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História

O meu caixão fúnebre vai sair daqui

História de: Eline Silva Sousa Costa
Autor: Coleção Alagados
Publicado em: 29/12/2020

Sinopse

Em uma entrevista realizada em Março/2013, Eline conta sobre como, apesar das tentativas dos filhos de fazerem-na mudar para um bairro mais seguro e bem-estruturado, tem um sentimento de pertencimento e gratidão tão grandes pelos Alagados, que, mesmo não tendo nascido lá, seu "caixão fúnebre de lá vai sair".

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História completa

(...) Os meus filhos tem um desejo muito grande de me retirarem daqui, dessa casa, desse local. A minha filha argumenta que já deu, não tem mais condição de continuar morando por aqui, que preciso estar num bairro melhor, mais bem estruturado, com menos violência. O meu filho também manifesta o desejo de me levar para outra cidade, onde ele trabalha. Eu sempre digo a eles que só vou me retirar daqui para a minha morada final, o meu caixão fúnebre vai sair daqui, desta morada porque é uma questão de sentimento que me une a este lugar. E olha que eu não nasci aqui e nem sei explicar a origem deste sentimento. Penso que é um sentido de construção mesmo, pois parte da minha vida foi construída aqui, entendeu? Por conta de todos os ciclos da minha vida neste cenário. Foi aqui onde pude ser proprietária de um imóvel; pude criar os meus dois filhos; receber o nascimento da minha neta; onde mantive meu casamento durante 28 anos; onde teci a maior rede de amigos que jamais imaginava ter. Minha família consanguínea é pequena, mas a família do coração é extensa demais. Foi aqui que quando chegou o momento de aguentar os maiores pesos da minha vida, pude encontrar alguém que me deu força para suportar dignamente. Aqui tenho as minhas amigas, o grupo de oração, as pessoas com quem eu convivo. Hoje eu posso dizer que possuo uma nova família dentro da minha igreja. Eu tenho muitos amigos fora daqui também: colegas de trabalho, as pessoas da associação de aposentados da qual faço parte como uma das diretoras e os meus familiares. Nós colocamos muitos amigos na jornada da nossa vida, mas a gente escolhe, assim, de ponta de dedo aqueles que podemos chamar de irmão mesmo, aquele que faz questão de viver a vida da gente. Então, em todos os momentos, assim, de dor, de sofrimento, de faltar forças, eu sempre fui alentada por eles. E quando eu passo por qualquer dificuldade sempre tenho quem ore por mim. Agora mesmo estou vivendo uma situação muito desagradável, de muita tristeza, porque alguém da família, muito próximo a nós, está se envolvendo com o tráfico. E já estou contando com o apoio do meu grupo de oração e do Padre Etienne. Quanto à minha família natural, além dos meus dois filhos, eu tenho mais três irmãos, dois moram aqui em Salvador, uma em Ilhéus (interior do Estado) e um meio-irmão (por parte de pai) que mora no Rio de Janeiro. A minha irmã, que mora aqui na cidade, em outro bairro, já não quer mais me visitar, porque colocou na cabeça que tem que me tirar daqui de qualquer jeito, por causa desse risco, e eu não consigo me desapegar. Mas, são muitas as questões que me mantém por aqui: tem a casa que eu construí do jeito que idealizei e que Deus me concedeu a graça de possuir. Não é o apego material, mas o sentimento mais forte que me prende aqui é exatamente saber que estou cercada de tantas pessoas boas na minha vida e que vou ter que deixar se tiver que sair daqui. O sentimento de pertença mesmo, como se eu fizesse parte de tudo isso e aqui será o fim da minha existência. Fiz uma verdadeira reconstrução da minha vida e quero viver meus últimos anos nesta paz interior. (...) para viver a minha fé, não existe outro lugar que não seja em Alagados. Em lugar nenhum que eu passei, e olha que eu já passei por muitos, encontrei uma demonstração de fé tão viva como aqui em Alagados. Não importa a bagagem de teologia, filosofia, muitos anos de estudo, muitos documentos que vamos acumulando; tudo se torna apenas em palavras quando você vive um dia de adoração ao Santíssimo, prepara uma missa da padroeira, vê aquela igreja lotada de pessoas, quando reúne irmãos para testemunhar o que Deus faz na vida de cada um. Então, tudo isso representa uma parte da minha vida. Eu sou a pessoa que eu sou por causa dessa paróquia Nossa Senhora dos Alagados. Então, eu não tenho como pensar na minha vida fora daqui. (...) O sentimento continua intenso. E aí a minha irmã diz: “- Meu Deus coloca bom senso nesta cabeça!” Ela passa uma tarde aqui apavorada e qualquer ruído vindo da rua a assusta. Ela me pergunta: “Você não tem medo?”. Eu respondo que não. Se eu disser o contrário estarei mentindo, pois me sinto segura, me sinto protegida. Às vezes eu desço da Igreja Matriz em companhia dos irmãos, passo pelas ruas e não sinto temor, porque sei que muitos já me conhecem, já sabem da minha identidade de paroquiana, e se tiver que acontecer alguma coisa vai acontecer em qualquer lugar que eu esteja. Quando Deus nos coloca no mundo não é à toa, cada um tem uma missão a cumprir. Então, tantas outras pessoas melhores que eu, tombaram, caíram, ficaram por aí, se isso estiver reservado para mim, eu vou tentar mudar por que? Então, não é uma questão de aceitação, de acomodação, de fanatismo porque Deus está em mim, Nele eu confio e viver a fé é muito real, não é algo surreal ou virtual, é muito real. Então, eu sei que Deus me protege, assim, Deus me dá o discernimento de saber o que eu tenho que fazer para proteger a minha vida. Então, eu não vou me expor, mas eu também não vou viver com medo, porque o medo não vem de Deus. Então, eu não tenho que viver com medo. Acho que é isso. É muito difícil a gente colocar em palavras o que a gente vive…(...) O que a gente vive é muito profundo.

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