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História

O meu dom é de não cansar

História de: Vanderli Barbosa Alarcão
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/10/2015

Sinopse

Vanderli Barbosa de Alarcão, nascida em Planaltina de Goiás, morou em Sobradinho e mudou-se para Fercal aos 17 anos. Trabalhou no Centro de Ensino do Primeiro Grau da Fercal durante 30 anos, emprego que adorava e no qual ficou até se aposentar. Acompanhou o desenvolvimento da Fercal desde o início, quando a água utilizada ainda era do córrego e não havia luz. Foi a partir do seu segundo casamento, com um dos presidentes da Associação, que começou a trabalhar com a comunidade. Hoje é a representante do movimento e continua a lutar pelas benfeitorias em Fercal.

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História completa

Nasci em 24 de abril de 1959 em Planaltina de Goiás. Meu pai era Manuel da Silva, trabalhava no DER. Minha mãe, Maria Barbosa da Silva, trabalhava na Secretaria de Educação. Nós éramos cinco irmãos, foi muito difícil nossa criação. Não tive infância, não podia brincar, nunca a gente podia ter um amigo porque nossos pais não deixavam. Eles achavam que a gente só tinha era de trabalhar lá dentro de casa. Eu fui pra escola com 7 anos, tinha uma dificuldade de aprender e nunca eles descobriram por quê. Depois dos 17 anos, eu fui desenvolvendo um pouquinho a leitura, fui aprendendo um pouco a ler, a escrever.

  Conheci meu esposo na rua onde eu morava, na minha juventude. Comecei a namorar escondido de meus pais porque eles não deixavam, namoro de olhar, né? Meus pais não iam deixar mesmo eu namorar, aí ele me pegou. Me tirou da casa dos meus pais, meus pais me procuraram muito mas não conseguiram me achar, fiquei escondida, saí com as minhas roupinhas e vim morar com a minha cunhada. Naquele tempo a moça não podia sair de casa porque a Justiça mandava atrás daquele namorado. Aí meu esposo procurou meus pais, ele era mais velho do que eu, e disse que ia casar. Ia pôr os papéis no cartório e meu pai aceitou e casamos. Comecei aquele casamento sempre sendo só uma dona de casa, passei um tempo só cuidando da casa e dele. Depois vieram meus filhos, eu os tive nova, estava ainda na juventude. Depois eu fui trabalhar.

  Eu saí de Sobradinho pra Fercal com 17 anos, meu esposo já tinha as terras aqui. Quando eu cheguei, me lembro que aqui não tinha ônibus, eu andava um quilômetro a pé. Isso era pra pegar um amigo que passasse, que tivesse um carro. Não tinha ônibus, não tinha água, não tinha luz! Prova que tenho é meu braço, que foi queimado de uma lamparina que eu fiz. Eu peguei querosene, pus numa lata de leite Ninho, fiz um pavio e pus o querosene dentro. Pus fogo nela e pus em cima da paredinha da casa. Quando eu fui pegá-la, porque tinha apagado, esse querosene quente derramou no meu braço. Isso era a luz que nós tínhamos, pra clarear era isso. Fui morar num ranchinho de palha porque eu não tinha casa, meu esposo não tinha casa. Ele fez aquele ranchinho de pau e de palha de bambu, de coqueiro. Quando a gente não tinha água nós usávamos o córrego. Nós furávamos cisterna. Tinha cisterna de 16, 17 metros, puxava com a corda o balde da água lá no fundo do poço. Era pra beber, era pra tomar banho. Tudo tinha de fazer com essa água.

  Quando começou a chegar a luz na comunidade, foi através de formar aquela associação, o começo foi a LBA (Legião Brasileira de Assistência Social). Ela começou a vir nas chácaras, na Fercal, e ver que ali as mulheres podiam desenvolver algumas atividades, que as mulheres não tinham nada. Sabiam costurar... Então aí foi onde começou a Fercal desenvolver, criou essa associação, o que foi muito bom. Eu participei muito pouco porque eu trabalhava, mas sempre nos eventos eu gostava de ir, eu gostava de ficar ali ajudando. A gente fazia esse movimento pra conseguir a melhora disso aqui. Não foi iniciativa do governo, não. Foi iniciativa do povo que formou aquele grupo: formou uma associaçãozinha, a Tereza foi uma das que criou, meu segundo esposo também foi muito tempo presidente. E eles batalhavam lá nos governadores, não era nem administração porque nós não tínhamos, era nos governadores, eles corriam atrás. O telefone foi uma riqueza pra nós chegar esse telefone, porque eu mesma nunca pensei de ter telefone!

Eu vivi 15 anos com meu primeiro marido; ele faleceu. E aí eu já trabalhava na escola [Centro de Ensino do Primeiro Grau da Fercal], trabalhei na escola trinta anos. Eu comecei outra vida difícil, porque fiquei viúva e fui criar dois filhos naquele emprego. Eu fui mãe e fui pai, nesse tempo. Tinha dois anos que eu tinha ficado viúva e eu casei de novo, foi através do meu marido que eu passei a trabalhar com a comunidade. Eu vi que aquela comunidade estava carente, precisando de alguém que tomasse a frente de alguma coisa. Hoje minha função, meu objetivo, são as benfeitorias pra comunidade, ainda tem muito o que fazer, porque ainda não está com todos os requisitos, falta muita coisa.

  Hoje quem representa a Associação sou eu. Tenho todo apoio da comunidade, não tenho nada que reclamar. O que eu aprendi indo nas reuniões é cobrar as benfeitorias. E insistir também. Porque você cobra uma vez, eles esquecem. Aí eu prestava atenção, que aquilo ali era insistência do presidente, chegar ali uma água, chegar ali a luz, foi insistência deles. Eles não se cansaram, então hoje esse é o meu dom, de não cansar, de exigir e pedir ao governo. Quero dizer pra eles que é prioridade, que nós temos que ter o mínimo, água e luz. E escola. O ensinamento maior que meu esposo sempre falava pra mim é que quando a gente participava de uma reunião a gente esperava assim um momentinho, chamava eles, dava um café na nossa associação. “Reúne o povo do governo, dê um café.” E ali você vai fazer a sua cobrança e sempre usando um ofício.

  Ainda temos a dificuldade da água, porque a minha área ainda tem muitas famílias indo pro córrego, porque não temos água da Caesb. Estamos na base de um poço artesiano pra 300 famílias, indo pra umas 400 famílias, pra receber aquela água um dia sim e um dia não. Mas quando penso no passado, hoje eu vejo que teve tantas melhorias, não está longe da água da Caesb chegar.

  Porque tão pequena era a Fercal que não tinha nada, não tinha um ônibus, não tinha escola. A única escolinha que tinha era dentro da fábrica de cimento Tocantins, que os alunos iam a pé lá pra dentro estudar. Hoje nós temos escolas boas, eu queria que as crianças usassem aquela quadra, a comunidade usufruísse também. Usasse o colégio para uma reunião, para um lazer, porque a gente não tem lazer pras crianças, as crianças não têm um parque, não têm uma quadra. Eles jogam no asfalto. E cada dia que eu vejo uma criança daquela no meio do asfalto, me incomoda. Nenhum lazer a minha comunidade tem. Tem quatro meses que eu sou presidenta da Associação. Acredito que daqui um ano, dois anos, as coisas vão melhorar e vamos ter esses benefícios. Eu acredito, eu não perco a fé, não. 

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