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O melhor negócio da vida

História de: Udde Rimoli
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 10/06/2005

Sinopse

Em seu relato, Udde Rimoli relembra seus tempos de infância e juventude, fala sobre as dificuldades de conseguir trabalhar e estudar na época, recorda seus tempos de barbeiro e escriturário. Também revive o momento em que conheceu sua esposa, o que ele considerou como “o melhor négocio da vida”.

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História completa

 

P - Qual é o seu nome, quando o senhor nasceu e o lugar onde o senhor nasceu? 


R - Meu nome é Udde Rimoli, nasci em Mococa, estado de São Paulo, no dia primeiro de janeiro de 1921. 

P - O nome dos seus pais e o local de nascimento dos seus pais? 

R - Vicente Rimoli Neto. Não, onde tiver Neto corta. É Vicente Rimoli só, se tiver é meu filho Vicente Rimoli. A minha mãe, Ernestina (Maguldi?) Rimoli. O meu pai é nascido em Mococa e a minha mãe nascida na cidade de Diamante, na Itália. 

P - O nome e o local de nascimento dos seus avós? 

R - Os dois, paterno e materno? Paterno que eu tenho é Domingos Rimoli, o avô paterno, e a avó Ana Maria Rimoli. Nascidos em Bari, Itália. Agora, do outro não sei. Só sei o nome da avó e bisavó, né? 

P - O senhor poderia contar um pouco como era a sua família? Quantos irmãos o senhor tinha? Como vocês moravam? 

R - Posso. A minha família é uma família simples, nós éramos, não, nós somos ainda em sete irmãos. Morávamos em Mococa, eu morei em Mococa até os meus 14 anos. Depois com falta de serviço, uma coisa e outra eu vim pra São Paulo aonde eu pretendia também trabalhar e estudar, né? Mas, infelizmente, eu fui só começar a estudar um pouco tarde porque o meu trabalho não me dava vaga pra, mesmo sendo à noite eu não tinha condição de... 

P - O senhor trabalhava em que? 

R - Nessa ocasião eu trabalhava de barbeiro. Nessa ocasião. 

P - Qual a idade do senhor? 

R - Eu vou fazer 72 agora no dia primeiro de janeiro. 

P - Na época que senhor trabalhava de barbeiro e não estudava, o senhor tinha quantos anos? 

R - Ah, nessa época? Eu tinha 14 anos. Porque eu vim pra São Paulo com esse propósito, de trabalhar e estudar à noite, como todos fazem. A maioria da classe média faz isso, né? Mas eu fui muito infeliz porque tive trabalho demais que me roubava a oportunidade de frequentar aulas. Podia frequentar aula uma semana, outra semana chegava muito tarde, sabe? Parou. Aí, quando eu estava completando os meus dezoito anos, o meu pai veio do interior pra cá porque as cartas que eu escrevia pra ele eram de lamentar, viu? O português era... E ele, percebendo, veio pra cá e, daí, ele falou: “Vamos aproveitar desses quatro, cinco anos, ao menos um ano né?.” Que foi o ano que eu fiz Tiro de Guerra. Depois de ter feito Tiro de Guerra, mesmo na duração do Tiro de Guerra, eu arranjei um emprego. Um emprego bom. Mesmo barbeiro e, estava me dando condições de viver e de estudar sem depender do meu pai pra nada. Pelo contrário, a gente até ajudava, né? Mas, infelizmente, o sogro do dono do salão era fazendeiro, ele achou que o genro ganharia muito mais se abrisse uma leiteria, leiteria acompanhada de sorveteria, coisa e tal. Uma lanchonete vai. E ele fez isso. Então, eu fiquei na rua da amargura. Não tinha mais emprego, né? E, lá pra arranjar emprego era difícil, né? Aí quando eu estava vendo que não estava me acertando muito eu falei com meu pai e minha mãe: “Eu vou voltar pra lá agora, vou pegar um lugar onde se trabalha só até às sete horas...” Aí, sete e meia começavam as aulas na Escola de Comércio e eu poderia então estudar. E, assim foi feito. Vim pra São Paulo, me hospedei na Rua Silva Teles, na casa desse rapaz que eu tinha vindo com ele pra cá, que era o chefe do salão. Mas como as vagas estavam ocupadas ele falou: “Eu não posso mandar um embora para te empregar”. Eu falei “Não, mas eu me emprego, eu vou arranjar um lugar onde eu trabalhe só até as sete horas”. E fui muito feliz, arranjei ali na Avenida Celso Garcia, era 1398 o número, agora não existe mais, né? E, o dono do salão me disse: “Eu exijo que vocês entrem às oito e quinze”. Porque ás oito e meia abria o salão. Entrar às oito e quinze pra preparar as ferramentas, deixar todo o negócio em ordem para quando o freguês chegasse já fosse direto, não ficasse esperando limpeza, nada, né? E assim foi. Nesse tempo eu já aproveitei e encontrei um senhor lá também que queria procurar uma escola e juntamos e fomos ali na - era perto da Avenida Celso Garcia - Escola de Comércio Barão de Mauá. Me parece que hoje já não existe mais. Eram 11 irmãos que tinham essa escola. Eles eram fazendeiros no interior e como eles tinham que fazer a saca, preparar o café, ensacar o café e levar o café no porto de Santos pra ganhar 60 mil réis, mil réis naquele tempo, né? Eles então falaram... Todos eles eram de nível superior, então eles falaram: “Então, vamos lá, vamos abrir uma escola”. Porque eles eram patriotas pra chuchu, né? “Montamos uma escola e vamos na medida do tempo entrosando tudo na escola. Entrosando diversos cursos, né?” E foi. Fui, fiz a matrícula, naquele tempo tinha o bendito exame de admissão, né? Fiz o admissão e continuei. Estava felizmente fazendo um curso bom. Aí, eu conheci a minha mulher. 

P - O senhor conheceu ela onde? 

R - Conheci lá no (Corinthians?), nós estávamos numa domingueira dançante, conheci lá. E, trabalhando eu já estava nessas alturas fazendo o segundo ano de comércio. Eu tinha um professor lá, todos eles eram bons, mas este se destacava mais porque ele era médico. Eu não sei o amigo a idade que ele tem, Hilário ______ ele chamava, chamava ou chama, não sei, né? Ele pediu, reuniu aqueles alunos mais adultos e ofereceu, se quisesse receber um curso de português todo dia, das onze ao meio dia, ou, se cansava muito, Segunda, Quarta e Sexta. As aulas terminavam às dez para as onze, a gente ia tomar um cafezinho e voltava. Aquilo me valeu muito, viu? Me valeu muito. Que aí, em determinado tempo já do namoro o irmão dela era gerente numa fábrica de calçados, borracha, ali na Rua Tuiuti, chamava (Superba?). Ele me falou: “Você está apto para vim trabalhar? Porque nós estamos precisando de uma pessoa”. Então, eu fui para começar a fazer arquivo, serviço de banco e sempre com os olhos abertos nos colegas pra ver... E a escola me ensinando, então, já foi entrosando tudo, né? Aí, precisamente em oito de abril de1944, eu me casei. 

P - Como foi o seu casamento? 

R - Foi o melhor negócio que eu fiz na minha vida, viu? Eu adoro a minha mulher, né? E ela não se faz de rogada também. Agora em abril vai fazer 49 anos que eu me casei. 

P - Foi a primeira namorada? 

R - Não, primeira, não. Mas foi aquela que deu o estalo na gente, né? 

P - Como foi o encontro? 

R - Eu entrei no salão, o (Corinthians?) tinha naquele tempo um salão lá, agora onde tem o estádio, é o ... Estava ela, uma amiga dela e uma sobrinha pequena. Eu entrei na porta, mostrei minha carteira e fui mas conforme eu entrei eu vi dois olhos ali que me seguiam, né? Daí eu olhei pra trás, sorri, uma coisa e outra e fui convidar ela para dançar. Ela veio, começou a dançar, coisa e tal. Eu queria entrar com a conversa, mas estava sem jeito, “Como é que eu vou fazer?”. Aí, tocaram um tango, foi na base do tango. O tango eu não me esqueço, viu? Era “Quero ver te una vez más”. A Marta que cantava, era o tango da época. 

P - O senhor poderia cantar um pouquinho? 

R - Não dá pra cantar não. E assim foi. Ficamos namorando. Eu estudava, era só no fim de semana. Às vezes quando era aula de francês e de inglês, nós tínhamos um professor que chamava Fausto ________ ele dizia que o aluno que era bom de português e de matemática ele não reprovava nem em inglês, nem em francês. Aí, a gente se acertou, né? Terça e quinta era aula de francês e inglês. Nós tínhamos três aulas, francês e inglês e história da civilização. Aquelas aulas bacanas e eu não gostava de jeito nenhum. E, eu não frequentava, né? Terça e quinta dava uma namorada. Mas foi tudo bem. O tempo foi passando e o chefe do escritório, o gerente do escritório lá da firma, prometeu, porque ele ia substituir uma pessoa lá, a pessoa, coitada era doente, e não tinha aquela destreza que a gente tinha. Eu estava no esplendor dos 21, 22 anos e fiz todo o serviço dele. Ele terminava todo dia sete ou no dia oito. Eu, já no dia dois, dava o serviço prontinho. E, nessa altura, enquanto eu estava substituindo, o gerente do escritório me disse: “Olha, assim que ele voltar, eu não digo que você vai passar a ganhar o ordenado que ele está ganhando, mas uns 200 mil réis a menos, por aí. Mas vamos te dar uma boa melhorada”. Eu me casei, né? Me casei, né? Olha, minha filha, passou o mês de abril, maio, junho, julho, agosto e o homem não se manifestava, o homem não se manifestava. Então eu falei: “Quer saber?”. Passado, quando foi em novembro, nunca me esqueço, no dia 22 de novembro, eu tenho um irmão que trabalhava na Antártica. Felizmente ainda está vivo, meu irmão mais velho, ele foi lá na saída da escola pra bater um papinho, porque fazia tempo que a gente não encontrava e perguntou: “Ô mano, você não quer vir trabalhar na Antártica?”. Então, eu contei o que tinha acontecido lá. “Vem. Você ganha um ordenado melhor, firma boa, firma grande”. Então, eu fui. Pedi uma licença no outro emprego e fui fazer um teste lá na Antártica. Felizmente fiz um excelente teste, né? Porque eu mexia com essas seguradoras, enfim, eu nunca me esqueço ______________ tinha que ir na Praça da Sé. E a firma trabalhava com a __________ negócio de seguros, né? Aí, caiu em descrever um incêndio na fábrica e fazer os detalhes, as providências como foram tomadas, como foi, como não foi. Eu estava mais ou menos dentro daquilo dali. Aquilo foi um prova, botei o papel na máquina prrrrr, pá, acabou. Aí, eles me deram quatro problemas de regra de três composta. E deram um prazo de uma hora. Aquilo lá você não fazia em uma hora mas nem com reza forte. Mas uns dias antes, na escola, o professor havia ensinado. Nós já estávamos estudando a matemática na parte de regra de três simples e composta e ele me deu quatro problemas de regra de três composta. O professor de matemática tinha dado umas aulas antes, na semana inteira, simplificando a raiz,... Como é que diz? De onde você tinha que deduzir. Eu estou com o nome e não estou me lembrando. Então, ele ensinou aquilo ali simplificando. Você ia na chave, você ia simplificando ali mas não podia dar algo errado se não embolava o meio de campo, né? E ele deu uma hora pra você fazer isso, já na escola. Como eu estava com aquilo fresquinho na cabeça, então fui fazendo. Aquilo que ele tinha dado uma hora eu fiz em quarenta minutos, mas fiz em quarenta minutos. Quarenta minutos, mais ou menos, era o tempo pra você desmembrar uma só, porque era coisa comprida, então eu chamei o rapaz: “Já está pronto”. “Está pronto nada, isso aí demora”. “Está pronto, está aqui o resultado”. Quer dizer, eu desmembrei as contas que não davam, né? A gente simplificava a chave e ficava uma continha só pra você fazer no fim. Hoje eu não sei te explicar como é, isso foi há tantos anos, 1944, Meu Deus, 45. Aí, ele começou. O meu irmão era funcionário do setor de pessoal, mas ele estava lá no fundo e eu estava aqui na sala aonde fazíamos os testes. Aí, o gerente do pessoal passou e perguntou: “O que que está acontecendo aqui?” “Esse rapaz...” Acho que o cara tinha de pequeno tinha de ruim, viu? Ele não queria ver ninguém bem. “Eu fiz a conta sim”. Contei o caso pra ele. Ele falou: “E qual é o problema?”. “Não, não, foi o irmão dele que ensinou lá do fundo”. Mas ele não tinha onde saí, né? Ele não tinha muito entrosamento com o meu irmão. Então eu segui também ele não tendo muito entrosamento comigo, né? Bom, aí foi feito. Eu disse: “Então me dá mais um pra eu fazer. E vocês ficam aqui na frente”. Então ele deu. Ele sabia porque já estava tudo pronto no papel, né? Eu fiz, desmembrei, tal e fiz. Não demorou quinze minutos. E nunca me esqueço o resultado: 13 metros e 70 centímetros. Isso eu não esqueci mais. Aí, houve outro que percebia que o homem era dureza, invejoso, coitado, tinha tudo com ele, então, ele me chamou: “Você pode começar a trabalhar amanhã?” Eu falei: “Não, eu tenho...” Vou pedir - era 23 de novembro de 44- vou pedir, escrevi uma carta pedindo demissão. Aí veio o gerente lá falar comigo. Nessas alturas o chefe da fábrica já era meu cunhado porque eu já estava casado, né? Então eu entreguei a carta para o gerente, “Ô, não sei o que, tal, vou chamar o seu Paulo.” Chamou. “A vida é dele.” Ele já estava sabendo porque ele me colocou e eu tinha que dar satisfação pra ele né? “O que que eu vou fazer? Se ele achou coisa melhor que se vá.” Ele falava até em italiano. Assim foi até que eu vim para a Antártica. Entrei no dia primeiro de dezembro de 1944, na Antártica. 

P - Seu Udde o senhor trabalhou... 

R - Diga uma coisa bem, quando eu estiver demais, você fala que nós paramos. 

P - Não, tudo bem. É que o senhor trabalhou como barbeiro, né? O senhor poderia me contar como eram os cortes na época? 

R - Eu peguei uma parte que pegou tudo, né? Eu, modéstia à parte trabalhava bem em cabelos de senhoras, viu? E aquele tempo tinha, nós tínhamos lá nos Estados Unidos a (Gean Gran?), não sei se vocês... É (Granford?) que fala, né? (Gean Granford?) era o nome, né? Era um cabelo que você começava aqui e ia descendo. Ficava bonito, viu? E ia descendo. Peguei o tempo da ____________, no Osvaldo eu peguei o tempo do cabelo americano. Cabelo americano raspava até aqui e ficava igual a esse rapaz da novela. Vocês não assistem novela? Esse da novela das oito. Ele tem tudo raspado atrás, é gótico né? Principalmente aqueles que praticavam esporte eles queriam o cabelo sempre daquele jeitinho, né? 

P - O senhor aprendeu com quem? 

R - Lá em Mococa tinha um rapaz, mas o rapaz era bonito, desculpa eu falar bonito, homem achar bonito, mas o cara era. Mas era um pouquinho retardado, coitado. As moças às vezes brincavam com ele e ele achava que estava abafando. Mas não foi nunca um moço de ser descortês. Aquele era um exemplo de vida, o rapaz, viu? Ele era muito vaidoso, então eu falava “Ô Bastião, vem fazer a barba. Eu te faço de graça.” E ,assim, coitado, ele foi a minha cobaia. 

P - Como era a sua infância lá em Mococa? As brincadeiras? O que vocês faziam lá, o que vocês aprontavam? 

R - Muita coisa, viu? A coisa de moleque a gente pode contar mesmo porque sempre dava um pouquinho pesado, né? Foi uma infância... Eu passei uma infância dura, viu? Dura porque a minha mãe, coitada, ela tinha problema de coração e varizes também, e quando ela estava grávida da minha irmã, a caçula, naquele tempo o fogão era à lenha, né? Não sei se vocês alcançaram, vocês são muito broto. Ela foi passar perto, tinha a lenha que o fogão era, punha dois três pedaços de lenha, acendia pra, tinha quatro buracos em cima do fogão, esquentava até no fundo e se fazia a comida ali, né? Mas ela, infelizmente, coitada, foi passar perto, tinha uma lasca da madeira e pegou uma veia dela. Isso cada vez que eu penso, dói até o coração. Deu aquela lasca, a veia arrebentou, ela precisou de ficar em cima de uma cama, de lado, não podia ficar em cima daquele lado e estava de seis meses da minha irmã. Olha, minha filha, vou dizer uma coisa, o que ela sofreu... Mas tinha uma coisa, o vizinho daqui e o vizinho dali não sabiam o que se passava com ela porque ela nunca reclamou nada com ninguém. Tudo pra ela era bonito. Dificuldades, tudo que se apresentava. Pra nós, foi um exemplo de vida, né? Porque depois tinha, ela tinha... Porque o que precisava de entrar na escola falava “Mãe, escola pra que? Não sei o que...” Naquele tempo, os carros de lixo eram um cumbuco e tinha o coitado que ia carregando o ____, né? Era o serviço dele, mas. Então ela falou assim: “Se você não estudar você vai acabar daquele jeito”. Mas ela tinha umas também. A gente quando... Estou fugindo do assunto ou não? Ela tinha uma coisa, ela pra dar um conselho pra uma pessoa que estava mais ou menos desorientada, eu vou dizer uma coisa, até a voz dela era gostosa, viu? Dava gosto de se ouvir. Às vezes ela falava um pouquinho italianado, mas dava pra entender. E a gente não sabe um pouquinho de italiano agora porque fomos bobos naquela época, né? Porque ela falava em italiano eu falava: “Não, fala em português.” Mas você vê alemães, inglês, o filho está no Brasil mas eles falam inglês ou em francês, qualquer coisa, né? 

P - Quando ela ficou doente ela teve assistência de algum médico? 

R - Tinha médico. A gente era de família modesta, mas era conhecido na cidade inteira. 

P - Como era o bairro? 

R - É a cidade, né? O bairro era uma coisinha pequena. A cidade tem três ruas que atravessam da estação e vai até o outro ponto da cidade, no tempo que eu morava. Agora está tudo transformado porque a cidade foi asfaltada, foi calçada tudo. Tem uma rede de esgoto espetacular, você não vê enchente não vê nada na rua, água empoçada na rua. Tudo bem feitinho, bem conservado. E aí, quando ela teve a minha irmã, nessas alturas, parece que eu tinha sete pra oito anos, mas ela da cama, da cama, ela cantava pra nós, se fosse comer feijão e arroz: “Punha aquela xícara, lava bem, põe tanto de água, põe cebola, põe o alho, tal, frita e tira porque o seu pai não gosta de ver isso na coisa, né?” E a gente fazia. E a minha irmã que é dois anos mais nova que eu. E da cama ela cantava o que que a gente tinha que fazer. Olha, nós fazíamos um arroz e feijão, que vou te contar, viu? Gostoso mesmo. E uma misturinha, uma coisa e outra. Depois que ela se levantou coitada, ela precisava se levantar, ela pegava uma cadeira, punha o joelho da perna, aquela perna que tinha de ficar assim, ela puxava a cadeira, que nem uma muleta, a cadeira era a muleta dela. Mas olha, eu vou lhe dizer uma coisa, eu falo até embargado, mas tem duas pessoas na vida, não desfazendo das demais, duas pessoas na vida, se eu voltasse pra cá, eu queria voltar filho da minha mãe e marido da minha mulher. Eu acho que eu me completava. 

P - O senhor queria falar um pouquinho do seu pai? Em que ele trabalhava, como ele era? 

R - O meu pai ele tinha uma pequena fábrica de calçados lá, quando eu era pequeno. A gente fala que era pequena a fábrica, mas tinha seis oficiais que trabalhavam com ele e ele era especialista. Não sei se vocês já ouviram falar, o sapato Luís XV de mulher, tem um salto deste tamanho. Ele era, nisso daí ele dominava. Naquela ocasião gente aqui de São Paulo, moças, conhecidas, iam lá pra levar pra ele fazer o sapato pra elas. Aí, depois o tempo foi passando ele precisou de vender a sapataria porque prometeram pra ele um negócio em Muzambinho, estado de Minas. É uma cidade perto de Mococa, acho que uma hora, uma hora e meia depois. E ele foi pra armar uma confeitaria, um _________ uma coisa assim, né? Mas a política virou na cidade. Então, aquilo que... Muzambinho é uma cidade que tem uma Igreja aqui depois tem, não sei se está hoje assim, um tremendo de uma praça bem larga, casas de lá, casas de cá e lá no fundo tinha o prédio do ginásio, que ficava até em cima da rua que ia pra outros lugares ali da praça, né? E, ele foi pra lá, a política virou e ele ficou sem freguês nenhum, não dava. Nós fomos aí obrigados a voltar pra Mococa. Nessas alturas, eu já estava com sete anos, por aí. Aí, minha filha, foi uma luta desgraçada, você já viu. Enquanto tinha o negócio foi bem, algum dinheirinho que sobrou, tal, o negócio foi indo bem. Mas depois começou a vir as doenças e o negócio foi piorando. Mas eu não me queixo não, viu? Eu só me queixo de não ter aproveitado mais da minha mãe. A minha mãe tinha uma... Quando uma pessoa estava implicando com você, eu tive morando aqui em São Paulo, quando eu fui fazer Tiro de Guerra. Eu estava um esqueleto, porque eu via a mãe do rapaz que veio pra cá, eu não sei, se você melhorasse em alguma coisa a mulher achava ruim “Coitadinho do meu filho não tem, coitadinho do meu filho não tem.” Você ouve, ouve amanhã, vê depois, tal, você vai se atrofiando. E aquele era o tempo que você chamava de senhora uma pessoa que tivesse dois ou três anos mais velho do que você, você tratava ela com um respeito maravilhoso, viu? Então, eu não podia responder pra mulher. Depois que eu fui pra lá, minha mãe me olhou e disse: “Filho, mas o quê que você tem? O que se passava com você?” Eu falei assim: “Olha mãe, o negócio era muito bom, mas quando ela me vê fazer qualquer coisa assim que o filho não possa fazer ela me azucrina”. “Então, eu vou te dar um conselho. Quantos buracos nós temos?” “Dois, um de cada lado.” “Pois é, um de cada lado, entra por aqui, se te servir você fecha aqui, e se não servir você deixa sair por aqui.” Olha, benditas palavras, viu? Ela era uma mulher que eu não sei, a cultura dela, ela veio da Itália e tal, né? Mas dizem que conselho não se dá pra ninguém, mas ela dava um conselho. Com aquela voz gostosa que ela tinha e tudo ela dominava a pessoa, dominava. Ah, o negócio do meu pai 

P - Tudo bem. 

R - A gente vai e volta, né? Então ele foi pra lá. Aí, arranjou um emprego numa firma aqui em São Paulo chamada Fonte Luz e ofereceram pra ele uma vaga de venda, né? Só que tinha que ele tinha que viajar. Ele falou assim: “Entre viajar e passar apertado eu vou viajar porque...” Mas depois o tempo passou, foi passando e ele teve um médico lá, Dr. Sílvio de Almeida Toledo, um cara boníssimo, então ele falou para o meu pai: “Olha Vicente...” Nem Vicente, o meu pai tinha o apelido de (Tché-Tché?) “Olha (Tché-Tché?), se eu for eleito prefeito, você vai pra prefeitura comigo.” E o homem foi eleito. Aí, meu pai trabalhou muito pra ele. No outro dia que confirmaram a eleição dele ela falou: “Olha, pode ir que você já está com serviço garantido”. As minhas irmãs tiveram mais sorte do que a gente, né? As três são professoras. Não é um ofício, mas confrontando comigo e com meus outros três irmãos. Mas eles... Sempre lutamos muito, mas nunca deixamos de ser honestos e nunca fomos egoístas e nem cobiçamos as coisas dos outros. Deus dá, aceitamos. 

P - Seu Udde, o senhor poderia me contar um pouco alguma coisa engraçada? Alguma brincadeira, festas que a família participava? 

R - Lá de Mococa, me lembro quando eu estava fazendo Tiro de Guerra, eu namorava uma moça chamada Rosita. Era moleque. Ela tinha 16, 17 e eu tinha os meus 18, Eu estava fazendo o tiro. E lá passou o filme “Maria Antonieta” e não me deu jeito de ir no Domingo. Então, eles reprisaram na segunda-feira, mas na segunda-feira eu tinha aula no Tiro de Guerra, então, eu fui: “Vou dar um bico no sargento lá, vou ver se ele me dispensa, tal.” Aí o sargento falou: “Estão todos?”. “Estão todos.” Levantou e falou: “Quem sabe cantar o hino nacional inteiro?”. O bobão aqui levantou, né? Ninguém levantou. E olha, naquele tempo agente trazia nos cadernos da escola, você tinha o hino nacional, o hino à bandeira. Não se hoje se você isso. Em todos os cadernos tinha. Tinha o caderno do hino, de linguagem de caligrafia, tinha o hino à bandeira, o hino nacional e tinha um hino também lá da, quando você se despedia da escola, você completava o quarto ano, aquele hino você não ia até na metade porque você se embargava de todo, né? Ficava completamente embargado. Era o hino da despedida da escola, do grupo, né? Que coisa linda, viu? Então eles falavam: “Adeus ao templo, sorrindo...” Uma coisa assim, a letra dele. Depois você está pensando que não vai ficar mais ali, aquela garotada toda que você teve amizade, brincou, brigou, fez mil e uma coisas, né? E... Agora eu vou chegar lá. Eu vou te contar, você pediu pra eu contar um caso eu vou contar. Então, essa moça, a gente sempre encontrava, porque eu saía do grupo ao meio dia e entrava ao meio dia e meio, então, a gente encontrava na rua, batia um papinho e tal, se sentia satisfeito, ela e eu, tal, e ia embora. Então, quando passou essa Maria Antonieta que eu estava falando, o sargento falou no hino nacional e eu levantei. A minha sorte é que ele falou: “Você está dispensado pra hoje”. Mas eu não sabia. Eu sabia cantar o hino, mas inteirinho da silva, não dava, né? Então ele ficou com o pessoal até às onze horas da noite pra eles aprenderem a cantar o hino nacional e eu fui para o cinema. Agora, quando eu cheguei no cinema já tinha começado. Eles passavam sempre um filme natural pra depois entrar no filme que eles iam exibir, né? E, eu entrei, o cinema estava cheio. Então, olhei pra frente e não vi, vi uma vaga, mas já que a pessoa estava assim, conversando com a outra, eu olhei do meu lado e tal vi e pá centei no colo da mulher. Sabe quem era a mulher? Era a mãe da Rosita Putz (risos). Acabou o namoro. Mas eu cheguei quase até a ajoelhar pedindo desculpas pra mulher. Estava no escuro 

P - E o que ela falou? 

R - “Não, não tem nada. Está no escuro, não sei o que .” Mas a mulher levou um susto aparece aquele trambolho em cima dela. 

P - Seu Udde, como era a educação dos meninos e das meninas? Qual era a diferença, como era? 

R - Aquele tempo também não existia bobo, ninguém era bobo. Se a oportunidade viesse a pessoa aproveitava, mas eu acho... Eu sou muito sentimental, eu sou muito cheio de romance no coração e na cabeça viu? E, a educação, eu me lembro muito bem, você não conseguia entrar no meio da conversa da sua mãe, só se eles te chamassem, ou do seu pai com um amigo, com um tio, qualquer coisa. Você respeitava se te chamavam atenção, você abaixava a cabeça, mesmo estando certo ou errado, você deixava passar. Você não respondia, não respondia. Porque se você respondesse quando chegasse em casa você ganhava no bicho mesmo. Você apanhava mesmo, viu? E é isso que eu sinto. Está certo, tem que ter o progresso, né? O progresso é indispensável. Aí, não tanto como agora, o meu neto me chama: “Ô, vô, você, não sei o que, tal e coisa”. Bom, a gente acha graça porque é neto da gente, né? É neto, a gente adora mesmo os bacuris lá, né? Mas o que eu sinto é essa parte de respeito. Não tinha. Hoje, tem. Não é de um modo geral, mas o negócio está muito à vista, né? Muito à vista. Você vê uma mocinha prestar uma... Programa de pergunta. Tem um, acho que é no canal quatro, às cinco horas da tarde. A gente está aposentado, de vez em quando vai ver qualquer coisa pra passar, né? Olha, só mocinha de 13, 14, 15 anos, falam sobre o sexo como se sexo fosse comer uma colherzinha de arroz e feijão. Não, não é mentira não. A gente fica com vergonha. Com vergonha. Eu sou daqueles: cada um vive a vida que quer viver, não me meto na vida de ninguém. Eu sou daqueles que ao invés de me indispor com uma pessoa eu vou entrosar com a pessoa porque eu prefiro ter uma amizade a mais do que um inimigo a mais também porque você não sabe quem te quer e quem não te quer bem. 

P - O senhor poderia me contar quais eram as brincadeiras prediletas? 

R - A base era o futebol. Futebol de bola de meia. A gente dava uma mancada no grupo e ia num rio lá que chamava A Volta, que o rio fazia assim, fazia e faz até hoje, e nós íamos nadar. E uma vez o meu pai foi lá e me tirou a roupa. Você já pensou? Mas ele fez mesmo... Ele não ia me deixar. Eu também não ia voltar de traje de Adão, né? Mas ele tirou mesmo. E sabe? 

P - Por que ele tirou? 

R - Não fomos no Grupo. Já chegamos fomos para o rio e ficamos nadando. Todo erro tem uma coisa que projeta, né? A gente ia descalço, o pé limpinho, limpinho. Ele olhava meu pé: “O pé desse menino...” No outro dia o meu pai... Deram, os compadres deram: “Cuidado com seu menino que ele não está indo na escola”. Ele não me bateu, só fez aquilo. Depois de uma, duas horas o meu irmão foi me levar a roupa. Ele falou “Hoje eu deixei, não faça outra vez porque eu não vou te levar mais. Você tem de vir assim pra casa”. Uma vez também, 0quando estava de Grupo, essa época foi de herói. A companhia de força e luz estava arranjando os fios, montando mais, e eles descuidaram, um fio caiu no chão, mas ligado. Então, tinha um rapaz chamado Antônio Rapaso que era amigo meu, ele morava um pouco pra cima da minha casa, então, ele passava de casa e nós íamos juntos para o Grupo. Ele era da mesma classe. E quando viramos, um dia que nós viramos, vi a rua falei “Vamos virar aqui. Depois nós subimos aquela subida lá, nós vamos dar enfrente ao grupo.” “Então vamos.” Fomos. Cheguei lá estava um moleque gritando, ele pegou o fio e o fio caiu na mão, agora eu não podia pegar no fio, e eu falava: “Abre a mão, abre a mão” e ele não podia abrir a mão. Aí, peguei a régua pra tirar com a régua não saía. E esse rapaz também, falei: “Fica você de lá e eu de cá.” Ficamos batendo com a régua, né? E não havia meio. Então, dobramos a régua, quebramos nossa régua e começamos a bater até sair o fio. Coitado, queimou toda a mão do garoto. E fomos. Nesse dia chegamos tarde, né? O diretor veio saber porque que nós tínhamos chegado tarde. Aí, o homem, que devia ser o pai do garoto, estava procurando um médico pra ver a mão do garoto, e lá perto do grupo escolar tinha o médico. Então, ele passou no grupo e foi falar: “Olha, tem dois alunos aí que chegaram tarde...” Mostrou a mão do menino. “Pra eles não serem chamados a atenção por terem chegado tarde”. E, fomos chamados na diretoria, recebemos duas réguas, recebemos de presente, e o diretor da escola deu um incentivo pra quando a gente visse qualquer pessoa numa situação crítica a gente ser fraterno. Vamos ajudar um irmão nosso e tal, né? Agora deixa eu ver se tem mais alguma coisa. Essa é de safado, viu? A gente tinha o Cine Teatro Central, tem até hoje. Isso eu já era mocinho, estava fazendo o Tiro. Amigo a gente tinha, todo mundo era amigo da gente, né? Mas eu tinha sempre aqueles que a gente entrosava mais, então tinha um rapazinho chamado Mário Lauria, ele era meio metidinho a, não metidinho, caidinho, caidinho pra poesia, viu? Vira e mexe ele estava fazendo uma poesia. Então, passou o filme Frankstein. Nunca me esqueço foi no dia 31 de julho de não sei quando. Fizeram um anúncio tremendo daquela, propaganda tremenda, enfim. E chegou no dia 31 eu não tinha dinheiro, a minha mãe também não tinha pra me dar e a gente querendo assistir o filme, então, encontrei esse Mário. E, nós jogávamos bola ao cesto na Escola Profissional, era a quadra de areia ainda naquele tempo, né? Então, ele esteve um dia lá quadra, nós estávamos treinando, depois ele saiu e tinha uma casa encostado naquele muro, tinha o jardinzinho pra entrar, tal. Então, ele entrou com o intuito de ver o coisa do cinema que era muro baixo, dava pra gente pular e psss. Então, ele falou: “Udde, vamos no cinema?” “Ah, vai gozar outro”. “Não, não, vamos fazer o truque”. Aí ele contou a farra. “Vamos lá.” Eu estava louco pra assistir o filme. Então, nós subimos. Até o muro estava favorável a nós, ele tinha um tijolo assim, outro assim, escadinha. Fazia a escadinha pulava, estava lá no quintal do cinema, assistia o filme. Mas não tinha o danado do porteiro? Ele conhecia muito bem a gente, ele olhou e disse: “Vocês entraram por onde?”. Falei: “Pela porta”. “Mas eu não vi”. “Você estava dormindo.” Fomos embora. E assim... Até o dia que o rapaz pegou mesmo, aí não deu mais jeito. 

P - O senhor falou dos netos mas não falou quantos filhos o senhor tem. 

R - Três. Dois homens e uma moça, tudo na faixa dos quarenta já. 

P - Qual é a ocupação que o senhor tem hoje? 

R - Você entende alguma coisa de italiano? Não? Hoje ___________. Eu não tenho. Quando eu aposentei, o meu problema de vista ainda não tinha me atacado tanto, então, pra não ficar parado de tudo, eu comecei a procurar gente que queria se aposentar. Chefe de indústria... Que às vezes não tem o tempo, então ele me habilitava com os papéis eu preparava os papéis, dava entrada na aposentadoria e acompanhava até sair. E, assim fiz diversas vezes, mas a minha vista começou a regredir muito e o INPS também botou um alei lá que cada representante tinha direito de só um caso por vez. Agora, um caso demora cinco, seis meses, por muito bem que ele estivesse mastigado, prontinho, tá? Demorava. Porque eles faziam aqui, eles analisavam os papéis, como fazem até hoje, né? Analisavam os papéis e depois mandavam para o Rio para lá no Rio fazerem a conferência pra ver se estava certo e depois voltava pra São Paulo. Nesse tempo demorava muito, uns quatro cinco meses. Eu só deixei de fazer depois que a vista piorou e o INPS não se abria daquele jeito. Tinha muito representante. Agora, desse daí, eu tenho um caso, coitado do homem. O irmão dele era meu colega na Antártica. E, ele tinha dado os papéis dele pra um advogado e o advogado, naquele tempo, levou 20 mil cruzeiros dele, ficou com os papéis e ele não conseguia terminar a coisa. Então, ele foi lá “Você está muito encrencado larga aí”. Mas não devolveu o dinheiro para o homem. Então, esse irmão dele, que trabalhava na Antártica comigo, ele já estava aposentado ele me falou: “Você não quer dar uma chegadinha na Rua Ibitirama, tal, meu irmão...”. Quando eu cheguei lá e vi os papéis, os papéis estavam mastigadinhos, mas ele precisava de três certidões da Junta Comercial. Então, eu falei: “Me habilita com os papéis e esse tempo que o senhor ficou me dá”. Que dava cinco anos, né? Ele não queria aposentar com 30, ele queria aposentar com 35. Ele falou: “Eu paguei, o direito é meu”. Falei: “Está certo.” Então, ele me habilitou com os papéis. Das três certidões que ele precisava eu datilografei, uma separada da outra, encontrei o contador da firma lá do meu primo e ele falou: “Olha, você vai lá na Junta Comercial, desce no segundo subsolo, lá tem um rapaz, barbudo chamado Jorge, se isso daí estiver lá ele te arranja mas mostra o dinheirinho, né?” “Está certo.” Então eu fui pra lá. Eu falei pra ele : “Ele fuma?” “Fuma.” Então, comprei dois maços de cigarro e levei. Cheguei, desci e vi o cara lá “Ô, Jorge, dá uma chegada aqui, preciso falar um negócio com você”. Então eu fui. Já fui tirando o maço de cigarro do bolso e oferecendo cigarro pra ele. “Preciso comprar.” Eu falei: “Então você não compra que eu vou deixar de fumar mesmo, leva”. Já pra ir amaciando o rapaz, né? Ele falou: “O que que você quer?”. “Tem uma, duas e três certidões que eu preciso pra ontem, não preciso pra hoje, pra ontem, se não o INPS vai me devolver os papéis”. E aquele tempo tinha uma notinha de 500 branquinha. Você alcançou isso? Então eu falei: “Isso daqui é teu”. Pus no bolso de novo. “Entregar às quinze para o meio dia”. Meio dia e quinze ele me trouxe as três certidões. Então, fui no embalo. Já fui lá pra aposentadoria, ali no Glicério, né? E dei a entrada nos papéis dele. Nunca me esqueço isso daí. Essa ladainha começou mais ou menos em junho, julho e no dia oito de outubro ele me telefona. A moça lá do INPS, me telefona, que era proibido fazer mas a gente, como se diz na gíria, molha a mão e... É fogo, né? Então ela me disse: “Pode vir que aposentadoria do seu Arnaldo já chegou.” Saí de casa, fui, já peguei ________ dá aquele, o papel, que diz que você a partir de tal data está aposentado por tempo de serviço e percebendo a importância de tal, recebendo o benefício. Você paga depois quando você recebe é benefício, né? Recebendo o benefício e tal... Mas olha, me deu uma alegria porque ele falava: “O dia que eu for aposentado, chegar a ser aposentado, eu vou tomar um litro de uísque. Eu vou tomar até me esborrachar”. Fui pra casa, tudo, satisfeito, tá? Então, eu estava almoçando, eu falei pra minha mulher: “O caso do Arnaldo saiu.” “Graças à Deus que saiu.” Toca o telefone, era o irmão “Udde, vou te avisar, tem uma notícia chata, o Arnaldo teve um enfarte agora e acabou de falecer no São Cristóvão.” No dia que ele... Eu queria que ele morresse até de alegria de ver ele se aposentado.” Coitado, ele _________ de vez. Mais um, mais um, mais dois. 

P - Eu queria fazer uma pergunta, o senhor lê almanaque? 

R - Eu não posso ler nada mais agora, bem. 

P - Quando o senhor era moço?

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