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História

O mês que durou 27 anos

História de: Brigitte Keul
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 31/01/2008

Sinopse

Rússia. Segunda Guerra Mundial. Campo de concentração. Nascimento. Pai militar. Dificuldades na guerra. Saída da  Alemanha. Mudança de país. Chegada ao Brasil. Mudança de cidade. Início profissional. Mulher no mercado de trabalho. Dançarina. Globo. Venda de produtos. Tetra Pak. Crescimento empresarial. Mudanças do mercado.

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História completa

P - Boa Tarde.

 

R - Boa Tarde.

 

P - Para começar, eu gostaria que você dissesse seu nome completo, data e local de nascimento.

 

R - Meu nome completo é Brigitte Keul. Nasci em 31 de março de 1947 e o local de nascimento é Hanwhisa, Rússia. 

 

P - E hoje você está aposentada, Brigitte?

 

R - Sim, hoje eu estou.

 

P - Mas qual a função que você ocupou antes de aposentar-se na Tetra Pak?

 

R - Eu entrei na Tetra Pak como gerente de merchandising, mas eu fazia de tudo um pouquinho. Então eram duas mil utilidades (risos).

 

P - Qual o nome dos seus pais, Brigitte?

 

R – Gundisch Johann e Maria Keul. 

 

P - E eles são originários de onde?

 

R - O meu pai era romeno e a minha mãe alemã. Minha mãe era alemã e foi para Romênia, para uma colônia alemã, onde ela conheceu meu pai. Aí eles foram presos na Rússia. 

 

P - Conta um pouquinho essa história. Quais eram as atividades dos seus pais?

R - A minha mãe era doméstica e o meu pai era tenente, naquela época - ele seguiu a carreira militar. A minha mãe foi para Romênia e lá ela conheceu meu pai - ela morava em uma colônia alemã na Romênia. Quando estourou a guerra de 1945, o meu pai fugiu da Romênia e a minha mãe foi presa em um campo de concentração na Rússia - eles queriam que ela dissesse onde estava meu pai, mas ela não sabia. Depois de quase um ano e meio que a minha mãe não via meu pai, ele caiu exatamente no mesmo lugar que a mamãe caiu, no mesmo campo de concentração, que foi onde eu nasci; eu nasci de sete meses e depois de 48 horas eles levaram meu pai e minha mãe para a Alemanha. Meu pai veio a falecer três anos depois, porque ele recebeu um tiro no pescoço e outro no ouvido e, devido as infecções, ele morreu. A minha mãe casou-se novamente e, em 1951, ela saiu da Alemanha e foi para a França; da França, ela foi para os Estados Unidos, para New Jersey, porque tinha uma tia minha lá, e ela ficou um ano. De New Jersey, nós viemos para o Brasil, em 1953.

 

P - Você veio para o Brasil com quantos anos?

 

R – Com cinco para seis anos.

 

P - Dessa fase do campo de concentração, logo que você nasceu eles já saíram do campo?

 

R - Em 48 horas, porque a minha mãe era alemã e eles tiveram que a mandar para o país dela - isso foi bom, porque bem ou mal ela conseguiu. As recordações da guerra e o que a guerra deixa é muito triste; carne, açúcar, essas coisas, era uma vez por mês que se pegava.  O que dava, dava; e você ficava até o outro mês.  Com tudo isso, ele ainda conseguiu sobreviver três anos, mas devido a não ter os medicamentos necessários, ele veio a falecer por causa da infecção. 

 

P – E sua minha mãe não quis ficar na Alemanha?

 

R - Não, ela quis ir embora. Ela conheceu uma outra pessoa depois que meu pai faleceu; eles foram para a França, onde ficaram dez meses, mais ou menos, porque é pertinho. Da França para a Alemanha acho que são dez horas de trem. Depois disso, ela foi para New Jersey, para a casa de uma tia minha, onde ficaram um ano e depois vieram para o Brasil. 

 

P - E quais são as primeiras recordações que você tem? Você lembra-se da época da França ou de New Jersey?

 

R - Nada. Eu lembro-me do Rio de Janeiro, nós moramos lá. E de São Paulo. Também morei três anos em Buenos Aires, Argentina. Depois disso, eu tive dois irmãos cariocas. Primeiro um irmão, depois uma irmã. De São Paulo fomos para o Rio Grande do Sul; meu padrasto era muito aventureiro, e a minha mãe ia encontrar com um irmão dela na Argentina. Ela foi por Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, de trem - eu me lembro -; roubaram tudo nosso (risos) e chegamos na Argentina com uma mão na frente e outra atrás (risos). Aí, a minha mãe foi trabalhar em uma fábrica de lã e o meu padrasto arrendou um restaurante, que tinha três andares. Nós fazíamos comida alemã, comida romena e também comida argentina - como puchero, cicciolini, que eu aprendi um pouquinho a cozinhar. Aí, voltamos para o Brasil outra vez. 

 

P - Só para ver se eu entendi: vocês chegaram ao Rio de Janeiro, por conta do porto etc. e tal...

 

R - Não, o porto em que nós chegamos foi o de Santos; depois nós fomos para o Rio, logo em seguida - mas foi em Santos que nós chegamos.

 

P - E vocês passaram quanto tempo no Rio de Janeiro?

 

R - No Rio de Janeiro acho que foram uns seis, sete anos. 

 

P -  Foi bastante.

 

R - Foi. Depois nós viemos para São Paulo e ficamos aqui uns três, quatro anos. Depois nós fomos para o Rio Grande do Sul e para a Argentina. 

 

P - E como era o Rio de Janeiro quando você chegou?

 

R - O Rio de Janeiro era muito bonito naquela época; era muito mais natural, não tinha tanta agressividade, não tinha muita gente naquela época - em 1955, 1956. Não tinha tantos migrantes também. Era muito legal: Copacabana, o carnaval na Presidente Vargas, os desfiles... Tinha os blocos na Toneleiros, na República do Peru, na Paula Freitas,  aqueles blocos de rua formados pela vizinhança dos prédios, onde botavam uma cordinha e iam. Era tão gostoso... 

 

P - E no Rio de Janeiro você morava em que bairro?

 

R - Eu morei em Copacabana, na Paula Freitas, no Posto Três.

 

P - E no Rio de Janeiro você começou a estudar? Você foi para a escola no Rio de Janeiro?

 

R - Eu estudava, sim. 

 

P - Você chegou sem falar uma palavra em português?

 

R - Eu falava romeno e alemão. 

 

P - E como foi esse processo de adaptação à língua, aos costumes?

 

R - Eu acho que quando você tem menos idade, as coisas são mais rápidas, mais fáceis de você assimilar, de você pegar; acho que a preocupação para que as pessoas entendam você também ajuda muito - se você for hoje para outro país e as pessoas não te entenderem, você pelo menos se esforçará em aprender rápido para que elas possam comunicar-se melhor com você. Então eu acho que isso foi muito fácil.

 

P - E a sua mãe e o seu padrasto aclimataram-se rapidamente ao Brasil ou acharam-no uma terra totalmente estranha?

 

R - A minha mãe adorou o Brasil e meu padrasto também. A minha mãe ficou 39 anos sem ver a minha avó; quando ela aposentou-se, em 1984, o maior sonho da vida dela era ver sua família depois de 39 anos, porque tinha aquele problema dos nazistas, dos russos, aquela coisa. Em 1984 a coisa já estava mais calma, mas na Romênia só tinha duas opções: ela ficava 30 dias ou ficava três meses, que era o que eles permitiam de visto. Minha mãe tinha uma herança enorme para receber lá, mas não pode tirar essa herança; ela foi mesmo para ver a minha avó – ficou 39 anos sem vê-la e sem a família. A minha mãe ficou três meses e, por dia, ela tinha que pagar dez dólares.

 

P - Por dia ficado lá?

 

R - Todas as coisas que ela levou para a família dela, ela teve que deixar lá e eles tiveram que pagar uma taxa para retirar, nem pagando a taxa ela poderia retirar; ela teve que dar o nome das pessoas, o destino que era, para depois as pessoas tirarem e poderem levar. 

 

P - É porque naquele período a Romênia ainda estava sob influência soviética...

 

R - Sob influência soviética ainda. Se parassem o ônibus, eles revistavam todo mundo, mandavam levantar a saia, mandavam revistar as bolsas; tinha mês que tinha gasolina, tinha mês que não tinha. Era assim.

 

P - E você chegou a ir para a Romênia nesse período?

 

R - Não. Eu ia para a Romênia com a minha mãe, mas não fui. A única vez que eu senti inveja na minha vida foi no dia em que a minha mãe foi, porque eu gostaria de ter conhecido a minha avó, mas não deu. Quando a minha mãe voltou, ela passou pelo Rio e beijou o chão – e ninguém entendeu. Ela desceu, ajoelhou-se, deitou-se igual a uma cruz e beijou o chão; ela falou que é por isso que tem o Cristo Redentor no Rio: porque não tem país melhor do que o Brasil. Ela falava sempre isso, para todo mundo. 

 

P - Então ela virou uma brasileira.

 

R - Muito! Ela não admitia que o brasileiro falasse mal do Brasil - era a mesma coisa se alguém estivesse falando dos seus filhos ou dela mesma. Ela não permitia que alguém falasse mal do Brasil.

 

P - No Rio de Janeiro você falou que você começou a estudar. Obviamente era em uma escola de...?

 

R - Eu estudei no Santos Anjos, em Vassouras [RJ], um colégio de freiras; eu fiquei quase cinco anos em colégio de freiras. 

 

P - Interna?

 

R – Interna, porque a minha mãe começou a trabalhar em um restaurante, como garçonete, e o meu pai trabalhava no Hotel Trocadero, na recepção - como ele falava algumas línguas, pra ele foi fácil. Ela trabalhava na Paula Freitas, num restaurante, e ele trabalhava no Hotel Trocadero. Como não tinha com quem me deixar, ela me pôs no colégio interno; eu fiquei em Vassouras, no estado do Rio, estudando. 

 

P - E aí você já começou a dominar o Português?

 

R - Sim. Aí foi mais fácil. 

 

P - Só uma dúvida: o seu padrasto era alemão?

 

R - Romeno. Minha mãe que é alemã. 

 

P - Bom, você ficou cinco anos nesse colégio?

 

R - Fiquei.

 

P - E como era a vida no colégio?

 

R - No Colégio era duro (risos). Mas era bom, foi uma fase maravilhosa. O colégio era francês, falava-se muito o francês, eu entendia alguma coisa. Foi muito bom, eu aprendi bastante coisa, aprendi a bordar...

 

P - E o convívio com as outras meninas?

 

R - O convívio foi muito bom. Era uma cidade de interior muito gostosa; no sete de setembro nós íamos na praça desfilar. Lembro-me do Luiz Gonzaga, que tocava sanfona  e ia lá na cidade. Foi uma fase muito boa.

 

P - E era um colégio de freiras?

 

R - Colégio de freiras. 

 

P - Sua mãe era católica?

 

R - Não, a minha mãe é evangélica luterana. Não é o evangélico que tem aí, era diferente; muitos alemães eram assim, naquela época. Acho que a religião que mais predominava nesses lugares era a evangélica ortodoxa - o meu padrasto era ortodoxo e a minha mãe evangélica. Mas a minha mãe, nunca na vida, incentivou ou falou: “Olha, você siga essa religião!” De jeito nenhum. Eu e meus irmãos somos católicos, fomos batizados na Igreja Católica, fizemos primeira comunhão. Ela nunca se opôs.

 

P - E vocês escolheram ser católicos?

 

R - Nós escolhemos. E fomos batizados na Igreja Católica. Eu, não; eu fui batizada na Igreja Evangélica Luterana. Mas os meus irmãos foram batizados na Igreja Católica, os dois, no Rio.

 

P - E aí, do Rio de Janeiro...?

 

R - Para São Paulo. 

 

P - De uma hora para a outra resolveram ir para São Paulo ou é por que teve alguma oportunidade, alguma coisa?

 

R - Não. Isso aí eu nem sei o motivo. Mas o meu padrasto era muito aventureiro e veio para São Paulo. 

 

P - Ele pegou todo mundo e veio?

 

R - Aí, nós viemos. Moramos na Praça da República - ficamos ali um tempo; depois nós fomos para a Parada Inglesa, perto do Tucuruvi; depois, Jardim Tremembé. Uns quatro, cinco anos depois é que nós fomos para o Rio Grande do Sul, porque ele tinha um amigo lá.. 

 

P - E São Paulo, quando você chegou? Você já contou um pouquinho do Rio de Janeiro; conta um pouquinho como era São Paulo - porque aí você já era um pouco maior.

 

R - É, eu já tinha um nove anos. São Paulo era tranqüila naquela época - nós morávamos mais afastado. Primeiro, moramos na Praça da República, que era tranqüilo também, no centro da cidade; depois, nós fomos para o Tucuruvi, para a Parada Inglesa; depois, para o Jardim Tremembé - ali era bem gostoso, perto do Horto Florestal, que era área era muito legal.

 

P - Vocês moravam numa casa?

 

R - Morávamos em casa. Só na Praça da República é que era apartamento. Nós não gostávamos muito de apartamento, porque no Rio nós pegamos aquela época em que faltava água, faltava luz - e nós tínhamos que carregar a água, tinha que subir e descer; ainda bem que nós morávamos no terceiro andar. 

 

P - E aqui em São Paulo, os seus pais passaram a trabalhar com o quê? 

 

R - O meu padrasto continuou trabalhando em recepção de hotel e a minha mãe continuou trabalhando em restaurante – inclusive ela trabalhou mais de 30 anos em um restaurante alemão que se chama Bierhall, que ficava na Lavandisca, em Moema - todo mundo a chamava de general (risos).

 

P - E aqui, você estudava onde?

 

R - Aqui eu estudei em um colégio no Tucuruvi. 

 

P - Que não era interno?

 

R - Não era mais interno - não estudei mais em colégio interno. 

 

P - Continuando a sua trajetória: Rio Grande do Sul...

 

R – No Rio Grande do Sul nós ficamos alguns meses, porque ele foi visitar um amigo. Na verdade, o que nós queríamos mesmo era encontrar o irmão da minha mãe, que estava na Argentina; só que nós demoramos muito e, quando nós chegamos na Argentina, ele já tinha ido embora. Nós fomos roubados, aí tinha um padre ortodoxo, amigo do meu padrasto, e nós fomos lá; ele ajudou-nos, acolheu-nos. Foi quando ele conseguiu arrendar esse restaurante, que ficava em Martín Coronado, que é uma das 11 cidades da central do Ferrocarril Urquiza. E foi lá que eu aprendi a cozinhar, a fazer puchero, cicciolina... (risos). 

 

P - Quatro anos vocês passaram em Buenos Aires, é isso?

 

R – É, mais ou menos três para quatro anos. Depois nós fomos para Santiago [Chile], ficamos oito meses e voltamos para o Brasil, para São Paulo.

 

P - E por que voltar para o Brasil? 

 

R - Ele quis voltar, achou que era o suficiente, minha mãe também. E a minha mãe queria voltar para o Brasil. Então voltamos.

 

P - E aí foram para São Paulo, logo de cara?

 

R - São Paulo, de cara. Ficamos em São Paulo.

 

P - E de lá você continuou em São Paulo?

 

R - Continuei em São Paulo. 

 

P - Você não teve outras... (risos)

 

R - Eu mudei-me. Eu casei-me em Xanxerê [SC].

 

P - Mas isso mais para frente. Com a família, foi em São Paulo mesmo?

 

R - É, São Paulo. 

 

P - E sua mãe, seu padrasto, estão vivos?

 

R - Não. Meu padrasto faz mais ou menos oito, nove anos que faleceu. E a minha mãe faleceu em 2001, faz seis anos. 

 

P - E vocês voltaram para São Paulo, você já era adolescente?

 

R - Já. 

 

P - E como foi isso: Você trabalhava? Você estudava?

 

R - Eu estudava e trabalhava. Eu comecei a trabalhar no Uísque Old Eight, do Fabrizio Fasano; eu fui ser demonstradora. Eu trabalhava na Panificadora Columbia, na esquina da Rua Augusta com a Colômbia; comecei a fazer degustação de Whisky lá; depois eu fui para a Vilex, para a Casa Santa Luzia, para a Casa Ricardo, também com o Whisky Old Eight, que eu fiquei quase três anos trabalhando como  demonstradora. Ao mesmo tempo, eu fazia Silvio Santos e Chacrinha. 

 

P – Conte-nos essa história: Como assim? (risos).

 

R - (Risos) Eu gostava de dançar e tudo mais. E o senhor Fabrizio era muito amigo do Carlos Manuel de Nóbrega e ele falou: “Você sabe dançar bem; se você quiser, nós arrumamos para você.” E eles arrumaram para mim. No domingo eu fazia a gravação do Silvio Santos, que naquela época era na Globo, na Rua das Palmeiras em frente a Rádio Nacional. E eu fazia o Chacrinha, que era a discoteca e também tinha os calouros - um era na quinta e o outro no sábado. Tudo ali na Rua das Palmeiras, na Globo. 

 

P - Era aqui mesmo, em São Paulo?

 

R - Em São Paulo...

 

P - Isso foi mais ou menos em que época, Brigitte?

 

R - Em 1969, 1970, por aí. 

 

P - E como é que foi trabalhar? Por quanto tempo você ficou dançando nesses programas?

 

R - Eu acho que eu fiquei mais ou menos uns quatro, cinco anos. Eu fiz um pouquinho de tudo, mas a televisão não me atraiu, eu não gostei, o ambiente era muito pesado. Eu gostava de dançar, então trabalhar com o Chacrinha, com o Silvio Santos, foi muito bom; eu fiz alguns programas da Bibi Ferreira, no canal nove; fiz umas pontas em uma novela, uns filmes com o Mazzaropi. Mas eu não gostava muito porque, naquela época, o pessoal que era artista era muito visado e as cobranças eram muitas: “Vamos sair porque eu que te arrumei isso.” Meu negócio era trabalhar, não ficar em um ambiente mais pesado, não era comigo. Mas foi uma experiência boa, eu gostei; conheci muita gente, conheci os artistas, trabalhei com o Silvio Santos, com o Chacrinha. Trabalhei com o Simonal também, com o Roberto Carlos, eu fiz a Jovem Guarda quase dois anos, foi muito bom; era na época da Record, que era ali na Rua da Consolação. Foi muito bom, mas foram fases; eu poderia ter aproveitado mais, mas eu não quis ficar na televisão. Meu negócio era trabalhar.

 

P - E depois dessa fase de televisão, você...?

 

R - Eu continuei trabalhando. Depois do Fabrizio Fasano, eu fui trabalhar como promotora de vendas da Estrela por quatro anos.

 

P - E como que era nesse período a questão de promoção de vendas? Porque hoje é comum, você vai no supermercado e encontra cantinhos de degustação de produtos novos. Era o mesmo esquema que hoje?

 

R - Não, não era; naquela época era bem diferente. Hoje ela perdeu um pouquinho o seu objetivo, as pessoas não são tão profissionais como eram; naquela época, por exemplo, você vendia uma caixa fechada de uísque - era difícil um cliente comprar um litro ou um produto. No caso do uísque, quando eu trabalhei com o Old Eight, o uísque mais vendido no Brasil era o Drurys e o Red Seal, que eram marcas nacionais muito conhecidas, porque era tudo importado. Então parava-se lá, o motorista ou a empregada iam buscar uma caixa de uísque ou uma caixa de vinho e já sabiam o nome, a marca; quando a pessoa descia do carro, por exemplo, o cliente, nós oferecíamos uma dose, muito discretamente. Foi um momento difícil da minha vida porque vender uísque de uma marca que não era conhecida e dizer que era um malte envelhecido oito anos, que era uma outra categoria de uísque - porque ele ficava no meio, não era nem brasileiro e nem importado. Então para uma pessoa que comprava um Chivas ou um Ballantine’s, comprar um Old Eight de oito anos era um pouco difícil; mas, graças a Deus, ele venceu e tem o seu lugar, hoje ele é conhecidíssimo por um monte de pessoas. Depois, eu fui para a promoção de bonecas, de brinquedos. Mas nós tínhamos que trabalhar mesmo, oito horas, todo mundo via quem chegava e que hora que você saía; você tinha que estar com o cabelo super arrumado, o seu uniforme tinha que estar impecável. Hoje, você coloca uma calça jeans, um tênis; naquela época, era sapato alto, meia de seda, maquiada, unha muito bem feita, não podia ter nenhum risquinho de esmalte, você não podia ter a sua maquiagem borrada ou exagerada. E você tinha que saber falar com o consumidor; não era qualquer coisa: “Você quer um uísque?” Não. “A senhora gostaria de experimentar?” Quer dizer, era um outro tipo de público e você tinha que ter uma conduta muito séria. Hoje, não; hoje a menina põe a mão na cintura: “Aí, você quer tomar um uísque?”, “Quer tomar um café?” Não é como era naquela época: “A senhora gostaria? O senhor já conhece?” Era diferente. Hoje qualquer pessoa é demonstradora, qualquer pessoa é promotor. Naquela época, acho que nós tínhamos mais condições de vender; hoje, qualquer coisinha que você coloca, se você faz um pouquinho de divulgação, você vende. É claro que muitas pessoas são exigentes na qualidade, mas têm pessoas que querem preço baixo, o mercado prostituiu-se muito e ficou muito diferente. 

 

P - E nesse período no qual você já tinha acabado a escola, acabado seus estudos...

 

R - Eu me formei em Curitiba. 

 

P - Você formou-se em Curitiba?

 

R - Sim; em 1974 eu fui embora para Curitiba. 

 

P - Por vontade própria dessa vez? 

 

R - Não. Eu casei-me e tinha ficado viúva; o meu sogro estava com câncer e morava em Xanxerê, mas foi para Curitiba fazer um tratamento. A minha sogra pediu-me para ir para lá e eu fui, com a minha filha. Fiquei e comecei a trabalhar numa auto-escola, chamada Auto-Escola Silva, como administradora da escola. E o meu patrão ia caçar e tinha época em que ele não voltava para dar a aula de Legislação; eu comecei a dar aula de Legislação no lugar dele, porque às vezes ele não chegava devido ao mau tempo - ele tinha jatinho, um avião teco-teco. Comecei a dar aula de Legislação e ele gostou da aula que eu dava, eu não sabia nem dirigir, mas dava aula de Legislação. E o Aguilar Silva falou: “Brigitte, eu vou fazer o seguinte: vou te pagar e você vai começar a dar aula de Legislação para mim, porque tem hora que eu não chego da caçada e é melhor você dar.” Eu comecei a dar aula de Legislação e gostei muito. Eu tinha um trauma, porque o meu marido morreu em um desastre de carro; uma vez, ele quebrou o pé e forçou-me a levá-lo para casa - eu não sabia dirigir, mas tinha comando duplo. Eu comecei a dirigir em uma Variant! (risos). E ele falava: “Faz assim...”; “Mas eu não sei dirigir, Aguilar!”; “Mas vai que dá!” No fim, quando eu fui ver, estava dirigindo. 

 

P - Você falou que quando você foi para Curitiba, você foi com a sua filha. Você tem só uma filha?

 

R - Só uma filha. Eu fiquei lá e saiu um anúncio no jornal: “Procura-se recepcionista na Ford Slaviero.” Eu fui fazer um teste e passei! de 40 candidatos, passaram eu e mais dois rapazes. Eu fui trabalhar em uma oficina da Slaviero, que era madeireira, agência de carro, concessionária e também oficina. Eu fiz de brincadeira e, no fim, passei e entrei; fui trabalhar em um lugar com 250 homens, só eu de mulher e uma moça do caixa, que era embaixo; a loja era em cima e não tinha nada a ver. Foi um desafio muito grande.

 

P - Isso em Curitiba?

 

R - Em Curitiba. Foi um desafio muito grande, porque era 250 homens e só eu de mulher; quando mas recepcionista de concessionária era diferente: além de você vender, você tinha que pilotar o caminhão ou o carro para testar e eu comecei a fazer isso também. Eu fiquei três meses em São Paulo fazendo treinamento e voltei; quando eu ia passar a ficha para algum mecânico, eles paravam e ficavam meio de cara feia, porque naquela época eu era loira, de cabelo bem comprido, na cintura - e você sabe que o curitibano é muito frio; o curitibano é assim: “Não me toque.” No clube, para alguém cumprimentar-me ou falar “bom dia”, levou dois anos, levei um susto. Um dia eu pedi para o meu chefe se eu poderia falar dois minutos com o pessoal. Eu falei: ”Eu sou mulher, sou viúva, preciso trabalhar e tenho uma filha para criar. E eu estou aqui para trabalhar; não estou aqui para tirar o lugar de ninguém, não estou aqui para fazer nada. Se vocês quiserem contar comigo para ajudar em presente de casamento, em listas, por favor.” A partir daquele dia, começaram a convidar-me para churrasco na casa deles, mas também era por causa das mulheres, que eram muito ciumentas. Então mudou tudo, foi ótimo e fiquei três anos lá. 

 

P - E aí você foi para onde?

 

R - Voltei pra São Paulo. (risos)

 

P - São Paulo é o seu lugar, Brigitte...

 

R - Meu sogro faleceu e eu voltei pra São Paulo; eu comecei a trabalhar novamente com o senhor Fabrizio, mas o uísque dele deu problema; fiquei lá quase dois anos e fui para a Seagrams e fiquei quase quatro anos. Aí, a Seagrams mandou todo mundo embora, inclusive mandaram embora por telefone. Eu era supervisora naquela época e falaram: “Você tem que mandar embora oito dos seus funcionários.” Quer dizer, você ser mandado embora por telefone e mandar oito pessoas embora é complicado. Você tinha que ver quem era casado, dos promotores, aquela coisa toda. Foi um susto, mas tudo bem. Aí tinha a Niasi, que eu fui fazer uma entrevista, tinha a Vigor e tinha a Tetra Pak para fazer a entrevista (risos). Na Niasi e na Vigor era para fazer promoção; na Tetra Pak era para ficar um mês, um desafio. 

 

P - Era um mês para fazer o quê?

 

R - Era para fazer um trabalho para a Coca-Cola e para a Água Poá, era um teste de mercado: a Coca-Cola ia lançar um produto, chamado Suco Veep, e a água era para a Água Poá em caixinha. 

 

P - Isso foi em que ano?

 

R - Foi em 1979, 1980, alguma coisa assim.    

 

P – Agora nós vamos entrar na época Tetra Pak da sua vida. Antes, deixa só eu fazer uma pergunta, que eu fiquei em dúvida: sua filha tem quantos anos?

 

R - Hoje minha filha tem 40 anos.

 

P - E ela faz o que da vida?

 

R - A minha filha é coordenadora de Rádio e TV da Universal Music; agora ela foi para Salvador [BA], ser gerente da Cláudia Leite. 

 

P - Que ótimo. E você tem netos, netas?

 

R - Tenho. Eu tenho um neto, que se chama Vitor e vai fazer 15 anos agora em outubro; e tenho o Bruno, que tem 12. São dois netos.

 

P - E você nunca voltou a se casar, Brigitte?

 

R - Eu vivo com uma pessoa há 20 anos. 

 

P - Então já tem tempo.

 

R - Já.

 

P - Bom, Brigitte, agora nós chegamos na Tetra Pak (risos).

 

R - Isso (risos).

 

P - Você foi para trabalhar um mês como promotora?

 

R – Não... 

 

P - Como é que foi isso?

 

R - Para fazer pesquisa de mercado...

 

P - E o que era? O que você tinha que fazer?

 

R - A pesquisa de mercado era assim: eu tinha que ir no supermercado. Como eu tinha um relacionamento muito bom com os supermercadistas, como eu trabalhei na Seagrams, com o Fabrizio, eu conheci os donos, os gerentes, os encarregados de lojas e tudo mais... Então eu tinha um relacionamento muito bom e era isso que a Tetra Pak estava buscando, que ela precisava. Então eu fui fazer umas pesquisas nos supermercados, dentro dos supermercados.

 

P – Para os consumidores?

 

R - Exatamente. Para o consumidor final.

 

P - Certo.

 

R - Depois dessa pesquisa eles gostaram do resultado e perguntaram para mim o que eu achava, o que eu não achava; eu dei a minha opinião e eles contrataram-me. Eu fiquei dois anos em uma agência chamada Stand By, através da Tetra Pak - quer dizer, eu ia na agência para assinar e para receber, porque eu ficava no escritório da Tetra Pak, que era na Alameda Santos.

 

P - Cuidando dessa parte de promoção?

 

R - De promoção. E começamos a fazer degustação desse produto da Coca-Cola, que chamava-se Veep. 

 

P - E pegou na época?

 

R - Pegou muito bem. No fim, acabei ficando dois anos; nós fizemos muita promoção em Santos e também no Guarujá, em Ubatuba e depois nós fomos para o interior de São Paulo. E demos algumas sugestões, começamos a fazer um trabalho também com o leite longa vida. 

 

P - Nessa época que você começou a trabalhar na Tetra Pak, qual foi a sua primeira impressão da empresa?

 

R - Eu gostei muito da empresa. Eu já tinha trabalhado em empresas grandes como a Seagrams, a Estrela, mas com a Tetra Pak eu me apaixonei de pronto. Gostei muito, achei uma empresa séria. Tinha vários pontos de interrogação que eu tinha que descobrir, que eu tinha que aprender e, para mim, isso foi muito interessante. Eu gostei muito porque a tecnologia que a Tetra Pak tem e o respaldo que ela dá aos funcionários, a credibilidade, foi muito bom. Eu gostei muito.

 

P - Até aquele momento em que você passou a trabalhar com a Tetra Pak, você já tinha ouvido falar da empresa?

 

R - Da Tetra Pak, não. O nome Tetra Pak, não; mas eu já tinha ouvido falar de leite longa vida e eu já consumia o leite longa vida. Apesar de muitas pessoas falarem que tinha aditivo, que tinha conservante, eu gostava muito da embalagem. Mas eu não sabia que o leite longa vida era da Tetra Pak, apesar de que sempre falava-se em leite longa vida - eu acho que algumas outras pessoas também tinham essa dúvida. Eu já a conhecia através do longa vida, que eu tomava o Long; depois que eu fui conhecer a Tetra Pak, foi uma coisa maravilhosa. 

 

P - Nesse período, no começo da década de 1980, final de 1970... 

 

R - Isso...

 

P - Como consumidora, não como funcionária da Tetra Pak: você falou dessa questão de ter aditivo, não ter aditivo, era uma desinformação, não era?

 

R - Era falta de esclarecimento, claro.

 

P - Mas como ele era visto no mercado, os produtos em embalagens da Tetra Pak, o longa vida?

 

R - As pessoas ainda tinham muitas dúvidas, ainda relutavam muito em comprar, em acreditar no longa vida; tanto que quando eu comecei a trabalhar, para você ter uma idéia, para você vender uma caixa de leite longa vida - que naquela época não tinha com 12, era com 16, às vezes você não vendia em uma semana. Vendia-se o barriga mole, que era o leite A, B e C, que ficava no corredor e vendia 300 litros, 400. Claro, era menos produto que você vendia naquela época, de leite. Mas leite longa vida, tinha semana que você não vendia uma caixa. 

 

P - E nesse momento os produtos em embalagem longa vida era principalmente o leite?

 

R - Leite. Quando eu entrei, em 1980, era o leite; não tinha outro produto ainda, tinha o Suco Veep, da Coca-Cola, que era um suco concentrado em uma embalagem de 250 mililitros. Então você só tinha esses dois produtos. 

 

P - O suco não era para pronto consumo?

 

R - Não, era pra você diluir na água, em um litro de água. 

 

P - E aí você ficou dois anos com a Stand By, é isso?

 

R - Dois anos com a Stand By, fazendo degustação do Suco Veep, eu até recebi uma proposta da Microlite, porque um ex-chefe meu da Seagrams tinha ido para lá. Como eu sabia que a degustação do Veep, da Coca-Cola, mas quem distribuía era a Anderson Cleyton, apesar de ser um produto da Coca-Cola... Era uma confusão! (risos). 

 

P - E a embalagem da Tetra Pak (risos).

 

R - Da Tetra Pak, isso aí (risos). Aí eu falei: “Bem, eu acho que o meu trabalho vai acabar, então eu vou para a Microlite.” Eu não sei como ficaram sabendo, mas o meu chefe, naquela época, que se chamava João Augusto Bingre e era o diretor de marketing no escritório da Alameda Santos. Naquela época, o presidente era o Tommy Bartsch Koff, e eles perguntaram-me o que eu achava, o que eu não achava, o que poderia melhorar para alavancar mais as vendas do leite longa vida; eu expus algumas idéias minhas: naquela época, o hábito era levar o litro, então tinha que alavancar as vendas. Eu falei: “Faz uma sacolinha, ‘leve leite para a semana toda’, ‘leve leite durante as suas férias’”. E nós começamos a fazer umas sacolinhas. Ele falou: “Vamos fazer o seguinte: nós vamos registrar você. O que você precisa?” Eu falei:”Olha, eu vou sair daqui porque eu recebi uma proposta onde eu terei convênio médico, essas coisas...” - porque eu precisava de segurança, tinha que cuidar de uma filha. Eles registraram-me e falaram. “Se daqui a um ano, seis meses, você não conseguir levantar essas coisas, você vai embora sem nada.” Eu falei: “Está feito.” E foi o acordo que nós fizemos. Eu comecei a fazer as sacolinhas - isso foi em novembro, dezembro - e fui para Santos ficar um mês; nós vendemos mais de 120 mil sacolas em um mês - quer dizer, um mês e dez dias, porque foi sábado de carnaval e nós voltamos. Eu peguei cinco moças, aluguei um apartamento e nós ficamos lá. Foi muito bom, deu um resultado muito bom. Aí começamos...

 

P - Foi assim que você começou efetivamente na Tetra Pak?  

 

R – É, exatamente.

 

P - E aí você passou a atuar em que cargo?

 

R - Naquela época eu era supervisora. A única mulher supervisora dentro da empresa; o resto eram todos homens, supervisores. Quando eu cheguei na Tetra Pak havia quatro supervisores homens que faziam o mesmo trabalho que eu: iam na loja, levavam sacolas. Então éramos cinco na área comercial, porque na área da fábrica tinha mais supervisores homens, todos homens. Nessa função, só tinha eu de mulher.

 

P - E nessa época a sede era na Alameda Santos, onde ficava a área comercial?

 

R - Na Alameda Santos. Eu acho que fiquei lá uns três anos. Depois eles mandaram todo mundo embora, isso em 1990, 1991, 1992. Eles mandaram embora todos os supervisores da área comercial, de promoção; ficou só eu de mulher. E o escritório mudou para a fábrica, para Monte Mor. Então, toda segunda-feira eu ia para lá e durante a semana eu ficava na rua, viajava, ia onde os clientes estavam, além da minha função nessa coisa de merchandising, de relacionamento com o pessoal dos supermercados, que eu fazia um rodízio para ir aos supermercados para ver quantas caixas de leite tinham sido vendidas, para puxar mercadoria. Então começamos a abrir uns espaços, comecei a conversar com os gerentes: “Por que não colocamos todo o leite longa vida aqui no ponto de venda, ao invés de deixar lá dentro?” E foi aí que começaram aquelas pilhas crescendo. Eu tinha, naquela época, três mulheres promotoras e tinha mais três homens; nós colocamos promotores no Rio de Janeiro, o que ajudou bastante, porque o maior mercado de leite longa vida era o Rio de Janeiro - depois começou a crescer também o de São Paulo. 

 

P - A impressão que uma pessoa que não é da Tetra Pak tem em relação a quando foram alavancadas as vendas é de que foi na época do Plano Real, com a estabilização...

 

R - É. Em 1991, 1992, começou a crescer; quando eu entrei em 1982, 1983, 1984 começou, porque além dos achocolatados, o Toddynho, que foi em 1982, 1983, se eu não me engano, teve também o creme de leite, o leite condensado. E começou também os tomates, os derivados do tomate que a Cica lançou. O Pomodoro, depois a Arisco também, em 1984, 1985. Com esses produtos começou-se a fazer mais propaganda; o nome da Tetra Pak era mais guardado, era longa vida. Depois que começou, a Tetra Pak começou a fazer a Fispal, Feira Internacional da Alimentação em 1986; nós participamos em duas feiras no Rio de Janeiro também, que foi da Abras, Associação Brasileira de Supermerados,  nós levamos uma máquina para as pessoas de supermercados conhecerem, que eu dei a idéia para o nosso diretor, de ir onde o supermercadista estava. Então nós fomos para o Rio de Janeiro, no Riocentro, na Abras, e colocamos um equipamento lá; distribuímos caipirinha porque acho que a Rainha Silvia da Suécia esteve aqui no Brasil e a Tetra Pak fez uma caipirinha de limão em uma embalagem, e nós fizemos a degustação na Abras, aí eles conheceram o que era a Tetra Pak.

 

P - E a Fispal, que você falou que participou da primeira em 1986...

 

R - Em 1986.

 

P - Como foi? Porque atualmente o estande da Tetra Pak na Fispal é gigante...

 

R - Naquela época era um estande de 50 metros quadrados, pequeninho. Foi o primeiro ano que nós participamos, e eu não esqueço porque naquele ano morreu o Chacrinha. Eu logo peguei o trem, peguei o expresso que tinha naquela época; meia-noite eu pedi licença para ele e fui para o enterro dele, no dia seguinte. Mas foi muito bom; você vê o tamanho com o qual a Tetra Pak hoje participa. Está fazendo dois anos que eu não participo da Fispal como funcionária, mas vou, a Tetra Pak me convida muito, mandam convite e é um grande prazer. De 50 metros, nós fomos para 100; de 100, nós fomos para 120; de 120, nós fomos para 450... (risos). E depois foi para 1900 e pouco, mais aquela área fora, onde tem o happy hour, aquela coisa, além do estacionamento.

 

P – Então em 1992, 1993, você alavancando as vendas, crescendo o mercado...

 

R - Participei muito. O meu trabalho era sair, visitar as lojas, falar com os gerentes, com os encarregados, aumentar os espaços; além disso, eu bebia caipirinha com eles depois do expediente, levava-os para tomar umas caipirinhas, comer uma feijoada, fazer um torneio. Uma coisa que eu fiz muito, a Tetra Pak deixou-me fazer, era pegar um ou dois ônibus e levar os encarregados com suas famílias para Monte Mor, para conhecer a fábrica; aí fazíamos um churrasco durante o dia, eles iam na piscina, jogavam futebol e, quando era umas quatro horas, nós voltávamos para São Paulo. Fiz muito isso com o pessoal de supermercado, de loja, com os compradores, gerentes dos escritórios, foi Carrefour, Pão de Açúcar, Eldorado, todos esses supermercados que você pensar, foram. Levei durante uns dois ou três anos, mais ou menos, umas 2,3 mil pessoas. Nós levamos o pessoal do supermercado na fábrica da Tetra Pak, para eles conheceram um pouquinho a cara da Tetra Pak, porque eles conheciam o longa vida, mas não sabiam o material, como era a empresa. Ao mesmo tempo, nós levamos muitos diretores da Tetra Pak, clientes nossos de supermercados, de atacado e gerentes para conhecerem a fábrica na Suécia. Isso foi muito legal também. Eu também fiz um trabalho para a Arisco, onde viajamos todo o interior do Sul, fazendo apresentações, treinamento e mostrando o que era a Tetra Pak e o que era a Arisco, essa parceria. Mas a Tetra Pak é uma empresa muito séria, não gosta de aparecer muito; ela é muito reservada, porque a intenção dela é vender seus produtos, sua tecnologia. Ela tem um know how muito grande para que o cliente da Tetra Pak, o consumidor final, tenha confiança na qualidade com que a Tetra Pak faz o seu trabalho; hoje, a equipe da Tetra Pak é muito bem treinada, o cliente respeita muito - não é um relacionamento de cliente com o fornecedor; no fim, o cliente envolve-se na vida da Tetra Pak, daquela pessoa que a representa e o representante, o funcionário, envolve-se muito com o cliente. Além disso, eu dava treinamento para os promotores, para as demonstradoras; nós fazíamos os uniformes, os brindes e em tudo isso a Tetra Pak também participava. É uma união completa: não é só a coisa comercial; no fim, fica uma amizade, um relacionamento muito gostoso, muito sério, muito profundo.

 

P - E até a sua aposentadoria, em 2005, você sempre atuou nessa área de mercado, de promoção?

 

R - É. Porque eu participava das feiras, dos eventos. Eu ia na Apas, Associação Paulista de Supermercados, na Abras, na Abad, Associação Brasileira de Atacadistas e Distribuidores, isso sempre.

 

P - Até a sua aposentadoria?

 

R - Até a minha aposentadoria. 

 

P - E nesses anos todos que você passou na Tetra Pak, qual teria sido o maior momento de crise que a empresa viveu? Se é que viveu...

 

R - Você sabe, é como a política: tem seus altos e baixos; eu acho que toda empresa tem seus altos e baixos. Uma das maiores crises foi quando houve uma seca, já há algum tempo, porque não tendo leite, você não vende a embalagem. Hoje o leque da Tetra Pak é muito grande - tem suco, tem goiabada – mas o leite ainda é o carro-chefe na Tetra Pak. Então, quando você vê que algum cliente, como no caso da Parmalat, está tendo problemas, você vê que a produção cai e é uma responsabilidade, além da seca também. Quando um cliente vai a falência ou tem alguma dificuldade, como tiveram a CCPL, Cooperativa Central dos Produtores de Leite, a Parmalat - é complicado tudo isso; a empresa também sente, todo mundo sente. Mas a Tetra Pak sempre foi uma empresa muito séria, uma empresa muito segura, tudo muito controlado - os orçamentos são muito controlados, o dinheiro é muito controlado. Ela é sueca, então, não precisa dizer muita coisa (risos). Eu não sei se são os suecos ou os alemães que são mais seguros. Então sempre foi com muito equilíbrio, com muita segurança, e nunca extravasou. Mas passamos por momentos de altos e baixos, como no caso da seca do leite. 

 

P - E na sua atuação, na sua vida profissional, qual foi o maior desafio dentro da Tetra Pak?

 

R - Eu tive vários desafios, não foi só um; eu tive quando eu comecei, quando eu saí da Stand By e fui para a Tetra Pak, para alavancar o leite longa vida, para aumentar os espaços nos pontos de compra e venda. Eu agradeço a Deus todo dia por essa oportunidade, que foi um desafio para mim também, para saber da minha capacidade. Mas eu não trabalhei sozinha, eu trabalhei com a equipe e tenho que reconhecer isso; é a mesma coisa quando um casal está trabalhando e tem filho - a união faz a força. Graças a Deus, eu agradeço por ter tido uma equipe e um respaldo da Tetra Pak, que nos dá várias ferramentas para você trabalhar. E outra coisa: quando você vai em um supermercado hoje e diz que é da Tetra Pak, as portas abrem-se, porque foi feito todo um trabalho anterior muito sério - a equipe e o próprio nome da Tetra Pak. Então isso foi muito bom. O segundo desafio foi quando nós começamos a trabalhar com o creme de leite, porque foi o primeiro produto da Mococa lançado em caixinha e nós estávamos ao lado do líder, que é da Nestlé. Trabalhar com uma Nestlé não é brincadeira, não! Porque o nosso concorrente era o leite de saquinho e o leite em pó, o Ninho - o maior concorrente do leite longa vida era o Ninho. Tanto que eu comecei a colocar o leite ao lado do Ninho, porque era o concorrente. Então, o leite longa vida foi o primeiro desafio; o segundo foi o creme de leite; o terceiro foi os derivados de tomate. 

 

P - Por que não teve uma aceitação imediata?

 

R - Não. Tanto que a Cica gastou um dinheirão pra fazer o lançamento do Pomodoro, foram mais ou menos dez mil dólares que foi gasto em promoções, em propaganda. Eu não sei se você lembra, mas tinha um outdoor: “Como cortar o tomate com a tesoura?” Teve gente que freou o carro, quase que bate o carro... (risos) Porque: “Pomba! Como é que eu vou cortar o tomate com uma tesoura?” (risos) Foi uma propaganda muito diferente daquilo que se tinha no mercado naquela época: “Mas como é que eu vou cortar um tomate com uma tesoura?” Isso foi muito legal.

 

P - Brigitte, eu queria que você falasse um pouquinho das embalagens da Tetra Pak, porque basicamente – corrija-me se eu estiver errado - quando você começou, eram principalmente a Tetra Brik e a Tetra Classic.

 

R – A Tetraédrica - a Tetra Classic -, isso...

 

P - Mas, nesses seus 20 e tantos anos de Tetra Pak, muitas embalagens e muitos tamanhos, volumes e formas passaram a fazer parte do portifólio da empresa.

 

R - Passaram.

 

P – Fale-nos um pouquinho de como foi a recepção dessas embalagens.

 

R - Eu vou dizer uma coisa pra você: na época em que lançaram o leite longa vida, o consumidor tinha tempo ainda, porque não tinha tantas novidades. Hoje, você vai no supermercado e cada dia que passa tem uma novidade. Naquela época, era muito esporadicamente que se fazia um lançamento de produto e, principalmente, da embalagem. Hoje está mudando. A Tetra Brik square foi um boom com os sucos, todo mundo aceitou, ninguém falou nada; todo mundo adorou, adaptou-se muito rapidamente a esse tipo de embalagem - eu acho que nisso a Tetra Pak foi muito feliz. A Tetra Prisma também, que tem a água de coco - e que agora o último lançamento foi da Parmalat, que é de litro. Eu acho que ela está sendo muito feliz nas colocações, nos produtos que ela está colocando no mercado e que está facilitando o dia-a-dia da dona de casa. Cada vez você está vendo mais embalagens diferenciadas, então para nós isso foi sempre um orgulho - participar de uma empresa que está correspondendo a ansiedade e ao que a consumidora precisa, a dona de casa precisa. Eu acho que isso é muito importante. E a Tetra Pak tem essa percepção, que é muito importante: ela está correspondendo às expectativas do consumidor.

 

P - E como consumidora, qual é a embalagem que você acha mais bonita, que você mais gosta da Tetra Pak?

 

R - Que eu mais gosto? Eu vou ser sincera, eu gosto mais é da Tetra Brik square. Eu acho bonita. Em primeiro lugar, eu acho que essa é imbatível. Também gosto da Tetra Prisma, que está muito legal - você leva em qualquer lugar, água de coco, essas coisas do dia-a-dia que você precisa. Do leite eu nem vou falar, porque eu sou suspeita - eu participei de tantos lançamentos de leite longa vida que, como se diz, é como se fossem meus filhos. Quando eu comecei a lançar com os clientes, seja no Norte, no Sul, no Centro-Oeste - que eu viajei por tudo isso aí -, fora o que eu vendia para os atacados e tudo mais, não preciso nem falar. É uma coisa que me comove muito e que eu tenho muita história pra contar. Então eu nem preciso falar do Tetra Brik, que para mim é fora de série.

 

P - E nessas suas andanças pelo Brasil, fazendo promoção e treinamentos, Brigitte: tem alguma história engraçada, algum caso pitoresco? Algo que você tenha vivenciado, que você tenha visto acontecer e que você pode contar-nos?

 

R - Tem tanta coisa... Eu não sei se eu vou lembrar de tudo. Eu só fico preocupada com uma coisa: nós tivemos há pouco tempo em Vitória e teve aquela negócio da numeração, que a concorrência falou. Eu estive em um supermercado e eu vi um senhor de idade, que devia ter os seus 70 anos, por aí; ele estava em uma ilha grande e eu só o via remexendo. Eu falei: “Meu Deus do céu, o que esse homem está fazendo?” Eu fui lá perguntar para ele: “Meu senhor, o que o senhor está fazendo, porque o senhor está remexendo tanta coisa?” “Ah, dona. Eu estou procurando o número um.” Eu falei: “Número um do quê?” “Embaixo da embalagem tem os números e eu estou procurando o número um!” Eu falei: “Por que você está procurando o número um?” “Sabe por quê? Porque a minha mulher falou que quando está escrito o número um embaixo é porque ele só foi uma vez e só voltou uma vez, então o leite é bom, está fresco!” Eu fico muito preocupada porque notícia ruim corre logo, agora notícia boa ou séria ou correta... O que acontece é que as pessoas ficam passando isso para outras pessoas; quer dizer, ele quis dizer que o número um na embalagem indica que o leite só foi e voltou uma vez. Eu expliquei para ele: “Meu senhor, não é nada disso. Como é que você vai abrir a embalagem?” Mas para uma pessoa de 70 anos, que mora não sei onde, como é que ela vai entender isso? Ela não vai entender. E é uma coisa que me preocupa muito, porque muitas pessoas no interior não sabem exatamente qual é a função da Tetra Pak e, principalmente, da embalagem. Ainda tem muitas pessoas desinformadas nesse Brasil – infelizmente -, por mais que você. O gerente falou para mim: “Por que a Tetra Pak não vai na televisão?” Eu falei: “Meu senhor, não é isso. Isso aí é o código da empresa, ela não pode mudar! É o código dela; se ela mudar, ela está concordando com a concorrência, que está metendo o pau, uma notícia infeliz. Não é nada disso, isso aí é da fábrica. Isso é uma coisa dela, como é que ela vai mudar o número dela, número de produção? Não tem condições. Se ela relatar isso, ela está sendo conivente, está concordando com o que está acontecendo; então, não é nada disso...”

 

P - Mesmo porque a bobina vai com esses códigos antes do envase.

 

R - É verdade. Então, uma coisa que me marcou muito na Tetra Pak foi cada lançamento - parecia que era um filho meu que estava nascendo. Outra coisa foram os 40 anos de Tetra Pak no Brasil, que me marcou muito - foi uma coisa maravilhosa. E os 50 anos também; você fazer parte de uma empresa que só cresceu e que te deu muita coisa, um aprendizado muito grande, foi uma coisa muito importante. Então foram esses três episódios. Claro, existem outros que eu não me lembro agora com detalhes. São tantas emoções... (risos) Foram tantos anos... Mas eu tive muitas alegrias.

 

P - Brigitte, eu queria que você falasse - apesar de não ser da sua área em específico, essa questão que eu vou fazer, mas com certeza você tem consciência disso, como todos os outros funcionários, com relação a questão ambiental. A Tetra Pak é muito preocupada com essa questão ambiental, não só com a reciclagem, com o reaproveitamento desse material, como também nas próprias fábricas, com o consumo consciente etc. Queria que você falasse um pouquinho sobre isso.

 

R - Tem um treinamento, um programa que eu comecei na Tetra Pak que se chama Desperdício Zero - porque ainda hoje, nos supermercados, dentro da nossa casa, as pessoas são muito mal informadas e começam a ter desperdício. Dentro desse Desperdício Zero, eu sempre coloquei alguns brindes de material reciclável que a Tetra Pak fez para dar para o pessoal de supermercados e nós passávamos um filme sobre como é que é feita a reciclagem da embalagem da Tetra Pak. Eu acho que é um programa muito sério que eu admiro muito, gosto muito. Sempre divulguei isso quando eu fazia os treinamentos nos supermercados e continuo divulgando. Eu acho que isso é uma coisa maravilhosa. E os supermercadistas aceitaram muito bem isso também; nós participamos muito nos eventos da Apas, da Abras, dando réguas, canetas de materiais recicláveis. Eu acho que é muito importante divulgar esse programa,  já que o governo não faz, nós da Tetra Pak preocupamo-nos com isso e fazemos muito bem.

 

P - Hoje a embalagem da Tetra Pak é 100% reciclável?

 

R - 100%. 

 

P – Você acredita que o consumidor, o público em geral, tem consciência disso, de que a embalagem é 100% reciclável?

 

R - Ainda existe muita dúvida. A Tetra Pak faz, mas o Brasil é muito grande, existem várias coisas contra. O Governo não faz muito isso, as empresas privadas é que estão fazendo a divulgação, cada uma está fazendo o seu papel. Muitas pessoas, principalmente de supermercados, sabem que é 100% reciclável as embalagens, já estão bem cientes; mas falta divulgar muito mais. Ainda estamos andando num passo de tartaruga, infelizmente. Há muita coisa a ser conquistada, mas a Tetra Pak vem, há alguns anos, fazendo o papel dela. 

 

P - E das iniciativas sociais, dos investimentos sociais da Tetra Pak?

 

R - Muito bons. Sempre foram muito bons. A Tetra Pak sempre está fazendo, sempre está renovando, eu acho isso muito bom. 

 

P - E para os funcionários? 

 

R - Para os funcionários também. Nós temos um clube em Monte Mor; os programas da Tetra Pak eu acho que são muito bons. Na fábrica as pessoas têm condições de participar mais, mas para as pessoas que estão nas regionais fica um pouco mais difícil, mas não deixa de ser um começo. Eu gosto muito; sempre que eu pude, eu participei. Eu sou muito solidária a isso, gosto de ajudar. Inclusive tinha alguns clientes nossos, Arisco, Shefa, Vigor… que, quando nós tínhamos alguma coisa, eles davam de boa vontade, participavam e incentivavam tudo isso.

 

P - E ao longo da sua trajetória dentro da Tetra Pak, Brigitte: quais foram as pessoas que mais te ajudaram, que estiveram sempre ao seu lado e que você lembra-se até hoje?

 

R - É difícil de enumerá-las; se eu citar um nome aqui, eu acho que vou ser injusta, porque eu posso talvez esquecer de algumas pessoas. Mas eu vou dizer uma coisa: eu tive pessoas maravilhosas lá, aprendi muita coisa com a empresa, com os meus colegas, os meus superiores - e isso foi muito importante, foi uma somatória. Se eu colocar o nome de uma pessoa, eu seria injusta com as outras, não seria delicado da minha parte. Mas eu gostaria de agradecer a todos os meus colegas, a diretoria da Tetra Pak; muitas pessoas marcaram muito a minha vida profissional. Alguns dos muitos clientes também, aprendi muito com eles e isso foi muito bom. Só tenho que agradecer.

 

P - E dos presidentes? Porque quando você começou foi com o Tommy...

 

R - Não. Eu comecei com o Lars Janson - Ademerval Garcia e o Lars Janson. Quem me contratou, inclusive num domingo (risos), em uma feira no Anhembi, foi o senhor Lars Janson. 

 

P - Foi ele próprio?

 

R - Foi ele próprio. Eu comecei a entrevista com uma pessoa, que se chamava Duarte; depois foi o João Augusto Bingre, que era o diretor de marketing; depois o senhor Ademerval Garcia; por último, foi o senhor Lars Janson, que me contratou num domingo em uma feira, porque ele estava vindo de viagem, ia embora para outra e precisaria com urgência uma pessoa para fazer essa pesquisa no mercado.

 

P - Fala um pouquinho de cada presidente que você se lembra e o que mais caracterizou a presidência deles.     

 

R - O Lars Janson foi uma pessoa que eu conheci, uma pessoa maravilhosa, muito simples, muito alegre; gostei muito dele, ele foi muito positivo na colocação dele. Depois dele eu conhece o Tommy Bartschukoff, uma pessoa muito jovem - acho que tinha 30 e poucos anos -, aprendeu a falar o português rapidamente; ele era muito positivo, o que ele tinha que falar, ele falava para você, não mandava recado para outra pessoa: “Você fez isso e está tudo errado.” Ou: “Está tudo bem!” Muito dinâmico - o lançamento que nós fizemos da Cica, do tomate, ele participou e foi muito bem. Depois foi o Karl-Viggo Ostlund, muito legal também; gostei muito dele, muito alegre - apesar de ser sueco, que eles são um pouco distantes, mas depois eles vão chegando. Depois foi o senhor Nelson Findeiss, mas eu o conheci antes, quando eu entrei na Tetra Pak e ele era gerente financeiro e ficava em São Paulo – depois em Campinas [SP] e logo em seguida foi embora para Monte Mor. O senhor Nelson é uma pessoa muito legal, mais enérgico, mais sério, exigente - mas no fundo ele tem bom coração. Eu acho que na presidência se tem muitas preocupações, muitas coisas, mas no fundo, ele foi uma pessoa muito boa. E o Paulo Nigro, que chegou e que está aí; eu trabalhei com ele na época do projeto Arisco por muito tempo - trabalhei com ele uns dois, três anos na época da Alfa Laval e aprendi muito com ele também, que é uma pessoa muito boa. O que eu quero dizer é que com os presidentes da Tetra Pak, na empresa, você não tem a porta fechada; você pode ir e ter acesso para falar com eles quando você quiser - a Tetra Pak é uma família, eu considero uma família. E isso é muito bom, porque você tem condições de falar com o presidente, falar o que você acha que está errado e o que está certo. É claro que, às vezes, você vai lá e ele não pode te atender porque está em uma reunião ou está viajando, tem alguma programação; mas você tem condições de chegar lá, não precisa passar por várias pessoas para ir - é por isso que eu acho que a Tetra Pak é uma família. E o Paulo Nigro ficou fora uns nove, dez anos, mas eu o conheço bem porque eu trabalhei com ele na época da Alfa Laval; é uma pessoa muito legal. Nunca tive problema com nenhum dos presidentes, graças a Deus. Algumas vezes com meus chefes, com meus superiores diretos (risos) - mas quem não os tem? Isso faz parte do dia-a-dia. E, às vezes, você tem que chegar para o chefe e dizer: “Olha, chefe: não é assim; é assado.” Mas, graças a Deus  não tive problema com nenhum, não. Graças a Deus me senti bem com todos. E na fábrica então, não posso nem reclamar; o pessoal é muito legal. 

 

P - E quais são os valores da Tetra Pak?

 

R - Os valores são bem objetivos, eu gosto muito dos valores da Tetra Pak. Eu acho que a primeira coisa é a honestidade, o caráter, a confiabilidade, porque com o cliente que está lançando um produto, você tem que ser muito reservada. Muitas vezes a concorrência chegava até nós no compra e venda e dizia: “Você não pode dizer o que o fulano vai lançar?” Às vezes, a equipe de vendas, de promotores, gerentes, falava o que ia ser lançado e nós negávamos até o fim. Isso era uma coisa que a Tetra Pak gostava de preservar; você não podia abrir a boca, não podia sair de você. O concorrente podia falar: “Você está mentindo!” (risos) - mas não podíamos falar. Essa era uma das missões da Tetra Pak: a honestidade, a confidencialidade. E também a nossa missão de trabalho era muito importante. 

 

P - E qual é a importância da Tetra Pak na história da indústria brasileira, na sua opinião?

 

R - Como? Em que sentido?

 

P - O peso da Tetra Pak no panorama da indústria brasileira como um todo. Qual foi o papel que ela teve, se ela foi importante para o desenvolvimento que ela tem?

 

R – Muito. Eu acho que ela é uma pioneira no que ela faz hoje; ela é uma pioneira e é por isso que ela está presente em 165 países e sua tecnologia aprimorando-se cada vez mais. Eu acho que essa é a missão dela e ela a fez muito bem feita. Por isso ela é uma empresa que domina o mercado hoje; ela não está ai de graça - está insistindo cada vez mais para as coisas melhorarem.

 

P - E hoje a visão dos produtos que são comercializados na embalagem da Tetra Pak, você acredita que mudou? Porque lá atrás você disse que tinha essa questão, que era bem comum... Hoje mudou?

 

R – Mudou. Hoje o consumidor vai lá e compra de olhos fechados. Hoje ele acredita no produto e na embalagem, principalmente. Tanto que você vê que ela é pioneira; a concorrência está chegando no Brasil e ela mantém-se firme e forte. Hoje ela tem credibilidade - isso aí de aditivo, de conservante, não tem mais; ninguém duvida mais disso, como foi no passado. Você vê a participação dela no mercado hoje, que é muito forte. Então acabou esse negócio - ninguém pergunta se tem aditivo, se tem conservante, ninguém mais duvida da tecnologia da Tetra Pak e das embalagens da Tetra Pak que hoje estão presentes no mercado. Então isso é tranqüilo.

 

P - E nesses cinqüenta anos de Brasil, que a Tetra Pak está comemorando, o que você conhece dessa trajetória, além de, é claro, a sua própria trajetória dentro da empresa? Quais são os fatos marcantes dessa história, da Tetra Pak no Brasil?

 

R - Ela veio devargazinho - que eu sei que ela veio aqui. Trabalhou muitos anos para conseguir conquistar esse mercado e continua mantendo-se, tanto que ela se preocupa em trazer inovações para justamente superar-se cada vez mais. É por isso que ela conseguiu manter-se por 50 anos, porque se não tivesse essa diversificação de produtos que ela oferece, ela não teria condições de manter-se ainda como líder - ela é líder, detém 98%; quer dizer, isso é uma coisa que não precisa falar mais nada (risos).

 

P - E qual a importância do Projeto Memória 50 anos Tetra Pak, na sua opinião?

 

R - É muito importante porque amanhã eu posso chegar para o meu neto, quando ele tiver 18 ou 20 anos, e dizer que eu fui uma das colaboradoras e que participei desses 50 anos, que eu tive uma pequena participação nisso. E contar para eles com muita honra que eu participei dessa empresa maravilhosa; contar para eles os detalhes dos produtos, dos lançamentos, dos altos e baixos que nós tivemos, as horas difíceis - mas horas de glórias também. Eu acho que cada um de nós que faz parte dos 50 anos, contar para o seu filho, para o seu neto ou para o seu bisneto é muito legal isso. Como também penso quando o senhor Rausing contou para seus filhos, para seus netos - que ele faleceu em 1984 -; então eu acho que isso é muito importante. Não tem como você negar a história; você tem prova, você tem testemunhas - vai ter esses testemunhos todos sobre os 50 anos. Eu acho que isso é muito importante, porque é importante você mostrar para os seus filhos, para os seus netos que tem uma história, que tem um livro bom para você ler. Eu acho que a memória dos 50 anos vai ser muito importante para cada um de nossos familiares. 

 

P - Brigitte, o slogan da Tetra Pak é “Protege o que é bom”. O que é bom pra você?

 

R – Bom para mim é que eu tenho essa lembrança maravilhosa de que eu participei por 25 anos da Tetra Pak e que eu aprendi muito; queira Deus que eu viva mais 25 e que possa lembrar-me cada dia mais que eu participei desse mundo da Tetra Pak. Eu acho que isso é importante.

 

P - Nós já estamos chegando no finalzinho da entrevista e eu queria te perguntar se tem alguma coisa que talvez nós não tenhamos te perguntado e que você acha importante falar - algum fato que talvez você gostaria de deixar registrado.

 

R - Nossa! É tanta coisa que eu acho que seria necessário uma semana para falar. Eu acho que tem tanta coisa boa, mas que agora, no momento, não sei se eu lembro - é muita coisa. Mas eu quero deixar registrado que foi muito bom, foi muito importante. Diz-se que Deus é pai, não é padrasto; eu comecei no mundo da Tetra Pak para ficar um mês e fiquei 27 anos - 25 na Tetra Pak e dois anos na Stand By, que no total são 27 anos. Eu só tenho uma coisa a dizer: “Para a caixinha você também!” (risos).

 

P - Para finalizar, eu queria perguntar o que você achou de ter dado o seu depoimento para o Projeto?

 

R - Eu fiquei muito contente, agradeço pelo convite. Espero ter podido contribuir bem para esses 50 anos de memória. Fiquei muito honrada. Agradeço muito. 

 

P - Muito obrigado. Eu agradeço em nome do Museu da Pessoa e da Tetra Pak por você ter se disponibilizado a contar um pouco da sua vida para nós.

 

R - Eu também agradeço.           


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