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História

"O meu esporte era mulher"

História de: Hermogenes Soares Brazão
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/09/2013

Sinopse

Hermogenes recorda em seu depoimento a infância dura na região do Jari. Perdeu o pai aos 8 anos e teve que ajudar a mãe no sustento dos irmãos. Lembra como era o Jari no tempo do Coronel José Júlio e como era o processo de extrativismo da castanha e da seringa. Fala sobre o trabalho de carpinteiro que desenvolveu ao longo da vida e sobre as mulheres e filhos que teve.

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História completa

Eu nasci em Almeirim, no dia 23 de novembro de 1935. Os nomes dos meus pais eram João Fonseca Brazão e Maria Soares Brazão. A minha avó era Joana Brazão de Aragão e o avô era Benedito José de Aragão. A minha avó era parteira. Vi muito parto que ela ainda fez. Minha mãe, quando meu pai morreu, nós éramos cinco e ficamos tudo pequenos. Esse José Júlio era compadre da minha mãe, viu a dificuldade dela, porque ela lavava para fora, engomava, para nos criar. Ele disse: “Olha, Maria, tu vai me dar ao menos dois meninos desses, que vamos criar para ti”. Ela disse: “Não. Só vou arranjar a sua afilhada”. Que o nome dela é Raimunda Fonseca Brazão, uma irmã nossa. Meu avô era seringueiro.

 

Naquela época era isso, cortar seringa para sobreviver, vender para o José Júlio. Tirar lenha no machado, partir, carregar, botar na beira, o barco chegar, embarcar. Cortar juta, a água mergulhando, cortando pelo fundo, para botar de molho, tirar a fibra, para vender tudo para esse José Júlio, que era o dono da área. Meu pai fazia mesma coisa também. Era só uma atividade naquela época, era cortar seringa. As casas eram até boas, porque o José Júlio mandava fazer aquelas vilas do tamanho quase aqui dessa comunidade, a gente não pagava aluguel, não pagava nada. Tinham quatro, cinco quartos. Conforme a quantidade de gente, tudo tinha os quartos divididos, cozinha, sala, tudo, tinha varanda.

 

A brincadeira era bater bola, jogar pião, ioiô, papagaio. E canoinha também, o transporte naquele tempo era canoa à vela, no remo. De Almeirim para cá dá 12 horas de viagem. Eram dois, três, quatro, cinco dias para chegar aqui, de Almeirim para cá. A gente vinha às vezes fazer trabalho para ele, terminava a safra, a gente descia. É que nem aqui hoje, a gente tem uma colocação para cá, a gente traz gente de muito longe para trabalhar. Quando termina a safra, são dois meses, três meses, todo mundo vai procurar seu rumo. A minha mãe era mais braba. O pai pouco bate a gente, mas a gente respeita mais. Tudo era sapeca.

 

A gente aprontava. Naquela época fomos criados mesmo com arroz, feijão, charque e pirarucu, que naquela época não tinha “proibimento”. E dentro do depósito do patrão, que era desse José Júlio, era empilhado de pirarucu. Por sinal, minha mãe era cozinheira do José Júlio. Era cozinheira, era lavadeira de roupa, fazia também particular, sem ser dele. Que eram cinco filhos, era uma carga medonha. A casa era um chalé muito grande, muito bem feito. Assoalho de acapu e pau amarelo machiado. A gente ia para escola nessa época, a gente remava mais ou menos assim, quase uma hora para ir estudar particular com uma professora. A gente ia estudar, quando eram dez horas, a professora soltava a gente, vinha embora no remo. Não tinha preguiça de estudar. Só não aprendi muito porque infelizmente naquela época a escola não é que nem hoje. Trabalhei cedo. De oito anos, foi obrigatório. Chegava gente ali: “Maria Soares, me dá teu filho para ir levar essa cestinha bem ali em casa”. A gente já ia, já ganhava. Naquele tempo eram umas patacazinhas que tinham assim. Era um valor que eu nem lembro. A gente vinha de lá: “Toma! Isso aqui é do teu trabalho”. No tempo do José Júlio, era uma cestinha de meia lata de lata de castanha. Porque já podia botar aqui, embarcar no navio do José Júlio, que era o Sobralense. De 15 em 15 dias, ele fazia o embarque e a gente fazia o extraordinário, que chamavam, das seis horas à meia-noite.

 

Ele não contava o dia, era o que nós fizéssemos. Era na ficha. Dez paneiros eram uma patacazinha, um valor. A gente botava o “pangueirinho” era na carreira, vapu, vapu, vapu, vapu. Quanto mais aquele que corresse mais, mais fazia. Quando a gente chegava, recebia, meia-noite mesmo, a gente levava para mãe da gente, entregava. Tudo trabalhava. E tudo que recebia, já para mão da mãe. Foi o tempo que ele foi embora, ele morreu, desmantelou. O outro governante que foi, não era mais de conhecimento da gente, gente teve que abandonar um ano, dois anos, direto trabalhando para sobreviver, manter minha mãe com os outros irmãos menores. Foi crescendo e chega aquela data que a gente tem que fazer essa atividade de extrativismo, que é a castanha, a gente ia embora para o mato passar três, quatro meses, cinco meses tirando a castanhinha, vendendo.

 

Tinha um responsável, que era meu tio, que era o irmão da minha mãe. Foi ele também que acabou de nos criar. O que mais a gente via era bicho do mato. Onça, catitu, veado, esses bichos que a gente matava para alimentação também. Eu trabalhava seis dias. A gente ia segunda-feira, trabalhava até sábado. Sábado a gente enchia uma “canoona” de castanha e vinha na vara trazendo para lavar, para entregar no Almeirim, para o Arumanduba para o José Júlio. O responsável dele que recebia, media, dava a nota, a gente ia para o escritório. Prestava conta, saldava, recebia, fazia novamente compra de novo. Ficava lá o dinheiro. Ficava lá, circulava só lá. Depois da castanha a gente ia tirar o leite da seringa. Cozinhava o leite da seringa, fazia o bloco, a gente trazia para pesar, entregava. Tudo era para ele, juta, todo o produto que saía era ele que comprava. Ele mesmo que comprava e exportava para fora. Levava para Belém, de Belém exportava. Naquele tempo a gente vendia tudo para sobreviver: couro de onça, couro de sucuriju, couro de jacaré, couro de capivara, queixada, veado, catitu, lontra, tudo a gente tirava para vender. E ele comprava tudo, o José Júlio. Comprava tudo.

 

E o local dele era lá, abaixo de Almeirim, chama-se Arumanduba. De lá até aqui, até aqui tudo era dele. Daqui rodava o Jari todinho, até no Santo Antônio do Jari. Em frente Almeirim assim, do outro lado tem uma zona grande que passa em Almeirim, tem uma área para lá, era dele também, lá ele tinha 22 mil cabeças de gados lá naquela área. Eu trabalhava de carpinteiro. Contratava casa para fazer nos locais. Eu morava em Arumanduba, que é abaixo de Almeirim, e eu vim fazer umas casas para cá quando eu vim para cá com 20 anos. Cheguei aqui por intermédio de colega. Cheguei aqui, me pegaram para fazer umas casas aqui, eu trabalhava de carpinteiro.

 

Depois o meu patrão, que nessa época que eu fiz, ele também saiu. Já eu fiquei no extrativismo, castanha, agricultura. O nome dele, que era o nosso chefe carpinteiro que nós aprendemos com ele, era Raimundo Sandinho. Ele era marido da irmã da minha mãe. Nós tínhamos uma equipe que trabalhava. O José Júlio botava aquela equipe para ir para lá com ele para oficina, trabalhar de sapateiro, trabalhar no escritório, trabalhar no depósito. Para tudo tinha posição. Nós tínhamos uma equipe para trabalhar de carpinteiro. Eu cheguei aqui com 20 anos. Fazendo casa, consertando canoa em Santarém, para balateiro subir nesse Paru. Você prestava conta no borrador. Eu sempre ganhei meu trocozinho, minha mãe foi até felizarda comigo, porque eu nunca tive vício. Meu vício era esporte, que era bola.

 

Brincar assim, farrear, que era festa. Nunca bebi, nunca fumei um dia da minha vida. O meu esporte era bola e festa. Podia ter uma festa como daqui a Almeirim, eu tinha que arrumar um barco, uma voadeira, para ir dançar lá, de madrugada estar de volta. Depois que eu fiz 20 anos, eu não tive mais bem paradeiro, fui começando andar para um canto, trabalhava um ano num canto, saía. Trabalhava aqui na filial. A gente trabalhava, o salário vinha de Belém dentro de um envelopezinho, já vinha o salário. Na época que eu cheguei aqui, com uma semana eu namorei essa menina, que eu me casei com ela, que ela é viva ainda. Cheguei aqui, com três dias namorei com ela. De tarde, estava na casa dela de tarde, as meninas tomam banho, se ajeitam e vão passear. Eu me engracei e deu certo. Me casei com ela dia três de maio de 1958.

 

Fomos daqui casar em Arumanduba, na capela de Nossa Senhora de Perpétuo de Socorro. Festa ninguém fez. E com cinco dias nós viemos embora para, Recreio. Pedi para o patrão me liberar uma semana para eu fazer uma casa, ele me liberou. Eu ganhei o mato, tirei a madeira, fui ali de um igarapé que tem bem ali chamado Marapico, tem muita palha de ubim. Eu fui, tirei, teci, fiz o barraco e botei a cabocla debaixo, a mulher debaixo. Ficava do lado da casa do meu sogro. Depois que nós aprontamos, viemos para casa mesmo. Por tudo são 22 filhos, com quatro mulheres. Hoje eu estou só. A mulher que vive comigo está no Laranjal.

 

Os filhos estão tudo para lá, aqui está só eu. Ás vezes pinta uma namorada. Agora, responsabilidade para casa eu não quero mais. Desculpe-me falar, mas o meu esporte era mulher. A minha mãe nunca se preocupou comigo com negócio de bebida, essas coisas, nunca. Era preocupante comigo por causa de mulher. Quando eu não tinha três, quatro mulheres, eu não vinha para casa. A mulher criou demais ciúme, nós nos abandonamos, com 19 anos. Quando eu casei, casei com 20 anos com a primeira mulher. Vim embora para o interior. Fui aprendendo o serviço do mato. Que o serviço do mato é extrair a castanha, que é quebrar a castanha, é fazer a roça para fazer a farinha, essas coisas todas. Eu aprendi com meu sogro isso. A minha profissão era boa. Larguei para pegar outra atividade muito pesada.

 

E a minha profissão não, era carpinteiro, era uma delícia. Eu era chefe de obra. Hoje eu estou aposentado. Esse agora que foi o dono, que hoje, depois, o Ludwig já foi vender para essa equipe, que hoje é do Amoroso. Ele que é o dono hoje dessas áreas todinhas. Furamos aqui, fizemos a estrada, hoje é vendido para o Laranjal do Jari e Monte Dourado. Inclusive até o Graça comprou uma parte. Eu fazia extrativismo de castanha. Urucurituba. Essa é minha área. Transportava tudo em costas de animal, burro. Esse burro vinha do Ceará. Vinha de barco, vinha em carreta lá em tropa de burro. Eles compravam de 200, 300 burros, para espalhar nas filiais. Filial é um local que tem esse. Uma estrada que eu fiz com 24 quilômetros. Manual. Machado e terçado, picareta e enxadeco. Não existia motosserra.

 

Essa estrada deve estar mais ou menos uns 30 e poucos anos que eu fiz essa estrada. Eu fiz aplicada, foi lá, disse: “Olha, está feito”. Vieram olhar, tiramos a picada e de lá para cá nós vínhamos marcando os lotes, 500, 500, 500, cada qual tirando o seu e deixando o devoluto para quem viesse amanhã, depois, atrás, precisado. Como hoje vocês entraram do lado de lá, são 20 quilômetros e 150 metros de lá de onde vocês entraram até aqui.

 

Os patrões, na época que eu cheguei, eles foram começando abandonar, fazendo sujeira com os patrões e eu fui ficando dentro da área. Fui tomando conta da área. Era só caminhozinho para burro. Depois, eu com o meu irmão, arregaçamos essa estrada comprando de um patrão chamado Pompílio Siqueira Goes. Com uns dez anos, mais ou menos, que a Jari entrou, essa faixa de dez anos que a Jari deu uma entrada que deu uma melhorada para nós aqui.

 

Ela chegou aqui, sabia que eu que tinha feito a estrada, vieram aqui: “Seu Euclides” – veio aqui – “Hermógenes, nós temos um trabalho para fazer desse lado, e a estrada a gente sabe que é sua. A área é nossa, mas nós nunca fizemos nada. Foi abandonada em 1900 e tal, e você ficou na atividade, hoje o dono é você”. E eu tenho documento dado pela empresa Jari, na hora que ela quiser me botar, ela tem que me indenizar. Só tem uma mulher que é falecida, que ela morreu até de parto. Com as outras, não casei não. Eram quatro anos, cinco anos, três anos, quatro meses, e assim o negócio ia rolando. Com essa última agora foram 31 anos, essa que nós nos abandonamos um tempo, vai fazer dois anos. Minha mulher botava na cabeça que eu não podia conversar com ninguém, até que não deu mais certo mesmo. Eu estudei pouco, mas o que eu aprendi, foram duas educações que eu aprendi: a que eu estudei na escola e a educação caseira, que era a educação que pai e mãe davam. Isso ai eu aprendi. Se eu falar para vocês que eu não sei chamar um palavrão, é o que mais eu tenho raiva.

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