viver lá dentro, com eles, mas a gente nunca esqueceu, nem eles esqueceram a gente, mas agora a vida está me dando chance de eu fazer esse resgate. Eu vejo isso, então eu estou tendo uma oportunidade que na época eu não tinha e hoje eu estou tendo uma oportunidade e eu tenho que aproveitar.

 

P/1 – E, Luakam, como foi se tornar mãe, para você? O que a maternidade representou na sua vida?

 

R – Então, se tornar mãe, a princípio, foi muito, assim, foi muito, muito doloroso, até pela vida que eu levava. Mas a maternidade é uma coisa muito boa, ela me tornou uma pessoa mais responsável, uma pessoa mais dedicada. É tão tal, que até hoje eu nunca abandonei meus filhos. Eu queria sempre mais. Quando a minha filha estava com seis anos de idade, eu adotei uma criança. Essa criança ficou comigo, e há três anos eu o perdi aqui no Rio de Janeiro, perdi também para a violência do Rio, ele foi morto aqui no Rio, por espancamento, porque ele só queria ser feliz da maneira que ele era. Ele era gay, né? E, para as pessoas, o indígena não tem que ser gay. Para outras pessoas, eles acham que o indígena, hoje, tem que ser guerreiro. Mas eles têm que botar na cabeça que o indígena é uma pessoa comum, igual aos outros. Ele tem desejo, ele vive igual as outras pessoas, ele é uma pessoa igual as outras. Então, por esse motivo, eu perdi o meu filho, aos 23 anos de idade, ele tinha 23 anos quando ele foi morto e eu passei mais ou menos um ano muito mal, depois eu acredito que ele me deu força, para me reerguer novamente e com a morte também da minha mãe, eu... o nome do projeto é Maria Vicentina. Maria, o nome da minha mãe, porque eu ainda não esperava que ela ia tão rápido e Vicentina era o nome da minha avó. A minha avó era uma parteira e ela fazia muitos benefícios às pessoas e ela foi uma parteira por muitos e muitos anos e ela era bem reconhecida, ela era uma pessoa que nunca morreu uma mulher de parto na mão dela e ela trabalhava muito com ervas. Por isso o nome do projeto é Maria Vicentina, porque ele vai dar continuidade naquilo que os nossos ancestrais nos deixaram. E tudo que eu aprendi em termos de ser mãe, da educação dos nossos filhos, eu repasso hoje para a minha filha, repasso também para a Anaty, para amanhã, quando ela for mãe, ela lembrar. Eu acredito que, de cem palavras que eu digo para ela, ela não se lembre de uma a duas.

 

P/1 – Queria te perguntar o que significa para você costurar? E como foi fazer essa primeira peça, a sua primeira costura?

 

R – Nossa, a minha primeira peça, eu... foi um short que eu fiz, um short todo costurado à mão, de elástico na cintura e eu mesma achei feio e depois eu... nossa! Fui eu mesma que fiz, eu tenho que dar uma melhorada e eu procurava aperfeiçoar, eu sempre procurei aperfeiçoar: fazia um, não, não é assim, eu tenho que melhorar. Em que sentido eu vou ter que melhorar? E foi isso, eu botei assim: “Nossa, eu sou capaz!” Quando eu fiz a minha primeira peça, eu digo assim: “Eu sou capaz, eu sou capaz de fazer mais, eu sou capaz de melhorar mais, eu terei que me dedicar” e hoje eu... às vezes, quando boto uma roupa no manequim, eu fico me perguntando, assim... eu nunca fiz um curso de corte e costura, eu nunca fiz um curso de design, de moda, nada, mas eu consigo tirar uma roupa de uma revista para um tecido. Eu consigo! Às vezes eu fico olhando assim: “Nossa, eu consegui”. Aí volta aquele pensamento não só em mim: “Eu consegui, alguém vai conseguir também”. Então é uma coisa muito maravilhosa você fazer aquilo que gosta. Eu gosto muito do que eu faço, gosto mesmo. Eu não sei ficar parada dentro de casa, eu não sei ficar olhando para as minhas máquinas, se eu não estiver fazendo barulho.

 

P/1 – E no Rio, como foi encontrar outros indígenas, outras etnias, como foi esse encontro?

 

R – Então, foi uma surpresa assim, muito grande, porque quando eu cheguei no Rio, eu nunca imaginava que, no Rio de Janeiro, eu fosse encontrar indígena. Eu até me recolhi um pouco, eu só falava assim: “Ah, eu sou indígena”, quando as pessoas perguntavam, porque, claro, vão me perguntar. E às vezes as pessoas dizem assim: “Ah, elas são peruanas”, e outras dizem: “Não, elas são... até esqueci outra palavra, é de outro país, é da Colômbia, são colombianas, outros são da Venezuela”. Então eu nunca imaginava que eu fosse... e quando foi esse dia, eu nunca tinha ido à praia de Copacabana e falei para minha filha: “Hoje a gente vai na praia, a gente vai dar uma olhada, vai ver como é essa praia. Uma praia mais famosa, a gente vai ter que conhecer essa praia, a gente mora aqui no Rio de Janeiro, alguém vai perguntar para a gente e a gente não sabe falar nada. Então vamos nessa praia”. E a gente foi e andamos para caramba, porque ali é muito grande e a gente ficou andando, porque a gente queria conhecer. Quando a gente se deparou com Pakari. Pakari, esse parente Pataxó da Bahia, estava vendendo lá no calçadão de Copacabana, estava com pano lá no chão, vendendo artesanato dele. Nossa, quando a gente deparou com aquilo: “Meu Deus!” e nós fomos nos aproximando dele. Nossa, aquilo ali... e aí ele prontamente levantou e disse: “Oi, parente” para a gente, aí: “Oi, parente”. Ele: “Vocês são de onde?” “Ah, nós somos do estado do Pará”. Ele falou: “Eu sou da Bahia, sou Pataxó da Bahia. E vocês são de qual etnia?”, aí: “Ah, nós somos Anambé”. Nossa, aquilo foi tudo. A partir daquele momento a gente se sentiu empoderada: “Nossa, a gente não está só nesse lugar” e aí ele foi: “Ah, vocês precisam ir na Aldeia Maracanã, eu moro na Aldeia Maracanã, “borá” marcar para a gente ir”. “Onde é que fica?” “Ah, do lado do Estádio Maracanã”, aí a gente começou a frequentar. Quando nós chegamos lá e que a gente viu outros indígenas, de outras etnias, nossa! Aí a gente se achou mesmo, né?

 

P/1 – Você falou que você começou a se envolver na militância, na luta. Como foi esse momento para você? E você tem alguma história marcante?

 

R – Eu, eu até chegava a criticar: “Nossa, esse povo fica na rua aí, atrapalhando os outros”. Mas eu nunca pensava na causa: por que eles estão ali? Ali tem um porquê! Então a partir do momento... isso aí foi a nossa primeira, foi a nossa porta de entrada. Foi quando chegou na época da Copa, que ele queria reformar o Maracanã, o governador do estado, ele tinha que tirar os indígenas dali e a gente tomou as dores, a gente comprou aquela briga também: “Não, não tem que sair, a gente vai ter que...” e a gente foi para rua com eles, né? A gente foi para a rua, aí começou ali. Começou aquela luta ali e aí a gente já foi tomando espaço, tomando espaço e hoje eu frequento muito Brasília, por sinal há três semanas, naquele confronto que teve lá eu estava presente, eu passei uma semana em Brasília, eu tenho, eu guardo até hoje a bala que me atingiu, né? Eu desmaiei, tive um problema muito sério e... a cantora Maria Gadú é muito nossa amiga e, depois do acontecido, eu já fui acordar no hospital, porque ela me levou para o hospital, ela estava lá também, ela me levou para o hospital e eu passei o dia todo ruim, porque inalei muito aquela fumaça, eu me sentia, assim, parece que eu estava inchada, meu rosto inchou completamente e estamos nos programando também, agora, para a gente ir, no dia vinte de agosto, que devido a pressão que foi tão grande, lá na época, não houve a votação da PL 490, vai ser votada agora no dia 25 de agosto e a gente está botando, botamos uma bolsa indígena na rifa, para a gente angariar dinheiro, para pagar as nossas passagens, para a gente ir. Nós vamos de novo e só vamos voltar de Brasília depois da Segunda Marcha das Mulheres Indígenas, que é no dia doze de setembro. A gente vai no dia 21, a votação vai ser no dia 25 e a gente já fica para a Marcha das Mulheres Indígenas e eu sempre falo assim para a minha filha: “Agora não tem mais tempo ruim, o que eu tinha que pegar, já peguei mesmo, uma bala, (risos) agora tem que persistir” (risos). E como os meus parentes indígenas não podem vir da Aldeia Anambé, por falta de condições financeiras mesmo e o cacique me deu autonomia para representar a etnia em qualquer lugar que eu chegue. Nós vamos também ter um encontro muito grande, o Ufopa, que é no estado do Pará, no mês de janeiro. Só que, como é no Pará, eu estou fazendo de tudo também para eles virem, para participar, que eles nunca saem de lá. Eles nunca saem e eu quero mostrar esse mundo aqui fora para eles, e eles nunca saem. A gente está fazendo já um empenho aí para trazê-los até o estado do Pará, no mês de janeiro. Mas a gente pensa nesse “abacaxi” grandão aí em Brasília (risos) agora. E eu gosto, é uma coisa que eu gosto de lutar pela causa.

 

P/1 – Como você se sente na luta, ocupando a rua, ocupando espaços?

 

R – Então, a gente se sente com um empoderamento muito grande, porque... principalmente quando a gente tem um resultado bom, né? A gente fala para a gente mesmo: “Nossa, valeu a pena!”. A união faz a força. Se mais viesse, a gente conseguiria mais. Até porque hoje os nossos direitos, os direitos indígenas estão muito defasados, principalmente com esse governo que está aí, ele está tirando todos os nossos direitos e a gente tem que se juntar e lutar pela causa, para a gente conseguir algo, a gente tem que se juntar e lutar pela causa. Não é só bater no peito e dizer assim: “Eu sou um indígena”. Eu tenho uma amiga, ela é Xavante e ela criou umas camisetas onde dizia assim: “Lute como uma mulher indígena”. Então a gente tem que ir para a luta, mesmo. E eu me sinto muito feliz em poder estar junto com os meus parentes, lutando pela aquela situação.

 

P/1 – Como foi se tornar avó?

 

R – Nossa! Se tornar avó é mãe pela segunda vez. Muitas das vezes você não teve aquele carinho suficiente por aquela filha, e quando a mulher se torna avó, aquele carinho redobra. A gente... pelo fato da gente não estar velha, a gente ter uma certa experiência, aquela experiência faz a gente desabrochar aquele carinho em dobro. Se a gente teve um carinho bom pelo filho, quando a gente é avó, a gente redobra aquele carinho, redobra aquele cuidado e é muito bom. Porque vinte anos, 25 anos passam rápido, mas com a chegada de um neto, nossa, eu vivi isso há vinte anos, 25 anos e hoje estou vivendo de novo. E a gente não só dá, mas a gente ganha muita experiência também.

 

P/1 – Você lembra de alguma história marcante com a Anaty? Tem algum momento, ou alguma atividade que vocês gostam muito de fazer juntas? Ou alguma história que você contar?

 

R – Então, eu gosto muito de ler para ela antes de dormir. Ela é uma pessoa que gosta muito de leitura, ela lê muito. Hoje... ela aprendeu a ler na pandemia e ela lê muito. E a gente brinca de pique-esconde dentro de casa, coisa que a mãe dela não faz com ela, mas eu tenho certeza que a mãe vai fazer com os netos. Então a gente brinca de pique-esconde dentro de casa, a gente é muito amiga. Nós somos muito amigas, eu e ela, somos muito amigas. Quando viajo, ela sempre vai comigo, mas não para Brasília e, quando eu vou para Brasília ela sente muita falta, porque geralmente eu vou para Brasília para a luta e eu não vou expô-la, né? Mas quando eu vou para o Pará, ela sempre viaja comigo e a gente brinca de boneca, a gente brinca de roupinha, a gente brinca de comidinha. Mas eu sempre a alertando para os perigos da vida. O melhor de tudo é isso, porque a gente tem que alertar bastante, mas é uma coisa que eu gosto muito, é das nossas brincadeiras, a gente se esconde debaixo da cama, se esconde (risos) no banheiro. Sempre faço isso com ela.

 

P/1 – E já como uma mulher empreendedora, eu queria saber quais foram ou são os maiores desafios que você enfrentou.

 

R – Então, o maior mesmo foi o preconceito. O preconceito abala muito o ser humano. E muitas “portadas” na cara. Mas eu não desisti, não. Eu... teve porta que eu peguei na cara, que hoje eu volto lá e sou recebida com muito carinho. Mas eu não fico lembrando, eu não fico: “Ai, tanto tempo eu fiz isso”. Não, passou! Eu sobrevivi àquilo. E é tão chato quando a pessoa chega com você, que você apresenta alguma coisa, ou então: “Isso aí não é nada, você não vai chegar a lugar nenhum”. Eu ouvi isso e eu sempre digo assim, que no meu vocabulário não existe: “Ah, será que... eu não vou tentar”. Não, não existe, eu... mas antes deixar rolar uma lágrima, que a culpa de não ter tentando. Eu quero “quebrar a cara”, mas eu tentei. Então eu acho que foi essa persistência que fez eu chegar onde eu cheguei. E eu acredito muito no empreender. O empreender hoje, com a pandemia, com a concorrência, você tem que ter criatividade. A criatividade é a arma de tudo e o ser humano é inteligente. Ele é muito inteligente. Então, esse desafio é bem complicado, bem complicado mesmo. Então, para mim, o maior desafio é o preconceito.

 

P/1 – E os maiores aprendizados dessa sua trajetória?

 

R – Não entendi.

 

P/1 – Os maiores aprendizados da sua trajetória como empreendedora. 

 

R – Nossa, é... eu não sei se eu vou te responder direito, mas eu... o que eu aprendi com tudo isso é a valorização. Você valorizar não só o seu produto, mas valorizar as outras coisas também. Esse aprendizado que eu levo. Porque tudo é feito com sacrifício, tudo é feito com carinho, então você tem que valorizar, é a valorização.

 

P/1 – Queria te perguntar o que te levou, pensando nesse seu processo de criação, a escolher representar essas determinadas etnias com as suas bonecas. Você contou um pouquinho, eu queria que você contasse alguma história, se puder. O que fez com que você escolhesse essas etnias para representar?

 

R – Então, quando eu criei a Anaty, o plano era só criar a Anaty, que era da nossa etnia e a gente não ia ter problemas com direitos autorais. Porque hoje existe tudo isso. E eu não criei a Anaty para vendas, eu queria ter uma boneca e, com o nascimento da Anaty, eu disse: “Eu vou criar a boneca”. E o sucesso dela foi tão grande, que a gente foi tendo contato com essas outras etnias e a gente disse: “Não, porque não fazer as outras etnias? Porque não empoderar essas mulheres, essas todas... mulheres dessas etnias, na boneca?” E como a Tuíra é uma mulher muito guerreira, é uma mulher que, em 1989, levou um facão na cara, no rosto do homem do Estado e ela se tornou marketing a partir daquele dia. E a gente: “Não, a gente vai criar essa mulher empoderada, sabe? Essa mulher guerreira, a gente vai...” e quando a gente teve contato com as indígenas Krahô, que a gente viu aquele corte no cabelo, aquela coisa diferente, até então a gente não tinha tido contato nenhum com eles: “Nossa, a gente vai criar também uma Krahô com aquele corte de cabelo, é uma coisa maravilhosa”. E a Yapá: “Ah, não, vocês têm que fazer uma boneca Kamayurá”. E a gente não pretende parar só por aqui, nós temos 305 etnias diferentes, 280 línguas, são 288 etnias que falam a própria língua, tem seu próprio dialeto. Eu acredito que a gente não vá fazer as 305 etnias, mas a gente pretende crescer mais um pouco. Até para nós, mulheres indígenas, nos sentirmos representadas na boneca, porque nós temos boneca negra, loira, né? Por que não uma indígena? Se nós temos uma diversidade de etnias no nosso Brasil.

 

P/1 – E junto... pode falar.

 

R – Pode falar. Ah, tá. Então, é isso, a gente viu por aí, por isso que a gente chegou até aqui, mas a gente pretende aumentar ainda mais um pouco.

 

P/1 – Porque junto com essas bonecas, a história também é passada, né? Para outras gerações.

 

R – Com certeza. Sim. 

 

P/1 – E como é seu dia a dia, hoje em dia?

 

R – Então, nós trabalhamos na nossa casa, nós temos esse espaço aqui também e o dia a dia, como a minha filha toma conta agora da parte das bonecas, eu faço a compra, eu já tomo conta dessa parte do Banco. A gente tem uma venda muito grande pela internet. Nós criamos um site, nós temos o site. E a pessoa... tem uma pessoa que ajuda muito a gente com a internet e ela toma conta desse site e eu tomo conta da parte do Banco e da compra de material, e quando eu estou em casa eu confecciono os vestidos. Toda roupinha sou eu e minha filha, que as outras pessoas tomam conta dessa parte de enchimento, de cabelo, de colorir, da pele. E nós temos um trabalho muito intenso, porque a maioria dessas bonecas é feita manual. E a gente tem que ter uma dedicação para ser igual, a gente não a diferenciou em nada, a gente sempre bate em cima desse registro que ela foi, desde quando ela foi feita pela primeira vez. Nós confeccionamos seis para chegar onde ela chegou e a gente permaneceu. Então todas as nossas bonecas já são patenteadas, e autorizadas pelas etnias, a gente tem já registrado em cartório autorização de cada etnia.

 

P/1 – E o que você gosta de fazer nas horas de lazer?

 

R – Eu, nas horas de lazer? Eu quase não tenho essa hora de lazer, (risos) porque eu faço... só viagem, são os meus encontros para militância mesmo, sabe? Esse aí é o meu horário de lazer (risos).

 

P/1 – E, Luakam, mesmo distante fisicamente do seu povo e até da sua cidade, como você carregou consigo alguns saberes e alguns rituais, alguns valores da sua etnia? E quais são eles?

 

R – Então, a gente... quando eu vim para o Rio, é uma coisa que eu prometi para eles: eu não vou perder nunca essa essência que eu estou levando daqui. Não vou perder! Não é porque eu vou para o Rio de Janeiro, que eu vou perder essa essência. E na minha casa eu tenho as minhas ervas, na casa onde eu moro eu posso comer meu peixe assado, eu posso fazer meu ritual, eu tenho bastante erva que eu cultivo, eu tenho vasos dentro da casa e tenho as minhas crenças. Eu consigo manter isso aqui no Rio de Janeiro, não consigo manter aquilo totalmente, mas eu consigo manter mais da metade. Eu e a minha família, a gente é muito reservado, a gente não tem aquele... como é que eu posso te explicar? Nós não temos aquela certa vaidade no Rio de Janeiro. Até porque o nosso tempo não permite, e mesmo, a gente não tem esse hábito, a gente não tem o hábito de praia, a gente não tem o hábito de sair à noite, a gente não tem o hábito... porque aqui no Rio é muito perigoso essa parte. O meu filho foi morto porque ele tentou se adaptar a esse hábito, ele saía muito, ele queria estar na noite. Então, isso aí aqui no Rio é muito perigoso. Eu participo de alguma coisa. Às vezes, quando tem show, o Circo Voador na Lapa, a gente é convidado, quando a Maria Gadú vai, Caetano Veloso quer fazer alguma apresentação diferente e a gente vai, mas quando a gente é convidado, terminou dali vem embora. Mas a gente procura manter o máximo a nossa essência.

 

P/1 – E o que a boneca Anaty representa na sua história?

 

R – A boneca é uma realização. Ela... o meu sonho era ter aquela boneca, eu não consegui tê-la e hoje eu acredito que eu tenho até uma melhor, porque aquela era de plástico, essa aqui não, né? E ela é um sonho realizado para mim. Eu, às vezes, chego a dizer para minha filha - e minha filha: “A senhora está falando besteira” - “Eu posso morrer agora, que já está bom”. E a minha filha, às vezes, esquece: “Se lembra que a senhora ainda tem um projeto, ainda tem que...” (risos). Então ela significa tudo isso para mim, é uma... é essa realização do meu sonho que eu consegui realizar, aos 46 anos.

 

P/1 – E quais são as coisas mais importantes para você, hoje?

 

R – Hoje? Em primeiro lugar, graças a Nhanderu, que é esse cara que dá tudo de graça para a gente. E meu pai, meu pai não sei como vai ser, né? Ele indo, se for primeiro do que eu, porque a minha mãe foi uma dor muito grande, que a gente não consegue... cada hora que você lembra, você tem aquele impacto, aquela dor. Anaty, eu olho para ela, assim e só em saber que uma hora eu vou ter que faltar, né? Então, o que eu te falo, reduzindo tudo: a minha família.

 

P/1- E quais são seus maiores sonhos, hoje?

 

R – Concretizar o meu projeto! Ver aquelas pessoas trabalhando, eu sentir a felicidade no olhar de cada mulher daquela.

 

P/1 – A gente está terminando, mas antes eu queria te perguntar se você gostaria de acrescentar alguma coisa, contar alguma história, falar sobre alguma coisa que eu não tenha instigado.

 

R – Então, eu... só uma coisinha que eu acho que eu não falei, é tipo assim: eu, quando eu me separei aos dezenove anos, fiquei com trauma e até hoje eu não casei mais. Eu acho que Deus me deu essa oportunidade para eu viver livre. Livre, para executar as coisas que eu mais quero. Porque muitas das vezes, talvez, se eu estivesse com alguém, eu seria privada de alguma coisa, porque os pensamentos são diferentes, os gostos diferentes e hoje a vida a dois é muito complicada e, por essa liberdade, eu não casei mais.

P/1 – E o que você achou de ter contado um pouquinho da sua história para a gente?

 

R – Então, eu acho muito legal. Quando se trata dessa parte, que a gente se emociona, a gente sorri, né? E eu acho bom falar, porque eu vivi tudo isso, eu vivi tudo isso, mas hoje eu me sinto uma pessoa totalmente diferente e, assim como o sol brilhou para mim, ele vai brilhar para outras pessoas, se ouvirem a minha história. Quem sabe não tem alguém que, ouvindo a minha história, vai ter uma mudança na sua vida, né? Em tudo isso eu penso. Eu acredito que a minha história seja um exemplo para várias pessoas, porque eu consegui. O sol brilhou para mim, eu acredito que vá brilhar para outras pessoas também, porque querer é poder, né?

 

P/1 – Luakam, você continua cantando?

 

R – É, eu gosto muito de cantar, eu continuo cantando e, por sinal, dia cinco de agosto um amigo me convidou para ir num lançamento de uma música dele, em Santa Tereza, um bairro aqui no Rio de Janeiro. Eu vou ter uma pequena participação. E eu estou muito feliz desde já e, no final das minhas palestras, eu costumo cantar uma musiquinha e eu gosto muito de David Assayag, é um cantor cego que tem em Manaus, que ele tem uma música com nome “Lamento de Raça” e essa música foi gravada em 1986 e há três anos a gente viveu isso. E foi uma coisa que me chamou muito a atenção, que foi gravado em 1986, há trinta e poucos anos. E a gente viveu essa realidade há três anos, três, quatro anos atrás a gente viveu isso e eu gosto, gosto muito.

 

P/1 – Você gostaria de cantar um pouquinho para a gente?

 

R – Eu vou cantar uma música do Assayag, uma palhinha:

O índio chorou, o branco chorou
Todo mundo está chorando
A Amazônia está queimando
Ai, ai, que dor
Ai, ai, que horror
O meu pé de sapopema
Minha infância virou lenha
Ai, ai, que dor
Ai, ai, que horror
Lá se vai a saracura, correndo dessa quentura
E não vai mais voltar
Lá se vai onça pintada correndo dessa queimada
Para nunca mais voltar
Lá se vai a passarada, junto com a macacada
Para nunca mais voltar
Para nunca mais, nunca mais voltar
Virou deserto o meu torrão
Meu rio secou, pra onde vou?
Oh, oh, oh, oh, oh, oh
Eu vou convidar a minha tribo
Pra dançar no Garantido
Para o mundo declarar, declarar
Nada de queimada, derrubada
A vida agora é respeitada, todo mundo vai cantar
Vamos brincar de boi, tá garantido
Matar a mata, não é permitido
Vamos brincar de boi, tá garantido
Matar a mata não é permitido”

P/1- (aplausos) Uau! Muito obrigada! Que manhã maravilhosa a gente teve! Eu te agradeço muito pela sua disponibilidade e por ter topado compartilhar com a gente a sua história. Para a gente foi um presentaço e, se você puder compartilhar comigo, no WhatsApp, esse dia da sua apresentação. Ah, não sei se vai ser... vai ser virtual, que você vai cantar?

 

R – Eu não sei ainda, ainda vou perguntar para ele.

 

P/1 – Tá bom, mas avisa a gente, que a gente quer, se for virtual, eu adoraria participar. E, Luakam, muito, muito, muito obrigada, foi uma manhã muito gostosa que a gente teve juntas e, quando tiver tudo pronto, eu entro em contato com você, te mostro tudo…

 

R – Tá legal!

 

P/1 – E aí a gente... mas antes a gente conversa sobre suas fotos, pode ser?

 

R – Legal. E detalhe, eu queria te falar uma coisa: a gente, geralmente quando a gente termina, se por um acaso aparecer alguém que queira nos ajudar com o projeto, está em aberto, se você também puder compartilhar, né?

 

P/1 – Claro! 

 

R – A gente precisa de ajuda (risos). 

 

P/1 – Como a gente pode ajudar? Como a gente pode compartilhar?

 

R – É porque agora a gente está quase terminando de vender essa rifa, aí muitas das vezes a gente pede ajuda, porque a gente está comprando máquinas também e a pessoa pede a cópia do projeto, para ver como é que está, já está tudo registrado, a gente manda, né? Se, por um acaso mais alguém tiver interessado em nos ajudar…

 

P/1 – Claro, mas me conta uma coisa: como a gente acha? É no seu site mesmo?

 

R - É, a gente está botando agora, essa semana, no site, essa semana que a gente vai botar no site já para isso, porque a gente estava pensando no prédio, mas como a prefeitura vai nos doar esse prédio, a gente já vai correr atrás das máquinas.

 

P/1 – Tá bom, então, eu vou ficar bem de olho no site.

 

R – Tá legal.

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