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História

O menino que queria ser o Robin

História de: Éder Jofre
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 10/09/2013

Sinopse

Entrevista de Éder Jofre para o Memorial do São Paulo Futebol Clube. Nascido no centro de São Paulo, Éder Jofre é filho de argentino, formado em Educação Física, que veio para o Brasil para auxiliar o tio. Com uma família recheada de lutadores, tanto do lado paterno quanto materno, iniciou sua vida no ringue logo cedo, herdando golpes no berço e da criação. Espírita, tem o Boxe como uma paixão desde criança, assim como o amor pelo São Paulo Futebol Clube. Em sua entrevista conta passagens de brigas, destacando uma história ocorrida durante um passeio com a namorada, em que valoriza a educação e destaca o valor disso no caráter do esportista. Jofre surpreende falando sobre sua habilidade com desenho, que quase deu outro rumo a sua vida. Fez curso e foi apresentado a um profissional da área por um boxeador que auxiliava seu pai na acadêmia. Começou a lutar pelo SPFC aos oito anos de idade, apaixonando-se ainda mais pelo clube. Como vereador, cargo que exercia na época da entrevista, pensava em projetos para ajudar e beneficiar crianças abandonadas, inspirado pelo pai.

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História completa

P – Qual é a sua data de nascimento e local.

 

R - Meu nome é Éder Jofre. Nasci na Rua do Seminário, aqui em São Paulo, no centro, e meu pai chamava-se José Aristides Jofre, popularmente conhecido como Kid Jofre, e minha mulher... Minha mãe, Angelina Zumbano Jofre.

 

P - Qual a data do seu nascimento?

 

R - Eu nasci no dia 26 de março de 1936.

 

P - Agora fala um pouquinho dos seus pais, nome dos seus avós...

 

R - Tá bom, meu pai Kid Jofre, né, que nem eu falei a pouco, ele veio da Argentina em, acho que em 1908, uma coisa assim... E veio a chamado do irmão dele, Kid Prate, que já residia aqui em São Paulo, no Brasil, e lidava com luta livre e boxe. Meu pai veio pra ajudá-lo. Meu pai veio pra cá e fez o curso de professor de Educação Física, se formou em técnico de boxe e handebol ou basquetebol, não tenho bem lembrança, aí ele começou a ajudar esse Kid Prate, meu tio, em sua academia. Depois o meu tio faleceu, então meu pai acabou ficando com a academia e conheceu uma infinidade de pessoas, veio a conhecer também os Zumbanos, os Zumbanos, onde possivelmente meu pai que levava as luvas de boxe pra consertar, onde o Ilgino Zumbano consertava, ele levou lá na casa, casa dos Zumbanos, e ficou conhecendo a Dona Angelina, que veio ser a minha mãe, Angelina Zumbano, depois foi Jofre, e... Acabou conhecendo a Angelina, ah... Depois casaram né, depois de um tempo e tal, aí nasceu a minha primeira irmã, a Lucrécia Maria Jofre. Eu, Éder Jofre, Dagoberto Jofre e Mauro Jofre, que é o caçula... Somos quatro irmãos, que eu comecei a lutar mais cedo que eles, eu primeiro que eles principalmente por causa da idade. Era um pouquinho mais velho né, e comecei a lutar assim quando eu tinha meus oito anos de idade. Foi a primeira vez que eu fiz uma exibição com outro garoto e num ginásio, mas antes eu já havia entrado no ringue com meu tio, o Ricardo Zumbano, que precisou ficar de joelhos para eu treinar com ele, porque ele era maior que eu né, e eu, pequenininho pô, quatro anos. Ele teve que ficar de joelhos. Depois eu fiz uma exibição com a minha irmã, a Lucrécia, também não sei se foi num circo, onde foi aí, que eu fiz uma exibição com ela...

 

P - Como assim? Com a sua irmã?

 

R - Com a minha irmã.

 

P - Como é que era?

 

R – Então, gozado, né... Mas as luvas eram enormes, grandonas, que vinham até aqui assim no cotovelo da gente, não era a luva que era grande, nós que éramos pequenos (risos), e eu fiz tudo assim...

 

P - Ela lutou bem?

 

R - Fizemos bem, todo mundo gostou, aplaudiram, e veja... Bem, é daí que a gente teve um relacionamento maior com este esporte, né? Meus parentes, todos lutando. Da família Zumbano lutaram o Ilgino, o Waldemar, o Erasmo, o Antônio, o Rhalf e o Ricardo Zumbano. Seis que lutaram boxe, e depois na família ficaram os sobrinhos deles, que eram... Foi o Silvano Salvador Zumbano que também lutou, o Waldemar lutou, quem mais? O Raul Jofre, o Mário... Eram filhos do Kid Prate, irmão do meu pai, na família dele aí, tem até hoje os que lutaram... Acho que dá uns 20 pugilistas ou por aí, e o Claudio Toneli, que se casou com a minha irmã, também foi campeão. Não só amador como também profissional, com peso leve, se eu não me engano. Você vê aí, vocês veem aí que a família toda realmente lutou, e vamos lembrar aqui também, não me deixe esquecer, a Olga Zumbano, a Dona Olga que se casou com o Hans Nobert Novutner aqui no Brasil, foi passar a lua-de-mel em Viena e acabou estourando a Guerra. Ele acabou ficando lá, acabaram ficando lá por dez anos, dez anos na Alemanha e ele teve que servir o Exército e tal, ficou na Guerra, aquela coisa toda. E depois a minha tia, nos intervalos, quando ela podia, ela aprendeu por lá a luta livre, ela quem trouxe a luta livre pras mulheres aqui no Brasil, ela veio com uma, se eu não me engano uma campeã lá, a Nina Ritchie, não tenho mais lembrança do nome, mas parece que era isso.

 

P - Você lembra em que ano foi que trouxeram, ela trouxe a...

 

R - Eu nem lutava, acho que pelo ano de mil novecentos e deixa eu ver... Quarenta e oito, cinqüenta por aí, e...

 

P - Como é que era a sua casa, com todo mundo da família convivendo com os mesmos interesses...

 

R - Ô que beleza, eu tenho lembranças. Nós morávamos lá no Parque Peruche, um bairro que é subdistrito da Casa Verde, longe, longe, antes era longe, hoje é pertinho, hoje 15 minutos, dez, 15 minutos a gente chega lá, e a minha tia morava lá junto conosco, a Dona, a Cleonice, e na casa do meio morava meu pai, nós da família e na casa do lado, do outro lado esquerdo morava a... Os Zumbanos, Salvador Zumbano e tal, e lá nós, nesse bairro, a gente brincava muito, puxa vida... Olha a minha infância se eu pudesse voltar, eu tive uma infância... Eu queria voltar à infância que eu tive no passado, no Parque Peruche. Porque... Porque eu brincava de jogar pião, é eu brincava de malha, jogava malha, é de... De futebol, jogava futebol e ia nadar após o futebol, ia a pé, pegar rã, ia roubar a chácara da japonesa, coitada, certo... E tudo isso a gente fazia, fazia com o maior prazer, com alegria, corria atrás de balão, empinava barrilhete, vida de garoto mesmo, uma juventude linda, foi muito, muito bom. Foi espetacular!

 

P - E como é que vocês conversavam em família sobre o boxe, a luta? Era assunto da família todo dia? Você ouvia isso dia e noite...

 

R - Não, honestamente não, até onde eu lembro os meus tios, o Rhalf e o Antônio Zumbano é que estavam no auge, estavam lutando naquela época, e o Zumbanão era um, era um peso médio com setenta e poucos quilos, ele não era muito alto, mas era muito forte, tinha um pancada... Com as duas mãos, acho que eu adquiri dele essa, isso também, porque ele pegava com ambas as mãos, pegava muito forte e ganhava muitas lutas por nocaute, certo. Mas ele era muito farrista. O Zumbanão, ele gostava muito de bilhar, jogo de baralho e tal, não vícios maiores, né, assim, mas ele se dava, ficava muito, perdia muita noite de sono nesses lugares aí, entende? E nós nos preparávamos bem física e tecnicamente. Então, quando chegava para a luta ele punha a língua de fora, logo, se não derrubava logo em quatro, cinco rounds, ele cansava, e aí é... Perdia a luta. Como ele veio a perder do Oitenta e Quatro, um camarada que esteve no EUA por muito tempo, é... Se chama Osvaldo Silva, apelidado de Oitenta e Quatro, e ele teve em Nova Iorque, teve em Los Angeles, em Washington lutando... Esse rapaz, né, depois veio aqui pro Brasil já com essa técnica toda, essa, e chegou a ganhar do Zumbanão por pontos.

 

P - E essas lutas dos seus parentes, desde que idade... Você ia assistir? Você acompanhava?

 

R - Eu lembro que quando eu tinha uns doze, 14 anos, 14 anos é... Meu tio Ilgino me levou escondido e tal pra eu assistir no Pacaembu, o meu tio Zumbanão contra o Oitenta e Quatro, o Osvaldo Silva, e... Mas eu assisti só um ou dois rounds, porque aí como eu tava bem pertinho do ringue parece que o fiscal viu e... Sabe naquela época não podia mesmo, uma ignorância danada né? Aí eu tive que ir pro vestiário e acabei não assistindo a luta.

 

P - E qual foi a sua impressão de ver essa primeira luta?

 

R - Eu, até onde eu posso me lembrar, eu lembro que foi uma emoção total, um nervosismo, eu queria vê-lo, queria vê-lo derrubar logo o camarada, logo no primeiro round, sabe? E quando eu o vi levar um soco, puxa vida, eu ficava... Eu me doía. Doía em mim porque eu os tinha como heróis, heróis como o Capitão Marvel, o Super-Homem, o Capitão América, sabe esse pessoal do gibi, o Tocha Humana... Por que eu me via o garoto, que nem o Batman tinha o Robin, o Robin era, eu me via eu como Robin, certo, e assim.

 

P - Porque não o Batman?

 

R - Hã?

 

P - Porque não o Batman?

 

R - Porque não o Batman? Também, então ou o Batman, eu era o Robin... Ah! O Batman? Não. Porque eu era fraquinho. Eu era magrinho... Quando eu... Até hoje, que eu peso 57 quilos, 58 quilos por aí, e... Naquela época eu era um molequinho magrinho, muito magrinho, tanto é verdade que eu comecei no boxe quando eu tinha uns 50 quilos, era peso mosca, e até 51 eu ficava com um quilo a menos, 50 quilos... Aí, depois, veio o peso galo, que era até 54, como amador, e depois como profissional peso galo era até 53, 524 gramas, e se a gente quisesse, poderia falar agora como profissional. Eu lembro que meu pai me chamou e falou: "Éder, vem cá, vamos conversar sério. Você, já como amador, você já fez de tudo, já participou de Olimpíada, Campeonato, é... Latino-americano Extra, é... Esses campeonatos todos, e já ganhou o Campeonato da Gazeta, Novíssimos, Novos, foi campeão, bicampeão paulista, bicampeão brasileiro, campeão da taça Ramon Perdon Platero, uma disputada aqui no Brasil, outra disputada no Uruguai também venci, certo, campeão das Luvas de Ouro... Então está na hora de você passar pro profissional e como profissional você vai é ganhar dinheiro, vai ganhar fama, não vou dizer que você vai ser um campeão, mas que você vai ganhar dinheiro vai, porque nós vamos trazer... Tinha o Jacó Naum, um empresário, um bom empresário daquela época, que trazia do Uruguai, do Paraguai, argentino, peruano pra lutar conosco aqui, e naquela época nós tínhamos grandes pugilistas, bons pugilistas, que realmente todo este pessoal que vinha pra cá, nós dávamos couro neles, como Paulo Sacomã, o Luizão, Gibi, Galaço. O Galaço foi o primeiro campeão sul-americano profissional, ninguém, quase ninguém sabe, ele era um peso, peso leve e era rápido e valente, uma valentia total. Foi o nosso primeiro campeão sul-americano, e hoje é um coitado, até a gente fica chateado em vê-lo em reuniões de boxe e ninguém sabe quem foi ele, sabe, é chato isso. Que mais?

 

P - Nessa, nessa turma de que você falou Luizão, Galaço, como que eles te tratavam?

 

R - Como eles me tratavam?

 

P - É.

 

R - Me tratavam muitíssimo bem. Eu também sempre tratei muito bem todos os meus colegas do boxe, com raríssima exceção. Se vocês me permitem, eu quero contar uma passagem aqui. Quando eu estava iniciando no profissionalismo tinha um tal de Brito que veio de uma outra academia, de um outro técnico, e nós fazíamos luva lá na... Lá na academia, fizemos umas duas ou três vezes. Eu, modéstia parte, eu quebrava a cara dele, eu ganhava dele né, e... Aí, depois ele saiu, foi pra um outro técnico, foi com o Molina, um técnico muito bom também, um argentino que se radicou aqui no Brasil né, e trouxe grandes pugilistas lá da Argentina e... Então ele trouxe, ele começou a treinar esse rapaz, e esse rapaz, uma bobagem dele, uma besteira dele, foi falar: "não, agora eu vou começar a acabar com a academia do Kid Jofre, ganhando do filho dele, do Éder Jofre", ô, mas eu fiquei... (Risos) Ia falar um palavrão. (Risos) Eu fiquei muito nervoso, eu fiquei chateado, porque eu falei o que? Meu pai batalhou a vida toda, um homem simples, humilde, trabalhador, honesto, sabe, treinador de boxe aqui fazendo campeões, e esse cara fala isso aí, treinei direitinho e falei: “vamos fazer a luta, né” aceitei a luta, então, era luta de neo-profissional, quer dizer se... A gente fazia, tinha direito a fazer, três ou quatro lutas de cinco ou seis rounds de dois minutos por descanso, e se passasse neste teste, a gente podia então passar a profissional. Eu falei vamos, vamos... Eu quero lutar com ele nem... Vamos lutar, mas eu não agüentei, eu fiquei com tanta raiva, com tanta raiva do cara que no primeiro round eu já o derrubei, uma, duas vezes e acabou a luta. Eu ganhei dele por nocaute e por abandono até, que bati tanto nele, acho que até hoje ele está com um galo na cabeça e no olho. (Risos) Isso foi... Essa foi uma história rapidinha assim do... Que a gente pode contar.

 

P - E quando não entra a emoção, na hora em que um pugilista sobe pra começar uma luta isso altera a força e o impacto?

 

R - Não que altera força nenhuma, mas dá uma força íntima, uma força de dentro da gente que mexe com os brios do pugilista que tem moral, que tem vontade, que quer progredir na vida, ou na sua arte, no seu esporte, que quer se sobrepujar aos demais, esse, quando alguém mexe com os seus brios, dá vontade de você sair, arrebentar logo o camarada, ganhar logo pra mostrar que você é o melhor. Isso ocorreu sim algumas vezes comigo, com o José Legra, que é um pugilista cubano, naturalizado espanhol, na disputa do Título pelo... Título Peso Pena Mundial, lá em Brasília, no dia cinco de maio de mil novecentos e... 73. Ganhei por pontos dele, ele foi um camarada que me deu um soco na cabeça e o chão subiu, eu não cai, o chão que veio subindo até mim. Bate nas cordas, na hora que eu bati nas cordas assim, eu ba... Balancei a cabeça assim. Eu vi minha mãe lá chorando no ombro de uma pessoa, a minha esposa, o meu pai lá com a toalha assim, ele punha a toalha aqui assim no pescoço né, assim encolhido tão... Eu fiquei... Eu falei o que? Eu cai... Aí eu levantei rápido e tal nem abri a contagem fui pro canto, bater o gol, né, e aí meu pai falou: Pô, Éder, quê que foi? Você se descobriu? Que negócio é esse tal, “olha essa guarda” não sei o que... E tal. Aí ele chamou atenção tal, me abanou direitinho, fez massagem, aí eu voltei pro quarto round. Quase que eu o derrubo, mas bati tanto no negão que depois da luta (Risos) ele me encontrou e falou: “Jofre, Ay que sacar su braço esquierdo, pegou mui fuerte”.Pra aquele que não entendeu ele falou: “Éder é preciso cortar sua mão esquerda porque cê pega muito forte”. Eu falei “ah negão, se não me seguram eu te... Te punha nocaute” (Risos)... José Legra, bom pugilista, tinha sido campeão, é... Já de peso galo, peso pena, bom pugilista era o Legra. Quê mais?

 

P - Voltando um pouquinho na infância, você tinha um sonho quando era menino? Você olhava no espelho, você já falou mais ou menos, mas conta direito essa história.

 

R - Tá bom. Quando eu tinha meus seis, oito anos de idade, é... Meus tios lutando, meu pai técnico de boxe, eu não saia da academia, eu via todos aqueles pugilistas, aquela coisa toda, meus tios, e... Eu chegava em casa, tirava a camisa assim tal, ficava na frente do espelho, fazendo muque, fazendo, enchia o peito e tal, falava “ora vou ser campeão, vou ser campeão!” não dizia que era campeão do Mundo, que eu queria ser campeão do Mundo, mas eu queria ser campeão, queria ser campeão, eu sempre fui influenciado, e olha aí, até aí o gibi me deu alguma condição, assim, de eu... Deu-me força vai pra eu seguir no boxe ou lutar boxe, então eu me baseava, eu falei aqui há um tempinho atrás, no Tocha Humana né, no Super-homem esse pessoal assim, que defendia os pobre e essas coisas, então eu me via um herói como eles, queria me ver...

 

P - Quem comprava esses gibis era você?

 

R - Era eu mesmo. Eu, meu pai, meus tios, também liam muito, né? O Ricardo naquela época tinha uns 20 anos, coisa assim, 18 anos e tal, então eles acompanhavam. O Rhalf também tinha muito gibi, e era gostoso, era bom. Veja bem, eu mesmo atualmente sou contra gibi, a violência, essas coisas todas, mas agora vocês mesmo analisam, lembram bem o que eu já falei nesses minutos atrás sobre esporte ou sobre o gibi que me influenciou, mas me influenciou positivamente. Eu fui do lado dos moçinhos, não do lado dos bandidos, certo, ao passo que infelizmente hoje a molecada vai pro lado do bandido. Infelizmente, eu digo, eu fico muito aborrecido com isso. Eu queria dizer uma coisa também pra vocês que eu sou espírita, às vezes espírito de porco, mas atualmente sou espírita. E como espírita, em 1976 eu fui assim que eu parei de lutar boxe, eu fui convidado pelo Elói dos Santos Teixeira, um amigo meu que me levou na Casa Transitória pra conhecer. A Casa Transitória naquela época tinha 20 crianças que faziam é... Primário, esporte, naquela casa e tal, e aprendiam alguma profissão. Aí eu comecei a me dedicar a essa garotada toda, consegui a... Um campo de futebol gramadinho pra eles, alambrado, vestiário... Tudo isso com uma entidade aí que nos forneceu todo o material e nós construímos isso. E essa Casa Transitória, ela atualmente tem mais de 300 crianças lá, onde tem curso pré-profissionalizante, tem o primário e educação esportiva. E eu me dediquei a essa garotada toda porque eu acho que tem que se dedicar. Eu aprendi que as crianças devem fazer esporte, tem que se educar, ao invés de ficar fumando cigarro, ou bebendo bebida alcoólica, ou algum tóxico qualquer.

 

P - Essa Casa Transitória é o que, é uma escola?

 

R - É uma instituição espírita e... Já há muitos anos, né, desde que... Está aí, que ela funciona, funciona muito bem. Naquela época quem forneceu, quem doou a área foi o prefeito Jânio Quadros, mas era um brejo e os espíritas batalhando, batalhando, conseguiram caminhão de um e de outro, essas coisas todas, conseguiram construir essa casa que eu convido vocês pra irem visitar um dia porque ela é espetacular, espetacular, ela tem vários cursos, tem padaria, sabe, é espetacular.

 

P - Há quem diga que você gosta muito de futebol. Não tem um time aí?

 

R - Tem... Eu gosto sim, sempre gostei de futebol e se eu jogasse futebol como eu lutava boxe, eu acho que eu seria jogador de futebol. Seria porque eu amo, e qual é o brasileiro que não gosta de futebol? Raro é o que não gosta, não é verdade? E depois, pra mim, com toda sinceridade, sem menosprezar ninguém ou o esporte futebol... Eu fico muito abismado, fico chateado, fico perplexo quando eu vejo um jogador de futebol com 30 anos, com 35 anos, dizendo que é veterano. Ora, eu lutei boxe sozinho dentro de um ringue, sozinho eu contra um adversário que também com o mesmo potencial que eu, um igual a mim e tudo, lutei com os camarada de igual pra igual e fui campeão do mundo com 37 anos. O cara com 30 anos já falam que é veterano no futebol. Futebol que cara mata bola no peito e desce na terra, no chão, na grama, chuta, dribla pra lá, dribla pra cá, corre pra lá, corre pra cá, descansa um pouco e tal, se tá cansado ele chuta a bola pro outro, pro adversário, depois se tiver cansado, se não tiver em condições ele sai, não tá levando pancada, com 30 anos é veterano? Que veterano o que? Veterano aqui no Brasil, porque existe essa coisa né, e... Os jogadores de futebol jogam seguidamente, também tem disso, às vezes até três vezes por semana, ou duas vezes, e aí depois dá um desgaste, mas é um desgaste não físico, é um desgaste mais mental no meu modo de entender, porque pra mim jogar futebol é diversão.

 

P - E você acha que isso acontece por quê?

 

R - Do que? Do...

 

P - De acharem que está velho com 30 anos.

 

R – No futebol?

 

P - Aham...

 

R - Não, vê que todo mundo fala isso, que o cara já é veterano. Dizem que é veterano, que é...

 

P - Você acha que é um esporte que requer mais do que o boxe?

 

R - Não, é o contrário. O boxe é... Calcula, duvido, olha aposto, aposto com quem quiser. Você pega um jogador que joga 90 minutos de futebol, correndo pra lá e pra cá e tal, põe ele pra fazer, não vou dizer dez rounds, cinco rounds de três minutos com um amador qualquer aí, ele não faz, não agüenta, ele cansa. Por quê? O preparo é outro, embora ele tenha a corrida, aquela coisa toda que já ajuda, mas o preparo é outro, a técnica é outra, é que nem o pugilista que faz também 15 rounds, naquela época existia 15 rounds, que nem eu já fiz duas ou três vezes, 15 rounds, mas vamos supor nadar 100 metros, eu não nado e um amador qualquer aí de natação vai e ganha da gente fácil, cada um no seu esporte, na sua arte. Mas eu quero enfatizar bem, deixar bem claro que ah... Pra mim esse é um complexo que as pessoas têm, de que um esportista ou um jogador de futebol de 32, 35 anos é veterano. Se nós acabarmos com isso, vamos ver muitos outros Zizinho da vida, Cerezo jogando futebol e dando baile até com 35, 38 anos.

 

 P - É... Então, esse futebol na sua vida foi é uma coisa assim de lazer, nunca foi um sonho pra você.

 

R - É foi de lazer justamente porque não tive, não tive a aptidão, não tive o jeito que eu tive no boxe, né? Pra lutar boxe, se eu tivesse essa aptidão, essa classe, essa técnica de jogar boxe, se eu tivesse no futebol, pode ter certeza que eu seria jogador de futebol, estaria jogando até hoje.

 

P - Você começou cedo no boxe, né? Eu queria saber um pouco da sua adolescência, sei que o esporte demanda muito tempo no preparo e treinamento.

 

R - Certo, sem duvida.

 

P - Como é que você conciliava é... A vida afetiva, as namoradas. Como é que era esse lazer de adolescência mesmo?

 

R - Veja... Que nem eu disse a pouco, eu tive no Parque Peruche, minha infância foi lá desde os quatro anos, e lá eu joguei futebol, eu lutava boxe no campo, a turma cercava lá, meus tios cercavam, faziam ringue e... É... Ia na chácara da japonesa roubar, ia... Ia matar pardal, os passarinhos e tal, com estilingue, ia correr atrás de balão, essas coisas toda e a minha infância foi também passada um bom tempo na academia, nas academias que meu pai teve... Como na São João, na academia da Barra Funda, e na academia da Santa Efigênia, e lhe dando vendo a... Os rapazes lá treinando e tal, eles mesmo me pegavam punha dentro do ringue pra brincar com eles, ou me segurava assim, pra eu bater no saco de pushing ball, me levantavam porque eu era molequinho e não alcançava, e eu fui vivendo o boxe, eu acho que é... Com o boxe eu pude me realizar, acho não, tenho certeza me realizei como gente, como homem, como pessoa, porque o boxe... Eu quero deixar aqui uma coisa bem clara pra todos vocês, veja bem o que eu vou falar: O boxe, eu acho que todo homem, todo homem deveria praticar pelo menos durante seis meses, um ano deveria de praticar o boxe. Eu vou dizer o porquê: Pra mim, quando é que vocês viram aí que um pugilista matou o outro a pancada ou assaltou ou roubou e tal? Raro, pouquíssimas vezes isso ocorreu, então por quê? Se você pergunta para um psicólogo ou psiquiatra eles vão falar que o boxe é um esporte onde o rapaz, a pessoa mesmo que saia, que fique nervosa e tal, fazendo boxe, praticando, ele extravasa, ele deixa a agressividade dentro de um ringue, dentro da academia, dentro de um ginásio, e na rua se torna normal, se torna um camarada calmo, brincalhão, e acessível, sabe. É por causa do boxe, por causa do da agressividade que ele deixa dentro da academia.

 

P - Agora quando vocês são ofendidos, vocês sabem se defender. O caso daquela passagem né, com a sua namorada.

 

R - (Risos) Você lembrou bem. Bom, felizmente foram poucas as vezes que eu tive que mostra ah... Que o boxe era melhor do que a pessoa que não praticam o esporte. Eu estava saindo de um cinema, o Cine São José... Ali no bairro do Parque Peruche, quase com a Casa Verde, e... Eram tipo dez horas da noite, mais ou menos, e nós vínhamos subindo a Av. Baruel, e quase de esquina assim, quase quando estava chegando numa esquina, vieram dois rapazes, um pretinho e o outro branco... O branquinho com um pandeiro na mão. Eles vinham de uma festa, só podia ser, e vinham falando uns palavrões que pelo amor de Deus, não dava pra ficar quietinho, não é certo. E eu me aborreci, fiquei chateado, eu falei puxa vida e agora, o que é que eu faço? Certo! Eu fui andando, andando e eles continuaram falando, isso que me deixou muito zangado, me deixou realmente zangado, porque aí eu falei: Cida, vai andando, vai andando um pouquinho aí que eu vou voltar e vou falar com esse cara. Aí eu voltei, bati no ombro do cara e assim falei: “Ô meu, pera aí, cê não tá vendo, eu tô com minha namorada, tô com ela e tal... É moça, não sei o que”. Tô batendo esse papo com ele e o outro, percebo o outro aqui com o pandeiro pra me dar nas costas, na cabeça. Aí eu fiz assim com o ombro. “Peinh!” Pegou aqui, daqui já dei outro, “Peinh!” pegou uma só bumba, caiu lá. Aí o neguinho começou a ciscar, fingir que ia pegar um negócio ou ia pegar mesmo não sei o quê, pega alguma coisa aqui da cintura, eu tirei rápido meu paletó joguei na cara dele e dei “Tum”... Pegou no peito “bum”... Ele caiu lá, aí eu falei bom, em qual que eu vou bater agora? (Risos) Aí, eu fui no branquinho que tava lá deitado assim, eu ia... Ia, ainda bem que eu não bati, eu ia amassar o nariz dele, ia dar um pancada firme, ele tava com a cabeça no cimento, eu ia dar uma pancada nele aí na cara, aí eu lembrei...

 

P - Que outras coisas te tiram do sério?

 

R - Ah... Ó, veja, felizmente poucas são as coisas, mas uma coisa que poderia me tirar do sério é ver desigualdade, ver alguém, vamos supor dois, três camaradas batendo num só, certo. Vendo, suponhamos, um homem querer bater numa mulher, também não dá certo. Essas coisas me deixam, me tiram do sério. Ou alguém ofender, xingar, a ignorância brutal, ignorância... O cara pode ser ignorante de não saber ler e escrever, mas uma educação ele tem que ter. E eu vou falar uma coisa hoje: Hoje em dia eu fico muito revoltado, muito revoltado de ver essa garotada de 14, 15 anos, que não sabe dar o lugar para uma pessoa idosa numa fila, ou para um senhor, ou para uma senhora, ou pra sentar em algum lugar, não sabe falar bom dia, boa tarde, boa noite, ou por favor, com licença, muito obrigado, eu... É uma ignorância total, eu fico com raiva com isso, fico muito com raiva.

 

P - E da escola você se lembra...

 

R - (Riso) Lembro, lembro da escola, lembro da minha primeira professora, a D. Elvira, D. Elvira, puxa uma senhora bacanérrima. De tanto me proteger, coitadinha, ela me protegia muito porque ela conhecia meu pai, minha mãe, conhecia todo mundo, lhe dava lá em casa, eu não aprendi muito ela não, (Risos) não me puxava a orelha, nos outros ela dava com a régua na cabeça, e comigo tava tudo certo. Eu sempre acertava, entende? (Risos) A D. Elvira, gente fina, bacana. Um tempo gostoso da vida da gente que hoje em dia a gente se arrepende e gostaria que voltasse essa época de escola, que a gente levantava cedinho e tal, com aquela preguiça, uma preguiça danada de se lavar e colocar roupa de escola, e livro em baixo do braço, andar 20 minutos a pé pra chegar na escola, que eu andava, né? Não por querer, porque não tinha condução mesmo, entende? Mas foi, era bom, era bom... Hoje, né, eu repito, hoje a gente vê isso com tristeza, com saudades daquele tempo gostoso.

 

P - Mas você gostava de estudar?

 

R - Não! Não gostava de estudar, nunca gostei de estudar, nunca gostei... Por que eu vou fazer (Risos). Não gostei, não gostava de estudar. Mas eu cheguei a fazer o primário, eu fiz o primário, eu fiz... Fui até o segundo ano ginasial, no Liceu de Artes e Ofícios eu fiz um curso, é um pré pra entrar como, como desenhista arquitetônico. Passei no teste, e vejam bem porque tá aqui um ex-campeão do mundo, é tudo isso que eu fiz, né? Eu tentei fazer, não deu certo, apesar de eu ter tirado o diploma de do primário, né, do curso profissionalizante também tentei. Bom, e esse no Liceu de Artes e Ofícios, no primeiro dia caiu o teto, “pumba”, caiu o teto, e eu comprei meu material, pois eu trabalhava naquela época, trabalhava no chaveiro Zumbano, e aí eu comprei meu material com o dinheiro certo. Não que meu pai não tivesse, mas eu quis comprar. Eu tinha, eu comprei com a... A prancheta, a régua, o compasso, tira-linha e outras canetas que necessitava para aquele curso. Fui à primeira aula, na primeira aula, aí caiu o teto. No segun... No segundo dia eles falaram “não tal, vem aqui semana que vem”, Na semana seguinte, não devolveram o material, olha até que chegou uma hora que eles falaram: “Ah, não sei, sabe, não sei onde está o material, vai vê lá no depósito”. Fui no depósito, pra não ir sem nada, só fui com uma prancheta velha usada, e uma régua meio quebrada e tal que eu peguei porque eu falei “bom, pelo menos eu vou sair com isso, né?” e cheguei com tudo novinho. Aborreci-me e fui treinar boxe, outra vez e... Fui lutar.

 

P - Você tentou não ir pro boxe...

 

R - É.

 

P - Aí voltou pro Boxe?

 

R - E aí voltei pro boxe. Eu também, quando trabalhava no chaveiro conheci o Sr. Fritz Zeaten, um alemão que havia também lutado lá na Alemanha e veio pro Brasil, e ele ajudava meu pai na academia lá, e ele me apresentou pro S. Walter Branco, um desenhista arqui... É... Desenhista... É... De interior, ou seja, decoração de interiores, né, móveis, é... Um ambiente... Barzinho, salas, essas coisas todas, uma casa toda... Ele ensinou como a gente decorava, e eu tava aprendendo com ele tal, cheguei a pintar em duas lojas de artigos diferentes um painel que eu bolei, eu bolei, a loja era de tecidos então eu desenhei uma pessoa estilizada é... É... Numa máquina de tear, ah... Fazendo uma cortina ou um tecido, uma coisa assim, sabe? O início lá, os fios, aquela coisa, e tudo estilizado, moderno. Pena que... Só se eu fosse lá e alguém pudesse raspar e tal, mas ficou bonito, todo mundo gostou, entende? Numa casa, numa residência, num barzinho, num ambiente bonito da casa assim, com uma parede meio curva assim, tal, eu pintei é... Uns africanos batendo atabaque, uma senhora, uma moça dançando, tudo estilizado assim, lá atrás uma lua bonita, o raio, pô, uma beleza, a coisa ficou bonita, gostaram.

 

P - Esse tecido ainda existe?

 

R - Não, infelizmente, né? Faz muitos anos, muitos anos atrás mesmo, e hoje em dia já não é... A casa existe, a casa existe, fica ali na na Barão de Itapetininga, na galeria Barão de Itapetininga, entre a D. José de Barros e a Barão, galeria Barão.

 

P - Quem que estimulava esse trabalho de pintura e tal? Porque seu pai queria levar você pro ringue...

 

R - Certo. É quem me incentivou foi o Paraná, um técnico de boxe que era do Penha. Ele me dava caderno, ele via meus desenhos, que eu vivia desenhando na mesma academia nas horas vagas. Eu pegava um pedaço de papel lá ficava desenhado pugilista ou a academia ou coisa que me vinha na cabeça. Ah, eu esqueci de falar uma coisa. Quando eu tinha dez anos, oito pra dez anos, eu lia muito gibi e num dos gibis tinha lá concurso pra ver quem desenhava o Super-homem mais perfeito, como aquele que tava na página, adivinha quem ganhou? (Risos) É... Eu mesmo. Eu ganhei, ganhei naquela época dez mil réis. Eram mil réis naquela época, deu pra... Olha, puxa, compramos bastante coisa viu. Eu ganhei, consegui. Primeiro lugar eu consegui.

 

P - Desses gibis, qual era o seu herói preferido?

 

R - Era o Super-Homem... Eu tinha... Olha, o Super-Homem era o... O Super-Homem, Tocha Humana, Batman.

 

P - Então todos!

 

R - Todos esses heróis.

 

P - Não tinha um mais... Querido.

 

R - O Popeye, o Popeye que eu gostava muito. O Ferrabrás, quem é da minha época vai lembrar o Ferrabrás. Ele tomava uma pílula, uma coisa assim e tal, se transformava num cara com corpo de atleta, né? De halterofilista, e voava, dava uns pulos lá que eram quilômetros e quilômetros de distância tal, não chegava a voar. mas... Ferrabrás, lembrei.

 

P - Você fez serviço militar?

 

R - Não, eu não fiz serviço militar, nem sei por quê. Eu fui lá, me inscrevi. Ah, excesso de contingente, quer dizer muita gente, e... Então não precisaram do baixinho aqui.

 

P - Voltando um pouquinho, esse dom... Você cursou um pouco o curso de desenho, né? Caiu o teto e tal. Agora é um dom inato o seu de desenhar, não é isso?

 

R – É. Eu tenho um quadro na minha casa que eu fiz e... Não... Todo mundo que vai e vê, mesmo eu não estando presente pra não puxar o saco, vamos deixar bem claro, acha que está muito bom, que está muito bom. Eu não tenho uma técnica certa, eu vejo, eu vou fazendo. Já cheguei a pintar com tudo quanto é lápis e esferográfica, caneta esferográfica, azul, vermelha, verde, preta... Tem desenho ali que eu fiz aquela mocinha que o Renoir pintou com aquele chapéu bonito, só nessa com essa caneta azul, vermelha, verde e preta, mas ficou bonita mesmo, ficou bonito, até eu admiro. (Risos)

 

P - Como que esse hobby seu de desenhar está junto com a sua carreira, ou foi antes ou foi depois, ou ele vem junto?

 

R - Não, eu acho que ele veio um pouco antes... Um pouco antes da minha carreira, que nem eu disse, eu tinha meus oito anos, acho que tinha oito anos quando desenhei esse Super-Homem e ganhei esse prêmio. Nessa época eu só tinha feito uma exibição lá com a minha irmã, foi mais ou menos nessa época. E praticamente caminhou junto.

 

P - E hoje você ainda desenha?

 

R – Como?

 

P - Você desenha ainda?

 

R – É, desenho, mas são raras as vezes que eu desenho... E quando eu me punha a desenhar, mesmo assim fora de forma, da pra fazer alguma coisa. Faço alguma coisinha.

 

P - Agora como é que foi a sua saída da casa dos seus pais? Foi o casamento?

 

R - Ah, só pelo casamento, pelo casamento. E sabe que eu... Vou confessar uma coisa aqui eu me sentir, sabe... É que eu morei no mesmo bairro. Morei no mesmo bairro do meu pai, né? Apenas uma rua de distância e tal, mas claro, eu casei... Se eu optei pelo casamento e escolhi a mulher pra viver comigo, é porque realmente eu queria viver assim dessa maneira. Mas eu senti muito quando... Eu vivia na casa dos meus pais. Eu acho que é normal, né? Toda, toda pessoa que casa logo volta, e vai visitar os pais com mais freqüência, depois vai diminuindo a freqüência, né, da casa e tal, mas eu lembro muito bem que eu vivia, ficava muito com eles. Meus pais foram tudo pra mim, tudo, tudo, minha mãe, minha mãe era uma moça, uma mulher brincalhona demais, contava piada a toda hora, vivia alegre, feliz, sabe? Meu pai tinha um rosto carrancudo, mas um coração desse tamanho. Amava as crianças, adorava, ele chorava quando não podia ajudar ou via alguém fazer mal para uma criança, ou lia alguma coisa assim, meu pai, puxa vida... Eu acho que estou na Casa Transitória hoje, onde tem essas crianças todas, devido ao meu pai, alguma coisa deve ter puxado aí que ele, eu acho que está contente com a gente também, embora eu tenha recebido uma carta psicografada, uma... De um espírita, dizendo que eu devia me dedicar um pouquinho mais a Casa Transitória, onde tem essas 300 crianças, mas eu estou fazendo um projeto aí como vereador que vai abranger toda essa criançada, toda, toda entre aspas, eu quero ver se pegar um número maior de crianças, maior possível, pra levar para um campo, um lugar tipo uma chácara, onde eles tenham lazer, cultura, educação, saúde, tudo isso. Vamos ver se a gente consegue. Eu tive no Estados Unidos faz um ano e pouco, estivemos lá com o vice-presidente do banco Chase Manhattan, e falei pra ele desse nosso projeto, e ele falou que daria apoio, vamos ver... Pra gente iniciar a coisa que ele vai dar apoio. E como acredito que muitos banqueiros, de todos os países que ajudam a... A essa garotada... Mas vejam bem, eu quero fazer uma fundação, fica aqui a minha responsabilidade, é minha e nossa de a gente realmente quer fazer uma coisa séria, séria, eu disse séria mesmo, na concepção da palavra, pra realmente tirar essa molecada da rua, na medida do possível.

 

P - Éder, conta um pouco... Estamos quase chegando ao final da entrevista, conta um pouco como foi que você se relacionou com o São Paulo, e em seguida como é que foi que você marcou o final da sua carreira.

 

 R - Bom, com o São Paulo eu acho que eu nasci são-paulino, e repito né? Com oito anos já, eu já tinha feito exibições e tudo. Tenho uma fotografia com muito orgulho, com luvas tal e o calção onde aparece aquele distintivo mais bonito do Brasil, que é o do São Paulo Futebol Clube, as cores branca, preta e vermelha. E você riu aí mas é verdade, viu? (Risos) Pode... Mas eu... A minha vida no... Quando garoto e no e no São Paulo, eu adorava, que nem eu disse a pouco, não sei mais como eu inicio a coisa. Perdão, pergunta de novo pra eu ver, é que às vezes eu me perco que eu quero falar tanta coisa do São Paulo.

 

P - Em que momento o clube entra na sua vida? E você já contou toda essa parte em que momento o clube entra e o que ele significa.

 

R - Significa... O SPFC sim... Sim... Veja bem, ainda bem que existe um São Paulo Futebol Clube, como existe um Corinthians, um Palmeiras, uma Portuguesa, um Jabaquara que tá voltando agora, porque se nós não tivéssemos isso, nós, seres humanos, não tivéssemos pra quem torcer, não tivessemos uma emoção, não tivesse... Uma pessoa que você gostasse de ver, de conversar, ou uma outra que gostasse de conversar, de contar piada, outra de jogar futebol junto, outra de jogar bilhar, outra de dançar, o... O ser humano ficaria restringido a quê? Certo? Então, nós temos que ter essas coisas pra podermos viver... Viver. Eu gosto de uma cor, você gosta de outra cor, você de outra, eu gosto de dançar, outra pessoa já não gosta, mas gosta de outro tipo de dança até ou... Ou outra diversão, entende? Então eu acho que a humanidade, cada um é cada um, cada um é cada um, de uma família... Uma família pode ter quatro filhos, dois podem ser ladrões e dois podem ser padres, não é verdade? Então a gente precisa, no fundo no fundo, onde que eu vejo a coisa? O que nós precisamos é nos conscientizarmos que estamos aqui e não é por nada, não é à toa que nós viemos pra cá, pra esse mundo. Existe um mundo é... É... Com pessoas diferentes em cada lugar, há horas e horas de distância, ou dias e dias de distância, que nós temos comunicação, tem um aparelho que o homem inventou pra se comunicar um com o outro, tem televisão que você vê várias partes do mundo. Poxa, vamos aproveitar isso, vamos viver, porque essa ignorância toda da humanidade de fazer guerra, de roubar, matar, eu sei que... Se hoje eu estou aqui, fui um campeão do mundo, eu tive um apoio do meu pai, da minha mãe, da minha família, dos amigos que torciam por mim, então hoje eu fui um campeão do mundo, ganhei dinheiro com isso, hoje eu sou um vereador, estou ganhando dinheiro com isso e estou fazendo minha parte, tô tentando ajudar também ao povo, ah... A humanidade. Eu acho que se o homem se conscientizar que veio de algum lugar, e precisa fazer alguma coisa para o próximo, não é dando esmola... Só dando esmola não, mas batendo um papo com o amigo, conversando. Bom, eu não sou nenhum reitor, não sou nenhum professor, não sou nem um Buda, nem ninguém assim para ficar dando conselho, certo? Mas eu acho... Eu gosto de todo mundo, enquanto não provarem o contrário... Se eu for brincar com uma pessoa, e essa pessoa sair fora e tal, tudo bem eu brinco com outro, eu brinco com outro, com outro, mas eu quero brincar com todo mundo, nós somos seres humanos, nós estamos aqui de passagem. Pessoa, você que está me vendo, vocês que tão me vendo, nós estamos aqui de passagem! Se a gente não viver bem com o nosso semelhante, vamos viver bem com quem? Com os bichinhos? Ou... Também temos que viver muito bem com todos os bichinhos, mas como o ser humano que se comunica, que fala, que ouve e que capta essas coisas todas. Agora, vem cá. Quer vê uma coisa que eu fico muito zangado também, que eu fico assim chateado: é de ver madames criando não sei quantos é... É... Cachorros e... E... Não cuida de uma criança. Ou pessoas cuidando de vários animais, de cavalo e tal. Pô... Tem esses cavalos todos pra poder ganhar dinheiro, não sou contra, mas olha... O mundo, pôxa vida, principalmente aqui no Brasil, quantas crianças estão abandonadas aí, né?

 

P - Você gostaria de acrescentar mais alguma coisa, Éder, nesse depoimento?

 

R - Ó, de momento não sei o que eu poderia acrescentar. Eu acho que eu extravasei, falei algumas bobagens ou alguma coisa certa. Desculpem se eu, se eu falei alguma coisa aí que ofendeu. Mas eu sou eu, eu sou assim, eu gostaria que muitas pessoas fossem assim como eu, no sentido de relacionamento. Eu posso hoje, ou daqui há dez anos, encontrar com vocês na rua, vocês vão me ver, eu vou procurar ser a mesma coisa: “Oi, tudo bem?” “Oi como é, tudo bem, legal? Oi, sabe?” Meu jeito, eu sei que ninguém é igual ao outro, “Né não”? Mas se procurar, pelo menos, no mínimo essa molecada aí que tá... Que está sentada aí assistindo a gente e tudo, tenha educação, educação, meu Deus do céu, não custa você falar bom dia, boa tarde, boa noite, é muito? Por favor, pelo menos uma vez um muito obrigado, ta? É isso que eu queria falar, está bom?

 

P- Ah... Só antes de terminar. Dá pra você falar um pouco mais como é que o clube, o São Paulo Futebol Clube, entrou na sua vida.

 

R- Ah, o São Paulo. Você já me perguntou duas vezes, eu “tô sonado”. Sabe o que é... Muito soco na cabeça. (Risos) É nada. O São Paulo entrou na minha vida, bom, claro, por intermédio do meu pai. Ele tinha a academia dele e... É o... Fez um acordo, um contrato com São Paulo, onde o clube pagava a metade do aluguel do São Paulo lá da academia, do local, né, do ginásio, e dava o material, as luvas, o saco de areia, o pushing ball, todo o material necessário para uma academia, e em contrapartida meu pai podia ah... Ah... Fazer profissionais, os amadores, ele transformava os amadores em profissionais, e recebia uma parte de 20%, se eu não me engano da bolsa desse pugilista que ele, que ele acompanhou durante oito, dez, seis anos, coisa que o valha, e... Era isso, então o São Paulo... Eu fazia questão de ser são-paulino pelo meu pai, e acabei amando, gostando deste clube que hoje é um dos clubes, um dos primeiros clubes ou que tem seu ginásio próprio, tem o estádio próprio, é... E ajudam muitas pessoas também. Nesse clube temos muitos atletas, os melhores, um dos melhores atletas está lá no São Paulo, tivemos o Adhemar Ferreira da Silva que ganhou o salto triplo em duas oportunidades e outros mais que não me lembro. Mas jogadores de futebol então, centenas deles né, que é... Lutaram pelo São Paulo, conseguiram campeonatos, e eu sou são-paulino, até a morte, eu sou são-paulino, o São Paulo é um clube de amizade, de amigos, dizem que é pó-de-arroz, pó-de-arroz por quê? Porque o... O camarada que freqüenta o São Paulo é... É um trabalhador, pode pagar sua mensalidade lá no clube, isso aí não é ser pó-de-arroz, não né? É porque ama o São Paulo, essas coisa a gente aprendeu a gostar e não vai esquecer mais.

 

P- Você... Para terminar: você gostou de dar seu depoimento? Você achou importante?

 

R- Então, não sei por que... Vocês estão me entrevistando, me deixaram a vontade e eu estou falando do meu clube, o São Paulo que é... É... Se eu fui campeão do mundo em duas oportunidades, se hoje eu sou reconhecido na rua, se hoje eu estou aqui dando este depoimento, foi porque eu iniciei no São Paulo com um homem chamado Kid Jofre, o melhor dos técnicos de boxe. É... Do Brasil.

 

P- Muito obrigada.

 

R- Obrigado eu.

 

P- Vamos falar, falta ainda uma pergunta. Vamos saber qual é o seu grande sonho. Você já realizou tantos sonhos... Desde o menino que queria ser o Robin. Você ainda tem um sonho não realizado que você gostaria de realizar?

 

R- Eu? Eu atualmente, com toda sinceridade, não sei dizer qual seria meu sonho. Se a gente perder o sonho, se a gente não sonhar com alguma coisa na vida, é melhor morrer. Então meu sonho quando moleque era... Era ser jogador de futebol, não fui, mas fui lutador de boxe, esportista e duas vezes campeão do mundo. E um sonho agora como gente, como homem já adulto, pai de filho e tudo, não sei honestamente o que eu poderia sonhar a não ser dar um pouco daquilo que eu ganhei do meu pai, ou seja, que gostava de criança, que amava as crianças... Agora eu estando num cargo público como vereador, talvez essa seria a hora de fazer com que fosse aprovado esse meu projeto, onde viesse, que vem a... Ajudar e beneficiar essas crianças abandonadas, que estão por aí. Talvez esse seria meu último sonho, embora repita, hein? A gente não tem que ter o último, sempre tem que ter alguma coisa a mais pra gente continuar vivendo, porque se você não tiver sonho, não almejar alguma coisa a mais pra gente continuar vivendo... Porque se você não tiver sonho, não almejar alguma coisa na vida, então aí é melhor morrer, né?

 

P- Muito obrigada, obrigado.

 

R- Merci beaucoup.

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